O amor que partiu o mundo
Capítulo 31
31
— COMO É possível? — pergunto.
Ela me abre aquele sorriso triste de novo.
— Como qualquer uma dessas coisas é possível? — Parece o que Beau falou quando me contou que também via as duas Unions.
— O que você quer? — falo, desesperada. — Não consegui salvar Matt. Você não me disse que era ele, e eu não pude salvá-lo. Ele está conectado
ao suporte à vida.
Os olhos escuros dela — meus olhos escuros — despencam para o chão.
— Eu sei — diz ela. — Mas não vim salvar Matt.
— Quem, então?
— O que você realmente quer saber, Natalie? Faz a pergunta que tem atormentado você.
A pergunta vem aos meus lábios, apesar de eu ter cada vez menos certeza de que quero saber a resposta.
— Por que existem dois mundos: por que Beau e eu?
— Não existem dois mundos — diz ela, simplesmente.
— Do que é que você está falando?
— Você está se movendo no tempo, Natalie, vendo outros momentos no
seu espaço físico. Avanço hipnopômpico e retrocesso hipnogógico.
— Alice já compreendeu as viagens no tempo — respondo, impaciente.
— O que não entendo é… — Hesito, reunindo a coragem para dizer em voz alta. — Não entendo por que tem uma cruz com o nome de Beau escrito no
mesmo lugar onde tem um memorial para mim.
A Avó inspira fundo.
— Ah, doce menina. Conheço você melhor do que ninguém. Sei quando está mentindo. Você entende. Só não quer aceitar.
— Não é possível que eu seja tão irritante no futuro.
— Jovens sempre acham que os velhos são irritantes — diz ela. — Mas
não nos importamos, porque achamos que eles são irritantes.
— Para — falo. — Só me conta o que está acontecendo.
— Beau morreu, Natalie. Essa é a verdade. Se você olhar o tempo como uma linha reta, sem desvios, sem novas chances, sem reescrevê-lo e sem
buracos de minhoca, o pai de Beau fez uma curva para a esquerda no trânsito intenso que vinha do outro lado. Ele estava bêbado, e a sua mãe
tinha adormecido ao volante. Ele a viu se aproximar e acelerou para não bater nela. Ela acordou e girou o volante para a esquerda, mas nenhum
deles foi rápido o suficiente. As laterais dos carros, na parte do banco de trás, bateram. Você sobreviveu e um menino de cinco anos chamado Beau
Wilkes morreu.
Lágrimas grossas rolam pelas minhas bochechas.
— Você está mentindo — guincho. — Ele tem um futuro. Eu vi. Eu estive lá. — Na casa. A nossa casa. Nossa glicínia. Um berço.
— Não estou mentindo — diz ela, suavemente.
— Por que posso tocá-lo então? — grito. — Por que é que o meu nome
também está escrito no memorial?
— Porque essa não é a verdade integral — conta ela, olhando para o chão
mais uma vez. — Quando o assunto é tempo, às vezes existem maneiras de reescrever. Há buracos de minhoca. Acredito que o mundo de Beau existe
para você porque você tem o poder de mudar as coisas.
— Que coisas? Do que é que você está falando?
— A morte de Beau está no passado — explica ela. — Já aconteceu. Mas, quando você rompe sua posição no tempo, o tempo se rompe no processo,
acionando as viagens. Quando eu tinha a sua idade, conheci Beau Wilkes, apesar de ele ter morrido anos antes. Descobri o que eu achava ser outro
mundo. Me apaixonei pelo menino que morava nele, e minha vida inteira mudou. Eu queria passar cada dia com ele, mais do que tinha vontade de me esconder ou fugir do que estava acontecendo. Amá-lo me mudou. Então descobri… — Ela faz uma pausa, a boca rígida. — Bem, a mesma coisa que
você descobriu: uma cruz com o nome dele, marcada com a data do nosso acidente. Continuei forçando a barreira entre os nossos mundos e a do
tempo, tentando ver através dela em busca de alguma explicação. Chegar ao mundo de Beau estava ficando cada vez mais difícil para mim ao longo do
verão, mas eu fiquei lá, ajoelhada na lama até conseguir passar pelo tempo de novo. Quando consegui, estava encarando o meu nome, não o de Beau.
Não tinha data, mas não importava. Soube naquele momento, assim como você soube, que de alguma forma nós dois deveríamos ter morrido naquela
noite. Pesquisei, encontrei um artigo de jornal sobre a noite, o acidente que deu fim à presença de Beau no nosso mundo. O mesmo acidente que, no
mundo dele, deixou nossa mãe chorando na mesa da cozinha e fez com que nossa família em frangalhos se mudasse desta casa e da escuridão que
tomou conta dela.
“Assim como você, achei que deveria haver algum tipo de bifurcação no
tempo: de um lado, Beau sobrevive; do outro, eu. Planejei contar a ele mas nunca tive a oportunidade. Naquela noite, acordei com uma esfera negra em
cima do meu rosto e o mundo dele se fechou permanentemente para mim. Como se eu tivesse ficado presa de novo no tempo linear, sem viagens, sem
realidades alternativas. Ou como se a passagem entre os nossos mundos tivesse sido costurada.
“Fui arrasada para a universidade. A cada vez que eu voltava para Union, tentava retornar até ele, mas não conseguia fazer o tempo se mover. Não
conseguia encontrar o mundo dele. Depois da faculdade, me mudei de volta para cá e comecei a trabalhar com uma professora na Universidade
Northern Kentucky que estudava experiências como a minha. Com todos os pacientes dela, encontrávamos a mesma coisa: um evento cataclísmico que
precedia as viagens no tempo, algum indício de um mundo alternativo, um mundo em que aquele evento havia sido mudado ou impedido, e uma esfera negra marcando o fim de tudo. Talvez seja sempre assim para pessoas como nós, que podem se mover no tempo. Há uma razão, alguma coisa que
poderíamos consertar ou mudar se apenas soubéssemos como.
“Talvez alguém, em algum momento, tenha conseguido fazer isso.
Contudo, se alguém realmente conseguisse mudar essa coisa, todo o passado seria reescrito, deixando-os sem memória nem prova de como as
coisas costumavam ser. É possível que eu e Alice tenhamos ajudado alguém a mudar uma dessas escolhas, mas isso provavelmente teria apagado nossas
memórias de ter conhecido essa pessoa. Nos lembramos, no entanto, dos pacientes que falhamos em ajudar antes de o tempo deles acabar. De
qualquer modo, ficou evidente que só temos uma janela de tempo durante a qual podemos acessar o passado: nenhum dos pacientes teve sucesso em se
mover no tempo ou acessar realidades alternativas depois do Fechamento. Como se rupturas no tempo se curassem por conta própria, permitindo que
aqueles que foram arrancados de seu curso natural atravessem livremente até ficarem presos de novo em uma trajetória linear.
“Eu sabia que tudo isso significava que não tinha como chegar a Beau. Mas, mesmo quando fui embora para a faculdade, não conseguia tirá-lo da
cabeça, o que acontecera a ele e se havia algum jeito de desfazer. Ele vinha perdendo a noção de tempo antes de o meu Fechamento acontecer, como se
a vedação do tempo o estivesse tornando cada vez menos real. Essa foi a primeira pista para mim e para Alice de que o mundo de Beau se
desintegrara junto com o buraco de minhoca dentro de mim: que a Abertura era, na verdade, o início de uma realidade alternativa, e que o Fechamento
era o fim dela. Todos os nossos pacientes depois disso perceberam que, conforme o Fechamento se aproximava, a mesma coisa acontecia àqueles
que conheceram em realidades alternativas. Eles perdem a noção de tempo, como Beau. Cada vez mais, até que não haja mais nada a perder. Pode ser
só conjectura, mas é uma conjectura na qual até mesmo Alice Chan tinha confiança: nós somos a porta para Beau e o mundo dele, Natalie. Quando essa porta se fecha, ele se vai. Quando se fechou dentro de mim, ele se foi.
“Fiz o melhor que pude para seguir em frente. Casei com o meu namorado da faculdade, trabalhei com coisas importantes para mim, me
entreguei a amizades significativas. Ainda assim, não queria aceitar que Beau se fora, então continuei procurando uma maneira de chegar a ele.
Depois de um tempo, Alice percebeu que eu estava tentando fazer tudo errado. Se eu não conseguia mais mover o tempo, jamais encontraria Beau.
Minha única esperança era ser encontrada no tempo. Então comprei a antiga casa dos meus pais e a reformei, decorei meu quarto de infância tal
como era, assim você não se assustaria se aparecesse aqui, e esperei.”
— Esperou? — Ouço o meu sussurro.
— Por você — diz ela. — Que você me achasse. Nesse meio-tempo, comecei a dar aulas na Universidade de Cincinnati. Eu tinha que fazer a
viagem todos os dias, para continuar trabalhando com Alice e os novos pacientes, que revelaram outra peça do quebra-cabeça: as sensações físicas
da viagem no tempo. Quando os pacientes se movem adiante no tempo, sentem um puxão no abdome, como se estivessem se erguendo. Quando se
movem para trás, sentem como se estivessem caindo. Bem evidente, na realidade, mas o que não tínhamos registrado anteriormente era que essa
sensação física de entrar no Outro Mundo sempre era igual à de avançar no tempo, enquanto a de retornar ao próprio mundo sempre é igual à de
retroceder.
Balanço a cabeça.
— Não entendo. O que isso significa?
— O tempo é uma ilusão, Natalie, depende da pessoa que o está
vivenciando. Tem a linha temporal do mundo em geral: dinossauros, a era do gelo, época medieval, elisabetana et cetera… mas daí cada pessoa
vivencia o curso do próprio tempo também. Para a maior parte das pessoas, é apenas uma minúscula seção do tempo dentro dessa linha temporal geral. Para gente como nós, é diferente. O curso do nosso tempo pode incluir fragmentos de fora das nossas vidas lineares. Pense em chegar ao nosso
Desfile dos Veteranos. Em cinco minutos no nosso futuro, vamos ver búfalos onde deveria estar a escola. Aquele era o nosso futuro, um momento
que aconteceu há décadas, senão séculos no passado.
“Às vezes você se move pelo tempo e vê tudo mudando diante dos seus
olhos. Outras vezes você dá uma guinada, ou passa. Era o que acontecia com a gente quando éramos pequenininhas. Nosso corpo acordava no meio
da noite, mas nossa consciência ainda sonhando dava uma guinada para outro tempo: uma alucinação hipnopômpica. Você não se via passando por
cada momento. Simplesmente chegava, no meu presente, como se estivesse mirando em mim. É isso que você faz quando vai para o mundo de Beau.
Você dá uma guinada para a frente, como se estivesse pulando por cima das ondas do tempo para um ponto no futuro.”
— Para a frente? — digo.
— Você sente, não é? A mesma sensação de viajar para o futuro?
— Beau está no mesmo ano que eu, inclusive no mesmo dia… Como aquele pode ser o futuro?
Ela solta o ar.
— Vamos chegar lá. Enfim, logo depois que fizemos essa descoberta,
Alice faleceu. Eu me vi sozinha, meu marido se fora, e quase desisti de achar que você viria. Então, certa noite, enquanto eu estava sentada na
minha cadeira de balanço, você descobriu como chegar ao meu presente. Eu sabia, de olhar para você, que você tinha cerca de dezoito anos,
provavelmente já no verão em que conheceu Beau. Você só deteve o tempo por um minuto antes de não conseguir mais segurá-lo: afinal, o seu
Fechamento estava próximo. Fui pega tão de surpresa. Tentei consolar você, mas não sabia se conseguia me ouvir.
Aquela foi a noite do acidente de Matt, a última vez em que vi a Avó. Apesar de que, para ela, foi a primeira. O medo daquela noite, desta noite, me esmaga só de lembrar.
— Passei anos esperando que você me encontrasse de novo. Achei que,
se eu apenas pudesse vê-la mais uma vez, poderia ao menos direcioná-la até Alice mais cedo. Quando a vi em seguida, no entanto, estávamos mais para
trás na sua linha do tempo. Você era tão pequena, e eu não queria assustar você; eu não queria pressionar, então simplesmente contei uma história,
uma das centenas que passei minha vida estudando e ensinando. Foi a coisa mais natural do mundo te contar essas histórias, porque eu sabia o que já
significavam para mim e o que viriam a significar para você algum dia. Naquela noite você ouviu e, depois de quarenta minutos, se foi novamente.
“Mas um instante mais tarde você reapareceu, e deteve o tempo ali enquanto falávamos. Começou a pular, como um disco arranhado. Eu
contava uma história, e aí você perdia tração. As visitas eram distantes para você: seis meses ou um ano entre cada uma. Para mim, porém, só se
passavam minutos entre uma e outra, como se a sua mente em estado de sonho a trouxesse de volta para o meu tempo sempre que podia, retomando
de onde havíamos parado. Eu a observei crescer no espaço de dias.
“Como disse, eu sabia nesse momento que nunca mais chegaria a Beau de
novo. Alice já explicou para você a interpretação dos vários mundos?”
— Eu… acho que sim. — Minha voz não passa muito de um grunhido.
— Ela desenhou o tempo com um monte de ramificações. Cada uma era um mundo diferente, acho; quer dizer, estamos falando de Alice, e ela estava
em transe científico, então não tenho certeza.
A Avó abre um sorriso e assente.
— Acreditamos que aquelas ramificações sejam buracos de minhoca. Sendo assim, elas têm data de validade. Um futuro alternativo pode ser
iniciado, mas, a não ser que a pessoa com acesso ao buraco de minhoca escolha aquele futuro, ele se desintegra. Imagine um envelope selado. Você
passa o dedo na parte de cima do envelope, e esse é o tempo: um caminho reto. Aí você pega o abridor de cartas e corta um centímetro do topo.
“Agora, quando você passa o dedo pelo envelope, tem uma parte onde há dois caminhos separados, formando uma elipse. Esse é o momento entre a
sua Abertura e o seu Fechamento. Digamos que você passe o dedo parcialmente por um dos lados, o da versão atual do mundo, e então decida
que quer a outra. Você volta para aquela divisão inicial e muda o curso dos eventos para escolher o outro caminho. Quando chegamos ao Desfile dos
Veteranos, as empreitadas para o passado eram parte do seu futuro, assim com o mundo de Beau e a versão alternativa dele do presente são parte do
seu futuro. É o presente quando você se concentra em dias e anos, mas é o seu futuro porque a versão dele dos eventos não aconteceu de verdade ainda
para ninguém além de você.”
— Ainda estou perdida — explodo. — Nada disso faz sentido.
— Aquela divisão no envelope, aqueles catorze anos entre a nossa Abertura e o nosso Fechamento, esse é o tempo durante o qual podemos
escolher uma linha do tempo diferente, Natalie. Você pode escolher que as coisas continuem como foram para mim, com o mundo de Beau se
desintegrando. Ou pode voltar ao momento em que o tempo foi dividido pela primeira vez e mudar as coisas. Pode escolher o desenrolar dos eventos
do mundo de Beau. Depois do seu Fechamento, quer pela ação ou pela inação, você escolhe qual caminho sobrevive. Para mim, isso significa que
Beau morreu. Ele morreu quando eu tinha quatro anos e, de certa maneira, ele morreu novamente quando eu tinha dezoito, e o mundo dele, a
possibilidade dele de ter um futuro, se desintegrou.
“Mas você… você ainda consegue ver… Um futuro em que…” Os olhos
dela encontram os meus, e ela sacode a cabeça conforme as lágrimas brotam em seus cílios. “Em que você volta e escolhe a vida dele.”
Minha cabeça está atordoada de perguntas e diagramas mentais e muito pânico enquanto tento encontrar o sentido no que a Avó está dizendo. Vez e
outra e outra, meu corpo rememora a sensação de passar para o mundo de Beau, e a cada vez, sinto a mesma coisa: o movimento ascendente, a sensação de ser erguida rapidamente, a mesma de quando me movo para a frente no tempo. O que significa, o fato de o presente de Beau ser o meu
futuro? O que significa que a versão dele dos últimos catorze anos não realmente aconteceu, mas que vai?
Os ombros da Avó estão trêmulos pelo esforço de conter as lágrimas, ou talvez só pareça ser o caso porque o tempo está me pressionando agora,
tentando me arrastar de volta para o meu presente. Então cai a ficha, a coisa que a Avó não aguenta dizer em voz alta, pelo menos não tão claramente
quanto percebo. Sussurro:
— Você acha que ver o mundo dele daquela maneira significa que eu vou
ter que voltar, que vou ter que mudar o que aconteceu na noite do acidente, e aquilo vai criar o mundo de Beau.
Mas nós dois não estamos no mundo de Beau.
Ele viu a minha família no mundo dele. Todos eles exceto eu. Felizes, ele
disse. Sua família pareceu feliz.
E eu vi o meu nome numa lápide de pedra lá.
— Você acha que ele sobrevive no meu lugar — concluo.
A Avó enterra o rosto nas mãos e começa a chorar.
— Eu não posso voltar — diz ela. — Não posso voltar, senão voltaria. Eu não saberia dizer quantas vezes tentei. Achei que talvez pudesse evitar o
acidente por completo, mas, Natalie: aquele puxão, a evidência física da viagem no tempo… Quando vimos aquela lápide com o nosso nome nela,
estávamos no futuro. Não o natural, mas o escolhido. Nós sentimos a tração. Não acho que você possa interromper o acidente por completo, mas pode
mudá-lo.
— Você acha que eu escolho… — Minha voz vacila e um soluço retorce
minhas palavras. — Morrer.
Ela me encara. Apesar das rugas profundas e das manchas de idade e das
cataratas, ela parece jovem, minúscula. Como a Pequena Eu nas filmagens caseiras, uma forma miúda dentro de roupas grandes demais.
— Acho que você faz o que eu não pude fazer — sussurra ela.
Abro a boca, mas não consigo produzir nenhum som além de um
grunhido agudo.
— A esfera — falo, enfim. — Eu a vi esta noite.
Ela assente, mas não consegue mais olhar para mim. Ela despenca no chão e envolve o próprio corpo com os braços finos.
— É esta noite. A sensação é exatamente como a da primeira vez. Como se tudo estivesse sendo costurado. A fenda no tempo se fecha esta noite.
Da primeira vez.
Hoje foi a primeira briga de verdade que tive com a minha mãe. Desmaiei
pela primeira vez. Perdi um amigo pela primeira vez, meu primeiro namorado. Pensei sobre a minha própria morte pela primeira vez quando vi
meu nome escrito em um lugar onde não deveria estar. E pela primeira vez disse a Beau que o amava.
E pela segunda vez.
E pela terceira.
Eu pretendia fazer amor com ele pela primeira vez.
Agora, ele está me esperando no quarto de Megan enquanto o mundo dele
desmorona. Sinto o iminente frio na barriga. Algo está tentando me firmar no lugar ao qual pertenço e, quando conseguir — se conseguir —, Beau
estará preso sob o entulho de um mundo que nunca aconteceu.
— Eu ainda não vivi — digo, porque estou desamparada. Porque tudo o
que tenho para me proteger agora são palavras. Porque é uma escolha impossível de suportar, mas eu não sinto que há escolha a fazer, e acho que
falar que não quero fazer isto é o mais próximo que posso chegar de não fazer.
A Avó estende uma das mãos na minha direção. Eu a pego enquanto me abaixo no chão diante dela.
— Deveria ser eu — responde ela. — Eu poderia fazer e não ter nenhum arrependimento. É o que eu escolheria, mas isso não quer dizer que sua escolha deva ser a mesma. Não posso te pedir isso Sei que você ainda não viveu. Conheço a vida que você pode ter e o quão plena ela será mesmo
sem Beau, e as pessoas que você vai atingir, e aquelas que vão mudar sua vida para sempre.
“Conheço todas as histórias que você deve vir a conhecer algum dia. Conheço ambas as suas mães e o quanto as duas amam você. Sei segredos
sobre Coco que a fariam torcer os dedos do pé em deleite, e conheço os filhos de Jack e sei o quanto eles o amam. Tenho todas as respostas, e você
não vai ter nenhuma.”
Ela aperta minha mão.
— Tudo o que você tem são as histórias que te contei e o amor no seu coração por Beau neste momento. Conheço tudo isso, Natalie, e ainda estou
aqui, pedindo a você para fazer algo que eu nunca deveria ter que pedir a alguém da sua idade, especialmente não alguém que eu amo, cujos
sofrimentos e alegrias também conheci. Estou pedindo porque é o que eu queria fazer, e você agora tem essa escolha.
— Eu não tenho escolha — retruco. — Você sabe que não tenho. Você praticamente me criou para isto. Você passou anos enfiando isso na minha
cabeça. Você me ensinou que amar era morrer.
— Ah, querida. Você entendeu errado. Eu não contei aquelas histórias
para fazê-la mudar de ideia. Contei porque me lembro de como foi doloroso não conseguir enxergar a verdade, sentir que iria ser engolida pela
escuridão. O que é o amor senão colocar outra pessoa antes de você? Nossa mãe biológica nos deu para adoção porque acreditava que poderíamos ter
uma vida melhor longe dela. Nossos pais mantiveram o acidente de carro em segredo porque mamãe sofreu por anos com transtorno de estresse pós-
traumático. Ela se esforçou tanto para conseguir conviver com a própria dor, mas também nos protegeu dessa dor. O amor não passa de colocar
outra pessoa na frente. Não te contei aquelas histórias para que salvasse Beau. Contei para que visse como este mundo inteiro foi criado para você, como ele se aquece com seu sorriso e sofre quando você padece. Contei para que você pudesse parar de ter medo.
— Se isso for verdade, então tem que haver outro jeito. — Minha resposta é dura. — Como você pode dizer que o mundo inteiro me ama ao
mesmo tempo que diz que devo morrer? Quero saber. Quero esse seu conhecimento secreto que te dá tanta confiança de que é isso aí, ao ponto de
você estar disposta a me pedir para voltar ao passado e deitar na estrada diante do meu próprio carro para matar minha versão criança. Porque eu
não estou convencida. Tem que haver outra maneira.
— Por quê? — desafia a Avó. — Você viu provas de dois presentes. Eu
tive provas de que Beau morreu naquela noite no nosso mundo. Beau viu provas de que você não existe no dele. Você viu o seu próprio memorial no
mesmo lugar que o dele. Então por que é que precisa haver outra maneira?
— Porque isto está acontecendo — grito. — Isto não acontece todos os
dias, Avó, ou pelo menos não para todo mundo. Tem que haver um motivo melhor para eu conseguir mudar as coisas. Por que Beau e eu, dentre todas
as pessoas no mundo? Por que temos uma segunda chance? O que nos torna tão especiais?
— Talvez nada — diz a Avó. — Talvez sorte. Ou talvez alguém ache que a escolha é precisamente o tipo de dom que você gostaria de ter.
— Ou talvez seja porque o mundo seria melhor com nós dois nele — replico —, ou porque as coisas estão incompletas e, quando estamos juntos,
sejam um pouco menos assim. Talvez seja porque estamos conectados ou nos encaixemos ou porque seja certo ficarmos juntos, e, se o tempo é
realmente plano, então talvez ele tenha visto tudo isso. Talvez, apesar de Beau ter morrido, o próprio tempo tenha visto cada um dos mundos
possíveis em que poderíamos nos amar, e que isso era tão bom quanto termos nos amado. Porque poderíamos ter nos amado em qualquer lugar,
em qualquer mundo, e talvez a razão para podermos mudar as coisas seja que o que existe entre nós é grande o bastante para se estender por cada ramificação do tempo. Talvez nosso amor não possa morrer, nem mesmo quando nós morremos. Algo está nos puxando para perto um do outro, Avó.
Algo o trouxe de volta dos mortos para mim. Ainda que eu volte para a noite daquele acidente e morra, por que a morte e o tempo seriam mais
fortes desta vez? Tem que haver algum significado. Tem que significar um futuro.
— Talvez haja uma maneira, Natalie. Mas não vou prometer algo que não posso cumprir. — As palavras dela estão retesadas e trêmulas com as
lágrimas, a voz descontrolada e corpulenta, uma meia-lua prestes a transbordar pela beirada do copo. — Não vou te dizer que você vai ter um
futuro com Beau porque não sei disso. Eu não vou ser a pessoa que vai te dizer que você pode ter tudo, não importa o quanto eu queira que Beau
tenha uma chance de viver. Quero acreditar nesse futuro, Natalie, mas não acredito. Você disse que viu? Bem, eu nunca vi. Mesmo que você possa
construir um futuro, quem é que vai dizer se é realmente você vivendo nele? Quer dizer, olha só para a gente. Somos a mesma pessoa, mas vivendo vidas
distintas. Se você pode criar um mundo com você e Beau dentro dele, ainda assim não é bem você, assim como você não é exatamente eu.
É como se ela tivesse colocado um peso no meu peito.
— Então mente para mim — imploro. — Porque eu vou fazer isso, e
preciso que você me diga que vai ficar tudo bem. Preciso que você minta para mim.
Quando a boca dela se abre num sorriso, lágrimas irrompem e escorrem pelas suas bochechas.
— Não é mentira — sussurra ela. — Vai ficar tudo bem.
Fecho os olhos para conter as lágrimas e as histórias da Avó passam em
flashes pela minha mente, uma corrente cálida de eletricidade permeando minha vida, como a teia da Avó Aranha e os fios de luz de Alice, me
guiando e me ensinando tudo o que sei sobre o amor. Mas a teia inteira é dolorosa, como se estivesse crescendo pelas minhas veias, toda a vida que eu queria viver pulsando ao lado da que eu quero entregar a Beau. As coisas que quero colocar diante dos olhos dele e entre as mãos dele e cantar nos
ouvidos dele e os lugares aos quais quero que seja carregado, os milhares fins de tarde dourados na varanda esquentada pelo sol.
— Eu vi — falo, irritada. — Vi como tudo seria. — Como nos encaixaríamos, o que construiríamos juntos. — Eu estive lá. O que faço
com isso?
— Doce menina. — A Avó estica a mão e afasta dos meus olhos uma
mecha de cabelo encharcada pelas lágrimas. — Posso nunca ter visto, mas nunca deixou o meu coração, todo esse tempo. Você carrega sua esperança
com você até o fim, como eu estou fazendo.
Encaro-a, tentando entender o significado, e ela pressiona os dedos nos
lábios e direciona o olhar para o chão. Quando volta a falar, a voz sai rouca e áspera:
— Estou morrendo.
A confirmação dela mal passa de um grunhido, e ela leva um bom tempo
antes de recuperar a voz.
— Isto não é mais sobre mim. É sobre você e o que você quer.
— Morrendo? — sussurro. — Como?
Ela fecha os olhos.
— Não vou contar essa parte. Não quero estragar nenhuma surpresa ou te dar nenhum medo. Todo mundo morre, querida, e você já sabe disso agora,
aos dezoito anos.
— E até Jesus teve medo de morrer — lembro.
— Teve mesmo.
— Você não pode me dizer nada? Nenhuma dica?
Ela enlaça as mãos para parar a tremedeira.
— Posso te dizer que a dor de viver vale a pena. Que, se você viver, sua
vida será tão plena de amor quanto é sombria, e para cada momento de dor você terá um de alegria também. A única coisa que você não vai sentir é o que você tem agora com Beau, e isso não faz com que valha menos a pena viver sua vida. Mas também, valer a pena não é uma questão quando
estamos vivos ou somos amados.
“Você tem a escolha de dar valor ao dom impossível de estar viva ou
entregá-lo a outra pessoa. Usar seu amor para refazer o mundo. Quer você o dê a Beau ou o guarde para si, Natalie, o mundo vai continuar sendo terrível
e lindo, tudo ao mesmo tempo.”
Tive tanto medo dessas coisas terríveis, de tudo ruir e de nunca saber
quem eu sou ou descobrir qual é o meu lugar. Mas aqui estou eu, olhando para mim mesma no fim do tempo, e ela nunca esteve sozinha, não de fato.
Meu Deus, é um alívio doloroso ver que alguma versão de mim já viveu e que todos esses medos com o tempo desaparecem sem se concretizar. Ainda
quero o cenário todo para mim, chegar ao fim do meu mundo e decair calmamente dele, mas não tem nenhuma escolha a ser feita de fato. Não sei
com certeza o que vai acontecer quando eu voltar para a noite do acidente, mas sei que vou voltar. Não porque o futuro de Beau é tão grande, ou
porque o meu é tão pequeno, mas porque amar é entregar o mundo, e ser amada é ter o mundo inteiro a entregar.
— Quanto tempo eu tenho? — pergunto.
— Horas — diz ela. — Minutos. Não sei, Natalie. Não ao certo.
— Estou com tanto medo.
Ela me puxa para um abraço e alisa o meu cabelo, afastando-o do rosto,
exatamente como mamãe fez um bilhão de vezes. Mamãe. A última coisa que eu disse a ela foi Eu não tenho mãe. Tem tantas coisas a fazer. Ver meus
pais, Jack, Coco. Dizer à minha mãe para parar de viver com culpa e prometer a ela que tudo vai se resolver. Dizer adeus a Megan, dizer a ela o
quanto a amo. Consolar os Kincaid, que terão o filho de volta se isto funcionar. Agradecer a Rachel por me amar ferozmente, o bastante para me
odiar por deixá-la para trás.
E eu preciso ser abraçada por Beau. Garantir que ele entenda o quão profundamente eu o amo. Quão gentil e delicado e suave ele é. O quanto ele
faz com que as pessoas se sintam seguras e cuidadas, e o quão mais iluminado o mundo fica com tudo o que ele faz e oferece. O quão bom ele é
e que tipo de vida ele merece apesar da que recebeu.
Mas talvez não haja tempo de dizer essas últimas palavras. Não posso
arriscar. Esta é minha única chance. Nunca vou conseguir dizer a ele que acho que, se fosse uma opção, eu poderia amá-lo até a hora da minha morte.
Acho que vou amá-lo até morrer. Tenho que acreditar que o mundo vai continuar de onde eu parei. Tenho que acreditar que, quer eu esteja lá no
fim do mundo com Beau ou não, o amor é maior que a morte.
— Estou com muito medo também — sussurra a Avó na minha orelha. —
Mas somos muito corajosas, garota.
Dou uma risada suave. Estou a minutos da morte e da não existência, e
estou rindo. De repente, rio histericamente e a Avó ri também, e nós duas oscilamos no chão do nosso quarto, lágrimas escorrendo pelo rosto de tanto
rir, meleca pingando do nariz.
Ela é a primeira a recuperar a compostura, cerrando os dentes, forçando
um sorriso e assentindo para mim.
— Você pode fazer isto. Eu saberia. Fui barriga de aluguel duas vezes
para Jack e o marido dele. — Ela responde à minha surpresa com uma piscadela dramática. — Podemos fazer qualquer coisa.
Faço que sim porque não consigo falar nada. Uma sobriedade dura se instalou e, ainda assim, minha cabeça e meu peito parecem leves como
balões, como se todo o peso da ansiedade tivesse ido embora agora que a escolha foi feita, e eu estivesse cheia de algo resplandecente e cálido, um
presente para o garoto que amo. Eu me levanto e a Avó se levanta também, então me puxa para um abraço esmagador de ossos. Ela dá um passo para
trás, mas agarra meus braços com uma força surpreendente.
— Graças a você — diz ela. — Um mundo completamente novo está prestes a nascer.
Ela me solta, e ando até a porta do closet, segurando a moldura em minhas mãos e parando. Olho de volta para onde ela está, a coluna ereta, as
mãos unidas na frente da barriga e o queixo para cima.
— Avó — digo.
— Sim, querida.
— Você acha… quero dizer, é possível… que haja um Deus?
Ela sorri o mesmo sorriso que reconheço da infância, aquele sorriso misterioso que faz nossos olhos brilharem.
— Garota, como você acha que qualquer uma destas coisas seria possível se algo não quisesse que fosse? Algo rasgou uma fenda no tempo bem em
cima da nossa cama só para que você, sua sortuda do caramba, pudesse saber o que é o amor. Alguém arrancou uma árvore e deixou que
olhássemos lá dentro e escolhêssemos cair.
— Você acha que Deus me ama como você?
— Acho que Ele ou Ela nos ama como amamos Beau. Acho que Deus nos ama pra cacete, Natalie Cleary.
Lágrimas borram minha visão. Faço que sim com a cabeça, então me viro, entro no closet pela última vez, passo pela janela, salto para o lindo,
pantanoso e verde-azulado pátio de entrada e vou para o jipe. Antes de me afastar, vejo a Avó de pé no closet, sua silhueta desenhada pela luz. Ela se
inclina para a frente no peitoril da janela e grita para mim, em voz alta e clara:
— O nome dela era Bridget. O nome da nossa ishki era Bridget e ela nunca deixou de pensar em nós.
Bridget. Sussurro o nome duas vezes, então o guardo no meu peito com todo mundo que é parte de mim, todas as pessoas que alguma versão de
mim já conheceu e aqueles que — eu preciso acreditar — alguma versão de mim ainda virá a conhecer. Dirijo até a interseção e paro no acostamento uma última vez, arrepios percorrendo sem parar cada centímetro da minha pele. Mas não estou em pânico, apesar do meu medo. Não estou tonta,
apesar da leveza crescente no meu peito e na minha cabeça. Vou ficar aqui, penso, vou ficar aqui até o fim e para o que quer que venha depois.
Quero que você entenda uma coisa, Natalie. Não importa quão difícil pareça, você não precisa ter medo de seguir em frente nem precisa ter medo
de ficar. Sempre há mais coisas para ver e sentir.
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