O Beijo
Capítulo Sete
— O que disse o m édico? — indagou Cindy, antes de saírem .
— Que irá desenvencilhar-se bem — sussurrou Bill. Cindy ficou de im ediato de lágrim as nos olhos. — Estava brincando. Disse que podia recuperar algum a sensibilidade nas pernas, com m uito trabalho. É um desafio interessante. Quem sabe. Talvez consigam o m ilagre de m e porem a andar. — Continuava a acreditar nessa hipótese, em bora, segundo o m édico, fosse m uito pouco provável. — Inicio a fisioterapia dentro de três sem anas. Só querem com eçar quando as fraturas estiverem m elhor cicatrizadas.
— Pode fazer a fisioterapia em casa — sugeriu Cindy. Continuava destroçada com a decisão do m arido, m as ainda acreditava que, com o tem po, ele voltasse atrás.
— Talvez. Verem os — retorquiu Bill, evasivo. Não queria dizer m uita coisa diante das filhas. — E você? Quando é que vai para casa? Já pensou nisso? — indagou, algo desanim ado. Fora um a tarde difícil.
— As m eninas querem ficar aqui o resto da sem ana. Pensei em levá-las para passar uns dias em Paris, se você estiver bem ; depois posso voltar. — Continuava com a esperança de que Bill m udasse de idéia, m as a voz deste foi firm e. Não havia qualquer arrependim ento da sua parte. Sabia que estava fazendo aquilo que a sua consciência m andava.
— Não é preciso. Estou bem . Devia voltar com as m eninas. Sei que pretende ir ver os seus pais no Maine. — Cindy j á resolvera não voltar à Europa. Depois do Maine, iria diretam ente para a casa em Ham pton. — Volto para os Estados Unidos dentro de pouco tem po. — Havia m uita coisa que Bill tinha de fazer. Se voltasse para os Estados Unidos, devia procurar um a clínica de reabilitação onde pudesse ficar durante uns tem pos. Depois, precisava arranj ar um apartam ento e sair de casa. Mas ainda era m uito cedo para pensar nisso. E, prim eiro, teriam de contar às filhas o que haviam resolvido. Queria fazê-lo na com panhia de Cindy, de m odo a que as filhas percebessem que os pais continuavam sendo am igos. Isso tinha m uita im portância para si, e para elas tam bém , seguram ente.
Cindy e as filhas voltaram para o hotel, para j antar. Bill ficou toda a noite em silêncio. Tinha um a vontade louca de ir ver Isabelle de novo, m as não queria abusar da sorte e Gordon ainda poderia estar na cidade. De qualquer form a, sentia-se cansado. Fora um dia cheio. Haviam lhe dito que, m uito provavelm ente, nunca m ais voltaria a andar, “talvez” conseguisse m anter a função sexual, em bora não tivessem certeza, vira Isabelle, tivera um em bate com Gordon e dissera a Cindy que queria o divórcio.
CAPÍTULO SETE
Gordon Forrester partiu para Paris na m adrugada de segunda-feira. Telefonou para o hospital antes de partir e inform aram -no de que o estado de Isabelle não sofrera qualquer evolução. Levava consigo todos os pertences dela que haviam ficado no quarto do hotel. Não fazia sentido deixar-lhe nada no hospital. No estado em que se encontrava, não precisava de nada. Ao atravessar o canal da Mancha, sentia que sabia tanto quanto quando chegara. Os m édicos ainda não tinham certeza se ela sobreviveria ou não. Os órgãos internos pareciam estar recuperando-se m uito lentam ente. O coração e os pulm ões eram os alvos de m aior preocupação. As lesões no fígado levariam m uito tem po para sarar e o traum atism o craniano, se bem que m enos grave que o resto das lesões, continuava a m antê-la em com a profundo. Mas, se iria acordar, m orrer ou continuar eternam ente em com a, era um a história ainda por contar. Havia m uitas questões em aberto, o fato de estar viva cinco dias depois do acidente j á era um sinal de esperança, m as o seu estado continuava a ser extrem am ente crítico.
Quando aterrissou no Aeroporto Charles de Gaulle, em Roissy, Gordon sabia que não podia continuar encobrindo as coisas dos filhos. Estivera à espera que houvesse sinais de recuperação da parte de Isabelle, m as isso nunca acontecera, e achava perigoso continuar nesse im passe. Sophie j á tinha idade suficiente para saber a verdade, que estava na im inência de perder a m ãe e Teddy, por m ais doente que fosse, só tinha de encarar o fato. Estava certo de que Sophie lhe daria algum conforto. Iria esperar que ela regressasse de Portugal para contar a Teddy. Não era o tipo de situação em que se considerassse perito e especialm ente naquele caso, em que praticam ente não tinha qualquer relação com o filho.
Ao pôr as m alas num táxi, em Roissy, pensou novam ente em Bill Robinson e no encontro desagradável que haviam tido. Continuava enfurecido pela audácia e a arrogância da pergunta de Bill relativa ao m otivo por que detestava Isabelle. Não conseguiu deixar de perguntar-se se essa era a opinião dela. Não detestava a esposa. Perdera-a nos anos caóticos e abism ais que se haviam seguido ao nascim ento de Teddy. Aos seus olhos, Isabelle j á não era sua esposa, era a enferm eira de Teddy, nada m ais do que isso.
Não se adm iraria se Isabelle j ustificasse o caso com Bill com o fato de o m arido a detestar. Se tinham estado j untos no Annabel’s, com o os j ornais e a fotografia com provavam , a ligação não era tão inocente com o Bill queria fazer crer. Gordon ainda tinha um a grande quantidade de perguntas sem respostas m as, a não ser que Isabelle se recuperasse, sabia que nunca as iria obter. Bill Robinson não iria dizer-lhe rigorosam ente nada. Toda essa questão aborrecia-o, m as era um fato indesm entível que há anos não pensava em Isabelle do ponto de vista rom ântico ou sexual.
Deixara instruções expressas no hospital para que Bill não voltasse a ser autorizado a voltar ao quarto de Isabelle. A enferm eira tom ara nota do pedido, m as ele ficara com a estranha sensação de que iriam fazer letra m orta deste. Mostravam um a sim patia descom unal por Bill e nenhum a por ele. Já para não falar no enorm e respeito e adm iração por quem ele era. Bill Robinson era um hom em m uito im portante.
Quando deixou o aeroporto, foi direto ao escritório, de onde fez um a série de telefonem as. Explicou a situação à secretária e esta não lhe referiu que vira a fotografia de Isabelle e Bill no International Herald Tribune. Nessa tarde, a pedido de Gordon, deu-lhe o núm ero de Sophie em Portugal. Isabelle deixara-o com a secretária quando partira para Londres.
Sophie estava hospedada num a casa alugada em Sintra. Não se encontrava em casa, de m odo que Gordon não teve outro rem édio senão deixar-lhe recado para telefonar, o que aconteceu às seis horas, quando se preparava para abandonar o escritório. Pegou o telefone e soltou um suspiro, tentando ganhar coragem para aquilo que tinha a dizer.
— Que tal estava Londres. Você e a m am ãe divertiram -se?
— Com o é que sabe que fui a Londres? — Não dissera rigorosam ente a ninguém , à exceção de Teddy e da enferm eira.
— Telefonei para casa no fim de sem ana e falei com o Teddy. Ele não lhe disse?
— Ainda não o vi. Fui direto do aeroporto para o escritório — disse Gordon, num tom frio. Tentava escolher as palavras certas.
— Então, telefono para casa. Tenho de perguntar um a coisa à m am ãe.
— Ela não pode falar com você — declarou Gordon, num tom enigm ático. Vivia um pesadelo do qual não conseguia acordar. E para agravar ainda m ais a situação, tinha de puxar os filhos para dentro desse m esm o pesadelo.
— Porquê. Saiu?
— Não, a sua m ãe está em Londres.
— Engraçado. Ela ficou lá? — Não era costum e a m ãe deixar Teddy sozinho durante seis dias. Sophie sabia que a m ãe partira para Londres na terça-feira. — Quando é que volta? — Mostrava-se confusa.
— Ainda não sabem os. — Soltou um últim o suspiro e foi direto à questão. — A sua m ãe sofreu um acidente. — Instalou-se então um silêncio sinistro do outro lado da linha. O coração de Sophie batia m ais do que nunca. Havia algo aterrador no tom de voz de Gordon. — Um acidente m uito grave. Acho que devia voltar para casa.
— O que aconteceu? Ela está bem ? — Mal conseguia articular as palavras.
— Encontrava-se num carro que foi abalroado por um ônibus. Está em com a. Não sabem o que vai acontecer. Tem lesões internas m uito graves. Pode não sobreviver. Desculpa estar dizendo-lhe isto pelo telefone. Mas quero que regresse a Paris o m ais depressa possível. — Apesar dos sentim entos pela filha e alegadam ente por Isabelle, Gordon dava a im pressão de estar m arcando um a reunião de negócios. Fazia o possível para não sentir a dor da filha. Era um a fraqueza que não podia perm itir-se
— Oh, m eu Deus. oh, m eu Deus... — Sophie encontrava-se no lim iar do histerism o, o que não era costum e nela. Norm alm ente, era um a pessoa fria e calm a, m uito ao j eito do pai. Mas aquilo que este lhe dissera suplantava os seus piores pesadelos. Preparara-se, toda a vida, para perder o irm ão, m as nunca a m ãe, por quem tinha um am or incom ensurável. — Oh, m eu Deus, papai, acha que ela vai m orrer?
Gordon ouvia Sophie chorando e, por instantes, ficou sem saber o que dizer.
— É possível — respondeu, com algum desconforto, de olhar perdido no espaço. E veio-lhe à m em ória o dia em que a m ãe m orrera. Tentou então ver-se livre dessas recordações. — O fato de ainda estar viva j á é um sinal anim ador, m as o seu estado é extrem am ente crítico e não tem havido m elhoras.
Sophie desatou a chorar convulsivam ente. Gordon ficou sem saber o que dizer. Não queria m entir-lhe, nem dar-lhe falsas esperanças. A verdade era que Isabelle podia m orrer a qualquer m om ento. Sophie tinha de encarar essa realidade, tal com o Teddy.
Sophie lem brou-se então de algo que lhe provocou um calafrio na espinha.
— O Teddy j á sabe? — Ele nunca lhe m entira. Sophie não conseguia im aginar o irm ão escondendo aquele tipo de segredo dela.
— Não, não sabe. Espero que lhe diga quando voltar. Acho que devia com eçar j á a tratar da viagem de volta. Você tem aí alguém que possa aj udar-te?
— Não sei — respondeu, algo desorientada. — Quero ir a Londres ver a m am ãe. — Parecia um a criança de cinco anos. De repente, sentia-se um a órfã.
— Quero que venha prim eiro para casa — ordenou o pai, num tom firm e. Queria-a consigo quando desse a notícia a Teddy. Não queria carregar esse fardo sozinho.
— Está bem — retorquiu Sophie, ainda chorando convulsivam ente.
— Telefona-m e quando souber a hora de chegada. Mando alguém buscar-te. — Nem m esm o naquelas circunstâncias pôs a hipótese de ser ele próprio a ir buscá-la. O caráter reservado era tão natural nele que nem m esm o pela filha quebrava essas barreiras. Mas Sophie j á estava habituada a esse com portam ento da parte do pai. Aliás, todos estavam , em bora ela fosse a m ais chegada a ele.
— Vou tentar chegar aí esta noite. — Estava a duas horas de viagem . Ainda poderia apanhar um avião ao fim do dia, se agilizasse. Caso contrário, teria de esperar até à m anhã seguinte.
Depois de desligar, Gordon pediu ao m otorista que o conduzisse para casa. Era a prim eira vez que via Teddy em quatro dias. Este parecia bem disposto e perguntou pela m ãe logo que viu o pai à porta do quarto
— Onde está a m am ãe. Lá em baixo? — Os olhos até brilharam quando pronunciou a palavra “m am ã”.
— Não, não está — respondeu Gordon, evitando dar m ais porm enores. A Sophie deve chegar logo à noite.
— Sério? — Teddy pareceu surpreendido, m as a m anobra de diversão não surtira efeito. — A m am ãe disse que a Sophie ficaria duas sem anas em Portugal. Por que volta tão cedo? — Esta não lhe referira esse fato quando lhe telefonara no sábado e, instintivam ente, teve um pressentim ento. Então, com o um cão que volta para o seu osso, fez a m esm a pergunta. — Onde está a m am ãe?
Gordon nem sequer se deu ao trabalho de lhe responder que ainda se encontrava em Londres. Teddy pressentia que havia algo que não estava bem . Era um a criança inteligente e sensível, que não se deixava enganar facilm ente. A Gordon só lhe restava esperar que Sophie chegasse em casa o m ais depressa possível para o aj udar a dar-lhe a notícia. Decidiu resolver o problem a m etendo-se na biblioteca e ficou espantado quando, um a hora depois, levantou os olhos e viu Teddy entrar devagarinho na sala. Insistira em descer as escadas sozinho. A enferm eira não conseguira detê-lo. Estava com um ar agitado e m uito pálido.
— Passa-se qualquer coisa — disse Teddy, sem fôlego, encostando-se a um a cadeira, ao m esm o tem po que fixava o pai nos olhos. Gordon sem pre o tratara com desdém durante toda a vida, m as desta vez não ia ficar calado. Exibia o m esm o ar determ inado da m ãe. O pai nunca o vira assim e, pela prim eira vez, reparou que Teddy j á não parecia um garoto pequeno. — Quero saber onde está a m inha m ãe. — E sentou-se. Estava disposto a esperar toda a noite por um a resposta. Só a força o levariam dali. Gordon tentou m ostrar um ar irritado para dissim ular o pavor que sentia dentro de si. A debilidade do filho sem pre lhe causara algum desconforto, m as Teddy estava m uito m elhor. Seis m eses antes não teria conseguido descer as escadas. Gordon soltou um suspiro, não vendo form a de evitar a resposta.
— A sua m ãe está em Londres — respondeu, com a esperança de que não houvesse perguntas subsequentes. Mas o olhar do filho indicava que a resposta não o satisfizera.
— Porquê?
— Foi a um a exposição de arte — retorquiu Gordon, desviando o olhar, e tentando que o filho desistisse de fazer perguntas.
— Eu sei. Foi há seis dias. Porque não voltou com você? — Gordon levantou os olhos e teve a sensação de estar a ver o filho pela prim eira vez. Passara a vida inteira sem lhe dar nenhum a im portância. E agora não conseguia evitar o seu olhar fixo.
Era um rapaz bonito, m as tudo lhe correra m al na vida. As enferm idades de que padecia sem pre tinham aterrorizado Gordon, que, agora, ao ver a angústia estam pada no olhar do filho, não conseguia disfarçar um a certa perturbação. Não podia adiar por m ais tem po o m om ento de lhe contar a verdade, m as não queria com isso ser responsável por um retrocesso no seu estado de saúde. A vida de Teddy sem pre se m antivera presa por um fio e não queria ser ele a cortar esse fio vital com a notícia do desastre que atirara a m ãe para a cam a de um hospital.
— Teve um acidente — inform ou Gordon, em voz baixa, sem olhar para o filho. Não conseguiria suportar aquilo que sabia que veria nos olhos do rapaz. Teddy conteve a respiração.
— Está bem ? — A voz saiu-lhe num sussurro. Já pressentia que algo se passava, m as estava aterrorizado com aquilo que o pai iria dizer-lhe.
— Vai ficar boa, espero. Não sabem os ainda. Está m uito m al. Sinto m uito — disse, algo constrangido. Mas Teddy não chorou. Manteve-se sentado, respirando cuidadosam ente, de olhos postos no pai, à espera que este desse m ais porm enores.
— Não a pode deixar m orrer — m urm urou Teddy, com o se Gordon tivesse algum poder para alterar o rum o das coisas.
— Não depende de m im . Sabe bem que não quero que lhe aconteça nada. — Mas o olhar de Teddy falava por si. Sabia m uito bem com o a m ãe era infeliz, em bora ela nunca tivesse feito qualquer com entário a esse respeito. Era a segunda vez em dois dias que alguém acusava Gordon de não gostar de Isabelle e isso irritava-o.
— É por isso que a Sophie vai voltar para casa? — Gordon fez um gesto afirm ativo com a cabeça. Estava sentado em frente ao filho, do outro lado da sala. Nunca lhe passou pela cabeça levantar-se e ir abraçá-lo. Teria sido algo que não era natural nele. Ao contrário de Isabelle, que estaria abraçada a Teddy, caso tivesse sido Gordon a ter o acidente. Até ele sabia isso.
— Quero ir a Londres com a Sophie ou com você — disse Teddy, com ar determ inado. — Quando é que voltará lá? — Tinha certeza de que iria. Não conseguia suportar a idéia de a m ãe lá estar sozinha.
— Não sei. Achei m elhor vir para j unto de você. — Teddy tentava entender o que o pai acabara de dizer.
Gordon estava espantado com o fato de o filho não estar chorando. Teddy era m ais coraj oso do que j ulgava.
— Quero falar com ela. Pode telefonar-lhe agora? — Gordon fez um gesto negativo com a cabeça.
— Não, não podem os. Está inconsciente desde o acidente. Encontra-se em com a, por causa de um a pancada na cabeça.
— Oh, não! — exclam ou Teddy, im aginando a m ãe gravem ente ferida. Desatou, finalm ente, a chorar. — Quero ir j á vê-la. — Mostrava-se extrem am ente agitado.
— Ela não dará pela sua presença. E não te faria bem nenhum . Além disso, você não está em condições de fazer a viagem .
Era um a realidade com que tinha de viver, por pior que fosse o estado de saúde da m ãe. Um a viagem até Londres encontrava-se fora de questão.
— Eu tenho forças suficientes para aguentar a viagem — ripostou Teddy, em tom intem pestivo, lim pando as lágrim as. — A m am ãe precisa de nós no hospital. Ela está sem pre ao pé de m im . Não podem os deixá-la sozinha, papai. Não devem os fazer isso. — De repente, parecia de novo um a criança, chorando, sem saber o que fazer.
— Esperem os até a Sophie chegar. — Gordon exibia um ar cansado. — Porque não vai descansar em seu quarto? Isto não te faz nada bem — disse-lhe, com o se Teddy fosse um a pessoa adulta, m as este não se im portou. A única coisa que queria era ir para j unto da m ãe. Nada o iria deter. Ainda falava no assunto quando entrou no pequeno elevador que havia sido m ontado propositadam ente para ele, ao lado das escadas, há vários anos. Chegou ao quarto e deitou-se. O olhar chispava de raiva. Falava sem parar. Depois de j antar, a enferm eira m ediu-lhe a tem peratura. Estava com febre. Ficara dem asiado agitado, o que era perigoso. Precisam ente o tipo de reação que Gordon esperava que Teddy tivesse quando ouvisse a notícia.
Este ainda se encontrava acordado quando Sophie chegou, ao fim da noite. Conseguira apanhar o voo das oito, e à m eia-noite j á se encontrava em Paris.
Quando ouviu o carro, Gordon levantou-se e foi esperá-la à porta de casa. Sophie lançou-se nos braços do pai m al o viu e desatou a chorar.
— Oh, papai... por favor, não a deixe m orrer... — Gordon nunca vira a filha tão transtornada. Logo que ficou m ais calm a, foi ver o irm ão. Teddy aguardava-a na cam a. E abraçaram -se com o se não se vissem há vários anos. A coisa m ais terrível e im pensável acontecera-lhes. Nem queriam acreditar. Era algo que estava para além do tolerável, do racional. Choraram durante m uito tem po nos braços um do outro. Finalm ente, o pai entrou no quarto, o rosto m arcado pelo cansaço. As em oções do dia haviam sido dem asiado fortes para todos.
— Vou com você a Londres ver a m am ãe — afirm ou Teddy para Sophie, enquanto o pai os observava, de sem blante carregado. A reação dos filhos fora ainda pior do que aquilo que receava.
— Acho que ele não devia ir. Ficará pior do que está. — Gordon falava de Teddy com o se este não o ouvisse.
— A m am ãe não aprovaria — acrescentou Sophie, afagando os cabelos do irm ão, que estava ardendo em febre. — Ficaria aborrecida se você piorasse, e não será bom para ela quando acordar. — Sophie sublinhou a palavra “quando”, não pondo sequer a hipótese de haver um “se”. Teddy ouvia-a, de olhos esbugalhados.
— Quero vê-la de qualquer m aneira, m esm o que estej a em com a. Saberá que estou ao lado dela. — Era a m esm a teoria de Bill, m as Gordon não concordava. Achava que a visita de Teddy não fazia qualquer sentido.
— Ela não tem consciência de quem está j unto de si. — Gordon estava seguro disso, não acreditava que as pessoas em com a ouvissem o que quer que fosse, ou sentissem o que se passava à sua volta. Especialm ente depois de a ver, estava convencido de que era um disparate e não iria perm itir que o filho fosse vê-la. Seria um a loucura e um enorm e risco para quem o levasse lá. Teddy encontrava-se dem asiado debilitado para sair de casa, quanto m ais para fazer um a viagem daquela envergadura.
— Então, Sophie, para que é que vai lá, j á que a m am ãe não tem consciência de que está lá? — indagou Teddy, num tom algo m ordaz.
— A Sophie não está doente — ripostou Gordon. — E acho que deve ir. Eu fico aqui com você.
— Não vai, papai? — Sophie pareceu algo chocada, m as não fez qualquer com entário quando o pai abanou a cabeça.
— Vou quando você voltar. Pode ir am anhã e passar o dia lá, ou a noite, com o preferir.
— Pensei em ficar lá m ais algum tem po, talvez uns dias.
— Verem os com o ela está, m as não fique lá m uito tem po — disse Gordon, e saiu do quarto. Não pretendia perm anecer sozinho com o filho durante um longo período de tem po. Queria que fosse Sophie a cuidar dele, o que não poderia acontecer se ela ficasse em Londres com a m ãe.
Nessa noite, Sophie dorm iu na cam a de Teddy, abraçada a ele. No dia seguinte, levantou-se cedo, ele ainda dorm ia. Tom ou um banho e vestiu-se. Estava pronta para partir para o aeroporto quando Teddy acordou.
— Já vai? — perguntou Teddy, com sono. — Tam bém quero ir. — Mas estava tão exausto e tão fraco que m al conseguia m exer-se. A noite anterior fora dem asiado cansativa para ele.
— Volto o m ais depressa que puder — sussurrou Sophie, e saiu. Ia despedir-se do pai, m as este j á partira para o banco. Conseguira o bilhete na noite anterior e tinha reserva no Claridge’s. Sabia o nom e do hospital onde a m ãe se encontrava internada: Hospital St. Thom as. E ainda tinha dinheiro que havia sobrado da viagem a Portugal. O m otorista do pai aguardava-a à porta. Meia hora depois, encontrava-se em Roissy. Não havia trânsito nas ruas, e aparentava um ar m uito m ais calm o do que na véspera.
O voo aterrissou ao m eio-dia, hora local, e um carro do Claridge’s conduziu-a de im ediato ao hospital. Sophie sentia-se um a pessoa adulta no seu vestido azul-m arinho e com o par de sapatos que a m ãe lhe com prara. Os cabelos estavam puxados para trás. Porém , para quem a visse, m esm o com os seus dezoito anos, parecia um a criança, os seus enorm es olhos assustados e carregados de angústia.
As enferm eiras sorriram quando Sophie se dirigiu à recepção. Depois de se identificar, um a das enferm eiras conduziu-a, de im ediato, ao quarto da m ãe. A porta em frente deste encontrava-se aberta e viu um hom em olhando para ela. Estava deitado de lado, de olhos postos na porta, incapaz de se m exer.
Pé ante pé, Sophie entrou no quarto e ficou de im ediato chocada com o que viu. A m ãe tinha um ar cadavérico e a cabeça envolta em ataduras. Um ventilador aj udava-a a respirar e havia m onitores e tubos ligados a todas as partes do corpo. Ao aproxim ar-se da cam a, os olhos inundaram -se de lágrim as. E ficou com o que petrificada, de olhos pregados na m ãe, acariciando-lhe a m ão. A enferm eira puxou então um a cadeira para j unto da cam a e Sophie sentou-se. Instintivam ente, com eçou a falar com a m ãe, com a esperança de que esta ouvisse. Disse-lhe o quanto a am ava e rogou-lhe para que vivesse. Isabelle não exibia qualquer sinal de vida. As únicas coisas que m exiam eram o ventilador e as pequenas linhas dos m onitores. Não havia qualquer outro som ou m ovim ento no quarto. A m ãe estava com um aspecto ainda m ais aterrador do que esperara. Só a m uito custo conseguiria sobreviver.
Sophie m anteve-se sentada ao lado da m ãe até por volta das quatro horas, hora na qual saiu do quarto. O m esm o hom em que a vira entrar olhava de novo para ela. As enferm eiras haviam -no inform ado de que se tratava da filha de Isabelle, m as ele, m al a vira, percebera logo de quem se tratava. Parecia Isabelle em m ais j ovem .
— Sophie? — cham ou Bill.
Sophie ficou espantada por ele saber o seu nom e. Aproxim ou-se então da porta.
— Sim — respondeu, com algum a hesitação. Ainda estava abalada por aquilo que acabara de ver. Bill teve vontade de a abraçar. Seria o m ínim o que poderia fazer por Isabelle.
— Cham o-m e Bill Robinson. A sua m ãe e eu som os am igos. Eu estava no carro com ela — disse, com o que pedindo desculpa por ela se encontrar ali. — Lam ento o que aconteceu.
Sophie assentiu com a cabeça, sem tirar os olhos dele. Não se lem brava da m ãe algum a vez ter referido o seu nom e, m as parecia um hom em sim pático e tam bém ficara m uito m altratado, m as, ao contrário da m ãe, estava acordado e vivo.
— O que lhe aconteceu no acidente? — indagou Sophie, cautelosa, receosa de entrar no quarto. Ainda não percebera quem ele era ou por que razão estava com a m ãe.
— Fraturei o pescoço e tive traum atism o craniano. Mas a sua m ãe está pior do que eu — proferiu Bill, com ar triste. — Daria o que fosse preciso para trocar com a sua m ãe. daria até a vida, se pudesse.
Sophie ficou im pressionada por aquilo que ele dissera e estava curiosa por saber com o é que ele e a m ãe haviam se tornado am igos. Por causa de Teddy, a m ãe nunca ia a lado nenhum .
— Com o é que o Teddy está encarando a situação? Já sabe?
— O m eu pai contou-lhe ontem à noite — respondeu Sophie. Era estranho ele conhecer toda a sua fam ília e esta não o conhecer. — Ficou um pouco abalado ontem à noite, teve febre, m as queria vir do m esm o j eito. Am anhã, tenho de voltar para tratar dele. Preferia ficar, m as ele precisa de m im .
Bill tinha vontade de estender o braço e tocar-lhe. Era tão parecida com a m ãe.
— Há algum a coisa que possa fazer por você? — perguntou Bill, sentindo-se tão desam parado com o ela. Ninguém podia fazer o que quer que fosse. Ninguém podia alterar o rum o das coisas. E se Isabelle sairia ou não de com a, só Deus sabia.
— Não, estou bem . — Mas o sem blante era triste.
— Onde está hospedada?
— No Claridge’s.
— A m inha m ulher e as m inhas filhas tam bém estão lá. Se tiver algum problem a, telefone-lhes. — Mal acabou de dizer isto, Cindy e as filhas apareceram à porta do quarto e viram Sophie falando com Bill. Este fez então as apresentações. Sophie fez m enção de sair. Não queria fazer o papel de intrusa. Ficou com a im pressão de que Jane teria a m esm a idade que ela, e não se enganava. Despediu-se delicadam ente de todos e saiu. Voltaria ao fim da noite.
— É a filha dela? — indagou Cindy.
— É. Tam bém tem um filho, m as está m uito doente. — Cindy não fez qualquer com entário e com eçou a deam bular pelo quarto, sem saber bem o que fazer. As filhas falavam com o pai.
Haviam resolvido partir no dia seguinte. Iam perm anecer um a sem ana em Paris. Na viagem de regresso aos Estados Unidos passariam por Londres. Bill achou boa idéia e pediu-lhes que se divertissem . Concordara com Cindy em falar-lhes do divórcio nessa época. Quando chegassem em casa, teriam tem po de se habituar à idéia. Bill não queria estragar-lhes a viagem a Paris. Nessa noite, Cindy ia levar as filhas para j antar fora. Iam aproveitar-se do fato de Bill ser cliente habitual do Bar Harry ’s. Ao ouvir isto, Bill pensou de im ediato em Isabelle e lem brou-se dos m om entos inesquecíveis passados na sua com panhia.
À noite, quando Sophie voltou para ver a m ãe, Bill estava deitado de costas, pensando em Isabelle. Desta vez, entrou no quarto para se inform ar do seu estado de saúde.
— Com o é que se sente, Mister Robinson?
— Praticam ente na m esm a. E você, Sophie? Com o está?
Ela encolheu os om bros e os olhos inundaram -se de lágrim as. Cortava-lhe o coração ver a m ãe naquele estado, e não havia qualquer sinal de ela estar em vias de recuperar a consciência. Isabelle encontrava-se suspensa num lugar rem oto de onde ninguém sabia se regressaria algum dia. As enferm eiras haviam -lhe dito que ela podia viver assim durante anos, sem sair do estado de com a, até m orrer. Além de ser um a perspectiva hedionda e representar a perda de um a m ulher extraordinária, era um a inj ustiça desesperante. Desde o acidente que Bill desej ava m orrer e que Isabelle fosse poupada.
— Com o é que conheceu a m inha m ãe? — indagou Sophie, colocando-se ao lado da cam a. Desde essa tarde que a questão não lhe saía da cabeça. O pai não lhe dissera que a m ãe se encontrava no carro com outra pessoa. Ficara espantada quando Bill lhe referira esse fato.
— Conhecem o-nos há m uito tem po, na Em baixada dos Estados Unidos, em Paris. — Bill sentiu, de repente, necessidade de falar de Isabelle, e ficou grato a Sophie por puxar o assunto. — Alm oçam os j untos um as duas vezes por ano e conversam os, às vezes, ao telefone. E ela conta-m e tudo acerca do Teddy e de você.
Sophie teve vontade de lhe perguntar se estava apaixonado pela m ãe, ou esta por ele, m as, com o eram am bos casados, achou que seria um pouco grosseiro da sua parte. Mas achava estranho a m ãe nunca ter lhe falado nele.
— Tam bém conhece o m eu pai? — Bill sorriu e convidou-a a sentar-se.
— Sim , tam bém o conheço. Julgo que está furioso com igo desde o acidente. Crê que isto nunca teria acontecido se não tivéssem os ido j antar fora. No lugar dele tam bém pensaria assim .
— A culpa não é sua. A enferm eira disse que o m otorista m orreu. É tudo tão terrível. Não com preendo com o um a coisa assim pode acontecer. — E os olhos ficaram novam ente m arej ados de lágrim as. — A m inha m ãe é um a pessoa tão boa que não m erecia um a coisa assim .
— Sim , é um a pessoa m uito boa. — Tam bém havia lágrim as nos olhos de Bill. Estendeu a m ão e apertou a de Sophie. De certa form a, era com o tocar em Isabelle; em contrapartida, para Sophie, aquele hom em , am igo da m ãe, era com o que um m eio para chegar até ela. Havia um estranho elo que os unia a Isabelle.
— Nem sem pre fui boa para ela — confessou Sophie. — Zangava-m e m uitas vezes. Passava tem po dem asiado com o Teddy, quando eu era m ais nova. Achava que ela não tinha tem po para m im . — Tratava-se de um a form a de confessar as suas angústias e as coisas de que agora se arrependia. Bill ouvia-a com ar com preensivo.
— Ela adora-a, Sophie. Não disse outra coisa de você a não ser que é um a garota extraordinária.
— Mostrava-se feliz nessa noite? — A voz era triste. — Estava divertindo-se? — Era um a pergunta estranha e a única coisa em que Bill conseguia pensar era no prim eiro e últim o beij o que haviam trocado.
— Sim , estava. Visitam os um a m agnífica exposição nessa tarde e ela ficou m aravilhada com o que viu. Depois, fom os j antar. Vim a Londres para m e encontrar com o em baixador am ericano. Encontram o-nos, por acaso, no Claridge’s, e com binam os j antar j untos. — Não via m otivo para lhe dizer que haviam se encontrado em Londres propositadam ente e que estava apaixonado por Isabelle. Esta não quereria que a filha soubesse, nem ele próprio queria. — Há m uito tem po que não nos víam os.
— A m inha m ãe nunca se diverte. Está sem pre em casa, tratando do Teddy.
— Eu sei. A vontade dela é essa. Adora-vos.
Sophie ficou uns instantes em silêncio. Por fim , levantou-se. Ainda não sabia m uito bem quem Bill era, m as sentia que encontrara um novo am igo. Antes de sair, esboçou um sorriso. Ao olhar para ela, Bill só via Isabelle e a m ulher que Sophie seria um dia.
— Venho vê-lo am anhã. Estarei aqui de m anhã antes de partir.
— Teria m uito gosto. Obrigado por falar com igo, Sophie. — Fora um m om ento de conforto no m eio da terrível solidão em que se encontrava m ergulhado. A vida, tal com o a conhecera, estava prestes a tom ar um rum o totalm ente diferente. Nunca m ais voltaria a andar, a pular, a dançar ou a passear pela rua. A sua m ovim entação, tal com o a sua vida, seria com plicada daí para a frente. Acabara com o casam ento e perdera a m ulher que am ava. De m om ento, não tinha nada a que se apegar, andava à deriva no m eio do oceano, sem qualquer sinal de terra à vista. Os poucos m inutos que passara com a filha de Isabelle proporcionaram -lhe m uito conforto. Mesm o que nunca m ais voltasse a vê-la, o que era um a forte possibilidade, estava satisfeito por a ter conhecido.
Na m anhã seguinte, a cam inho do aeroporto, Cindy e as filhas vieram despedir-se de Bill. Sophie chegou pouco depois de elas terem saído. Sentou-se ao lado da m ãe durante m ais de um a hora e depois foi despedir-se de Bill. Encontrou-o deprim ido, presum indo que pelo fato de a fam ília ter ido em bora e o ter deixado sozinho. Não fazia idéia de que era por causa de sua m ãe. Ainda não tinha certeza de que Bill estava apaixonado por ela, em bora suspeitasse.
— Adeus, Mister Robinson — disse Sophie, delicadam ente, preparando-se para sair. — Faço votos para que m elhore o m ais depressa possível.
Bill não lhe perguntou se voltaria, pois não se sabia ainda se Isabelle conseguiria sobreviver.
— Tom e conta de si... pela sua m ãe, Sophie. Sei que ela ficaria preocupadíssim a. E cuide do Teddy — proferiu, com lágrim as nos olhos. Ficarei pensando em você.
— Rezarei pelo senhor quando for à igrej a. — Sophie sentia-se triste por o deixar. Era com o se deixasse um pouco da m ãe.
— Tam bém rezarei por você. — Bill estendeu o braço, pegou-lhe na m ão e beij ou-a. Então, com um tím ido sorriso, Sophie saiu. E Bill ficou ali, de olhos fechados, pensando em Isabelle.
Pouco depois, conduziram -no até ao quarto da sua am ada cuj o estado não sofrera qualquer alteração. Bill falou-lhe então da visita que Sophie lhe fizera.