O Beijo
Capítulo Treze
Nessa noite, Isabelle não ouviu Gordon sair. Mas descobriu que a cam a dele não estava desfeita quando foi cham á-lo para atender um im portante telefonem a de Nova Iorque, de m anhã. Não conseguia im aginar onde é que o m arido fora e não podia perguntar a ninguém . Ficou espantada com o que viu. Então, de repente, perguntou-se se ele fazia aquilo com frequência. Nunca percebera as saídas noturnas do m arido. Mas agora tinha os olhos m ais abertos. Não falou desse ato a ninguém e disse à pessoa que estava ao telefone para ligar para o escritório. Teve vontade de lhe telefonar e de lhe perguntar onde estivera, m as não estava disposta a rebaixar-se a tanto. Em vez disso, foi tratar das suas coisas, com o Bill sugerira. Cuidou de Teddy e esperou que Gordon chegasse em casa à noite. Quando isso aconteceu, não lhe fez qualquer pergunta, nem disse nada. O confronto não era o seu estilo, e j á não dava im portância às suas rej eições. Tinha Bill e o am or que partilhavam . Depois de j antar, foi para a cam a. Entretanto, j á a noite ia avançada e Gordon saiu, fechando cuidadosam ente a porta atrás de si.
CAPÍTULO TREZE
Bill deixou o hospital cinco dias depois de Isabelle ter regressado a Paris. Os dias ali sem ela haviam -no deixado num profundo estado de depressão. Sentia-se só, m as sabia que tinha de se habituar a essa realidade. Além disso, ainda tinha de escalar o m onte Evereste da sua vida. Os fisioterapeutas descreveram -lhe o que teria de fazer no ano seguinte. No entanto, avisaram -no para não colocar a espectativa dem asiado alta. Achavam que a probabilidade de voltar a andar era m uito rem ota. E em bora adm irassem a sua determ inação, não o queriam ver destroçado, caso tivesse de resignar-se ficando perm anentem ente num a cadeira de rodas. Mas era o m ais provável. No entanto, achavam extraordinário que Bill tivesse algum a sensibilidade nas pernas, atendendo às lesões na coluna. Mas havia um a grande diferença, com o explicaram , entre ter algum a sensibilidade nas pernas e ser capaz de andar.
Quando saiu do hospital, todas as enferm eiras vieram abraçá-lo e não conseguiram conter as lágrim as. Era grande a sua dedicação por ele e m ostravam -se im pressionadas com o profundo afeto que o ligava a Isabelle. Achavam que o fato de terem sobrevivido ao acidente era um a das m aiores dádivas da vida. Todos, na Unidade de Cuidados Intensivos, haviam ficado espantados com o fato de am bos terem conseguido sobreviver.
Bill prom eteu enviar-lhes postais quando chegasse a Nova Iorque e m andou vir presentes do Harrods para cada um a delas. Com prou-lhes pulseiras em ouro, e ao m édico ofereceu um relógio Patek Philippe. Um a enferm eira e um enferm eiro acom panharam -no até ao aeroporto e instalaram -no no avião. No Aeroporto Kennedy, em Nova Iorque, estavam representantes do centro de reabilitação à sua espera.
Telefonou às filhas para anunciar que iria regressar a Nova Iorque. As duas prom eteram visitá-lo no dia seguinte, no Centro de reabilitação. Não telefonou a Cindy propositadam ente. Tentava m anter um a certa distância entre eles. Achava m elhor assim , por causa do processo de divórcio. Prontificara-se a conceder-lhe um a considerável pensão em dinheiro, dera-lhe a propriedade, vários carros e um a im pressionante carteira de investim entos. Apresentara os papéis para o divórcio no m ês anterior. Cindy ficara espantada com a celeridade com que Bill desencadeara o processo e com a sua generosidade. Continuava acreditando que ele fazia isso porque ainda im aginava poder casar com Isabelle, m as negara term inantem ente tal possibilidade. Se Cindy não tivesse presenciado o am or que Bill dedicava a Isabelle, teria acreditado.
Bill conseguiu m anter-se sentado durante as prim eiras horas da viagem , m as depois o pescoço e a coluna com eçaram a doer-lhe, apesar de estarem im obilizados. Viaj ou no seu avião particular. O m édico aconselhara-o a não ingerir alim entos ou bebidas durante o voo. Tam bém sugerira que fosse acom panhado de um a enferm eira, m as Bill opusera-se à idéia, e arrependeu-se m al descolou. Mas queria provar a si próprio que era independente. Quando aterrissou em Nova Iorque, estava absolutam ente esgotado e cheio de dores.
No aeroporto, encontravam -se dois enferm eiros e um m otorista à sua espera. Na alfândega, não o m andaram parar. À porta, encontrava-se um a am bulância. Os enferm eiros levaram -no prim eiro à banheiro. Ainda pensou em telefonar a Isabelle, m as resolveu esperar até chegar ao centro de reabilitação. As dores eram m uitas e estava ansioso por se deitar na am bulância.
O vôo parecia que nunca m ais acabava. Passara boa parte da viagem deitado. Reclinara o assento, transform ando-o num a cam a. No entanto, este m anteve um a ligeira inclinação, que lhe provocou dores excruciantes. Lem brou-se então de que ainda tinha um longo cam inho a percorrer até à recuperação plena, e não sabia se conseguiria chegar até lá.
Haviam lhe trazido um café, bebidas frescas e um sanduíche. Sentiu-se m uito m elhor quando a am bulância arrancou. Estava um bonito dia de outono e o ar continuava quente.
Levou m eia hora para chegar ao centro de recuperação, nos arredores de Nova Iorque. Este parecia m ais um country club do que um local de reabilitação, m as estava de tal m odo cansadoque, quando chegaram , nem forças teve para olhar à sua volta. A única coisa que queria era um a cam a. Havia hom ens e m ulheres em cadeiras de rodas por todos os lados. Duas equipes de doentes em cadeiras de rodas j ogavam basquetebol. O am biente parecia ser de grande cordialidade e m uito m ovim entado. Dava a sensação de que as pessoas transbordavam de energia, o que o deixou algo deprim ido. Aquele ia ser o seu lar durante o próxim o ano, ou, na m elhor das hipóteses, durante os próxim os nove m eses. Sentia-se um garoto que fora m andado para um colégio interno e que estava m orto de saudades de Isabelle e do St Thom as, e de todos os rostos am igos que lá conhecera. Nem sequer se lem brou da sua casa no Connecticut. Isso agora fazia parte de um passado distante. E quando o conduziram num a cadeira de rodas até ao seu quarto, não conseguiu conter as lágrim as. Nunca se sentira tão vulnerável e tão só.
— Tudo bem , Mister Robinson?
Bill lim itou-se a fazer um aceno de assentim ento.
O quarto parecia o de um hotel confortável. Apesar do preço, que era exorbitante, não era luxuoso. Tinha m obiliário m oderno e a cam a era sem elhante àquela onde dorm ira ao lado de Isabelle. Na parede havia um poster do Sul da França. Tratava-se de um a reprodução de um a aquarela que parecia representar Saint-Tropez. Tinha banheiro privativo e a ilum inação era boa. Havia ainda um fax, um a tom ada para com putador e um telefone particular. Disseram -lhe que não podia ter um m icroondas no quarto. Agiam assim para que os doentes não se isolassem , fazendo as refeições sozinhos no quarto. Queriam que com esse na lanchonete j untam ente com todos os outros doentes, se j untasse às equipes esportivas, usasse as salas de convívio e fizesse am igos. Tudo isso se integrava no m étodo de reabilitação que haviam estabelecido para ele. E o processo de socialização nas novas circunstâncias fazia parte da reabilitação. Independentem ente de quem ele era, fora, ou viesse a ser outra vez queriam que fosse parte ativa da com unidade enquanto ali estivesse
Bill lem brou-se então de que tinha que telefonar à secretária. A sua atividade política ficara reduzida praticam ente a zero desde há dois m eses e m eio. Não poderia fazer aquilo que precisava a partir da cam a; com o tal, a secretária cancelara tudo o que ele agendara. Não havia qualquer form a de apresentar as pessoas um as às outras, planej ar cam panhas ou dar apoio aos seus protegidos sobre a form a com o conduzir um a cam panha de sucesso. Enquanto passeava o olhar, tentava conform ar-se com a idéia de pôr a atividade política de lado, durante pelo m enos um ano.
No quarto, havia ainda um pequeno frigorífico com as m esm as coisas existentes no m inibar de um quarto de um bom hotel: refrigerantes, refeições rápidas, tabletes de chocolate e, para sua surpresa, duas garrafas pequenas de vinho. Depois de os enferm eiros saírem , abriu um a Coca-Cola, bebeu um gole e olhou para o relógio. Sentia um a vontade incontrolável de telefonar para Isabelle, m as receava que Gordon se encontrasse em casa. Desligaria se Gordon surgisse do outro lado da linha.
Atenderam ao segundo toque, e Bill ouviu então a voz de Isabelle. Eram onze horas da noite, hora de Londres, m as ela não dava m ostras de estar com sono. A voz doce trespassou-lhe o coração que nem um a faca.
— É um a boa hora? — perguntou Bill, de im ediato. Isabelle riu.
— Para quê, m eu am or? É um a ótim a hora. Quem m e dera que estivesse aqui. O Gordon foi passar a noite em Munique. Com o foi a viagem ?
— Tive m uitas dores. Sinto-m e com o se estivesse na prisão. — Passou novam ente o olhar pelo quarto. E em bora soubesse que era um bom quarto e que tudo o que havia nele era da m elhor qualidade, sentia-se deprim ido. — Detesto estar aqui. — Parecia um garoto cheio de saudades da fam ília telefonando do colégio interno.
— Vá lá, você tem de ter paciência. Vai fazer-te bem . Irá habituar-se e, quando m enos esperar, j á estará bom . Talvez sej am só uns m eses. bIsabelle tentava anim á-lo, m as Bill parecia estar m uito abatido. Queria fazer qualquer coisa por ele, m as, àquela distância, era m uito difícil. Am bos tinham de travar as suas batalhas sozinhos. E, em m uitos aspectos, a de Bill era m uito m ais dura do que a dela.
— E se eu ficar aqui uns dois anos?
— Isso não vai acontecer. Aposto que sairá m ais cedo do que espera. Que tipo de pessoas é que estão aí?
Am bos haviam receado que o centro de reabilitação estivesse cheio de idosos a recuperar-se de ataques cardíacos. Bill tinha m uito pouco a ver com eles. Porém , por aquilo que vira, m uitos eram j ovens e encontravam -se ali com o resultado de acidentes de esqui, m ergulhos em piscinas, acidentes de trânsito. As pessoas que estavam m otivadas para ali estar eram , na sua esm agadora m aioria, j ovens com longas e potencialm ente produtivas vidas à sua frente.
— Parece ser boa gente. — Bill soltou um suspiro e olhou para a piscina olím pica, que se via da j anela do quarto, e avistou um a série de pessoas nadando e as respectivas cadeiras de rodas à volta da piscina. — Só não quero aqui estar. Quero voltar para Washington ou para Paris, para j unto de você. Sinto que a vida está passando ao m eu lado. — Porém , nenhum desses dois locais eram possibilidades para ele nesse m om ento. E o que Bill m ais receava era que nunca m ais fossem . Teria de conseguir sentar-se durante longos períodos, m anter-se de pé durante horas, viaj ar sozinho, cuidar de si, ter resistência, m obilidade e clareza de espírito se quisesse retom ar a sua carreira política. E tam bém receava que agora houvesse algum a resistência psicológica relativam ente a ele. Era possível que as pessoas sentissem que, pelo fato de se encontrar confinado a um a cadeira de rodas e, de algum a form a, inválido, não estava em condições de dirigir um a cam panha de sucesso. Tornava-se difícil prever os preconceitos que iam na cabeça das pessoas. Era de prim ordial im portância para si, por m uitas razões, voltar a andar.
Isabelle não estava preocupada com a eventualidade de Bill nunca m ais andar, se bem que desej asse ardentem ente que isso não viesse a acontecer. O seu am or por ele nunca seria afetado por esse fato. Estava farta de lhe asseverar isso. Mas havia um a obsessão a que Bill não conseguia fugir. Recusava-se ficando dependente de quem quer que fosse. Nem de Cindy, nem das filhas, nem dos seus colaboradores ou am igos, nem de Isabelle. Se não conseguisse protegê-la, cuidar dela, estar a seu lado com o um hom em e fazer am or com ela, então não tinha qualquer intenção de partilhar a vida com a m ulher que am ava. Isabelle sentia que Bill colocara a espectativa dem asiado alta. A única coisa que podia fazer por ele era rezar.
— Com o está o Teddy ? E você. Com o está.
— Estou ótim a. A Sophie recom eçou as aulas ontem . O Teddy ainda está m uito cansado e estou preocupada com o seu coração. Às vezes, parece que está piorarando, depois, tem um dia m aravilhoso e sente-se m elhor. Não sei explicar. Mas o seu estado de espírito está ótim o. — Melhorara desde que Isabelle voltara para casa, m as o seu instinto de m ãe dizia-lhe que o m édico tinha razão e que há m uito tem po que Teddy não se encontrava tão fraco.
— A Olivia e a Jane recom eçaram as aulas na sem ana passada, m as disseram que viriam ver-m e este fim de sem ana.
— A Cindy tam bém irá? — Isabelle tinha alguns ciúm es dela, em bora não gostasse de o adm itir. Sabia que Bill ficaria lisonj eado com esse fato. Cindy oferecera-se para visitá-lo com as filhas, m as Bill achara m elhor ela não o fazer. Não explicou isso a Isabelle, porque ainda não lhe falara do divórcio. Continuava acreditando que ela não se sentiria tão pressionada se pensasse que ele e Cindy continuavam casados. Assim , não pensaria que ele estava à espera dela ou de outra pessoa qualquer. Se se visse livre de Gordon, Bill estaria à sua espera. Mas este achava que isso só com plicaria as coisas. Assim , continuava a iludi-la com o fato de continuar casado com Cindy e de que tudo entre eles corria bem .
— A Cindy foi passar uns dias fora.
Isabelle sem pre achara que Cindy era de um a grande insensibilidade ao fazer questão de levar a sua própria vida, sem atender à situação de Bill, m as não fez qualquer com entário sobre o assunto.
— O Gordon foi passar a noite em Munique. Está num a conferência. Vem passar o fim de sem ana em casa. Acho que tem planos em m ente.
Gordon, porém , j á não a incluía nos seus planos e ela tam bém não tinha qualquer desej o que tal acontecesse. Desde os acontecim entos ocorridos em Londres que se sentia com pletam ente separada dele e j á não a preocupava o fato de Gordon não a convidar para nada. Este presum ia que ela preferia ficar em casa com o filho, e não se enganava. Além disso, continuava a sentir-se extrem am ente cansada. Nessa noite, foi cedo para a cam a. Passara todo o dia com Teddy, fora alm oçar com Sophie, m as esse esforço deixara-a m uito abatida. De acordo com o m édico, ainda decorreriam m uitos m eses até se sentir de novo com o antes do acidente.
— Que vai fazer esta noite? — Indagou Isabelle, num tom suave. Percebia, pela voz, que Bill se sentia cansado e triste, o que a deixou preocupada.
— Vou para a cam a. Não há serviço de quarto, m as não tenho fom e. — Sentia dem asiadas dores para com er e não queria tom ar analgésicos. Fizera o desm am e deles sem anas antes, com m edo de ficar viciado. Tal não sucedera, felizm ente, m as não queria recom eçar a tom á-los.
— Talvez devesse dar um a volta aí pelo centro. — Isabelle não gostava da idéia de ele ficar sozinho no quarto. Receava que entrasse num estado de depressão profunda.
— Am anhã. Eles não dão m uitas alternativas aqui. Com eço a terapia às sete da m anhã e só volto para o quarto às cinco. — Tratava-se de um regim e rigoroso, m as Bill escolhera aquele centro por essa razão. Achava que quanto m ais se aplicasse, m ais rápidos seriam os resultados, se bem que o seu único desej o naquele m om ento fosse sair dali. — Telefono-te, de m anhã, quando m e levantar. Seria m eio-dia para Isabelle e Bill sabia que era um a boa hora. Se telefonasse quando voltasse para o quarto, ao fim do dia, seriam onze da noite para ela e, se Gordon atendesse, Isabelle ver-se-ia m etida em problem as.
— Posso telefonar-te de vez em quando.
No entanto, Bill achava que seria m elhor que fosse ele a ligar.
— Telefono-te am anhã, querida — disse, dem asiado cansado para articular m ais um a palavra que fosse. Sentia dores horríveis na coluna, o pescoço rígido, o estado de espírito de rastos e tinha a sensação de estar em outro planeta, longe de Isabelle e da vida que outrora conhecera. Regressara finalm ente aos Estados Unidos, m as não se sentia m elhor por isso. Encontrava-se num a ilha deserta e estava condenado a lá ficar durante um ano. Não era um a idéia m uito agradável.
— Am o-te, querido — sussurrou Isabelle.
Depois de desligarem , deitou-se na cam a, com o pensam ento em Bill e o desej o ardente de o abraçar, apertar contra si e confortar.
Na m anhã seguinte, Bill levantou-se às seis horas. Adorm ecera vestido e só acordou quando o despertador acabou de tocar. Ainda sofria os efeitos da diferença horária, sentia-se cansado e m al conseguia m exer-se. Cham ou um enferm eiro para o aj udar a sentar na cadeira de rodas e o levar até ao chuveiro. Meia hora depois, sentia-se m elhor. Telefonou, então, a Isabelle, antes de sair do quarto.
— Com o se sente, querido? — Perguntou Isabelle, preocupada. Bill parecia m ais anim ado do que na noite anterior.
— Muito m elhor do que ontem . Estava arrasado.
— Eu sei. — Isabelle sorria. Teddy acordara bem disposto e estava um dia m aravilhoso de Setem bro. Era m eio-dia em Paris.
— Desculpa as lam úrias de ontem à noite. Sentia-m e um garoto num colégio interno.
Isabelle achou graça. Tam bém pensara o m esm o.
— Eu sei. Só tenho vontade de voar até aí e trazer-te para casa.
— É o que as m ães fazem . Os pais lim itam -se a dizer ao garoto para se aguentar. É a diferença básica entre os dois sexos. As m eninas ficavam sem pre m ortas de saudades quando iam acam par. A Cindy queria ir logo buscá-las e eu achava que elas deviam ficar lá até ao fim .
— Quem costum ava ganhar? — Isabelle parecia divertida. Era um a faceta de Cindy da qual Bill nunca lhe falara. Teria feito o m esm o. Só deixara Sophie ficar fora de casa ao entrar para a universidade e preferira que ela ficasse na Sorbonne em vez de ir para Grenoble.
— Ela, claro. Eu estava sem pre fora e não podia im por as m inhas regras. Quando voltava para casa, elas j á se encontravam lá.
— Melhor para ela.
— Bem , tenho de ir ver que torturas é que eles m e reservaram . — Mas Bill não estava preparado para o intenso regim e que o esperava.
Depois do que com eçara a fazer em Londres, aquilo assem elhava-se à recruta dos fuzileiros. Fez ginástica o m elhor que pôde, sentado na cadeira. Puseram -no para levantar pesos para fortalecer o tórax e para trabalhar em aparelhos. Havia um a terapia especial para o pescoço, um a longa sessão de treino na piscina e exercícios especiais para as pernas. Tinha m eia hora para alm oço e pouco tem po lhe restava para ir à lanchonete para falar com alguém . Às cinco horas, quando chegou ao quarto, estava tão cansado que m al conseguia m exer-se. Nem sequer teve forças para passar da cadeira para a cam a e teve de cham ar um aj udante, que sorriu quando o ouviu gem er.
— Teve um bom treino, Mister Robinson? — Era um j ovem afro-am ericano que treinara com os Jets e que se lesionara cinco anos antes. Estudava fisioterapia. Bill ficou anim ado ao verificar que não havia qualquer sinal das lesões anteriores e aparentava estar em boa form a física. Tinha apenas vinte e seis anos.
— Está gozando? Eles estão é vendo se m e m atam .
— Daqui a duas sem anas j á não sentirá dores. E vai com eçar a gostar. — O aj udante ofereceu-se então para lhe fazer um a m assagem . Quando este saiu, Bill resolveu não j antar e ficar na cam a. Estava cochilando quando ouviu baterem à porta. Ao abrir os olhos, um j ovem num a cadeira de rodas encontrava-se j á no quarto.
— Olá, cham o-m e Joe Andrews. Estou no quarto ao lado. Posso convidá-lo para um a partida de basquetebol às oito horas?
Bill olhou para ele e riu-se. Andrews estava sentado num a cadeira de rodas e parecia ter só um a perna. Era um m oço sim pático. Devia ter uns vinte e poucos anos de idade. Estivera envolvido num acidente de trânsito onde pereceram quatro pessoas, seis m eses antes.
— Um a partida de basquetebol? Está gozando? Só se for com igo a servir de bola. Não creio que volte a ser capaz de m e sentar direito na cadeira.
— No com eço, custa. Depois, as coisas vão ficando m ais fáceis. Este centro é ótim o. Há seis m eses, encontrava-m e totalm ente im obilizado e só conseguia m exer os olhos. Nessa época, j á ficaria contente se fosse capaz de coçar o nariz.
— Você tem a idade do seu lado. — Mas Bill tam bém se encontrava em excelente form a física até ser atingido pelo ônibus. — Eu j á estou velho.
— Aqui a idade não conta. O capitão da equipe tem oitenta e dois anos. Teve um a trom bose. Jogou nos Yankees há sessenta anos.
— Eu j á desci de divisão. Devia ter m e alistado nos Fuzileiros.
— Seria m ais fácil, m as não tão divertido. Há m ulheres m uito bonitas aqui.
Bill gostava do rapaz. Tinha olhos risonhos, um sorriso sim pático e cabelos ruivos.
— Você não deve ter m ãos para m edir. — Não era esse o caso, m as, pelo m enos, j á se interessava pelas m ulheres. A noiva m orrera no desastre de trânsito, m as não referiu esse fato a Bill.
— Costum o ir a Nova Iorque nos fins de sem ana. Se quiser, um dia pode vir com igo. São vinte m inutos de trem .
— É um a idéia. Neste m om ento, não consigo m exer um único m úsculo.
— Porque não vem ver? Apresento-o a alguns dos caras. — Joe estava determ inado a cativar Bill para as atividades do centro. Era im portante para o m oral dos pacientes envolvê-los em atividades para além da terapia. Fora o que salvara a vida de Joe. Quando entrou no centro de reabilitação, ainda pensara em se suicidar.
— E as m eninas? — gracej ou Bill.
— É casado? — Joe continuava a puxar-lo. Era excelente no trato com as pessoas. Bill achava-o um garoto sim pático, só o entristecia o fato de estar num a cadeira de rodas.
— Não. Estou divorciando-m e.
— É pena. Há duas m oças na equipe. Um a tem dezoito anos.
— Acho m elhor não m e m eter outra vez na gaiola. Que idade tem a outra?
— Sessenta e três — respondeu Joe, com um sorriso m alicioso.
— Fico com essa. Está m ais próxim a da m inha idade.
— Que idade tem ?
— Cinquenta e dois. Hoj e, da form a que m e sinto, noventa.
— Já j antou?
— Achei m elhor não j antar. — Tam bém não o fizera na noite anterior.
— Não é m uito boa idéia. Passo por aqui para buscá-lo às seis e m eia. Depois, conversam os do j ogo. — Não perguntou se Bill queria ir ou não e, antes que este pudesse colocar algum a obj eção, saiu.
Bill apareceu às seis e um quarto e sentia-se m elhor do que um a hora antes. Tom ara um banho, barbeara-se e penteara-se. Vestira um a cam iseta e calças de ganga. Ele e Joe pareciam dois m eninos a cam inho do salão de j antar. Joe parecia conhecer todas as pessoas. Apresentou Bill a todas as pessoas que pôde. Soube então que Joe tinha vinte e dois anos, era de Minneapolis e queria entrar para o curso de Direito no ano seguinte. Tinha duas irm ãs e um irm ão gêm eo que tam bém se viram envolvidos no acidente. O irm ão gêm eo e a noiva tiveram m orte im ediata, assim com o os dois ocupantes do outro carro.
O irm ão ia ao volante quando o outro chocou de frente, num a noite de nevoeiro. Muitas das pessoas internadas no hospital tinham histórias dolorosas para contar: um a m ulher que fora atingida por um a bala na coluna durante um assalto a um a loj a de conveniência, quando parara, ao m eio do dia, para com prar Coca-Cola para os filhos; pessoas vítim as de acidentes e com traum as de todo o gênero. Muitas delas encontravam -se não só em tratam ento de fisioterapia com o tam bém em tratam ento psiquiátrico, com o era o caso de Joe e da m ulher que fora atingida na coluna. Quando tivessem alta, a idéia era que conseguissem levar um a vida perfeitam ente norm al.
O centro tinha duzentos doentes internos e m ais de trezentos externos, que vinham diariam ente aos tratam entos. Mas os que viviam ali form avam um núcleo que se com portava com o se de um a fam ília se tratasse. O barulho na lanchonete fazia lem brar a Bill a confusão própria de um cocktail. Todos rindo, falando, fazendo planos, gabando-se das suas vitórias do dia, ou queixando-se da dificuldade dos exercícios. Há m uito tem po que não via tantos rostos sorridentes. Nunca esperara encontrar ali aquele cenário.
— Vai haver um torneio de tênis na próxim a sem ana. — Joe inscreveu Bill, ao m esm o tem po que falava com m eia dúzia de outros pacientes, quatro deles garotas. Havia m uitos j ovens em cadeiras de rodas. Bill calculava que m etade das pessoas que vira andava na casa dos vinte e eram hom ens. A outra m etade abrangia um largo leque de idades e m enos de m etade eram m ulheres ou garotas. Três quartos da população do centro pertenciam ao sexo m asculino. Eram estes que apresentavam m ais problem as, que tinham m ais azar, conduziam em m aior velocidade, corriam m ais riscos e praticavam os esportes m ais perigosos. Mas tam bém havia um a série de hom ens e m ulheres da idade dele. À m esa, encontrava-se um a garota de extraordinária beleza, m as cuj a fala m al se percebia. Era m odelo e caíra de um lance de escadas de m árm ore e sofrera um forte traum atism o craniano. Estivera em com a durante oito m eses. Cham ava-se Helena e a sua m elhor am iga no centro era um a j ovem bailarina que sofrera um acidente de trânsito, e estava determ inada a voltar a dançar. Todas aquelas pessoas enfrentavam desafios im pressionantes e faziam esforços sobre-hum anos para os ultrapassar. Estava espantado com a força de vontade que elas dem onstravam .
Quando o j antar acabou, sentia-se m uito m elhor. Joe e Helena haviam -no convencido a ir até ao ginásio, m as não lhe agradava j ogar. Só queria assistir.
— Eles j ogam m uito bem — com entou Helena com um sorriso nos lábios, m al se percebendo o que dizia. Tam bém se encontrava num a cadeira de rodas, m as só porque tinha vertigens provocadas pelo traum atism o craniano, e, por vezes, caía quando m enos esperava. Sentia-se m ais em segurança na cadeira. Bill ficou im pressionado com a sua beleza. Achava-a parecida com Isabelle. Joe contara-lhe que Helena trabalhara em Nova Iorque, Paris e Milão, e fora capa da Vogue e da Harper’s Bazaar. Ainda de acordo com Joe, estava recuperando-se m uito bem . — Da próxim a vez, tem de j ogar — disse ela, em tom de incentivo.
— E por que razão você não j oga? — gracej ou Bill. Era m ais alta do que m uitos dos hom ens, tinha um as pernas que pareciam nunca m ais acabar. Usava berm uda e sandálias, e os pés im pecavelm ente tratados e com as unhas pintadas de verm elho. A m aioria dos hom ens não tirava os olhos dela, m as o nam orado era o fotógrafo com quem trabalhava na época do acidente e que tinha por ela um a devoção enorm e. Iam se casar quando ela saísse do centro. E usava um anel de noivado que Cindy teria descrito com o do tam anho de um ovo.
Bill e Helena assistiram ao j ogo lado a lado. Muitos dos doentes davam gritos de incentivo às equipes. Havia grande alegria e anim ação, independentem ente da equipe que m arcava. O fato de estarem j ogando j á era um a vitória. Bill sentia-se im pressionado com o ginásio espetacular.
— É casado? — Indagou Helena. Todos sabiam que era com prom etida e louca pelo noivo. A pergunta fora feita por m era curiosidade. Bill era um hom em bem -apessoado. Em outras circunstâncias, ter-se-ia sentido atraída por ele, m as naquele m om ento era feliz com o noivo que tinha.
— Divorciado. Quase. Dentro de m eses.
— Sinto m uito. Será m uito popular aqui. — E esboçou um largo sorriso. Mas Bill nunca vira tantos hom ens bem -apessoados j untos, e m uitos deles com m etade da sua idade. Não se m ostrava preocupado com esse fato. Não se considerava um hom em livre. Estava apaixonado por Isabelle. — Tem nam orada?
Bill esteve tentado a dizer que não, m as resolveu ser franco.
— Tenho.
— Vai casar com ela? — Helena m ostrava-se im placável.
— Não — respondeu Bill, atirando com todas as cautelas para trás das costas. Não precisava ficar com segredos. — Ela é casada e vai continuar assim .
— Que quer dizer com isso? — Helena olhou fixam ente para Bill, alheando-se por com pleto do j ogo. A algazarra no ginásio era ensurdecedora, m as estava m ais interessada naquilo que Bill acabara de dizer.
— Quero dizer que ela não precisa de acrescentar os m eus problem as aos dela. Tem um filho deficiente. Não precisa de um m arido num a cadeira de rodas.
— Porque não? Que diferença é que isso faz? Tem de ultrapassar isso. É essa a opinião dela?
— Acho que não, m as é assim que m e sinto. Não quero ser um fardo para ela.
— É m uito sim pático da sua parte e aqueles ali? E apontou para os j ogadores, a chocarem uns com os outros, a deslizarem a toda a velocidade, de sorrisos abertos e rostos lavados em suor. Divertiam -se m uito. — Eles parecem -lhe um fardo para si?
— Não estou casado com eles. Mas talvez se tornassem , se fosse esse o caso. Olhe, Helena, não consigo dançar, pôr-m e de pé, passear pela rua, nem sequer sei se voltarei a trabalhar. Não posso obrigar ninguém a viver com igo nestes m oldes. — E nem sequer lhe referiu que da últim a vez que tentara fazer am or não conseguira.
— O que fazia na vida? Era patinador? — Indagou Helena, franzindo o sobrolho. Era um a garota inteligente. Bill gostava do estilo.
— Estou na política.
— É algo que não se possa fazer sentado? Isso é novidade para m im .
— Sabe do que estou falando.
— Eu tam bém m e sentia assim . Depois, achei que era um a estupidez. Agora falo de um a m aneira engraçada. Às vezes, esqueço-m e das coisas. Perco o fio à m eada nas conversas. Situação bastante em baraçosa. E tam bém não sei se poderei voltar a trabalhar. Mas iria am aldiçoar-m e para todo o sem pre se desistisse da vida. Tenho qualidades. Posso fazer outras coisas. Ainda estou a m eio cam inho — afirm ou, com algum a m odéstia. Já eram am igos. As am izades ali faziam -se rapidam ente. Encontravam -se todos no m esm o barco e partilhavam o m esm o tipo de problem as. — Ainda m e considero inteligente, em bora possa parecer por vezes estúpida. E se não gostarem de m im assim , que se lixem . O m eu noivo não está nem aí para isso, m as, caso estivesse, m andava-o dar um a volta. Talvez você devesse dar a essa m ulher um a oportunidade para se decidir.
— A questão é um pouco m ais com plicada.
— Há algum a coisa que não sej a com plicada? — Ripostou Helena, pouco im pressionada com o que Bill dissera, olhando, por instantes, para o j ogo. Depois, virando-se novam ente para ele, acrescentou: — Não tom e um a decisão precipitada. Quase apostaria a m inha vida em com o ela m erece o seu am or e que está se lixando para o fato de você andar ou não. — Bill sabia que o que ela dizia era verdade. Mas para Isabelle havia ainda o problem a de Teddy. Bill decidira que só tornaria a vê-la se conseguisse voltar a andar. Era um a condição que im pusera a si próprio, m as que ela desconhecia.
— Sabe, Helena, gostaria de fazer essa aposta com você. — Ouvira tudo o que ela dissera e ficara profundam ente im pressionado, não só pela coragem da j ovem , m as tam bém pela sua candura.
— Que aposta?
— A sua vida — respondeu Bill, soltando um a gargalhada.
— Calm a aí, hein? Você está apaixonado e eu estou noiva, e a m inha vida pertence ao m eu rapaz.
— É pena. — E continuaram sentados, lado a lado, com o velhos am igos, até o fim do j ogo.
A equipe de Joe foi a vencedora. Quando este chegou ao pé dos dois, estava feliz e todo suado. Dirigiram -se então até à lanchonete, onde a m aioria dos j ogadores e respectivos torcedores j á se encontravam . Fora um a tarde divertida. Quando Helena os deixou, para voltar para o quarto, Joe perguntou a Bill, com um sorriso de orelha a orelha:
— Ela vai acabar com o noivado? Todos j á tentam os.
— Estou tratando do assunto, m as ainda dem orará algum tem po. — Am bos sabiam que não passava de um gracej o. Helena estava loucam ente apaixonada pelo noivo e Joe disse até que ele era um a ótim a pessoa. Planej avam casar-se na prim avera. Helena estava determ inada a cam inhar pelo seu próprio pé até ao altar. Pela indom ável força que dem onstrava, Bill acreditava que conseguiria alcançar esse obj etivo. Era um a garota extraordinária.
— Tem um a irm ã que a vem visitar — com entou Joe, enquanto se dirigiam para os quartos. — Parece um a rã. — Bill soltou um a gargalhada. — Devem ser filhas de m ães diferentes, ou um a coisa desse gênero. A Helena apresentou-a e fiquei espantado. Mas é m uito sim pática.
— Às vezes essas coisas acontecem .
— Joga conosco da próxim a vez? — perguntou Joe, j á no corredor dos quartos.
— Acho que prefiro ficar assistindo. — Gostara da conversa com Helena e pensava naquilo que ela lhe dissera, m as ainda não concordava com as idéias dela. Não ia ser um fardo ou um inválido na vida de ninguém e m uito m enos na de Isabelle, m esm o que só se encontrassem duas vezes por ano. Era um a dor de cabeça de que ela não precisava. Já tinha dores de cabeça suficientes na vida.
— Quer ir a Nova Iorque am anhã? Vão m ais algum as pessoas. Vam os j antar e depois ao cinem a.
— Adoraria, m as as m inhas filhas vêm visitar-m e. — Olivia vinha de Georgetown, Jane, de Nova Iorque.
— Que idade têm ? — Indagou Joe, curioso. Estava interessado em conhecer garotas, em bora não tivesse saído com nenhum a desde a m orte da noiva.
— Dezenove e vinte e um . Gostaria que as conhecesse.
— Só saím os às seis horas — retorquiu Joe, entrando no quarto de Bill. Tenho um festival de natação am anhã, m as estarei aqui. — Bill fora capitão da equipe de natação da faculdade.
— Espero você — prom eteu Bill, e despediram -se. Estava aborrecido por não ter tido tem po de telefonar para Isabelle nessa noite e agora era m uito tarde para o fazer. Eram cinco da m anhã em Paris. Resolveu então esperar um a hora e telefonar-lhe quando ela acordasse.
Deitou-se na cam a e pôs-se a ler tentando não adorm ecer. Então, à m eia-noite, telefonou. Isabelle atendeu de im ediato, parecendo aliviada por ouvir a sua voz.
— Você está bem ? Estava preocupada com você.
— Estou ótim o. Fui assistir a um j ogo de basquetebol. Aqui dão cabo de m im Mas é um lugar extraordinário. — Falou-lhe então das pessoas que conhecera, das histórias que ouvira e da terapia que fizera durante todo o dia.
— Meu Deus, acho que não conseguiria fazer nada disso.
— Tam bém não sei se vou aguentar. Só tem os um dia livre. As m eninas vêm visitar-m e am anhã. Vai fazer-m e bem vê-las. — Há dois m eses que não as via e sentia im ensas saudades.
E estava espantado por tam bém sentir saudades de Cindy. Mas não referiu esse fato a Isabelle. Ao fim de trinta anos, a presença dela tornara-se um hábito na sua vida que era difícil de quebrar, m esm o tratando-se de um hábito que j á não fazia parte da sua existência. — E você, com o está, querida?
— Estou ótim a. Acabei de m e levantar. O Teddy ainda está dorm indo.