O Beijo

Danielle Steel · Capítulo 4 de 17

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O Beijo

Capítulo Seis

— Olá, Isabelle... sou eu... o Bill... Você tem de acordar! Já está dorm indo há dem asiado tem po... você tem de voltar... — Depois, num sussurro: — Am o-te... vai tudo correr bem .

Deixaram -no ficar m ais alguns m inutos, depois levaram -no para o quarto. Quando chegou, estava exausto e pálido. Então, ao pensar nela, recordou-se, de repente, de um sonho que tivera, m as não se lem brava quando. Os dois estavam cam inhando em direção a um a luz m uito brilhante e, pouco antes de a atingirem , obrigou-a a regressar, o que a deixara extrem am ente incom odada. Os filhos de am bos tam bém lá estavam e ele queria voltar. Mas Isabelle desej ava continuar. Agora queria repetir-lhe as palavras que lhe dissera então. Ela tinha de voltar, de acordar. Estava ansioso por vê-la de novo. Só de pensar que Gordon tentara levá-la para França sentia um pavor enorm e dentro de si. Era evidente que Isabelle não estava em condições de ser transferida. Mas o m édico assegurara-lhe de que nunca perm itiriam tal coisa. Sentiu-se m ais aliviado e m ais confortado por saber que Isabelle estava perto de si.

Nessa noite, adorm eceu pensando nela. Deitada na sua cam a no Claridge’s, Cindy tam bém pensava em Isabelle. E no quarto que a m ulher ocupara dois dias antes, deitado em cim a da cam a, Gordon refletia sobre Bill. Todos tinham m uita coisa em que m editar, e as únicas pessoas que sabiam as respostas para as perguntas eram Bill e Isabelle.

CAPÍTULO SEIS

No dia seguinte, quando Cindy chegou, a enferm eira dava de com er a Bill. Era dom ingo, j á haviam passado quatro dias depois do acidente e Bill ainda continuava abalado. Mas era um a satisfação enorm e estar acordado e vivo.

— Que tal vai isso, querido? — perguntou Cindy, em tom prazenteiro. Trazia um a T-shirt, berm uda e um par de sandálias que um a das filhas lhe em prestara. Olivia e Jane haviam ido dar um passeio por Londres. As horas que perm aneciam no hospital eram dem asiadas para elas. Planej avam passar pelo hospital ao fim da tarde. — Com o é que se sente, — indagou, aproxim ando-se da cam a.

— Estou pronto para j ogar um as partidinhas de tênis. — A voz ainda estava um pouco rouca, m as j á se fazia entender com clareza.

Haviam -no barbeado pela prim eira vez e j á se sentia com um ar m ais hum ano, m as ainda havia um longo cam inho a percorrer. Dissera ao m édico que a visão estava um pouco turva, o que não era de estranhar. O im pacto na cabeça fora forte e os efeitos do com a ainda se iriam fazer sentir durante m ais algum tem po. Um especialista viera exam inar-lhe as pernas e a coluna, e o m édico assistente dissera-lhe que estavam pensando em operá-lo, dependendo da opinião do especialista. Era evidente para todas as pessoas que a sua recuperação ia ser dem orada. E ainda não se sabia se voltaria a andar. Tinha consciência disso, m as era um assunto que ele e Cindy queriam evitar, em bora am bos soubessem que, dadas as lesões ao nível da coluna vertebral, havia um a possibilidade real de ficar confinado a um a cadeira de rodas para o resto da vida.

Cindy não tinha pressa de abordar esse assunto com Bill. Este j á tinha problem as que chegassem . Nos últim os quatro dias, ela não parava de pensar em com o seria viver com o m arido nessas condições. Não fazia a m ínim a idéia se Bill voltaria a trabalhar ou de com o seria a existência dele se se visse obrigado a retirar-se da vida política. Nem sequer conseguia im aginar esse cenário tal com o ele, m as am bos sabiam que as consequências poderiam ter sido bem piores. Houvera a possibilidade de ter ficado com pletam ente paralisado. E m ostraram -se aliviados quando souberam que tinha grandes chances de m anter as funções ao nível do tórax e dos braços, se bem que a questão da bacia e dos m em bros inferiores ainda estivesse em aberto, o que estava aterrorizando-o.

— Com o estão as nossas filhas? — perguntou Bill, algo ansioso e tenso, enquanto Cindy puxava um a cadeira e se sentava.

— Estão boas. Foram dar um a volta. Passarão por aqui depois. Am bas as garotas estavam extraordinariam ente aliviadas por o pai ter sobrevivido. E a m ãe incentivara-as a irem dar um a volta para desanuviar.

— Deviam voltar para casa esta sem ana, Cin. Nada podem fazer aqui.

— Estávam os para vir à Europa dentro de sem anas. Não creio que queiram deixar-te agora. — Sorriu e, por instantes, Bill desviou o olhar. — Talvez as leve para passar uns dias em Paris, se você estiver m elhor daqui a algum as sem anas. Não tarda a voltar para casa. — Mas não estava tão certa com o queria fazer crer. O m édico avisara-a de que Bill ficaria hospitalizado durante m eses. Ela ainda lhe perguntara se havia chance de ele fazer a viagem num avião de transporte de doentes, m as todos os m édicos haviam sido de opinião de que ainda era m uito cedo para fazer qualquer tipo de m ovim ento.

— Não sei quando poderei voltar para casa, Cin. E elas não podem passar todo o verão aqui sentadas, à m inha espera.

— Eu não tenho coisa m elhor para fazer — afirm ou Cindy, em tom j ovial.

Bill sorriu.

— As coisas devem ter m udado m uito nas últim as sem anas. Anda sem pre de um lado para o outro. Não vai a um torneio de tnis, passear, ou dar um a festa? Vais ficar m aluca, aqui sentada, olhando para m im .

— Não vou deixar-te sozinho, Bill. Vou acabar por m andar as m eninas para casa, a não ser que queiram ir a algum lado sozinhas. “Para o bem e para o m al”, lem bra-se? Eu lem bro. Não vou deixar-te aqui sozinho — repetiu.

— Já sou um rapaz crescido — retorquiu Bill, com ar sério. Havia algo sinistro no seu olhar. Cindy ficou preocupada. Estava tentando dar um tom agradável à conversa, m as não conseguia evitar que ele dissesse o que m uito bem lhe apetecia. — Ia falar com você acerca disso, dessa questão do “para o bem e para o m al”. Nos últim os anos, tem os tido m uitas coisas “m ás”. A culpa é m inha. Passei tanto tem po em viagens e em brenhado na política, que não vos dei a devida atenção, a você e às m eninas. — Há m uito tem po que tinha um sentim ento de culpa relativam ente a essa questão, m as j á haviam estabelecido um padrão de distanciam ento entre eles, que era praticam ente im possível dar um rum o diverso às coisas.

— Habituam o-nos. Ninguém te culpa por isso. Tenho um a vida. Tenho coisas para fazer. Não estou queixando-m e do casam ento, Bill. — Cindy exibia um ar sério. A enferm eira deixara-os a sós quando com eçaram a conversar.

— Vocês deviam ter protestado, Cin, há m uito tem po E tam bém eu deveria ter-m e queixado. O nosso casam ento j á não existe há m uitos anos. Não fazem os as m esm as coisas, não tem os os m esm os am igos Nem sequer sei o que você faz a m aior parte do tem po. Ultim am ente, até tenho esquecido de te dizer onde estou. Para ser honesto, nem sei se se im porta com isso. Estou surpreendido por ter vindo até Londres. Sem pre pensei que ficaria contente no dia em que eu desaparecesse.

Não estava fazendo-se de vítim a. Era tudo verdade E não lhe referiu que sabia dos m uitos casos que ela tivera nos últim os tem pos, em bora houvessem falado de um a história que se passara com ele vários anos antes. Cindy ficara furiosa, pois sentira-se hum ilhada. Mas Bill sem pre fora um cavalheiro e nunca referira que os breves rom ances que ela m antivera com os instrutores de tênis, os j ogadores profissionais de golfe e os m aridos das am igas o haviam hum ilhado durante anos. A fidelidade j á não era um aspecto do casam ento que ela pudesse oferecer-lhe. No com eço, fora a sua form a de vingança por se sentir rej eitada, quando Bill com eçara ficando obcecado pela política. Às vezes, achava que isso era um a form a de atrair as atenções, m as fora a opção errada. Bill acabou por se desprender e obrigou-se a não dar im portância. Não lhe dizia nada quando devia dizer, porque era m ais fácil fechar os olhos àquilo que estavaacontecendo. O que outrora sentira por ela, trinta anos antes, m orrera há m uito. A am izade fora a única coisa que restara, e Bill estava grato por Cindy se encontrar ali com ele, se bem que j á não houvesse qualquer tipo de paixão. Percebera isso nas horas que passara com Isabelle.

— Está ofendendo-m e — ripostou Cindy, com ar m agoado. Com o pode pensar que não viria aqui depois do acidente? Deve considerar-m e um a m ulher sem coração.

— Não, querida, sei que você tem coração. — E esboçou um sorriso triste. Só que j á não é m eu há m uito tem po. Quem m e dera que tivesse sido. Às vezes, desej ava que ainda fosse, m as j á não é, e é essa realidade que tem os de encarar. Pensava em falar no assunto quando chegasse em casa.

Cindy fitou-o, em m agoado silêncio, durante um longo instante, os olhos m arej ados de lágrim as. Não acreditava que Bill estivesse dizendo-lhe aquilo. Por ironia do destino, quando percebera que ainda o am ava, este dizia-lhe que j á nada existia, que estava tudo acabado. Ainda nem sequer sabia o que ele iria dizer-lhe a seguir. Mas o preâm bulo não parecera m uito encoraj ador.

— Isto tem a ver com a Isabelle? — perguntou Cindy, tentando m anter-se calm a. — Está apaixonado por ela, não é? — Não era hora de se refugiar atrás de palavras. Estava curiosa por saber se Bill pensava em casar-se com Isabelle. Não era costum e dele ter casos. Tanto quanto sabia, só lhe conhecera um : o rom ance com a esposa de um congressista, caso esse que chegara a ser m uito sério. E pusera-lhe term o porque sabia que, se continuasse, teria de deixar Cindy e as filhas.

— Não tem nada a ver com a Isabelle — retorquiu Bill, falando-lhe com toda a sinceridade. Tinha de ser assim , para bem de todos. — Tem a ver com igo. Não sei por que razão continuam os casados este tem po todo. Por hábito, desconfio. Ou por preguiça, ou por um a qualquer ilusão de que as coisas m elhorassem , ou por com odism o, ou talvez porque as m eninas eram pequenas. Mas é assim que quer viver? Casada com um cara que nunca vê? Nunca conversam os, não tem os nada em com um , a não ser as m eninas. Você tem a sua própria vida, eu tenho a m inha. Merece m uito m ais do que isso e eu tam bém .

Cindy sabia que era verdade, m as eram palavras que não queria ouvir.

— Poderíam os tentar de novo, se quiséssem os. Percebi, quando isto aconteceu, que ainda te am o. Eu é que tenho sido estúpida ao longo destes anos todos. Ao princípio, irritava-m e por você divertir-se tanto com o fazia e que não m e incluísse nessa grande fatia da sua vida. Por isso, resolvi tam bém divertir-m e. Fi-lo da pior m aneira e acabei sem pre na m erda, com igo própria e com você. Mas isso podia m udar. Vej o agora o quanto nos resta, o quanto nos am am os. — As lágrim as soltaram -se de repente e correram -lhe pelas faces. Inclinou-se para a frente e tocou-lhe na m ão. — Fiquei aterrorizada quando pensei que ia perder-te. Am o-te, Bill. Não nos abandone agora. Tem os ainda m uito tem po à nossa frente.

Se pudesse, Bill teria abanado a cabeça, m as o olhar dizia a m esm a coisa.

— É dem asiado tarde, Cin. Nada nos resta, a não ser as filhas e o fato de serm os bons am igos. É por isso que está aqui. Faria o m esm o por você. Não vai perder-m e, Cin. Não pode. É por isso que quero que as coisas não tom em outro rum o, que não continuem tal com o estavam . Caso contrário, acabarem os por nos detestar, e não quero que isso aconteça, por nós e pelas nossas filhas. Se as coisas term inarem aqui, serem os sem pre am igos.

— Sou sua esposa. — Cindy lutava pela sua vida, m as não estava conseguindo vencer. Não quero ser apenas sua am iga.

— É m elhor do que a alternativa. Um destes dias, vai envolver-se com o tipo errado, talvez um dos m eus am igos, ou alguém de quem gosto, e vou estar-m e m e lixando para você e para ele. E a existência entre nós, depois disso, não será das m elhores. — Bill estava adm irado por Cindy nunca ter provocado nenhum escândalo. Pelo m enos, fora cuidadosa.

— Não voltarei a fazer nada disso. — Cindy chorava copiosam ente. Era hum ilhante ouvir o m arido dizer que sem pre soubera de todas as suas leviandades. Ela que sem pre se convencera de que ele não sabia de nada e que, provavelm ente, tam bém fazia a m esm a coisa. Mas Bill era um hom em dem asiado sério para isso e extrem am ente leal. Por essa razão, m uito provavelm ente, se apaixonara por Isabelle. Por ser um hom em nobre de sentim entos. Quando sentia am or por alguém , era am or sincero. Nunca m ais terei nenhum caso. Juro. Agora não ando com ninguém . — Acabara a últim a ligação am orosa há apenas quatro m eses, depois de três m eses de rom ance com um hom em que conhecera no Country Club. Tinha m ulher e três filhos, e bebia m uito. Era bom na cam a, m as Cindy receara que ele desse com a língua nos dentes quando estivesse bêbado. Não queria passar por em baraços.

— Voltará a fazê-lo. Am bos sabem os que sim . E talvez tenha razão. Estam os a m ilhões de quilôm etros de distância um do outro, m esm o quando nos encontram os j untos. Não querem os nem m erecem os nada disto. — De repente, veio-lhe à m ente Isabelle. Não pensava em outra coisa durante todo o dia. Passava as noites sonhando que vagueava, sem destino, à procura dela.

— Você vai casar com ela? — Cindy acabou a pergunta com um soluço.

Bill sentia que era a hora de lhe dizer tudo aquilo que ia dentro de si, por m uito que lhe custasse. Apesar do acidente, queria pôr j á um ponto final na relação com Cindy. As coisas só iriam piorar e não era j usto estar dependente dela. Cindy acabaria por odiá-lo. Não era o tipo de m ulher que conseguisse passar anos, j á para não dizer o resto da vida, cuidando do m arido. Acabar confinado num a cadeira de rodas até ao fim da vida era a últim a coisa que lhe queria infligir, sabia que só lhe restava um a alternativa, que era sair de casa e cuidar de si.

— Não, não vou casar-m e com a Isabelle. Ela não vai abandonar o m arido, caso sobreviva. Ele é um sacana, um cara sem escrúpulos. Mas ela tem um filho doente. Já te disse que não tem nada a ver com ela. Tem a ver conosco. Ainda m e agradecerá este dia, quando descobrir o cara certo que eu nunca fui. No com eço do casam ento, passam os bons m om entos j untos, m as nunca queríam os as m esm as coisas e não acredito naquela história de que “os opostos se atraem ”, na nossa idade, não nesta altura da vida, precisam os de pessoas que queiram as m esm as coisas que nós. Você sem pre desej ou ter um a vida diferente da m inha. Sem pre pensei quando éram os j ovens, que isso não im portava, m as estava enganado. Precisa de um cara divertido que goste de ir a festas e que tenha m uito tem po para te dedicar. Não precisa de um m aníaco que vive obcecado com o trabalho, que passa o tem po em viagens e que está m ais preocupado em saber quem vai ser o próxim o presidente do que com as próprias filhas. — Bill sabia que iria m artirizar-se até ao fim da vida por não ter acom panhado as filhas com o diveria, por m ais próxim o que estivesse delas agora.

— Você é um grande pai, Bill. Sem pre foi m aravilhoso para as m eninas. Elas não poderiam adorar-te m ais. — As filhas veneravam -no, em bora estivessem habituadas a passar a m aior parte do tem po sem ele. Tinham um profundo respeito e orgulho por tudo o que ele fazia.

— Não as acom panhei devidam ente, reconheço. Nunca conseguirei com pensá-las. Mas vou tentar. Irei abrandar um pouco a m inha vida política. — Mas j á era dem asiado tarde. Estavam am bas na faculdade e tinham as suas próprias vidas. Bill j á perdera o barco, e essas oportunidades, um a vez perdidas, nunca m ais voltavam .

— O que m ais quer dizer-m e? — perguntou Cindy, com eçando a ficar apavorada.

— Acho que devem os divorciar-nos. É a única m aneira de conseguirm os preservar aquilo que ainda nos resta Cin, quero ser seu am igo.

— Vai te foder. — E sorriu por entre as lágrim as — Nunca pensei que nos abandonaria. — Cindy não conseguia acreditar que aquilo estivesse acontecendo, especialm ente naquele m om ento. Três dias antes, a única coisa que lhe interessava era que Bill vivesse. Todavia, na m anhã em que lhe telefonaram dando a notícia do acidente, chegara pensando que seria m elhor ele m orrer, caso ficasse com um elevado grau de deficiência. Nunca quisera que Bill a abandonasse, m as agora era o que ele estava disposto a fazer. Não conseguiu deixar de perguntar-se se ele não estaria com depressão e reagindo ao acidente de um a form a histérica. — Você tem certeza de que é isso que quer? Sofreu um choque terrível. É natural que...

Bill interrom peu-a antes que acabasse a frase. Aparentava um ar calm o.

— Devíam os ter feito isto há anos, Cin. Só que nunca tive coragem .

— Bem , lam ento que a tenha nesta hora. Agora que estou apaixonada por você outra vez é que quer abandonar-m e. Digo-te um a coisa, Bill Robinson: o teu sentido de oportunidade é um noj o. — E desatou a chorar. Depois, olhou-o com ar destroçado. — Por que razão não m e fez parar, se sabia o que eu estava fazendo ao longo de todos estes anos? Porque não m e disse qualquer coisa? — Era um a sensação horrorosa constatar que Bill tinha conhecim ento dos seus casos am orosos. Mas am bos sabiam que não era a ele que com petia fazê-la parar, m as a ela.

— Não sabia o que dizer. Não queria encarar o problem a sozinho. Prim eiro, tentei convencer-m e de que nada de anorm al estava acontecendo. Depois, habituei-m e. Não sei, Cin... Talvez não quisesse ser honesto com igo m esm o. Mas agora não tenho alternativa. Já não possuo energia suficiente para contar histórias de fadas a m im m esm o. E talvez nunca m ais volte a ter alguém na m inha vida. Pelo m enos, nenhum de nós estará vivendo um a m entira. É m elhor. Não acha?

— Não, não acho. Prefiro viver um a m entira a perder-te, não tem os de viver um a m entira. Desta vez podíam os tentar tudo com o deve ser, se m e der outra oportunidade. — Ao dizer isto, Cindy parecia a m esm a garota que casara com Bill. Este ficou de coração destroçado e quase desej ou tê-la confrontado anos antes, m as não estava preparado nessa época.

— É dem asiado tarde. Para os dois. Só você é que ainda não sabe isso.

— O que vou dizer às pessoas? — As palavras de Bill atingiram -na com o um soco. Toda a idéia do divórcio era tão hum ilhante para Cindy que só lhe apetecia fugir e esconder-se.

— Diz-lhes que finalm ente você abriu os olhos e m e deu um pontapé na bunda. Provavelm ente era o que devia ter feito quando endoidei e com ecei a trabalhar cento e quarenta horas por sem ana. Am bos fizem os coisas estúpidas. A culpa não é sua. — Com o sem pre, Bill m ostrava-se equilibrado, sim pático e j usto, o que a m agoava ainda m ais. Cindy sabia que nunca m ais voltaria a encontrar um hom em com o ele. Hom ens com o Bill eram m uito raros

— O que vou dizer às m eninas?

— Isso é outra história. Vai ser difícil. Acho que devíam os pensar no assunto. Elas j á têm idade suficiente para com preender, m as, provavelm ente, isso não irá acontecer. Ninguém gosta de m udanças.

— Nem eu — insistiu Cindy, com a voz em bargada. Não pensara nisso, m as iria ser m uito m ais difícil para Bill. Este tinha um longo e tortuoso cam inho à sua frente e resolvera faze-lo sozinho. Não possuía quaisquer ilusões relativam ente à sua recuperação. Sabia que havia a forte possibilidade de nunca m ais voltar a andar, e a reabilitação ia ser um processo angustiante, especialm ente sozinho. Mas tam bém sabia que Cindy nunca suportaria tal situação, ficaria doida. Ela não era com o Isabelle. Nunca conseguiria fazer aquilo que esta fazia pelo filho. Mas Bill estava disposto a carregar sozinho o fardo que tinha pela frente.

Cindy levantou-se e foi até à j anela. Estava de olhar perdido no espaço e ar desalentado, quando entrou o em baixador am ericano. Este ouvira falar do acidente e lera a notícia no Tribune. Estava destroçado. Quando Cindy se voltou, com os olhos verm elhos e inchados de tanto chorar, o em baixador reparou que ela tam bém se m ostrava desesperada com o sucedido. Não lhe passou pela cabeça que pudesse encontrar-se no m eio de um dram a conj ugal. Precipitou-se então para a cam a e tom ou a m ão de Bill na sua, com um ar de profunda consternação estam pada no rosto.

— Meu Deus, Robinson, o que é que te aconteceu? Estive para m e encontrar com você na sem ana passada. Nem queria acreditar na notícia quando a deram . — Entretanto, reparou no olhar estranho que Cindy e Bill trocaram .

— Pus-m e a com petir com um ônibus que vinha a grande velocidade. Ele ganhou. Foi um a estupidez — afirm ou Bill, com um sorriso, m as estava com ar cansado. A troca de palavras com Cindy deitara-o abaixo. — Cin, porque não vai dar um a volta com as m eninas? Irá fazer-te bem sair deste am biente.

Cindy fez um gesto afirm ativo com a cabeça, incapaz de falar. Não queria chorar diante do em baixador e sabia que o faria se ficasse. Tam bém não lhe agradava estar com as filhas. Pensou então que talvez fosse m elhor voltar para o hotel e chorar à vontade.

— Volto logo à noite — disse, dando-lhe um beij o no rosto. Os olhos ficaram novam ente inundados de lágrim as. — Am o-te — sussurrou, e saiu apressadam ente do quarto.

— Pobre Cindy, sofreu um choque terrível! — observou o em baixador, condoído. Conhecia Bill e Cindy há vários anos. Era de Nova Iorque e j á um a vez pensara em concorrer à presidência, m as Bill desencoraj ara-o. Nunca teria ganho, m as estava fazendo um ótim o trabalho na em baixada. Já lá se encontrava há três anos e Bill sabia que o presidente ia pedir-lhe que ficasse durante outro m andato.

— Você está bem ?

— Agora estou m elhor. — Apesar da m anhã que acabara de passar. Não esperava ter aquela conversa com Cindy naquela hora, m as sabia que fizera o que a consciência lhe ditara. Planej ara proceder desse m odo quando chegasse em casa. E sabia que não podia deixar que o acidente o fizesse m udar de idéia. Além disso, não queria criar quaisquer ilusões a Cindy, por m ais doloroso que isso pudesse ser.

— Precisa de algum a coisa? — indagou o em baixador, sentando-se. A m ulher pedira-lhe que não se dem orasse m uito tem po.

— Nada por aí além . Pescoço novo, coluna nova e um bom par de pernas, esse tipo de coisas. — Tentava gracej ar com a situação, m as o olhar era triste.

— Que dizem os m édicos?

— Pouca coisa. Ainda é m uito cedo para se saber a evolução. Acho que se o Roosevelt conseguiu percorrer o país num a cadeira de rodas, eu tam bém consigo. — Am bos sabiam que sim . Toda a sua vida m udara num piscar de olhos, não só a vida política, m as tam bém m uito provavelm ente a sua vida pessoal. Nessa hora, ainda era im possível avaliar todas as im plicações do acidente. À parte o fato de não andar, ainda não sabia se voltaria algum a vez a fazer am or com um a m ulher. Tam bém j á estava ciente dessa eventualidade quando dissera a Cindy que queria o divórcio. Esta nunca conseguiria adaptar-se a tal situação. Mas havia m otivos ainda m ais convincentes para se divorciarem . As suas enferm idades constituíam apenas o corolário de um a situação insustentável.

— Faz idéia de quanto tem po é que vai ficar aqui?

— Provavelm ente m uito tem po — respondeu Bill, num tom deprim ido. Sentia-se m uito cansado. A m anhã não fora fácil e o fato de acabar com o casam ento entristecia-o profundam ente. Não só perdera a esposa com o tam bém estava em risco de perder Isabelle, a am iga m ais chegada. O futuro era som brio. Nada tinha a esperar deste, a não ser um ano m uito árduo, tentando pôr-se bom de novo Mas, pelo m enos, estava vivo.

— Bem , pode contar conosco — afirm ou o em baixador Stevens, em tom j ovial. — A Grace tam bém virá visitar-te, m as em outro dia. Não queria te cansar. Se precisar de algum a coisa, é só telefonar para a em baixada. Basta pedir a Cindy que ligue à Grace. Presum o que ela vai ficar com você. — A pobre m ulher tinha um ar desesperado quando saíra. Mas encarar a eventualidade de Bill ficar inválido para sem pre, pensou Jim Stevens, podia não ser fácil para ela. — Vou dizer à Grace para lhe telefonar dentro de dias. Bill não lhe com unicou que ia pedir a Cindy para voltar para o Connecticut com as filhas. Lim itou-se a sorrir e a deixá-lo falar. Eram velhos am igos, m as não queria partilhar a idéia do divórcio com ele. Ainda era um assunto m uito recente. Além disso, queria que as filhas fossem as prim eiras a saber, por um a questão de respeito.

O em baixador olhou então para o relógio e depois para Bill, e achou que j á se encontrava ali há tem po m ais do que suficiente. Grace tinha razão. Bill estava com ar extrem am ente abatido. Cinco m inutos depois, saiu de repente. Para Bill, o velho em baixador, que dias antes m ais parecia seu pai, aparentava agora um a j ovialidade e um a vitalidade invej áveis, e tudo porque conseguira sair pelo seu próprio pé.

As horas pareceram custar m ais a passar depois disso. Bill dorm iu um bocado. O especialista apareceu ao fim da tarde. Não voltou a saber m ais nada de Cindy, m as desconfiava que estava no Claridge’s, lam bendo as feridas. Continuava convencido de que, por m ais dolorosa que aquela situação estivesse sendo, ela acabaria por dar a volta por cim a.

O especialista não tinha nada m uito anim ador para dizer, pôs Bill ao corrente de todas as chances possíveis, do pior ao m elhor. Por aquilo que vira nas radiografias e nos relatórios da operação, achava pouco provável que pudesse voltar a andar. Era possível que acabasse por recuperar algum a sensibilidade nas pernas, m as a coluna sofrera lesões de tal m odo graves que m uito provavelm ente nunca m ais recuperaria o controle total sobre as pernas. Mesm o que tivesse algum a sensibilidade nelas, não conseguiria pôr-se de pé. Teria m ais m obilidade se usasse um a cadeira de rodas. Era essa a boa notícia. A m á era que, se os nervos continuassem o seu processo de degeneração, j untam ente com a lesão no pescoço, poderia não recuperar qualquer sensibilidade na parte inferior do corpo. Acabariam por aparecer artroses, que piorariam a deterioração dos ossos e que, j untam ente com aquilo que j á tinha, iriam provocar-lhe um a vida inteira de sofrim ento. Todavia, achava que, com os seus cinquenta e dois anos, tinha chance de recuperar algum a m obilidade das pernas, m esm o que nunca m ais voltasse a andar sozinho. Considerava que o pescoço de Bill levaria quatro a seis m eses para cicatrizar e o trabalho de reabilitação nas pernas um ano ou m ais. Havia ainda um a ou duas operações suplem entares que poderiam realizar, m as achava que os benefícios seriam m ínim os e os riscos elevadíssim os. Se tentassem m elhorar aquilo que lhe restava, podia acabar paralisado do pescoço para baixo.

Bill concordou com tudo o que ouviu. O quadro que o m édico lhe apresentara era real, m as não era bonito, e teria de apelar a todas as suas forças para ultrapassar aquela barreira que aparecera no seu cam inho. Teria de aplicar-se ao m áxim o durante o ano seguinte para conseguir algum grau de m obilidade nas pernas. Seria igualm ente obrigado a fortalecer a parte superior do tronco para com pensar, j á para referir o trabalho que tinha de efetuar no pescoço.

Com o tem po e m uito esforço, poderia levar um a vida aceitável, se estivesse disposto a fazer o respectivo acom panham ento psicológico que o aj udaria a superar as lim itações físicas. Tratava-se de um a situação terrível, m as não era o fim do m undo.

Então, com o se conseguisse ler os pensam entos de Bill, o m édico respondeu à pergunta que ele ainda tinha m edo de fazer. Era evidente que nunca m ais voltaria a andar pelo seu pé e que se veria confinado a um a cadeira de rodas até ao fim da vida. Mas não tinha ainda qualquer idéia de com o é que ficaria em term os de vida sexual. Bill m anteve-se em silêncio, em bora o pânico o avassalasse. O m édico explicou-lhe, sem rodeios, que havia um a forte chance de recuperar a sensibilidade sexual e de levar um a vida relativam ente norm al nesse plano, se bem que ainda fosse m uito cedo para garantir tal coisa. O m édico tentava anim ar Bill o m elhor que podia. Teria de experim entar, m as os progressos ainda não eram m uito grandes. Era horrível nunca m ais voltar a andar, m as o m édico não queria que ele perdesse com pletam ente a esperança relativam ente ao resto.

— Se a sua esposa for paciente — disse o m édico, sorrindo-lhe, as coisas podem correr m uito bem .

Não lhe explicou que, dentro de pouco tem po, j á não teria esposa e não se im aginava experim entando com m ulheres com quem saísse. No entanto, queria saber, pelo m enos, se a função sexual se m anteria ativa. Teria de esperar para ver, o que era angustiante. O que planej ava fazer, logo que estivesse recuperado, era aquilo que sem pre fizera, atirar-se ao trabalho de alm a e coração. O trabalho era a única coisa que lhe restava.

Depois de o m édico sair, ficou m ergulhado em pensam entos. Estava extrem am ente deprim ido. Acontecera m uita coisa em poucas horas. Era difícil adaptar-se à idéia de nunca m ais voltar a andar... Nunca mais voltar a andar. Estas palavras não paravam de lhe m atraquear a cabeça. Mas sabia que podia ter sido pior. Podia ter ficado totalm ente paralisado, ou m orto, ou o traum atism o cerebral podia tê-lo deixado com deficiências m entais perm anentes. Porém , apesar de dever estar grato por não ter lhe acontecido nada de pior, a possível perda da m asculinidade parecia ter m ais peso do que todo o resto. A angústia em relação a essa probabilidade estava deixando-o num estado de profunda depressão. Ao pensar nisso, o seu espírito vagueou novam ente até Isabelle. E ali ficou, de olhos fechados, pensando nos m om entos que haviam partilhado no início da sem ana. Custava a acreditar que tudo se passara apenas quatro dias antes. Dançara com ela no Annabel’s, sentira-a j unto a si e agora não voltaria a dançar, e ela debatia-se contra a m orte. Custava-lhe acreditar que, possivelm ente, não voltaria a falar com ela, nem a ouvir a sua voz, nem a ver o seu rosto m aravilhoso. Os olhos inundaram -se de lágrim as. Quando a enferm eira entrou no quarto, Bill ainda pensava em Isabelle e as lágrim as corriam -lhe pelas faces. Ela conhecia há m uito tem po o especialista que estivera com Bill e sabia que as notícias que ele lhe dera não haviam sido boas. Pensou que Bill se m ostrava destroçado por causa disso e tentou anim á-lo. Não conseguia im aginar o que poderia significar para um hom em bem -parecido e cheio de vitalidade com o Bill saber que nunca m ais voltaria a andar na vida. Desde o prim eiro dia que as enferm eiras previam que este seria o desfecho m ais provável. As lesões eram extrem am ente graves.

— Quer algum a coisa para as dores, Mister Robinson?

— Não, sinto-m e bem . Com o está Mistress Forrester? Há algum a alteração no seu estado? — Era a pergunta sacram ental que fazia sem pre que via um a das enferm eiras e nenhum a destas sabia se ele o fazia por se sentir, de algum a form a, responsável pelo acidente, pois Isabelle saíra com ele, ou por estar apaixonado. Era difícil dizer. A única enferm eira que sabia era a que se encontrava no quarto quando ele visitara Isabelle na noite anterior e que prom etera ao m édico não dizer nada sobre aquilo que ouvira.

— Encontra-se praticam ente na m esm a. O m arido esteve aqui um pouco e acabou de sair. Acho que vai voltar para Paris. Não há nada que ele possa fazer aqui. A não ser estar com ela, falar-lhe e pedir para voltar. — Bill detestava Gordon. Achava-o um a pessoa cruel e sem escrúpulos. Lem brou-se então de que, se Gordon j á saíra do hospital, podia fazer nova visita a Isabelle e referiu isso m esm o à enferm eira. Esta sabia que ele fora visitá-la na noite anterior e que o m édico assistente de am bos autorizara, m as não sabia o que ele pensaria do fato de Bill fazer nova visita. Porém , quando reparou no olhar deste, constatou de im ediato que ele tivera um dia extrem am ente difícil e que se encontrava afetado pelo estado clínico de Isabelle, e ficou cheia de pena dele.

— Vou ver o que posso fazer prom eteu a enferm eira e desapareceu. Cinco m inutos depois, voltou acom panhada de dois enferm eiros, que destravaram a cam a e o conduziram lentam ente em direção à porta. A enferm eira teve de retirar os fios que o ligavam a alguns m onitores, m as a situação clínica de Bill j á era suficientem ente estável para poder m anter-se alguns m inutos sem eles.

A enferm eira que se encontrava no quarto de Isabelle abriu a porta, e os enferm eiros em purraram a cam a para dentro do quarto e colocaram -na ao lado da dela. As persianas estavam fechadas. As enferm eiras foram então até um canto para os deixarem a sós. Bill voltou-se o m elhor que pôde e tocou-lhe nos dedos da m ão, tal com o fizera no dia anterior.

— Sou eu, Isabelle. Você tem de acordar, querida. Você tem de voltar. O Teddy precisa de você. Eu tam bém preciso de falar com você. Sinto m uitas saudades suas. — As lágrim as corriam -lhe descontroladam ente pelas faces. Pouco depois, ficou em silêncio, com a m ão dela na sua. As enferm eiras estavam prestes a sugerir que voltasse para o quarto, enquanto ele exibia um ar estranham ente calm o. Dava a sensação de estar prestes a adorm ecer. De repente, a porta abriu-se e surgiu Gordon Forrester. As enferm eiras ficaram sobressaltadas. Gordon dirigiu-se, então, em tom ríspido, à enferm eira que cuidava de Isabelle.

— Por favor, leve im ediatam ente Mister Robinson para o seu quarto.

Bill não proferiu qualquer palavra quando passou por Gordon. Não existia qualquer dúvida relativam ente ao que estava acontecendo, ou ao m otivo por que o haviam levado até j unto de Isabelle. Bill sentia-se aterrorizado. Tinha certeza de que Gordon insistiria para que o proibissem de visitar Isabelle. Mas um a vez que Gordon iria voltar para Paris em breve, Bill envidaria todos os esforços para que o levassem de novo até j unto dela. Estava preso nestes pensam entos quando Gordon Forrester entrou de rom pante no seu quarto.

— Se volto a encontrá-lo no quarto dela, Robinson, ou se souber que lá esteve, ponho-o daqui para fora. Entendido?

Gordon m al conseguia controlar a raiva que fervilhava dentro de si. Bill estava invadindo o seu território, e isso ele não iria tolerar. Isabelle pertencia-lhe e ia fazer todo o possível para que Bill nunca m ais se aproxim asse dela, fosse qual fosse a natureza da sua relação. Isabelle pertencia-lhe.

— Não m e im pressiona, Mister Forrester — retorquiu Bill calm am ente, fixando-o nos olhos. — O em baixador Stevens tam bém teria um a palavra a dizer relativam ente à m inha transferência daqui do hospital. Mas não preciso que ele trave as m inhas batalhas. A Isabelle e eu som os am igos há m uito tem po. Nunca fiz nada que m ereça a sua desaprovação, posso garantir-lhe. — A não ser um beij o no carro na noite fatídica, m as Gordon não precisava de saber, era só entre ele e Isabelle. — Estou preocupado com a Isabelle. Você é um hom em de sorte. Ela é um a m ulher m aravilhosa e desej o ardentem ente que sobreviva. O Teddy precisa dela, ainda m ais do que você. Se o sim ples fato de falar com ela, ou de estar aqui a seu lado, puder aj uda-la, então é isso que farei.

— Afaste-se dela. Já basta o que fez. Quase a m atou, e o que estavam fazendo j untos àquela hora da noite? Não tem idéia. Deixaram -se fotografar pelos paparazzi, que fizeram de vocês e de m im parvos. Pensava que ia escapar sem castigo, não era? Agora a m elhor coisa que tem a fazer é m anter-se afastado do quarto dela e das nossas vidas. Não precisam os de um escândalo com você envolvido.

— Não terá nenhum escândalo com igo envolvido — ripostou Bill, num tom convincente.

— Não estou assim tão certo disso e proíbo-o de entrar no quarto dela. Fiz-m e entender?

— Por que m otivo a detesta tanto? — indagou Bill, quando Gordon j á ia saindo. Este parou e virou-se para trás. — Está louco? Não a detesto, é a m inha esposa. Por que razão acha que estou aqui?

— Não tinha alternativa. Julga que se não estivesse aqui conseguiria continuar a fingir que se preocupa com ela? Seria m uito difícil. Am bos sabem os por que razão se encontra aqui. Pelas aparências e porque não tem qualquer alternativa. É responsável pela Isabelle, m as está se lixando para ela, Forrester, e duvido que algum a vez tenha se preocupado com o seu bem -estar.

— Você é um sacana — disparou Gordon, antes de sair. Mas não conseguiu deixar de perguntar a si próprio se fora Isabelle que dissera a Bill que o m arido a detestava. Gordon tinha a im pressão de que Bill sabia dem ais.

Bill pensava ainda na troca de palavras que tivera com Gordon, quando Cindy e as filhas vieram visitá-lo nessa tarde. As garotas haviam ido às com pras, enquanto Cindy fora dar um longo passeio para refletir em tudo o que o m arido lhe dissera. Mas nenhum dos dois revelou o teor da conversa que haviam tido, nem quais os seus planos relativam ente ao divórcio diante das filhas. Era dem asiado cedo para isso. Ficaram até à hora do j antar. Olivia é que deu de com er ao pai com um a colher. Bill ainda tentou com er sozinho, m as espalhou a com ida por todo o lado, especialm ente a sopa.