O amor que partiu o mundo
Capítulo 3
3
DEPOIS DO JANTAR, Jack e Coco voltam para a Riley comigo no jipe, que está fazendo um som como se tivesse um gato preso no motor.
— Meu Deus, o que vocês acham que é? — pergunto a eles.
— Não sei — responde Jack. — Seu radiador?
— Ele não faz ideia — diz Coco, sem erguer os olhos. — Ei, você e Matt vão voltar?
— Por que você faria uma pergunta dessas?
— Abby disse que ele te chamou para sair, e que você aceitou. Eu acho
isso ótimo.
— Sério? Porque você está parecendo o Stephen Hawking quando ele diz
que alguma coisa é ótima.
— Que coisa cruel, Nat — comenta Coco, sem inflexão na voz. — Ele
não tem culpa de a voz dele ser assim.
— A voz dele não é assim. A máquina é que tem aquela voz. Ele poderia
escolher qualquer voz que quisesse. Ele poderia ter a voz do Morgan Freeman, se quisesse.
— Será que Matt consegue fazer com que me aceitem no time da universidade se vocês voltarem? — indaga Jack.
— Aí você viria nos visitar com mais frequência? — diz Coco.
— Os testes para o time de futebol americano não funcionam assim, Jack.
E o mais importante: eu não vou voltar com Matt, e o que é esse som?
— É o carburador — responde Jack.
— Ele não faz ideia — diz Coco.
Paramos na ponta do estacionamento e atravessamos a pé pelo asfalto. Há
uma brisa leve, mas a umidade faz com que o cabelo e o vestido fiquem grudados em cada centímetro do meu corpo, e espero que esta noite passe rápido para eu poder voltar para o ar-condicionado.
Eu costumava sonhar com esta noite.
Andamos até o campo de futebol americano, cujas luzes brancas e fortes
de estádio nos convidam como lâmpadas anti-inseto. Pais compareceram excessivamente arrumados, suas roupas formais sufocantes demais para o
calor, e eles tentaram compensar o inevitável odor corporal com uma dose aumentada de animação e zelo. Noto Rachel e o restante da equipe de dança
grudados na cerca de alambrado em volta do nível superior, e elas dão gritinhos e apontam e acenam até eu acenar de volta e começar a andar até
lá. Jack e Coco se separam para ir atrás de alguns dos calouros do time de futebol e se sentar com as garotas e namoradas populares.
— Vocês estão incríveis — falo para as Raideretes. Elas vão dançar esta noite, então vestiram o uniforme completo e maquiagem brilhosa, os
cabelos puxados para trás em rabos de cavalo perfeitos, os cílios impossivelmente longos.
Rachel faz beicinho.
— Queria que você dançasse com a gente hoje. É tão esquisito ver você
aqui sem o uniforme.
— Ééé — gaguejo. — Bem esquisito, mas preciso desse tempo para me
concentrar na escola, e vocês conseguiram seguir em frente mesmo sem mim na fileira de trás. Enfim, boa sorte. Ou quebrem a perna. Ou merde. Ou
só… sei lá. Façam coisas, e façam bem.
Dou meia-volta e começo a andar para as arquibancadas de metal, e uma
sensação de alívio me preenche quando percebo Megan sentada na beira do time de futebol feminino. Eu me empoleiro ao lado dela.
— Oi.
— Oooo-iiii — diz, me dando um abraço. — Como você está?
— A Avó está no pedaço.
A boca dela se escancara.
— Não acredito.
Faço que sim com a cabeça. Confio em Megan para falar da Avó, porque
ela é a única que acredita de fato. Mais que qualquer um que eu conheço, ela acredita em Deus, sempre acreditou. E, mesmo que Deus não chegue a
falar com Megan do jeito que a Avó fala comigo, e nossas ideias de quem Deus é não sejam idênticas, Megan não esboçou nenhuma surpresa quando
lhe contei meu segredo, porque ela acredita em coisas invisíveis, e ela me ama o suficiente para achar que, se Deus fosse aparecer na Terra, a melhor
amiga dela obviamente seria a pessoa para quem Ele apareceria.
— Uau. — Ela me dá mais um abraço rápido. — Você tem que me contar
tudo.
Concordo de novo. A equipe de dança está descendo das arquibancadas
em uma fileira uniforme, os pompons às costas, os cotovelos estirados para os lados e os queixos erguidos.
— Vou contar — prometo —, depois que Rachel nos mostrar o sentido da vida através da dança.
Mesmo durante a dança, há algo de mágico pairando intensamente no ar esta noite, junto com a umidade.
Talvez seja o brilho das luzes no campo amarelado ou a claridade delas nas arquibancadas. Talvez seja a banda marcial com seus chapéus de penas
brancas, todos enfileirados à esquerda da end zone de um laranja vívido, clangorando o hino do time. Eles se movem em meio à coreografia como se
estivessem todos meio altos — e não de um jeito ruim. Como quando mamãe toma uma taça de vinho tinto e anda com aquele gingado.
Normalmente, ela se move com uma postura perfeitamente ereta, firme e aprumada, como se voltasse a ser a Miss Outubro do Calendário da Equipe
de Dança da Universidade do Kentucky, com seu lindo cabelo loiro-acobreado soprado por um ventilador fora do enquadramento.
Mas o vinho faz com que ela se esqueça de como andar desse jeito, ou talvez ela apenas se despreocupe o suficiente em relação à própria imagem para querer balançar os quadris. De qualquer maneira, é agradável; e o jeito como a banda marcial está tocando o hino do time, para ninguém a não ser
o time da casa, é meio que parecido.
E todas aquelas sensações que esqueci de sentir hoje quando estava na
escola, abraçando gente que conheço desde sempre e dizendo adeus e prometendo manter contato, estou sentido agora.
Então penso na Avó e em como talvez eu nunca mais a veja.
E penso na varanda diante da minha casa, e em quantas noites Megan e
eu ficamos sentadas ali quando éramos pequenas: noites de verão quando estávamos grudentas e sujas de brincar, quando Gus era apenas um
filhotinho. Todas aquelas tardes que brincamos de esconde-esconde e pega-pega com as crianças da vizinhança que estudavam no St. Henry e no St.
Paul — e às vezes com Matty, quando o pai dele o deixava em casa depois que ele terminava as tarefas — até que o sol despencava abruptamente e
caía a noite.
Agora vejo vaga-lumes na grama perto da pista de corrida em volta do
campo de futebol americano e também pairando sobre o monte que se ergue à esquerda da banda marcial — o mesmo morro onde dei meu primeiro
beijo em Matt Kincaid, o quarterback em pessoa, quando estávamos no nono ano.
Minhas pálpebras pesam, e o hino está ficando cada vez mais lento, até que, de repente, eu devo cochilar, porque tenho aquela sensação abrupta de
estar caindo bem no meio do corpo, então tudo desaparece.
Não o estádio ou o campo, mas o som, a banda, as pessoas. Até Megan.
Tudo e todos, a não ser por mim e os grilos e aquelas benditas luzes do estádio.
Como se outra luz estivesse piscando para dentro do meu campo de visão, uma pessoa aparece, lá no meio do gramado. Um garoto, de pé e de costas
para mim, alto com ombros largos e cabelo longo e escuro de um jeito meio sujo. Ele está segurando um saco laminado na mão direita e a ergue até a boca, dá um gole no que quer que haja lá dentro, então inclina a cabeça para trás e olha para cima.
O silêncio é tão grande que faz o mundo inchar, e o garoto parece mais distante do que seria possível.
Sigo o olhar dele para cima, e o céu do Kentucky parece quilômetros mais alto do que jamais esteve. Há uma lua minguante esta noite, com uma
mistura razoável de nuvens e um punhado de estrelas. Olho de volta para o cabelo desgrenhado do garoto, suas costas e sua bunda, tentando determinar
quem é ele, mas não consigo.
Estou sonhando com um estranho. Acho que isso não é tão esquisito, na
verdade. Lembro-me da primeira vez que a Avó apareceu ao pé da minha cama, de como eu deveria ter sentido medo, mas não senti, de como eu
sabia que deveria confiar nela e senti que a conhecia, diferentemente do que acontecera com todos os visitantes que vieram antes dela.
Eu me levanto e me inclino contra o gradil no vão entre as arquibancadas. Quero descer até o campo, ficar de pé com este menino entre o céu e a
grama até que cada parte de mim esteja em contato com cada camada do mundo. Parece importante, mesmo que eu esteja tão certa de que isto é um
sonho, então fico meio tímida e acanhada, como se eu não fosse saber o que dizer quando chegasse lá embaixo.
Minha necessidade de ir até lá afinal se sobrepõe a todo o resto. Desço um degrau, e o metal range sob o meu pé.
O garoto no campo deve ouvir, porque começa a se virar, mas, antes que eu consiga ver o rosto dele, tudo volta ao lugar: o hino está terminando; a
multidão está gritando, aplaudindo, torcendo.
E ele desapareceu.
— Nat? — grita Megan por cima do barulho.
Estou de pé na passagem, segurando o gradil.
— Você está bem?
— Eu não sei.
— Quer ir embora? — pergunta ela. — Podemos ir.
— Não — respondo com sinceridade, voltando a me sentar ao lado dela.
Eu não quero tirar os olhos do campo. Alguma coisa está acontecendo aqui, algo que estou com medo de perder.
— Tem certeza?
Faço que sim. Preciso ficar e assistir. Preciso entender isto.
Além do mais, posso não integrar nenhuma equipe, mas Megan sim, e esta noite é importante para ela e para todas as garotas com quem estamos
sentadas.
Depois do espetáculo da equipe de dança, vêm as premiações dos
veteranos, para softbol e beisebol, seguidas pela apresentação das líderes de torcida, as premiações para os veteranos do futebol, e nessa altura sou
forçada a dar uma cotovelada nas costelas de Megan, porque os olhos azuis como gelo de Brian Walters a estão encarando bem descaradamente.
— Ele quer ter seus magníficos bebês de olhos azuis — sussurro.
— Se ninguém contar para Brian que ele não tem útero, será que tenho
chance? — sussurra ela de volta.
O prêmio seguinte é para tiro ao alvo, que é quando Megan e eu
descobrimos que nossa escola tem uma equipe de arqueiros. Então vem o basquete, depois uma apresentação de guarda-bandeira, até que finalmente
chega a hora dos prêmios para o futebol americano.
O treinador Gibbons se aproxima do pódio para chamar os alunos do
último ano, e a plateia irrompe em assovios e bate os pés. Matty está de pé numa extremidade, lindo e encabulado, bem no estilo de um príncipe da
Disney da vida real com sua camisa de jogador alinhada e calça jeans.
— Como a maioria de vocês sabe, sou um homem de poucas palavras —
começa o treinador no microfone. — Mas as falo devagar, o que ajuda. — Uma risadinha de aprovação ecoa pelas arquibancadas e, fiel à palavra, o
treinador começa a falar lenta e metodicamente sobre como cada um dos formandos contribuiu para o time.
Sempre adorei assistir às partidas de Matt. Ele tinha uma graça que a maioria dos atletas simplesmente não tem. Você pode ser bom em um
esporte sem isso — bom, mas não excelente. Mamãe diz que papai tinha aquela graça no basquete antes de romper o ligamento do joelho no
primeiro semestre da faculdade; ele estava rumo à NBA quando aconteceu, ela conta. Sempre achei difícil imaginar isso, uma vez que eu já o conhecera
somente como treinador e médico de cavalos. Sinceramente, ele é tão bom nisso que nem parece possível ou justo que ele possa ter tido outro talento
do mesmo calibre. Neste momento, Jack não se importa com nada além de futebol americano, mas parte de mim se pergunta quais talentos secretos ele
poderia descobrir se não pudesse mais jogar — então tento afastar esse pensamento horrível da minha mente para não desejar sem querer que meu
irmão caçula sofra um acidente.
Ficar perdida no grande momento de Matt quase me faz esquecer do
sonho, mas então acontece outra vez: uma tremulação no campo, próximo aos oito formandos em fila ao lado do treinador. De repente, no fim da fila,
aparece um nono rapaz. Só que não exatamente, porque a cada vez que ele pisca no meu campo de visão, os outros desaparecem, e só ele fica.
Alto, de ombros largos, a boca carnuda, cabelo longo e escuro e olhos sérios castanho-esverdeados.
As duas imagens piscam se alternando, quatro ou cinco vezes em rápida sucessão, como se duas mãos invisíveis e gigantescas estivessem cobrindo
num momento o time, no outro o garoto. Quando o vislumbre desaparece, é o time que continuo vendo.
Olho ao redor, para a multidão, procurando sinais de que outra pessoa também viu o nono garoto aparecer no campo, mas todo mundo continua
fascinado pelo discurso do treinador, sem demonstrar o menor incômodo diante da forma como o mundo acabara de estremecer.
— Nat? — sussurra Megan.
— Você o viu? — pergunto.
— Quem?
— O cara no campo?
Os olhos azuis dela correm até o treinador, e ela ajeita a postura para olhar em volta dos dois lados do púlpito. Quando, porém, olho de volta para
o campo, o garoto já desapareceu.
— Estou ficando louca.
— Não está — sussurra ela. — Você disse que a Avó está na área. Será que não é um dos amigos dela?
— Eu não sei se ela tem amigos.
— É claro que ela tem amigos. Você acha que os anjos são o quê?
— Não sei se ela é que nem esse Deus aí.
— Ela conta histórias bíblicas para você, não conta? — Megan sempre
agiu como se a Avó fosse Jesus de máscara. Eu, por outro lado, nunca soube o que pensar sobre onde o Deus dela termina e o meu começa. Às vezes,
quando Megan fala sobre a fé dela, penso: isso, exatamente! Mas as histórias da Avó me fazem sentir que o conceito de Deus é grande demais
para um livro ou pessoas enfileiradas em bancos de igreja ou até mesmo uma religião internacional. Deus é uma coisa que reconheço quando vejo, e
vejo o tempo todo: em Megan, no céu noturno e no sol da manhã, e na Avó.
— É… Às vezes. Mas ela também me conta histórias sobre gente com
nomes tipo Esquilo e Tâmia. Essas pessoas estão na Bíblia? Foi no Antigo ou no Novo Testamento que a Avó Aranha roubou o fogo? Porque eu
achava que era uma história de origem choctaw.
Megan empurra o cotovelo contra o meu.
— Tá bem, não sei qual é a conexão entre todas essas coisas, mas a questão é que eu conheço você. Você não é louca. A Avó é real e o que quer
que esteja acontecendo com você não é invenção da sua mente. Vamos descobrir o que está havendo, ok?
Afundo os dentes no meu lábio e faço que sim. Tiro o celular da bolsa para continuar a minha busca no Google e o ícone da bateria na telinha praticamente faz cara feia para mim. É então que me lembro do carregador que deixei no meu escaninho, junto com outras coisas que eu planejava
recolher na semana seguinte.
Estou prestes a dizer a Megan que vou dar uma corrida até a escola para
carregar meu telefone quando o treinador encerra a premiação e a multidão irrompe em aplausos. Assim que os jogadores começam a voltar para as
arquibancadas, todo mundo se levanta para se abanar e sacudir as camisas suadas. Matt salta pelos degraus até nós e coloca o braço em volta dos
nossos pescoços, dando um beijinho na têmpora de nós duas, apesar de eu não conseguir deixar de reparar no tempo que dura o beijo amigável em
mim.
— Eca, você tá suado — reclama Megan, afastando-o.
Ignorando-a, ele fala:
— Querem sair para comer?
— Claro — digo. — Só preciso buscar uma coisa no meu armário antes.
— Melhor correr; eles vão trancar tudo assim que colocarem o púlpito de
volta no ginásio.
Mamãe e papai conseguiram abrir caminho pelos degraus até nós e estão
abraçando Megan e Matt.
— Ah, que divertido ver vocês três juntos de novo — diz mamãe,
apertando o cotovelo de Megan e exibindo aquele sorriso que lhe rendeu a licença de agente imobiliária. — Não é divertido, Patrick?
Papai faz que sim, mas não diz nada. O treinador acha que é um homem de poucas palavras, mas eu gostaria de vê-lo passar um dia nos estábulos
com papai. Mamãe se vira para mim e adota uma expressão tão impregnada de empatia que penso que o esforço deve machucar a alma dela.
— Foi difícil para você, ver a apresentação do time de dança?
— Foi difícil para mim — interrompe papai, baixinho. — Achei que as
órbitas dos olhos de Rachel Hanson iam pular para fora da cabeça dela. Como chamam aquelas coisas que ela faz com o rosto?
— Expressões faciais? — sugere Megan.
— Acho que chamam aquela expressão específica de “soltei um peido
molhado enquanto fazia um grand jeté” — falo.
— Natalie — mamãe me repreende.
— Quando um cavalo faz aquela cara, você sabe que está numa situação de vida ou morte — considera papai.
— Quando Rachel dança, todo mundo fica numa situação de vida ou morte — concorda Megan, pensativa.
Mamãe enterra o rosto nas mãos.
— Ela vem de um lar problemático.
— Sim, que nem o Equino Bélico e a Seabiscuit, mamãe. Isso não é desculpa.
A ESCOLA ESTÁ escura e fria, apesar de o ar ainda pesar com a umidade.
Olho por cima do balcão para o refeitório e para a parede de janelas que dá para o gramado. Pensando nessa tarde, dou uma breve espiada no hall de
entrada mergulhado em sombras antes de sair correndo pelos corredores escuros demais.
Quanto mais me afasto das portas, mais apavorada fico por estar sozinha no escuro. A voz da Avó ecoa em minha cabeça a cada passo. Você precisa
estar preparada para o que está por vir.
Giro as combinações no meu cadeado, vasculho as fileiras
obsessivamente arrumadas de fichários e recordações que ainda restam lá dentro, enfio o carregador na bolsa e me viro para ir embora antes que o
inevitável assassino empunhando um machado apareça.
Algo me faz parar.
Uma música linda, soando pelo corredor escuro da sala de ensaios.
Eu ouvi o mito do Fantasma da Sala de Ensaios pelos últimos quatro
anos. Sempre que pensava sobre o que faria se confrontada por seu canto de sereia, jamais me imaginei me aventurando na direção dele.
Mas não tem fantasma nenhum, lembro a mim mesma. Não passa de um formando sorrateiro, que devo conhecer, e de uma música de uma beleza
assombrosa que percorre as teclas de um piano sem se dar conta.
Eu me esgueiro pelo corredor e fico de pé do lado de fora das portas de
madeira, apenas ouvindo por um tempo. A música é triste, de partir o coração até, e sou tomada por frustração por não encontrar palavra melhor
para descrevê-la. Me ocorre então que a Avó teria. Ela teria uma história inteira que soaria exatamente como esta música. Abro a porta com a maior
discrição possível e deslizo para dentro.
O piano de cauda preto fica na extremidade da sala, todo arranhado, mas
ainda elegante. A pessoa que o toca não acendeu uma única luz, de modo que é difícil vê-lo. Mas se os ombros largos e o longo cabelo levemente
sujo não revelassem quem era, o saco laminado em cima do piano definitivamente teria bastado.
Quem é esse cara? Talvez ele realmente fosse um ser como a Avó. De qualquer maneira, não quero interromper a música. Fico perto da porta,
ouvindo e assistindo, com a cabeça inclinada para trás contra a superfície úmida. As mãos dele, grandes demais, se deslocam com graça pelas teclas,
os ombros muito largos retesados sob a camiseta gasta, e a imagem — um garoto do tamanho de um urso-pardo encurvado sobre um piano que não
deveria conseguir fazer as teclas cantarem de maneira tão delicada e adorável — seria engraçada se a música não fosse tão cativante.
Fecho os olhos e penso sobre todas as histórias da Avó, encontrando a que me dá a sensação mais parecida com a desta música.
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