O Beijo
Capítulo Dezoito
Quando o avião aterrissou no Aeroporto Dulles, fechou os olhos e fez um a oração em silêncio para que Bill lhe desse ouvidos. Não fazia a m enor idéia se ele iria escutar o que tinha para lhe dizer. Mas iria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para que isso acontecesse.
Tinha o endereço do escritório no bolso. Então, tiritando de frio, entrou num táxi e deu ao m otorista o endereço do Hotel Four Seasons, em Georgetown, onde fizera um a reserva na noite anterior. Agora só tinha de descobrir onde Bill se encontrava.
CAPÍTULO DEZOITO
Eram quase quatro horas quando Isabelle acabou de desfazer as m alas no quarto do hotel. Sabia que tinha de telefonar para o escritório de Bill o m ais depressa possível, se queria saber onde ele iria estar essa noite. Ou talvez devesse aparecer pessoalm ente no escritório. De súbito, assaltou-a o receio de ser um a loucura o fato de ter feito aquela viagem . Havia m ilhares de chances na sua cabeça e não fazia a m enor idéia de qual resultaria m elhor. Enquanto olhava para o telefone, com eçava a achar que com etera um erro trem endo. Talvez j á não estivesse apaixonado por ela. Finalm ente, ao fim de m eia hora de total perplexidade, pegou no aparelho.
Foi um a recepcionista que atendeu. Tentou então dissim ular que estava sob um a grande tensão nervosa.
— Olá, é por causa da segurança para logo à noite. A que horas é que Mister Robinson chega? — Esforçou-se por falar com sotaque am ericano, de m odo a que a m ulher não percebesse que era francesa.
— Oh, m eu Deus, não sei — disse a recepcionista, com um a voz ainda m ais enervada do que a de Isabelle. — Eles vão a seis locais diferentes. A qual se refere?
— É a segurança para o j antar.
— Oh, claro... bolas... Pensei que ele cancelara esse... não, está bem ... tudo bem ... Ele deve chegar aí às nove horas... Lam enta o atraso, m as não consegue estar aí m ais cedo. Esse será o quarto local a que vai. E não pode dem orar... Sabe que ele agora andar de cadeira de rodas, não sabe?
— Claro, tenho aqui as m inhas notas — respondeu Isabelle, m ostrando-se bem inform ada.
— Só precisam de tirar um a cadeira da m esa, de m odo a que ele tenha espaço para colocar a cadeira de rodas. Não gosta de exibicionism os. E não quer ser fotografado na cadeira. É um a pessoa m uito discreta. Mister Robinson e o senador Johnson querem entrar por um a porta lateral e sairão da m esm a form a.
— Tudo bem . — Isabelle continuava sem saber onde era o j antar e não podia perguntar.
— O senador Johnson tem a sua própria segurança e encontram -se com você na porta lateral do Centro Kennedy, com o da últim a vez...
“Obrigada, m eu Deus”, m urm urou Isabelle para si m esm a. O Centro Kennedy.
— Ele vem em traj e de cerim ônia... É para o localizarm os logo... — Isabelle precisava de saber o que vestir.
— Não, ele pede im ensas desculpas... m as não vai... Julgo que não haverá problem a.
— De m odo nenhum .
Falaram ainda sobre vários porm enores, durante uns dez m inutos, m as Isabelle dava pouca im portância ao que a recepcionista dizia. A única coisa que precisava saber era que teria de estar no Centro Kennedy às nove horas da noite. Bill sairia às dez para o com prom isso seguinte. Poderia confrontá-lo à entrada, ou à saída... ou poderia fazer um a cena no j antar, esconder-se debaixo da m esa, apontar-lhe um a arm a... As chances eram m ais do que m uitas, m as algum as tinham poucas perspectivas de terem bons resultados. Não fazia a m enor idéia de com o agir, m as sabia que tinha de tentar qualquer coisa.
Por fim , resolvera encontrar-se com Bill à porta, depois do j antar, quando ele fosse sair. Isto é, às dez da noite. Daí a seis horas. As seis horas m ais longas da sua vida. Telefonou ao porteiro e pediu-lhe para alugar um a lim usine para essa noite. Depois, sentou-se pensando no que iria dizer-lhe, se é que ele lhe daria chance de falar. Bill poderia dizer-lhe, m uito sim plesm ente, que não tinha nada para falar com ela. Fora ele que dissera que nunca m ais queria voltar a ve-la, m as m entira-lhe, dizendo que voltara a andar e que havia renovado os votos m atrim oniais com Cindy. Durante cinco m eses, não fora capaz de com preender com o conseguira rom per com ela daquele m odo. Mas agora entendia perfeitam ente. Tudo girava em torno do fato de não querer ser um fardo para ela. Fora por isso que não quisera visitá-la em Paris, porque não queria que soubesse que ele não conseguia andar. Agora teria de o convencer a m udar de idéia. E sabia que só tinha alguns m inutos para o fazer, antes de ele entrar no carro e partir. Não fazia idéia do que lhe dizer. “Am o-te!”, poderia ser um com eço, m as nem isso o detivera quando acabara tudo entre eles. Por que m otivo haveria de o fazer agora?
Havia tanta coisa de que Bill não tinha conhecim ento: que Teddy m orrera, que deixara Gordon e que se m udara para um novo apartam ento. Que a deixara de coração destroçado e, sobretudo, não sabia que ela não se im portava que ele ficasse num a cadeira de rodas o resto da vida. A única coisa que Isabelle queria era estar com ele e am á-lo eternam ente.
De repente, questionou-se se não seria um erro vê-lo nessa noite. Talvez devesse encontrá-lo no escritório, ou telefonar-lhe. Sabia que devia andar num frenesim com a eleição que iria acontecer daí a três dias. Poderia adiar o encontro para depois, m as era possível que ele saísse da cidade ou desaparecesse. Não queria esperar m ais tem po. Já haviam esperado dem ais.
Nessa noite, não teria tem po para j antar. Tentou tirar um cochilo, m as não conseguiu pegar no sono. Tom ou então um banho e vestiu-se. Às nove e m eia, encontrava-se j á na lim usine, dirigindo-se a toda a velocidade para o Centro Kennedy. Quando chegou à entrada, ficou em pânico. E se Bill j á tivesse saído? Estava paralisada de preocupação quando abandonou o carro. Colocou-se então na zona lateral da entrada, de onde o poderia ver sair. Estava um frio de rachar, m as não se im portou. De súbito, com o um m au presságio, com eçaram a cair enorm es flocos de neve, que fortes raj adas de vento sopravam em todas as direções. Às dez e um quarto, não havia qualquer sinal de Bill, e com eçava a im aginar que, possivelm ente, saíra por outra porta. Talvez tivesse havido m udança de planos. Isabelle envergava um casacão preto, um chapéu de pele de zibelina, botas de cam urça pretas e luvas. No entanto, continuava com frio e coberta de neve.
Às dez e m eia, j á perdera a esperança. Sabia que teria de descobrir outra form a e tentar de novo. No dia seguinte, iria experim entar outro estratagem a. Disse para si m esm a que ficaria até às onze horas, se bem que estivesse convencida de que Bill e o senador j á haviam partido para o com prom isso seguinte.
Entretanto, às dez para as onze, houve algum a agitação perto da porta. Prim eiro, saíram dois policiais à paisana, depois, um segurança com um fone no ouvido, finalm ente, um hom em bem -apessoado, de cabeça baixa contra o vento, abandonou em passada larga o edifício e dirigiu-se para um a lim usine que aparecera com o que por encanto. Isabelle não dera por ela. O hom em parecera-lhe o senador, m as não tinha certeza, pois ia de cabeça baixa. Ficou m ais uns instantes na expectativa, m as não viu m ais ninguém sair. Perguntou-se então se Bill não viera ou se resolvera ficar. Então, avistou um hom em num a cadeira de rodas, rodeado por um a pequena m ultidão, que ouvia atentam ente o que ele dizia. Era ele próprio que conduzia a cadeira. Trazia um cachecol felpudo ao pescoço e um casaco escuro, e Isabelle reconheceu im ediatam ente que se tratava de Bill. Sentiu o coração bater m ais acelerado quando o viu dirigir-se para a ram pa onde ela se encontrava. Bill ainda não dera pela sua presença. Os acom panhantes deixaram -no e correram para dentro do edifício para fugir à neve. O senador e os seguranças j á se encontravam na lim usine.
Então, com o se tivesse tom ado o seu destino nas m ãos, dirigiu-se para a ram pa e com eçou a subi-la. A m eio, deu de cara com Bill, de cabeça baixa, para se proteger do vento, de m odo que o casaco e as pernas foram as únicas coisas que ele viu de Isabelle.
— Desculpe, podia desviar-se... — m urm urou Bill, com ar absorto, m as ela não se m exeu.
— Mentiu para m im — disse Isabelle, com a voz com que Bill sonhara durante cinco m eses e que decidira nunca m ais ouvir.
Ao levantar os olhos para ela, Bill ficou m udo de espanto. Mas tentou recom por-se de im ediato.
— Olá, Isabelle. Que coincidência encontrar-te aqui — proferiu, supondo que Gordon viera à negócios e que ela o acom panhara. Não deu qualquer explicação relativam ente ao fato de estar na cadeira de rodas, apesar daquilo que dissera m eses antes.
— Não é bem um a coincidência. — Já era dem asiado tarde para m ais m entiras. — Vim propositadam ente de Paris para te ver.
Bill não sabia o que dizer. O vento fustigava-lhes os rostos, ao m esm o tem po que a neve se agarrava ao chapéu de Isabelle. Parecia saída de um cartão de Natal, ou um a princesa russa. Bill estava deslum brado com a beleza dela, m as exibia um a expressão im passível. Esforçava-se por m anter um ar desapaixonado e despreocupado para dissim ular tudo aquilo que sentia. Tornara-se m estre nesse cam po.
— Tenho de ir. A Cindy está à m inha espera no carro.
Foi a única desculpa que conseguiu arranj ar para um a fuga rápida. Sabia que precisava sair de perto dela o m ais rapidam ente possível, antes que se sentisse tentado a pôr de lado a decisão que tom ara m eses antes.
— Não, ela não está no carro. Você está divorciado. Você tam bém m entiu a esse respeito.
— Menti acerca de um a série de coisas, m as sobre o fato de que, para m im , a relação entre nós acabou, não. Isso é verdade. — Tudo nele resistia a Isabelle, m as o olhar denunciava-o.
— Por que m otivo é que, para você, a relação acabou? — Continuava a busca im placável pela verdade. Se Bill conseguisse dizer-lhe que j á não a am ava, desapareceria para sem pre da sua vida. Mas tivera de o ver um a últim a vez. E se Bill ia m andá-la em bora de novo, pelo m enos queria que a olhasse bem nos olhos.
— As coisas são m esm o assim . Com o está o Teddy ? — Indagou Bill, para quebrar a tensão e m udar de assunto, m as não estava preparado para o que veio a seguir.
— Morreu há três m eses. Pegou um a gripe m uito forte. Tenho pena que nunca o tenha conhecido — respondeu Isabelle, com voz triste, esforçando-se por m anter a com postura. Não queria que a sua dor fosse m ais um peso para ele carregar, m as achava que devia dizer-lhe.
— Os m eus pêsam es. — Bill ficou algo com balido ao im aginar o choque que Isabelle sentira e pelo sentim ento de culpa de não ter estado ao seu lado na época. — Você está bem ?
Tinha vontade de lhe estender os braços e de a abraçar, m as não se atrevia. Sentia-se em baraçado por ter sido apanhado nas suas m entiras e por Isabelle o ver na cadeira de rodas. Convencera-se de que os seus cam inhos nunca m ais voltariam a cruzar-se e que ela nunca m ais saberia nada dele.
— Ainda não, m as acabarei por m e conform ar. — Sinto im ensas saudades dele. E de você tam bém — sussurrou Isabelle, num tom triste. — E você, com o está. — Queria perguntar-lhe se tam bém sentia saudades dela, se se arrependera do que fizera, m as Bill estava ansioso para ir em bora. Sabia que tinha o senador à espera. Mas esta era a sua única oportunidade.
— Estou ótim o. Melhor do que nunca. Voltei ao trabalho. A eleição é daqui a três dias. — Deu um a olhadela no relógio. Estavam um a hora atrasados para o com prom isso seguinte. Olhou então para Isabelle com o ar de quem pede desculpa, m as sem m ostrar quaisquer sinais de querer o que quer que fosse dela. — Tenho de ir.
— Ainda te am o, Bill — insistiu Isabelle, sentindo-se desesperadam ente vulnerável, m as fora por isso que viera. Fazia questão que ele soubesse. — Estou-m e m e lixando para o fato de não conseguir andar de patins ou dançar. Tam bém não sou grande dançarina. Nunca fui.
Bill esboçou um sorriso nostálgico, estendeu o braço e tocou-lhe na m ão.
— Você está falando sério? Veio só para ver-m e?
Era a m esm a voz doce que ela recordava com saudade. Isabelle anuiu com a cabeça, não conseguindo evitar algum as lágrim as furtivas.
— Vi-te ontem na CNN e percebi por que razão você m entiu. Queria que soubesse que não m e im porto.
— Eu sei que não se im porta. Mas eu m e im porto. É isso que conta. Nunca te deixaria fazer tal coisa. Am o-te dem asiado para destruir a tua vida, sobrecarregando-te com isto. — E olhou para a cadeira. — Nem m esm o que o Gordon te deixasse um dia. Especialm ente nessa hora. Ele está tratando-te decentem ente? — Já o procurara com o olhar e verificara que não viera com Isabelle, deduzindo que esta arranj ara um j eito de lhe escapar.
Isabelle esboçou um suave sorriso.
— Usei as m unições, com o m e disseste, quando o Teddy m orreu. Pôs-m e parafora de casa. Eu e a Sophie tem os um apartam ento na Rue de Varenne.
As vidas de am bos haviam dado m uitas voltas. Porém , nada disso fazia com que ele alterasse a decisão que tom ara. Aliás, o fato de a ver veio reforçar ainda m ais essa decisão. Isabelle era um a m ulher livre e m erecia m uito m ais do que aquilo que ele podia oferecer-lhe.
— Folgo em saber que você está bem — e recusou-se a dizer m ais qualquer coisa.
— Sei que está com pressa. Estou no Hotel Four Seasons. Se quiser falar com igo, liga-m e.
Bill lim itou-se a abanar a cabeça. Tinha os cabelos cobertos de flocos de neve.
— Não vou telefonar-te, Isabelle. Fizem os o que tínham os que fazer há cinco m eses. Tom ei a decisão que achei m ais acertada.
— Não concordo com você. Foi um erro trem endo, para os dois. Tem os o direito de nos am ar. E m esm o que continue fora da m inha vida, não deixarei de te am ar. Nunca.
— Acabará esquecendo.
Isabelle negou com um aceno de cabeça e desviou-se para o lado. Bill fitou-a então dem oradam ente.
— Cuida de você. Teve vontade de voltar a dizer-lhe o quanto lam entava a m orte de Teddy, m as não o fez. E, sem proferir m ais nada, desceu o resto da ram pa, sem olhar para trás e entrou na lim usine. Pediu desculpa ao senador pela dem ora, dizendo que encontrara um a velha am iga. Não pronunciou m ais qualquer palavra durante toda a viagem até à parada seguinte, sem conseguir dissim ular a profunda tristeza que o consum ia.
Já passava da m eia-noite quando Bill chegou em casa. Não telefonou para Isabelle. Já era m uito tarde e, além disso, resolvera nunca m ais lhe telefonar. Acreditava que a m aneira com o agira era sinal do grande am or que tinha por ela. Se não a am asse tanto, talvez não se im portasse de ser um fardo para ela, m as am ava-a dem asiado para lhe fazer tal coisa, e sabia que sem pre a am aria. Estava de coração despedaçado pela m orte de Teddy. Sabia o que este significara para ela e im aginava o choque que sofrera com a sua m orte. Pelo m enos, ficara aliviado por saber que Gordon j á não fazia parte da sua vida. Acreditava que ela arranj aria outra pessoa em breve. Nunca a vira tão bonita nem tão triste com o nesse dia, na neve, à porta do Centro Kennedy. Nessa noite, na cam a, não conseguiu pensar em outra coisa.
Quando Isabelle se sentou no seu quarto de hotel, pensando em Bill, a neve ainda não parara de cair. Sabia agora que ele nunca m ais lhe telefonaria. A expressão que lhe vira no rosto indicava a sua firm e disposição de não voltar a envolver-se com ela. Só o olhar denotava ainda algum a relutância. Agora só lhe restava aceitar a decisão que ele tom ara. Mesm o que tivesse m entido, fora esta a decisão que acabara por tom ar. Na sua vida não havia finais felizes. Havia apenas lições e perdas, e destas j á tivera a sua dose.
Ficou acordada durante quase toda a noite e quando, por fim , adorm eceu, sonhou com Bill. Quando o telefone tocou, às quatro da m anhã, dorm ia profundam ente. Era Bill. Mesm o com sono, reconheceria a sua voz em qualquer lugar.
— Desculpa telefonar-te tão tarde. Estava dorm indo? — Parecia sentir-se tão atorm entado com o ela.
— Tinha acabado de adorm ecer. Onde você está?
— Aqui em baixo no átrio do hotel. Sou um louco varrido com o você, m as não sabia quando é que partiria e tenho de estar em Nova Iorque am anhã. Pensei que, j á que veio de propósito de Paris, talvez devêssem os conversar. — A hora tardia não parecia aborrecer qualquer um dos dois.
— Estou felicíssim a por ter vindo. Porque não sobe? — Penteou-se, escovou os dentes e passou um pouco de água pelo rosto, enquanto esperava que Bill subisse. Cinco m inutos depois, ouviu-se um a batida na porta. Sentado na cadeira de rodas, olhou para Isabelle e entrou lentam ente, enquanto esta segurava a porta, fechando-a em seguida, sem fazer o m ínim o ruído. Isabelle teve vontade de estender os braços e tocar-lhe, m as não se atreveu.
— Desculpa vir aqui a estas horas. Não conseguia dorm ir. Foi um choque encontrar-te esta noite. Um a loucura da sua parte. — Mas não se sentia infeliz. Ficara sensibilizado com o ato dela, m as tam bém um pouco aborrecido. Havia um a série de sentim entos adorm ecidos que levara m eses dissim ulando e que agora haviam sido despertos, ao vê-la à porta do Centro Kennedy, sob a neve. — Lam ento m uito o que aconteceu ao Teddy. O que se passou?
Isabelle sentou-se no sofá, de frente para Bill, e contou-lhe, em breves palavras, os últim os dias do filho. A voz ficou em bargada e os olhos encheram -se de lágrim as e não conseguiu evitar que um a lágrim a m ais teim osa rolasse pela face. Instintivam ente, Bill estendeu a m ão e tocou na dela.
— Sinto m uito.
Isabelle esboçou um sorriso.
— Tam bém eu. Algum as pessoas dizem que foi um ato de m isericórdia, e talvez até tenha sido, m as tam bém teve m om entos de felicidade. Sinto im ensas saudades dele. Nunca dei conta do quanto a m inha vida girava à sua volta. Não sei o que vou fazer agora que ele partiu e a Sophie está na faculdade.
— Dem ora algum tem po, m as acabará por se habituar. Foi um a enorm e volta que a sua vida levou. — Tudo m udara na sua existência: a casa, o divórcio, a m orte do filho, a perda de Bill. No ano anterior não fizera outra coisa senão enfrentar alterações dolorosas na sua vida. Tal com o ele. — Não sei o que dizer-te. Nunca pensei em voltarm os a ver-nos. Achava que não devíam os. Eu não tinha o direito de arruinar a sua vida. Merece m ais do que aquilo que posso oferecer. Precisa de um a pessoa m aravilhosa, com pleta... não com o eu.
— Você é um a pessoa com pleta — m urm urou Isabelle, os olhos pregados nele. Ainda não sabia o que Bill ia dizer-lhe, nem se iria gostar do que iria ouvir. Tudo levava a crer tratar-se de m ais um a despedida, ou de m ais um desfilar de um a série de razões que o levavam a não poder ficar com ela. Mas, pelo m enos, desta vez, não eram m entiras, só o que ele entendia por verdade, por m ais distorcida que fosse.
— Am bos sabem os que não é esse o caso. — Não queria recordar-lhe a tentativa fracassada de fazer am or no hospital de Londres. Ao contrário do genro, via as suas deficiências com o um obstáculo intransponível, que o im pedia de chegar ao casam ento. Estava convencido de que não tinha nada j usto ou razoável a oferecer-lhe. Lem brava-se vagam ente de tudo o que Helena lhe dissera, m as esta era j ovem e idealista. Talvez o am or se destinasse só aos j ovens. Fosse com o fosse, viera ao hotel para lhe explicar as coisas e despedir-se com algum a decência. Devia-lhe isso, dissera a si m esm o antes de vir ao Four Seasons. Sabia que a form a com o a deixara fora de extrem a crueldade e ela não m erecia isso, sobretudo depois de perder Teddy. Só quis despedir-m e e dizer o quanto lam ento toda esta situação. Nunca devia ter-te convencido a ir a Londres. Sinto-m e culpado de tudo o que se passou.
— Você deu-m e o verdadeiro am or que se pode ter de um hom em . Você não tem nada de que se desculpar.
— Perdoa não poder ser m ais do que aquilo que sou... — Havia lágrim as nos seus olhos. — Desculpa tudo isto — proferiu, num tom triste.
Isabelle inclinou-se para ele e beij ou-o, enquanto Bill a puxava delicadam ente para si e a sentava ao seu colo. Beij aram -se então com tal paixão que, por instantes, Bill se esqueceu da virilidade perdida e sentiu-se invadir por um desej o incontrolável. A força do que sentiam um pelo outro era irresistível. De repente, Bill deixou de ter m edo. Beij aram -se dem oradam ente com ardor. Quando afastaram os lábios, estavam am bos arquej antes. Então, e sem trocarem qualquer palavra, Isabelle aj udou-o a sentar-se no sofá e despiu-o delicadam ente, ao m esm o tem po que ele lhe passava as m ãos pelos om bros, fazendo com que o robe de cetim caísse no chão.
Bill ainda sentia um a m uito ligeira hesitação, m as, dessa vez, não conseguia parar. Desej ava-a loucam ente. Não se lem brava de fazer am or com alguém com o Isabelle, nem de desej ar um a m ulher com tanto ardor. Nunca sentira tal paixão na vida, nem antes do acidente, nem na j uventude. Não havia ninguém no m undo com o ela. Fazia-o sentir-se hom em de novo. Estavam am bos tom ados pelo desej o.
Depois do m om ento de êxtase, Bill envolveu Isabelle nos braços e sorriu. Os seus piores receios haviam se desvanecido. Tudo o que acontecera fora m elhor do que qualquer um deles im aginara. Mesm o não conseguindo andar, sentia-se um hom em com pleto.
— Que bom ! — exclam ou Isabelle, apertando-o contra si. Bill sorria. Sentia-se de novo um adolescente nos braços da sua am ada. Foi m aravilhoso!
— Você é que foi m aravilhosa!
Um a hora depois, conduziu-o ao banheiro, de onde saiu, com pletam ente vestido, quarenta m inutos depois, m as com um olhar que a deixou preocupada.
— Foi um a loucura ter vindo até aqui — afirm ou Bill, num tom som brio, j á dom inado pelo sentim ento de culpa e pelos seus próprios m edos. Não devia ter feito o que fiz. — Não queria enganá-la nem dar-lhe falsas esperanças. Continuava a bater na m esm a tecla de que Isabelle m erecia um a vida m elhor do que aquela que ele poderia dar-lhe, e fazer am or só viera com plicar ainda m ais as coisas. Passara m eia hora no chuveiro torturando-se, censurando-se, m as tam bém sentia m uito alívio por ter conseguido consum ar o ato de am or. As pernas estavam perdidas, m as a sua virilidade regressara com força.
— Não vej o por que razão não devíam os ter feito am or. Som os adultos e livres. Você é divorciado e eu estou quase. Não tem os filhos pequenos que possam entravar a nossa relação. Não devem os arranj ar problem as onde eles não existem . A vida j á é suficientem ente com plicada para não a com plicarm os ainda m ais. Além disso, a vida é bela e curta. Podíam os ter m orrido os dois em Londres, ou pior, um dos dois. Mas não m orrem os. Talvez não devêssem os desperdiçar esta graça divina.
— Não sou nenhum a graça divina — disse Bill, com um ar determ inado. A vida com um hom em confinado a um a cadeira de rodas não é nenhum a graça divina, pode ter certeza.
— A vida entre duas pessoas que se am am é. — Haviam ido até ao inferno e voltado. Isabelle sentia que tinha direito a um bocadinho de céu. Am ava Bill, tal com o era, sem hesitações ou reservas, e estava disposta a ficar ao seu lado o resto da vida.
— Não posso deixar-te fazer essa asneira. Nunca perm itirei tal coisa, independentem ente do que acabou de acontecer aqui. Não devíam os ter deixado que as coisas chegassem a tal ponto. Fui um estúpido e um irresponsável.
— Você foi hum ano. Não consegue, por um a vez na vida, deixar de se m artirizar. Por que razão você tem de dificultar as coisas, quando, na realidade, não são assim tão difíceis, nem precisam de ser. Am am o-nos. Não chega?
— Às vezes, só o am or não chega. Não sabem os o que vam os encontrar.
— Eu sei. — Eram quase seis da m anhã, e Isabelle sabia que Bill não tardaria a ir em bora. — Passei quinze anos tratando do Teddy. Sei o que é dar am or e carinho a um a pessoa doente e você não está doente. Você é um hom em forte, saudável, com pleto. Só não consegue andar. Mas isso, para m im , não faz qualquer diferença. Não m e im portaria sequer se nunca m ais conseguisse fazer am or na vida. Esse é um bônus m aravilhoso, m as tam bém não seria difícil viver sem isso. O que sentim os um pelo outro significa m uito m ais para m im .
— Nunca deixaria que fizesse tal coisa, nem vou deixar que as coisas avancem m ais. Não estou disposto a isso. Vim aqui para m e despedir e é isso que tem os de fazer.
— É um a estupidez. Estam os desperdiçando um a oportunidade. Não vou perm itir que leves isso à frente.
— Não voltarei a vê-la. — E am bos sabiam que era capaz disso.
— E depois está condenando-nos a ficarm os sozinhos o resto da vida. Já pensou no que tivem os e perdem os, e no que poderíam os ter tido, se não fosse tão teim oso. Com que fim ? Onde está a vitória? Dão-nos algum a recom pensa no céu por nos privarm os do nosso am or. Tudo bem , é provável que as coisas nem sem pre sej am fáceis. Não serão “perfeitas”. Mas nada na vida o é. Por aquilo que vej o, as coisas entre nós poderão ser m aravilhosas, basta quererm os. Porque não podem os ter aquilo que m erecem os e querem os. Já puniu-se o suficiente. Será necessário infligir m ais tristeza em você e em m im ? Já perdi coisas que bastam na m inha vida, tal com o você. Pelo am or de Deus, sej a sensato. — As lágrim as inundaram -lhe os olhos e correram pelas faces. Olhou fixam ente para Bill, m as este m anteve-se im passível.
— Desculpa — sussurrou Bill, beij ando-a na cabeça. Dirigiu-se para a porta e, virando-se, fitou-a.