O amor que partiu o mundo

Emily Henry · Capítulo 19 de 34

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O amor que partiu o mundo

Capítulo 19

19

 

— ACHO ÓTIMO que você vai à festa de Derek — diz mamãe da soleira da porta enquanto coloca os brincos com penduricalhos.

— Sério? Ótimo? — falo. — Você sabe quem é Derek?

Ela faz um beicinho.

— Admito que ele não é o meu favorito dentre os seus amigos. Mas sei como tem sido difícil para você ficar longe de Megan e se afastar de Matt.

Você só tem mais algumas semanas aqui antes das férias, e aí já é meio que hora de ir para Brown. — Mamãe está melancólica, apesar de se esforçar

para parecer tranquila. A viagem das férias de verão sempre tem esse efeito sobre ela. É a única época do ano em que todo mundo está feliz, conectado

e empenhado ao mesmo tempo, e é porque ela planeja com cuidado para que seja assim. Neste ano, com Brown pairando no horizonte, a viagem

parece diferente, como se estivéssemos planejando um último hurra! antes de a nossa família se estilhaçar. Ela fala: — Você deveria aproveitar esse

tempo.

— Você tá falando para eu encher a cara.

— Natalie — diz mamãe, levando a mão ao peito. — Não é isso que estou dizendo.

— Brincadeira.

— Vai ter álcool nessa festa? — pergunta ela, de repente preocupada.

— Não — minto, tentando evitar que meus olhos se desviem para o lado.

Mamãe agarra um frasco de hidratante para as mãos em cima da minha

mesa e esfrega as palmas.

— Se você precisar de uma carona para casa, sabe que pode me ligar, não

é? Eu sempre vou preferir que você esteja segura.

— Tá, agora você definitivamente está me dizendo para encher a cara.

— Não estou — protesta mamãe. — Eu só reconheço que você está ficando adulta. Vai tomar as próprias decisões, e sei que você é uma garota

esperta, mas todo mundo comete alguns erros. Quero que você saiba que estou aqui, não importa o que aconteça. Sempre pode contar comigo e com

o seu pai.

— Então você quer que eu fique grávida, ou…?

Mamãe cruza os braços e me lança um olhar severo.

— Seja boazinha — diz ela, seguindo pelo corredor.

Beau me busca às nove, cerca de uma hora depois que mamãe e papai saem para o encontro deles e vinte minutos depois que a mãe de Abby

busca Jack e Coco para deixá-los no cinema. Ele buzina do acesso para carros, e saio correndo para ver que ele está insuportavelmente bonito com

seus jeans gastos e uma camisa xadrez igualmente puída.

— Pronta? — pergunta ele, enquanto entro no carro.

— Tanto quanto possível. — Para dizer a verdade, mais ou menos no segundo em que nos separamos na noite passada, comecei a me preocupar

que permaneceríamos separados. Agora que estamos juntos, porém, isso parece impossível. Sinto como se estivéssemos ancorados um no outro.

Seguimos para além da escola até o bairro chique dos Dillhorn, cheio de pequenas mansões, com o próprio campo de golfe e clube country. A festa

já está a toda, a música bombando e os carros estacionados por toda a entrada rotatória no topo da elevação.

— Minha versão ou a sua? — pergunto a Beau. Tive aquele frio na barriga há algum tempo, mas foi tão sutil que achei que tivesse imaginado.

Ele fecha os olhos por um segundo.

— Minha.

— Como você sabe?

— Eu falei para você, você pertence a este lugar mais do que qualquer

outra pessoa — diz ele, suavemente.

— Falou mesmo.

— A sensação na sua versão do mundo é diferente — comenta ele. — Parece com você.

Eu rio.

— Quando mudou?

Beau encolhe os ombros.

— São tão parecidas que às vezes é difícil definir.

— Acho que estou dando conta da minha parte do trato até agora — afirmo. — Eu vim até a sua Union.

— Então eu não posso beber esta noite?

— Só cerveja — falo. — Cerveja não conta.

Salto do carro, seguindo-o pela longa extensão de grama até a piscina azul brilhante e o terraço atrás da casa. As portas dos fundos estão abertas

para a cozinha, e pessoas se espalham desde o barril na bancada do lado de dentro até os dois lados da piscina e as profundezas do quintal, onde

mariposas esvoaçam em torno das luzes instaladas ali, suas frágeis asas vibrando com a música.

A mão de Beau desliza em torno da minha, e ele abre caminho pela aglomeração na direção da mobília do pátio, do outro lado da piscina, onde

metade do time de futebol está reunido, bebendo e passando um baseado, com as namoradas empoleiradas no colo.

Beau fixa uma das mãos no ombro de um deles e meu coração quase para quando Matt se vira, a garota loira no colo dele se levantando de um pulo

para deixá-lo ficar de pé. Fico duplamente aturdida quando reconheço a loira: é Megan.

Ai, meu Deus. Eles estão juntos. Num universo paralelo, minha melhor amiga e o meu ex estão juntos. Devia ser com ela que Matt estava naquele

dia no cinema.

— Oi, cara — cumprimenta Matt, dando um tapinha nas costas de Beau,

e luto desesperadamente para controlar os músculos do meu rosto, minha pulsação e minha náusea. Ver Matt com Rachel era uma coisa, mas isto é completamente diferente.

— Queria te apresentar uma pessoa — diz Beau. Os olhos de Matt e de Megan se desviam para mim. O cabelo de Megan tem um corte curto, a

maquiagem nos olhos é mais generosa que o normal e os brincos de argola são maiores, mas ela é inquestionavelmente a outra versão de Megan que

conheço há anos. E este Matt é idêntico ao que me deu uma carona até a NKU há alguns dias.

— Oi — digo, estendendo uma mão trêmula para Megan primeiro. — Meu nome é Natalie.

Não sei o que estou esperando. Algum lampejo de reconhecimento, talvez, algum sinal de que ela está ciente de que nascemos para ser

melhores amigas, mas não há nada, e sinto como se meu coração estivesse se despedaçando. Megan dá um sorriso educado.

— Meg.

Me viro para Matt em seguida, tentando me recompor. Quando nossos

olhos se encontram, os dele se suavizam de imediato e sua boca se abre, um rubor se espalhando rapidamente pelo seu pescoço enquanto ele me

percorre com o olhar.

— Oi — diz ele, pegando minha mão.

Quando os olhos dele se deslocam de novo para os meus, fico estupefata com o que vejo neles. Não exatamente reconhecimento, mas uma coisa que

não deveria estar ali, não neste Matt Kincaid: suavidade, conexão.

Ao meu lado, estou ciente dos olhos de Beau voltados para o chão, e solto

a mão de Matt o mais depressa que consigo. Megan repara em Matt me acariciando com os olhos também: ela cruza os braços e ergue as

sobrancelhas quando olha para o outro lado do pátio.

— Com licença — diz ela. — Acho que preciso fazer xixi. Ou tomar um

banho. Vomitar. Alguma coisa no banheiro.

Quero ir atrás dela, pedir desculpas, mas ao mesmo tempo me sinto traída, não importa o quão ilógico seja o sentimento. Como Matt e Megan

poderiam estar juntos? E por que ela não está em Georgetown? Não deveria importar, não são a minha Megan e o meu Matt. É hipócrita e eu sei. Como

posso dizer a Beau que ele não precisa se sentir mal com o que está acontecendo entre a gente quando eu me sinto mal com o que está

acontecendo entre eles?

— Como você e Wilkes se conheceram? — pergunta Matt, a voz dele

tensa e estranha. Essa coisa toda está esquisita demais.

Abro a boca para responder, mas sou interrompida por um grito bêbado

do outro lado da piscina.

— VAI SE FERRAR, BEAU WILKES. — Viro-me para ver Rachel e

algumas das garotas da equipe de dança amontoadas sobre duas das cadeiras de praia de Derek, copo plástico vermelho nas mãos. Ela dá um

sorriso agressivo e ergue o copo para acenar para mim. — Aproveite enquanto dura — grita ela.

As pessoas soltam um ooh, e Beau coloca uma das mãos nas minhas costas.

— Quer aquela cerveja agora?

— Ou 15 shots consecutivos de tequila, o que você encontrar primeiro.

— Versão do mundo dele ou não, talvez seja mais difícil sobreviver a esta noite do que eu tinha imaginado. Olho para Matt. — Quer uma bebida

também? — Beau enrijece ao meu lado.

Matt apenas sacode a cabeça.

— Ah, melhor não.

Beau volta a relaxar.

— Já volto então.

Eu o observo deslizar para a cozinha lotada até sentir que Matt está me

encarando.

— Já nos conhecemos — diz ele.

— Já?

— No cinema. E em algum momento antes disso, certo?

— Ah. — Desgrudo meu cabelo do pescoço e o jogo por cima do ombro. — É verdade. Acho que nos conhecemos em alguma festa no verão passado

ou algo parecido.

— Hã. — Matt afunda as mãos nos bolsos e olha para os sapatos. — Você

é de algum lugar por aqui?

— Rhode Island — digo a mentira que meu cérebro conseguiu criar

primeiro. — Estou aqui só visitando familiares.

Matt ri.

— Rhode Island? O que tem em Rhode Island?

— A Universidade Brown, para começo de conversa.

— Você estuda em Brown?

— Vou começar no outono.

Ele olha por cima do ombro para a cozinha, onde Beau está enchendo dois copos no barril.

— Não leve isso para o lado pessoal, mas você não faz o tipo de Beau.

— E como seria o tipo dele?

Matt olha para trás mais uma vez. Sigo o olhar dele até a garota apoiada na bancada, lançando um olhar fatal para Beau.

— Rachel Hanson — diz Matt. — Garotas malucas, em geral.

— Eu não diria que Rachel é maluca — comento. Matt parece confuso e

eu volto atrás. — Quero dizer, ela não me parece maluca. É meio admirável que ela simplesmente grite o que quer que esteja pensando a plenos

pulmões.

— Ainda que ela esteja pensando que adoraria raspar sua cabeça?

— Seria um problema pra ela. Eu ficaria ótima de cabeça raspada.

— Provavelmente — diz Matt, ficando vermelho. As piadas, o flerte, a

sensação de que é importante que Matt Kincaid me queira. Meu Deus, isso é tão familiar. Mas ele também é diferente do meu Matt, mais relaxado. Definitivamente menos animado ou afetado, mas simpático da mesma forma.

Eu olho por cima do ombro dele para a cozinha. Rachel desapareceu, mas Beau foi interceptado por Derek e outros jogadores. Está apoiado contra a

porta da despensa, os olhos ignorando todo mundo para me focar, e quando encontro o olhar dele, ele dá um sorriso imperceptível. É uma expressão tão

diminuta e serena, mas o faz brilhar, me preenche de calor até que eu precise desviar os olhos.

— Então, ele é bom? — pergunto a Matt.

— Não, ele é o mal encarnado — brinca ele.

— Quero dizer, no futebol americano — esclareço.

— É, ele é bom. Bom de verdade, mas preguiçoso. Ele poderia ser

excelente se quisesse.

— Você acha que ele não quer ser excelente?

— Ah, não de verdade. Não acho que ele saberia lidar se descobrisse o quão bom é. Ele mal consegue lidar com o fato de a gente depender dele, e

a maior parte de nós joga junto desde os dez anos. — Matt faz uma pausa e coça a parte de trás da cabeça, ansioso. — Foi do mesmo jeito com Rachel,

sabe.

— Ah.

É como se eu tivesse tomado um tapa na cara, e ele deve ter reparado, porque se apressa em dizer:

— Não do mesmo jeito que você e ele. Eu quis dizer que com ela foi como com o futebol americano.

— Não entendi. O que você quer dizer?

— Sei lá. É difícil explicar — responde Matt, fixando o olhar para além

da piscina. — Eles só duraram tanto tempo porque ela começou a exigir cada vez menos dele. Ela o traía e ele nem se importava, mas, toda vez que

ela brigava com a mãe ou era feita de trouxa por algum cara, ele estava ali para ela e eles voltavam.

Eu me pego pensando sobre o meu Matt, em quantas vezes deixei as coisas continuarem porque não conseguia separar o meu amor por ele da

vontade de simplesmente querer estar com ele.

— No fim das contas, Wilkes não consegue se conter — diz Matt. — Ele

é um mártir. Um mártir autossabotador, o que na minha opinião é o pior tipo.

Eu rio.

— Que monstro.

— Exato — concorda Matt, sorrindo para o chão. — É provavelmente o que o torna tão bom no jogo, mas também por que ele levou toda a culpa

quando nós dois acidentalmente pusemos fogo no celeiro da família aos treze anos. E agora tenho uma dívida eterna com aquele canalha.

— Quer que eu coloque o pé na frente pra ele tropeçar ou alguma coisa assim para você poder salvá-lo?

— Você faria isso? Seria ótimo. — Depois de um segundo, ele acrescenta: — Ele é um cara legal. Lembre-se disso… se ele começar a

tentar te afastar.

Ele sustenta o meu olhar e uma dor estranha me percorre. Este é mais

parecido com o Matt que eu conheço do que meu ex-namorado tem sido nas últimas semanas. As coisas seriam deste jeito se tivéssemos continuado

como amigos em vez de ir parar num relacionamento. Sinto falta dele, percebo. Sinto falta de um Matt Kincaid que nunca mais vou ter.

— Vou lá salvá-lo do time — digo, inclinando a cabeça para a cozinha —, antes que alguém precise que ele faça alguma coisa.

— É. — A voz do Matt tem uma pontada de pesar que só alguém que o conhece bem notaria. — Definitivamente.

Eu me espremo por entre o Outro Brian Walters e a Outra Skylar Gunn para dentro da casa. Beau se endireita quando me aproximo, pousando o

copo na bancada e passando os braços em torno da minha cintura para me puxar para perto.

— Nenhum shot de tequila? — pergunto por cima da música.

Ele sacode a cabeça.

— Quem é sua amiga, Wilkes? — grita Derek. — Sabe o nome dela, Quatro?

— Melhor você pegar o nome dela antes que Rachel a agrida e você tenha que dar um depoimento à polícia — diz o Outro Luke Schwartz.

— Quatro? — Estou nas pontas dos pés para Beau poder me ouvir.

— Número no futebol — diz ele.

— Esse é o número de Matt. Meu aniversário.

Ele balança a cabeça.

— Kincaid é 19.

Empolgação e nostalgia se agitam simultaneamente pelo meu interior.

Tem um mundo inteiro no qual Matt não construiu a vida dele em torno de mim, não planejou uma eternidade comigo que eu não pude dar a ele, em

que ninguém pensou que nosso destino era o altar. Eis aqui um mundo em que não sou nada a não ser eu mesma, onde, por coincidência ou destino,

Beau é o número quatro.

Meu aniversário.

Luke e Derek continuam falando, tentando se superar no jogo de me deixar desconfortável, completamente alheios ao fato de que eu os vi tirar

as fraldas, apanhar, se fantasiar de Buzz Lightyear e Woody no Halloween e tomar surra dos pais em excursões da escola. Beau os está ignorando por

completo, o olhar intenso em mim.

— Vamos lá para fora — digo. Ele me segue de volta ao pátio. Andamos

pela piscina iluminada e sentamos na beirada, ignorando o alvoroço de mosquitos circundando a superfície morna. Rachel saiu da cozinha, mas ela

e as amigas não estão mais no pátio, e sinto uma pontada de culpa momentânea por talvez ter sido eu quem a tirou dali, da mesma forma que

vê-la com Matt me fez sair correndo.

Me ocorre que não faria diferença. Como Beau falou, ainda que todos tivéssemos nascido no mesmo mundo — se Matt e Beau fossem melhores

amigos e Beau fosse ex de Rachel —, nada mudaria para mim. Não posso desfazer tudo o que aconteceu entre mim e Matt; nunca vou poder voltar a

ser apenas amiga dele, mas posso seguir em frente, para além do passado.

— Você está bem? — pergunta Beau, batendo o ombro no meu.

— Estou — respondo, sacudindo a cabeça para afastar os pensamentos. — Ei, adivinha o que fiquei sabendo.

— O quê?

— Que você é muito bom no futebol americano.

Ele examina o brilho azul elétrico da piscina, faz que sim, mas não fala nada.

— Você vai continuar jogando?

Ele sacode a cabeça e a joga para trás para olhar as estrelas.

— Nem.

— O quê… Por que não?

— Onde eu poderia jogar, Natalie? Você acha que tem um time na borracharia?

— Nenhum olheiro te achou? — pergunto. Ele fica em silêncio por um instante. — Achou, não foi?

Ele dá um suspiro profundo e abaixa os olhos para mim.

— Não quero falar sobre futebol americano.

Debato por um momento, dividida entre a minha necessidade de compreendê-lo e a minha vontade de tirar aquela expressão do rosto dele.

— Tudo bem — digo.

Ele se inclina para a frente para me beijar, mas, antes de conseguir,

alguém o empurra com força de trás. Ele cai para a frente na piscina, gritinhos surpresos se erguendo pelo pátio quando a água respinga em

pernas e pés. Olho para trás a tempo de ver Rachel se afastando, presunçosa. Quando me viro de volta para Beau, ele está rindo como quem não acredita, puxando o cabelo úmido para trás e chapinhando até mim. Não consigo deixar de rir também enquanto agarro os lados do rosto

encharcado dele.

— Você acha isso engraçado, Natalie Cleary? — pergunta ele, sorrindo.

— Desculpa — digo, mas não consigo parar de rir. — Isto é péssimo.

— É, dá para ver que você está se sentindo bem mal.

— Estou. Muito mal.

— Eu também. — Ele passa os braços ao redor da minha cintura e me

beija, então me puxa da beirada para a água aquecida, meu vestido tentando se erguer acima das minhas coxas e as sandálias querendo nadar para longe

dos meus pés.

— Beau — censuro sem muita convicção. Mais gritos irrompem quando

Derek e Luke e Lauren Peterson pulam na piscina ao nosso redor. — Não acredito que você fez isso.

— Desculpa — imita Beau. Eu jogo água nele e ele agarra meus braços, os prende ao lado do meu corpo e me beija, fazendo meu estômago

estremecer. Ele se afasta para olhar nos meus olhos. — Você me perdoa?

Estou prestes a responder quando vejo Matt por cima do ombro de Beau.

Ele está de pé na beirada do pátio me encarando, a mandíbula solta, bêbado e devastado. Não é o Matt de Beau.

Meu Matt. Tenho certeza.

— Preciso falar com você — grita ele por cima do barulho.

Tudo está exatamente como há um segundo e, ainda assim, completamente diferente. A equipe de dança está reunida nas cadeiras

reclináveis, Rachel no meio delas como se nunca tivesse saído, o cabelo o castanho brilhante de sempre. Estamos de volta no meu mundo agora.

Beau se vira para olhar para Matt e deve perceber a mesma coisa porque não diz nada. Ele olha de volta para mim.

— Volto em um minuto — digo, surpresa com a minha decisão.

Ele acena uma vez com a cabeça. Ando até os degraus e saio da piscina, pingando e tremendo ao leve sinal de uma brisa. Matt avança até a entrada

de carros sem uma palavra e eu o sigo, meu rosto ardendo de vergonha e ansiedade.

Os refletores dos Dillhorn estão diante da casa, iluminando a elaborada colina coberta de vasos de plantas no centro do grandioso acesso para

carros. Matt anda em passadas largas até o meio da rua antes de se virar para a mim. Abre a boca, mas não sai nenhum som, e ele se vira para o

outro lado furioso de novo. Quando volta a me olhar, os olhos estão marejados, e meu peito se comprime de culpa.

— Por que você está fazendo isto?

Inspiro profundamente para tentar ficar calma, segurar as emoções.

— Fazendo o quê?

Ele projeta o braço na direção do quintal.

— Quem é aquele cara? Por que você o traria aqui quando sabia que eu estaria na festa? Por que você… — Ele para de falar e dá mais alguns

passos vacilantes pelo declive, na direção do carro dele.

— Achei que você iria parar de beber — falo, baixinho.

— Eu achei que você me amava — devolve ele.

— Sério? — gritei. — Você também achou que você me amava?

— Eu amo você — rosna ele. — Amo você e você está arruinando a minha vida. Você me jogou fora como se eu fosse lixo e ainda nem sei por

quê. Será que você sabe por quê? Porque um dia você me amou e no dia seguinte nem me queria mais, e você nunca me deu uma resposta direta

sobre o motivo. E sabe qual é a pior parte? Eu continuo amando você desde então, ainda que esteja me matando, e aí você aparece aqui com um cara

aleatório e beija ele bem na minha frente.

— Matt, por favor — falo, soluçando, tentando pegar a mão dele. —

Desculpa. Eu não sabia que você estaria aqui, juro. Eu não faria isso com você.

— É a festa do meu melhor amigo!

— Eu sei, mas…

— Para! — grita ele, sacudindo a minha mão. — Você era tudo o que eu queria. Tudo o que eu sempre quis, e eu não sou nada para você.

Balanço a cabeça.

— Isso não é verdade. — As lágrimas estão rolando com mais força, com

mais velocidade, deixando minha voz cada vez mais distorcida a cada sílaba. — Eu amo você, Matt. Você sabe que eu amo você.

— Não sei, não — diz ele, sacudindo a cabeça. Ele se vira e anda na direção do carro, abrindo a porta com um movimento rápido.

Corro atrás dele.

— Matt, eu vou embora. Você não deveria dirigir agora.

Quase grito quando ele pega na parte de cima dos meus braços e me empurra contra o lado do carro.

— Para de fingir que você se importa com o que eu faço.

— Você não tem que ir embora — digo, sem fôlego, tentando tocar os

ombros dele, tentando acalmá-lo, apesar de ele ficar empurrando as minhas mãos. — Eu vou. Vou embora. Desculpa.

Os dedos dele afundam com mais força, e os olhos estão desfocados quando ele bate minhas costas contra a porta do carro de novo.

— Como você pôde fazer isto comigo? — grita ele. — Diz para mim por que você estragou a gente.

— Matt, por favor. — As mãos dele estão tremendo, ou eu estou tremendo, ou as duas coisas, e lágrimas embaçam minha visão. — Você está

me machucando.

— Me diz por quê. — Ele me joga contra o carro de novo. Com força,

força demais. Estrelas giram atrás das minhas pálpebras. Não estou machucada, mas chocada, assustada, tremendo muito. A boca dele está a

poucos centímetros da minha e penso aterrorizada que ele pode tentar me beijar quando de repente alguém o puxa com força de volta para a rua.

Ele cambaleia para recuperar o equilíbrio e se move na direção de Beau, que dá um soco na bochecha de Matt, fazendo-o titubear para trás. Quando

me dou conta, tem uma verdadeira briga no meio da rua, e um monte de gente vem correndo para a lateral do gramado assistir.

— Para! — berro, mas eles me ignoram.

Beau envolve o pescoço de Matt com os braços e começa a dar joelhadas

na barriga dele. Tento puxar Beau para longe de Matt, gritando o tempo todo.

— Beau, para! — Estou soluçando sem parar. Matt tropeça para trás e cai no chão, ofegando enquanto Beau avança até ele. Imploro: — Beau.

Ele para, se vira para me encarar e enxuga a boca com o dorso da mão.

Matt luta para se levantar, sangue pingando dos lábios dele e do corte na

bochecha, e anda vacilante até o carro. Ele me encara durante todo esse tempo, furioso, sacudindo a cabeça, depois entra no carro e acelera,

cantando pneu.

Não sei quanto tempo fico ali parada. Não sei mais em qual versão estou.

Não sei nem se faz diferença.

Finalmente me viro para voltar, encontrando Beau e uma aglomeração

silenciosa dos meus colegas de classe me observando.

— Me leva para casa.

Beau anda até a camionete e entra sem dizer palavra. Eu o sigo, minhas pernas balançando que nem gelatina num terremoto e meus olhos evitando

desesperados todo mundo que nos encara enquanto damos ré pelo acesso para carros.

— Você não tinha que ter feito aquilo — digo.

— Tinha, sim. — A voz dele está baixa e ele dirige rápido, sem olhar

para mim.

— Você devia ter ficado fora daquilo. — Ele dá uma risada hostil. —

Estou falando sério, Beau. Você machucou ele de verdade.

Ele sacode a cabeça.

— Do jeito que ele ia fazer com você, você quer dizer?

— Ele não teria me machucado — insisto, apesar de ainda estar

tremendo, de ainda ver o olhar desfocado, quase sanguinolento, nos olhos de Matt.

— Natalie, você realmente não entende, não é mesmo?

— Não entendo o quê?

— Esquece — diz ele. Nenhum de nós diz nada pelo restante do caminho e, quando paramos na frente da minha casa, ele desliga o carro e

continuamos em silêncio. Por fim, Beau fala, sem desgrudar os olhos do volante: — Eu posso beber demais e entrar numas brigas de vez em quando,

mas eu nunca machucaria você nem nenhuma outra pessoa com quem me importo. Você não merece isso. Ninguém merece. Você não deveria ter que

sentir medo de uma pessoa que ama, Natalie.

— Tenho que ir. — Saio do carro e corro para dentro de casa antes que

ele possa ver as lágrimas começarem a cair.

 

ACORDO NO MEIO da madrugada de novo, e desta vez sei de imediato: não estou sozinha. Concentro o olhar na cadeira de balanço.

A Avó está ali, mas pela primeira vez ela está usando roupas diferentes: um robe de dormir cor-de-rosa aberto sobre uma camisola azul desbotada.

A pele dela está menos enrugada, o cabelo puxado para trás em um coque perfeito.

— Avó — digo, me sentando.

Ela parece cega, pelo jeito como os olhos dela se movem pelo quarto.

— Não tenha medo, Natalie — diz ela, então desaparece.

— Avó — falo para a noite. — Avó.

Sem resposta. Tento pensar na música que Beau tocou na sala de ensaios naquela noite, na sensação que me deu. Tento sintonizar na minha própria

ansiedade. Essa parte é fácil: tem um nó no meu peito e um peso no meu estômago, aquela sensação indescritível de que tem alguma coisa errada.

Ouço Gus choramingando na porta. Levanto da cama para deixá-lo sair para o corredor e ele vai direto para a escada, batendo as patas de um jeito

desajeitado até chegar ao saguão. Uma luz da cozinha chega à borda das escadas, e vozes abafadas viajam com ela.

Me esgueiro pelos degraus e desço o corredor até a cozinha. Mamãe e papai estão sentados à mesa de frente um para o outro e, quando mamãe

repara em mim, de pé na soleira, vejo que os olhos dela estão vermelhos e inchados. Papai se vira e me olha, revelando a própria expressão profunda e

sombria.

— Oi, docinho de coco — diz ele, suavemente.

— Qual é o problema?

Eles trocam um olhar e mamãe começa a chorar, cobrindo a boca com a

mão esguia. Papai inclina a cabeça na direção da cadeira amarela de madeira ao lado dele, mas não consigo me mover. Meus pés pesam meia

tonelada, e meus batimentos cardíacos são os de quem está no meio de uma corrida.

— Papai — insisto, minha voz pouco mais que um grunhido.

Ele dá um suspiro e se levanta, colocando uma das mãos no ombro da

mamãe enquanto a figura esguia dela se sacode sob as lágrimas silenciosas.

— Querida, ele está vivo — começa papai —, mas Matt Kincaid sofreu

um acidente de carro.

 

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