O amor que partiu o mundo

Emily Henry · Capítulo 1 de 34

Páginas do PDF

O amor que partiu o mundo

Capítulo 1

1

 

NA NOITE ANTERIOR ao meu último dia oficial do ensino médio, ela volta. Eu a sinto no meu quarto antes mesmo de abrir os olhos. Sempre foi

assim.

— Acorda, Natalie — sussurra. Ela sabe que estou acordada; se uma

mosca zumbisse no corredor, eu acordaria. Assim como sabe que o tapete babão e roncante em formato de são-bernardo ao pé da minha cama, o cão

de guarda que mamãe e papai adotaram para me ajudar a dormir melhor, vai continuar babando e roncando durante toda a nossa conversa.

Abro os olhos na escuridão, afasto as cobertas e me sento. Os grilos murmuram do lado de fora da minha janela, e o luar azul-esverdeado brilha

através da vegetação e alcança o carpete.

Ali está ela, sentada na cadeira de balanço no canto, como toda vez que

me visita desde que eu era uma garotinha. As feições antigas envoltas pela noite, o cabelo grosso preto-acinzentado solto sobre os ombros. Ela usa as

mesmas roupas cinza de sempre e, apesar de fazer quase três anos, não parece nem um pouco mais velha do que da última vez que a vi, ou mesmo

do que da primeira vez. Na verdade, ela talvez até pareça um pouco mais jovem. Talvez porque eu esteja mais velha e em geral menos aterrorizada

com rugas e manchas de idade que no passado.

Considero gritar, girar o botão da luminária de cabeceira ou fazer

qualquer coisa que meus dezoito anos me ensinaram que causará o desaparecimento Deles, só para dar uma lição nela, por ter me abandonado

por tanto tempo, por ter me deixado pensar que ela finalmente se fora para sempre.

Apesar da minha amargura, não quero que ela suma, então apenas fico parada.

— Legal da sua parte dar uma passada — sussurro. As palavras machucam minha garganta, que ainda não despertou. Minha visão está se

ajustando também, reconstituindo os detalhes enrugados do rosto dela, as linhas de expressão ao redor da boca e os adoráveis pés de galinha nos

cantos dos olhos escuros. — Onde você esteve?

— Estive bem aqui — diz ela. É uma de suas típicas respostas

enigmáticas.

— Faz quase três anos.

— Para mim, não faz.

De novo, pela milésima vez, inspeciono o xale desgastado e o vestido

esfarrapado que pende de seu corpo ossudo.

— Não faz — repito. — Você está fora do tempo, não é?

Ela encolhe apenas o ombro direito.

— Suas palavras, não minhas. Algum outro veio ver você?

Esfrego a parte de baixo da palma da minha mão por cima da órbita dos olhos, ganhando tempo. Tenho vergonha de admitir que ninguém veio e que

sei exatamente por quê. Apesar de eu querer ficar brava com ela por ter me abandonado, é minha culpa que não a vejo há três anos. Eu provoquei o

desaparecimento. Mas não importa se admito ou não: ela já sabe tudo de qualquer jeito. Como se quisesse provar esse argumento, ela diz:

— Acho que Gus peidou.

Me debruço na cama e olho para o cachorro felpudo. Enquanto dorme, a

língua dele está pendurada e o nariz, perpetuamente escorrendo, não para de fungar. Uma das patas traseiras começa a chutar em resposta a um sonho, e

o cheiro terrível a que ela deve ter se referido me alcança.

Cubro o nariz com o antebraço.

— Argh, Gus. Você é um monstro, e eu amo você, e você é nojento.

Espero o pior do fedor passar antes de responder à pergunta dela.

— Não houve outros. Todos se foram. A dra. Langdon disse que a terapia EMDR funcionou. Ela disse que foi por isso que você parou de aparecer. Pelo jeito, qualquer trauma que eu tinha foi resolvido. Sou uma garota de sorte. Ou era, até cinco minutos atrás.

EMDR. A sigla em inglês para Dessensibilização e Reprocessamento “Através do Movimento dos Olhos”. Um tipo de psicoterapia usado para

tratar os efeitos do transtorno de estresse pós-traumático e, no meu caso, para bloquear a mulher na minha frente e os vários outros que apareceram à

minha cabeceira ao longo dos anos.

Ela pensa por um instante.

— Sabe, um momento atrás… um momento para mim, quer dizer, três anos para você… falei uma coisa sobre a dra. Langdon. Você deu o recado?

Continuei encarando-a firme.

— Você se lembra do que contei a você, Natalie? — insiste ela.

Faço que sim com a cabeça.

— Você falou que ela iria morrer num incêndio.

— E?

— Ela ainda está viva — informo. — Ela também sugeriu que eu tentasse

Lorazepam, mas é claro que mamãe não aprovou. Pelo jeito este é um momento estressante demais na vida de um adolescente.

Deus — o apelido secreto que lhe dei anos atrás, apesar de ela insistir que eu a chame de Avó — ri e olha para baixo, para suas mãos desgastadas,

dobradas sobre o colo.

— Garota, você não faz ideia.

— Você já teve a minha idade? — pergunto.

As sobrancelhas grossas dela se erguem sobre os olhos escuros

anuviados.

— Sim — responde ela, baixinho.

— Foi estressante?

Ela fecha a boca com força.

— Quando eu tinha sua idade, não sabia nada. Nada sobre mim mesma, nada sobre o universo ou sobre corações partidos. Eu me lembro de sentir pavor de crescer, medo de perder meus amigos, certeza de que iria perder a sanidade. A vida parecia um liquidificador querendo me abocanhar. Mas as

coisas que aconteceram comigo quando eu era só um pouquinho mais velha que você… Aquelas coisas fizeram o liquidificador parecer um relaxante

banho de espuma.

Olho para baixo, para o rasgo na minha colcha. Mamãe fez este cobertor

usando um molde quando minha mãe biológica estava grávida de mim. Pertenceria a outro bebê, de uma adoção que não foi concluí da. Em vez

disso, tornou-se meu quando passei a ser dos meus pais.

— Senti a sua falta — digo à Avó.

— Senti a sua também.

— Achei que você tivesse dito que foi apenas um minuto para você.

— E foi.

Por um instante, ficamos ambas em silêncio, encarando uma à outra.

Então ela pergunta:

— Como estão os gêmeos?

— Bem — respondo. — Coco vai pedir transferência para uma escola de ensino médio especializada em Artes Cênicas no ano que vem. Jack ainda

joga futebol. Mamãe está tão orgulhosa de todos nós que pode explodir de alegria qualquer dia desses, então acho que é bom. No fim do verão, ela e

papai vão nos levar para São Francisco, e depois até Seattle. — A viagem é uma tradição deles desde que se casaram. Mamãe nunca havia viajado antes

disso, e a única reserva com relação a casar-se com papai era que ela sabia que ele amava tanto o Kentucky que nunca sairia daqui. Eles eram pobres

na época, mas papai ainda assim prometeu que veriam o mundo, ou, pelo menos, a parte continental dos Estados Unidos. Eis que nascia o anual Pé na

Estrada da Família Cleary.

Avó fecha os olhos por um bom tempo, e os cantos se enrugam belamente

quando ela os abre.

— Achei que este ano era Boulder passando por Denver até Mesa Verde — diz ela. — Jack pega uma infecção alimentar e Coco não come em

nenhum lugar que não faça parte de uma franquia depois isso.

— Isso foi ano passado — explico. — Neste ano, é a rodovia 101 inteira.

Provavelmente um bom momento para fazer um estoque de Dramin, se você estiver querendo uma dica das boas.

— E você? Como vai você?

— Estou ótima. Vou me mudar para Rhode Island em agosto, para

começar Brown… mas você provavelmente já sabia disso.

Ela faz que sim com a cabeça e voltamos a ficar quietas. Senti falta desta

sensação, de ficar sentada acordada de noite com ela enquanto o restante do mundo sonha. Os últimos três anos pareceram caóticos sem estes momentos

de tranquilidade.

— É verdade que Deus nos abandona quando crescemos? — pergunto. —

É por isso que não tenho visto você?

— Eu nunca disse que era Deus.

É verdade; ela evita a pergunta de o que exatamente ela é desde a primeira vez que apareceu, quando eu tinha seis anos, e não por falta de

perguntas, suposições e hipóteses da minha parte.

Antes da Avó, todas as alucinações eram apavorantes: esferas escuras

flutuando a trinta centímetros do meu rosto, homens grisalhos de jaquetas verdes com olhos como poços sem fundo, mulheres pintadas como palhaços

posando ao lado da minha cama. Quando vinham, eu gritava, tentava alcançar a luz, mas, no tempo que os meus pais levavam para correr até a

porta do meu quarto, as coisas desapareciam, evaporavam para dentro das paredes como se jamais tivessem vindo.

— Foi só um pesadelo. — Mamãe tentaria me tranquilizar, passando seus longos dedos pelos nós no meu cabelo. Então papai pegaria cobertores no

armário do corredor para fazer um ninho no chão ao lado da cama deles, onde eu terminaria a noite.

Quando a Avó apareceu ao meu lado daquela primeira vez na calada da noite, a sensação foi diferente. Não era como se eu tivesse um extenso

vocabulário para ocorrências espirituais ou metafísicas — minha família é do tipo “igreja duas vezes por ano”, e essas visitas bianuais nunca me

ajudaram em nada —, mas eu também nunca sentira nenhuma aversão ao conceito de Deus, apenas à ideia de que seria possível defini-Lo

precisamente em todos os detalhes.

Deus é uma coisa que penso entrever em vislumbres por toda parte: um

calor enorme e vago que às vezes capto pulsando ao meu redor, me dando arrepios e fazendo lágrimas arderem em meus olhos; uma Coisa misteriosa

e ilimitada entremeada no mundo inteiro que se re cusa a ser reduzida a um nome ou um conjunto de regras e, em vez disso, se insinua por milhões de

histórias, verdadeiras e inventadas, conectando tudo o que respira.

Eu dera à Avó esse apelido não porque achava que ela fosse aquela Coisa,

mas porque eu A via nela, e sabia que ela pertencia à Coisa. Eu não tinha outra palavra ao meu dispor que pudesse abranger um ser que saía das

paredes para me proteger do escuro.

Enquanto as visitas estilo O Iluminado não tinham sido o suficiente para

fazer meus pais me levarem num psiquiatra, um ser celestial idoso de origem indígena norte-americana aparecendo para me contar histórias sobre

a Criação bastou. Quando mencionei Avó no café da manhã, mamãe imediatamente saiu da cozinha para ligar para papai. Ficou evidente que eu

havia feito algo errado — só não sabia o quê — quando, uma semana mais tarde, mamãe voltou para casa após uma sessão com a psicóloga infantil e

teve a primeira conversa comigo.

— É totalmente natural você se perguntar sobre os seus ancestrais,

querida — disse ela com a voz trêmula. Soava como algo tirado de um dos livros estilo Você foi um presente especial que ela lia para mim quando eu

ainda engatinhava, no lugar do discurso “você foi adotada” que outras crianças que eu conhecia ouviram mais tarde. — Tudo bem você querer explorar sua identidade.

— Meus olhos estavam abertos — falei, então. — Eu não estava sonhando. A Avó é real.

Eu não podia convencer mamãe ou papai ou a dra. Langdon, mas ainda assim sabia: a Avó era real. Ela pode nunca ter admitido ser Deus, mas eu

sabia que era algo, ou parte de algo, sublime.

— Tá — falo —, o Grande Espírito, o Cara lá de Cima, o Criador da

Terra, ou Holitopa Ishki, ou qualquer que seja o nome que queira usar para si mesma… Só responde a pergunta: você vai me abandonar agora que sou

adulta ou o quê?

A boca da Avó se retesa. Ela fica de pé, e meu coração começa a martelar

— em todas as dezenas de noites em que a vi, ela nunca se levantou. Ela atravessa o quarto, se empoleira na beirada da cama e pega minhas mãos. A

pele dela é inacreditavelmente macia, como veludo, como sedimentos erodidos ou seda antiga.

— Esta pode ser a última vez que você vai me ver, Natalie. Mas sempre estarei com você.

Pisco para conter as lágrimas e balanço a cabeça. Minha amiga mais antiga no mundo, alguém que não existe de acordo com todos os

especialistas, que é apenas e integralmente minha. Não deveria ser uma surpresa tão grande. Estou indo embora para Brown em três meses. Em

breve, aquela cadeira de balanço, este quarto, os morros ondulantes e azulados do Kentucky pertencerão todos ao passado. Será que realmente

pensei que ela viria comigo? Ainda assim, me ouço perguntar:

— Por quê?

Ela passa a mão pelo meu cabelo, afastando-o da minha testa, do mesmo jeito que mamãe sempre faz.

— Deita, menina. Vou contar a você uma última história, e quero que escute com atenção. É importante.

— Sempre é importante.

— De fato, sempre é importante.

Ela volta para a cadeira de balanço, parando para fazer carinho na cabeça de Gus quando ele solta um ganido inconsciente. Ela se senta e pigarreia

antes de começar:

— Esta é a história do início do mundo e da mulher que caiu do céu.

— Já ouvi essa antes — comento. — Na verdade, se me lembro bem, foi a primeira história que você me contou.

Ela faz que sim.

— Foi a primeira e, portanto, será a última, porque agora você aprendeu a

escutar.

Aprenda a escutar, escutar com o seu corpo, a permitir que a história a

preencha. Eram coisas que ela sempre dizia. Para ser sincera, não faço praticamente nenhuma ideia do que ela esteja falando, em parte porque só a

vejo no meio da noite, quando meu cérebro está todo enevoado, e em parte porque a voz dela é o equivalente fônico de uma caixinha de música

tocando “Clair de Lune”, tão reconfortante que as palavras se perdem no edredom do som. Eu me recosto e fecho os olhos, deixando a voz tomar

conta de mim.

— Houve um mundo antigo que veio antes do nosso — começa ela —,

um mundo que nunca antes vira a morte. E naquele mundo havia uma jovem que era muito forte e muito estranha. O pai dessa mulher foi a

primeira pessoa a morrer no mundo e, mesmo depois disso, ela continuou falando com o espírito dele com frequência. A morte abrira os olhos do pai

dela para todo tipo de segredos que a mulher ainda não conseguia ver e, por causa disso, o espírito dele disse à filha que se casasse com um estranho em

uma terra distante que ele escolhera. Então, contra a vontade da mãe, a jovem confiou no espírito do pai e fez a jornada para a terra distante, onde

se apresentou ao desconhecido. Este homem era um feiticeiro poderoso e recebeu a proposta de casamento da mulher com ceticismo, já que ela ainda era muito jovem e ele precisava de uma esposa forte e resoluta. O homem decidiu que daria a ela três provas e, se ela passasse, então eles se casariam.

“Primeiro, ele a levou para choupana e lhe deu milho. ‘Moa este milho’, disse ele à mulher. Ela pegou o milho e o deixou na água até quase ferver e,

apesar de haver muitas pilhas de milho, ela o moeu contra a pedra muito rapidamente, e o feiticeiro ficou impressionado.

“Como segunda prova, ele ordenou que ela tirasse as roupas e cozesse o milho ao fogo. O milho pipocou e estourou nela, a papa queimando-lhe a

pele, mas ela não se encolheu. A jovem ficou de pé, sem se mover quando o milho a queimava, até o término do cozimento.

“Como prova final, o feiticeiro abriu a porta da choupana e convocou seus servos bestiais, que vieram correndo, e os convidou a comer o

alimento diretamente da pele nua da mulher. Apesar de os dentes e as línguas afiadas a cortarem e lacerarem e repugnarem, ela ainda se manteve

serena e firme. Então o feiticeiro concordou em se casar com ela.

“Por quatro noites, os recém-casados dormiram com as solas dos pés se

tocando, então o marido mandou a esposa de volta ao vilarejo com um grande presente de carne para todo o clã dela. Ele lhe disse que dividisse a

carne igualmente entre todos no vilarejo. Também disse que eles deveriam recolher os telhados para que ele pudesse abençoá-los com uma chuva de

milho branco naquela noite, e assim ela fez, e assim foi.

“Quando ela retornou, a choupana dele tornou-se o lar dela também, e a

mulher começou a passar os dias junto a uma árvore específica que crescia ali. Era uma árvore com flores feitas de luz, tão brilhantes que iluminavam

toda a terra. A mulher amava a árvore, que fazia com que ela se sentisse menos estranha, menos deslocada, e ficava sentada sob os galhos e

conversava com todos os espíritos e com o pai morto. Ela amava tanto a árvore que certa vez, tarde da noite, quando todos dormiam, a mulher saiu e

se deitou com ela e engravidou.

“Nessa época, o marido dela ficou doente, e nenhum dos curandeiros conseguia curá-lo, mas todos disseram a ele que a doença fora causada por

sua esposa. Ele sabia que estavam certos; o homem nunca conhecera uma pessoa tão poderosa como ela. Ele lhes perguntou o que deveria fazer.

Divórcio não existia naquele lugar. A única morte que ocorrera no mundo era a do pai dela, e ninguém compreendia isso ainda. Mas os curandeiros

eram sábios e encontraram uma solução.

“‘Extirpe a árvore de luz’, disseram-lhe, ‘e chame-a até o lugar e a

engane para que caia dentro dela. Então substitua a árvore, e seu poder será restaurado.’

“Naquele mesmo dia, o feiticeiro arrancou a árvore de luz, mas, quando olhou dentro do buraco, viu um mundo completamente diferente lá

embaixo. Ele chamou a esposa e, quando ela veio, ele disse: ‘Olhe, se debruce aqui, tem outro mundo sob nós’. Ela se ajoelhou ao lado da árvore

e espiou pelo vazio onde antes haviam estado as raízes. No começo, ela viu apenas escuridão, mas então, bem mais abaixo, viu azul, um azul cintilante

e vivo que era lindo. Era repleto de esperança e alegria e sonhos e o mesmo tipo de luz que crescia por toda a sua árvore. Ali estava a própria fonte de

toda a luz que a confortara durante a solidão. Ela olhou para o marido, sorrindo, e disse: ‘Quem teria adivinhado que a árvore de luz crescia bem

em cima de um lugar tão lindo?’.

“Ele assentiu. Então, com cuidado, sugeriu: ‘Imagino como deve ser lá

embaixo’.

“Ela disse: ‘Também me pergunto’.

“Ele disse: ‘Talvez alguém pudesse ir lá e descobrir’.

“Mas a esposa ficou chocada. ‘Como alguém poderia fazer isso?’,

perguntou ela.

“‘Pule’, disse ele.

“‘Pular?’, disse ela, se debruçando sobre o buraco novamente. Ela tentou estimar o quão lá embaixo ficava o novo mundo, mas não fazia ideia. Ela nunca vira uma distância tão grandiosa, tinha certeza.

“‘Alguém tão corajosa como você poderia fazer isso com facilidade’,

disse o marido. ‘Tornar-se uma brisa suave, ou uma pétala ou flor da árvore de luz, ou qualquer espécie de coisa, e pular suavemente e flutuar até

embaixo, ou mergulhar como uma águia, para aquele lindo mundo.’

“Por um longo momento ela manteve os olhos fixos naquele azul

cintilante, naquele azul infinito de coisas que ela nunca vira, sonhos que nunca sonhara. ‘Eu poderia pular’, disse ela. ‘Poderia flutuar. Poderia cair

no azul brilhante.’

“‘Sim, poderia’, disse o marido. Por outro longo momento, ela

permaneceu ali, contemplando e refletindo ajoelhada na beirada. Então se levantou e flexionou seus músculos rijos, dobrou os joelhos, estendeu os

braços bem acima da cabeça e mergulhou pelo buraco para o lindo azul.

“Por um longo tempo, o feiticeiro, que já não era mais seu marido,

observou o corpo dela despencar pela escuridão. Os curandeiros que o haviam aconselhado chegaram à choupana e ao buraco diante do qual ele

permanecia de pé. ‘Ela pulou’, disse ele, então eles ergueram a árvore de volta ao seu lugar e cobriram o buraco que levava ao novo mundo.”

— E, porque ela pulou, nosso mundo teve início — conclui a Avó.

— Dependendo de quem estiver contando a história — falo, sentando.

A Avó inclina a cabeça e repete:

— Dependendo de quem estiver contando a história. — Cerca de um

terço das histórias que ela me contara era algum tipo de narrativa sobre a Criação, e não há duas que se repitam. Não sei de quem são todas essas

histórias precisamente, apesar de em geral ter uns palpites decentes dependendo dos nomes, se são Esquilo e Dama do Milho ou Abraão e

Isaque. — Sabe… — A Avó inspira fundo e espia as próprias mãos no colo. — Tem um motivo para eu ter contado todas essas histórias a você, Natalie.

Volto a me sentar. Não é como se eu não tivesse perguntado a ela um milhão de vezes: Por que você aparece no meu quarto no meio da madrugada para me contar essas coisas?

— Você disse que as histórias eram o motivo.

Ela suspira, e a voz dela fica mais fraca, mais áspera:

— As histórias importam. Separadas de nós, elas importam. Somos parte

delas, Natalie. Somos muito menores que elas. Mas há outros motivos também.

Vejo lágrimas revestindo seus cílios escuros, e de repente ela parece bem mais jovem.

— O que houve? — digo. — Avó, qual é o problema?

— Não quero assustá-la — responde ela. — Mas você precisa estar

preparada para o que está por vir.

Sinto arrepios formigando em meus braços quando a Avó enterra o rosto

nas mãos. Levanto-me da cama e me agacho diante dela. Nunca a vi assim. Sempre a vi apenas de um jeito. Ela agarra minhas mãos com força, e seus

olhos encontram os meus.

— As histórias. Tudo está nas histórias.

— Tudo o quê? — pergunto.

— Tudo. A verdade. O mundo inteiro, Natalie — diz ela bruscamente. —

Aquela garota pulou no buraco sem saber o que aconteceria, e o mundo inteiro foi criado. Você compreende isso, certo? O mundo inteiro.

— Eu compreendo — minto, para acalmá-la. Porque agora estou assustada e preciso que ela seja a Avó que conheço, para que eu possa ser a

criança que é tranquilizada diante do próprio medo do escuro.

— Que bom. — Ela toca a minha bochecha. — Que bom. Porque você só

tem três meses.

— Do que você está falando…

— Três meses para salvá-lo, Natalie.

— Salvar? Salvar quem?

Os olhos da Avó, de repente imensos e turvos, se desviam para além dos meus ombros, e o queixo dela cai.

— Você — diz num suspiro. — Já… você já está aqui.

Olho por cima do ombro, o pescoço tomado pelos formigamentos, mas

não há ninguém lá.

— Não tenha medo, Natalie. Alice vai ajudá-la — afirma a Avó. —

Encontre Alice Chan.

Quando me viro de volta, a cadeira de balanço está vazia, ainda

balançando para a frente e para trás como se a idosa tivesse acabado de se levantar dela.

Estou sozinha de novo. Não sou mais a garota que fala com Deus.

 

OceanofPDF.com