O amor que partiu o mundo

Emily Henry · Capítulo 15 de 34

Páginas do PDF

O amor que partiu o mundo

Capítulo 15

15

 

SEGUNDA À NOITE é o dia da Passeata da Independência no centro da cidade, um desfile com direito a cavalos de passada usando uniformes,

seguidos do show anual de fogos de artifício na minimansão de Luke Schwartz. Eu costumava amar as comemorações do Quatro de Julho:

marchar com a equipe de dança nos nossos collants de lantejoulas azuis e laranja e com as sainhas de lycra, ir à casa de Luke ver os fogos de artifício

legais que o assistente do pai dele viajava até Indiana para comprar para a gente. A ironia de, sendo de origem indígena, celebrar o Dia da

Independência não me ocorreu até quando eu tinha cerca de sete anos, mas ano passado foi a primeira vez que me senti ferida o suficiente pela ideia a

ponto de não ir ao desfile. Mamãe sabia o quão empolgada eu costumava ficar pelo dia 4 de julho e não foi difícil entender por que ela ficou confusa;

por algum motivo inexplicável, eu ainda decidi que o melhor jeito de explicar casual e tranquilamente meu crescente desconforto era

comparando minha participação no desfile a dar cambalhotas pela Trilha das Lágrimas.

O efeito foi tão bem-sucedido como se pode esperar de qualquer piada envolvendo genocídio. Quer dizer, eu mesma fiquei nauseada e fiz mamãe

chorar. É claro que ela e papai deixaram de ir ao desfile em solidariedade. Por isso não fico surpresa ao ouvir uma leve batida na soleira da porta do

meu quarto e, ao levantar os olhos, ver mamãe com um sorriso hesitante.

— Que tal você, seu pai e eu fazermos uma noite de jogos enquanto Jack

e Coco estão fora? — sugere ela.

— Papai odeia jogos — comento.

Ela afasta a ideia com uma mão manicurada e então cruza os braços por cima da barriga e desliza para dentro do meu quarto.

— Seu pai adora jogos. Ele odeia é perder.

Eu não me incomodo em comentar que sou eu quem odeia jogos e aliás

qualquer coisa que tenha um aspecto competitivo, porque sei que o objetivo da oferta da mamãe é fingir que hoje é como qualquer outro dia, e não um

feriado que ela costumava adorar.

— Na verdade, estava pensando em ir ao desfile — minto.

Ela me observa.

— Mesmo?

— Não — admito. — Mas só porque não quero ver Matt. — Assim que digo as palavras, percebo que é verdade. Deixando as convicções de lado,

eu queria muito, muito, muito mesmo ir ao desfile esta noite. Queria poder me sentar em um cobertor rodeada de amigos no gramado diante da casa de

Luke, observando as explosões de luz cintilante encherem o céu. Queria que Megan e eu pudéssemos tirar fotos de uma escrevendo o nome da outra no

ar com velas estrela de prata e beber garrafinhas de refrigerante batizadas com sorrateiras porções de vodca cujo gosto não conseguimos sentir, mas

de que gostamos só pelo prazer da rebeldia, e queria o verão e a amizade e todas as partes do Quatro de Julho que ainda amo. Queria que essa mudança

não fosse tão difícil ou que eu não sentisse com tanta força que precisava encontrar espaço na minha vida para viver e espaço no meu cérebro para

pensar. Retomo a conversa: — Eu iria se as coisas fossem diferentes.

— Ah, querida. — Mamãe solta um suspiro e se senta ao meu lado, me

puxando contra o peito dela e fazendo suaves movimentos circulares com as unhas contra o meu couro cabeludo. Ela me aperta com força. — Não vai

ser sempre tão difícil assim. O tempo cura todas as feridas.

Quando acabamos de conversar, depois que mamãe e papai enfim

aceitaram que eu vou ficar bem em casa enquanto eles saem no fim das contas, começo a pensar que ela está certa. Em julho do ano anterior, fiz

mamãe chorar, e agora ela está indo para um piquenique. Talvez a esta altura no ano que vem, quando eu olhar para Matt Kincaid ou quando pensar nele, meu coração não comece a se despedaçar. Talvez eu consiga pensar nele de novo como meu amigo.

Nesta noite, no entanto, vagueio de pés descalços por uma casa vazia, juntando a poeira de anos na sola dos meus pés e memorizando as paredes

que em breve deixarei para trás. Quando o sol se põe, subo e observo o espetáculo de fogos de artifício da janela do meu quarto na minha rua sem

saída.

Quando o último dos nossos vizinhos dispara o grand finale, desabo na

cama e mando uma mensagem para Megan:

Tanta saudade de você que chega a doer.

Segundos mais tarde, ela escreve de volta: O sentimento é múmia, e em seguida uma segunda mensagem que diz Sim, autocorretor, eu realmente

quis dizer múmia, e não mútuo. Acertou direitinho.

A vida sem você é meio mumificada, respondo. Mas pelo menos não fede.

Vamos combinar que tanto a ideia das múmias quanto a falta que sinto de você são meio tristes?, diz Megan.

Como você tem tempo para chorar com a taração do futebol?, respondo. Aliás, eu quis dizer ralação no futebol, mas meu celular simplesmente se

recusou.

Seu telefone está certo, responde ela. Taração no futebol. Meu esporte

favorito. Estou considerando tentar entrar para a equipe olímpica.

Vai vencer na carta, digo. *Na quarta*. NA CERTA**.

Você é um lindo e maravilhoso e sensual e forte fauno dourado, diz ela, e em seguida: Eu queria dizer “minha melhor amiga”, mas meu celular…

O sentimento é múmia, digo a ela. Vou dormir me sentindo triste de um jeito meio feliz.

 

BEAU NUNCA APARECE. Quando tento ligar para ele, cai direto na

caixa postal. Ligo um monte de vezes e deixo uma mensagem, mas logo dá meio-dia e fica claro que ele não vem.

Papai resolveu tirar metade do dia de folga, então ele chega em casa por volta de uma hora, larga a maleta na cozinha e começa a vasculhar a

geladeira em busca de uma cerveja.

— Onde está o seu amigo? — pergunta por cima do ombro.

— Teve um imprevisto e não pôde vir — minto. Papai olha para mim desconfiado. Estou, afinal de contas, sentada à mesa da cozinha no meio da

tarde como se estivesse esperando, mas ele não comenta nada. Eu nunca soube ao certo se o mais irritante é quando a mamãe tenta me ajudar a

processar minhas emoções em voz alta ou quando o papai me encara com seus olhos de raio X de encantador de cavalos, mas guarda o que viu para

si.

Ele olha para baixo, para a garrafa que tem nas mãos, e solta um suspiro

como se pedisse desculpas antes de enfiá-la de volta no refrigerador e limpar a garganta.

— Bem, sua mãe está certa. Provavelmente devíamos pedir uma segunda opinião antes de desembolsar alguns milhares de dólares numa coisa nova,

e eu me sentiria melhor se levássemos a um profissional. Não quero minha garotinha num carro que um garoto remendou com fita isolante.

Minha tendência inicial é a de defender Beau, mas a decepção se intensifica quando me lembro que era para ele estar aqui. Eu na verdade não

sei quem ele é; vai ver é mesmo só um garoto.

— Se você me amasse de verdade, deixaria o carro para lá e me

compraria um avião — falo, tentando desviar o assunto da ausência de Beau.

— Filhota, se você me amasse de verdade, só andaria de bicicleta. — Papai pega o telefone na bancada e lança à geladeira um último olhar

pesaroso. — Vamos lá. Vamos chamar alguém para rebocar aquela sucata.

 

— E QUANTO a este? — Coco dá uma borrifada de outro frasco roxo idêntico aos últimos cem ao lado do meu nariz. Faz trinta minutos que estamos na Bath & Body Works, e a essa altura já perdi completamente o meu olfato.

— É bom — minto, me apressando para olhar meu celular quando sinto uma vibração no bolso. Meus nervos à flor da pele disparam quando, em

vez das desculpas que esperava de Beau, vejo uma mensagem de texto de Derek Dillhorn para vários destinatários, avisando sobre uma festa que ele

vai dar enquanto os pais estão viajando. Não tentei ligar para Beau desde ontem de tarde, e ele também não me ligou. Quatro dias se passaram desde

que falamos sobre ele vir olhar o carro, quatro semanas desde que a Avó me deu o aviso sobre os três meses, e esta saída para fazer compras não está

sendo a distração de que eu precisava.

— Foi o que você disse sobre os últimos seis — reclama Coco.

— Todos eram bons.

— Então por que está fazendo essa cara?

— Porque meu cérebro está cheio de vapores e estou prestes a desmaiar — digo. — Não tem nada a ver com todo o gás tóxico que você não para de

borrifar nos meus olhos.

Coco solta um grunhido.

— Para que você quis vir?

— Porque eu queria passar um tempo com você. — E porque a mamãe

estava cansada demais quando voltou do trabalho e pediu que eu fosse. E porque, enquanto o jipe está no conserto, minhas únicas oportunidades de

me afastar do bairro virão na forma de executar tarefas usando o carro da mamãe. E porque eu precisava fazer alguma coisa que exigisse que eu

parasse de encarar meu celular estranhamente silencioso.

Coco suspira e junta as mãos.

— Você não pode, tipo, esperar lá fora ou alguma coisa assim? Está me deixando ansiosa.

— Está falando sério?

Ela arregala os olhos e faz que sim com severidade.

— Por que você simplesmente não compra um vale-presente para Abby? Ela está fazendo quinze anos, não ganhando um Prêmio Nobel.

— Eu preciso deixar claro que vamos continuar amigas depois que eu pedir transferência — devolve Coco. — A linguagem do amor que ela

entende são os presentes! Precisa ser perfeito.

— Era para eu entender do que você está falando agora?

— Você só está prolongando o processo.

— Tá. Me encontra depois na praça de alimentação. Vou ficar com a cara

enterrada numa pizza até o meu nariz parar de arder.

— Ótimo — diz Coco, borrifando o ar com um frasco verde-claro para

dar ênfase.

Tento conter um espirro ao deixar a loja e seguir na direção da praça de

alimentação. Noto Rachel sentada na outra extremidade, numa mesa à frente ao Sbarro, o cabelo recém-pintado de um tom nada natural de loiro

em vez do habitual tom nada natural castanho-escuro, e sinto um frio na barriga. Eu ainda diria que não estou com raiva dela, mas eu tinha decidido

não vê-la, nem Matt, até o dia da nossa reunião de aniversário de dez anos de conclusão do ensino médio.

A sensação passa de ruim para pior quando vejo quem está sentado diante dela.

Beau. Reclinado na cadeira, as mãos pousadas nas pernas, e Rachel está com o pé enganchado na panturrilha dele sob a mesa. No exato momento

em que registro tudo isso, o olhar dele desvia para mim. Olho para o outro lado o mais rápido que consigo e dou uma guinada para entrar no corredor

do banheiro, acelerando e rezando para ele não ter me visto. Eu sei que ele viu.

Céus, estou tão cansada de evitar a tudo e a todos.

Talvez eu devesse simplesmente ficar grata. Vai ser tão fácil deixar este

lugar no fim das contas. Talvez eu precisasse que a minha cidade natal se virasse contra mim para eu poder deixá-la para trás.

— Natalie — grita Beau atrás de mim.

Não me viro. Estou no corredor agora, praticamente correndo para o

banheiro feminino.

— Natalie, espera — chama ele de novo.

Passo como um raio pela porta do banheiro e a empurro atrás de mim, começando a andar de um lado para o outro diante da pia enquanto me

pergunto quanto tempo vou ter que ficar escondida ali. Tudo nesta situação é tão humilhante. Eu devia simplesmente ter dito “oi” para eles, agido

normalmente, mas em vez disso saí correndo e me escondi, e agora não dá para fingir que não estou chateada.

— Natalie — grita Beau através da porta. — Natalie, eu vou entrar.

Meus olhos vasculham o banheiro em busca de outra saída enquanto

corro para segurar a porta, mas fui lenta demais. Beau já entrou e estamos sozinhos, e estou tão envergonhada que quero morrer.

— Este é o banheiro feminino, Beau.

Ele me faz andar até a beirada da pia, me pega pela cintura e me dá um

beijo. Por um segundo, fico tão surpresa, tão estupefata com o quão frustrada e o quão atraída me sinto por ele, que retribuo o beijo. Quando ele

me levanta e me coloca sentada na pia, recupero a razão e o empurro com força.

— Qual é o seu problema? — grito. Pulo da pia e passo por ele pisando duro na direção da porta. — Fica longe de mim.

Sigo em passos largos até Bath & Body Works, reparando que Rachel não está mais na praça de alimentação. Costuro por entre as nuvens de

fragrâncias adocicadas, marcho até Coco e a arrasto até o balcão revestido de madeira compensada das caixas registradoras.

— O que quer que você estiver segurando neste momento vai ser o presente de Abby.

 

ACORDO ASSUSTADA NO meio da noite, e meu primeiro pensamento é

que a Avó está aqui. Sento e encaro a cadeira de balanço, mas está vazia. Acendo o abajur do lado da minha cama, e Gus solta um resmungo de frustração. Talvez esteja latindo no sono de novo — o que tem o conhecido

efeito de me acordar de madrugada.

Bem nessa hora, alguma coisa retine contra a janela no closet; deve ser o

vento. Um segundo mais tarde, ouço o mesmo som, só que um pouco mais alto. Levanto da cama, vou de fininho até a janela e afasto as cortinas.

Olho para baixo, para além do telhado da varanda e o gramado em frente à casa, onde Beau está de pé. Ele larga um punhado de pedrinhas e ergue

uma mão para acenar. Hesito por um segundo, então fecho a porta do closet atrás de mim antes de abrir a janela.

— Oi — diz Beau. Está oscilando um pouco no lugar, as roupas amarrotadas e o cabelo bagunçado.

— O que é que você está fazendo aqui? — sibilo.

Ele olha para baixo, para os pés, e depois de novo para mim.

— Posso subir?

— Você está bêbado? — pergunto. É quando reparo em como o rosto

dele está maltratado, levemente machucado como se ele tivesse acabado de sair de uma luta.

Ele olha para longe, passando uma das mãos pela boca. O silêncio dele responde minha pergunta.

— Vai para casa, Beau.

— Eu preciso te dizer uma coisa — ele fala.

— Então volta quando estiver sóbrio.

Ele olha rua acima.

— Eu sei o que está acontecendo com você, Natalie.

Solto uma risada frustrada.

— O quê? Que tem um cara namorando uma das minhas antigas melhores amigas e brincando com os meus sentimentos?

Ele balança a cabeça.

— Não estou saindo com ela.

Não ligo para o que ele diz. Não sou uma analfabeta de linguagem corporal: aquilo era um encontro.

— Beau, vai para casa.

— Desculpa pelo outro dia — diz ele. — Eu mandei mal. Eu devia ter

estado aqui.

— Não. — Solto uma meia risada, incrédula. — Na verdade, não devia,

Beau. Você também não devia ter pedido meu telefone ou me beijado em um banheiro público enquanto estava num encontro com outra garota, mas,

sei lá, vai ver você só estava bêbado nessa hora também!

Ele me encara, as pontas dos dedos repousadas sobre os lábios. Passa

uma das mãos pela boca de novo e se vira para a camionete. Enquanto o observo se afastar, meu coração começa a martelar no meu peito.

— Beau, espera — falo num grito sussurrado enquanto saio pela janela para o telhado da varanda.

Ele olha de volta para mim.

— Você está certa, Natalie — diz ele. — É esse o tipo de pessoa que eu

sou. Você me sacou direitinho.

Ele abre a porta da camionete e ando até a beirada do telhado.

— Você não devia dirigir agora — comento, percorrendo com os olhos as janelas dos vizinhos, antecipando as luzes se acendendo que levarão a

ligações que farão com que me peguem no flagra.

Por um longo momento, ele olha para mim, depois entra na camionete.

Furiosa, desço pelo parapeito da varanda, aterrisso no pátio e atravesso até ele, abrindo com força a porta do passageiro.

— Sai.

— É o meu carro — rebate ele. — Sai você.

— Por que você veio até aqui, Beau? — digo. — Por que está fazendo isto comigo?

— Sai daqui, Natalie — repete ele.

Não me movo, então ele desce da camionete e dá a volta em passos largos, me puxando da cabine e fechando a porta. Ele começa a andar de

volta para o assento do motorista e vou atrás dele, me colocando entre ele e a porta.

— Você não pode dirigir assim.

Ele me agarra de repente pela cintura. Eu o agarro de volta, beijando-o

enquanto ele me levanta contra o carro. Ele afunda a boca no meu pescoço, me aperta em seus braços. Nos movemos de lado e ele abre a porta, me

erguendo para a cabine e se aproximando até que as nossas barrigas estejam coladas uma na outra, minhas pernas enlaçando-o, as mãos dele

percorrendo meu pescoço enquanto ele me beija sem parar.

O que estou fazendo? A raiva me domina novamente, e eu o empurro.

Ele cambaleia de volta para a rua.

— Tá bem. Você quer saber por quê, Natalie? Porque a minha vida inteira

eu achei que era louco, e agora eu sei que não sou o único. E isso seria bem legal, só que a outra pessoa, a única outra pessoa no mundo que vê o que eu

vejo, é o amor da vida do meu melhor amigo, e eu não sei ao certo como lidar com isso.

Meu coração parece parar no meu peito. Encaro Beau na escuridão. Seus olhos estão sérios e austeros; o espaço entre suas sobrancelhas, franzido.

— Do que você está falando?

— Das duas versões diferentes de Union — diz ele. — Eu sei que você

consegue ver as duas.

— Como você sabe sobre isso? — falo, baixinho.

— Porque eu também consigo ver.

 

OceanofPDF.com