O amor que partiu o mundo
Capítulo 11
11
MINHA PRIMEIRA SESSÃO com Alice é estranhamente similar a todas as consultas com terapeutas de verdade que já tive, desde que se ignore a
bagunça do escritório dela e a maneira como ela estoura o chiclete e o fato de que de vez em quando revira os olhos quando digo algo de que ela
discorda. Tenho essa sensação de que ela está fazendo uma pose, interpretando um papel o tempo todo, como tivemos que fazer na aula
avançada de psicologia na escola.
É como se estivéssemos brincando de médico até chegar às partes que
podem de fato ser úteis, quando ela avança abruptamente na cadeira, remexe os lábios, então anota alguma coisa de forma arbitrária no caderno.
— Tem certeza de que não tem um jeito mais rápido de fazer isto? — pergunto. — Talvez se você me dissesse o que está escrevendo.
— Não tem jeito mais rápido — diz ela, rabiscando com fúria. — Estou seguindo meus instintos. Algumas coisas podem parecer triviais para você,
mas talvez contenham a chave. Outras podem parecer grandiosas e não ter nada a ver. Só quero que você continue falando.
E continuo. Por 95 minutos direto, e não deixo um segundo que seja vazio. Me sinto produtiva, como se estivesse completando alguma tarefa e
precisasse seguir em frente.
Conto a ela sobre meus ataques de birra e de como a dança pareceu tirá-
los de mim, e como mamãe achou que isso significava que talvez eu tivesse TDAH. Digo a ela que os terrores noturnos começaram como sonhos e se
estenderam às visitações à minha cabeceira, e como eu gritava até desaparecerem e o papai vinha correndo com o taco de beisebol que
deixava embaixo da cama. Conto coisas que nunca falei em voz alta, nem mesmo para os outros terapeutas, porque as palavras em si fazem eu me sentir fraca, e, quando me sinto fraca, choro, e, quando choro, sinto que estou fora de controle. Conto a ela que, quando eu era pequena, achava que
Debra Messing e Isla Fisher e Amy Adams eram a própria definição de beleza e como, quando os gêmeos fizeram três anos e o cabelo loiro de
bebês começou a escurecer para o avermelhado da mamãe, fiquei secretamente magoada, como se tivesse perdido alguma coisa, não importa
o quão idiota ou autocentrado isso soe. Eles iam ser parecidos com os nossos pais, e eu continuaria parecendo uma estranha.
Mas conto a verdade a Alice, porque, pela primeira vez, quero que a terapia funcione mais do que quero esconder as partes de que tenho medo.
Em algum momento, saltamos para o presente.
— As Coisas Erradas — diz Alice. — As mudanças ou tremulações. Fala
delas de novo.
Conto sobre os eventos mais recentes com Gus e os búfalos e a igreja
renovada. Quanto mais falo, mais forte fica a dor de cabeça lancinante atrás do meu olho.
— Não entendo o que está acontecendo — comento com um suspiro.
— Veio ao lugar certo — diz Alice, sem tirar os olhos do caderno. No
colo dela se equilibra o gravador que trocamos nesta manhã. — Quer dizer, talvez. Tomara. No mundo ideal, sim, este é o lugar certo. Olha, você pode
ter tido essas longas conversas com um Deles a vida inteira, mas o que está passando agora é muito mais comum. Quer dizer, geralmente só acontecem
quando você entra ou sai do estado onírico, mas a essência é a mesma.
— Bem, e o que é? — pergunto.
— Cedo demais para dizer. O que sei é que a maior parte das pessoas só recebe visitas breves, como os lampejos que você descreveu. Você acorda e
não está no seu quarto, mas, assim que grita, está de volta. Você cai no sono no ônibus e, quando abre os olhos, tem alguém te encarando; você se
levanta de um pulo e a pessoa desapareceu. Você ouve alguém falando no andar de baixo e descobre um casal jantando na sua mesa. Quando acende a luz, eles somem. Geralmente, eles nem veem você. Quando veem, as testemunhas descrevem que os Outros parecem tão surpresos quanto eles
próprios. Não acho que estejam completamente conscientes de nós.
— A Avó está.
— A Avó, assim com você, minha querida Natalie, é diferente. E é por isso que isto é tão importante.
— Ela é Deus, não é? — digo.
Alice respira fundo.
— Sou uma cientista que estuda alucinações noturnas com base na hipótese primordial de que há algo de sobrenatural nelas. Sou a pessoa
menos preparada para emitir uma opinião sobre o que é Deus e se Ele existe. Pessoalmente, nunca cheguei a comprar essa ideia de um poder
superior, mas também, no que diz respeito ao restante da faculdade, daria no mesmo se eu fosse a presidente da cátedra de Estudos de Duendes. Tudo o
que sei é que a Avó e as visões que vieram antes dela são alguma coisa. Deus, fantasma ou algo entre os dois: nós vamos descobrir quem é a Avó.
Eu acredito nisso, Natalie.
NA MANHÃ SEGUINTE, estou andando com Jack até o jipe quando acontece de novo. As cortinas e a porta lampejam em vermelho. O aro de
basquete na garagem e meu irmão caçula desaparecem. Fico de pé no meio do pátio de entrada, o mundo inteiro congelado e cristalizado, com a
sensação de que vou ter que atravessar gelatina se quiser dar mais algum passo.
Com a mesma rapidez, no entanto, um estrondo rasga a imobilidade, e dou um pulo.
— Anda logo! — grita Jack do carro. Ele está inclinado por cima do assento para apertar a buzina, o que não seria tão alarmante se eu fizesse
ideia de como é que ele foi parar lá. Me esforço para sair desse torpor e entro do lado dele.
— Foi mal — digo. — Achei que tinha esquecido o telefone.
Jack solta uma risada que tenta encobrir fingindo limpar a garganta, um truque que papai usa com frequência quando mamãe não aprova o motivo
do riso dele.
— Nada — se apressa a falar antes mesmo que eu tenha a oportunidade
de fazer cara feia. — Você olhou o celular, tipo, três vezes entre a cozinha e a varanda.
Minhas bochechas ardem com a observação. Dou partida no carro, me dedicando integralmente a fingir que não ouvi o comentário de Jack. Faz
quatro dias desde a festa de Matt. Ainda estou espumando de raiva com o que aconteceu entre nós naquela noite, mas é Beau que me faz oscilar entre
bobinha apaixonada e obsessiva que analisa tudo exaustivamente. Parece que os incidentes de Coisas Erradas e a ideia de Megan ir embora para
Georgetown em dois dias são as únicas coisas que me fazem parar de me perguntar por que é que ele não me ligou.
Enquanto dirijo para a escola, faço o que tenho feito todas as vezes em que não quis lidar ou sequer pensar sobre algo nos últimos dois anos: me
imagino em Brown, com novos amigos que não sabem sobre Matt e não se importam com o motivo pelo qual saí da equipe de dança; um lugar onde
posso recomeçar. Mas o devaneio não me dá alento. Estou brava demais com Matt, envergonhada demais com o que quer que tive com Beau.
Pareceu certo enquanto acontecia, doce e genuíno e tão intenso que eu tivera certeza de que ele sentia o mesmo. Agora sou forçada a revisitar
todos os detalhes bastante particulares que compartilhei com ele e me contraio diante da minha própria vulnerabilidade.
Quando freio no portão do lado de fora da quadra coberta, Jack sai correndo do carro, gritando um “Até mais!”, mas não parto imediatamente.
Em vez disso, observo meu irmão acelerar pelo campo. Está piscando para fora do meu campo de visão e de volta, assim como Beau no Jogo dos
Veteranos, e em seguida vejo os colegas dele a distância agitados pelo mesmo efeito estroboscópico. Só que eles não estão desaparecendo como Jack, estão mudando, se rearranjando numa velocidade impossível, do lado esquerdo do campo num instante e do direito no seguinte; no meio de
polichinelos e de repente trotando pela outra extremidade da pista de corrida. Observo um garoto específico, T.J. Bishop, cujo corte de cabelo
fica oscilando entre um raspado baixo e um rabinho de cavalo pateticamente curto, o corpo se avolumando e emagrecendo numa cadência
estável e ritmada.
— As Coisas Erradas — falo para mim mesma em voz alta. Ainda não
faço ideia do que significam.
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