O Beijo

Danielle Steel · Capítulo 7 de 17

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O Beijo

Capítulo Nove

— “Esse m enino” é seu filho, papai. Ele não precisa só de m im ou da m am ãe, precisa tam bém de você. O papai nunca fala com ele. — Não conseguia conter-se por m ais tem po.

— Ele não tem nada para dizer — observou Gordon, com aspereza, enchendo um novo cálice de vinho do Porto. E não é você quem m e diz o que tenho que fazer.

Era a m esm a conversa que Isabelle tivera com ele m uitas vezes ao longo dos anos, e das quais desistira há m uito tem po. Por razões que só ele conhecia, estava determ inado a não ter qualquer relacionam ento com o filho. Na sua ingenuidade, Sophie não conseguia alterar essa situação. Se Teddy tivesse nascido saudável e forte, a história teria sido diferente. Mas, tal com o era, para Gordon, o rapaz não existia e não tinha qualquer interesse. Irritava-o, em bora agora sentisse pena dele. Teddy não passava de um incôm odo, de um fardo. Fazia parte das tarefas de Isabelle, não das dele. E, na ausência desta das de Sophie.

A cam inho do quarto, Sophie não conseguia esconder a tristeza que sentia pelo fato de o pai falar do irm ão daquela form a. Ela e Teddy j á haviam abordado o assunto várias vezes, e o irm ão sem pre dissera que o pai não m orria de am ores por ele. Mas agora via que era verdade. Teddy afirm ava que ele era m au, egoísta e frio, e que o detestava. E agora constatava que Teddy conhecia um a faceta do pai que ela nunca quisera ver. Ter um filho com o Teddy não trazia qualquer proveito a Gordon. Preferia ignorá-lo, esquecê-lo, tal com o fizera com a m ulher.

Sophie vestiu o pij am a e voltou para o quarto de Teddy. A enferm eira inform ou-a de que ele estava com febre outra vez. Meteu-se então na cam a e aninhou-se ao lado do irm ão. Tinha a sensação de que eram duas crianças que haviam acabado de perder a m ãe. Nunca se sentira tão triste e tão solitária na vida. E a sua única esperança, enquanto as lágrim as caíam na alm ofada, era a de que a m ãe acordasse do com a o m ais depressa possível. Não conseguia im aginar o que seria a sua vida se ela m orresse.

CAPÍTULO NOVE

 

As coisas no hospital continuavam avançando. Os fisioterapeutas avaliaram o estado de Bill e estabeleceram um plano de reabilitação. Viravam -no frequentem ente na cam a para ativar a circulação sanguínea e prevenir um a pneum onia, m as, para ele, os dias eram entediantes E, um a ou duas vezes por dia, levavam -no até ao quarto de Isabelle. As enferm eiras não haviam dado a m ínim a im portância às instruções de Gordon e várias delas consideravam que as visitas de Bill faziam bem a Isabelle, além de m elhorar sobrem aneira o seu próprio estado de espírito. Sentia-se sem pre m elhor quando a visitava. Tinha um as saudades loucas das conversas fora de hora. Passava m uito tem po pensando nela, ansioso pelos poucos m inutos em que o levavam até j unto de Isabelle.

Bill j á ia sentindo certas m elhoras. O pescoço e a coluna ainda lhe provocavam algum as dores, m as j á conseguia m exer-se m ais do que antes, e j á sentia um a form igação nas pernas, m uito ligeira. Porém , o prognóstico m antinha-se. Tentava m anter o m oral elevado, pensando naquilo que iria fazer quando chegasse aos Estados Unidos, m as a volta que a sua vida dera não era fácil de digerir.

Bill tornara-se o doente favorito da equipe de enferm eiras. Estas continuavam tentando adivinhar qual era a relação que existia entre ele e Isabelle, m as a explicação para aquilo que viam não era fácil. Muitas diziam que tinham um caso, um a ouvira-o dizer à m ulher que queria o divórcio, m as, fosse qual fosse o tipo de relação entre os dois, sabiam que gostavam dele e achavam -no m uito sim patico,

— Eu levo-o. — Afirm ou um a das enferm eiras, em conversa com um grupo de colegas no bar. — É um hom em m uito atraente. — Mas Bill nunca tentara seduzir nenhum a das enferm eiras, nem fora atrevido ou grosseiro com qualquer um a delas. Todas as pessoas que lidavam com ele adm iravam -no profundam ente. Tam bém repararam que o em baixador am ericano viera visitá-lo várias vezes.

— O que ele faz? — perguntou outra enferm eira, algo confusa, sem se lem brar do que ouvira, em bora soubessem que era um hom em im portante.

— Qualquer coisa a ver com política — inform ou um a das enferm eiras de Isabelle. — Parece louco por ela. É pena.

Nisso estavam todas de acordo.

Gordon e Sophie ainda não haviam voltado a visitar Isabelle, quando Cindy e as filhas regressaram da viagem a Paris. Estas entraram bem -dispostas e saíram com ar circunspecto, depois de Cindy e Bill lhes com unicarem que iam divorciar-se.

— Porquê? — Olivia sentou-se e caiu em pranto.

— Vocês am am -se... não am am ? Mam ãe?... Papai??... — Olivia e Jane sem pre tinham pensado que os pais se am avam , m as Bill tentou explicar que há vários anos que viviam afastados um do outro e que achava m elhor para am bos seguirem cam inhos diferentes. Não quis falar-lhes dos casos am orosos da m ãe ou da infelicidade em que viviam . Preferia m anter esses segredos bem guardados. E tinha de adm itir que, de algum m odo, as coisas estavam m elhores entre eles desde que dissera a Cindy que estava tudo acabado. Sentia que havia m ais sinceridade na relação com ela. Mas esta deixou claro, antes de partir, que, se ele m udasse de idéias, preferia continuar casada. Bill m anteve-se inflexível. Já não queria estar casado com ela. Todos os seus sonhos encontravam -se agora centrados em Isabelle.

— É m elhor assim insistiu. — Mas Cindy ficou preocupada com a reação das filhas. Bill não queria explicar que não conseguiria vê-la casada com um inválido. Mas, acim a de tudo, j á não estava apaixonado por ela. O que sentia por Isabelle revelara-lhe m uitas coisas acerca de si próprio e daquilo que não tinha. Não queria continuar vivendo um a m entira. Sabia que nunca teria um a vida em com um com ela, independentem ente do fato de ela se recuperar ou não, m as o am or que sentira e continuava a sentir era suficiente para saber que estava na hora de acabar com um casam ento sem afeto.

Depois de Cindy e as filhas saírem , ficou em silêncio, pensativo. Prom etera telefonar às filhas com frequência. A cam inho do hotel, estas perguntaram à m ãe se achava que o pai ficara um pouco perturbado da cabeça e se ainda havia chances de ele m udar de idéias. Cindy esboçou um sorriso triste e fez um gesto negativo com a cabeça.

— Ele não está perturbado da cabeça. Eu é que andei de cabeça perdida durante m uitos anos. Não fui um a boa esposa para ele — confessou. — Encarei-o sem pre com o algo adquirido e fiquei ressentida com o seu sucesso e a sua independência, o que foi um a estupidez da m inha parte.

Olivia e Jane estavam abaladas com a perspectiva de os pais irem viver em casas separadas.

— Com o é que o papai vai conseguir cuidar de si sozinho? — indagou Jane, preocupada. As lesões eram graves e haviam -lhes dito que existia a possibilidade de ele nunca m ais voltar a andar.

— Não sei — respondeu Cindy, soltando um suspiro. — Ele é m uito orgulhoso e tem um a grande força interior. Conseguirá superar todas as adversidades Mas, respondendo à sua pergunta, Jane, não, não acredito que ele m ude de idéia. Nunca m uda. Se m ete um a idéia na cabeça, geralm ente leva-a avante, por m ais contrariedades que encontre. Nem sequer adm itirá o erro, se o com eter. Esse viverá sem pre com ele. Mas por m ais que deteste o que está fazendo, não acho que estej a com etendo um erro. — De certa form a, Bill fizera aquilo que a sua consciência m andava e preservara a am izade, acabando com o casam ento, apesar do arrependim ento de Cindy. Esta adm irava-o por isso. Só tinha pena das filhas. Era um choque trem endo para elas. Estava assustada com si m esm a. Sabia que nunca encontraria outro hom em com o ele.

— Acha que o papai tinha um caso com a Isabelle Forrester? — Perguntou Olivia, sem rodeios; Cindy ficou pensativa durante alguns instantes. Já ponderara essa hipótese m uitas vezes.

— Não sei. Ele diz que não, e nunca m entiu para m im , que eu saiba. Julgo que está apaixonado por ela, m as não acredito que tenham feito algo que não devessem . Ela está casada com Gordon Forrester, e o seu pai acha que nunca o abandonará. Talvez não passe de um a sim ples paixonite, ou talvez sej am só sim ples am igos.

— Mas pensa que o papai quererá casar com a Isabelle Forrester, se ela sobreviver? — insistiu Jane, preocupada.

— Não acho que essa questão se ponha agora — respondeu Cindy. A pobre criatura estava às portas da m orte. — Não, não acredito, nem m esm o que ela viva. O seu pai diz que nunca deixará o m arido porque toda a sua vida gira em torno de um a criança deficiente.

— O que acha que o papai vai fazer agora, depois de chegar em casa... quero dizer, aos Estados Unidos...? — perguntou Olivia, com ar triste.

— Não sei. Arrum ar um apartam ento. Voltar ao trabalho. A reabilitação dem orará m uito tem po. Não creio que ele regresse antes de dois m eses. Querem fazer-lhe a fisioterapia aqui.

Olivia e Jane não voltaram a abrir a boca até chegarem ao hotel. Ainda não acreditavam naquilo que haviam acabado de ouvir. Nem Cindy conseguia im aginar a sua vida após a decisão tom ada por Bill.

No entanto, Cindy saía do casam ento com um profundo respeito por Bill e sabia que nunca m ais encontraria outro hom em com o ele. Tinha pena de não ter visto isso há m ais tem po. Sabia que a m aior fatia de responsabilidade pelo divórcio era dela, independentem ente das culpas que Bill assum ia para si próprio.

Cindy e as filhas partiram para os Estados Unidos no dia seguinte, tão cedo que nem sequer tiveram tem po de passar pelo hospital. Telefonaram do aeroporto para despedir-se. Olivia e Jane choravam copiosam ente quando desligaram . Não com entou esse fato com ninguém , m as, depois de as filhas desligarem , Bill ficou m ergulhado num a profunda tristeza. Sentia-se só. Com eçava a perceber o longo e difícil cam inho que tinha pela frente. Teria de enfrentar pelo m enos um ano ou m ais de trabalho de reabilitação. Mas não existia alternativa. De quando em quando, fazia telefonem as de negócios e recebia outros de pessoas que haviam tom ado conhecim ento do acidente. Porém , a m aior parte do tem po, tinha a sensação de viver num ninho, rodeado de enferm eiras e m édicos. E Isabelle continuava em com a. Não eram tem pos fáceis.

Duas sem anas depois do acidente, Bill j á evidenciava algum as m elhoras. Gordon Forrester não voltara a visitar a m ulher. Bill j á estabelecera a rotina de a ir visitar de m anhã e à noite. Ficava ao lado dela e falava-lhe, na esperança de que ela o ouvisse no seu sono profundo, e depois voltava para o quarto.

As enferm eiras haviam -no inform ado de que Forrester não podia vir porque o filho se encontrava m uito doente. Esperava que não fosse nada de grave.

Na terceira sem ana após o acidente, Bill perdera quase todas as esperanças de que Isabelle saísse do estado de com a e perguntava-se se Gordon iria deixá-la ali, esquecida e desprezada. Não havia qualquer form a de a transferir para Paris, enquanto estivesse ligada ao ventilador. Era m uito perigoso. Com eçava a ficar preocupado com o que lhe aconteceria depois de ele regressar aos Estados Unidos. Os m édicos achavam que ele estaria em condições de partir m ais ou m enos dentro de um m ês. Não suportava ter de a deixar, sem ninguém que a visitasse, que falasse com ela, que a confortasse, que se preocupasse com o seu estado. Não conseguia com preender com o o m arido era capaz de a abandonar naquela hora, m as esta era a triste realidade. Pensava nisso, certa noite, deitado num a cam a ao seu lado, ao m esm o tem po que falava com ela e lhe segurava na m ão. As enferm eiras j á não achavam a situação anorm al. Sorriam e conversavam com ele, quando a visitava, com o se j á esperassem encontrá-lo no quarto dela várias vezes ao dia.

Nessa cálida noite de j ulho, Bill dizia a Isabelle que era m uito bonita e que tinha m uitas saudades de conversar com ela. As j anelas estavam abertas e ouvia-se o barulho que vinha da rua. E deu consigo pensando na noite em que haviam ido ao Harry ’s e depois ao Annabel’s. Só tinha vontade de rodar os ponteiros do relógio para trás e reviver essa noite.

— Lem bra-se dos bons m om entos que passam os? — Murm urou, afagando-lhe os dedos e depois beij ando-os. — Adoro dançar com você, Isabelle. Se você acordar, podem os voltar a dançar um dia. — Mas isso não passava de um a recordação, de um sonho distante.

De repente, teve a im pressão de sentir um a leve pressão na palm a da m ão. Prim eiro, pensou tratar-se de um reflexo e continuou falando. Então, sentiu de novo a m esm a ligeira pressão. Algo aturdido, parou de falar por instantes e olhou para a enferm eira que entrava naquele m om ento. Não quis dizer-lhe nada, m as a conversa com Isabelle prosseguiu num tom ligeiram ente m ais determ inado. Depois, fez um a pausa e procurou posicionar-se de m odo a poder olhar para ela.

— Tive a sensação de que apertou a m inha m ão. Quero que a aperte outra vez. — Aguardou um longo instante, que m ais lhe parecia um a eternidade, perante o olhar atento da enferm eira, m as nada aconteceu, e esta desviou o olhar. — Repete, Isabelle! Aperta a m inha m ão, só um pouquinho... Quero que tente outra vez. — Então, com o se estivesse a contatar com ele de outro m undo, apertou de novo, quase im perceptivelm ente. O rosto de Bill abriu-se num largo sorriso e as lágrim as inundaram -lhe os olhos. — Que m aravilha! Estava esfuziante de alegria. Agora quero que abra os olhos. Só um pouquinho... Eu estou olhando para você, Isabelle. Quero que olhe para m im . — Não se vislum brava qualquer sinal de vida no rosto dela, m as voltou a m exer os dedos. Bill ainda pensou tratar-se de novo de um sim ples reflexo. Já estava ficando desanim ado, quando Isabelle franziu o nariz, m as os olhos continuavam fechados. O coração de Bill com eçou a bater aceleradam ente. Estava voltando a si. — O que foi isso? Você fez um a cara engraçada. Que tal um sorrisinho? — As lágrim as corriam -lhe pelas faces. Todos os seus esforços, toda a sua força e todo o seu am or estavam concentrados nela. A enferm eira que se encontrava no quarto ficou com o que petrificada. Mas vira com clareza a fugaz careta que Isabelle fizera. Não se tratara de nenhum reflexo. — Conseguessorrir-m e, m eu am or? Abra apenas um olho. Tenho sentido tantas saudades suas... — Suplicava-lhe para ela voltar para j unto dele. Apetecia-lhe m ergulhar no abism o onde ela se encontrava e tirá-la de lá. Continuou a falar com ela durante m ais m eia hora, sem qualquer resultado. Estava exausto, m as recusava-se a desistir. — Isabelle.. Vá lá, faz aquela cara engraçada que fez há pouco. Vá lá... Franze o nariz. — Desta vez, em vez disso, ergueu a m ão vários centím etros acim a da cam a e depois deixou-a cair, com o se o esforço tivesse sido dem asiado. — Ótim o! Ótim o! Mas sente-se fatigada... Descansa um pouco, querida. Depois, repete. — Falava sem parar, tentando que ela pestanej asse, m exesse um a parte do rosto, que abrisse os olhos, ou que lhe apertasse novam ente a m ão. Durante um longo instante, nada se m exeu. Então, vislum brou um a m uito ligeira agitação nos seus olhos.

— Oh, m eu Deus... — sussurrou para a enferm eira, que foi correndo cham ar um dos m édicos para ver o que estava acontecendo. Depois de três sem anas às portas da m orte, Isabelle com eçava a recuperar a consciência. E fora Bill que com todo o carinho e afeto a trouxera de novo à vida.

— Isabelle — cham ou Bill, num tom m ais firm e. — Você tem de abrir os olhos, m eu am or. Sei que é difícil. Está dorm indo há m uito tem po. Mas chegou a hora de acordar. Quero ver-te olhando para m im . Quero ver-te e sei que tam bém quer ver-m e. Abre os olhos. Só um pouco. — Mal acabou de dizer isto, Isabelle abriu os olhos. Nem sequer esperava que fosse isso que ela fizesse. Depois de todo aquele tem po, j á ficaria satisfeito com qualquer sinal que ela fizesse. Mas, dessa vez, os olhos, há m uito fechados, abriram -se. — Isso isso... pode abri-los m ais. Mais um pequeno esforço, querida. Abre esses olhos m aravilhosos. — O m édico j á se encontrava no quarto nesse instante, m as m anteve-se à distância, sem interferir. Bill estava alcançando grandes progressos e achava que não conseguiria fazer m elhor. — Isabelle, estou à espera que você olhe para m im . Há m uito que anseio por este m om ento. — Ouviu-se então um longo e gracioso suspiro, e Isabelle abriu os olhos, voltando a fechá-los de im ediato, com o se o esforço tivesse sido excessivo. — Vá lá, querida, m antém -os abertos o tem po suficiente para olhar para m im . Por favor, m eu am or... — Vê-la recuperar a consciência era com o observá-la chegar à Terra vinda de um planeta distante. Então, por fim , Isabelle abriu de novo os olhos, virou a cabeça e fitou-o, ao m esm o tem po que soltava um pequeno gem ido. Bill ficou com a im pressão de que o m ovim ento que ela realizara com a cabeça lhe causara dor. Isabelle esboçou então um sorriso, com os olhos novam ente fechados. Dava a sensação de que queria articular um a palavra.

Durante m uito tem po, tentou, sem êxito. Então, reabriu os olhos e disse o nom e dele, num a voz que m ais parecia um vagido.

— Bill.

Este beij ou-lhe a m ão e teve de conter um soluço para conseguir falar. Queria com pensá-la por aquilo que fizera.

— Isabelle, am o-te tanto... Você foi um a m enina linda. Fez um esforço trem endo para voltar a si.

— Sim — m urm urou Isabelle, fechando novam ente os olhos para os abrir de im ediato. — Am o-te... Bill — proferiu ela, com o que saboreando a palavra.

— Julgo que foi aí que ficam os — acrescentou Bill, sorrindo por entre as lágrim as. Desde a noite em que haviam se beij ado e sido atingidos pelo ônibus, passara um a eternidade. — Você esteve ausente durante tanto tem po! Tive tantas saudades suas!

— Fala com igo... — pediu Isabelle, baixinho, com um sorriso, enquanto Bill, a enferm eira e o m édico sorriam . Há três sem anas que ele não fazia outra coisa que não fosse falar com ela. Era com o se soubesse que conseguiria trazê-la de volta. Nunca desistira, em bora, nos últim os dias, j á com eçasse a desanim ar; m as nunca perdera a coragem . — Gosto de te ouvir... falar — disse, com voz cansada. O esforço fora m uito grande.

— Tam bém gosto de te ouvir falar. Há m uito que esperava escutar a sua voz. Onde estiveste, m eu am or? — perguntou Bill, quase num sussurro, com a m ão dela ainda na sua.

— Fora — respondeu Isabelle, com novo sorriso nos lábios. Olhou então para Bill, com um rol de perguntas no olhar. Sabia que ele tinha as respostas. — Há quanto tem po.?

— Três sem anas.

— Tanto tem po. — As palavras pareciam sair a custo, m as estava recuperando-se m uito bem .

— Sim , foi m uito tem po. — Havia tanta coisa para lhe dizer, tanto para partilhar, m as ainda era m uito cedo para isso. Acabara de chegar de um lugar distante.

Isabelle lem brou-se então de algo e olhou-o com ar preocupado.

— O Teddy e a Sophie j á…

— Eles estão ótim os. — Esperava não estar m entindo-lhe, um a vez que não havia notícias recentes e sabia que Teddy não estivera bem . Mas tinha certeza de que o pequeno m elhoraria assim que soubesse que a m ãe estava recuperando-se. — A Sophie esteve aqui. Veio visitar-te. É um a garota m aravilhosa e parecida com você. — Isabelle sorriu e fechou os olhos. Quando os abriu, havia outra pergunta neles. Bill sabia qual era. — Ele esteve aqui.

Isabelle estrem eceu.

Dói-m e... a cabeça.

— Aposto que sim . Era de esperar.

— As outras coisas, tam bém . — O m édico interessou-se de im ediato por aquilo que Isabelle dizia e fez-lhe algum as perguntas. Estava extrem am ente satisfeito e sugeriu que am bos descansassem , pois havia sido um a noite de m uita excitação. Isabelle pareceu preocupada com o que o m édico acabara de dizer. Entretanto, os enferm eiros j á haviam entrado no quarto para levar Bill. — Não. Não o levem ! — Apertou a m ão de Bill com m ais força. Este olhou para o m édico com ar interrogativo.

— Posso ficar aqui?

Instalou-se um longo silêncio, enquanto o m édico ponderava a hipótese. Não havia qualquer razão para ele ali não poder ficar. Eram adultos e am igos, e as enferm eiras podiam vigiar a recuperação de am bos no m esm o quarto. Era o prêm io adequado por aquilo que Bill fizera nessa noite.

— Acho um a boa idéia. — Bill j á não estava ligado a m onitores. A única coisa de que precisava era do saco de soro ao lado da cam a e dos m edicam entos para as dores, para o caso de precisar, o que raram ente acontecia.

— Quero que durm a aqui — insistiu Isabelle, agarrando-lhe a m ão com força. Estava consciente, recuperara a vida e voltara para Bill. Era a noite m ais feliz deste.

O m édico exam inou-a então, e ficou satisfeito. Fez-lhe m ais algum as perguntas e ela disse-lhe com o sentia a cabeça. Acrescentou ainda que tam bém sentia o corpo m uito pequeno e que tudo dentro dela estava extrem am ente apertado. O m édico explicou-lhe que essa sensação se devia às lesões internas e que se m anteria durante m ais algum tem po. Teria oportunidade de a exam inar em porm enor m ais tarde. O que am bos precisavam agora era de descansar.

A enferm eira deixou apenas um a pequena luz ligada e um a outra veio aj udar a colocar Bill de lado. Este ficou satisfeito porque assim via Isabelle m elhor. Não lhe apetecia dorm ir. Só queria ficar toda a noite olhando para ela e a tocando-lhe na m ão. Isabelle, que ainda tinha a m ão dele na sua, esboçou um sorriso. Exibia um ar infantil. Era a im agem da filha.

— Você é tão bonita — m urm urou Bill, — e am o-te tanto.

Valera a pena a longa espera de três sem anas.

— Tive m uitas saudades suas.

— Com o é que sabe? — retorquiu Bill, enquanto a enferm eira sorria, num canto do quarto.

Pareciam duas crianças aos cochichos, no quarto escuro. As enferm eiras trocaram um sorriso e detiveram -se dem oradam ente à porta, olhando para o par am oroso. Nenhum a delas esperava que Isabelle sobrevivesse.

Nessa tarde, o m édico telefonou a Gordon para inform á-lo de que a esposa j á não se encontrava em com a. Sentia que era esse o seu dever. Mas Gordon não estava em casa e o m édico pediu à m ulher que atendeu, a enferm eira de Teddy, para dizer a Mister Forrester que telefonara. Não quis dizer do que se tratava. Bill e Isabelle ter-lhe-iam ficado gratos se tivessem sabido desse fato.

Dava a sensação de que sem pre haviam dorm ido j untos. Isabelle tentou virar-se de barriga para cim a um a vez, m as as dores na cabeça eram m uitas e teve de m anter-se voltada para Bill, que não despregava os olhos dela.

— O que te aconteceu? — perguntou Isabelle, reparando no enorm e colar cervical im obilizava o pescoço de Bill.

— Sofri lesões no pescoço e na coluna. Vou ficar bem . — E certam ente que iria. Já tinha aquilo por que esperara durante três sem anas.

— Tem certeza?

— Absoluta. Nunca m e senti tão bem com o agora.

— Eu tam bém . — Olhou-o então com ar pensativo. — Não m e lem bro de nada... Com o é que viem os aqui parar

— É um a longa história, m eu am or. Podem os falar dela am anhã. Fom os abalroados por um ônibus. — Não iria lhe dizer que onze pessoas haviam perecido no acidente e que ela estivera prestes a engrossar esse núm ero. — Só m e lem bro de estar beij ando-te e depois de m e encontrar aqui.

— Tam bém é o que eu recordo — disse Isabelle, bocej ando. Bill sentiu um a vontade louca de a beij ar, m as não podia m exer-se. A única coisa que conseguia fazer era tocar-lhe no rosto ou na m ão. — Um destes dias, gostaria de te beij ar de novo.

Bill não respondeu. Fez-se um longo silêncio, enquanto ele refletia na possibilidade de, aos seus próprios olhos, j á não ser hom em . E pegou-lhe na m ão. Era a única coisa que podia oferecer agora.

— Espero que as crianças estej am bem — prosseguiu Isabelle, pensando nos filhos e desconhecendo os terrores de Bill relativam ente às suas capacidades sexuais.

— Eles virão para cá m al saibam que você j á não está em com a — asseverou-lhe.

De repente, Isabelle ficou com um ar triste e apertou-lhe a m ão com m ais força.

— E ele virá tam bém , não é?

Bill não quis dizer-lhe que Gordon não a visitava há duas sem anas. Achava que não era a ele que com petia conform á-la. Detestava Gordon por tudo o que não fizera por ela e pelas coisas horríveis que lhe fazia.

— Não pensem os nisso agora. Porque não fecha os olhos e tenta dorm ir? — Tinha vontade de afagar-lhe os cabelos.

— Pensei que m e quisesse acordada — gracej ou Isabelle. Avançava a olhos vistos para a recuperação, depois de três sem anas em com a e de um acidente ao qual quase não sobrevivera. Mantinha a m esm a força interior de outrora. Fora esta, j untam ente com o am or de Bill, que a trouxera de novo à vida.

— Dorm e. Está falando m uito, vai ficar esgotada. — Não conseguia deixar de sorrir. Parecia ainda m ais bonita do que antes.

— Quero passar a noite toda conversarsando. — Depois lem brou-se de m ais um a coisa. Quero dançar com você outra vez.

— Um dia.

— E quero voltar ao Harry ’s. — Isabelle fazia a lista de desej os. Bill lim itava-se a sorrir.

— Agora? — gracej ou, m ais feliz do que nunca. Sentia um prazer m uito grande em estar ali deitado conversando com ela.

— Está bem . Am anhã. E depois vam os ao Annabel’s. Tem os de recuperar o tem po perdido. Há sem anas que não danço.

— É m elhor ficar quietinha, se não, os m édicos põem -te a dorm ir outra vez.

— Só quero ficar aqui deitada com você. — E riu baixinho. Agora j á podem os dizer que dorm im os j untos.

— Para quem esteve três sem anas em com a, está a portar-se m uito m al. Não devia pensar nessas coisas — gracej ou Bill, em tom de reprim enda, com um a vontade incontrolável de a abraçar; porém , no coração, estava a fazê-lo. No coração, Isabelle seria sem pre sua. Desde essa noite que o era acontecesse o que acontecesse, nada alteraria esse fato. Ela atravessara as trevas para voltar para ele e agora nunca m ais iria perdê-la.

— Cam inhávam os em direção a um a luz m uito brilhante.. íam os para um local qualquer, por um cam inho estreito. e as crianças com eçaram a cham ar-nos, e dem os m eia volta.

Bill teve a sensação de ter sido atingido por um raio ao ouvir aquelas palavras. Quando acordara do estado de com a, lem brava-se de ter tido exatam ente a m esm a visão, tal qual Isabelle a descrevia.

— Com o era a luz?

— Muito brilhante... e eu estava m uito cansada, e sentei-m e num a pedra. Não queria voltar, m as você continuava insistindo para voltarm os, que podíam os ir lá em outra hora. Eu não queria, m as deixei que m e puxasse. — E fora o que acontecera nessa noite. A prim eira vez, Bill retirara-a das m ãos da m orte, a segunda, das trevas onde se encontrava m ergulhada num sono profundo. Aquilo que Isabelle descrevera da pedra e da luz brilhante fora exatam ente o que ele vira.