O Beijo
Capítulo Três
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Bill fez novo gesto de despedida com a m ão e desapareceu ao fundo do corredor. Ao fechar lentam ente a porta e enquanto se descalçava, Isabelle só conseguia pensar na felicidade que era ter um am igo com o Bill.
CAPÍTULO TRÊS
Na m anhã seguinte, Bill bateu à porta do quarto de Isabelle, que o esperava envergando um vestido de linho azul-m arinho de requintado corte. Um a m ala Kelly, sapatos de crocodilo tam bém azul-m arinho, um a echarpe verde ao pescoço e um par de brincos de esm eraldas e safiras com pletavam a toalete. Estava, com o sem pre, extrem am ente chique com um ar j ovem e fresco.
— Você está deslum brante! — com entou Bill, enquanto desciam as escadas lado a lado. — Com o dorm iu?
— Que nem um a pedra. E você?
— Acho que bebi dem ais. Não sei se adorm eci ou se desm aiei, m as estou ótim o. — Não parecia ter-se em bebedado na noite anterior e Isabelle tam bém achava que não. Estava apenas provocando-a. Bill telefonara reservando um a m esa e m andara vir um café da m anhã gigantesco para am bos.
— Não consigo com er isto tudo — disse Isabelle, em tom de lam ento, olhando para o que ele encom endara: ovos, waffles, salsichas, bacon, croissants, papa de aveia, frutas, suco de laranj a e café. — É m ais do que suficiente para m atar a fom e de um exército esfom eado.
— Não sabia o que queria para o desj ej um , por isso m andei vir tudo. O que costum a com er? — perguntou, ansioso. Gostava de saber todos os porm enores sobre ela.
— Geralm ente, café e torradas, m as isto é m uito m ais divertido — respondeu Isabelle, pondo waffles, ovos, bacon e m orangos no prato. E, para sua surpresa, com eu um a enorm e quantidade daquilo que Bill m andara vir. Quando sairam do hotel, estavam am bos bem -dispostos e brincavam um com o outro acerca da quantidade de com ida que haviam ingerido. — Ainda bem que vej o-lhe poucas vezes por ano. Caso contrário, ficaria quadrada — com entou, ao entrar na lim usine. Bill fitava-a com um olhar estranho. Estivera pensando em com o seria bom tom ar o café da m anhã com ela todos os dias. Era um a ótim a com panhia. Nas várias conversas telefônicas que tinham por sem ana, era raro ouvi-la de m au hum or. Cindy costum ava dizer que detestava falar com hum anos antes do m eio-dia.
Até à Tate Gallery, Isabelle não parou de conversar e de dar inform ações. Falava dos quadros que iriam ver, da sua história, da sua proveniência, da técnica e dos porm enores que eram m arcantes neles. Fizera o trabalho de casa e estava excitada com a ida à exposição. Bill m ostrava-se deliciado com o fato de poder partilhar o entusiasm o com ela. Mal chegaram , Isabelle ficou totalm ente absorvida pelos quadros, observando os m ínim os detalhes de cada um e cham ando-lhe a atenção para tudo o que achava im portante. Era um a experiência com pletam ente nova ir a um m useu com Isabelle.
Quando saíram , ao m eio-dia, Bill tinha a sensação de ter feito um curso intensivo de arte.
— Você é um a perita nesta área. Porque não aproveita esse talento? Não o pode desperdiçar assim .
— Não tenho tem po — retorquiu, com ar triste. Não posso abandonar o Teddy.
— Porque não faz o trabalho de restauração em casa? Assim poderia estar perto dele. Poderia m ontar um estúdio em um dos côm odos. A sua casa deve ser suficientem ente grande para isso.
— Acho que o Gordon colocaria im pecilhos para essa idéia. Nunca m orreu de am ores pelo m eu trabalho. Quando eu trabalhava no Louvre, achava essa vida dem asiado boêm ia. Pelas dores de cabeça que iria ter, j ulgo que nem vale a pena pensar no assunto, não só por causa do Gordon, m as tam bém por causa do m eu filho.
— Seria ótim o para você — retorquiu Bill, pragm ático. Adm irava os seus conhecim entos no cam po das artes e o m odo afável com o os partilhava consigo, nunca sentindo que ela estivesse exibindo-se ou fazando-o passar por ignorante. Havia sem pre um a grande hum ildade em tudo o que ela lhe dizia.
— Você tam bém pinta?
— Já pintei. Não sou grande pintora, m as adorava. — Se tivesse um estúdio, tam bém poderia pintar. Acho que seria um a ótim a saída para você.
Isabelle sorriu, m as sabia que Gordon ficaria irritadíssim o com a idéia. Já o trabalho no m useu sem pre o aborrecera e não descansara enquanto ela não o deixou, depois de Sophie nascer. Achava que era algo que não se coadunava com a sua posição social, nem com a im agem que queria fazer passar dela: a de m ãe dos seus filhos e esposa dedicada única e exclusivam ente à gestão do lar. Tudo aquilo que Isabelle fora antes de casarem , tudo o que fizera e am ara, não tinha qualquer im portância para Gordon, que era agora seu dono e senhor, controlando-a a seu bel-prazer e tratando-a com o um obj eto.
— Se eu voltasse para a pintura e a restauração, acho que o Gordon tom aria isso com o um a afronta. Quando as crianças nasceram , disse-m e logo que isso era algo da m inha j uventude, não um passatem po adequado a um a m ulher casada.
— E qual é o passatem po adequado a um a m ulher casada? — perguntou Bill, num tom de voz que denotava algum a revolta. Detestava Gordon e tudo aquilo que representava. Era um a pessoa pretensiosa, superficial e possessiva, que não tinha o m ínim o respeito por Isabelle. Nem o m enor respeito por aquilo que ela gostava de fazer. Isabelle era apenas um a “coisa” que ele adquirira para dar m ais brilho à sua carreira profissional e à sua posição social. Logo que atingira esse obj etivo, Isabelle deixara de ter qualquer interesse para si.
— Para ele, só sirvo para tratar da casa e cuidar dos filhos. E tenho de m e m anter sossegadinha no m eu canto até ele exigir a m inha presença, o que raram ente acontece. É capaz de um dia tolerar que eu trabalhe num a obra de caridade, desde que sej a num a com issão que obtenha o seu aval, talvez com outras pessoas que lhe possam ser úteis. O Gordon nunca faz nada que não lhe traga proveitos. Caso contrário, acha um a perda de tem po.
— Que triste form a de viver! — com entou Bill, num tom seco.
— Ele é, provavelm ente, o banqueiro m ais im portante da Europa. Da França, tenho certeza que é. A sua reputação tam bém j á está firm ada nos Estados Unidos. Todas as pessoas de Wall Street e em todos os principais países europeus sabem quem ele é.
— E depois? Ao fim do dia, o que é que ganha com isso? Quem você é você quando tudo acabar e a única coisa que restar for a carreira? Que tipo de ser hum ano você é? Nos últim os anos, tenho feito a m im próprio essa pergunta m uitas vezes. Tam bém pensava que a única coisa que interessava eram os negócios. Mas que im portância é que isso poderá ter se não existir vida fam iliar, se a esposa não logar para o fato do m arido se encontrar vivo ou m orto, se os filhos não se lem brarem da últim a vez em que a fam ília j antou j unta? Eu quero que as pessoas se lem brem de m im por outros m otivos.
Era um a das coisas que Isabelle adorava em Bill: os valores e as prioridades de extrem a clareza. Mas nem sem pre fora isso o que acontecera, o que o levara a pagar um preço elevado pelas lições que aprendera. O seu casam ento era tão vazio com o o dela e, em bora adorasse as filhas, não tinha qualquer intim idade com elas. Quando eram m ais novas e a presença do pai j unto delas era im portante, Bill passava a m aior parte do tem po à procura de políticos e fabricando presidentes. Nos últim os anos, fizera um esforço para passar m ais tem po com elas, com resultados razoáveis. Am bas as filhas gostavam da sua com panhia e tinham orgulho dele, em bora continuasse passando grande parte do tem po em viagens. Agora, ao viaj ar para Londres, fizera questão em telefonar às filhas. Mas o crescente afastam ento de Cindy não aj udava a m elhorar as coisas. Raram ente se encontravam todos j untos e, quando via as filhas, em geral, era um a de cada vez. Em m uitos aspectos, Isabelle tinha m ais sorte do que ele. Para ela, aquilo que verdadeiram ente interessava era Teddy e Sophie, e passava m uito tem po com eles. Mas Gordon não poderia dizer o m esm o. Os filhos eram estranhos, até Sophie, que era a preferida.
— O Gordon não chegou a esse ponto e acho que nunca chegará. Essas coisas não significam nada para ele. Basta-lhe ser im portante no m undo financeiro. Todo o resto é irrelevante.
— Acabará por se transform ar num hom em triste — declarou Bill, num tom que denotava algum arrependim ento, enquanto se encam inhavam para o carro. — Eu tam bém m e apercebi disso, m as j á um pouco tarde. Partilho m ais da m inha vida com você do que algum a vez partilhei com a Cindy ou com as m eninas. Receio ter perdido esse barco há m uito tem po. Nunca as acom panhei devidam ente.
— Estou certa de que elas entenderão porquê. Já são quase adultas e ainda têm um a vida inteira pela frente para partilhar com você.
— Espero que encarem o problem a nessa perspectiva. Já têm as suas próprias vidas e a m ãe tenta convencê-las de que sou um safado egoísta. E talvez tenha razão. Você fez com que o m elhor de m im aparecesse. Ela nunca conseguiu. Não é um a pessoa afável. Não sei se ela algum a vez realm ente quis que eu fosse quem sou agora. Julgo que este tipo de intim idade que tem os seria assustador para ela, se bem que a m aior parte das vezes o façam os por telefone. Ela não queria desabafar com igo, nem que eu desabafasse com ela. Só queria que a acom panhasse a festas. Mas eu não sou esse gênero de hom em . Gosto de passar um bom tem po, m as nunca tom ei consciência do que perdi por não ter ninguém com quem m e abrir. A Cindy e eu passam os m uito bem sem falar um com o outro, m esm o que estej am os na m esm a sala. É um a situação que nunca irá alterar-se.
— Mas podia, se quisesse. Se lhe desse outra oportunidade e se abrisse com ela, talvez aprendesse a ter m aior intim idade com você.
— Com a Cindy, não — retorquiu Bill, com ar am argurado. — Além disso, não quero. Entre nós, não existe m ais qualquer ligação e acho que é m elhor assim . Não há desilusão, nem m ágoa. Desde que eu apareça, de vez em quando, num dos espectáculos de caridade que ela organiza, que continue a pagar as contas e não m e esqueça de ir às festas de final de curso das m eninas, não há problem a. Vivem os em m undos diferentes. Acho que am bos nos sentim os m ais seguros assim .
— A que ponto deixam os chegar as nossas vidas, — suspirou Isabelle, enquanto se recostavam no banco traseiro da lim usine. Bill deu então ao m otorista o endereço do restaurante onde iam alm oçar. Isabelle j á ouvira falar, m as não sabia onde ficava. Fora, durante anos, o restaurante preferido da princesa Diana. — Você perm itiu afastar-se da Cindy e das suas filhas. Eu perm iti que o Gordon m e am eaçasse sem dizer palavra. Por que razão deixam os que nos façam isso? Porque aceitam os que tom em decisões sem nos consultar? — As coisas pareciam estar cada vez m ais claras na sua cabeça.
— Porque essas pessoas sem pre foram assim e am bos sabíam os que as coisas iriam acabar desta form a. A Cindy era um a pessoa adorável na época da faculdade. Inteligente, bonita e divertida, m as pouco afável. É capaz de ser a m ulher m ais egoísta, m anipuladora e calculista da Terra. O Gordon é cruel, frio e possessivo. Nada do que fizéssem os teria algum a vez alterado esse fato. O problem a é que o aceitam os de livre vontade, por m ais que nos custe adm itir.
— Os m eus pais eram assim . Adorava-os, m as eram m uito distantes e reservados.
— Tam bém os m eus. Detestavam crianças e haviam resolvido não ter filhos.
Só que, inesperadam ente, j á eles tinham quarenta e tantos anos, apareci eu. E sem pre m e deram a entender estarem fazendo-m e um enorm e favor em terem -m e com o filho. Foi um alívio quando entrei para a faculdade. Morreram num desastre de avião, quando eu tinha vinte e cinco anos. Nem um a lágrim a verti. Quando m e telefonaram da com panhia de aviação dando a notícia, a sensação que tive foi a de terem m orrido dois estranhos. Fiquei sem saber o que dizer. Não sei sequer quem eles eram . Apenas duas pessoas m uito inteligentes que m e deixaram viver com eles durante dezoito anos e que ficaram aliviados quando finalm ente saí de casa. Não sei sequer qual seria a reação deles se algum dia os tivesse abraçado, beij ado ou dito que os am ava. Não m e lem bro de a m inha m ãe m e abraçar ou beij ar quando era pequeno. Falava-m e sem pre da porta do quarto e o m eu pai nunca m e dirigia a palavra. A Cindy é assim . Fala com igo a três m etros de distância, ou m ais, se puder.
— É m aravilhoso que sej a a pessoa equilibrada que é. — Sentia algum a dificuldade em im aginar a infância de Bill no entanto, a sua não fora m uito diferente. Houvera abraços e beij os, m as m uito pouco am or. — A m inha m ãe era inglesa. Acho que queria am ar-m e, m as não sabia com o. Era um a pessoa m uito form al e fria. Perdera a m ãe ainda bebê e o pai sem pre fora m uito seco com ela. Meteu-a num colégio interno quando tinha nove anos e deixou-a lá até casar com o m eu pai. Conheceu-o quando foi apresentada na corte, e j ulgo que foi o m eu avô que lhe arranj ou o casam ento para que ela saísse de casa. Quando isso aconteceu, voltou a casar, com um a m ulher com quem andava envolvido ainda antes da m orte da m inha avó. O lado britânico da fam ília estava cheio de esqueletos no arm ário e segredos de que ninguém podia falar. A única coisa que tínham os de fazer era vestirm o-nos bem , serm os delicados e fingirm os que tudo corria com o devia ser. Nunca fiz a m ínim a idéia do que a m inha m ãe pensava sobre o que quer que fosse, e o m eu pai andava envolvido na política. Acho que ele nem sequer sabia que existíam os. A m inha m ãe m orreu quando eu era adolescente e o m eu pai nunca tinha tem po para conversar ou estar com igo, em bora ache que não era m au hom em . O casam ento dele foi um pouco com o o m eu com o Gordon e é capaz de ser por isso que não m e choca por aí além o fato de ter um m arido que não m e dá qualquer im portância. Nunca pensei m uito nisso, m as é o único m odelo que conheço.
— Acho que é tam bém o que se passou com igo. Penso que, se a Cindy tivesse sido um pouco m ais afável do que os m eus pais, eu não teria sabido lidar com a situação. Tinha vinte e dois anos quando casam os e pareceu-m e que um a parte de m im esteve congelada durante anos. — Só quando com eçara a falar com Isabelle, quatro anos antes, é que m uitas coisas principaram a ficar claras no seu espírito e que m uitas das suas opiniões se alteraram . O contraste entre Isabelle e Cindy distanciara-o ainda m ais desta.
— Gostaria de saber o que aconteceria se tivéssem os nos conhecido quando casam os, com tudo o que sabem os agora.
— Nunca casaria com a Cindy se a conhecesse hoj e — declarou Bill, sem hesitar. Não consigo conversar com ela. Nunca consegui. Odeia falar dos seus sentim entos e não sente necessidade de conversar, pois é algo que detesta. A única coisa em que está interessada é num casam ento aparentem ente perfeito, sem ter em conta as m entiras que estão por trás. Custa-m e apresentá-la assim , com o um a pessoa superficial, pois acho até que possui qualidades m aravilhosas, m as o que é fato é que estou casado com um a estranha há trinta anos.
— E está disposto a continuar assim durante m ais trinta anos?
— Tudo leva a crer que sim — replicou Bill, se bem que ultim am ente se tivesse questionado a esse respeito. Mas o divórcio teria sido um sério revés para ele. Na sua vida, a discrição e um faro apurado eram essenciais. Nenhum presidente ou candidato a presidente iria querer estar ligado a ele, se as relações com Cindy se deteriorassem e o fato chegasse ao conhecim ento do público; e ela nunca iria abrir m ão da posição social que ocupava. A últim a coisa que ela queria era o divórcio. — Tam bém está disposta a fazer a m esm a coisa? Continuar num casam ento sem am or até ao resto da vida. — Conhecia a resposta. Já haviam discutido o assunto.
— Não tenho alternativa.
— Todos nós tem os alternativas, se form os suficientem ente coraj osos para as assum irm os. Mas você e eu tem os m uito a perder. A m inha carreira sofreria um duro golpe se a Cindy e eu nos divorciássem os. E você tem um filho gravem ente doente. Entendo perfeitam ente por que razão estam os agindo assim , m as às vezes tenho a sensação de que som os um par de parvos. Se tivéssem os algum a coragem e acreditássem os nos nossos ideais, davam os o salto. Mas não acredito que nenhum de nós o dê.
— Desconfio que você tem razão — anuiu Isabelle, com voz triste.
— Só espero que não venham os a arrepender-nos um dia. A vida é curta. Os m eus pais m orreram com sessenta e tantos anos, sem gozarem a vida. Só fizeram o que achavam ser a sua obrigação. Quero m ais do que isso. Mas ainda não sei com o vou conseguir.
— Eu evito pensar no assunto. Fiz a m inha escolha há vinte anos.
— É de um a grande nobreza de caráter da sua parte, — disse Bill, pegando-lhe na m ão, quando se sentaram no carro, m as não receberá nenhum prêm io por isso. Ninguém vai nos dar um a m edalha pela nossa coragem .
— O que quer dizer?
— Não sei bem . Por vezes, estou farto da vida que levo. Nem sequer sei se ainda acredito na porcaria de vida que tenho. Para ser franco, quando nos vem os e conversam os, pergunto-m e que raio vam os nós fazer conosco? — Parecia assustada e tem ia que Bill lhe dissesse que nunca m ais voltariam a ver-se. Ao olhar para ele, os olhos de Isabelle estavam m uito abertos. — Não, com as outras pessoas. Você e eu som os os únicos que fazem os sentido. Nunca consegui conversar com outra pessoa da form a que nós conversam os. Não é assim que deve ser?
Isabelle fez um gesto afirm ativo com a cabeça, pensando em tudo aquilo que ele lhe dissera.
— Agora é, m as aos vinte e um anos, quando casei, não via as coisas assim . A única coisa que sabia nessa época era fazer o que m e ordenavam . O Gordon era exatam ente com o o m eu pai. Ele é que m e dizia a que horas tinha de m e levantar e deitar, o que devia dizer, o que fazer, o que pensar. Nessa época, era confortável. Mas nunca percebi que existia um a alternativa e que havia outras form as de viver.
— E agora?
— Continuo não tendo alternativas. Sabe bem que não. Que alternativa tenho?
— A que escolher. A questão é essa. Pagarem os um preço elevado pela m udança nas nossas vidas. E o preço que pagam os não é elevado se elas continuam tal e qual estão? Já pensou nisso.
— Tento não o fazer. Tenho a vida que tenho por causa do Teddy e da Sophie.
— Tem certeza de que é esse o m otivo por que prefere continuar com o está? — Bill nunca a pressionara daquela m aneira, o que a espantava, levando-a a perguntar-se o que m udara. Dava a im pressão de que Bill j á não estava contente nem com a sua vida nem com a dela. — Você tem a certeza de que quer continuar assim porque receia seguir outro cam inho? Tenho um m edo trem endo de deitar as cartas ao ar, abandonar o j ogo. Sou hum ano e não sou perfeito, e tenho necessidades afetivas.
— Está dizendo-m e que vai deixá-la? — Sentia-se perplexa. Ao longo de vários anos de conversas, sem pre lhe dissera que nunca rom peria o casam ento. Tal com o ela.
— Estou dizendo , ou pelo m enos penso que estou a fazê-lo, que gostaria de ter coragem para a deixar. — Bill resolveu então dar o grande passo. Mesm o que Isabelle ficasse furiosa e saísse disparada do carro, tinha de lhe dizer, porque era o que sentia. E significava dem asiado para o poder ignorar. — Para seu bem , gostaria que tivesse a coragem suficiente para deixar o seu m arido. Quando te telefono fico de coração destroçado a ouvir-lhe falar com o um a prisioneira que está sendo m orta de fom e, privada dos seus direitos, desprezada e desrespeitada há vários anos. Só tenho vontade de lhes raptar, a você e ao Teddy, fazer qualquer coisa para tira-los daquela casa. O Gordon não te m erece, da m esm a form a que a Cindy não m e m erece. E o que é fato é que nunca nos m ereceram . Quem m e dera que a vida fosse m ais sim ples do que é. Mas não. É um a com plicação trem enda. Quem m e dera que pudéssem os com eçar tudo de novo.
— Quem nos dera. Mas não podem os. E sabe isso tão bem com o eu. — Isabelle adorava a idéia de Bill pôr um ponto final no casam ento. Mas sabia que seria um ato desastroso para a sua carreira. — Se a Cindy arm ar um escândalo, toda a sua vida política irá por água abaixo. Passou trinta anos construindo-a. Está m esm o disposto a trocá-la pela liberdade? Você tem certeza? Pelos teus ideais? E depois o que fará? E eu? O Gordon disse-m e, há m uitos anos, que se eu algum dia o deixasse, só descansaria quando m e visse passando fom e pelas ruas. Não herdei nada. Foi tudo para o m eu irm ão. E quando ele m orreu num acidente, a herança foi para os filhos. Estou com pletam ente dependente do Gordon. Não posso dar-m e ao luxo de o deixar. Não poderia proporcionar a devida assistência m édica ao Teddy. Custa um a fortuna e, por pouco que ele queira saber de m im e do filho, paga tudo sem pestanej ar. O que sugere? Que suj eite o Teddy à m iséria, por capricho, ou que, pura e sim plesm ente, o abandone? Não, sabe bem que é im possível. Além disso, o Teddy não sobreviveria a um a m udança tão radical. É de um a grande dignidade pensar em deixar o Gordon porque parece não m e am ar, m as o am or é um luxo a que eu e o Teddy não tem os acesso. — Custava dizer aquilo, m as era a pura das verdades. Isabelle suj eitava-se a subm eter-se a Gordon para poder proporcionar a m elhor vida possível ao filho. A Bill custava-lhe ver Isabelle aceitar de bom grado esse tipo de vida, em bora ele tivesse feito exatam ente a m esm a coisa. Am bos haviam aceitado sem protestos aquilo que tinham e a que preço?
— Acho que a única coisa que devem os fazer é tirar o m elhor proveito daquilo que tem os — afirm ou Bill, ao saírem em frente ao restaurante que haviam escolhido para alm oçar. Era italiano e m uito conhecido. — Talvez não tenham os alternativa, em bora deteste acreditar nisso. — No caso de Isabelle, não via saída possível, em bora lhe custasse a acreditar que os tribunais franceses perm itissem que Gordon deixasse a m ulher e o filho doente passarem fom e. Mas talvez ela tivesse razão
— Se o deixasse, seria o ato m ais egoísta que poderia com eter. O Gordon não m e daria um centim o a m ais daquilo a que se visse obrigado, e o Teddy não teria o m esm o conforto de agora. Só estaria pensando em m im . Não poderia fazer um a coisa dessas ao m eu filho. Tal com o as coisas estão, o equilíbrio j á é suficientem ente precário para ele.
— Tem razão. Não censuro-a, m as, quando estou com você, tenho sem pre a sensação de que poderíam os estar num a situação m uito m elhor. Vej o com o a vida poderia ser e nunca foi para am bos.
— Talvez as coisas entre nós sej am assim , porque apenas nos lim itam os a falar ao telefone e nos encontram os um as quantas horas de tantos em tantos m eses. Provavelm ente se nos tivéssem os casado, as coisas não se passariam desta m aneira.
— Acredita m esm o nisso? — perguntou Bill, olhando-a fixam ente.
Isabelle hesitou durante um longo instante, depois, abanou silenciosam ente a cabeça.
— Não, não acredito. Mas nunca saberem os. Nem sequer podem os perm itir-nos abordar o assunto — retorquiu tentando afastar aquele tipo de pensam ento. Será que sonhar com isso é outro luxo a que não nos podem os dar?
— Acho que sim . Se pedirm os ou tentarm os alcançar m ais do que tem os agora, acabarem os por nos m agoar um ao outro. Penso que devem os sentir-nos gratos com aquilo que tem os e não pedir m ais. Você é o am igo m ais querido que tenho no m undo e adoro-o por isso. Não vam os estragar as coisas querendo m ais. — Isabelle sentia a m esm a atração que ele desde a noite anterior. Era m aravilhoso estarem j untos, passearem , conversarem , rirem , dançarem , partilharem waffles e croissants. E depois? O que iriam fazer quando chegassem em casa? Não perm itiria que Bill fizesse um a asneira qualquer, m esm o que fosse esse o seu desej o. Isabelle sabia que o resto era algo que não poderiam ter. Mas ele m antinha o m esm o ar obstinado.
— Quero m ais! — Isabelle riu-se.
— Mas não pode ter. Está parecendoum a criança m im ada.
— Sinto-m e vivo pela prim eira vez, desde há m uito tem po. — O m esm o acontecia com ela, que tinha a sensação de lhe terem tirado dez anos de cim a desde o dia anterior.
— Acho que as salsichas do café da m anhã te subiram à cabeça. — Decidira que a única m aneira de lidar com a situação era não o levar a sério, apesar de ter ficado surpreendida com tudo o que Bill dissera. — Talvez possam os encontrar-nos aqui um a vez por ano, durante uns dias. É capaz de ser suficiente. — Foi a única coisa que lhe veio à cabeça para contrapor à idéia de um a vida com Bill.
— Sabe tão bem com o eu que não é suficiente.
— O que sugere? Que fuj am os para o Brasil? Põe um pouco de tino nessa cabeça. Pensa no que está dizendo. Não sej a louco. E não espere que eu tam bém enlouqueça. Não posso. — Bill conhecia-a bastante bem para saber que nunca poria em risco o bem -estar do filho. Mas não sabia se algum dia deixaria Gordon. Era um a pessoa dem asiado bem form ada Para fazer um a coisa tão escandalosa com o essa. E em bora Gordon fosse um a pessoa de baixa form ação m oral, Isabelle era-lhe incrivelm ente fiel.
— Não pode gostar do dom ínio que ele exerce sobre você e dos m aus tratos que lhe inflige.
— E não gosto. Mas não se trata propriam ente de m aus tratos. Ele, pura e sim plesm ente, saiu da m inha vida.
— Abandonou-a do ponto de vista em ocional. Há vários anos, o que lhe resta se não o fato de ele pagar as contas do Teddy ?
— É o suficiente. É a única coisa de que preciso.
— Parece-m e um a insensatez. você tem quarenta e um anos. Precisa de algo m ais do que isso.
— Nem sequer penso m ais na m inha vida — ripostou, num tom firm e, tentando resistir a tudo o que sentia por ele.
— Mas devia pensar.
— Acho que você precisa de um a bebida e de um cochilo. E de um calm ante. — Isabelle nunca o vira ou ouvira assim . Estava sensibilizada, m as não podia fazer nada. Sabia bem que não. Dentro de um , dois dias, tinha de voltar para França. A única coisa que podia fazer era gozar o tem po que lhes restava e não desperdiçá-lo querendo m ais. Mas, de repente, Bill recusava-se a ver isso e parecia querer pôr em risco tudo, desej ando m ais do que aquilo que tinha. — Você tem de ser sensato.
— Porquê? — perguntou Bill, enquanto saía do carro.
— Sabe bem porquê. Porque, goste ou não, não existe alternativa. Só está torturando-se. Você tem o direito de se libertar, se quiser, e talvez sej a isso que deve fazer. Mas a m inha situação é m ais com plicada. A vida do Teddy depende daquilo que o pai lhe der. — E não podia dar-se ao luxo da incerteza de contar com outra pessoa. Gordon era o pai do garoto e, pelo m enos, era essa a sua obrigação.
— Ele seria um m onstro se retirasse o apoio ao filho. — Isabelle ficou alguns instantes sem fazer qualquer com entário, depois olhou-o fixam ente e falou num tom claro e firm e, de m odo a que ele pudesse perceber que estava falando sério.
— Não vou fazer o teste. Não posso.
— Com preendo — lim itou-se Bill a dizer, entrando atrás dela no restaurante. Desculpa ter puxado o assunto. Não quis aborrecer-te. Só que as coisas, tal com o estão, não fazem qualquer sentido. Vivem os com pessoas que nos tornam infelizes e, quando estam os só os dois, a sensação é com pletam ente diferente. — De súbito, teve vontade de arriscar tudo. — Talvez isso aconteça porque não estam os efetivam ente j untos. Se estivéssem os, é possível que nos sentíssem os tão infelizes com o com eles.
Tudo aquilo que nunca fora abordado entre eles era agora posto a descoberto, o que era, de certa form a, um alívio. Haviam se escondido atrás da am izade e, de repente, Bill queria m ais. Mas Isabelle frisava que essa era um a questão que não se punha, independentem ente daquilo que sentia por ele. Havia m uito m ais em j ogo do que isso. E não iria trocar a vida e a saúde de Teddy pelo sonho de um rom ance. Era dem asiado sensata para correr tal risco. Por m uito que gostasse e adm irasse Bill, o filho vinha em prim eiro lugar. E ele respeitava-a por essa razão, sem pre a respeitara e continuaria a respeitar.
— Aceito aquilo que está dizendo — prosseguiu Bill, enquanto se sentavam a um a m esa, debaixo de um chapéu, protegendo-se do sol de j unho. Nunca poria em risco a saúde do Teddy. Mas quero que saiba que gosto m uito de você. Nunca vos poria em risco. Aliás, gostaria de te aj udar a cuidar dele, se pudesse. Mas não estou disposto a fingir que não quero m ais. Quero que saiba isso.
— Eu sei. Você tem sido tão bom para m im , ao longo de todo este tem po. saibas Durante os últim os quatro anos, além dos filhos, Bill era a única pessoa com quem contatava.
— Não tão bom com o gostaria. Estou farto da hipocrisia das nossas vidas. Você finge que você é esposa do Gordon e eu finj o que sou um m arido extrem oso, quando vou aos j antares de cerim ônia com a Cindy. Mas j á não sei se conseguirei continuar fingindo, nem sequer se tenho vontade para isso. Acho que j á não vale a pena.
— Pode ter de pagar um preço m uito m ais elevado se desistir do j ogo. — Isabelle questionara-se sobre tudo e Bill apanhara-lhe o ponto fraco e incitara-a a revoltar-se. Mas Isabelle teim ava em ser razoável.
— Talvez um destes dias m ande tudo passear. Nunca se sabe.
— Precisa pensar m aduram ente no assunto.
Ele fez gesto de concordância com a cabeça e pegou-lhe na m ão.
— Você é um a m ulher extraordinária — disse, com os olhos transbordando de em oção, e m uito m ais sensata do que eu.
— Talvez sej a um a vantagem . — Isabelle levou a m ão de Bill aos lábios e beij ou-a. — Você é o m eu am igo m ais querido.
Bill ficou m udo por instantes. Havia tanta coisa que lhe queria dizer, m as sabia, por tudo aquilo que ela dissera nessa m anhã, que não era a hora certa para fazer isso.
— O que quer alm oçar? — perguntou, tentando atenuar as em oções que quase o haviam tom ado por com pleto. Nem sequer conseguia im aginar o que sentiria quando ela regressasse a Paris. Mas não valia a pena pensar nisso agora.
Decidiram pedir m assa e saladas, e restringiram -se a tem as de conversa neutros, com o livros e arte. Isabelle achava que Bill devia escrever um livro sobre a cena política. Mas o que o tornaria interessante seriam os segredos que ele não podia divulgar.
— Talvez quando m e reform ar — sugeriu, enquanto apreciavam a sobrem esa.
Nessa altura, j á estavam am bos m uito m ais calm os. Bill não sabia por que razão as coisas haviam ficado fora de controle nessa m anhã. Sentia-se feliz quando estava com Isabelle e custava-lhe a aceitar que não pudesse haver algo m ais. Sabia que, enquanto Teddy fosse vivo, ela nunca poderia pensar em deixar Gordon, e esperava, para bem dela, que o filho ainda vivesse m uitos e longos anos.
Nessa tarde, foram ao Museu Britânico, de onde só saíram por volta das quatro horas. Deram então um passeio pela New Bond Street, em passo lento e de braço dado, detendo-se deleitadam ente a ver os quadros e os artigos de j oalharia expostos. Eram quase seis horas quando voltaram para o Claridge’s e resolveram tom ar chá. Havia sanduíches de pepino, outros com tom ate e agrião, salada de ovo e biscoitos. Esse chá bem servido fez com que Isabelle se lem brasse dos chás que tom ava com o avô quando era pequena. Sem pre adorara aquele tipo de refeição. Bill decidiu provocá-la, dizendo-lhe que preferia com er eclairs e petits-fours no Angelina’s, em Paris, ou com er sorvete no Berthillon. Isabelle retorquiu calm am ente que eram lugares onde tam bém adorava ir.
— Quando volta a Paris? — indagou Isabelle, enquanto com iam os sanduíches e Bill lhe servia outra xiícara de chá.
— Que tal na próxim a sem ana? — Vou sentir m uito a sua falta depois deste nosso encontro.
— Tam bém eu — confessou Isabelle, experim entando a m esm a atração que Bill. Quando estavam j untos ou falando ao telefone, não parecia haver qualquer problem a. Mas era com o que um fruto proibido. O sim ples fato de estar com ele j á era um a dádiva divina.
— Onde quer j antar? — indagou Bill, enquanto Isabelle revirava os olhos e ria.
— Com o pode estar pensando em j antar depois de tudo isto? Acho que não vou conseguir com er durante um a sem ana.
Era a últim a noite que passavam j untos. Isabelle tencionava partir no dia seguinte, ao fim da tarde. Ainda não pensara na hipótese de ficar m ais um a noite, em bora estivesse tentada a fazê-lo. Não queria pressioná-la. Sabia que se sentia no dever de voltar para j unto do filho e talvez, se ele não a pressionasse m uito desta vez, estivesse disposta a ficar m ais um a noite em Londres. Estavam sendo uns dias m aravilhosos para am bos.
— Que tal o Mark’s Club? — perguntou Bill, ignorando os protestos dela relativam ente ao fato de com er de novo. — Podem os lá ir m ais tarde, se quiser.
— Seria divertido. Há anos que lá não vou. Para ser sincera, nunca estive lá. — E riu.
— Vou fazer a reserva para as nove horas.
Bill levantou-se da m esa e dirigiu-se à recepção, onde se deteve alguns instantes falando com o recepcionista. Isabelle não tirou os olhos dele por um segundo. Era um hom em com um charm e irresistível.
— Porque estava olhando tão fixam ente para m im ? — perguntou ele, divertido e algo em baraçado. Isabelle era tão bonita que às vezes, ao olhar para ela, sentia um aperto no coração. Queria dar-lhe m uito m ais do que aquilo que lhe proporcionava, passar tem po na sua com panhia, apresentá-la aos am igos, levá-la a Washington para m ostra-la. Mas sabia que nenhum dos dois podia fazer isso. Ela não se atreveria a ir m ais longe.
— Estava adm irando-te. É um hom em m uito bem -apessoado, Mister Robinson. — Há m uito, m uito tem po, sentira o m esm o por Gordon. Mas agora j á não. Conhecia dem asiado bem a frieza gélida do seu coração.
— Ou está louca ou cega — ripostou Bill, e riu-se, denotando algum desconforto.
Levantaram -se e dirigiram -se aos respectivos quartos. Eram sete e m eia e Bill disse então que ia pedir um a m assagem no quarto, enquanto ela se vestia e telefonava para casa. — Venho buscar-te quinze m inutos antes das nove. Pode ser?
— Está ótim o. — Só queria telefonar para saber com o estava Teddy, tom ar um banho, dar um j eito no cabelo e vestir-se.
— Até j á — disse Bill, enquanto lhe punha o braço por cim a dos om bros e a beij ava no rosto. Nesse instante, esteve tentado a perguntar-lhe se queria ficar m ais um a noite, caso o filho estivesse bem . Mas preferiu esperar que ela telefonasse para casa e falasse com as enferm eiras e com Teddy.
Ficou satisfeita por saber que o filho tivera um ótim o dia e estava rindo quando falou com ele. A enferm eira estivera lendo-lhe um livro de anedotas que Isabelle lhe com prara antes de partir para Londres. Teddy leu-lhe então algum as que a fizeram rir. Quando entrou para o banho ainda sorria. Prom etera-lhe que estaria em casa na noite seguinte. Partiria num voo às seis da tarde e estaria em casa por volta das nove. Ainda pensara em ficar outra noite, m as não lhe parecia j usto.