O amor que partiu o mundo

Emily Henry · Capítulo 5 de 34

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O amor que partiu o mundo

Capítulo 5

5

 

PASSEI O FIM de semana inteiro catalogando as Alice Chan, sem nenhum resultado conclusivo. Quando chega a noite de domingo, ainda estou me

virando inutilmente de um lado para o outro na cama, remoendo cada uma das últimas palavras ditas pela Avó e rememorando o desaparecimento de

Matt e de todos os outros na escola e o aparecimento de Beau no campo de futebol, na tentativa de encontrar algum sentido em tudo.

Antes da Terapia de Dessensibilização e Reprocessamento Através do Movimento dos Olhos, eu tinha pesadelos terríveis, vários deles recorrentes.

O pior de todos tinha a ver com uma escuridão vasta e sem forma que perseguia a mim e à mamãe por uma estrada rural, em determinado

momento nos golpeando com tanta força que o carro rodopiava para fora do asfalto e derrapava direto contra uma árvore, dobrando-se ao meio. O sonho

me fazia acordar ofegante às vezes, mas essa ainda não era a pior parte do pesadelo. O pior eram as alucinações. Eu tinha dois tipos diferentes:

hipnopômpica e hipnagógica, mas não vejo como o que aconteceu com Matt no corredor ou a visão de Beau no campo poderia ser uma dessas.

Alucinações hipnopômpicas acontecem quando você está dormindo: seu corpo acorda, inclusive os olhos e a visão, antes da mente acordar por

completo. Assim, você pode ver seu quarto exatamente como ele é, com a diferença de que tem uma torrente de aranhas se arrastando por todo o seu

corpo, ou sangue escorrendo pelas paredes, ou idosas indígenas sentadas em sua cadeira de balanço. Essas alucinações podem ser visões, cheiros, ou

mesmo um som ou uma sensação.

Alucinações hipnagógicas são quase iguais às hipnopômpicas, mas a

hipnagogia acontece quando você está adormecendo, em vez de quando está acordando: seu corpo, olhos e visão permanecem acordados, apesar de o seu cérebro já estar sonhando.

Sabe quando está caindo no sono, quando está quase lá, e de repente a sua cama é puxada de baixo de você e sente que está caindo? Você acorda com

um espasmo e percebe que está seguro: estava na cama o tempo todo.

Parabéns, você acaba de ter a mais comum das alucinações noturnas.

Você não precisa de tratamento se acorda com a sensação de que está caindo. Pelo jeito, você precisa de tratamento se tem insônia, ansiedade,

ataques de terror noturnos e é visitada três vezes ao ano por uma divindade que, ao que tudo indica, é onipotente.

A EMDR deu um basta em tudo isso, quase me fazendo acreditar que a Avó fora um sonho.

Pela primeira vez, desejei que ela estivesse aqui. Assim, o aviso que ela me deu não significaria nada. Eu não teria que ficar correndo atrás do que

pareciam ser cinco bilhões de Alice Chan das redondezas. Empurro o focinho roncante de Gus para o lado para poder me revirar pela milionésima

vez. Até mesmo o sono parcial alucinatório seria bem-vindo hoje, mas ele não vem.

Às duas da manhã, desisto de dormir e estico a mão para pegar o celular na mesinha de cabeceira, ensaiando outras combinações de palavras de

busca. Num acesso de inspiração, digito: Alice Chan Kentucky alucinação hipnopômpica.

Meu coração para quando vejo o primeiro resultado.

Visitações: Premonições e Outros Fenômenos Paranormais Envolvendo

Hipnopompia e Hipnagogia, por Alice Chan, professora de psicologia na Universidade Northern Kentucky.

Abro o resumo e sei de imediato: achei a Alice da Avó.

 

O PRIMEIRO EVENTO da Semana dos Calouros é o Desfile Superlativo, o que menos me empolga, mas, depois do sucesso da noite passada, estou

irrequieta com a empolgação e o nervosismo. A falta de sono e o excesso de cafeína sem dúvida não estão ajudando. Quando chegamos à escola, está chuviscando e trovejando. Deixo Jack e Coco na porta da frente, então

manobro até os fundos, onde o Comitê da Semana dos Calouros está carregando os “carros alegóricos”, que pelo jeito é como se chama uma

picape na qual penduraram um banner preto e laranja.

Quando vejo o carro alegórico que designaram para mim e meu par,

estaciono o mais distante que consigo de ambos e espero por Megan, lendo e relendo o resumo do artigo de Alice Chan como se eu já não tivesse

decorado cada palavra. Um minuto mais tarde, o Honda Civic preto de Megan para ao meu lado, e ela salta do carro dela para o meu, sacudindo a

chuva quente do cabelo e do capuz.

— Ok, vejamos.

Entrego meu celular para ela prontamente.

— Por que parece que seu telefone teve que atravessar os céus para cair

na Terra?

— Hã, talvez porque eu tenha ficado nele direto pelas últimas 48 horas,

durante as quais eu também estava fazendo sanduichinhos de chantilly direto da lata com batatas chips.

— Ah, alimentação saudável. — Megan volta os olhos para o celular e os passa pelo texto. — Então é tipo uma leitura leve, agradável, de levar para a

praia, né?

Indico o retrato da mulher de olhar severo, cabelo curto e uma carranca

de lábios finos na parte de cima da tela à direita.

— Alice Chan está à frente do Departamento de Psicologia da NKU.

— E por que você acha que é ela a Alice da Avó?

— Porque sim. — Pego o celular de volta. — Olha aqui. Este é

exatamente o tipo de coisa esquisita sobre o sono que eu passei por todos estes anos. Alucinações hipnopômpicas e hipnagógicas são apenas sonhos,

mas que você tem enquanto seu corpo está tecnicamente acordado. Talvez tenha sido isso o que aconteceu comigo naquele dia no corredor, e também na noite de formatura. De qualquer jeito, foi isso que a dra. Langdon sempre pensou que a Avó fosse: uma alucinação noturna.

Megan faz beicinho.

— Mas ela não é. Sem ofensa, ela sabe coisas demais para ser um

produto do seu subconsciente…

— Obrigada por isso. Mas a questão é que Alice Chan não é uma

terapeuta, é uma pesquisadora. Ela mesma diz que essas alucinações na verdade são “visitações de fenômenos paranormais”. Talvez ela saiba

induzi-las. Se ela puder trazer a Avó de volta… — Não termino a frase, e Megan estende a mão por cima do câmbio para apertar a minha. Ela está

tentando me acalmar, mas suas feições também estão claramente retorcidas pela preocupação. Eu não devia ter contado sobre o aviso da Avó. Já estou

pirando o bastante por nós duas. — A Avó me disse para encontrar esta mulher por algum motivo. Ela pode ajudar.

Os lábios finos de Megan se comprimem enquanto ela reflete.

— Você já ligou para essa ilustre dra. Chan?

— Ainda não. Vou fazer isso logo depois do meu casamento.

Megan faz uma careta e olha pela janela para o meu carro alegórico. A

faixa tem os dizeres sr. e sra. Matt Kincaid, nossos nomes envoltos em corações em preto e laranja. Matt está de pé na caçamba da picape usando o casaco

do time com o nome dele atrás e, por baixo, um moletom cujo capuz protege o pescoço e o rosto da chuva. Uma garota não poderia desejar uma

procissão mais classuda.

— Você acha que esta é a primeira vez na história em que o casal votado

Mais Provável de se Casar não está nem junto quando foi indicado? — pergunto.

— As pessoas são escrotas — responde ela.

— Aquela faixa é escrota.

— Não aparece nem o seu nome, que dirá o sobrenome.

— O nome do meu marido é tudo de que preciso agora — falo. — Ao contrário de gente como você, que ganha o prêmio de Mais Atlética.

— Verdade — diz Megan.

— Está pronta?

— Eu tô — responde Megan. — Você que não. Eu vi o vestido de casamento que Rachel e o Comitê da Semana dos Calouros compraram para

você no brechó.

— Ai, meu Deus.

— Isso aí. Melhor rezar. Aliás, que barulho é esse?

— Acho que é o carburador.

— O que é um carburador?

— É uma coisa dentro do carro que às vezes faz esse barulho quando

você está prestes a comprometer sua vida com a pessoa errada na caçamba de uma picape.

— Aaahh, saquei — diz ela. Então emenda: — Ele ainda ama você, sabe.

— E eu o amo. Mas não desse jeito, acho que não.

Megan assente. É assim que devia ser. Duas pessoas que deviam ficar juntas têm que se entender, confiar uma na outra. Eu devia saber que

poderia contar a Matt sobre a Avó e ele de fato escutaria, mas nunca cheguei a sentir isso de verdade, então nunca contei. Passamos cada minuto

juntos, mas eu ainda deixava de contar tanta coisa para ele… Tudo o que ele não fosse entender. E o fato de que ele sempre parecia tão perfeito, tão

imperturbavelmente são e normal, só tornava tudo mais difícil para mim. Quando terminamos, ele deve ter sido pego totalmente de surpresa, apesar

de que, para mim, olhando para a situação na época, esse fim já vinha se aproximando há eras.

Megan e eu saímos de dentro do jipe e damos uma corridinha pela chuva até os carros alegóricos.

— Legal da parte de vocês aparecer — grita Rachel do outro lado do estacionamento. — Não é como se o restante de nós estivesse aqui em pé esperando na chuva. — Ela só entrou para o Comitê da Semana dos Calouros como alternativa aos cursos de verão (que era uma alternativa a

todas as detenções que ela tinha que cumprir), mas pelo jeito como está falando parece que a gente acabou de interromper o casamento dela. Rachel

planta uma das mãos no quadril e aponta o dedo da outra de um jeito incisivo, primeiro para o meu carro alegórico, depois para o de Megan.

Começo a andar até a longa fila de camionetes e conversíveis na direção da picape vermelho-cereja de Derek. Toda a turma de formandos foi

convidada a participar do desfile, mas os que “ganharam” algum superlativo vêm primeiro. São apenas algumas voltas em torno da escola, com os

alunos dos outros anos assistindo pelas janelas das salas de aula, e em seguida um café da manhã com panquecas no refeitório. Bem

desinteressante, mas é uma tradição pela qual ansiei por muito tempo. Todos nós, acho.

— Se não é minha bela noiva — proclama Matt da caçamba da picape.

— Oi — cumprimento, séria. Não quero ser fria, mas parece a melhor

opção quando seu ex, cujo coração você preferiria não continuar despedaçando, está ao seu lado em cima de um carro alegórico dedicado ao

seu relacionamento, com vários “Matt & Nat” entalhados em todas as árvores e cabines no banheiro por toda a escola. Até o casaco do time que

ele está usando proclama nosso amor “imortal”: Matt Kincaid, primeiro quarterback, sempre foi o número quatro desde os doze anos de idade,

quando ele escolheu o número da camisa em homenagem ao meu aniversário, no dia 4 de abril.

Enquanto ele me estende a mão e me ajuda a subir, meus olhos aterrissam na monstruosidade horrenda de tafetá e renda brancos estendida sobre um

dos lados da parte de trás da camionete.

— Meu vestido — digo. — É exatamente como eu imaginava.

Matt ri, ergue o vestido num movimento rápido e passa a imensa quantidade de tecido por cima da minha cabeça para que eu o vista.

— Você não teria que usar um smoking ou alguma coisa do tipo? — resmungo, forçando a cabeça e os braços pelos respectivos buracos.

— Rachel me deu um paletó — diz ele. — Está por baixo do casaco.

— Ah, que conveniente — respondo, então uma baforada doce me atinge.

— Isso no seu hálito… é uísque?

Ele olha para os próprios pés, coça a nuca, então fixa os olhos em mim.

— Talvez.

— Desde quando você bebe uísque às oito da manhã?

— Bem, acho que você não teria como saber, não é mesmo, Nat? Você não está exatamente bombando no meu celular esses dias.

— Justo — digo. Quando terminamos, eu já achava meio irritante essa persona explosiva de festeiro dele. No começo, supus que estava sendo

absorvido pelo monstro de várias cabeças que um time de futebol pode ser e deixando de lado seu verdadeiro eu. Quando, porém, ele começou a beber

mais e com mais regularidade, eu sabia que não era esse o caso.

— Quer um pouco? — oferece Matt, batendo numa elevação em forma

de cantil em seu bolso.

— Um cantil? — Ele faz que sim. — O que é isso, por acaso estamos em

Atlantic City nos anos 1920?

— Você quer ou não?

— Espera, estou prestes a conseguir uma piada sobre a cidade de Footloose em que ninguém bebe.

— Nat — diz ele. — Sim ou não?

— Não, valeu — falo. — Não quero cair do palco em cima dos chefões

da máfia quando eu estiver dançando o charleston.

Ele ri de novo e sacode meus ombros.

— E aí, o que acha? Está pronta?

— Para debutar com meu vestido de melindrosa no meio dos

contrabandistas de álcool?

— Para se casar — diz ele.

— Ah. — Olho para a escola de tijolos vermelhos desbotados, a grama verde aparada e as árvores, as colunas de nuvens escuras se formando no

céu. O trovão ressoa à distância, e este vestido de segunda mão está ficando encharcado, mais pesado com chuva a cada segundo.

De repente, acontece de novo.

Sinto meu estômago se revirar como se eu estivesse numa montanha-

russa. Matt, Megan, Rachel e todos os outros, a picape de Derek, a escola em si — todas as coisas — desaparecem.

Estou sozinha, de pé num campo de morros ondulantes verde-azulados, sentindo o sopro frio de vento sob a tempestade que se aproxima, meu

cabelo e meu vestido pingando. O trovão retumba outra vez, mais perto agora, e a chuva escorre pelos meus cílios, embaçando minha visão. No

morro diante de mim, onde deveria estar a escola, vejo um rebanho de búfalos.

Consigo ouvi-los comendo a grama. É um som denso, ofegante, de mastigação, e vejo as nuvens de névoa exaladas por suas narinas

aveludadas. As grandes cabeças se movem para trás e para a frente enquanto comem; os grandes olhos castanhos com cílios inacreditavelmente

longos e curvos me observam, apesar de não parecerem preocupados.

Então acaba, tão rápido como começou.

Sinto um frio na barriga. A escola volta a tremeluzir no lugar. Os búfalos piscam e deixam de existir. Matt está na minha frente, o piso enrugado da

caçamba da camionete firme sob os meus pés. Os sons do mundo voltam com tudo, meus colegas de classe assobiando, rindo e conversando ao meu

redor, se apoiando nas buzinas e deixando Rachel maluca enquanto ela tenta fazer todo mundo avançar.

— VAI PRO INFERNO — grita ela. — Sério, Tony, vai pro inferno!

— Nat? — diz Matt. — Foi só uma piada. Eu não acho que vamos nos

casar de verdade. Você sabe disso, né?

Faço que sim, distraída.

— Quer dizer, a não ser que você queira se casar, nesse caso…

— Matt — aviso, imediatamente alerta de novo.

— Não faz isso, Nat. Não fala o meu nome como se você estivesse prestes a me dar uma notícia devastadora. Foi só uma piada.

— Eu me importo com você — digo a ele. — Você é uma pessoa boa.

— Mas…? — diz ele, sem rodeios.

Mas ainda estou me recuperando do fato de que você desapareceu há um segundo.

Mas estou ocupada demais tentando descobrir o que está acontecendo comigo para ter esta conversa de novo.

Mas estou preocupada por ter começado a gostar de você porque você fazia com que eu me sentisse normal, no sentido mais Union da palavra.

Mas você não consegue parar de tentar me transformar de volta na Natalie por quem você se apaixonou, aquela que tentava desesperadamente

ser a epítome da rainha do baile de formatura, em vez da garota com duas mães, dois pais e duas nações.

— Mas eu vou me mudar para Rhode Island, para começo de conversa — decido.

— E por que é que tem que ser Rhode Island? — questiona ele.

— Não sei. Acho que só não pode ser o Kentucky.

Ele dá uma risada áspera.

— Por quê? Você quer se certificar de que não tem nada melhor lá fora?

— Eu não estou indo para a faculdade atrás de um namorado, Matt. Eu estou indo para entender quem eu sou e o que quero fazer. Por que você tem

o direito de descobrir essas coisas e eu não?

— Ah, tá certo. Sou machista, eu tinha esquecido — rebate ele.

— Bom, eu não me lembro de você ter se disposto a ir estudar em Rhode Island — grito. — Você está tão convencido de como exatamente sua

vidinha perfeita deveria se desdobrar que não reparou que não é o que eu quero e que eu não sou quem você quer. Você gosta de mim apesar das coisas com as quais eu me importo, consegue imaginar como essa sensação é ruim?

Por um instante, ficamos os dois em silêncio, encarando um ao outro. Me pergunto se algum de nós ainda consegue ver o outro com alguma clareza

ou se estamos empacados, olhando as imagens congeladas de quem costumávamos ser. É a única explicação possível de por que Matt ainda ia

querer ficar comigo quando nos distanciamos ao ponto de discordar em praticamente tudo.

A desavença entre Rachel e Tony foi resolvida, e a picape da frente deu um solavanco, voltando a se movimentar, arrancando aplausos de todos

exceto nós dois.

Enquanto todo mundo está comemorando e gritando, mostrando o dedo

do meio para os colegas de equipe mais jovens e gritando declarações de amor a uma insatisfeita sra. Perez, observo Matt se virar para não olhar para

mim, voltando-se para o lado onde momentos antes vi búfalos pastando.

Sinto frio e solidão, e ainda estou olhando para um quebra-cabeça cujas

peças não fazem sentido.

Búfalos e corredores sem luz, garotos misteriosos no campo de futebol e

as histórias da Avó. Um aviso e uma corrida contra o tempo. Um vazio dolorido. O que a Avó está tentando me dizer?

 

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