O Beijo
Capítulo Doze
Gordon m andara-lhe algum as roupas: um casaco Chanel preto, que agora ficava largo, e um par de sapatos de pele preta, que tam bém eram grandes dem ais. Perdera m uito peso e o corpo parecia ter m udado. Apesar de m uito m agra, Bill achava-a m ais bela do que nunca. Prendera os longos cabelos escuros num bonito rabo-de-cavalo. Não usava m aquiagem , apenas batom . Ao vê-la assim , lem brou-se do dia em que chegaram a Londres, do prim eiro dia em que foram alm oçar fora e da ida ao Bar Harry ’s nessa noite. Tanta coisa acontecera, tantas pontes atravessadas. Era incrível pensar que haviam estado am bos às portas da m orte e que tinham voltado à vida. E agora os sonhos estavam prestes a acabar. Eram obrigados a voltar ao m undo real, a um m undo em que não podiam viver j untos.
— Cuida bem de você — disse Isabelle, abraçando-o. — Volta para m im o m ais depressa possível — m urm urou. Bill sorriu, com o olhar em baciado. — E não se esqueças que te am o m uito.
— Força, Isabelle... Tam bém te am o m uito.
Isabelle encam inhou-se, com ar resoluto, para a porta, parou, lançou um últim o olhar a Bill e, de lágrim as nos olhos, saiu.
Agradeceu às enferm eiras e despediu-se de am bos os m édicos, enquanto a enferm eira que fora contratada para a viagem se m antinha j unto dela para evitar qualquer queda. Encam inhou-se então para o elevador, em bora a sua única vontade fosse voltar correndo até o quarto de Bill e pôr o relógio para andar para trás, nem que fosse até ao período do estado de com a, se necessário. O que interessava era que pudesse ficar com ele. Entrou então no elevador, de cabeça baixa e lágrim as nos olhos. E todos lhe acenaram em sinal de despedida, ao m esm o tem po que as portas se fechavam .
Ninguém entrou no quarto de Bill depois de Isabelle ter partido. Ninguém o viu chorar ou a olhar, angustiado, para o teto. Se alguém tivesse encostado o ouvido na porta, tê-lo-ia ouvido a soluçar. Era o choro de um hom em que sabia que nunca m ais voltaria a ver a m ulher que am ava. E quando, finalm ente, horas m ais tarde, as enferm eiras foram ver com o ele estava, encontraram -no dorm indo, com ar de quem estivera chorando.
CAPÍTULO DOZE
O avião que a secretária de Gordon reservara pousou na pista do Aeroporto Charles de Gaulle passava pouco das duas da tarde. Isabelle não trazia bagagem consigo, apenas um a pequena m ala de m ão, com os seus artigos de m aquiagem , alguns livros e fotografias dos filhos e de Bill. Com um a leve vista de olhos no passaporte, o funcionário da alfândega fez-lhe sinal para passar. Não havia ninguém à sua espera. Gordon não viera nem dissera a Sophie em que voo é que a m ãe chegariaa.
Quando entrou no carro que Gordon enviara, estava espantada com o cansaço que sentia. Mal conseguia pôr um pé à frente do outro. Sabia que isso tinha a ver não só com a em oção, m as tam bém com o fato de ser a prim eira vez depois do acidente que tom ava contato com o m undo real. A enferm eira conduzira-a num a cadeira de rodas até ao carro. Não conseguia pensar senão em Bill. Tentara telefonar-lhe antes de entrar no carro, m as as enferm eiras do hospital inform aram -na de que ele se encontrava dorm indo. Não queria acordá-lo. De qualquer form a, não tinha nada para lhe dizer, a não ser que o am ava e que detestava estar longe dele. Já sentia a sua falta e ainda não chegara em casa. No entanto, sabia que, logo que chegasse, ficaria feliz de voltar a ver os filhos.
A enferm eira falou m uito pouco na viagem até a casa. Havia sido contratada no hospital, m as trabalhava por conta própria. Voltaria a Londres no voo das seis. Era um a sim ples dam a de com panhia, com o Bill dissera. Achara um a boa idéia, um a vez que Gordon não fora buscá-la. Se ficasse m al disposta, se caísse, se se m ostrasse assustada ou confusa, era bom ter alguém por perto. Estivera enferm a durante m uito tem po e sofrera um enorm e choque. A m ulher fizera-lhe algum as perguntas pertinentes sobre o acidente, apesar de ter lido o relatório m édico, e, ao fim de algum tem po, calou-se. Durante a viagem , leu um livro.
Isabelle sentiu-se estranham ente deprim ida quando entrou na cidade. Não experim entou qualquer em oção ao ver Paris de novo. A Torre Eiffel não lhe dizia nada. Tinha vontade de estar do outro lado do canal da Mancha, no hospital, ao lado de Bill. Ao atravessar para a m argem esquerda do Sena, fez um esforço para pensar em Teddy e Sophie. De repente, sentiu um frêm ito de entusiasm o quando o carro virou na Rue de Crenelle. Os filhos eram o seu único pensam ento. Ansiava tê-los de novo nos braços. Mas tam bém sentia tristeza e saudade ao lem brar-se de Bill.
As enorm es portas de bronze que davam para o pátio interior encontravam -se abertas de par em par. Quando o carro entrou no pátio, Isabelle levantou os olhos para a casa que se erguia à sua frente. Não viu ninguém , se bem que os quartos dos filhos dessem para o j ardim , tal com o o dela. Não esperava que Gordon se encontrasse em casa àquela hora. Havia lhe dito que estaria em casa às seis horas, com o de costum e, pois tinha um dia m uito ocupado no banco. Respondera-lhe que com preendia. Ele dem onstrava m ais poder não se encontrando ali do que se aj udasse a levá-la até ao quarto. Era a sua form a de m ostrar que ela não o controlava, nem nunca controlaria. Quando saiu do carro, não havia ninguém para dar-lhe as boas-vindas.
A enferm eira acom panhou-a na subida do pequeno lance de escadas, que ia dar na porta principal da casa.
Tocou à cam painha e, por instantes, ninguém veio à porta. Então, apareceu Josephine, a governanta. Olhou para Isabelle e desatou a chorar, ao m esm o tem po em que a abraçava.
— Oh, madame... — Sem pre pensara que a patroa não escaparia à m orte. O ar de felicidade que exibia era autêntico. Trabalhava para Isabelle desde que esta casara. — É tão bom voltar a ver-te!
Isabelle entrou e olhou à volta. O vestíbulo parecia-lhe diferente. Maior, m ais som brio e triste. A m ente pregava peças estranhas. A casa j á não lhe oferecia qualquer conforto. Tinha a estranha sensação de estar na casa errada. Perguntou a si própria se o traum atism o craniano que sofrera é que a fazia sentir-se assim , ou se aquilo que via era autêntico. Estivera ausente durante m uito tem po. Haviam se passado m ais de dois m eses desde que partira para Londres, em j unho.
Tanta coisa acontecera. E agora que regressava, sentia-se invadida pela estranha sensação de que aquela casa j á não era a sua. A única coisa que a ligava a ela eram os filhos.
Isabelle agradeceu à enferm eira por tê-la acom panhado até a casa, deixou-a com Josephine e subiu lentam ente as escadas para ir ver os filhos. Fez um a ligeira pausa ao cim o, para recuperar o fôlego. Ouviam -se vozes ao longe. Por instantes, tudo à sua volta se desvaneceu, à exceção da voz do filho. Ouvia a voz de Teddy falando com alguém . E, pé ante pé, encam inhou-se até ao quarto dele e abriu a porta.
Teddy não a viu de im ediato. Estava deitado na cam a conversando com a sua enferm eira preferida, Marthe. Isabelle percebeu logo, só pela voz, que estava cansado e algo queixoso. Sem se fazer anunciar, entrou, com um largo sorriso nos lábios.
Teddy olhou para a m ãe, perplexo, e, soltando um grito de alegria, saltou da cam a e correu para ela. E abraçou-a com tanta força que a ia faze-la cair.
— Mam ãe! Voltaste! — Abraçava-a, puxava-a e beij ava-a com tal ím peto que Isabelle ainda pensou que iam cair os dois no chão. A enferm eira pediu-lhe que tivesse cuidado com a m ãe. Ao sentir o filho nos braços e o odor dos seus cabelos, não conseguiu conter as lágrim as.
— Oh, m eu Deus, tive tantas saudades suas... nem acredito.. Teddy, adoro-te.
Parecia um cachorrinho à volta da m ãe, aos puxões, aos beij os, às festas. Quando conseguiu afastar-se um pouco dele e se sentou na cam a, Isabelle reparou que o filho estava extrem am ente pálido. Além de m ais m agro e m ais fraco. Mal se sentou ao lado da m ãe, com eçou a tossir sem parar e era a custo que conseguia respirar.
Isabelle olhou para a enferm eira, que fitava m ãe e filho de lágrim as nos olhos. Pela quantidade de com prim idos e xaropes na m esa-de-cabeceira, era evidente que o estado de saúde de Teddy não era o m elhor. Os últim os dois m eses haviam sido extrem am ente desgastantes.
— O que está fazendo na cam a a esta hora? — perguntou Isabelle, os olhos preocupados. Teddy sorriu, a felicidade estam pada no rosto, gatinhou para cim a da cam a e deitou-se de barriga para cim a, de olhos pregados na m ãe.
— O m édico não m e deixa levantar — respondeu Tedy, com o se essa questão não fosse relevante. Agora que a m ãe voltara, pouco lhe im portava a doença. — Disse-lhe que era um a estupidez. Ontem quis ir para o j ardim , m as a Sophie decidiu que eu não podia. Ela é ainda m ais tonta do que você. Está sem pre preocupada com igo. E não m e deixa fazer nada.
— Acho m uito bem . Parece que tratou m uito bem de você.
— A m am ãe sente-se bem ? — indagou Teddy, preocupado. A tosse parara, m as as m ãos trem iam -lhe. Isabelle suspeitava que isso se devia à m edicação, m as, m esm o assim , não gostou desse sintom a. Alguns dos m edicam entos para as dificuldades respiratórias j á lhe haviam provocado trem ores. O problem a é que eram m uito fortes para o coração. Mas Sophie não sabia e Isabelle tinha a absoluta certeza de que a filha fizera um bom trabalho. — O papai disse que a m am ãe esteve em com a e depois acordou e agora está bem .
— Não foi bem assim . As coisas não foram tão rápidas. Mas agora estou bem , e isso é verdade.
— Com o foi estar em com a? Foi bonito? — perguntou, com um olhar estranho e m elancólico. — Lem bra-se?
— Não. Só m e lem bro de um sonho que tive e você tam bém estava nele. Havia um a luz m uito brilhante e eu ia em bora, e você obrigou-m e a voltar, tal com o veio a acontecer. — Era o m esm o sonho que Bill tivera e de que haviam falado m uitas vezes. Mas não podia referir Bill ao filho. Gostariaa que ele conhecesse Teddy. Haviam falado tanto dele que achava inj usto que não se conhecessem , em bora esperasse que isso pudesse acontecer um dia.
— Doeu m uito? — Teddy continuava m uito preocupado com a m ãe. Assem elhava-se ao Principezinho do livro de Saint-Exupéry, quando se sentou na cam a, de pernas cruzadas, com os sedosos cabelos encaracolados à volta do rosto. Parecia m uito m ais novo do que era. Aos catorze anos, nunca fora à escola, raram ente saía de casa e não tinha am igos. Só Sophie e os pais. E era com Isabelle que sem pre pudera contar.
— Apenas no com eço. Depois disso, só tive de descansar m uito, fazer exam es, tom ar m edicam entos e pôr-m e boa para voltar para j unto de você.
— Tive m uitas saudades. — As palavras de Teddy não conseguiam descrever, nem de perto, nem de longe, as em oções por que passara e o terror em que andara perante a perspectiva de a m ãe nunca m ais voltar para casa.
— Tam bém tive m uitas saudades. — Isabelle olhou à volta e deitou-se na cam a. Sentia-se confortável naquele quarto, m uito m ais do que se sentira no vestíbulo, ou no seu próprio quarto. Era ali que costum ava passar o tem po quando se encontrava em casa. — Onde está a Sophie?
— Saiu. As aulas com eçam na próxim a sem ana. Foi bom a m am ãe ter voltado para casa. O papai passa o tem po todo fora, e a Sophie está furiosa com isso.
— Então vam os ler m uito e fazer m uitos quebra-cabeças. Se o papai anda assim tão ocupado, então tem os m ais tem po para nós, não é? — Isabelle parecia pouco preocupada com a questão, m as não conseguiu deixar de perguntar-se por onde Gordon andava. Tam bém sabia que essa era a preocupação de Teddy, m as, provavelm ente, Gordon não passava assim tanto tem po fora de casa com o Teddy dizia.
Isabelle e Teddy falavam e riam anim adam ente quando Sophie entrou no quarto, com um m onte de revistas para o irm ão. Soltou um grito de espanto quando viu a m ãe deitada ao lado dele.
— Mam ãe! — Correu para a m ãe e quase se atirou para cim a dela. De repente, ficou apreensiva com a eventualidade de a poder m achucar. Achava a m ãe com um ar m uito debilitado, não m uito diferente do irm ão. — Está tão m agra, m am ãe!
— A com ida do hospital era horrível! — Sorriu. — Não lhe disse que, em várias ocasiões, Bill m andara vir de fora excelentes refeições. Não passara fom e. Além disso, ultim am ente o apetite era pouco. As roupas ficavam -lhe largas.
— Sente-se bem ? — O ar era de consternação. Fora ela a encarregada de olhar pela fam ília, enquanto a m ãe estivera no hospital.
— Agora que estou outra vez convosco, sinto-m e m aravilhosam ente bem .
Só ao fim de um a hora é que Isabelle foi para o seu quarto descansar um pouco. Sentia-se exausta. Marthe, a enferm eira de Teddy, disse que iria fazer-lhe um a visita m ais tarde.
Deitou-se em cim a da cam a e descalçou os sapatos. Vagueou então o olhar à sua volta. O quarto encontrava-se todo decorado com sedas, às flores m uito delicadas e de cores claras. Havia rosas brancas e azuis cor de alfazem a sobre um fundo m arfim . Os m óveis eram todos Luís XV. Sentia-se bem ali, outra vez com pleta, agora que j á vira os filhos, m as, ao m esm o tem po, havia um a peça que faltava. As saudades de Bill com o que a sufocavam , provocando-lhe um a sensação de quase pânico. Tinha saudades de ouvir a sua voz, de o ver sorrir, de lhe tocar na m ão. Sentia-se estranham ente só na casa em que vivia com os filhos e o m arido, que, há m uito, não passava de um estranho.
Só queria descansar uns m inutos, m as acabou por adorm ecer, só acordando quando Sophie lhe deu um ligeiro toque no om bro.
— Sente-se bem , m am ãe?
Sophie am adurecera m uito nesse verão. Dava a im pressão de ter saltado diretam ente da infância para a idade adulta. Parecia m ais a m ãe que a filha. Deu m eia volta na cam a e sorriu-lhe. Parecia haver um a m aior proxim idade entre m ãe e filha.
— Estou bem , querida. Ainda cochilei um pouco. Estou m uito cansada.
— Não se canse com o Teddy. Está tão contente que não vai largá-la um m inuto, com o um cachorrinho. Tem andado com febre nos últim os dias — inform ou Sophie, preocupada.
— Está m uito m agro — com entou Isabelle, dando um a palm adinha na cam a para a filha se sentar ao seu lado.
— A m am ãe tam bém está — observou Sophie, olhando para a m ãe m ais de perto. Tinha um ar diferente daquele que exibia antes. Com o se algo trem endam ente im portante tivesse lhe acontecido. E era a pura realidade. Estivera às portas da m orte e renascera. Além de ter se apaixonado loucam ente por um hom em m aravilhoso.
— Você fez um trabalho extraordinário com o Teddy — afirm ou Isabelle, em tom de elogio. Sabia m elhor do que ninguém que cuidar de um a criança deficiente com o o filho não era fácil. Este era carinhoso e m ostrava-se sem pre grato pelas coisas que as pessoas faziam por si, m as tinha de estar constantem ente sob cuidados extrem os. Era um a vida de eterna vigilância e nenhum descanso para aqueles que cuidavam dele. — Desculpa a m inha dem ora.
— O que im porta é que está viva. E estou im ensam ente feliz por isso — disse Sophie, com um sorriso cansado.
— Agora quero que descanse. Am anhã fico fazendo com panhia ao Teddy. Quero que se divirta antes de com eçarem as aulas.
E, desta vez, quando Sophie sorriu, j á parecia de novo um a garota. Não queria queixar-se à m ãe das dificuldades por que passara e da solidão que sentira. Não tivera ninguém com quem falar ou partilhar as suas preocupações, à exceção dos am igos quando telefonavam . Estes vinham visitá-la de vez em quando, m as, ao fim de algum as sem anas, estavam fartos. Durante a m aior parte do verão, tinham deixado de aparecer. Dois longos m eses de solidão e de m uito trabalho para Sophie. E o pai não lhe dera a m ínim a aj uda. Era com o se não quisesse saber nada do filho. Tinha um a m ulher doente, um filho deficiente e a sua própria vida. Enquanto Isabelle estivera internada, raram ente falara com Sophie, que se sentira m ais um a em pregada sobrecarregada com trabalho do que filha dele.
Isabelle levantou-se, lavou o rosto e penteou-se. Pensou em telefonar para Bill, m as não sabia se tinha tem po antes de Gordon chegar em casa. O que veio a acontecer às sete horas. Encontrava-se no quarto de Teddy lendo-lhe um livro quando viu passar um vulto alto e com ar som brio. Devia ter reconhecido a voz de Isabelle, m as passou pelo quarto sem espreitar, nem a cum prim entar.
Isabelle acabou a página e pousou o livro. Teddy j antara num tabuleiro, um a hora antes, e depois da em oção de rever a m ãe sentia-se cansado. Sophie saíra com am igos, pela prim eira vez em dois m eses. Depois de beij ar o filho e de lhe prom eter que voltaria, foi ter com o m arido. Gordon encontrava-se no quarto de vestir, ao telefone. Ao encarar a m ulher, ficou com ar surpreso, com o se tivesse se esquecido de que ela voltara para casa. Isabelle sabia que isso não era possível, m as fazia parte do seu m odo de ser não fazer grande alarde com as chegadas e as partidas. Raram ente se despedia quando ia viaj ar, e nunca o fazia quando saía para o escritório todas as m anhãs; ao regressar, geralm ente refugiava-se nos seus aposentos, para descansar um pouco antes de ver Isabelle e os filhos. E nessa noite não agiu de form a diferente. Presum ira que ela se encontrava com o filho e, além disso, sabia que a veria m ais cedo ou m ais tarde. Não tinha qualquer pressa em estar com ela.
— Com o foi a viagem ? — indagou Gordon, sorrindo, ao longe. Não fez m enção de se dirigir a Isabelle, que, prudentem ente, ficara à porta.
— Ótim a. Parecia que os últim os dois m eses nunca haviam existido. — Isabelle experim entou, de repente, a sensação de ter estado ausente durante apenas dois dias. Gordon não prestou qualquer atenção ao fato de a m ulher ter estado dois m eses fora e às portas da m orte. — A enferm eira foi m uito útil. Teria sido com plicado viaj ar sem ela. Os m eninos parecem -m e bem . — Descontando o fato de Teddy ter perdido peso e estar quase ardendo em febre e Sophie ter envelhecido cinco anos em dois m eses. Tirando isso, estava tudo “ótim o”. Isabelle sabia que Gordon não ia querer ouvir falar desse assunto. Todas as questões referentes aos filhos e à casa não faziam parte das suas preocupações.
— Com o é que se sente? — perguntou Gordon, com ar preocupado, o que a surpreendeu. Isabelle esperava que ele agisse com o se ela nunca tivesse estado internada. Gordon tinha tal aversão a doenças e enferm os, que achava um sinal de fraqueza o fato de as pessoas adoecerem . Qualquer tipo de perturbação física trazia-lhe a m ãe à lem brança, o que lhe provocava um a profunda angústia. No seu espírito, toda a sua infância fora m anchada pela doença da m ãe.
— Sinto-m e bem . Só um pouco cansada. Ainda vai levar algum tem po até voltar a ser a m ulher que era.
Isabelle tinha de ir a um especialista, na sem ana seguinte, por causa do coração e do fígado. O m édico que a assistira em Londres avisara-a de que se tivesse dores de cabeça, por m ais ligeiras que fossem , teria de ser im ediatam ente vista por um m édico. A recuperação total, de acordo com o m esm o m édico, levaria aproxim adam ente um ano, se não m ais.
— Está com m uito bom aspecto — observou Gordon com ar satisfeito, alim entando o desej o de que fosse m esm o assim . Por um a série de razões, desej ava que os últim os dois m eses nunca tivessem acontecido. Ainda não se levantara para a abraçar ou beij ar e não tinha intenção de o fazer. Era m uito diferente de Bill. Isabelle questionou-se, m ais um a vez, se Gordon estaria zangado com ela. Este sabia da sua am izade com Bill, que lhe dissera que Gordon dera instruções para o colocarem para fora do quarto dela. No entanto, o m arido não fez qualquer pergunta, nem qualquer referência a Bill. Isabelle tinha consciência de que Bill Robinson era agora um assunto tabu entre eles. — Já j antou? — perguntou, num tom frio.
Isabelle fez um aceno negativo com a cabeça. Lem brou-se então de que não podia fazer m ovim entos bruscos.
— Ainda não. Estava à sua espera. O Teddy j á com eu e a Sophie saiu com os am igos.
Gordon franziu o sobrolho.
— Pensei que lhe agradaria ir para a cam a quando chegasse. Para o prim eiro dia de alta, foi m uito longo para você. Tenho um j antar de negócios com um cliente de Bankock.
— Está bem — disse Isabelle, com um sorriso nos lábios. Continuava à porta do quarto. Gordon nunca a convidara a entrar e essa era um a form alidade que respeitava. Sem pre frisara que todos precisavam de um convite seu para entrar nesses aposentos, inclusive Isabelle. — Peço à Josephine que m e traga o j antar num tabuleiro. De qualquer form a, não estou com fom e. — Só lhe apetecia um a sopa ou talvez um a torrada com ovos.
— Acho um a excelente idéia. Jantarem os am anhã.
No passado, Isabelle não teria ficado surpreendida pelo fato de Gordon ter se m antido im pávido e sereno depois da sua longa ausência. Mas, agora que conhecia Bill tão intim am ente e o m odo com o a tratava, causava-lhe algum a perplexidade que Gordon se m ostrasse tão distante e frio. Os dois hom ens não podiam ser m ais diferentes. Não houve qualquer m anifestação de interesse por se inteirar do seu estado de saúde, ou de regozij o, nem um a sim ples flor. Nem sequer se dignou a abraçá-la. Isabelle sabia que não voltaria a vê-lo nessa noite. E ficou espantada quando ele passou pelo seu quarto pouco antes de sair. Envergava um terno azul-escuro, um a cam isa branca, um a gravata Hermes azul e cheirava a água de colônia. Dava a im pressão de que ia para um a festa, m as não lhe perguntou.
— Já com eu? — A pergunta era um sinal de solicitude pouco habitual nele. Ficou sensibilizada com a atenção. Eram aquelas m igalhas de afeto que a haviam satisfeito no passado.
— Com i ovos e sopa.
— Vai descansar um pouco. Não passe a noite com o Teddy. Ele tem a enferm eira para isso.
Isabelle teria adorado ficar com o filho, m as sabia que ainda não estava em condições para tal.
— Já está dorm indo. — Fora vê-lo antes de ir para a cam a.
— Devia fazer o m esm o — opinou Gordon, m ais um a vez, sem se aproxim ar da cam a. Raram ente tocava na m ulher e nunca a abraçava, há anos que não a beij ava e m antinha um a considerável distância dela quando se encontrava na m esm a sala. A única ocasião em que lhe dem onstrava m ais afeto era quando se encontravam em público. Anos antes, fora induzida em erro por esse com portam ento, pensando que Gordon estava m ostrando-se m ais cordial com ela. Porém , ficava novam ente frio m al fechavam a porta do quarto. Mostrar afeto por alguém era a coisa m ais difícil do m undo para ele, contrastando com Isabelle, que era afável com todas as pessoas. Até am anhã. Gordon teve um a leve hesitação. Por instantes, Isabelle ainda pensou que ele fosse entrar no quarto e se aproxim ar dela. Porém , sem dizer m ais nada, deu m eia volta e foi em bora. Não era o casam ento que algum a vez sonhara, m as de nada valia pensar nisso agora. Era o único que tinha. Depois dos m eses que passara com Bill, era sua obrigação voltar a adaptar-se à situação. Não seria um a tarefa fácil.
Poucos m inutos depois de ele sair, pegou o telefone e ligou para o hospital. Quando a telefonista atendeu, pediu-lhe para falar com Bill. Encontrou-o deprim ido, m as, m al a ouviu, o seu estado de espírito m elhorou consideravelm ente.
— Estava pensando em você. — O tom de voz de Bill contrastava claram ente com o tom com que Gordon a cum prim entara. — Com o estão as crianças?
— Maravilhosas. — Sorriu ao ouvir a voz de Bill. Parecia um m arido em viagem , querendo saber com o fora o dia da m ulher. Ficaram radiantes por m e verem . A pobre Sophie parece esgotada.
— Com o está o Teddy ?
— Muito m agro e com febre outra vez, m as, hoj e à noite, parece-m e um pouco m elhor. Am anhã vou passar o dia com ele.
— Não abuse. Ainda não está em condições de fazer tudo o que fazia.
— Eu sei, querido. Com o foi o seu dia?
Fora horrível, m as Bill não lhe disse nada. Passara o dia todo sozinho, m as sabia que tinha de se habituar à idéia. Agora só lhe restavam os telefonem as. Tal com o nos velhos tem pos. Mas, ao fim de dois m eses de vida em com um , os telefonem as eram m uito pouco.
— Foi bom — m entiu. — Tive im ensas saudades suas. Estão fazendo o possível para m e darem alta na próxim a sem ana. Sinto-m e com o se fosse para um cam po de instrução m ilitar. — Ia para o centro de reabilitação com o program a m ais rigoroso, pois achava que assim conseguiria obter m elhores resultados. O seu futuro, aliás, o futuro de am bos, dependia da sua recuperação plena e apesar daquilo que haviam lhe dito em Londres sobre as pernas, sentia-se esperançoso. Ainda se m ostrava confiante de que nos Estados Unidos pudessem lhe dizer algo diferente.
Falaram um pouco sobre a sua chegada a casa e dos filhos. Bill recebera um telefonem a de Jane nessa tarde, o que o deixara um pouco m ais anim ado e só no final da conversa é que perguntou a Isabelle por Gordon.
— Com o é que ele te recebeu?
— À m aneira dele. Chegou tarde em casa e hoj e à noite saiu. Não há problem a. — Isabelle deixara o seu coração com Bill, em Londres, à exceção da parte que pertencia aos filhos. Nada restava para o m arido. Era dem asiado tarde e m uita coisa acontecera ao longo dos anos. Mesm o que nunca m ais voltasse a ver Bill, sabia que era dem asiado tarde para si e para Gordon. A única coisa que lhes restava era um casam ento que vivia de aparências, ao qual faltava a substância.
— Parece que está zangado com você? — Bill ficara preocupado com essa eventualidade. Achara-o m uito irritado naqueles prim eiros dias em Londres.
— Não, não m e parece. Mas ele nunca dem onstra. Se estiver, só saberei quando m enos esperar. É assim que funciona. Prim eiro, guarda as coisas para si, a paga vem sem pre m ais tarde.
— Só não quero que se vingue em você por estar com igo na hora do acidente. Sei que ficou irritado com isso.
— Falou com a Cindy ? — Isabelle reparara, em Londres, que a m ulher nunca lhe telefonava. Bill tivera várias conversas com o seu advogado no hospital e tratara dos papéis do processo do divórcio sem contar a Isabelle.
— A Jane disse que a m ãe estava em South Ham pton. Vej o-a quando estiver em Nova Iorque, no hospital.
— Espero que sim . — Isabelle sentia-se chocada com a falta de atenção da parte de Cindy.
Bill prom eteu então telefonar-lhe no dia seguinte. Isabelle estaria em casa durante todo o dia. Agora, com apenas um a hora de diferença entre Paris e Londres, era fácil trocarem telefonem as. Quando ele estivesse em Nova Iorque, seria m uito m ais difícil, m as Isabelle sabia que acabariam por arranj ar um a m aneira de contornar as dificuldades, com o haviam feito ao longo dos anos. Antes de desligar, Bill disse, m ais um a vez, que a am ava. Nessa noite, deitada na sua cam a, na casa que era, em princípio, o seu lar, Isabelle sentia que se encontrava num lugar estranho. Era com o se o seu lar fosse em Londres, ao lado de Bill. Nessa noite, Isabelle não ouviu Gordon entrar. Dorm ia profundam ente. No dia seguinte, no patam ar, quando ia ver Teddy, deu de cara com Gordon. Dorm ira até m ais tarde do que era costum e. Eram quase nove horas quando se levantou.Estava pij am a, cara lavada e cabelos penteados quando o viu, em passo apressado e de pasta na m ão, em direção às escadas. Este não lhe falou, lim itando-se a acenar com a m ão, enquanto descia as escadas correndo. Falava ao celular. Pouco depois, ouviu o carro arrancar.
Isabelle e Teddy passaram um ótim o dia. Ela leu-lhe m uitas histórias, deitada ao lado dele, o que lhe trouxe à m em ória os m om entos passados com Bill no hospital. Depois de alm oço, Teddy dorm iu um a longa sesta. Entretanto, apareceu o m édico, que o achou m uito m elhor. Porém , quando Isabelle o conduzia à porta, o m édico virou-se para ela com um a expressão estranha no sem blante.
— Sabe que o estado dele está deteriorando-se, não sabe? — Era isso que Isabelle receava, m as pensava que se tratava de um a situação tem porária. Agora que estava em casa, iria envidar todos os seus esforços para trazer o filho de volta ao estado em que o deixara dois m eses antes, quando partira para Londres. E tinha certeza de que conseguiria. Sophie tom ara conta do irm ão bem , m as não conhecia todos os truques de que Isabelle se servia para o pôr em m elhores condições.
— Está pálido e perdeu peso, m as pareceu-m e m elhor esta m anhã — disse, esperançosa.
— E está m ais contente. Mas encontra-se cada vez m ais fraco. A função cardíaca está piorando e os pulm ões funcionaram m al durante todo o verão.
— O que quer dizer-m e, doutor? — Indagou Isabelle, preocupada.
— Que o corpo não está acom panhando o crescim ento. À m edida que ele vai ficando m aior, o coração e os pulm ões vão ficando suj eitos a um m aior esforço.
— E um transplante?
— Nunca iria sobreviver à operação.
Isabelle sabia que, sem a operação, os dias de Teddy estavam contados. Era m uita coisa para enfrentar, ainda m al chegara em casa, e ela própria ainda se encontrava m uito debilitada. O m édico aconselhou-a a não fazer esforços.
— Gostaria de vê-lo ganhar algum peso, e você, Isabelle tam bém tem de engordar. — O m édico estava preocupado com ela. O seu organism o sofrera um choque trem endo e as sequelas ainda eram visíveis.
— Tratarei disso. Irem os entrar os dois num regim e de engorda. — Sorriu, pensando naquilo que o m édico acabara de lhe dizer. Fora um verão terrível para Teddy, aliás, para am bos, m as, agora que voltara para casa, estava determ inada a dar um a volta às coisas, e tinha certeza que conseguiria.
— Volto a vê-lo dentro de um dia ou dois, m as, se tiver quaisquer problem as, telefone-m e.
No entanto, os problem as que Isabelle enfrentava não estavam relacionados com Teddy. Tinham a ver com Gordon. Nessa noite, este chegou em casa com ar taciturno e não deu qualquer explicação para isso. Pegou num tabuleiro e foi j antar no quarto, deixando Isabelle sozinha à m esa. Evitava falar com ela e nunca entrava no seu quarto. Ao fim da noite, Isabelle ouviu-o sair. Não fazia a m ínim a idéia onde é que o m arido ia quando saía àquelas horas da noite. E só voltou a vê-lo na m anhã seguinte. Deu de cara com ele quando desceu para tom ar o desj ej um , sentado na sala de j antar, lendo o j ornal e bebendo um a xícara de café. Só ao fim de m uito tem po é que percebeu a presença da m ulher. Pousou então o j ornal e acabou o café. Isabelle tinha a im pressão de que Gordon estava irritado com ela e não fazia a m ínim a idéia do m otivo dessa irritação.
— Você teve notícias do seu am igo de Londres? — perguntou Gordon, num tom seco. Isabelle ficou perplexa com a pergunta. Não queria m entir-lhe, m as não estava disposta a dizer-lhe que telefonara a Bill duas vezes no dia anterior.
— Sim , falei com ele. — Ficou surpreendida por Gordon se referir a Bill. Não dissera um a palavra sobre ele no dia em que chegara, m as agora m ostrava-se furioso com ela.
— Não acha que é um a falta de dignidade da parte dele telefonar aqui para casa, Isabelle? Devia ter vergonha na cara. Quase te m atou.
— O ônibus é que quase nos m atou aos dois. Ele não teve culpa.
— Se não tivesse saído com ele, nada disso teria acontecido. Não creio que gostaria que os seus filhos soubessem que estava com outro hom em , quando ocorreu o acidente. — Havia um a am eaça im plícita nas palavras de Gordon.
— Claro que não. Mas as coisas não foram com o euer fazer crer. Éram os sim ples am igos — ripostou Isabelle, num tom calm o, em bora o coração batesse com m ais força.
— Está dizendo que a vossa am izade acabou?
— Não diria isso. Passam os por m uita coisa j untos. — Lançou um olhar cauteloso ao m arido. Sabia que este era um a pessoa vingativa e não queria iniciar um a guerra com ele. Gordon é que detinha o poder e não adm itia que ela o questionasse. — Você não tem nada a recear dele. Já estou em casa.
— A questão não é essa. Estou aconselhando-te a colocar um ponto final nisso tudo. Corre um grande risco se m e irritar. E não te aconselho que o faça.
— Não tenho qualquer desej o de te irritar. Desculpa ter-te criado um a situação em baraçosa. — Ao dizer isto, baixou os olhos.
— Interessante escolha de palavras. — O olhar fulm inante de Gordon era um sério aviso para ela. — Estar envolvida num acidente que quase te ceifou a vida, enquanto m e enganava com outro hom em , é, sem dúvida, um a “situação em baraçosa”.
— Não estava enganando-te. Tinha ido j antar.
— E dançar. Eram duas da m anhã. — Isabelle teve vontade de lhe perguntar onde é que ele passara a noite anterior, ou onde é que fora quando saiu de casa ao fim da noite. Nunca se atreveria a tal coisa. Gordon é que estabelecera as regras do casam ento e agora era livre de fazer o que quisesse. Sem pre esperara que a m ulher se m antivesse sob as suas ordens. Estava estabelecido entre os dois ela não fazer perguntas, nem questionar a autoridade ou a independência do m arido. A punição por isso teria sido extrem a, se algum a vez ela tivesse se atrevido. Essa questão encontrava-se bem definida entre am bos. Nunca houvera qualquer pretensão de igualdade no casam ento. Gordon nunca proporcionara nem prom etera tal coisa. A única circunstância que agora a espantava era o fato de ter aceitado sem pre, sem pestanej ar, essa regra autoritária. O casam ento fora sem pre m ais um a ditadura do que propriam ente um casam ento. Você é um a m ulher casada e conto que se com porte com o tal. Espero que tenha aprendido a lição.
Isabelle perguntou-se então o que Gordon lhe faria se soubesse que partilhara o quarto de hospital com Bill. Estava sendo m uito claro. Não iria tolerar outro tipo de com portam ento da parte da m ulher que não fosse exem plar. Qualquer passo em falso seria punido com silêncio, am eaças, rej eição, insultos, se necessário, ou talvez até com a expulsão de casa, ou retirando-lhe os filhos. E se ele se divorciasse dela, Isabelle não poderia cuidar de Teddy, o que era o único fato que lhe im portava.
— Tem sorte por estar disposto a perdoar-te. Mas se descubro que anda portando-se m al, ou que ele vem aqui te visitar, as coisas vão ficar m uito m ás entre nós. E sugiro que lhe diga para não telefonar m ais.
Isabelle sabia que nunca faria tal coisa. Os telefonem as de Bill eram a única tábua de salvação que agora tinha. Não ia haver, certam ente, qualquer cordialidade ou apoio da parte de Gordon. Este levantou-se então da m esa, pegou na pasta e saiu da sala. Já transm itira a sua m ensagem . Pouco depois, partiu para o escritório.
Isabelle sentou-se então na sala de j antar durante alguns instantes organizando as idéias. Sentia-se com balida. Agora era um a presa em liberdade condicional, e se quebrasse de novo as regras, e Gordon descobrisse, só Deus sabia o que ele iria fazer-lhe. Era capaz de pedir o divórcio e ficar com a custódia de Teddy. Esse seria o seu pior pesadelo. Estava convencida de que o m arido era bem capaz disso. Tinha vontade de telefonar a Bill, m as não se atrevia. Teria de esperar que ele telefonasse. O que veio a acontecer ao m eio-dia, depois de Bill fazer a fisioterapia. Parecia cansado, m as com um estado de espírito satisfatório e feliz por falar com ela.
— Olá, querida, com o você está? — perguntou Bill, num tom prazenteiro, percebendo, quase de im ediato, que algo acontecera. — O que se passa? Parece preocupada.
— Não, estou bem — m entiu, adm itindo, de seguida, quando pressionada, dizendo a verdade, que o seu estado de espírito não era o m elhor. Falou-lhe então da conversa com Gordon nessa m anhã.
— Só está tentando assustar-te. Quer reinar através do m edo. — Bill detestava tudo nele. Lem brou-se então de que Gordon nunca m ais voltara a visitá-la no hospital, para a punir e assustar, e fazê-la sentir-se insegura. O que Gordon não sabia era que isso se transform ara num a dádiva para Isabelle; aliás, para am bos. — Ele não pode fazer-te nada. Nem pode tirar-te o Teddy. — Tentava, em vão, anim á-la. À m edida que a conversa prosseguia, Bill sentia que Isabelle estava assustada.
— Os tribunais aqui costum am conceder o poder paternal ao pai. Ele é capaz de convencer o j uiz de que sou um a m á m ãe.
Bill sentia o coração destroçado ao ouvi-la assim tão preocupada. Isabelle ficara toda a m anhã refletindo no assunto.
— Com o pode ele convencer o j uiz de que você é m á m ãe? Dizendo-lhe que passou catorze anos cuidando dele? Querida, não sej a tonta. Só quer aterrorizar-te e, pelos visto, está conseguindo. — Era um receio infundado, m as Gordon sem pre a assustara com aquele ar todo poderoso, de quem é dono da verdade.
— Ele im pressiona qualquer pessoa.
— A m im não m e im pressiona — declarou Bill, num tom algo irritado. Adoraria tê-lo confrontado com o fato de sem pre ter m altratado a esposa. Gordon Forrester era um tirano. — Tenta ignorá-lo, despreza-o.
— É o que estou fazendo.
— Vai j antar com ele?
— Não sei. Nunca avisa se vem ou não j antar.
Bill sentia-se estupefato com tudo aquilo por que Isabelle passava, m as não podia fazer nada. Gostaria que ela se divorciasse, m as sabia que isso nunca aconteceria. Havia m uita coisa em j ogo e Isabelle sentia m edo daquilo que o m arido pudesse fazer-lhe. E era isso m esm o que este queria. Bill tentou explicar-lhe a situação, m as Isabelle continuava a bater na m esm a tecla que estava inteiram ente à m ercê de Gordon. Não tinha o seu próprio dinheiro e o filho era deficiente, precisando de constantes cuidados m édicos, extrem am ente dispendiosos. Ouvi-la falar assim irritava-o solenem ente. Adoraria casar com ela e cuidar de Teddy, m as agora era tarde dem ais, pelo m enos no m om ento. Não podia pedir-lhe para casar consigo se ia ficar deficiente. Estava de pés e m ãos atados. E hom ens com o Gordon arranj avam sem pre a arm a certa para em punhar contra as suas vítim as. Neste caso, era m edo.
— Afasta-se do cam inho dele. Eu é que passo a telefonar-te. — Bill achava que era m elhor o seu núm ero não aparecer nas faturas do telefone. — Liga-m e só se for estritam ente necessário. Eu é que te telefono.
Isabelle sentiu-se invadida por um a profunda solidão ao tom ar consciência da situação em que se encontrava m ergulhada. Gordon estava disposto a obrigá-la a pagar, até ao últim o centavo, aquilo que ela lhe fizera em Londres.
Conversaram durante m ais alguns instantes. Depois, Bill teve de voltar para a fisioterapia. Prom eteu ligar m ais tarde, antes de Gordon chegar em casa.
Porém , desta vez, Gordon surpreendeu Isabelle. Em vez de chegar em casa tarde, chegou às quatro da tarde, com ar de quem esperava apanhar a m ulher em flagrante delito. Mas Bill j á telefonara. Isabelle encontrava-se estendida em cim a da cam a de Teddy, j ogando cartas com ele. Este tinha um a paixão pelo gmrummy. Tam bém gostava de j ogar paciência, m as preferia j ogar com a m ãe.
Gordon esboçou um ligeiro aceno com a m ão ao passar pela porta do quarto, m as não parou para falar com o filho ou com a m ulher. Era exatam ente o m esm o com portam ento que Sophie presenciara durante todo o Verão. Dera-lhe um a nova perspectiva do pai, e da qual não gostara. Detestava a form a com o costum ava falar com ela, ignorando Teddy por com pleto, com o se este fosse invisível ou nunca tivesse existido. Aos olhos de Gordon, o filho era um a criança defeituosa e rej eitava-o por isso. Não m erecia a sua atenção, e Teddy tinha consciência disso. Há anos que não sentia qualquer respeito ou afeto pelo pai. Sophie só agora com eçava a com preender isso e com entou o fato com a m ãe, ao final da tarde, antes de sair com os am igos.
— Por que razão deixa o papai tratá-la dessa m aneira? — perguntou Sophie, em tom de acusação. Queria que a m ãe reagisse, m as esta não estava disposta a isso, o que a irritava no m ais profundo do seu ser. Em bora tivesse se oposto, durante anos, à m ãe, era agora, potencialm ente, a sua aliada m ais forte.
— O papai não faz isso por m al, querida. O seu m odo de ser é assim . — Isabelle m ostra-se sem pre disposta a defender o m arido das queixas dos filhos, por m ais razão que estes tivessem . — Ele não é um a pessoa expansiva.
Sophie m antinha o m esm o ar irritado. Ficara sabendo m uita coisa dele nesse verão, m ais do que queria. Todas as suas ilusões relativam ente ao pai haviam ido por água abaixo. A sua sim patia ia inteiram ente para a m ãe. Isabelle tornara-se a sua heroína.
— O papai m ostra constantem ente indiferença e desprezo por tudo o que se passa à sua volta. Trata a m am ãe de form a horrível e não quer saber do Teddy — ripostou, furiosa.
— Não é bem assim , Sophie. Isabelle ficou algo nervosa ao ouvir as palavras da filha, em bora soubesse que havia um a grande dose de verdade nelas.
— Ele só quer saber dele. Tam bém não m e liga qualquer im portância.
— O papai tem m uito orgulho em você.
Sophie não contradisse a m ãe a esse respeito, m as não acreditava naquilo que lhe dizia.
— Mesm o que isso sej a verdade, não tem o direito de a tratar com o trata, e m uito m enos ao Teddy.
Gordon agia ligeiram ente m elhor com Sophie, m as, ultim am ente, j á se m ostrava m ais frio com ela. Nunca lhe agradecera tudo aquilo que fizera e do que abdicara pelo irm ão, durante a ausência da m ãe. Sophie com eçara a ver o pai com o um hom em frio, duro e sem sentim entos. Precisam ente aquilo que ele era. A nível profissional, esta postura trouxera-lhe dividendos, m as em casa, com a m ulher e os filhos, isso não acontecia.
— Não se preocupe com isso. O seu pai é um bom hom em . — Mas tanto um a com o outra sabiam que era m entira. Gordon não tinha nada de bom ou de sim pático. — O seu pai e eu j á estam os habituados um ao outro. Conhecem os as nossas divergências e os sentim entos de cada um . As coisas não são tão m ás com o parecem .
No entanto, Sophie sabia que eram piores. Com preendia agora a razão de os pais terem quartos separados. Além disso, o pai passava a m aior parte do tem po fora. Raram ente dorm ira um a noite em casa quando Isabelle estivera no hospital m as não iria dizer nada disso à m ãe, para não a m agoar. Não acreditava que o pai tivesse um a am ante. Não parecia ser esse tipo de hom em . Mas não fazia a m ínim a idéia de onde é que ele ia. Nunca lhe deixara nenhum contato.
— Está tudo bem — repetiu Isabelle, m as não conseguia convencer a filha.
— Ele foi sem pre assim ? — Agora que assistira ao com portam ento do pai nos últim os dois m eses, Sophie não conseguia lem brar-se de ele tratar a m ãe de outra form a. Nem de um a ocasião em que houvesse calor e afeto entre eles. Nem de o pai dar um beij o ou um abraço na m ãe. E tinham quartos separados desde o nascim ento de Teddy. A m ãe afirm ara que isso acontecia para poder cuidar do filho e não perturbar o descanso do pai, m as agora percebia que os m otivos estavam m uito para além disso. E só não com preendia com o não ficara chocada com esse fato há m ais tem po. Sem pre tom ara o partido do pai e agora sentia-se tam bém culpada da situação em que a m ãe vivia. Enquanto esta perm anecera no hospital, ficara sabendo m uita coisa e crescera com o pessoa. E o fato de ter estado na im inência de a perder fizera com que sentisse agora um carinho especial pela m ãe, com o nunca sentira. — Ele era diferente quando casaram ? — Indagou, triste pela m ãe. Sentia um a ternura im ensa por ela.
— Era um a pessoa m uito protetora quando casam os. Muito forte, m uito determ inado, em bora eu pensasse que isso era am or. Eu era m uito j ovem . E ele ficou m uito feliz quando você nasceu. — Mas Isabelle não disse à filha que o pai queria um rapaz. Depois, teve um aborto espontâneo. Então, quatro anos depois do nascim ento de Sophie, dera à luz Teddy. E as relações com Gordon tornaram -se azedas. Repreendera-a pelo nascim ento prem aturo do filho, insistindo na idéia de que ela devia ter feito qualquer coisa para provocar aborto e que a culpa era toda dela.
Gordon rej eitara o filho doente desde o prim eiro m om ento em que o vira. Ao fim de alguns m eses, com eçara a adotar o m esm o tipo de com portam ento relativam ente a Isabelle, que precisava do seu am or e do seu apoio, pois eram tem pos difíceis. Haviam estado prestes a perder Teddy, por diversas vezes, nos dois prim eiros anos de vida deste. Essa perspectiva aterrorizava-a. Teddy era um a criança de extrem a debilidade e em constante luta com a m orte, m as Gordon não fazia outra coisa senão culpabilizar Isabelle pelo estado do filho, além de a acusar constantem ente de ser incapaz e incom petente. Minara com pletam ente a sua auto-estim a assim com o qualquer confiança que tivesse em si própria, enquanto m ãe, m ulher e esposa. Ao fim dos dois prim eiros anos de vida de Teddy, Gordon conseguira pô-la de lado. Isabelle nunca com preendera porquê, m as com eçava a acreditar que talvez a culpa fosse dela. Por vezes, ainda tinha essa sensação. Sem pre achara que, se tivesse tratado das coisas da m elhor form a, Gordon am á-la-ia ainda e tudo teria sido bem diferente. Passava a vida censurando-a, tal com o acontecera, nessa m anhã, com a história do acidente e do seu com portam ento em Londres, e até estava disposta a assum ir a sua culpa. Só que, desta vez, m enos do que era costum e. Sabia que não fora um com portam ento correto encontrar-se com Bill em Londres, clandestinam ente. Mas, nessa época, não fizera nada de m al. Fora sua intenção que se tratasse de um encontro inocente e dissera a Bill que honrava o seu casam ento. Só no hospital, depois do acidente, é que tudo se alterara. E agora am ava Bill e era com satisfação que arcava com a culpa, só para o ter na sua vida. Não via qualquer form a de o deixar naquele m om ento.
— Não sei por que razão casou com o papai — com entou Sophie, preparando-se para encontrar os am igos. O que descobrira, nesse verão, acerca do pai, entre outras coisas, era que ele tinha m á índole, ao ponto de, por vezes, ser cruel. E detestava isso nele.
— Casei com ele porque o am ava — disse Isabelle, esboçando um sorriso triste. — Tinha vinte e um anos e sonhava com um a vida m aravilhosa. Era um hom em bonito, inteligente e com a vida acertada. O m eu pai achava-o abençoado pelo Sol. Disse-m e que seria o m arido ideal para m im , e acreditei. O seu avô ficou m uito bem im pressionado com o seu pai. Era um hom em m uito talentoso.
Aos trinta e oito anos, Gordon era j á diretor do banco, e ficara m uito im pressionado com as ligações de Isabelle com a alta sociedade e à realeza. No início, esta conseguira dar um toque de classe à sua vida. Tinha am igos que lhe podiam ser úteis. Mas, logo que os conheceu pessoalm ente, Gordon pôs Isabelle à m argem e deixou, pura e sim plesm ente, de m ostrar qualquer sinal de afeto ou am or por ela. Passou de um m arido atencioso para um ser extrem am ente cruel, m etido consigo m esm o, tratando a m ulher com o se ela não existisse, a não ser para o servir.
Cinco anos m ais tarde, j á não se m ostrava interessado em desperdiçar o seu charm e com ela. E m uito m enos agora. Nessa hora, o seu pai m orrera e o casam ento transform ara-se num pesadelo, m as Isabelle nunca adm itira tal fato a quem quer que fosse. Sentia vergonha, e Gordon convencera-a de que a culpa era dela. Desde aí, Isabelle canalizara todo o seu am or para Sophie e Teddy.
Sophie saiu pouco depois. Gordon e Isabelle j antaram na sala de j antar. Após o tom da conversa dessa m anhã, foram poucas as palavras que trocaram . Isabelle não queria irritá-lo m ais e a consciência aconselhava-a a não fazer tal coisa. O único assunto que costum avam abordar era sobre as crianças, o que o aborrecia profundam ente. Isabelle não abriu a boca durante todo o j antar e, depois do café, foi para o quarto de Teddy. Gordon, com o de costum e, fechou-se no seu quarto. Ao sair da sala de j antar, disse apenas que tinha trabalho para fazer. Mais tarde, j á na cam a, Isabelle pensava em tudo aquilo que Sophie lhe dissera. Era um a garota inteligente, saudável e perspicaz. O com portam ento e as atitudes do pai assustavam -na, m as o com portam ento e as atitudes da m ãe irritavam -na ainda m ais. Queria que esta fizesse frente ao m arido, m as, em vez disso, defendia-o, independentem ente daquilo que lhe fazia.