O Beijo

Danielle Steel · Capítulo 14 de 17

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O Beijo

Capítulo Dezesseis

Entretanto, no seu quarto, às escuras, Bill m antinha-se im óvel em cim a da cam a. Não se m exera desde que desligara o telefone. Não pregara olho durante toda a noite. Chorara sem parar. A única consolação que tinha era saber e acreditar que que tom ara a m elhor opção.

CAPÍTULO DEZESSEIS

 

Para Isabelle, depois de Bill term inar a relação, os dias eram interm ináveis. Não havia nenhum a parte do dia que lhe desse algum alívio. Cuidava de Teddy com o sem pre fizera e agora era ela que estava com ar doente. Não com ia, não dorm ia, pouco falava, em bora fizesse um esforço quando estava com o filho. Tinha a sensação de ter caído num abism o de trevas. Sentia saudades de ouvir a voz de Bill, m as nem sequer sabia onde é que ele se encontrava. Só sabia que fora para Washington, e gostava de saber se Cindy tam bém o acom panhara. Mas para onde quer que ele fosse, j á não lhe pertencia, nem nunca pertencera. Fora um a dádiva tem porária na sua vida e estava grata por isso. Mas a m ágoa de o perder era tão forte que não sabia se sobreviveria. Perder Bill custou-lhe m ais do que sobreviver ao acidente. O im pacto desta vez atingira-lhe a alm a.

Até Gordon reparou no seu ar extrem am ente abatido, m as relacionava-o com o desastre. Quando Sophie a viu, ficou abism ada. Parecia estar definhando.

— Você está doente? — Perguntou Gordon, um dia, ao desj ej um . Dorm ira em casa naquela noite. Ainda não lhe passara pela cabeça que Isabelle sabia que ele ficava fora com frequência. Ela perdera tanto peso que as roupas estavam m ais largas do que algum a vez haviam estado depois do acidente.

— Não tenho andado bem . São as enxaquecas — disse Isabelle, para explicar o seu ar cadavérico. Tam bém tinha consciência do seu estado, m as não conseguia com er nem dorm ir.

— Deve ser um a sequela das lesões que você teve — afirm ou Gordon, com ar ligeiram ente preocupado. — É m elhor cham ar o m édico. — Era o prim eiro sinal de interesse que m ostrava há vários m eses. — Vou viaj ar na próxim a sem ana e acho que ele devia ver-te antes de eu partir.

Isabelle perguntou-se se ele iria com Louise. Estava convencida de que Gordon passara todo o tem po com ela, no verão anterior, durante o período da sua internação. A sua ausência devia ter sido um a bênção dos céus para ele. E o fato de não ter voltado ao hospital a visitá-la não tinha nada a ver com ela, nem com Bill, nem com a raiva por causa do seu relacionam ento com este, m as com o seu envolvim ento com Louise. Mas j á não dava im portância a isso. Esse era um fato da vida deles que j á durava há vários anos.

— Onde você vai? — Perguntou Isabelle, tentando m ostrar-se interessada. Mas não estava. Aliás, perdera o interesse em tudo. A única coisa em que se em penhava era a cuidar de Teddy. E estava satisfeita por Sophie vir passar alguns dias em casa.

— Visitar clientes no Sul da França. — Isabelle estava certa que o “cliente” era Louise, m as, com o é óbvio, não lhe perguntou. — Quero que cham e o m édico hoj e — lem brou-a Gordon, quando saiu, m as Isabelle não cham ou. Sabia o que se passava com ela. Tinha o coração destroçado, m as não em consequência do acidente, que fora há exatam ente um ano. Custava-lhe a acreditar que Bill estivesse fora da sua vida. Chegou a desej ar ter m orrido no desastre. Teria sido m uito m ais fácil do que aquilo que estava sofrendo naquele m om ento. E duvidava que a m ágoa algum dia desaparecesse. Cada dia que passava era pior do que o anterior. Bill levara tudo o que a vida tinha de bom e não lhe deixara nada a não ser as recordações e o desgosto que a consum ia. E o pior de tudo é que nem sequer estava zangada com ele. Continuava a am á-lo e sabia que sem pre o am aria. Era com o um anim al que perdera o seu com panheiro e que procurava um lugar calm o para m orrer.

— Mam ãe, o que se passa? — perguntou Sophie, preocupada, quando se encontraram , à porta do quarto de Teddy, nessa tarde.

— Nada, querida. Estou cansada. — Isabelle tinha m uito m au aspecto e não havia ninguém que não notasse. Sophie e Marthe, a enferm eira de Teddy, haviam falado sobre o assunto essa tarde. Teddy disse que a m ãe ficara assim desde que recebera um telefonem a a com unicar-lhe que um am igo m orrera. Mas Sophie e Marthe achavam que as causas eram m ais profundas e receavam não só pela sua saúde, com o tam bém pela sua vida.

Nessa noite, quando Gordon indagou pelo seu estado de saúde, Isabelle disse-lhe que o m édico a achara ótim a. Nem sequer se dera ao trabalho de lhe ligar, m as sabia que Gordon nunca iria confirm ar isso.

Gordon desconfiava que devia haver um enorm e desgosto de am or por trás. Um a cam painha de alarm e na sua cabeça levou-o a pensar em Bill, m as rej eitou a idéia de im ediato. Isabelle não se atreveria a com eçar tudo de novo, depois dos avisos que lhe fizera. Mas não sabia da força do seu am or por Bill.

No dia seguinte, Gordon partiu para o Sul da França, com ar despreocupado. Deixou o núm ero de telefone do Hotel du Cap. Pretendia ficar lá três sem anas. Isabelle não fez qualquer pergunta sobre o fato. Era um alívio tê-lo longe. Já não teria de arranj ar desculpas para o seu ar doentio. Era m uito m ais fácil estar só.

Quando voltou, três sem anas depois, Gordon ficou chocado ao vê-la ainda pior. Ele tinha um ar saudável e bronzeado e Isabelle dava a sensação de sofrer de um a doença em estado term inal. Sophie não conseguiu conter as lágrim as quando falou do assunto com o pai. Mas este disse-lhe que o m édico vira a m ãe sem anas antes e não encontrara nada. Gordon não queria saber m ais do que isso, nem encarar a possibilidade de poder ter outra pessoa inválida em casa.

Em agosto, Gordon partiu num a longa viagem de negócios na Itália e na Espanha. Sophie fora passar algum as sem anas na Bretanha. Isabelle ficou contente por ficar sozinha com Teddy. Lia-lhe livros e fazia um enorm e esforço para não o preocupar, m as não conseguia im aginar-se de novo a m ulher de outrora. Fora m ais fácil todo o processo de recuperação depois do acidente do que perder Bill. Acordava todas as m anhãs pensando nele e desej ando a m orte.

E foi quando Gordon e Sophie se encontravam fora que Teddy contraiu um a forte gripe de verão. Com eçou por aquilo que, no com eço, parecia um a dor de cabeça, depois apanhou-lhe o peito. A febre subiu e o m édico prescreveu-lhe antibióticos para evitar que o seu estado de saúde piorasse. Mas a febre não parava de subir e nada do que Isabelle e a enferm eira lhe davam conseguia fazê-la baixar. No terceiro dia, m al conseguia respirar. Até o m édico ficou preocupado com o fato de não estar respondendo à m edicação. Dois dias depois, contraíra um a pneum onia. Estava indo de m al a pior. Três dias depois, o m édico internou-o no hospital e Isabelle ficou lá com ele. Ainda pensou em telefonar a Gordon, m as preferiu não o incom odar. Nunca se preocupara com os problem as de Teddy. Essas preocupações sem pre haviam recaído sobre ela.

— Vou m orrer? — perguntou Teddy, de olhos esbugalhados, enquanto Isabelle lhe fazia festas na cabeça e punha com pressas de água fria na testa e nos pulsos. As enferm eiras estavam -lhe gratas pela aj uda.

— Claro que não. Mas você tem de ficar bom . Esse bichinho é estúpido e j á está doente há tem po suficiente. — Mas Teddy tinha quarenta graus de febre nessa noite. No dia seguinte, Isabelle teve m esm o de telefonar a Gordon.

— Não sei o que é. Deve ser um vírus qualquer. Mas o Teddy está m uito doente. — A voz denotava m ais cansaço que nunca.

— Está sem pre doente — retorquiu Gordon, algo aborrecido. Encontrava-se na Toscana e a Isabelle custava-lhe im aginar que tipo de negócios é que ele tinha ali. Eram , indubitavelm ente, outras férias com Louise, m as j á não queria saber. — Nada posso fazer.

— Só pensei que fosse querer saber — acrescentou Isabelle, arrependida de ter lhe telefonado. Fizera-o m ais por um a questão de cortesia.

— Telefona-m e se ele piorar.

“E depois o que faria?”, ela teve vontade de perguntar. “E se ele m orrer, devo telefonar-te? Não será m ais incôm odo para você?”, m as não disse nada.

Aguardou m ais dois dias e depois telefonou a Sophie. Teddy delirava com febre e Isabelle, em pânico, tentava falar com o filho. Estavam m inistrando-lhe antibióticos por via intravenosa, m as os pulm ões enfraqueciam de dia para dia e o m édico estava preocupado com o coração. Isabelle receava que este fosse o m om ento que m ais tem ia. Ao contrário do pai, Sophie, que se encontrava na Bretanha, veio im ediatam ente para Paris nessa noite. As duas m ulheres sentaram -se ao pé dele e ali ficaram longas horas, sem dorm ir, cada um a com um a m ão de Teddy nas suas, enquanto este cochilava. Por vezes, delirava, m as m uito pouco do que dizia fazia sentido.

Finalm ente, na m anhã seguinte, quando acordou, Teddy exibia um ar m ais tranquilo. No entanto, continuava ardendo em febre e dizendo que tinha frio, apesar de estar um calor abrasador.

O m édico andava de um lado para o outro e as enferm eiras não o largavam um segundo. Ao fim da noite, o m édico disse a Isabelle que as coisas estavam com plicando-se.

— O que quer dizer?

— Estou preocupado com o coração. Não aguenta tanta pressão. É um rapaz extrem am ente debilitado.

Isso Isabelle j á sabia e sentia algum a frustração por, aparentem ente, não estarem conseguindo quaisquer resultados positivos. Para seu grande horror, Teddy passou outra sem ana debatendo-se entre a vida e a m orte. Tanto ela com o a filha estavam esgotadas e quase com tão m au aspecto com o Teddy. Sentia-se escandalizada com o fato de Gordon não ter voltado a ligar para se inteirar do estado do filho, desde o últim o telefonem a que lhe fizera duas sem anas antes. Ele devia supor que o filho m elhorara. E quando a terceira sem ana com eçou, Teddy entrou num estado de perda de consciência. Teve várias apoplexias e a pneum onia piorara. Isabelle não sabia com o é que o filho conseguira resistir tanto tem po. Nada podia fazer a não ser sentar-se no corredor a chorar, voltando depois para o quarto para se sentar ao lado dele. Nessa noite, telefonou a Gordon.

Tal com o desconfiara, o m arido presum ira que Teddy m elhorara e ficou perplexo quando soube que o filho estava extrem am ente doente.

— Não sabia se queria vir para casa.

— Acha que deva ir? — Gordon parecia pouco entusiasm ado com a idéia, se bem que se notasse algum a preocupação na voz. A situação era m uito m ais grave do que im aginara.

— É com você. Ele está m uito doente. — Teddy não recuperara a consciência desde a noite anterior e o m édico receava que não viesse a conseguir. Pediu então para ela lhe telefonar no dia seguinte.

Isabelle e Sophie passaram toda a noite j unto de Teddy. Às cinco da m anhã, este abriu os olhos e sorriu-lhes. Am bas choraram de alívio, pensando tratar-se de um bom sinal. Mas a enferm eira disse que a febre subira durante a noite. Estava com quarenta e dois graus. Desta vez, quando veio observá-lo, o m édico abanou a cabeça. O coração do rapaz com eçava a falhar. Era o m om ento que Isabelle receara durante toda a vida de Teddy. Com ar destroçado, m as estranham ente calm a, esperava que o destino ditasse a sua sentença.

Teddy, agarrado à m ão da m ãe, falava com um a voz nítida. Olhou para Sophie e esboçou um sorriso angélico. Isabelle beij ou-o no rosto e não conseguiu conter as lágrim as.

— Adoro-te, pequerrucho. — Teddy fora sem pre extrem am ente carinhoso e paciente com a m ãe. Tivera um a vida inteira de dor e nunca se queixara. E agora tam bém não o fazia. Lim itava-se a dar a m ão à m ãe e a vaguear entre os m om entos de sono e vigília. Isabelle sentia um desej o incontrolável de o tirar da beira do abism o onde a sua alm a pairava. Não conseguia suportar a idéia de o perder. Mas não havia nada que pudesse fazer para parar a doença terrível que o ia consum indo.

Teddy olhou para a m ãe e sorriu.

— Estou feliz, m am ãe. — Depois, virando-se para a irm ã: — Adoro-te, Sophie. — Então, soltando um m uito ligeiro suspiro, deixou o m undo dos vivos.

A libertação da alm a do corpo que o atorm entara toda a vida foi tranquila e suave. Isabelle tom ou-o nos braços e chorou convulsivam ente. Sophie agarrou-se à m ãe soluçando. As duas m ulheres abraçaram -no e beij aram -no pela últim a vez. O dia estava quente e cheio de sol. Isabelle sentiu-se perdida quando chegou à rua. Não conseguia acreditar que o filho os abandonara. Era inim aginável, im pensável, intolerável. Nunca m ais se esqueceria da sua últim a expressão, tão doce. E ali ficou, soluçando, agarrada à filha.

Pegaram um táxi para casa. Ao ver o quarto do filho, Isabelle voltou a chorar convulsivam ente. Teddy, tal com o o Principezinho de Saint-Exupéry, partira para o seu m undo, um m undo que nunca deveria ter deixado.

Isabelle preparou um a xícara de chá para Sophie, depois, com um a calm a im pressionante, telefonou a Gordon. Ele ficou perplexo quando ouviu a notícia, lim itando-se a dizer que voltaria para casa nessa noite. Não chorou nem lam entou o sucedido. Não disse praticam ente m ais nada e desligou. Isabelle ainda pensou em ligar para Bill, m as achou que não valia a pena, pois ele j á não estaria aguardando qualquer telefonem a seu. Além disso, não conhecia Teddy. Sentia que j á não tinha o direito de entrar em contato com ele nem de se introm eter na sua vida.

Nessa tarde, foram à funerária. Escolheram um caixão branco sim ples e Isabelle encom endou lírios e rosas brancas. Sabia que m ais ninguém iria ao funeral a não ser os pais, a irm ã e as enferm eiras. Teddy nunca fora à escola, não tinha am igos e Isabelle levara um a vida de reclusão durante anos. Aquelas eram as únicas pessoas que o conheciam e am avam . Não conseguia im aginar o que iria fazer sem o filho. Este fora não só a sua vida e o seu coração, m as tam bém a sua ocupação durante anos. Gordon chegou de Rom a ao fim da noite, com um ar som brio e desanim ado.

No dia seguinte, Gordon foi à casa funerária com Isabelle e Sophie. Isabelle pedira para que o caixão estivesse fechado. Não conseguia suportar ver o filho assim , em bora este m antivesse a m esm a beleza que exibira em vida. Gordon dera a conhecer que não queria ver o filho, o que Isabelle com preendia. Nunca fora capaz de tolerar a doença de Teddy e, em bora fosse seu pai, m al o conhecia. Evitara conhecê-lo durante toda a vida e agora era tarde dem ais.

Nessa noite, j antaram os três na sala de j antar. Enquanto Sophie e Gordon conversavam , Isabelle não proferiu qualquer palavra. Ninguém falou de Teddy. Era um tem a dem asiado doloroso. Depois de j antar, Isabelle foi até ao quarto de Teddy e deitou-se em cim a da cam a, aí ficando a pensar na vida de sofrim ento que o filho tivera. Teddy era com o um a borboleta que agora lhes fugia.

A cerim ônia fúnebre realizou-se na capela da igrej a que frequentavam , no dia seguinte. O elogio fúnebre foi feito por um padre que não conhecia Teddy e que nem sequer sabia pronunciar o seu nom e. Mas foi o percurso até o cem itério que quase destroçou Isabelle. Não conseguia suportar a idéia de o deixar ali, e só lhe apetecia atirar-se em cim a da urna. Antes de abandonar o cem itério, tocou um a centena de vezes no caixão e arrancou um a rosa branca para pôr entre as páginas de um livro. Tinha a sensação de estar afogando-se, ou sairndo de novo estado de com a. Mal conseguia respirar ou m exer-se. Todos os instantes eram insuportavelm ente dolorosos. Ao fim dessa tarde, quando entrou no quarto da m ulher, Gordon franziu o sobrolho ao olhar para ela, deitada na cam a, com ar cadavérico.

— Não sei o que se passa com você — disse, com um ar m ais aborrecido do que preocupado. Com eçava a detestar a presença de Isabelle. Esta andava sem pre com ar adoentado. — Acho que você é que devia ter sido enterrada em vez do Teddy. O que se passa com você?

— Acabei de perder o m eu filho. — Isabelle nem queria acreditar no que acabara de ouvir.

— Tam bém eu. Mas você está assim há dois m eses.

— Estou? Sinto m uito. — E virou-lhe o rosto. Não queria vê-lo, só desej ava que ele saísse do quarto.

— É penoso para a Sophie ver-te assim .

— Penoso é eu ter acabado de perder o m eu filho.

— Há anos que se esperava este desfecho, em bora eu saiba que sej a um choque, especialm ente depois daquilo por que o teu organism o passou o ano passado. — Gordon com eçava a acreditar que ela nunca se restabelecera com pletam ente. Isabelle estava chocada com a frieza e a com pleta falta de sentim entos que o m arido dem onstrava. Ninguém teria acreditado que Gordon acabara de perder o filho. Parecia m ais um a visita do que um m em bro da fam ília, nunca o pai da criança. Olhou para Isabelle, com ar de curiosidade, e fez-lhe um a pergunta estranha: — O que vai fazer agora?

— Relativam ente a quê? — Ao quarto dele? À vida dela? Às roupas dele? Isabelle não conseguia sequer pensar no assunto.

— Cuidar do Teddy foi a única coisa que você fez nos últim os quinze anos. Não pode enterrar-te com ele.

Porque não? — Mas Isabelle não chegou a articular as palavras. Com alguma sorte, pensou, iria morrer. Depois de perder Teddy e Bill, tinha m uito pouco que a agarrasse à vida, à exceção de Sophie. Mas Gordon deixou-a perplexa com o que disse a seguir:

— Acho que devia ir com a Sophie para Grenoble, quando ela voltar para as aulas, dentro de duas sem anas. Penso que seria um a excelente idéia. Precisa sair desta casa. Far-te-á bem ficar com ela. — O que Isabelle percebeu de im ediato foi que Gordon estava colocando-a para fora de casa para ficar m ais à vontade com Louise. Era um plano bem urdido e facilm ente explicado com a m orte de Teddy.

— Você está falando sério? — Isabelle quase soltou um a gargalhada ao olhar para a expressão que o m arido exibia. Extrem am ente solícito, m as, ao m esm o tem po, ansioso para que ela o deixasse. Devia estar aterrorizado com a hipótese de Isabelle tentar reclam ar o seu lugar de esposa, agora que j á não tinha Teddy para cuidar. — Que raio espera que eu faça lá? Estou certa de que a Sophie ficaria horrorizada, e com razão, por m e ter lá a servir de estorvo. — Era a últim a coisa que queria fazer.

— Bem , não pode andar vagueando aqui pela casa, sem nada para fazer — declarou Gordon, com ar aborrecido.

— É isso que pensa que faço? — Estava farta da vida de fingim ento que levavam há vários anos e não se sentia disposta a ser despachada de casa sob o pretexto de que devia estar com Sophie. Sabia m uito bem quais eram os intentos do m arido.

— Não faço a m ínim a idéia do que faz — disse Gordon, num tom desagradável, — a não ser cuidar daquela criança.

— “Aquela criança” era teu filho e agora está m orto. Tem um pouco de respeito. Por ele e por m im . — Era a prim eira vez que se atrevia a falar-lhe naquele tom . Gordon não gostou da observação.

— Isabelle, não m e diga com o é que hei de agir. Se bem se lem bra, tolerei um péssim o com portam ento da sua parte o ano passado, quando do acidente e não vou pactuar com m ais idiotices

— Sério? — perguntou Isabelle, com os olhos perigosam ente cintilantes. Gordon ultrapassara os lim ites do tolerável e, de im ediato, disparou: — E que péssim o com portam ento foi esse?

— Sabe m uito bem ao que m e refiro. Suportei o seu caso com o Bill Robinson. Teve sorte por não nos term os divorciado na época. — As arm as com eçavam a ser desem bainhadas. Mas, desta vez, depois da perda que sofrera, Isabelle j á não m ostrava qualquer m edo dele. Com a m orte de Teddy, Gordon perdera o controle sobre ela. Talvez para sem pre.

— E você tem m uita sorte em eu ter aguentado a form a com o m e tratou nos últim os vinte anos, j á para não falar no desprezo a que votaste ao seu filho nos últim os quinze. — Era um com bate m ortal. Não im aginara ter aquela conversa com Gordon tão cedo, m as estava pronta para a luta. Lem brou-se então de que Bill lhe dissera para usar as m unições só quando o m arido a atacasse. O que, finalm ente, acontecera. No dia do funeral de Teddy. Era um a crueldade e um desrespeito, m as não era surpresa para ela.

Gordon fitou-a durante alguns instantes, com o se quisesse esbofeteá-la, m as não se atreveu a tanto.

— Não estou para tolerar isto. Se não se portar com o deve ser, ainda te ponho no olho da rua, só com a roupa que você veste.

— Já não m e m ete m edo, Gordon. — Não tinha nada a perder. Já não precisava de cuidar de Teddy, nem receava que ele a expulsasse de casa. Seria um a bênção se ele o fizesse. — Já não m e m ete m edo.

— E para onde é que vai se te puser no olho da rua? — Indagou Gordon, colérico, cuspindo as palavras.

Isabelle, com ar sereno, fitou-o por instantes.

— Talvez você e a condessa de Ligne tenham a gentileza de m e deixar ficar no vosso apartam ento na Rue du Bac. Presum o que, se m e “puseres no olho da rua”, ela vai ficar aqui em casa. — Proferiu, num tom calm o, e Gordon não conseguiu conter um urro. Parecia um rugido de um leão ferido. Estava irado, e todo o seu corpo trem ia.

— Não sabe do que está falando! — Berrou, perplexo com aquilo que Isabelle acabara de dizer. Fora um golpe que não esperava e, por instantes, ficou algo com balido.

— Talvez não, m as, aparentem ente, m eia Paris sabe, há dez anos. Ela telefonou para cá, por engano, na véspera de Ano Novo. Julgo que estava bêbada, m as isso abriu-m e os olhos para aquilo que devia ter visto anos atrás. Por isso, não m e fale do Bill Robinson. É um a questão que não se põe.

— Ele ainda faz parte da sua vida. — Gordon estava espantado com o fato de Isabelle saber do seu caso com Louise e nunca ter lhe dito um a palavra sobre o assunto.

— Não, não faz. Mas a condessa j á deve ser um a parte integrante da sua vida. Presum o que esteve com você na Itália. — Gordon não adm itiu esse fato, m as a suposição de Isabelle estava correta. — Disseram -m e que só poderá casar com você quando o m arido m orrer. Deve ser difícil para você. E o que está pensando em fazer-m e nessa hora? Que outro plano tem , além de m e despachar para Grenoble?

— Você está louca! A m orte do teu filho deu-te volta à cabeça. Não estou para ouvir m ais disparates. — Gordon preparava-se para sair, não queria escutar m ais qualquer palavra.

— Não — retorquiu Isabelle, calm am ente. Estou de coração destroçado, não estou louca. Devo ter estado, para não ver aquilo que você andava fazendo ao longo destes anos todos. Nem sequer dorm ia em casa, e eu fui parva suficiente para não perceber, porque andava sem pre aterrorizando-m e. Bem , esses tem pos acabaram .

— Sai da m inha casa — berrou Gordon, a plenos pulm ões, o corpo trem endo de raiva.

— Eu saio, m as só quando estiver pronta. Entretanto, sugiro que vá para o pé dela.