O Beijo

Danielle Steel · Capítulo 12 de 17

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O Beijo

Capítulo Catorze

— Conversaram durante m ais uns instantes, depois tiveram de desligar, quando Isabelle ouviu o filho m exer-se na cam a. Deu-lhe os m edicam entos da m anhã e ele voltou a adorm ecer. Foi então até o seu quarto, vestiu-se e deteve-se dem oradam ente à j anela, a olhar para o j ardim , sem pre com Bill no pensam ento. Causava-lhe um a profunda tristeza saber que não o veria tão cedo, m as era por um a boa causa. Provavelm ente não se veriam senão daí a um ano.

Nessa noite, pouco antes de adorm ecer, Bill sorriu ao lem brar-se das palavras de Helena, que até faziam sentido, m as continuava a achar que ela não tinha razão. Ele não poderia pertencer à vida de Isabelle, ou de quem quer que fosse, se não readquirisse a capacidade de andar. Era um a questão de princípio, em bora contrariada por tudo o que via naquele local. Mas Helena era bonita e j ovem , e m ulher... não entendia com o se sentia... Ele via as coisas de m odo diferente... Era hom em .

CAPÍTULO CATORZE

 

No dia seguinte, quando Olivia e Jane vieram visitar o pai ficaram entusiasm adas com o seu bom aspecto. Bill m ostrou-lhes então o centro de recuperação e os terrenos circundantes, e apresentou-as às pessoas que conhecia. Quando encontraram um canto sossegado, sentaram -se, saboreando o ar quente de setem bro. Estava um a tarde de sol. As garotas irradiavam felicidade. Tinham m uita coisa para contar. Falaram da m ãe, das saudades que haviam sentido e do desej o de am bas para que ele voltasse para casa. Ainda estavam m uito aborrecidas com a questão do divórcio, se bem que as atenções j á estivessem centradas nas aulas.

Ao fim da tarde, antes de irem em bora, foram com er um ham búrguer na lanchonete. Quando lá chegaram , deram de cara com Joe. Bill apresentou os três j ovens e a em patia entre eles foi im ediata. Olivia conhecia alguém que fora colega de Joe em Minneapolis. O m undo estudantil era pequeno. Joe perguntou a Jane o que achava da Universidade de Nova Iorque, pois pensava inscrever-se nela, no curso de Direito. Esta respondeu que adorava, e a conversa continuou em um ritm o anim ado. Joe pediu tam bém um ham búrguer e conversaram de todos os assuntos que lhes interessavam . E o fato de se encontrar num a cadeira de rodas era irrelevante para todos eles. Ninguém parecia im portar-se com a circunstância. Quando saíram da lanchonete, Bill reparou que Olivia cam inhava a seu lado e Jane ao lado de Joe. Este parecia sentir-se atraído por ela e convidou-a para ir ao cinem a com ele e alguns am igos, nessa noite, em Nova Iorque. Mas Jane disse que tinha outros planos, m as que ficava com pena de não poder ir. Com binaram então que Joe lhe telefonaria para m arcarem um a saída para outro dia. Parecia terem m uito em com um . Joe era um a pessoa sensível, delicada e inteligente. Quando foi em bora, Bill com entou que gostava m uito dele.

— É sim pático. Foram as únicas palavras de Jane, e Olivia riu.

— Não diga que ele é “sim pático”, diz antes que é “fogo”! — Era um rapaz bem -apessoado. Bill estava divertido com a form a com o os j ovens daquelas idades se relacionavam . Faziam -lhe lem brar cachorros na brincadeira uns com os outros.

Nessa noite, Olivia e Jane iriam ficar com a m ãe. Mal saíram , Bill voltou para o quarto. Quando aí chegou, Joe j á o aguardava, com ar preocupado.

— Gostaria de lhe pedir um a coisa — disse, não conseguindo dom inar o nervosism o.

— Estej a à vontade. O que desej a, Joe? — Bill presum ia tratar-se de outro j ogo de basquetebol.

— Queria saber se... estava pensando... — Devia ser coisa séria. Joe ficou, de repente, com a língua presa e corado até à raiz dos cabelos.

— Não deve ser coisa boa — gracej ou Bill. — Parece que quer pedir-m e o carro em prestado. Não tenho e, aliás, nenhum dos dois pode conduzir.

Joe Andrews riu-se.

— Gostaria de saber se não se im porta... — Inspirou fundo e continuou: —...se não se im porta que eu telefone à Jane um dia destes? Não o farei se não m e der autorização para tal. Além disso, ela pode não querer voltar a ver-m e... isto é... você sabe... m uito bem ... com o essas coisas são.

— Acho um a ótim a idéia. — Jane tivera um nam orado que todos detestavam , durante dois anos. Para alívio de Bill, haviam acabado no ano anterior. — Tanto quanto sei, não está com prom etida, em bora não estej a m uito a par desses porm enores. Tem de lhe perguntar.

— Ela disse que podia telefonar-lhe e deu-m e o núm ero da casa da m ãe e da faculdade. Mas não quis telefonar-lhe sem pedir prim eiro a sua autorização.

Bill ficou sensibilizado com o ato de Joe.

— Diria que é um sinal de esperança. Então, é m elhor do que a irm ã da Helena?

— Está brincando? Nem sequer têm com paração. A Jane é fera! Isto é... a irm ã da Helena é um a m oça sim pática, m as...

— Já sei parece um a rã.

— Não diga à Helena que eu disse isso. É um a garota doce e m uito inteligente. — Estava em pânico perante a perspectiva de Bill contar a Helena o que ele dissera da irm ã.

— Prom eto que não digo nada. Sinto-m e lisonj eado por gostar da Jane. E orgulhoso das duas.

Joe tam bém gostara de Olivia, m as achara-a m ais velha e m ais reservada. Sentia-se m ais à vontade com Jane.

— Talvez lhe telefone logo à noite.

— É com você — disse Bill, num tom paternal. — Daqui em diante, não quero ter nada a ver com isso. A Jane é m aior e vacinada. — Ficou sensibilizado com o fato de aquele rapaz, por quem tinha um a am izade especial, sentir algum as afinidades com Jane. Seria bom para am bos. Ela precisava de alguém inteligente, decente e sim pático na sua vida, e ele m erecia algum a felicidade depois do que lhe acontecera. A Bill nem sequer passou pela cabeça a hipótese de a ligação entre os dois não resultar pelo fato de Joe se encontrar confinado a um a cadeira de rodas. No que tocava à sua relação com Isabelle, j á não pensava assim .

Olivia e Jane ficaram encantadas com a visita ao pai. No dia seguinte, antes de saírem para as aulas, telefonaram -lhe. Jane não fez qualquer referência a Joe; com o tal, Bill ficou sem saber se este lhe telefonara ou não, m as não queria introm eter-se. Antes de desligarem , Cindy pegou no telefone e perguntou se podia visitá-lo nessa sem ana. Hesitou, m as acabou por concordar. Não via qualquer m al nisso. Afinal de contas, dissera-lhe que ia se divorciar para poderem ficar am igos. Não via Cindy há dois m eses.

Dois dias depois, na terça-feira, Cindy veio j antar com Bill. Quando entraram na lanchonete, lado a lado, ficou espantada. As pessoas sorriam e riam sem se im portarem se conseguiam andar sozinhas, se estavam confinadas a cadeiras de rodas ou se andavam apoiadas em m uletas. Todos pareciam conhecer-se e conversavam anim adam ente uns com os outros. Não se lem brava de ver um lugar com tanta anim ação.

Helena aproxim ou-se para cum prim entar Bill, que a apresentou a Cindy, explicando-lhe tratar-se da sua m ulher.

— Quem era aquela? É m uito bonita.

— É m odelo.

— Você anda com ela? — perguntou Cindy, sentindo-se invadir por um súbito ataque de ciúm es.

Bill riu-se.

— Está noiva.

— O noivo é um cara cheio de sorte! — Cindy sentiu algum alívio.

— Foi o que eu lhe disse. — Bill soltou um a gargalhada. Voltaram então para o quarto e ficaram conversando durante algum tem po. Estava bem -disposta, m as ficou algo triste quando falaram da questão do divórcio.

— Tem certeza de que é isso m esm o que quer? Acho um a estupidez divorciarm o-nos, na nossa idade, ao fim de todos estes anos.

— Já não havia nada entre nós, Cin. Sabe bem — disse Bill, em tom afável, m as firm e.

— Eu acho que havia. E continua a haver. Estam os conversando há horas. Ainda te am o, Bill. Porque não tentam os outra vez?

— Já nada m e resta para dar. Tam bém gosto m uito de você, m as falta-m e a cham a. Sem pre te am arei, m as se tornássem os a tentar, j ulgo que voltaríam os ao m esm o. Se regressar ao trabalho, passarei a m aior parte do tem po viaj ando e ficará aborrecida, entrará outra vez na m esm a vida. — Não quis explicitar, m as am bos sabiam ao que se referia. Voltaria a ter casos am orosos com este e com aquele. — E se não puder trabalhar de novo, arrastar-m e-ei pela casa, enquanto faz a sua vida, e nessa altura serei eu a ficar irritado. Prefiro desenvencilhar-m e sozinho. E você você tem de fazer o m esm o, até encontrar o cara certo.

— Você era o cara certo — retorquiu Cindy, com ar triste. Não podia dizer-lhe que não tinha razão. Mas não se sentia bem com a sua consciência ao deixá-lo sozinho.

— Talvez fosse, talvez não. Se tivesse sido, as coisas não teriam ido dar no que deram .

— Fui estúpida. Agora sinto-m e m ais adulta.

— Sentim o-nos am bos. Por isso, vam os tratar disto com o adultos.

Cindy perm aneceu em silêncio durante alguns instantes, depois, soltou um suspiro. Sentira que Bill tom ara um a decisão inabalável

— E a Isabelle?

— A Isabelle? — Não queria falar dela com Cindy. — Não há nada a dizer.

— Porque não? — Ficou espantada. Custava-lhe a acreditar que Bill estivesse disposto a deixar Isabelle, depois de ter constatado a paixão que tinha por ela. Perguntou-se então se não estaria deprim ido.

— Ela é casada. Eu estou aqui. Não se passa nada.

— Não costum a desistir facilm ente das coisas. Por que razão desistiu dela? Ela não pode ser feliz com o icebergue que vi em Londres. Tem um ar de m á pessoa.

— E é. Mas a Isabelle tem um filho deficiente. Não se atreve a deixar Forrester, pois acha que pode ser m uito traum ático para o rapaz. Acredita, Cin, é um a situação com plicada. Além disso, é um a questão discutível. Não vou arranj ar-lhe m ais problem as. Ela m erece o m elhor. E você tam bém .

Cindy fitou-o dem oradam ente.

— Foi por isso que quis o divórcio? — Estava horrorizada com a idéia.

— Em parte. Mas tam bém tem os outros m otivos. Fi-lo por m im . E vou m anter-m e afastado dela. A m enos que consigam realizar um m ilagre aqui e apontou para as pernas.

— Sabe o que disseram em Londres. Isso não vai acontecer. Não vai sair daqui andando. Não se iluda. Não espere m ilagres.

— E não espero. A m ínim a coisa que aqui conseguir será um a vitória. Só quero dizer que, enquanto estiver assim , não entrarei na vida dela.

— Ela sabe disso? — Era um m otivo terrível para se deixar alguém que se am ava, pior ainda do que os m otivos por que quisera divorciar-se. Cindy achava que, de certa form a, Bill tinha razão para querer divorciar-se, m as nunca se atreveria a dizer tal coisa. Caso ainda estivesse disposto a aceitá-la de volta, não pensaria duas vezes. Mas há m uitos anos que ele a tratava com indiferença. O tem po deles j á passara. — Ela sabe por que razão vai pôr term o ao rom ance que você tem com ela? — Sentia pena de am bos.

Bill fez um sinal negativo com a cabeça.

— Nem sequer sabe que vou fazê-lo. Mas é possível m anter algo vivo a esta distância, sem nos verm os durante m uito tem po. No entanto, talvez acabem os por ficar cada um para seu lado. Vou perm anecer aqui m uito tem po. Ela tem a sua vida. Vai conseguir aguentar-se.

— Não estou m uito certa disso. Parece-m e que ela tem m uito pouca coisa na vida. E m ais im portante ainda: será que você vai aguentar? Se ela for m etade do ser hum ano que desconfio que é, visto você gostar tanto dela, vai estar se lixando para o estado em que você se encontra. Você é m elhor do que m uitos caras que andam . — Era exatam ente o que Helena lhe dissera. — O am or não é isso.

— Talvez não. Mas é assim que eu sou. Nunca lhe farei um a coisa dessas. Ela não vai deixar o Forrester. Não pode.

Cindy considerava a situação dram ática. Depois de esta sair, Bill ficou em silêncio durante um longo instante. Por que razão todas as pessoas insistiam tanto em que o fato de estar confinado a um a cadeira de rodas até ao fim dos seus dias não tinha grande im portância? Para ele, tinha. E sabia que, a longo prazo, tam bém teria para Isabelle. Recusava-se a seguir esse cam inho, com ela ou com outra pessoa qualquer, independentem ente daquilo que Cindy dissera. Esta não fazia a m enor idéia da situação. Sabia m uito bem que ela não iria tolerar isso. Acabaria por detestá-lo por aquilo que ele não era e j á não podia ser. Nunca faria tal coisa a Isabelle, nem que isso significasse m entir-lhe. Estava determ inado a não voltar a vê-la em Paris se não conseguisse sair do avião pelo seu próprio pé. E com o Cindy lhe lem brara, não havia praticam ente nenhum a esperança de voltar a andar.

As sem anas no centro passavam a um a velocidade incrível. Andava tão ocupado, tão cansado, trabalhando com tal afinco nas suas terapias, que m al tinha tem po para respirar.

Gostava da m aioria dos terapeutas com quem trabalhava. Eram inteligentes, enérgicos e j ovens, e m ostravam -se extraordinariam ente interessados nos seus pacientes. Ficara im pressionado com eles desde a prim eira hora. Havia apenas um a terapeuta com quem não se sentia à vontade: Linda Harcourt, que se ocupava da recuperação a nível sexual. Dissera-lhe, logo na prim eira vez que se encontraram , que não tinha qualquer interesse em abordar aquele tipo de terapia com ela.

— Por que razão? — perguntou ela, fitando-o com ar calm o, sentada à secretária. Era um a m ulher m uito bonita, inteligente e m ais ou m enos da sua idade. — Está pensando desistir do sexo? — Indagou, de sorriso nos lábios. — Ou está tudo bem ? — Bill ainda pensou em m entir-lhe, m as, ao constatar a franqueza com que ela lhe falava, deteve-se. Não pretendia lhe falar da inexistente vida sexual, m as o olhar determ inado com que ela o fitava levava-o a ponderar essa hipótese. Linda Harcourt era um a m ulher que im punha atenção e respeito, m as, ao m esm o tem po, exibia um ar dócil. — Vej o na sua ficha que é casado. Acha que a sua esposa gostaria de falar com igo? — Tinha praticam ente certeza de que a função sexual fora afetada pelas lesões e se ele não queria discutir o assunto com ela, talvez a m ulher quisesse. No com eço, era costum e os hom ens sentirem algum retraim ento em falar sobre os seus problem as sexuais. Por vezes, a conversa com as m ulheres facilitava a abordagem dos problem as. Mas Bill acenou lnegativam ente com a cabeça.

— Estou m e divorciando. — Disse, fechando-lhe essa porta na cara.

— Interessante. O acidente teve a ver com essa decisão? — Bill desviou o olhar, ficou alguns instantes em silêncio, depois voltou a fazer um gesto negativo com a cabeça

— Não propriam ente. Já devíam os ter tom ado essa decisão há anos. O acidente só acelerou a abordagem do assunto

A especialista em sexologia foi então um pouco m ais direta.

— Já fez ou tentou fazer sexo depois do acidente? — Indagou, algo cautelosa. Bill ficou surpreendido consigo m esm o ao proferir a resposta, tal a naturalidade com que o fez.

— Já.

— Com o foi? — O tom era am ável, m as firm e. Tratava-se de um a pessoa prática, obj etiva, e o seu rosto não denotava o m enor sinal de com paixão.

— Com o foi para m im ? — Bill riu-se. A sexóloga sorriu. Era o que os hom ens costum avam dizer, quando as coisas não tinham corrido bem e tam bém sabia o que ele diria a seguir.

— Não aconteceu nada.

— Nem ereção, nem ej aculação, nada? — Perguntou, com a m aior das naturalidades, com o se estivesse perguntando se queria nata ou açúcar no café.

— Nem um a coisa nem outra.

— Teve algum a sensação de excitação sexual? — Bill assentiu com a cabeça. — Muito forte. Mas não cheguei a ter ereção. Conseguia sentir tudo... bem , quase tudo.

— Muitas vezes, isso dem ora o seu tem po. Por aquilo que está dizendo-m e, é ainda possível que as coisas m elhorem até ao ponto de vir a ter um a vida sexual relativam ente norm al. Grande parte do êxito reside na form a de encarar o problem a e na criatividade.

Bill sentiu-se deprim ido ao ouvir aquelas palavras. Não queria ser “criativo” nem redefinir o seu conceito de “êxito”. Aliás, nem sequer tinha vontade de voltar a tentar. E com quem é que tentaria a experiência? Com Isabelle? Ela estava em Paris e ele não estava disposto a faze-la passar por novo fracasso. Além disso, não tinha o m ínim o desej o de voltar a dorm ir com Cindy. Seria ainda m ais hum ilhante. Já não se sentia apaixonado por ela.

— Tem algum a parceira?

— Não.

— Não faz m al. Pode fazer a experiência em si próprio. Grande parte do êxito, com o lhe disse, reside na form a com o encarar o problem a, assim com o na form a de lidar com ele, não só a nível das sensações físicas, m as tam bém ao nível da form a de desem penho.

— Não quero fazer nada disso — retorquiu Bill, dando a entender à sexóloga que não queria voltar a vê-la. Não acho que sej a relevante nesta altura.

— E algum dia será? — Olhou-o fixam ente.

— Doutora, não vou fazer figura de tonto, sabendo que as coisas não vão funcionar.

— E se funcionarem ? Está abdicando de um a parte im portante da sua vida.

— Às vezes, as coisas não resultam da form a que querem os. A m inha vida é dedicada ao trabalho.

— A m inha tam bém . — A sexóloga sorriu e entregou-lhe um livro com orientações m édicas sobre o assunto. Bill ainda hesitou em aceitá-lo, m as acabou por fazê-lo. — É para você se entreter a ler. Na próxim a sem ana, vou fazer-lhe um teste. — Bill pareceu ficar em pânico. Ela riu-se. — Tenha calm a. Não é nada do que está pensando. É capaz de achar o livro interessante

A sexóloga deu então o encontro por term inado. Para o prim eiro dia, j á havia conseguido consideráveis avanços. Sabia qual era a visão de Bill sobre a questão e qual fora o resultado da sua prim eira experiência sexual depois do acidente. Estava m uito m ais otim ista do que ele. Quando este chegou ao quarto, atirou o livro para cim a da cam a e, com um sem blante que denotava algum a irritação, sentou-se olhando pela j anela e aí ficou durante longos m inutos. Não queria fazer nenhum a terapia sexual, nem aprender a ser criativo. Queria ser hom em , m as, caso isso não pudesse acontecer, pretendia desistir de tudo aquilo que am ava, inclusive de Isabelle E, naturalm ente, não ia com eçar a sair com m ulheres para com provar se conseguiria atingir e m anter a ereção. Estava determ inado a preservar a sua dignidade, quanto m ais não fosse.

Não falou do encontro com Linda Harcourt a Isabelle. Foi o único aspecto do seu processo de reabilitação que não partilhou com ela. Só dias depois é que, finalm ente, Bill pegou no livro, ficando espantado com as inform ações que ele disponibilizava De acordo com aquilo que leu, a sua prim eira experiência não fora atípica e poderia ainda sentir m elhoras consideráveis à m edida que as lesões fossem cicatrizando. Mas m antinha ainda algum ceticism o quando acabou de o ler. Continuava acreditando que poderia vir a pertencer àquela vasta categoria de hom ens que tinham sensibilidade, m as controle deficiente e ereções que desapareciam com facilidade. E não estava m inim am ente disposto a verificar a evolução do problem a, quer com parceira, quer sozinho. Na sem ana seguinte, quando se encontrou com Linda Harcourt, insistiu novam ente que era m ais fácil para si fechar a porta daquela parte da sua vida. Acrescentou ainda que não queria voltar a encontrar-se com ela. Depois de lhe dar m ais dois livros, a sexóloga propôs que se vissem m ais um a vez, pois queria conhecer a reação dele aos livros que lhe sugerira. Era um a m ulher extrem am ente inteligente e com um a abertura extraordinária. Bill gostava dela, só não queria abordar com ela a sua potencial vida sexual. Achava-se um eunuco e queria m anter-se assim . Hum ilhação, fracasso e desilusão eram palavras que não queria que fizessem parte do seu m undo. Preferia m anter-se celibatário e só.

Alguns dos seus am igos da política haviam descoberto que ele se encontrava ali. Dois deles eram de Washington e, os restantes, de Nova Iorque. Pareciam ignorar o seu estado físico e passaram o tem po todo da visita a pedir-lhe conselhos. Na época do Natal, Bill sentia algum a dificuldade em concentrar-se nas variadas form as de terapia. Os velhos correligionários estavam determ inados a puxá-lo novam ente para a política. Adorava saber o que todas as pessoas fazia e quais eram as suas esperanças, estratégias e planos. O que eles queriam dele, com o sem pre acontecera, era que os aj udasse a garantir os resultados.

Bill com binara passar o Natal na m ansão de Greenwich, com Cindy e as filhas. Arranj aria um a lim usine para o levar na véspera e prom etera às filhas dorm ir lá. Teve um a sensação estranha, m as Cindy dissera que podia ficar num dos dois quartos de hóspedes. As filhas haviam lhe dito que a m ãe tinha um hom em novo na sua vida. Bill ficou feliz por ela.

O carro veio buscá-lo às quatro horas. Um a hora depois, encontrava-se em Greenwich, no cam inho que ia dar na velha casa. Tratava-se de um edifício im ponente, que sem pre adorara, m as que lhe fazia sentir um a nostalgia dos tem pos aí passados. Mas, logo que viu as filhas, sentiu-se m uito m elhor.

Olivia e Jane decoravam a árvore de Natal, quando Bill, sentado na cadeira de rodas, entrou na sala de estar. A aparelho d som tocava canções de Natal. Cindy sentiu um a paz interior com o há m uito não sentia. Quando se virou para cum prim entar as filhas, Bill ficou de olhos esbugalhados ao encarar com Joe Andrews, sentado na sua cadeira de rodas.

Olivia e Jane decoravam a árvore de Natal, quando Bill, sentado na cadeira de rodas, entrou na sala de estar. O aparelho de som tocava canções de Natal. Cindy sentiu um a paz interior com o há m uito não sentia. Quando se virou para cum prim entar as filhas, Bill ficou de olhos esbugalhados ao ver Joe Andrews, sentado na sua cadeira de rodas.

— Com o chegou até aqui? — indagou Bill, espantado. Vira-o, à tarde, no salão de j antar. Joe, com ar acanhado, riu-se. Bill desfez-se num sorriso de orelha a orelha. Joe ficou aliviado por Bill não se m ostrar aborrecido. Jane veio então sentar-se a seu lado e pegou-lhe na m ão.

— A Jane foi buscar-m e depois de sair das aulas — explicou Joe. — O queríam os fazer-lhe um a surpresa.

Bill ficou intrigado. Joe não lhe dissera um a única palavra sobre Jane, desde que se conheceram . Não fazia a m ínim a idéia de que andavam encontrando-se e que as coisas pareciam ter avançado bastante bem nos últim os três m eses.

— Ora, sinto-m e espantado. — Sorriu para os dois. Mas estava satisfeito. Achava Joe um rapaz fantástico.

Nessa noite, j antaram todos j untos e depois foram à m issa. Na m anhã seguinte, Bill e Joe entraram na sala de estar no exato m om ento em que Olivia e Jane desciam as escadas. Cindy j á fizera o café da m anhã. O seu novo nam orado acom panhou-os ao alm oço. Parecia ser um hom em m uito afável e inteligente. Era viúvo, tinha quatro filhos crescidos e parecia gostar bastante de Cindy, o que agradava a Bill. Este estava surpreso consigo m esm o, ao constatar que não sentia cium ento, nem possessivo, o que vinha a confirm ar, m ais um a vez, que o divórcio fora a m elhor opção.

Bill e Joe voltaram para o centro de recuperação ao fim do dia de Natal, satisfeitos com os m om entos agradáveis que haviam partilhado. Porém , para Bill, para a satisfação ser com pleta, só faltara Isabelle. Telefonara-lhe várias vezes, tendo-lhe ela respondido que estava tudo bem , m as a voz denotava tristeza e nervosism o. Gordon dificultara-lhe a vida nos últim os dois m eses. Continuava a puni-la pelo caso am oroso que acreditava que ela tivera, com o se o acidente não houvesse sido castigo suficiente. Além disso, Teddy parecia estar perdendo peso. Sophie viera passar as férias em casa. Logo após o Natal, ia esquiar com uns am igos em Courchevelle.

— Não está aborrecido com igo por andar com a Jane? — Perguntou Joe, cautelosam ente.

Bill sorriu e disse que não com a cabeça.

— Ela m erece um cara bom com o você, e você m erece algo m elhor do que um a m oça parecida com um a rã.

E riram -se am bos ao lem brarem -se da irm ã de Helena. A m odelo fora a Nova Iorque passar o Natal com o noivo. Antes de partirem , todos tinham trocado presentes entre si.

Bill estava convencido de que a relação entre Jane e Joe não iria durar m uito. Eram dem asiado j ovens para pensar em com prom issos m ais sérios. Olivia confessara que tam bém tinha um novo nam orado. Era assessor de um senador que Bill conhecia. Na viagem de volta ao hospital não conseguiu deixar de pensar que todas as pessoas tinham alguém nas suas vidas, m enos ele. Continuava apaixonado por Isabelle. Mas com esta em Paris, com Gordon e os filhos, tinha a sensação de que ela se encontrava a anos-luz de distância. E, pela prim eira vez, em m uito tem po, sentia-se só e triste. Joe saíra com os am igos. Jane viria visitá-lo no dia seguinte. Meteu-se então na cam a e tentou ler um livro, m as não conseguiu concentrar-se nele. E sentiu um alívio quando Jane lhe telefonou, j á a noite ia adiantada.

— Está zangado com igo, papai? — O tom de voz era o m esm o de quando batera com o carro do pai, no prim eiro ano do secundário.

Bill soltou um a gargalhada.

— Claro que não. Por que m otivo é que haveria de estar zangado com você?

— Não sabia o que iria pensar de m im e do Joe.

— O que achas dele? — Bill com eçava a ficar com pena de não ter tido aquela conversa m ais cedo, em casa, para poder ver-lhe a cara enquanto falavam . O tom de Jane era sério.

— Am o-o m uito. Nunca conheci ninguém com o ele.

— Tam bém gosto dele. E tem passado por situações m uito com plicadas. A paralisia das pernas, o traum a do acidente, a perda da noiva e do irm ão gêm eo. Um a vida destroçada para sem pre.

— Eu sei. Ele falou-m e disso. A noiva m orreu nos braços dele. Diz que nunca irá perdoar-se.

— Pelo que sei, o acidente não foi culpa dele. O que ele tem é o com plexo de culpa do sobrevivente, porque está vivo e as outras pessoas m orreram . Ultrapassará isso com o tem po.

— O quero estar ao lado dele, papai.

Instalou-se então um longo silêncio, enquanto Bill assim ilava todo o peso daquilo que Jane acabara de dizer.

— O que quer dizer-m e, Janie? — De repente, perguntou-se se a filha estaria tentando dizer que iam casar-se. Tratava-se de um a perspectiva que não via com bons olhos. Eram am bos m uito novos e Joe ainda tinha um longo e sinuoso cam inho à sua frente. Não havia qualquer esperança de voltar a andar sozinho. Sentia que era dem asiada responsabilidade para ela. Com o rom ance, não haveria problem a, m as achava que algo m ais sério que isso seria um erro para am bos.

— O que a m inha relação com o Joe é séria.

— Com eço a entender essa m ensagem . Ele tam bém pensa o m esm o?

— Julgo que sim . Ainda não falam os sobre o assunto, m as ele é um cara m aravilhoso.

— Acho que você não deve assum ir um com prom isso sério agora. Ainda está na faculdade e falarem os disso um dia. — Mudou então de assunto. Falaram do m aravilhoso Natal que haviam passado j untos, com o nos velhos tem pos. Não houvera qualquer tensão entre ele e Cindy e até gostara do novo nam orado dela. Jane dissera-lhe então que iria dar-lhe um beij inho no dia seguinte, quando fosse ver Joe.

A conversa deixou-o algo pensativo. Nessa noite, quando falou com Isabelle, pô-la a par do que se passava.

— Nem sequer quero que ela pense em casar-se com o rapaz. Custa-m e dizer isto, porque é um bom garoto.

— Então por que razão é que não podem casar-se um dia? Muita gente o faz com a idade que eles têm . São j ovens, m as a Jane parece-m e j á m adura para a idade e o pobre rapaz j á sofreu tanto.

— Seria um desastre para ela, Isabelle. Ele precisa de alguém que consiga acom panhá-lo para todo o lado. Ela adora esquiar, correr e andar de bicicleta. Um dia, irá querer ter filhos. O Joe ficará confinado à cadeira de rodas até ao fim da sua vida. Ela m erece m ais do que isso. — E ele tam bém , m as não tinha escolha. Jane tinha.

— O que coisa horrível você está dizendo — ripostou Isabelle, num tom algo irritado. — O que diferença é que isso faz, se ela esquia com os am igos, ou dança com outra pessoa qualquer? Está querendo dizer-m e que se opõe a que se casem , m esm o que se am em , só porque ele não pode andar de bicicleta? É um a posição extrem am ente conservadora da sua parte. É um trem endo disparate.