O Beijo

Danielle Steel · Capítulo 2 de 17

Páginas do PDF

O Beijo

Capítulo um

 

Isabelle Forrester contem plava o j ardim da j anela do seu quarto, na casa da Rue de Crenelle, no Sétim o Bairro de Paris, onde, na com panhia de Gordon, vivera os últim os vinte anos. Os dois filhos tam bém aí haviam nascido. Erigido no século XVII, o edifício possuía im ponentes portas em bronze que davam para o pátio interior. A casa em si fora construída em form a de U à volta do pátio. Os tetos eram altos, as m adeiras e as cornij as de um a grande beleza, e os soalhos em parqué, da cor de conhaque. Tudo resplandecia e se encontrava tratado com esm ero e cuidado. Isabelle dirigia a casa com m aestria, rigor e m ão firm e m as dócil. O j ardim era cultivado com apurado desvelo. As rosas brancas que plantara anos antes eram consideradas as m ais bonitas de Paris. A casa estava recheada de antiguidades que ela e Gordon haviam com prado, ao longo dos anos, em Paris e nas várias viagens realizadas. Muitas delas tinham pertencido aos pais.

Tudo na casa reluzia: a m adeira encerada, as pratas areadas, os castiçais de cristal nas paredes que refletiam o sol de j unho que entrava por entre as cortinas. Isabelle desviou o olhar do roseiral e soltou um suspiro. Estava destroçada por ter de deixar Paris nessa tarde. As oportunidades para ir onde quer que fosse eram raras. E agora que o ensej o surgia via-se consum ida por um profundo sentim ento de culpa, por causa de Teddy.

A filha, Sophie, partira para Portugal com uns am igos, no dia anterior. Tinha dezoito anos e ia entrar na universidade no outono. Era o filho, Theodore, que a prendia à casa há catorze anos. Nascera de seis m eses, com graves problem as de saúde: os pulm ões ainda não se encontravam perfeitam ente desenvolvidos, fato que provocou o enfraquecim ento do coração. Nunca fora à escola, sendo acom panhado por um tutor. Vivera acam ado a m aior parte da vida, deslocando-se pela casa num a cadeira de rodas sem pre que se sentia dem asiado fraco para o fazer pelos próprios m eios. Se o tem po estava bom , Isabelle levava-o até o j ardim . Tinha um senso de hum or extraordinário. Quando a m ãe entrava no quarto, recebia-a sem pre com um a frase espirituosa. Não havia palavras para descrever a forte ligação que existia entre am bos, forj ada nos inúm eros m om entos de pavor partilhados lado a lado. Por vezes, dava a sensação de que eram um a só pessoa. Isabelle incutia-lhe ânim o, conversava com ele durante horas, lia-lhe livros, aconchegava-o nos braços quando ele nem sequer tinha forças para falar, e fazia-o sem pre que podia. Teddy lem brava-lhe um passarinho indefeso de asas partidas

Isabelle e Gordon j á haviam falado com os m édicos acerca da possibilidade de o levar aos Estados Unidos para fazer o transplante do coração e dos pulm ões, m as eles achavam que Teddy se encontrava dem asiado debilitado para resistir quer à operação quer à viagem . Perante estas hipóteses, nunca iriam pôr a vida dele em perigo. Assim , o m undo de Theodore estava confinado à m ãe, à irm ã e aos lim ites da casa. O pai sem pre sentira um grande constrangim ento face à doença do filho. Teddy tivera enferm eiras durante toda a vida, m as era a m ãe que cuidava dele a m aior parte do tem po. Há m uito que esta abandonara os am igos e deixara de ter vida própria. Nos últim os anos, as únicas escapadelas até ao m undo propriam ente dito aconteciam à noite, com Gordon, e, m esm o assim , m uito raram ente. A sua m issão na vida era m anter Teddy vivo e feliz.

A m ais prej udicada no m eio de tudo isto era Sophie, a quem não dedicavam o m esm o tem po e a m esm a atenção que o irm ão recebia, m as parecia com preender a situação, e Isabelle era sem pre afetuosa com ela. Teddy era a prioridade. A sua vida dependia disso. Nos últim os quatro m eses, desde o princípio da prim avera, o estado de saúde de Theodore m elhorara, o que perm itia que a m ãe realizasse aquela viagem a Londres, por sugestão de Bill Robinson.

Isabelle e Bill haviam se conhecido quatro anos antes, num a recepção dada pelo em baixador am ericano na França, que andara com Gordon em Princeton. Bill seguira a carreira política e era considerado um dos hom ens m ais poderosos e talvez o m ais rico em Washington. Gordon contara-lhe que William Robinson é que pusera o últim o presidente na Sala Oval. Herdara um a incom ensurável fortuna e desde m uito novo se sentira atraído pela política e pelo poder. No entanto, preferia trabalhar nos bastidores. Quando se conheceram , Isabelle ficou im pressionada com a serenidade e a m odéstia por ele patenteadas. Era um a pessoa com um ar incrivelm ente j ovem e um perspicaz senso de hum or. Isabelle ficara sentada a seu lado no j antar e adorara a sua com panhia. Na sem ana seguinte, ficou surpreendida e agradada quando ele lhe escreveu e enviou um livro de arte raro de que haviam falado e do qual ela andava à procura há m uito tem po. Bill dera-se ao trabalho de encontrá-lo e de lhe m andar. Arte e livros raros eram a sua paixão.

Haviam tido um a longa conversa sobre um a série de quadros descobertos na época, na Holanda, e que tinham sido levados pelos nazis durante a guerra. A conversa conduziu-os até às falsificações, aos roubos e, por fim , à restauração de obras de arte, que era o que Isabelle fazia quando conhecera Gordon. Fora estagiária no Louvre e, na época em que cessou a atividade, quando Sophie nasceu, era perita no assunto.

Bill ficara fascinado com as histórias de Isabelle, da m esm a form a que ela se m ostrara com as dele. Nos m eses seguintes, um a estranha m as reconfortante am izade foi se criando entre eles, através de telefonem as e cartas que trocavam . Entretanto, Isabelle m andara-lhe alguns livros de arte considerados raridades. Quando Bill voltou a Paris, telefonou-lhe e convidou-a para alm oçar. Ela ainda hesitou, m as não resistiu. Era um a daquelas raras ocasiões em que deixava Theodore à hora do alm oço.

A am izade com eçara quatro anos antes, quando Teddy tinha apenas dez. A relação fora-se solidificando ao longo do tem po. De quando em quando, Bill telefonava-lhe fora de hora, quando ficava trabalhando até tarde. Isabelle dissera-lhe que se levantava todos os dias às cinco da m anhã para tratar de Teddy. Bill j á lhe perguntara se Gordon punha algum a obj eção ao fato de lhe telefonar. No entanto, ela nunca referira esse fato ao m arido. A am izade de Bill tornara-se o seu tesouro secreto, que guardava só para si.

— Por que razão haveria de pôr? — Perguntara Isabelle, algo surpresa com a pergunta. Não queria desencoraj á-lo a telefonar. Adorava conversar com ele. Tinham m uitos interesses em com um . Bill tornara-se, de algum a form a, o seu único contato efetivo com o m undo exterior. Os próprios am igos haviam deixado de lhe telefonar. Com o passava os dias e as noites cuidando de Teddy, ia tendo cada vez m enos tem po para eles. Mas, fosse com o fosse, receava que Gordon pusesse obj eções aos telefonem as de Bill. Falara-lhe dos prim eiros livros de arte que este lhe enviara. Gordon ficara um pouco perplexo, m as não em itira qualquer com entário, nem m ostrara um interesse particular pelo fato. Isabelle não fizera nenhum a referência aos telefonem as. Apesar de inocentes, teriam sido m ais difíceis de explicar. As coisas que diziam um ao outro nunca eram pessoais, nem inconvenientes, nem versavam assuntos das respectivas vidas particulares E raram ente faziam qualquer tipo de referência aos cônj uges. Bill era sim plesm ente um a voz am iga que chegava, de repente, ao dealbar da aurora. Além disso, com o o telefone costum ava ficar desligado no quarto durante a noite, Gordon nunca os ouvia conversando. No fundo, receava que o m arido levantasse obj eções aos telefonem as, e era por isso que nunca fizera qualquer com entário acerca deles. Não estava disposta a perder a dádiva que constituíam os telefonem as e a am izade de Bill.

Ao princípio, os telefonem as eram esporádicos, depois, a pouco e pouco, foram se tornando m ais frequentes. Voltaram a alm oçar um ano depois de terem se conhecido. Noutra ocasião, quando Gordon estava fora, Bill levou-a a j antar a um restaurante perto do local onde m orava, e ficou espantada quando, ao chegar em casa, reparou que j á passava da m eia-noite. Sentia-se com o um a flor m urcha absorvendo o sol e a chuva. As coisas de que falavam saciavam -lhe a alm a. Os telefonem as e as raras visitas davam -lhe m ais força para viver.

À exceção dos filhos, Isabelle não tinha m ais ninguém com quem falar Gordon era diretor do m aior banco am ericano de investim ento em Paris há vários anos. Tinha cinquenta e oito, e dezessete a m ais que Isabelle. Com o correr do tem po, estavam cada vez m ais afastados um do outro. Isabelle tinha consciência dessa realidade e achava que isso se devia a Teddy. Gordon não conseguia suportar a aura de constante doença que pairava sobre a criança, com o a lâm ina de um a guilhotina que podia cair a qualquer m om ento. Nunca se perm itira um a ligação m ais íntim a com o filho. A aversão à doença deste era desm edida, quase um a fobia. O próprio Teddy sentia isso, ao ponto de, quando era m ais novo, pensar que o pai o detestava. No entanto, à m edida que crescia, ia encarando as coisas de m odo diferente. Aos dez anos, percebeu que o pai vivia aterrorizado com a sua doença, praticam ente em pânico, e a única form a de fugir a essa realidade era ignorar o filho por com pleto, fingindo que não existia. Teddy nunca m ostrara qualquer tipo de ressentim ento contra o pai. Costum ava abordar abertam ente o assunto com a m ãe, com ar triste, com o se falasse de um país que gostaria de visitar, sabendo que isso nunca viria a acontecer. Filho e pai eram com o estranhos.

Gordon evitava Teddy e concentrava as energias no trabalho, afastando-se o m ais possível da vida de casa, e particularm ente da esposa. O único elem ento da fam ília de quem parecia estar um pouco m ais próxim o era Sophie. Tinham j eito m uito parecido. Partilhavam os m esm os pontos de vista em m uitas m atérias, além de um a certa frieza com que encaravam tudo aquilo que os rodeava. No caso de Gordon, esta característica especial nascera dos anos de afastam ento em relação à faceta em ocional da vida, que considerava um a m anipulação de fraqueza e pela qual não sentia qualquer tipo de atração.

No caso de Sophie, herdara-a do pai. Já em pequena, era m uito m enos carinhosa do que o irm ão, e preferia não pedir aj uda a ninguém , especialm ente à m ãe, optando por fazer tudo sozinha. A frieza nela era m ais um a questão de independência, de orgulho. Isabelle chegara a questionar-se se isso não seria um a reação instintiva ao fato de o irm ão ocupar a m aior parte do tem po da m ãe. A fim de evitar a sensação de estar recebendo m enos do que aquilo a que teria direito, convencera-se de que não precisava de nada nem de ninguém , fechando-se no seu pequeno m undo. Praticam ente não partilhava qualquer confidência com a m ãe e evitava, sem pre que possível, falar dos seus sentim entos. Confiava m ais nos am igos do que na m ãe. Isabelle alim entara sem pre a esperança de encontrarem um ponto de entendim ento e de se tornarem am igas. Porém , até ao m om ento, a relação com a única filha não fora fácil.

Por outro lado, a frieza de Gordon relativam ente à m ulher era m uito m ais extrem a. O aparente distanciam ento de Sophie perante a m ãe podia ser interpretado com o um a form a de m ostrar que conseguia andar pelo seu próprio pé, ao contrário do irm ão, que necessitava de aj uda constante, e tam bém para provar que não precisava do tem po e da energia que a m ãe não tinha para lhe dar. A doença de Teddy não perm itia. No caso de Gordon, essa frieza parecia estar enraizada em algo m uito m ais profundo. Por vezes, dava a sensação de que culpava Isabelle por ter dado à luz um filho deficiente. Gordon tinha um a visão desapaixonada da vida, e geralm ente observava-a à distância, com o se quisesse assistir ao j ogo m as não quisesse entrar nele, ao contrário de Teddy e Isabelle, que viviam apaixonadam ente todas as suas experiências, e expressavam -na.

A cham a que am bos partilhavam era o que m antinha Teddy vivo ao longo de um a vida de sofrim ento. A devoção que Isabelle nutria pelo filho há m uito que a afastara de Gordon. Do ponto de vista em ocional, este deixara de fazer parte da sua vida pouco depois do nascim ento de Teddy.

Anos antes de conhecer Bill, Gordon m udara-se para outro quarto. Na época, desculpara-se com o fato de ela se deitar tardíssim o e se levantar m uito cedo. Mas Isabelle sentira que havia algo m ais nesse ato. Não querendo piorar as coisas entre eles nem enfrentá-lo, nunca se atrevera a por o fato em questão. Mas há m uito que sentia que a afeição por ela estava dim inuindo, acabando por desaparecer. Isabelle nem sequer se lem brava da últim a vez que haviam se tocado, beij ado ou feito am or. Tratava-se de um a circunstância da vida, que aceitava. Aprendera a viver sem o am or do m arido. Desconfiava que ele a culpava pela doença do filho, em bora os m édicos asseverassem que as enferm idades e nascim ento prem aturo deste não lhe podiam ser im putados. Nunca discutira o assunto com Gordon, nem se defendera das acusações que, sabia, ele lhe fazia em silêncio.

Para Gordon, Isabelle lem brava-lhe a doença do filho. Da m esm a form a que o rej eitara quando nascera, horrorizado com a série de deficiências de que era vítim a, acabara por a rej eitar a ela tam bém , erguendo um m uro entre am bos, para apagar as detestáveis im agens de doença. Nunca conseguira tolerar aquilo que, desde criança, classificava com o um a fraqueza da espécie hum ana. Isabelle desistira de tentar escalar esse m uro, apesar de, ao princípio, o ter feito. As diligências para um a aproxim ação que encetara após o nascim ento de Teddy haviam -se revelado infrutíferas. Gordon resistira a todos os esforços de Isabelle, que acabou por aceitar o enorm e abism o que se cavara entre am bos com o algo natural.

Gordon sem pre fora, por natureza, um a pessoa fria e pragm ática, tanto no trabalho com o em todos os outros aspectos da vida. Mesm o assim , ao princípio, ainda se m ostrara carinhoso com Isabelle, que encarara a frieza do m arido com o um desafio. Cada sorriso ganho, cada gesto um pouco m ais caloroso era com o que um a vitória para si, pois Gordon não m ostrava qualquer tipo de afabilidade com qualquer outra pessoa. Aos olhos de Isabelle, parecia ser um hom em de extrem a com petência e grande poder, com perfeito controle de todos os aspectos do seu m undo.

Quando se conheceram , havia m uitos aspectos em Isabelle que o atraíam e que lhe garantiam que ela seria a esposa perfeita: a linhagem aristocrática, o nom e e os influentes contatos que possuía, e que haviam sido de extrem a im portância para a consolidação do banco. A fortuna da fam ília de Isabelle evaporara-se anos antes, m as a sua im portância nos círculos sociais e políticos m antivera-se. Ao casar com ela, Gordon elevara substancialm ente o seu status social, que era um fator de prim ordial im portância para ele. Isabelle fora a peça perfeita para m elhorar não só a sua posição social com o a sua carreira profissional. Mas não fora só a linhagem que o atraíra; o ar inocente que ela exibia tam bém conseguira am olecer ligeiram ente o seu coração.

Poucos hom ens teriam sido capazes de resistir ao ar doce de Isabelle. Era um a j ovem sim pática, sem a m ínim a ponta de m alícia. O estilo altivo e a m aneira atenciosa e requintada com que Gordon a cortej ara haviam -na cativado, ao ponto de o considerar um a espécie de herói. A inteligência, o poder e a fam a do banqueiro tam bém a tinham fascinado. Gordon, por sua vez, aproveitou da m elhor form a a vantagem de ter dezessete anos a m ais do que ela para a seduzir com palavras doces, m as sensatas. Até a fam ília de Isabelle ficou entusiasm ada quando a pediu em casam ento. Para eles, não havia a m enor dúvida de que Gordon seria um m arido perfeito que cuidaria dela com extrem o zelo. Apesar de ser um a pessoa intransigente na vida profissional, m ostrava-se extrem am ente dócil com ela, o que veio a revelar-se ser sol de pouca dura.

Quando conheceu Bill Robinson, Isabelle era um a m ulher só, m ergulhada num a vida de inusitado isolam ento, em constante vigília j unto ao filho enferm o e com um m arido que raram ente lhe falava. A voz de Bill era, por vezes, o único contato que tinha com um adulto durante todo o dia, para além do m édico e da enferm eira de Teddy. Bill parecia ser a única pessoa no m undo que estava genuinam ente preocupada com ela. Era raro Gordon perguntar-lhe com o se sentia. Na m elhor das hipóteses, se pressionado, dizia-lhe que ia j antar fora ou que partia de viagem na m anhã seguinte. Deixara de partilhar a sua vida com ela. E as breves conversas que tinham só reforçavam a idéia de que Isabelle fora votada ao desprezo. Por outro lado, as horas que esta passava falando com Bill eram com o j anelas abertas para um m undo m ais tolerante e m ais rico, lufadas de ar fresco que vinham dar algum a alegria às suas noites som brias. Ao longo dos anos, fora Bill que se tornara o seu m elhor am igo. Gordon não passava de um estranho.

Num a das suas conversas pela m adrugada, no segundo ano de relacionam ento entre am bos, Isabelle tentara explicar isso m esm o a Bill. O estado de saúde de Teddy piorara nas sem anas anteriores, o que a deixara extrem am ente abatida e vulnerável. Além disso, encontrava-se deprim ida com a frieza que Gordon dem onstrara na noite anterior, ao dizer-lhe que ela estava perdendo tem po tratando do filho, que todos m undo via que este não tardaria a m orrer, e que o m elhor que fazia era aceitar essa realidade. A m orte do pequeno seria um alívio para todos. E foi com a voz em bargada e os olhos m arej ados de lágrim as que, nessa m anhã, Isabelle repetiu essas palavras a Bill, que ficou horrorizado com a frieza e a crueldade de Gordon.

— Acho que o Gordon está ressentido com igo por passar a m aior parte do tem po tratando do Teddy. Devia dar-lhe m ais atenção.

Há m uito que Gordon a convencera de que falhara enquanto esposa. Bill não conseguia aceitar que Isabelle reconhecesse que Gordon tinha razão.

— Nessas circunstâncias, acho razoável que o Teddy deva ser a sua prim eira prioridade.

Há m eses que Bill andava sondando m édicos, na esperança de descobrir a cura m ilagrosa para Teddy. Mas estes haviam -no desencoraj ado. De acordo com Isabelle, o filho sofria de um a doença degenerativa que estava atacando-lhe o coração, os pulm ões funcionavam com deficiência e todo o organism o estava deteriorando-se lentam ente. Era consenso geral que seria um m ilagre se a criança conseguisse ultrapassar a barreira dos vinte anos. Bill ficava de coração destroçado só de saber o que Isabelle sofria e o que um dia teria de enfrentar.

Nos anos seguintes, a am izade entre am bos foi se solidificando. Continuavam conversando frequentem ente ao telefone, e Isabelle escrevia-lhe longas cartas filosóficas, especialm ente nas noites que passava acordada, à cabeceira de Teddy. Este tornara-se o centro da sua vida, e não só a afastara de Gordon m as tam bém de Sophie, que j á censurara a m ãe em m ais de um a ocasião, acusando-a de só querer saber do irm ão. Assim , Bill era a única pessoa com quem Isabelle podia desabafar, nas longas conversas no m eio da noite.

Os m om entos que partilhavam ultrapassavam as suas realidades diárias, e até Bill se sentia m uito m ais aliviado das pressões da arena política quando falava com Isabelle. Esta, por sua vez, sentia-se transportar até um tem po e um espaço em que Teddy não se encontrava doente, Gordon não a rej eitara e Sophie nunca estava zangada consigo. Era com o ser levada até àquele tipo de vida por que tanto ansiara. Bill apresentava-lhe um a nova visão do m undo. Falava-lhe da sua própria vida, das pessoas que conhecia, dos am igos e, um a vez por outra, da esposa e das duas filhas, que j á estavam na faculdade.

Casara aos vinte e dois anos e, trinta anos depois, o casam ento era só aparência. Cindy, a esposa, detestava o m undo da política, as pessoas que Bill conhecia, as coisas que ele tinha que fazer, os eventos a que eram obrigados a ir e o fato de ele passar a m aior parte do tem po em viagens. Tinha um total desprezo pelos políticos. Assim com o por Bill, por ter devotado um a vida inteira à política.

Agora que as filhas estavam na faculdade, os am igos no Connecticut, as festas e o tênis eram os únicos interesses de Cindy. E se Bill fazia ou não parte daquela vida, pouco lhe im portava. Há anos que deixara de sentir o que quer que fosse por ele. Levava a sua própria existência, tratando-o sem pre com algum azedum e. Passara trinta anos ao lado dele, andando de um lado para o outro e colocando os afazeres políticos à frente de tudo aquilo que tinha im portância para si. Bill nunca se encontrava em casa na época das férias e dos aniversários. Estava sem pre num lugar qualquer, preparando um candidato para um escrutínio partidário ou para as eleições. Nos últim os quatro anos, fora visita assídua da Casa Branca. Mas esse fato j á não a im pressionava, e tinha um prazer im enso em dizer-lhe que a vida política sem pre a entediara. Já não sentia o que quer que fosse pelo m arido. Fizera um lifting facial no ano anterior. Bill sabia que ela tivera um a série de rom ances discretos durante anos. Fora a sua vingança por um a indiscrição esporádica que ele tivera com a esposa de um congressista, dez anos antes. Cindy nunca lhe perdoara tal ato.

Ao contrário de Isabelle e Gordon, Bill e Cindy ainda partilhavam o quarto, m as apenas por um a questão de com odism o. Há anos que não faziam am or. Cindy dava a sensação de ter orgulho do fato de j á não sentir qualquer atração sexual pelo m arido. Mantinha praticam ente a m esm a beleza de quando casara com Bill, trinta anos antes: um a silhueta elegante, a pele bronzeada e os cabelos, com o correr dos anos, haviam ficado m ais loiros. Os m uros que ela erguera entre eles encontravam -se de tal m odo elevados que a Bill nem sequer lhe passava pela cabeça escalá-los.

Preferia centrar as energias no trabalho, e falava com Isabelle quando precisava de um om bro am igo para desabafar. Era a Isabelle que adm itia que estava cansado ou desanim ado. Esta nunca se escusava a escutá-lo. E sem pre com um a docilidade que nunca encontrara na esposa. Cindy atraíra-o com o seu espírito vivo, a sua beleza e energia, o seu senso de hum or e o ar travesso. Quando j ovens, era divertido estar na sua com panhia, m as agora questionava-se se ela sentiria a sua falta se, por acaso, desaparecesse da face da Terra. E até as próprias filhas, quando vinham para casa, o tratavam com indiferença. Ninguém parecia im portar-se com o fato de ele estar ou não em casa. Quando chegava de um a viagem , era tratado com o um a visita inesperada, um estranho, um apátrida, um desenraizado. Nunca dissera a Isabelle que a am ava, nem esta a ele, apesar da grande devoção e adm iração que nutriam um pelo outro.

Ao longo dos anos, os sentim entos que Bill e Isabelle expressavam m utuam ente sem pre foram entendidos com o sim ples am izade. Nunca nenhum deles adm itira um ao outro, ou a si próprios, que havia m ais do que sim ples adm iração e prazer nas longas horas de conversa. Mas há anos que Bill reparava que, quando as cartas de Isabelle não chegavam , ficava preocupado. E quando ela não podia atender o telefone, porque se encontrava tratando de Teddy ou porque fora a algum lugar com Gordon, sentia im ensas saudades. Com o nunca im aginara. Ela j á fazia parte da sua vida. Era alguém em quem podia confiar. Com Isabelle acontecia a m esm a coisa. Bill era a única pessoa, além do filho de catorze anos, com quem falava. Com Gordon nunca conseguira ter conversas com o tinha com Bill.

Gordon era um a pessoa m ais ao estilo inglês. Apesar dos pais serem am ericanos, fora criado em Inglaterra. Andou em Eton, depois foi para os Estados Unidos, para a Universidade de Princeton. Mas, m al se form ou, voltou para Inglaterra, de onde se m udou para Paris, para ir trabalhar no banco. Independentem ente das origens, tinha um feitio m uito m ais britânico do que am ericano.

Conhecera Isabelle na casa de Verão do avô desta, no condado de Ham pshire. Ela tinha vinte anos, ele quase quarenta. Apesar de ao longo da sua vida ter se cruzado com um a série de m ulheres interessantes, nunca achara nenhum a delas m erecedora de se tornar sua esposa. A m ãe de Isabelle era inglesa e o pai, francês. Isabelle vivera em Paris durante toda a sua vida, m as costum ava ir a Inglaterra no Verão, a fim de visitar os avós m aternos. Falava inglês im pecavelm ente. Era um a garota de um a beleza deslum brante, charm osa, inteligente e de grande discrição. A afabilidade, a vivacidade e a silhueta digna de um elfo cativaram Gordon desde o m om ento em que se conheceram . Pela prim eira vez na vida, este convenceu-se que estava apaixonado. Além disso, as potenciais oportunidades sociais que essa aliança lhe proporcionariam eram irresistivelm ente apelativas. Gordon vinha de um a fam ília respeitável, m as não tão ilustre com o a de Isabelle. A m ãe desta pertencia a um a im portante fam ília de banqueiros, parente afastada da rainha e o pai era um distinto estadista francês. Isabelle constituía, em sum a, um bom partido. Era de fina linhagem , e o seu ar tím ido, dócil e despretensioso ligavam na perfeição com o m odo de ser de Gordon. A m ãe de Isabelle m orrera antes de os dois se conhecerem . O pai ficou im pressionado com Gordon e não teve qualquer pej o em aprovar o noivado. Achava que Gordon seria o m arido perfeito para Isabelle.

Casaram ao fim de um ano. Mas Gordon frisou, desde o princípio, que ele é que tom aria todas as decisões E foi isso m esm o que Isabelle sem pre esperou dele. Gordon é que determ inava com que pessoas se relacionariam e onde viveriam . Até a casa da Rue de Crenelle fora da sua escolha. Com prou-a antes sequer de Isabelle a ver. Nessa época j á se encontrava à com andando o banco e num a posição social invej ável, sobretudo devido ao casam ento com Isabelle, à qual proporcionava um a vida de absoluto recato. Só ao fim de algum tem po é que esta com eçou a dar-se conta das restrições que o m arido lhe im punha.

Gordon é que dizia com quem Isabelle podia ou não relacionar-se. Além disso, exigia que ela recebesse condignam ente os convidados do banco. Com o era um a pessoa hábil, extrem am ente organizada e sem pre disposta a seguir as diretivas do m arido, Isabelle não sentiu qualquer dificuldade em adaptar-se a essas funções. Só m ais tarde, depois de Gordon elim inar um a série de pessoas de quem ela gostava do seu círculo social, é que com eçou a achar que o m arido, por vezes, era inj usto. Gordon afirm ara, em term os vagos, que essas pessoas não m ereciam a sua am izade.

Isabelle era um a j ovem extrem am ente aberta, desej osa de conhecer novas pessoas e aproveitar as oportunidades que a vida pudesse lhe proporcionar. Fora estudante de belas-artes, e, quando casou, resolveu trabalhar com o estagiária de restauração no Louvre, apesar dos protestos de Gordon. Era o único local onde era independente. Adorou o trabalho e as pessoas que conheceu. Gordon achava a ocupação própria de boêm ios e insistiu para que ela a deixasse quando engravidou de Sophie. Depois desta nascer, apesar dos prazeres da m aternidade, Isabelle sentiu im ensas saudades do m useu e dos desafios e com pensações que este lhe proporcionava. Mas Gordon não voltaria a ouvir falar do seu regresso ao trabalho depois do nascim ento da filha, e Isabelle não tardou a voltar a engravidar; dessa vez, porém , perdeu o bebê. A recuperação foi longa e passou a ter dificuldades em engravidar. Quando conseguiu ficar grávida de Teddy, passou um a fase com plicada, que resultou no nascim ento prem aturo do filho, com todas as preocupações que daí advieram .

Foi a partir desse m om ento que com eçou o seu afastam ento de Gordon, que andava atarefadíssim o no banco. Agora, com um filho com graves problem as de saúde em casa, Isabelle pouco tem po podia dispensar aos deveres dom ésticos e sociais, fato que irritava Gordon. Na verdade, nesses prim eiros anos da vida de Teddy, Isabelle praticam ente não conseguia arranj ar tem po para ele e para Sophie. Por vezes, tinha a sensação de estarem am bos contra si, o que considerava um a trem enda inj ustiça. Toda a sua vida girava em torno do filho. Nunca saía de perto de Teddy, apesar das enferm eiras que haviam contratado para cuidar dele. Infelizm ente, nessa época, os seus pais j á haviam falecido. Não tinha ninguém do seu lado. Gordon não queria ouvir falar dos problem as de Teddy nem das derrotas e vitórias clínicas do filho. Detestava falar no assunto e, com o que para a castigar, deixou de ter qualquer tipo de relação m ais íntim a com ela no âm bito do casam ento. Tudo levava a crer que j á não a am ava. No entanto, Isabelle não tinha qualquer prova concreta disso. Gordon nunca am eaçou deixá-la, pelo m enos fisicam ente. Mas ela vivia sem pre com a sensação de que o m arido a pusera à m argem .

Depois de Teddy, não tiveram m ais filhos. Gordon não queria, e Isabelle não tinha tem po. Dava tudo o que possuía ao filho. Gordon, por seu turno, continuava a transm itir-lhe, explícita ou im plicitam ente, que ela se esquecera dele. Com o se fosse ela a culpada da doença de Teddy. Não havia nada no filho de que Gordon se orgulhasse: os dotes artísticos, a sensibilidade, a perspicácia e o senso de hum or. Além disso, as sem elhanças de Teddy com Isabelle pareciam irritar Gordon ainda m ais. Por ela sentia apenas desprezo e um a profunda e silenciosa raiva que nunca expressava em palavras.

Só anos m ais tarde Isabelle soube, depois de um a prim a de Gordon lhe contar, que este tivera um irm ão m ais novo que sofria de um a doença incapacitante e que m orrera com nove anos. Gordon nunca referira esse fato a ninguém . O assunto era tabu. E em bora a m ãe tivesse lhe explicado a situação quando era m ais novo, a últim a parte da infância foi passada vendo a m ãe cuidando do irm ão, até à m orte deste. A prim a não sabia m uito bem que doença ele sofria, ou o que acontecera exatam ente, só sabia que a m ãe de Gordon adoecera pouco depois da m orte do filho, acabando m orrendo tam bém , após longo e penoso sofrim ento. E a sensação com que Gordon ficou foi a de ter sido traído por am bos, por nunca haver recebido a atenção, o carinho e o tem po a que achava ter direito e por terem acabado m orrendo, abandonando-o.

A prim a disse ainda que a m ãe dele estava convencida de que o pai de Gordon m orrera de desgosto, em bora vários anos m ais tarde, incapaz de recuperar da dupla perda. Na verdade, Gordon ficou com a sensação de que perdera toda a fam ília por causa de um a criança doente. Mais tarde, Isabelle deixara de dedicar-lhe a sua atenção por causa da doença de Teddy. As palavras da prim a de Gordon fizeram com que percebesse m elhor o com portam ento do m arido, o qual, quando questionado sobre o assunto, negou tudo, considerando aquilo que a prim a dissera um trem endo disparate. Afirm ava que nunca fora m uito ligado ao irm ão nem nunca tivera qualquer sentim ento de perda. A m orte da m ãe era um a lem brança m uito rem ota e o pai fora sem pre um hom em m uito difícil. Porém , quando lhe falou do assunto, apesar dos protestos, Isabelle vislum brou um ar de pânico nos seus olhos. Era o olhar de um a criança m agoada, não apenas o de um hom em aborrecido. Interrogou-se então se não teria sido por isso que ele casara tão tarde e se m antinha tão distante de todas as pessoas. Porém , fosse qual fosse a explicação, a relação entre os dois não m elhorou. As portas do céu não voltaram a abrir-se entre eles e Gordon fez questão de que elas se m antivessem assim .

Isabelle tentou explicar a atitude do m arido a Bill, m as este não conseguia entendê-la, considerando um a desum anidade da parte de Gordon o fato de ter se desligado em ocionalm ente da esposa. Era um a das m ulheres m ais interessantes que algum a vez conhecera, cuj a doçura e am abilidade só realçavam ainda m ais a sua beleza. Porém , independentem ente daquilo que pudesse pensar dela, Bill nunca dera o m enor sinal de querer envolver-se em term os em ocionais com Isabelle e nem sequer adm itia que tal idéia lhe passasse pela cabeça. Esta frisara-lhe, desde o prim eiro instante, que isso nunca iria acontecer. Se iam ser am igos, tinham de respeitar os respectivos casam entos. Por m ais indelicado ou distante que Gordon pudesse ser relativam ente a ela, Isabelle continuava a ser-lhe fiel. Ainda era seu m arido e, para consternação de Bill, m antinha o respeito por ele e pelo casam ento. A idéia do divórcio ou da infidelidade era im pensável. De Bill só queria a am izade. Por m uito só que, por vezes, pudesse sentir-se, aceitava esse fato com o parte integrante do casam ento. Bill confortava-a, aconselhava-a em m uitas coisas e partilhavam as m esm as opiniões relativam ente a m uitos assuntos. E, enquanto conversavam , Isabelle conseguia esquecer todos os problem as e preocupações. Aos seus olhos, a am izade de Bill era um a dádiva divina que m uito prezava. Mas não passava disso m esm o.

A idéia da viagem a Londres surgira por acaso, durante um a das habituais conversas de m adrugada. Isabelle falara de um a exposição que iria ocorrer na Tate Gallery e que estava ansiosa por ver, m as sabia que isso nunca aconteceria, pois não se previa que a exposição passasse por Paris. Bill sugeriu então que fossem passar um ou dois dias em Londres, para a ver e para estarem algum tem po sozinhos, sem preocupações com o m arido ou com os filhos. Para Isabelle, era um a idéia extrem am ente ousada, algo que nunca fizera. Ao princípio, ainda se m ostrou relutante. Deixar Teddy nunca lhe passara pela cabeça.

— Porque não? — perguntou Bill, esticando as pernas e pousando os pés em cim a da secretária. Era m eia-noite, e estava no escritório desde as oito da m anhã. Ficara até um pouco m ais tarde para poder telefonar-lhe. — Iria fazer-te bem . Além disso, o Teddy tem andado m elhor nos últim os dois m eses. Se houver algum problem a, em duas horas você chega em casa.

Bill tinha razão, m as, em vinte anos de casam ento, nunca fora a lado nenhum sem Gordon. Era um a relação m atrim onial bastante conservadora. Bill, pelo contrário, m antinha um a relação m uito m ais liberal com Cindy. Ultim am ente, era m uito m ais com um viaj arem sozinhos do que os dois. Bill j á não fazia o m ínim o esforço para passar férias com ela, à exceção de um a ou outra sem ana em Ham pton. Cindy parecia m uito m ais feliz sem ele. A últim a vez que ele sugerira fazerem um a viagem j untos, arranj ara inúm eras desculpas para não ir, e depois partira para a Europa com um a das filhas. O espírito do casam ento há m uito que desaparecera, em bora nenhum dos dois estivesse disposto a reconhecer esse fato. Cindy fazia o que queria. Bill tinha a vida política que adorava, além dos telefonem as para Isabelle.

Por fim , depois de várias conversas, convenceu-a a ir até Londres. Isabelle não cabia em si de contente. Estava ansiosa por ver a exposição e fazer com pras em Londres. Tencionava ficar no Claridge’s e talvez até visitar um am igo de Paris que se m udara para lá

Só dias m ais tarde é que Bill descobriu que precisava de se encontrar com o em baixador am ericano em Londres. Este fora um dos principais financiadores da últim a cam panha presidencial. Precisava do seu apoio para outro candidato. Queria sondá-lo quanto antes para estabelecer um a plataform a de acordo relativam ente ao m ontante do donativo. Com esse apoio, o candidato de Bill teria m uito m ais chance de êxito. Além disso, era um a agradável coincidência o fato de Isabelle se encontrar em Londres nessa época.

— Fizeste de propósito, — perguntou ela, num inglês com um ligeiro sotaque francês, que Bill achava encantador. Aos quarenta e um anos, continuava a ser um a m ulher bonita e não aparentava a idade que tinha. Os cabelos eram castanho-arruivados, a pele branca e m acia e os enorm es olhos esverdeados. Dois anos antes, a pedido de Bill, m andara-lhe um a fotografia sua com os filhos, para a qual ele costum ava olhar durante os telefonem as.

— Claro que não. — Mas a pergunta de Isabelle não era despropositada. Bill sabia m uito bem das intenções dela de viaj ar até Londres, quando com binara o encontro com o em baixador. Se, por um lado, achava que era a hora ideal, por outro, sabia que não era só por isso.

Adorava encontrar-se com Isabelle. Passava m eses sonhando com as poucas vezes por ano que se encontrava com ela em Paris. Quando sentia saudades de a ver, arranj ava um a desculpa para ir ter com ela ou, quando era obrigado a viaj ar para a Europa, apanhava um voo que fizesse escala em Paris. Encontravam -se três ou quatro vezes por ano, e quando isso acontecia iam alm oçar. Nunca falara desses encontros a Gordon, apesar de continuar a achar que nada existia de m al ou clandestino. Tanto Isabelle com o Bill tinham extrem o cuidado nos nom es que davam às coisas. Era com o se trouxessem faixas dizendo “am igos” quando se encontravam . Contudo, há m uito tem po que Bill sentia m uito m ais por ela do que aquilo que algum a vez conseguira dizer-lhe.

Era com ansiedade que esperava a chegada a Londres. O encontro na em baixada só o ocuparia durante algum as horas. Queria passar o m áxim o de tem po possível com ela. Tam bém estava desej oso de ver a exposição. Isabelle sentia-se excitada com a perspectiva de partilhar esse m om ento com Bill. Afinal de contas, a exposição era a razão da sua ida a Londres. Encontrar-se com ele era um bônus inesperado. Haviam se tornado grandes am igos, m as nada m ais do que isso. E o fato de ninguém saber da am izade entre am bos era apenas um a questão de sim plificação das coisas. Não tinham nada a esconder. Isabelle exibia um a capa de respeitabilidade que parecia ser de extrem a im portância para ela. Era um a fronteira que há m uito estabelecera entre am bos e que Bill respeitava. Nunca faria nada que a aborrecesse ou a assustasse. Não queria pôr em risco um a relação que se tornara infinitam ente preciosa para ele.

No quarto, na casa da Rue de Crenelle, Isabelle olhou para o relógio e soltou um suspiro. Estava na hora de ir em bora, m as, no últim o instante, ainda sentiu vontade de ficar.

Deixara m uitas instruções às enferm eiras que iriam tratar de Teddy durante a sua ausência. Ao pensar no filho, foi sorrateiram ente, em bicos de pés, até à porta do quarto ao lado do seu. Por instantes, ainda se interrogou se seria boa idéia ir até Londres. Mas Teddy dorm ia profundam ente. A enferm eira que se encontrava j unto dele levantou os olhos e sorriu, ao m esm o tem po que lhe fazia um ligeiro aceno, com o que para a tranquilizar. Tratava-se de um a das suas enferm eiras preferidas. Era oriunda da Bretanha e tinha um rosto bronzeado e sorridente. Isabelle acenou-lhe em despedida e fechou a porta do quarto. Estava na hora.

Pegou a m ala de viagem e a m ala de m ão, aj eitou o vestido preto e olhou m ais um a vez para o relógio. Sabia que naquele preciso m om ento, Bill se encontrava ainda no avião que partira de Nova Iorque, onde estivera trabalhando nos últim os dias. Passava a m aior parte do tem po viaj ando entre Nova Iorque e Washington.

Pôs a m ala de viagem no porta-bagagens do carro e a m ala de m ão no assento a seu lado. Partiu então para o Aeroporto Charles de Gaulle, com um olhar radiante estam pado no rosto, enquanto Bill Robinson olhava pela j anela do seu Gulfstream, que usava constantem ente. Ao pensar nela, sorriu. Coordenara o voo de m odo a chegar a Londres ao m esm o tem po que Isabelle.

CAPÍTULO DOIS

 

Bill Robinson passou pela alfândega do Aeroporto de Heathrow com ar decidido, com o se estivesse com pressa. E até estava. Levou apenas alguns m inutos levantando a m ala. Então, com esta num a m ão e a pasta na outra, dirigiu-se para o m otorista do Claridge’s, que em punhava discretam ente um a placa com o seu nom e. Ficava no Claridge’s sem pre que ia a Londres e convencera Isabelle a instalar-se lá tam bém . Era um hotel com tradição e geralm ente considerado o m elhor da cidade. Há trinta anos que ficava hospedado nele.

Enquanto colocava a m ala e a pasta no porta-bagagens da lim usine, o m otorista olhou de relance para o am ericano alto e de cabelos grisalhos, e reparou de im ediato na aura de poder e sucesso que exibia e que não passava despercebida. Bill tinha olhos azul-claros, que condiziam m aravilhosam ente com o seu ar sim pático e com os cabelos grisalhos, outrora loiros. Os traços eram m arcadam ente m asculinos. O queixo, proem inente e anguloso. Usava calças cinzentas, blazer, cam isa azul e um a gravata Hermes azul-escura; os sapatos pretos haviam sido m eticulosam ente engraxados antes de partir de Nova Iorque. Vestia com sutil elegância, sem qualquer laivo de ostentação. Ao abrir o j ornal, sentado no banco traseiro da lim usine, qualquer m ulher teria reparado na beleza das suas m ãos. No pulso, exibia um relógio Patek Philippe, que Cindy lhe oferecera anos antes. Tudo nele era suscetível de atrair as atenções. No entanto, Bill Robinson preferia ser um hom em de bastidores. Apesar das óbvias ligações à política e das oportunidades que lhe eram concedidas, nunca tivera necessidade de ser um hom em de prim eira linha. Preferia as coisas assim . Era a excitação do poder que o alim entava. Adorava os cantos e recantos da cena política sem pre em constante m utação e não nutria o m ínim o desej o de ser conhecido publicam ente. Preferia passar despercebido. Não precisava nem desej ava atrair as atenções.

Era um aspecto da sua personalidade que partilhava com Isabelle. No caso dela, m anifestava-se através da sua tim idez.

No dele, era um a das form as de exercer discretam ente o seu poder. Im punha m ais respeito e atenção pelo seu silêncio do que por qualquer outra coisa que fizesse ou dissesse. Tam bém Isabelle dava m ais nas vistas pelo seu silêncio. Ficava pouco à vontade quando a atenção estava concentrada em si e só em conversas a dois, com o as que costum ava ter com Bill, é que se libertava dela própria. Ele adorava a form a com o Isabelle se abria consigo. Conhecia todas as suas em oções, todas as reações, todas as idéias, e ela não hesitava m inim am ente em partilhar segredos com ele, coisa que nunca fizera com Gordon.

Bill dirigiu-se para a entrada do Claridge’s e Thom as, o porteiro, reconheceu-o de im ediato, m ostrando-se satisfeito por revê-lo. Pouco depois, j á Bill conversava am enam ente acerca do tem po e das recentes eleições locais com o subgerente, que o conduziu até ao quarto, um a suite am pla e acolhedora no terceiro andar, decorada com flores de cretone, sedas azul-claras e antiguidades. Mal o subgerente saiu, enquanto passeava o olhar pela suite, pegou o telefone. Ao ouvir a voz fam iliar, sorriu.

— Com o foi a viagem ?

— Boa — respondeu Isabelle, esboçando um franco sorriso. Haviam sincronizado as chegadas. Instalara-se no hotel vinte m inutos antes. — E a sua?

— Ótim a. — Bill sorriu, com um ar j ovial, pelo qual as m ulheres sem pre se sentiam atraídas. Parecia que nunca m ais acabava. Estava ansioso por chegar aqui. Já tinham passado quase seis m eses desde a últim a vez que haviam se encontrado em Paris. Planej ara voltar m ais cedo, m as com plicações políticas inesperadas não haviam perm itido. Sentia um grande desej o de vê-la. — Está cansada? Quer descansar um pouco?

— Depois de um a hora de viagem . — E riu-se. — Estou bem . E você?

— Esfom eado. Quer ir com er qualquer coisa? — Eram três horas da tarde.

— Adoraria. Depois podem os ir dar um passeio a pé. Não m e m exi durante todo o dia. Nem sequer m e levantei no avião. — Isabelle tam bém estava ansiosa por vê-lo e isso percebia-se na voz. Os encontros provocavam -lhes sem pre um a ânsia terrível e quando estavam j untos falavam horas a fio, tal com o faziam ao telefone. Nunca havia qualquer tipo de acanham ento entre eles.

— Com o é que ficou o Teddy ? — perguntou Bill, apreensivo. Sabia que era um a constante preocupação para Isabelle.

— Dorm indo. Mas passou bem a noite. A Sophie telefonou de Portugal ontem à noite. Estava divertindo-se m uito com os am igos. E as suas filhas?

— Acho que estão bem . Dentro de sem anas, vêm a Londres com a m ãe. Praticam ente não falam com igo. Só sei onde estão pelas com pras que aparecem no m eu American Express. A Cindy vai levá-las para o Sul de França, antes de irem ao Maine visitar os avós. — Depois iria encontrar-se com elas em Ham pton, no final do Verão, com o de costum e. Mas, antes disso, tinha um a série de coisas para fazer. Ficaria trabalhando em Washington durante todo o Verão. Cindy j á nem sequer lhe perguntava se ia vê-las com elas onde quer que fosse. Sabia que era um a causa perdida e m ostrar-se-ia espantada se ele tivesse essa intenção. — Qual é o núm ero do seu quarto? — E olhou para o relógio. Tinham tem po para um alm oço rápido. À noite, iria levá-la ao Bar Harry ’s.

— Trezentos e catorze.

— Estam os no m esm o piso. O m eu é o trezentos e vinte e nove. Passo por aí quando estiver pronto. Dez m inutos?

— Ótim o. — Isabelle esboçou um tím ido sorriso e fez um a ligeira pausa. — Será um prazer voltar a ver-te, Bill.

As palavras saíram num forte sotaque francês e Bill sentiu-se com o que rej uvenescido. Isabelle significava tanto para ele que não encontrava palavras para definir os seus sentim entos. Era o protótipo da m ulher por quem sem pre ansiara: gentil, carinhosa, paciente, com preensiva, interessada por tudo o que ele fazia, divertida, sim pática. Fora um a inesperada dádiva caída do céu, tal com o ele o era para ela. A única pessoa a quem Isabelle podia agarrar-se na vida, depois de tudo o resto à sua volta ter se desvanecido ao longo dos anos. Já não havia nada com que pudesse contar. A saúde de Teddy era um a preocupação constante e sabia que podia perdê-lo a qualquer m om ento. Gordon era sim plesm ente o hom em com quem partilhava a casa e de quem recebera o nom e, m as sentia que ele j á não fazia parte da sua vida. À exceção de ocasionais aparições públicas, Gordon não a solicitava para nada. Além disso, com o era próprio da idade, Sophie j á abandonara o ninho. Nos últim os tem pos, m ais do que nunca, sentia-se só. À exceção de quando estava com Bill, pessoalm ente ou ao telefone. Ele era a sua trave m estra, a sua alegria, o seu conforto, o seu m elhor am igo.

— Tam bém será um prazer ver-te de novo. Passo para buscar-te dentro de dez m inutos. Depois podem os falar do que pensam os fazer. — Sabia que iriam a Tate Gallery no dia seguinte e que havia algum as galerias particulares que Isabelle queria visitar. Planej ava convidá-la para j antar em am bas as noites. Tam bém gostaria de a levar ao teatro, porque sabia que era um a das coisas que ela m ais apreciava, m as não estava disposto a perder horas do precioso tem po que podia passar conversando com ela. Era terça-feira e tinham até quinta à noite. Isabelle dissera que talvez pudesse ficar até sexta de m anhã, o que dependeria do estado de saúde de Teddy. Além disso, achava-se no dever de passar o fim -de-sem ana em Paris. Era um a corrida contra o tem po, um a dádiva extraordinária poderem passar aqueles dias j untos. A prim eira vez que tal acontecia. Da parte de Bill não havia segundas intenções. A única coisa que queria era estar com Isabelle. Os sentim entos que nutriam um pelo outro eram os m ais puros e inocentes.

Bill lavou o rosto e as m ãos, barbeou-se rapidam ente, sem nunca deixar de pensar em Isabelle e, dez m inutos depois, j á andava pelo corredor à procura do quarto dela. A localização, era um pouco confusa, m as acabou por encontra-lo. Bateu à porta. A espera pareceu interm inável. Isabelle abriu então a porta e, durante alguns instantes, não desviou os olhos dos dele, ao m esm o tem po que sorria tim idam ente.

— Com o você está, Bill? — perguntou, a pele m acia ligeiram ente corada, os longos cabelos escuros e brilhantes sobre os om bros, os olhos fixos nos dele. — Tem um ótim o aspecto.

Aproxim aram -se um do outro e beij aram -se no rosto. Nunca haviam dado outro tipo de beij o. Bill ainda m antinha um ligeiro bronzeado de um fim -de-sem ana que passara em Greenwich, sem anas antes, em claro contraste com a pele branca de Isabelle, cuj os verões de praia no Sul de França haviam acabado anos antes. Gordon ainda ia lá esporadicam ente visitar am igos, ou com Sophie, enquanto Isabelle perm anecia em casa com o filho.

— Você tam bém . — Sem pre que a via, ficava im pressionado com a sua beleza. Por vezes, esquecia-se disso, durante as longas conversas telefônicas, em que ouvia, extasiado, as palavras e as idéias de Isabelle. Mas, m ais do que a beleza, era a alm a dela que o cativava. Chegou-se m ais a ele e enfiou-lhe a m ão debaixo do braço com a graciosidade de um a corça.

Bill reparou então no elegante vestido preto, na m ala Hermes e nos sapatos de salto alto. Nas m ãos trazia apenas a aliança de casam ento, nas orelhas, um par de pequenos brincos com um diam ante. Quem olhasse para ela não acreditaria que estava diante de um a pessoa com graves preocupações. Tinha um sorriso extrem am ente afável. Os olhos de Bill brilhavam de felicidade.

— Meu Deus, está estupenda! — Há quatro anos que m antinha o m esm o aspecto. Talvez um pouco m ais m agra, m as, com a sua beleza clássica, dava a im pressão de que o tem po não passava por ela. Enquanto desciam as escadas, de braço dado, conversando sobre a viagem , as galerias que pretendiam de visitar, a exposição na Tate Gallery e as filhas de Bill, este parecia um garotinho. Adorava contar histórias engraçadas sobre as m eninas. Ao passarem pelo porteiro, ainda Isabelle ria, divertida.

— Receei que o estado de saúde do Teddy não te perm itisse vir. — Bill dizia-lhe tudo o que pensava, tal com o Isabelle fazia com ele. Teddy poderia realm ente ter im possibilitado a vinda dela a Londres. Ou Gordon, se houvesse decidido que ela não deveria vir. Mas este não parecera nada preocupado com o fato de a esposa ir passar uns dias em Londres. Teddy, por seu turno, ficara encantado por a m ãe poder ir. Não sabia nada de Bill, m as adorava ver a m ãe sorrir e não queria ser um em pecilho em relação à viagem .

— Tam bém receei não poder vir. Mas o Teddy está m uito m elhor. Há cinco anos que não o via assim tão bem . Com a adolescência, o estado de saúde dele agravou-se. O coração e os pulm ões não estavam conseguindo acom panhar o crescim ento geral do corpo. Ele queria que eu viesse.

Bill tinha a sensação de o conhecer há anos. Em bora não soubesse com o, esperava que isso acontecesse um dia.

Saíram para a Brook Street, e Isabelle, ainda de braço dado com Bill, inspirou profundam ente. Estava um dia m agnífico e um calor que não era norm al em j unho.

— Onde quer ir? — indagou Bill, fazendo um a lista m ental das várias opções, se bem que o que lhe interessava era apenas estar com ela. Tinha a sensação de se encontrar de férias. Nunca conseguia arranj ar tem po para um a tarde descontraída, um alm oço inform al ou um passeio a pé com um a m ulher a seu lado. Toda a sua vida girava em torno do trabalho e tudo o que fazia tinha a ver com a política. Nunca desfrutava de tem po livre, exceto quando estava com Isabelle. A seu lado, o tem po parecia parar. Quem o conhecesse bem não o reconheceria, descontraído, de sorriso nos lábios, ao lado de um a bonita m ulher de longos cabelos escuros. — Que tal irm os com er um a pizza em um lugar qualquer?

Isabelle, com um radioso sorriso nos lábios, fez um gesto afirm ativo com a cabeça. A felicidade que sentia era tanta que m al conseguia concentrar-se no que dizia.

— Do que está rirndo? — perguntou Bill, em tom de gracej o, enquanto desciam calm am ente a rua. Am bos sentiam que, pelo m enos por agora, tinham m uito tem po para si.

— De felicidade, só isso. Nunca fiz nada assim . Sinto-m e liberta de todas as preocupações. — Isabelle sabia que Teddy estava em boas m ãos e todo o resto estava bem .

— É assim que desej o que se sinta. Só quero que se descontraia e esqueça tudo.

Poucos m inutos depois, apanharam um táxi e foram até um pequeno restaurante que Bill conhecia em Shepherd Market, perto da em baixada. Iam lá várias vezes nos intervalos das reuniões. O restaurante tinha um j ardim e o dono ficou encantado ao vê-los. Estavam am bos elegantem ente vestidos e havia algo de carism ático neles. O dono conduziu-os então até a um a m esa num local recatado ao fundo da sala, trouxe a lista de vinhos a Bill, entregou o cardápio a am bos e desapareceu.

— É um lugar m aravilhoso — observou Isabelle, por entre um sorriso, enquanto se recostava na cadeira e fitava Bill. A últim a vez que o vira fora em Paris, no Inverno anterior, pouco antes do Natal. Oferecera-lhe um a bonita echarpe Hermes e a prim eira edição de um livro de que haviam falado, encadernado a cabedal e extrem am ente raro. Isabelle tinha um carinho especial por ele, tal com o por todas as outras coisas que Bill lhe dera ao longo dos últim os quatro anos.

— Sinto-m e um a m enina m im ada.

— Ótim o! — exclam ou Bill, dando-lhe um a palm adinha na m ão. Concordaram em com er um a pizza, m andaram vir tam bém saladas e um a garrafa de Carton-Charlem agne.

— Agora vai em bebedar-m e no m eio da tarde... — Bill sabia, pelos alm oços anteriores, que Isabelle pouco bebia, m as era o vinho de que ela m ais gostava e além disso de um a colheita excelente.

— Julgo que não corre esse risco, a m enos que tenha adquirido m aus hábitos nos últim os seis m eses. Eu estou m ais suj eito a em bebedar-m e do que você. — confessou Bill, em bora Isabelle nunca o tivesse visto beber em dem asia. Era um a pessoa sem vícios aparentes, à parte o de trabalhar dem ais.

— Que vam os fazer esta tarde?

— O que quiser. Estou feliz por estar aqui. — Sentia-se um passarinho fora da gaiola. Bill sugeriu então que dessem um as voltas por algum as galerias e loj as de antiguidades, proposta que ela adorou. Não pararam de conversar durante toda a refeição. Eram quatro e m eia quando saíram do restaurante. Pegaram outro táxi. Bill tinha um a lim usine à sua disposição no hotel, m as am bos preferiam a liberdade de poderem andar por Londres sozinhos. Depois de visitarem as galerias e as loj as, regressaram ao hotel a pé. Já passava das seis.

— Jantam os às nove? — perguntou Bill, esboçando um sorriso. — Podem os tom ar um a bebida aqui no hotel e depois vam os ao Bar Harry ’s. — Há m uito que era o restaurante favorito de am bos. Tinha um ar respeitável e não havia o problem a de poderem ser vistos. Não existia nada para esconder e, se Gordon viesse a saber, Isabelle não tinha qualquer escrúpulo em dizer-lhe que se encontrara com Bill Robinson. Não iria contar-lhe de livre e espontânea vontade, m as não alim entava qualquer sentim ento de culpa, nem havia qualquer m otivo para se desculpar. — Apanho-te no teu quarto às oito.

Quando entraram no elevador, Bill colocou o braço sobre os om bros de Isabelle. Quem os visse não diria que estavam em quartos independentes e que não eram casados. A fam iliaridade entre am bos era tal, que m ais parecia estarem vivendo um rom ance. Enquanto se dirigiam ao terceirro andar e se encam inhavam até ao quarto dela, pareciam absortos relativam ente a tudo o que os rodeava.

— Passei um a tarde m aravilhosa — E pôs-se na ponta dos pés para o beij ar no rosto. — Você é um a pessoa m uito boa para m im , Mister Robinson. Obrigada, Bill — proferiu Isabelle num tom solene, enquanto ele sorria.

— Não sei com o posso ser um a pessoa tão boa para você. É um a m ulher horrível e insuportável. De vez em quando, tenho de ser um pouco caridoso. — Isabelle riu-se e Bill fez-lhe um a festa no braço, ao m esm o tem po que a porta do quarto se abria. — Descansa um pouco antes de sairm os logo à noite. Far-te-á bem . — Bill estava bem a par da vida stressante que ela tinha cuidando do filho. Com o tal, queria que descansasse, que gozasse um as férias autênticas. Tam bém sabia, por aquilo que ela lhe contava, que Gordon praticam ente não lhe dava a m ínim a atenção. Por isso, durante o pouco tem po que estavam j untos, fazia questão de lhe m ostrar que havia alguém que se m ostrava preocupado com ela. Isabelle prom eteu-lhe então que iria dorm ir um pouco. Já no quarto, deitada na cam a, pensou m ais um a vez em Bill, no m odo com o, anos antes, quase por acaso, ele entrara na sua vida e na sorte que tivera em conhecê-lo

Por vezes, interrogava-se sobre a razão por que ele continuava com a m ulher. Era fácil deduzir que não havia com unicação entre eles, e Bill m erecia m uito m ais. Mas tam bém sabia que ele não gostava de falar no assunto. O estado do seu casam ento com Cindy era algo que aceitava com o um dado adquirido e um equilíbrio que preferia não ver perturbado. Isabelle desconfiava que ele achava que um possível divórcio constituiria um trem endo incôm odo. Não queria o m enor indício de escândalo perto de si, nem atrair as atenções. Parte da sua força residia na discrição. Um divórcio teria provocado dem asiado alarido, especialm ente se fosse litigioso. Além disso, Cindy gostava das coisas tal com o estavam . Apreciava as vantagens práticas de ser Mrs. William Robinson, especialm ente em Washington. Em bora dissesse que detestava a política, ter um m arido que exercia considerável influência sobre o presidente era algo que tinha im pato no m eio que frequentava. Isabelle sentia im ensa pena dele. Bill m erecia m uito m ais do que aquilo que tinha com Cindy. O m esm o acontecia com ela. A vida que levava com Gordon não era certam ente o casam ento por que ansiara vinte anos antes, m as era algo que aceitava com o um a contingência da vida. Naquele m om ento, deitada na enorm e cam a do Claridge’s, j á não era nisso que pensava, m as na noite de conversa e boa disposição que iria ter com Bill. Nesse exato instante, Gordon parecia fazer parte de um m undo distante, quase inexistente. Bill fazia-a rir e sentir-se segura e bem consigo própria. Estar com ele em Londres era um sonho que se tornara realidade.

Cochilou até às sete horas, depois levantou-se e tom ou um banho. Escolheu um vestido de noite de renda preta, um a echarpe de seda, sapatos de salto alto de cetim preto, um colar de pérolas e um par de brincos de diam antes. O vestido era sóbrio, m as m uito fem inino e, tal com o ela, de sutil beleza. Prendeu o cabelo num a trança e aplicou um pouco de m aquiagem no rosto. Às oito horas em ponto, quando veio buscá-la, Bill teve um a reação de espanto. Nessa altura, j á ela telefonara para casa e falara com a enferm eira de Teddy, que a tranquilizou dizendo-lhe que o filho se encontrava bem . Gordon saíra e Teddy j á adorm ecera. Apesar de não ter falado com o filho, ficou feliz por saber que estivera bem durante todo o dia. Essa notícia veio dar-lhe outro ânim o para a noite que ia passar com Bill.

— Uau! — exclam ou Bill, dando um passo atrás para a adm irar m elhor. Com a echarpe sobre os om bros e o vestido de renda j usto ao corpo, Isabelle exibia um a beleza e um a sensualidade deslum brantes. — Está encantadora. Quem desenhou o vestido? — perguntou, com ar de conhecedor, o que provocou um a gargalhada em Isabelle, que não o tinha com o um entendido em alta costura.

— O Saint Laurent. Está surpreendendo-m e. Desde quando se interessa por m oda? — Bill nunca fizera qualquer com entário desse gênero, m as as coisas ali eram diferentes. Podiam dar-se a esse luxo, tendo dois dias de convívio à sua frente.

— Desde que te vej o vestida assim . Ao alm oço usava um conj unto Chanel, não usava? — perguntou, orgulhoso consigo próprio, provocando nova gargalhada

— Estou im pressionada. Tenho de ter cuidado com aquilo que visto daqui para a frente e saber se está de acordo com os seus padrões.

— Não tem nada que se preocupar. Está deslum brante Estás com entou, num tom afável.

Desceram no elevador, quase encostados um ao outro, conversando baixinho. Isabelle contou-lhe que falara com a enferm eira que ficara cuidado de Teddy e que esta lhe dissera que ele estava ótim o, o que a deixara m uito m ais descansada. Bill só queria que ela se descontraísse e divertisse, e até agora estava tudo correndo às m il m aravilhas. Bill passava grande parte do seu tem po pensando no que iria fazer com Isabelle durante os dois dias. Queria que esta fosse um a viagem que am bos recordassem pela vida fora, porque não sabia quando é que os seus cam inhos voltariam a cruzar-se. Quase tinha m edo de pensar nessa eventualidade. Sabia que era m uito provável que aquela oportunidade extraordinária não voltasse a repetir-se.

Quando entrou no bar do Claridge’s, atrás dela, várias cabeças se viraram na direção dos dois. Sentaram -se num a m esa de canto. Bill pediu um uísque com soda para si e um copo de vinho para Isabelle, que, com o de costum e, m al tocou-o. Falaram de arte, política, teatro, da casa de verão da fam ília dele em Verm ont e dos locais onde am bos adoravam ir quando crianças. Isabelle falou das visitas aos avós no Ham pshire e das ocasiões raras, m as im pressionantes, em que se encontrara com a rainha. Bill sentia-se deslum brado com as histórias dela, que, por sua vez, escutava com igual fascínio as de Bill. Havia, com o sem pre, um a im pressionante sim ilaridade entre eles, no que tocava a reações, filosofia de vida, gostos, pessoas, lugares e à im portância dos laços fam iliares. Foi Isabelle que com entou, m ais tarde, que era estranho com o pessoas a quem a fam ília dizia tanto tivessem deixado os casam entos chegarem ao ponto em que se encontravam , tendo escolhido parceiros que pouco tinham a ver com eles.

— A Cindy era m uito m ais m eiga quando estávam os na faculdade, depois transform ou-se num a pessoa cínica. Não sei se a culpa é m inha — observou Bill, pensativo. — Som os pessoas m uito diferentes e há m uitos anos que não lhe satisfaço as necessidades. Acho que a desiludi. Queria que eu praticasse o cham ado j ogo social com ela no Connecticut e em Nova Iorque. Nunca m ostrou grande interesse pela cena política Ao contrário de m im , que sem pre m e fascinou e à qual m e dediquei de alm a e coração. Agora que m e m ovim ento m ais nos bastidores, acho que se fartou e perdeu qualquer interesse por tudo o que m e diz respeito. Vivem os em m undos com pletam ente diferentes.

No entanto, Isabelle achava que havia algo m ais do que isso. Há anos que Bill lhe confidenciara que suspeitava que a m ulher lhe fora infiel. Confessara-lhe tam bém a sua única aventura am orosa. Mas sentia, por aquilo que ele lhe contava e não contava, que Cindy não só estava afastada dele com o tam bém o punia, quando se encontravam , por aquilo que considerava serem as falhas dele para com ela. Isabelle nunca ouviu histórias de intim idade, de afabilidade, ou de qualquer outro tipo de apoio em ocional entre eles. E não conseguia deixar de se interrogar se não seria doloroso para Bill adm itir que a esposa j á não o am ava. Se é que algum a vez o am ara. O m esm o tipo de questões se colocava relativam ente a Gordon. No entanto, não queria pressionar Bill no que dizia respeito à m ulher. Fosse o que fosse que ele visse nela, não queria forçá-lo a encarar algo que pudesse ser extrem am ente doloroso ou em baraçoso de adm itir ou abordar

— Penso que o Gordon é m uito m ais frio do que a Cindy — opinou Bill, convicto do que estava dizendo. — Isabelle não discordou, em bora achasse que, em parte, a culpa tam bém era sua.

— Acho que tenho sido um a grande desilusão para ele — proferiu, com ar sereno, j á dentro da lim usine que os conduziria ao Bar Harry ’s. Acho que ele esperava que eu tivesse m ais vida social e que saísse m ais. Não tenho qualquer problem a em receber os convidados dele, m as sou péssim a no que toca a abrir-m e com as pessoas ou a im pressioná-las. Isso j á é algo que m e custa. Nos prim eiros tem pos de casam ento, sentia-m e um a m arionete de que Gordon puxava todos os fios. Ele é que m e instruía sobre o que eu diria às pessoas, o que faria, com o m e com portaria, o que pensaria. Depois, com a doença do Teddy, deixei de ter tem po e paciência para entrar nesse j ogo. Já quando a Sophie era pequena, estava m uito m ais interessada nela do que naqueles idiotas todos que ele queria que eu im pressionasse. Eu só desej ava ter um a vida fam iliar e um lar. É provável que tenha falhado nesse aspecto. O Gordon é m uito m ais am bicioso do que eu.

Bill achava que devia haver algo m ais do que isso. A frieza e a crueldade de que Gordon dava m ostras pareciam ser prem editadas, para fazer Isabelle sentir que a distância entre eles era inteiram ente culpa dela. Com o se insinuasse que, se ela tivesse tido outro com portam ento, ele ainda estaria ativam ente envolvido na sua vida. Bill desconfiava que os m otivos para o afastam ento de Gordon não tinham nada a ver com Isabelle ou com Teddy, m as com coisas que a ela ainda nem sequer haviam passado pela cabeça. No entanto, não queria m agoá-la insinuando tal coisa. Apesar da rudeza de Gordon, Isabelle continuava a ser-lhe fiel e a arranj ar desculpas para as coisas que ele fazia e lhe dizia. Por aquilo que Bill conseguia perceber, a generosidade de espírito que ela m anifestava para com Gordon era im erecida, m as característica dela.

— Não vej o com o pode ter desiludido quem quer que sej a. Não conheço ninguém que se entregue com tanto em penho àquilo que faz e estou certo de que deste o seu m elhor por ele. Além disso, o fato de o Teddy ter nascido com problem as de saúde não foi culpa sua.

— O Gordon acha que fiz qualquer coisa durante a gravidez que originou que o Teddy tivesse nascido antes do tem po. O m édico diz que isso teria acontecido de qualquer da form a, m as o Gordon nunca ficou convencido.

Bill não gostara dele nas duas vezes em que se encontraram . Achara-o m uito em proado e arrogante, e o m odo sarcástico com o falava com Isabelle incom odou-o. Tratava-a com o um a criança, m andava-a em bora com palavras ríspidas e um aceno de m ão, diante dos convidados. Porém , apesar de ignorar a esposa durante quase todo o tem po, m ostrou-se afável com Bill. Era sim pático quando queria, com as pessoas que achava poderem ser im portantes ou úteis para si. Era quase com o se precisasse de castigar Isabelle por aquilo que ela era. Tratava-a com absoluto desdém . Mas Bill desconfiava que, bem no fundo de tudo, Gordon estava im pressionado com a fam ília de Isabelle e sentia-se algo com plexado, talvez por causa dos laços com a fam ília real. Por isso, tinha necessidade de estar constantem ente rebaixando-a, para se afirm ar. De qualquer form a, quanto m ais não fosse para não a m agoar, Bill fingia um m oderado respeito quando ela falava do m arido. Não queria coloca-la na posição de defensora dele. A lealdade de Isabelle era por dem ais evidente. Afinal de contas, era seu m arido. Mas j á não fingia ser feliz com Gordon. Lim itava-se a aceitar o casam ento com o um a inevitabilidade da vida e recusava queixar-se do estado a que as coisas haviam chegado. Estava grata por ter Bill para conversar e para a ouvir, e adorava o fato de ele estar constantem ente fazendo-a rir.

Nessa noite, havia m uita gente no Bar Harry ’s. Mal conseguiam passar pela porta. Junto ao bar, viam -se m ulheres de vestido de noite ao lado de hom ens de terno escuro, cam isa branca e gravata sóbria. Tinham todos um aspecto sofisticado, extrem am ente elegante, e Isabelle com o seu vestido de renda preta encaixava-se com perfeição nesse cenário. Bill, por seu turno, não destoava, no seu terno azul-escuro, que com prara antes da viagem .

O m aitre reconheceu-o de im ediato e, depois de cum prim entar Isabelle com um sorriso, conduziu-os até à m esa preferida de Bill, a um canto da sala. Daí podiam ver um a série de rostos conhecidos: várias atrizes, um a estrela de cinem a fam osa, algum as figuras de m onta no cam po da literatura, um a m esa de hom ens de negócios do Bahrein, duas princesas sauditas e um a m esa de am ericanos elegantem ente vestidos, um dos quais fizera fortuna na indústria petrolífera. Muitas dessas pessoas de renom e dirigiram -se à m esa para cum prim entar Bill, que apresentava Isabelle sim plesm ente com o Mrs. Forrester, não dando m ais nenhum porm enor acerca de quem se tratava. A m eio do j antar, Isabelle reparou num banqueiro francês que conhecera anos antes, e que, naturalm ente, conhecia Gordon, m as que não a reconheceu.

— Gostaria de saber o que estas pessoas pensam que som os — com entou Isabelle, pouco preocupada com o fato, m as divertida. Estava com a consciência lim pa, apesar de não ser norm al estar em Londres j antando com um hom em no bar Harry ’s.

— Provavelm ente pensam que é um a estrela de cinem a francesa e eu um cam pônio que você arranj ou. — E riu-se, enquanto o garçom servia Cristal com a sobrem esa. O j antar estivera excelente e haviam bebido dois vinhos m agníficos. Mas nenhum dos dois estava bêbado. Sentiam -se saciados, felizes e descontraídos.

— Pouco provável — retorquiu Isabelle, divertida. Todos te conhecem , apesar de achar que não. A m im é que ninguém conhece.

— Posso fazer um anúncio, se quiser. Ou vam os m esa a m esa quando sairm os e apresento-te a todos com o a m inha m elhor am iga. Acha que isso lhes satisfará a curiosidade? — A única coisa que as pessoas que os rodeavam viam era um casal extrem am ente elegante e divertido.

— Talvez. Acha que a Cindy ficaria aborrecida se soubesse que j antou fora com outra m ulher? — Isto despertava sem pre a curiosidade de Isabelle.

— Quer que te responda com toda a franqueza? — perguntou Bill, de sorriso nos lábios. Não tinha segredos para ela. Prom etera, há m uitos anos, que nunca lhe esconderia a verdade, por m ais incôm oda que esta pudesse ser. O m esm o acontecia com Isabelle relativam ente a ele. — Acho que nem ligaria. Já passou essa fase. Desde que não a ridicularize em público, pensa que isso são contas do m eu rosário. Ela tam bém não gostaria que eu a questionasse sobre a sua vida. E tem m uito m ais a esconder do que eu. — Há anos que ouvia rum ores acerca dela, e só das prim eiras duas vezes é que a interrogara. Depois resolvera não querer saber.

— Isso, de certo m odo, entristece-m e. Os casais não deviam ser assim .

— O casam ento pode encobrir um a série de situações. O seu e o m eu não são o gênero de casam ento com que as pessoas sonham . Nós tem os aquilo a que as pessoas, por variadas razões, ao fim de m uito tem po, acabam por se acom odar.

— Acho que você tem razão — disse Isabelle, pensativa, enquanto o garçom lhe servia um cálice de Chateau d’Yquem. — Mas será bom para você, acom odar-se? — O vinho que bebera soltara-a um pouco m ais.

— Não tenho alternativa. Se não m e acom odar, só m e resta o divórcio. E, por várias razões, nenhum de nós quer isso. A Cindy quer a aura de respeitabilidade e o tipo de vida que lhe proporciono E eu não estou interessado nas ondas de choque que se gerariam se nos divorciássem os. Por si só, m antem o-nos assim . Além disso, as m eninas podiam não o aceitar bem . Não há nada nem ninguém a quem eu queira m ais.

Bill há m uito que se conform ara com a sua situação,m as, às vezes, Isabelle perguntava-se porquê. Aos cinquenta e dois anos, Bill ainda era um hom em suficientem ente j ovem para com eçar um a nova vida. Merecia ser feliz. Dava tanto e recebia tão pouco. Bill pensava o m esm o dela.

— Nunca irá encontrar ninguém enquanto estivere preso a ela — afirm ou, enquanto bebia um gole de Yquem .

— Está sugerindo que m e divorcie? — Bill pareceu surpreendido. Isabelle nunca lhe dissera tal coisa e não conseguia deixar de se interrogar por que razão é que ela estava lhe dizendo aquilo agora.

— Não sei. Às vezes, pergunto-m e se não estam os desperdiçando as nossas vidas. Eu não tenho alternativa, por causa do Teddy e, de qualquer form a, nunca m e divorciaria. Não existe um único caso de divórcio na m inha fam ília. Na m inha idade, é m uito difícil com eçar tudo de novo. Para um hom em é diferente. — Bill continuava surpreendido com as palavras dela. Nunca im aginara que Isabelle j á tivesse encarado a hipótese de deixar Gordon.

— Não acho. Além disso, você é onze anos m ais nova do que eu. Se alguém deve pensar num a vida nova, esse alguém é você. Há vários anos que você e o Gordon não estão casados, na verdadeira acepção da palavra. Merece algo m uito m elhor. — Era a prim eira vez que falava com toda a franqueza sobre aquele assunto, m as fora Isabelle quem puxara a conversa.

— Não posso fazer isso e sabe bem porquê. Todos os nossos am igos e fam iliares ficariam horrorizados. Além disso, não posso perturbar a vida do Teddy. É dem asiado frágil para sobreviver a um a m udança dessas. E o Gordon nunca toleraria tal coisa. Matar-m e-ia antes de m e dar o divórcio. Não tenho a m enor dúvida. A separação era algo que se encontrava fora das suas cogitações. As palavras eram ditas num tom convicto, m as, nessa noite, pela prim eira vez, Isabelle sentia-se um a condenada em liberdade condicional. Nunca se perm itira pensar em com o era deprim ente a casa de Paris, com o a sua vida era lim itada e no com pleto desprezo a que Gordon a votara. De súbito, sentada no Bar Harry ’s com Bill, tom ou perfeita consciência do que nunca tivera. No entanto, continuava a bater na tecla de que isso se devia ao fato de a sua vida girar em torno de um filho doente. Não se sentia ainda preparada para entender que a vida solitária que levava se devia em grande parte ao fato de, anos antes, ter sido abandonada, do ponto de vista em ocional, pelo hom em com quem casara.

— Nunca tinha te ouvido falar assim — observou Bill, enquanto pousava a m ão sobre a dela. Isabelle nunca adm itiria a profunda tristeza em que vivia, arranj ando sem pre desculpas para esse fato. Tam bém nunca aceitaria o fato de Gordon ser o potencial destruidor da sua vida. Bill chegou a questionar-se se Gordon algum a vez a am eaçara. Mas, fosse com o fosse, ela estava perfeitam ente ciente da crueldade desse hom em , não só relativam ente a ela, m as tam bém em relação ao filho. — O que leva você a dizer isto agora? Ele am eaçou-te? — Isabelle nunca referira que Gordon a m ataria se ela abandonasse o lar, e Bill perguntava-se agora se ela abordara algum a vez o assunto com o m arido. Fitou-a por instantes. Por trás do sorriso que esboçava, vislum brava-se um a certa tristeza. Não conseguia im aginar outra vida no seu futuro senão a que tinha. A esperança num a vida m elhor desvanecera-se há anos.

— Acho que você m e em bebedou — afirm ou Isabelle, em tom de desculpa, m as sentia-se um a prisioneira que fugira da cadeia e que não estava disposta a m anter por m ais tem po o voto de silêncio a que se com prom etera. De súbito, do outro lado do canal da Mancha, sentia-se ligeiram ente m enos fiel a Gordon do que em casa. E Bill conhecia-a m uitíssim o bem .

— Quem m e dera — retorquiu Bill, rindo-se, enquanto levava o cálice à boca. — Adoraria ver o que você faria se estivesse bêbada. Vam os experim entar?

— Você é terrível. Eu preocupada com o fato de poder ser obj eto de um escândalo e você incita-m e a com portar-m e de form a escandalosa. Se continuar dando-m e cham panhe e Yquem, vai ter de m e levar nas costas.

— Ponho-te às costas e digo que te encontrei debaixo da m esa. Acho que ninguém se im portaria.

— E o que faria depois? — perguntou, rindo-se da im agem que Bill sugerira. Estava bem -disposta e só queria que a noite não tivesse fim . Na sua cabeça sentia o tem po esgotando-se. Depois dessa noite, só lhes restava m ais um a e dois dias. Aliás, duas se ficasse até sexta-feira. Depois, am bos voltariam para as suas vidas reais. Sentia-se a Cinderela no baile e não queria que os cocheiros se transform assem em ratos brancos.

— Se tivesse de carrega-la nas costas, acho que lhe daria um café e colocava-lha m inim am ente sóbria para leva-la para dançar no Annabel’s.

Isabelle soltou um a gargalhada.

— É capaz de ser divertido. Já lá não vou há anos, desde antes de casar. Passei lá a festa dos m eus dezoito anos e o m eu pai tam bém m e levou lá depois de eu e o Gordon ficarm os noivos. Nunca m ais voltei lá. O Gordon detesta dançar.

— Então, está com binado. Vam os lá esta noite. Logo que esvazie o cálice — gracej ou Bill, sabendo que Isabelle provavelm ente só beberia m ais um ou dois goles. O copo estava praticam ente cheio. Só bebera um copo de cada um dos vinhos, um cálice de cham panhe e não m ais de um gole de Yquem. Mas era m ais do que aquilo que geralm ente bebia. Estavam am bos alegres, m as não em briagados. Quando m uito encontravam -se inebriados pelo prazer de estarem um com o outro.

— Não consigo beber m ais — disse Isabelle, em tom de queixum e, com os enorm es olhos fixos nos de Bill, que teve de reprim ir um a vontade louca de abraça-ls. Porém , não iria com eter essa idiotice, nem tinha o m ínim o desej o de estragar-lhe a reputação, nem de em baraça-la.

— Se não consegue acabar o Yquem, então não podem os ir ao Annabel’s — retorquiu Bill, com ar determ inado, enquanto o em pregado pousava em cim a da m esa um prato de doces que deixou Isabelle deleitada. Tivera um j antar excepcional e não esperava ir a m ais nenhum lugar, a não ser voltar para o hotel. — Tenho um a idéia. Se com er dois doces de chocolate, levo-lhe ao Annabel’s. — Sentia um trem endo desej o de leva-la para dançar.

— Está falando sério? — perguntou Isabelle, divertida, m etendo um doce na boca e olhando-o com um ar de desafio. — Um .

— E aqui você tem outro — disse Bill, oferecendo-lhe outro doce

— Você é um a pessoa horrorosa. Não só quer ver-m e bêbada com o tam bém gorda.

— Isso levaria m ais tem po do que pôr-lhe bêbada. — Bill esboçou um sorriso de orelha a orelha e com eu um doce. Está com binado. Vam os ao Annabel’s. E fez sinal ao garçom para trazer a conta.

— Já nem sei se ainda consigo dançar. Além disso, você é novo e eu j á sou dem asiado velha. Os hom ens lá são todos da idade do m eu pai e dançam com m eninas da idade da Sophie.

— Terem os de dar o nosso m elhor. Não sou grande dançarino, m as é capaz de ser engraçado. — Exibia um ar descontraído e feliz. Várias cabeças se voltaram quando saíram .

Poucos m inutos depois, quando chegaram ao Annabel’s, todos pareciam conhecer Bill. Ele estivera lá com o em baixador seis m eses antes e costum ava j antar lá de vez em quando, com am igos, sem pre que ia para Londres. Enquanto o garçom os conduzia à m esa, Isabelle sorria, sentindo-se j ovem e idiota por estar ali, m as extrem am ente lisonj eada por Bill a ter levado para dançar.

Nessa noite, havia um a m ultidão de gente no Annabel’s. Grande parte era constituída por casais com o os que Isabelle descrevera a Bill: hom ens m ais velhos acom panhados de m ulheres m uito m ais j ovens; m as tam bém havia outros da idade deles. Uns j antavam nas m esas dispostas ao longo das paredes, outros conversavam e bebiam no bar. Sentaram -se num a m esa perto da pista de dança. Isabelle ficou então um pouco assustada com algo que detectou no olhar de Bill e que nunca vira antes. Mas achou que talvez se devesse ao vinho que haviam bebido e à intim idade que se estabelecera. No entanto, havia algo de terno e afável no m odo com o ele a olhava. Pouco depois, sem dizer palavra, conduziu-a até à pista de dança. Ao som de um a m úsica que sem pre apreciara, Isabelle estava espantada por constatar que Bill era um bailarino adm irável. Dançaram um a série de m úsicas seguidas e só ao fim de bastante tem po é que voltaram para a m esa. Bill m andou vir então m ais cham panhe.

Isabelle bebeu apenas um gole. Os seus olhos encontraram os dele, m as desviou-os quase de im ediato. Tinha receio do que com eçava a sentir.

— Você está bem ? — perguntou Bill, preocupado com a eventualidade de ter feito qualquer coisa que a tivesse aborrecido. Mas não, o que Isabelle sentia era algo de m uito profundo, que não conseguia exprim ir por palavras.

— Estou bem . Só não queria que esta noite m aravilhosa acabasse.

— Não vam os deixar que isso aconteça. — Am bos sabiam que talvez só voltassem a ter um a noite assim daí a alguns anos. Isabelle não podia fazer das viagens a Londres um hábito. E se o estado de saúde de Teddy voltasse a piorar, passaria m ais alguns anos sem poder sair. Além disso, em Paris, não gozaria da m esm a liberdade para vê-lo que tinha ali. Gordon nunca entenderia e ela tam bém não teria chance de o fazer entender. — Não vam os pensar nisso agora. Deixem os para m ais tarde. Gozem os este m om ento, enquanto podem os.

Isabelle fez um gesto de concordância com a cabeça e sorriu, m as, ao fazê-lo, os olhos inundaram -se de lágrim as.

Tinha a sensação de que m al haviam se cum prim entado e j á faltava pouco para se despedirem , e as únicas coisas que teriam seriam as suas vozes ao telefone. Bill detestava vê-la voltar para o seu m undo solitário. Era j ovem , enérgica e bonita, e m erecia ter alguém a seu lado que apreciasse tudo aquilo que tinha para oferecer.

— Vam os dançar? — perguntou Bill, por fim , e Isabelle assentiu com a cabeça. Desta vez, a cam inho da pista de dança, Bill pegou-lhe na m ão. E ela sentiu-se infinitam ente m ais próxim a dele. Bill não disse nada, lim itando-se a fechar os olhos e a envolvê-la nos braços. Esse m om ento foi com o que um diam ante cintilando no aveludado da noite. Quando saíram do Annabel’s, não trocaram qualquer palavra. Só a m eio da viagem até o hotel é que voltaram a conversar.

— Diverti-m e m uito — m urm urou Isabelle, cativada não só pela elegância de Bill, m as tam bém pela sim patia que ele lhe dedicava.

— Tam bém eu — retorquiu Bill, com o braço sobre os om bros dela, aninhada a seu lado. Não havia artifícios entre eles, nem nada de em baraçoso ou estranho. Aquilo que Isabelle sentia quando estava com ele, além de felicidade, era um a im ensa paz interior. Ao chegarem ao hotel, ficaram alguns instantes sem se m exer e o m otorista aguardou, respeitosam ente, fora do carro, sem abrir a porta.

— Vam os? — perguntou Bill, com ar pesaroso, afastando-se lentam ente dela. Ao ver o m ovim ento dentro do carro, o m otorista abriu a porta.

Bill seguiu Isabelle até o átrio, passando pela porta giratória. Eram duas da m anhã. Dois em pregados da lim peza lavavam o chão de m árm ore. Já no elevador, Isabelle, com ar ensonado, não conseguiu conter um bocej o. O elevador parou então no terceiro piso.

— A que horas quer sair de m anhã? — indagou Bill, com um irreprim ível desej o de passar a noite com ela. Sabia que isso estava fora de questão e, por outro lado, não queria pôr em risco a am izade de am bos, propondo-lhe tal coisa ou fazendo algo de que pudesse vir a arrepender-se.

— Que tal às dez? Acho que os m useus não abrem antes disso. — Isabelle sentia-se com o que entorpecida. A noite deixara-a extrem am ente im pressionada em vários aspectos.

— O café da m anhã às nove? Venho buscar-lhe quando descer — ofereceu-se Bill, quase encostado a ela.

— Seria ótim o! — E desfez-se novam ente num am plo sorriso. — Tive um a noite m aravilhosa... Obrigada... — m urm urou, enquanto Bill lhe abria a porta do quarto, beij ando-a depois no alto da cabeça.

— Tive um a noite estragada — gracej ou Bill, quando Isabelle entrou no quarto. Esta virou-se e riu-se.

— Folgo m uito em saber.