O Beijo
Capítulo Oito
— É um a garota m aravilhosa. Já sei porque você tem tanto orgulho dela — disse, com o se Isabelle conseguisse ouvi-lo. E ali ficou, ansiando para que ela lhe estendesse a m ão e acordasse finalm ente daquele sono de m orte. Sentia-se cansado quando o levaram para o seu quarto. As frequentes visitas a Isabelle acabaram por provocar com entários entre a equipe de enferm agem . Encaravam -nas com o um gesto nobre da parte de Bill. Ninguém perguntava por que m otivo é que ele as fazia ou o que acontecera entre eles. Além disso, havia um a série de enferm eiras que acreditava que só Bill conseguiria trazê-la de volta à vida.
CAPÍTULO OITO
Sophie pensou bastante em Bill na viagem de volta a Paris e percebia por que razão a m ãe gostava daquele hom em . Parecera-lhe um a pessoa íntegra. Tinha m uita pena dele. Um a das enferm eiras dissera-lhe que ele nunca m ais voltaria a andar. Bill parecia encarar esse fato de form a filosófica. Estava destroçado por Isabelle ter sofrido o acidente ao sair com ele.
Quando o avião aterrissou, os pensam entos de Sophie centraram -se de novo na m ãe e no irm ão. Sentia-se dividida relativam ente ao lugar onde achava que devia ficar. Resolvera passar uns dias em casa e depois queria voltar a Londres.
Pegou um táxi no aeroporto. Quando chegou em casa, esta estava m ergulhada num estranho silêncio. Não se ouvia o m ínim o ruído. Quando subiu, reparou que os aposentos do pai se encontravam às escuras. Ao entrar no quarto de Teddy, ficou chocada com o estado de saúde do irm ão. Ardia em febre. O m édico acabara de sair, com o explicou a enferm eira, e dissera que, se a febre não baixasse nessa noite, teria de ser internado.
— O que aconteceu? — Sophie sentou-se num a cadeira, com ar esgotado. Tinha a sensação de ter envelhecido de um dia para o outro. Teddy nem sequer sabia que ela se encontrava ali. Estava sob o efeito de sedativos, num sono profundo.
— Julgo que está preocupado com a sua m ãe — sussurrou a enferm eira. — Há dias que não dorm e com o deve ser. E praticam ente não com e nem bebe. O m édico ainda adiantara a hipótese de dar-lhe soro, m as Teddy fez tal gritaria que o m édico achara por bem deixar isso para outra hora, se ele prom etesse com er e beber. — Sophie achava-o m ais m agro.
— Onde está o m eu pai, p— erguntou Sophie, passando as m ãos pelos cabelos, cada vez m ais parecida com Isabelle.
— Saiu — respondeu a enferm eira, sem m ais qualquer outro com entário. Não o via desde o dia anterior, m as não disse nada a Sophie. — Com o estava a sua m ãe?
— Na m esm a. Ninguém sabe o que acontecerá. Disseram que ela pode ficar em com a durante m uito tem po até conseguir se recuperar. — Mantinha a esperança, m as tam bém lhe haviam dito que a m ãe podia m orrer a qualquer m om ento. Só lhes restava rezar e esperar. — Volto lá dentro de dias.
A enferm eira m ediu novam ente a pulsação de Teddy. Estava elevada. Franziu o sobrolho e registrou o valor. Parecia não haver dúvidas de que iriam ser obrigados a hospitalizá-lo. Sophie concordou. Era o m ais seguro.
Nessa noite, esperou pelo pai, para discutirem o estado de saúde de Teddy. Ficou espantada por à m eia-noite ele ainda não ter chegado. Perguntou então à enferm eira se o pai sabia que Teddy se encontrava naquele estado.
— Falei com ele esta m anhã no escritório. Não deve tardar.
Porém , às três da m anhã, Sophie ainda estava acordada e ele ainda não chegara. Horas antes, j á telefonara para o hospital, m as ainda não havia qualquer evolução no estado da m ãe. Por instantes, esteve quase pedindo para falar com Bill, apenas para o cum prim entar, m as acabou por não o fazer, por constrangim ento.
Na m anhã seguinte, acordou ainda vestida e sentada num a cadeira do quarto de Teddy, com o vira tantas vezes a m ãe fazer. Não era sua intenção dorm ir ali. Estivera à espera do pai e acabara por adorm ecer. Pensou então que, provavelm ente, o pai tivera o cuidado de não a acordar, ou não sabia que estava à sua espera.
Quando saiu do quarto para ir à procura do pai, Teddy j á se encontrava acordado e com m elhor aspecto. A febre baixara, m as ainda não estava totalm ente bem . Foi, então, pelo corredor fora, para falar com o pai, e ficou espantada ao ver as portas do quarto abertas e ninguém lá dentro.
Foi ter com a criada, com um ar de espanto estam pado no rosto.
— O m eu pai dorm iu em casa, Josephine?
A m ulher fez um gesto negativo com a cabeça e desapareceu pelas escadas abaixo. Não era um a resposta adequada para dar a um a garota daquela idade. Mas Sophie conseguiu saber que o pai não passara a noite em casa. As persianas e os cortinados estavam corridos, as luzes apagadas e o quarto com aspecto de não ter tido a presença de ninguém durante a noite. A cam a estava feita e tudo no seu lugar. Por instantes, ficou em pânico. E se algum a coisa tivesse acontecido ao pai? Ficariam órfãos. Não conseguia im aginar onde é que ele poderia ter estado. Um a hora m ais tarde, telefonou para o escritório e a voz do pai m ostrava-se perfeitam ente calm a quando atendeu. Nem queria acreditar que o pai não passara a noite em casa com Teddy naquele estado. Achava um a irresponsabilidade da parte dele.
— O Teddy está doente — afirm ou Sophie, em tom de acusação, com o se a culpa fosse do pai. Gordon não pareceu m ostrar grande preocupação com o fato.
— Eu sei. Estive em contato com a Marthe ontem à tarde. O m édico foi vê-lo e j á falei com ele hoj e. — Não estava para receber lições de m oral de um a garota de dezoito anos.
— Não passou a noite em casa! — acrescentou Sophie, em tom som brio. Quase desatou a rir do tom de voz da filha, m as esta não estava achando graça nenhum a da situação.
— Sei disso. Estive em casa de am igos fora da cidade. Com o j á era tarde, achei m ais prudente ficar lá do que vir conduzindo até em casa.
Sophie desconfiava que o pai estivera bebendo e, dado o que acontecera à m ãe, tinha de concordar com o fato de ele não querer conduzir nesse estado.
— Acabei de telefonar para Londres e não há qualquer evolução.
— Oh! — O estado de espírito de Sophie esm oreceu com a notícia. Mas continuava aborrecida com o fato de o pai não ter passado a noite em casa. Se Teddy tivesse piorado ainda m ais, a presença dele poderia ter sido necessária. Além disso, ninguém sabia onde ele se encontrava. Mas não havia o m enor sinal de arrependim ento da parte dele, e Sophie deu consigo a perguntar se o pai passava a noite fora regularm ente. Nunca dera por isso. E não conseguia deixar de pensar se havia coisas relacionadas com os pais que ignorava, especialm ente desde que conhecera Bill. Achava estranho nunca ter ouvido falar da am izade da m ãe com ele. Além disso, nunca se aventurara a ir aos aposentos do pai à noite ou de m anhã, talvez houvesse outras horas em que tam bém passava as noites fora. Saía frequentem ente à noite, e a m ãe raram ente o acom panhava. Teve, de repente, a sensação de que toda a sua vida estava num autêntico turbilhão, não só por causa do que acontecera à m ãe, m as por causa de tudo o que trouxera à tona. Sem pre vira o pai com o um deus, e agora interrogava-se sobre se o pai não teria segredos. Talvez houvesse m ais m otivos do que apenas Teddy para a m ãe não sair de casa e dorm irem em quartos separados.
— Estará em casa logo à noite? — indagou Sophie, nervosa, sentindo-se m ais esposa do que filha e bastante insegura. Estavam passando coisas extrem am ente assustadoras.
— Claro. Vou j antar fora. Mas estarei em casa antes de você ir para a cam a.
— Se o Teddy precisar de ir para o hospital, é necessário que o papai estej a em casa.
— O m édico parece m enos preocupado. O Teddy sofreu um choque e agora precisa de tem po para se recuperar.
— Todos nós precisam os — retorquiu Sophie, num tom triste. — Quando é que volta a Londres?
— Dentro de poucos dias. Não há nada que possam os fazer lá. Telefonarão se houver novidades.
Porém , se a m ãe m orresse, pensou Sophie, ninguém estaria ao pé dela. E se algum a outra coisa acontecesse, ir de Paris a Londres levaria ainda algum as horas. Tinha vontade de estar lá, m as Teddy tam bém precisava da presença dela. E agora que constatara que, de vez em quando, o pai passava a noite fora, sentia que não podia deixá-lo sozinho. Era difícil decidir qual era a m elhor coisa a fazer. O pai parecia m uito m enos preocupado do que ela.
Gordon foi então para um a reunião, e Sophie passou o dia com o irm ão lendo e contando-lhe histórias, e falando-lhe da m ãe. Fazia o m elhor que podia, m as não conseguia substituir a m ãe. Depois do j antar, quando o pai chegou em casa, Sophie parecia um a som bra do que era. Ele, porém , estava bem disposto. Sentou-se na biblioteca fum ando um charuto. Sophie ouvira-o entrar e foi ter com ele. Ficou surpreendida com o fato de o pai não ter sequer ido ao andar de cim a. Fora sem pre tão afável e tão interessado por tudo o que lhe dizia respeito que achava estranho o distanciam ento com que a tratava ultim am ente, sobretudo com a m ãe no estado em que se encontrava. De repente, ao olhar para o pai, perguntou a si própria se o anterior interesse dele por ela não seria só aparente, talvez um a form a de aborrecer a m ulher, para a fazer sentir m enos im portante em relação à filha. Sophie fora sem pre tratada com o “a sua pequerrucha” Mas m ostrara-se constantem ente frio e distante com a m ãe, tal com o fazia agora com ela.
— Que tal foi o seu dia, papai? — Indagou Sophie, cautelosa. O dela fora horrível, dividida entre a preocupação com a m ãe e a necessidade de dar carinho a um irm ão doente.
— Muito longo. Com o foi o seu?
— Fiquei o dia todo com o Teddy. — Sophie esperava que o pai fizesse m ais perguntas sobre o assunto, m as, quando referiu o nom e do irm ão, ficou instantaneam ente aborrecido eencheu um cálice de vinho do Porto.
— O que m ais fez? — perguntou Gordon, concentrado no charuto.
Sophie achava estranho estar ali sentada conversando com o pai com o se nada tivesse acontecido. A m ãe em com a num hospital de Londres, o irm ão com um a recaída desde que recebera a notícia E o pai parecia pouco preocupado com esses fatos. Ao olhar para ele, lem brou-se do ar destroçado de Bill Robinson quando lhe falou da m ãe. Não viu nada disso no olhar do pai. Este parecia sem pre distante e frio de todas as vezes que se referia à m ulher.
— Mais nada, papai. Fiquei com o Teddy. Está m uito abalado.
Gordon fez um gesto de concordância com a cabeça e não retorquiu. Dava a sensação de praticam ente ter se esquecido de quem ela era. Entretanto, o telefone tocou. Gordon atendeu e disse que ligaria em seguida. O coração de Sophie quase parou quando soou a cam painha do telefone. Sem pre que este tocava, ficava aterrorizada com a hipótese de o telefonem a ser de Londres a inform ar o pior.
— Devia ir para a cam a — disse Gordon, enquanto bebia o vinho do porto. — Teve um longo dia. — Era óbvio que não queria falar, e Sophie ficou m agoada. Nunca se sentira tão só na vida.
— Quando é que volta a Londres?
— Quando achar que devo ir — ripostou Gordon, franzindo o sobrolho. Sophie estava irritando-o. Transform ara-se na m ãe de um dia para o outro.
— Tam bém quero ir — retorquiu Sophie, percebendo que o pai não estava contente com ela, m as pouco lhe im portando esse fato.
— O seu irm ão precisa de você aqui.
— Quero ver a m am ãe outra vez — insistiu Sophie, e Gordon com eçou a ficar irritado com essa obstinação da parte da filha.
— Ela nem sequer dará conta de que você está ao pé dela. Preciso de você aqui. Não posso passar o dia preocupado com esse garoto e as enferm eiras. Durante todo o dia, telefonam -m e para o escritório, e não tenho tem po para isso. Você tem de cuidar dele. — Não se tratava de um pedido, m as de um a ordem .