O Beijo
Capítulo Dezessete
Gordon saiu porta fora. Pouco depois, Isabelle ouviu a porta da rua fechar com estrondo. Fora um a cena incrível. De repente, percebeu que acabava de deixar o m arido e nem sequer estava preocupada com o assunto. Era com o se a perda de Teddy a tivesse libertado finalm ente. Depois de deixar de ter Teddy e Bill, j á nada lhe restava a não ser Sophie. Gordon acabava de a libertar do torm ento e das m entiras que haviam partilhado durante tantos anos.
— O que lhe disse ele, m am ãe? — Indagou Sophie. Isabelle não a vira entrar no quarto. Fizera-o depois de o pai sair. Tinha um ar assustado. Nunca ouvira os pais discutindo daquela m aneira.
— Não é im portante — respondeu Isabelle, sentando-se na cam a. Sentia-se a trem er, m as aliviada.
— É im portante. Mam ãe, ele é horrível com você. É m eu pai e eu adoro-o, m as não quero que ele continue a ser tão m au com você. — Especialm ente naquele dia, depois do funeral de Teddy, fora escandaloso.
Ao olhar para a filha, Isabelle tom ou consciência, de repente, de tudo o que acontecera.
— Acabou de m e dizer para m e pôr na rua. — Estava estranham ente calm a e com posta ao articular as palavras. E Sophie precisava de saber o que se passara.
— Você tem m esm o de ir em bora? — perguntou Sophie, de olhos esbugalhados, enquanto Isabelle refletia no assunto. Sophie estava aterrorizada, m as ela, não. Aparentava um a estranha tranquilidade.
— Acho que sim . A casa é dele.
— Para onde vai agora? — Havia lágrim as nos olhos de Sophie.
— Acho que vou arranj ar um apartam ento. Já devia ter feito isto há m uito tem po, m as não podia cuidar do Teddy sem a aj uda do seu pai.
Sophie fez um gesto de concordância com a cabeça. Isabelle percebia que tudo acabava à sua volta. Perdera Teddy, Bill, a casa e o casam ento. Tudo aquilo que conhecera, am ara, com que contara ou em que acreditara chegara ao fim . Só lhe restava com eçar tudo de novo. Olhou então para a filha. Esta aproxim ou-se e pôs-lhe os braços à volta do pescoço, e as duas m ulheres abraçaram -se sem dizer um a palavra.
Fora Teddy que a libertara, finalm ente, de Gordon e que a levava pela m ão para outro rum o. Bill não fora capaz disso e deixara-a prim eiro. Além disso, ela nunca teria tido coragem para tom ar essa decisão sozinha. Mas Teddy, ao libertar-se do corpo terreno que o torturara toda a vida, libertara tam bém a m ãe da vida que tanto a atorm entara. Essa era a últim a prenda que lhe oferecia por aquilo que ela fizera por ele durante quinze anos. Isabelle era, finalm ente, um a m ulher livre.
CAPÍTULO DEZESSETE
Gordon não voltou à casa da Rue de Crenelle durante vários dias. Isabelle sabia que poderia descobrir onde ele se encontrava, m as não tentou. Não existia m otivo para isso. Nada m ais restava para lhe dizer e, além disso, tinha certeza de que estava com a condessa de Ligne.
Deam bulou pela casa durante algum tem po, tentando assim ilar tudo o que acontecera. Sentou-se no quarto de Teddy durante horas a chorar. De repente, sorriu e lem brou-se das coisas que fizera ou dissera. Parecia perdida em outro m undo. Então, sozinha, um a noite, com eçou a encaixotar as coisas do filho. Teddy possuía tão poucas coisas com o se a sua vivência neste m undo tivesse sido um a sim ples passagem . Tinha livros, quebra-cabeças, brinquedos de infância, um sem -núm ero de pij am as e alguns artigos religiosos que as enferm eiras lhe haviam dado ao longo dos anos. Cheirou as roupas e a alm ofada de Teddy antes de as arrum ar. As fotografias da m ãe e da irm ã eram as únicas coisas que haviam tido um significado especial para ele. Tinha tam bém um a de Isabelle e Gordon no dia do casam ento. Era a única fotografia que possuía do pai. Só de m anhã é que acabou a tarefa. Voltou então para o seu quarto para dorm ir.
Finalm ente, ao fim dessa tarde, Gordon deu sinal de vida. Queria saber quais eram os seus planos.
— Ainda não resolvi. Estive encaixotando as coisas do Teddy.
— Que tarefa m ais m órbida. Porque não pediu às enferm eiras para que fizessem isso? — Isabelle quisera realizar essa tarefa por um a questão de respeito pelo filho que tanto am ara. Mas Gordon não com preendia isso. Não gostava de ninguém a não ser de si próprio. Isabelle não conseguia im aginar com o era a sua relação com Louise. Mas de um a coisa tinha certeza, baseava-se na im portância social e título desta. As m esm as coisas que o haviam atraído nela. Mas nunca conseguira tolerar a pessoa, nem a realidade. — Você teve um com portam ento abom inável na outra noite — acusou, tentando intim idá-la com o tom de voz. Isabelle, porém , ouvira-o tantas vezes que j á não a im pressionava. E o que m ais horrorizava Gordon fora o fato de Isabelle ter se atrevido a aflorar o seu caso com Louise. Achava extraordinário que ela o tivesse descoberto ao fim daqueles anos todos. E quando perguntou a Louise se telefonara para sua casa, na véspera de Ano Novo, quando perdera o voo para Saint-Moritz, ela adm itiu que provavelm ente telefonara. Fora um erro inocente m as pusera a descoberto dez anos de m entiras cuidadosam ente elaboradas.
— Há m uito tem po que esta é um a situação abom inável. Sem pre achei que havia algo em você que m e escapava e era por isso que era tão frio com igo. Pensava que a culpa era m inha, porque estava sem pre tão ocupada cuidando do Teddy. Finalm ente, com preendo que não tinha nada a ver com igo, ou com ele. Você só não queria estar aqui em casa.
— Tinha tudo a ver com você. Se tivesse dedicado m ais tem po aos deveres de um a esposa decente, isso nunca teria acontecido. — Gordon não adm itia nada de novo. Acusava-a de tudo, o que era típico nele.
— Tenho sido um a esposa decente. Sem pre estive aqui ao seu dispor. No com eço, ainda te am ei. Você é que ergueu as barreiras entre nós, saiu do nosso quarto e m e rej eitou. Mas nada disso teve a ver com igo, e sabe bem que não.
— Eu não teria feito nada dessas coisas, se tivesse aprendido a desem penhar convenientem ente o seu papel de m inha m ulher.
Gordon era o professor e Isabelle a aluna que reprovara no curso. O am or, a com postura e o coração desta nunca haviam tido qualquer im portância para ele. Nunca se interessara por Isabelle enquanto pessoa. Com o tivesse dado autênticos saltos m ortais para trás durante anos, enquanto Gordon gritava cada vez “m ais alto”, e as coisas nunca estavam com o queria. Logo que vira que Isabelle j á não lhe trazia qualquer benefício a nível social e profissional, pusera-a à parte. Isabelle sabia que faria a m esm a coisa com Louise. Logo que todas as pessoas soubessem que ele desposara um a condessa, e que esta era m uito rica e fam osa, tam bém a poria de lado. Isabelle não conseguia im aginar Gordon m ostrando carinho por quem quer que fosse, nem por ela, nem pelos filhos, nem sequer pela am ante. Era um narcisista puro.
— Acho que o acidente te afetou o cérebro — afirm ou Gordon, num tom glacial. De repente, Isabelle im aginou o quadro que Gordon iria pintar dela: que nunca se recuperara totalm ente do com a, que sem pre tivera um com portam ento um pouco estranho e que acabara por ficar gravem ente afetada com a m orte do filho. Era a desculpa perfeita para se desfazer dela. Tinha a sensação de estar a espreitar um a caverna escura e, de repente, ver o m onstro que lá vivia. Outrora, ficaria aterrorizada, m as agora isso j á não acontecia. Já não tinha nada a ver com o m onstro. — Espero que você se m ude o m ais depressa possível. — Só queria que ela desaparecesse da sua vida. Convinha-lhe. Isabelle j á não servia para nada e tornara-se um problem a. Desm ascarara-o e ele não podia tolerar tal coisa.
— Mudo-m e quando arranj ar um apartam ento — com unicou Isabelle, com algum cansaço na voz. Estivera de pé toda a noite pondo as coisas de Teddy em caixas. — Sabe bem que, se colocar-m e na rua logo a seguir à m orte do Teddy, as pessoas dirão coisas pouco abonatórias a seu respeito.
— Digo-lhes que você endoideceu com a m orte dele e que fugiu por razões pouco claras, com a agravante de ter ficado com sequelas do traum atism o craniano. — Um a idéia brilhante, sem dúvida. Não conseguiu deixar de im aginar se Louise não o teria aj udado a delinear tal idéia.
— Você está partindo do princípio de que as pessoas acreditarão em você, m as não estou tão certa disso. Algum as, talvez, m as quem m e conhece sabe que não sou la folie de Chaillot para m e esconder no sótão. Sou um a m ulher a quem você m entiu, a quem traiu e a quem m altratou. Um dia, as pessoas verão quem realm ente você é. Tal com o os seus filhos viram . Não será capaz de enganar as pessoas eternam ente. Nem sequer a m im conseguiu enganar. — Porém , a traição de Gordon continuava sendo um terrível choque. Fora abandonada por Bill, ao fim de cinco anos, e agora por Gordon, que j á a abandonara efetivam ente vários anos antes. Teddy tam bém a deixara, m as não tivera alternativa. Todos esses abandonos a m arcavam profundam ente. Sabia que nunca recuperaria-se totalm ente da traição das pessoas que chegara a am ar com tanta paixão. Perdera a fé que outrora tivera de que a vida era j usta e que as coisas acabavam sem pre no m elhor. Não havia fins felizes no seu m undo e j á não esperava sequer vir a tê-los. Só queria ter paz.
— Mude-se quando quiser. Diz-m e só o dia. Telefonei para o m eu advogado hoj e. Ele vai fazer o rascunho do acordo de divórcio. — Mexera-se rapidam ente. Isabelle perguntou a si própria se o conde de Ligne estaria às portas da m orte. Gordon parecia ter, de repente, pressa de resolver as coisas. O ideal para ele teria sido Isabelle desaparecer para Grenoble. Poderia dizer que a esposa se encontrava num sanatório, que enlouquecera, ou que sofria de depressão. Praticam ente não teria de dar qualquer desculpa, desde que ninguém a visse. Mas Isabelle não estava disposta a facilitar e pretendia arranj ar um advogado. Gordon deixou-lhe então novo aviso. — E não se esqueça, quando fizer as m alas, que só pode levar as coisas que são suas, as que trouxe para o casam ento. O resto pertence-m e.
— A m inha intenção é essa — ripostou Isabelle, num tom frio. A rapidez com que ele chegara à questão das partilhas! Ela só queria as suas roupas, as coisas de Teddy, alguns quadros e antiguidades dos seus pais, e as poucas j óias que Gordon lhe oferecera. O resto das coisas não lhe interessava e as j óias só as levava para da-las a Sophie. — Inform o-te quando arranj ar um lugar para viver.
Nas sem anas seguintes, Isabelle procurou cuidadosam ente um apartam ento. Em finais de Setem bro, descobriu um adequado às suas necessidades, na Rue de Varenne, não m uito longe da casa que partilhara com Gordon na Rue de Grenelle. O apartam ento tinha dois quartos, um a enorm e e assolarada sala de estar, um a cozinha j á um pouco antiquada, um a despensa e um terraço com vista para o Museu Rodin. Era, efetivam ente, o terceiro piso de um velho hotel particular. Havia um espaço de garagem para um carro, no lugar onde outrora eram os estábulos. O edifício j á não possuía a elegância de outros tem pos, em bora, tal com o m uitos dos edifícios do século XVIII da Rive Gaúche, os vários senhorios tivessem gasto fortunas em obras de m anutenção. Havia um pequeníssim o elevador, que m ais parecia um a gaiola. O teto era alto e os assoalhos bonitos, se bem que em m au estado. O senhorio pertencia a um a fam ília aristocrática conhecida de Isabelle. A vizinhança e o lugar eram bons e acreditava que ali se sentiria em segurança. Tam bém sabia que tinha m obiliário suficiente dos seus pais para decorar o apartam ento condignam ente. Logo que assinou o contrato de arrendam ento, telefonou ao advogado de Gordon e inform ou-o que ia m udar-se dentro de duas sem anas. Em seguida, ligou à filha.
Sophie ficou contente por a m ãe ter arranj ado um apartam ento, m as iria ser estranho vê-la a viver em outro lugar Quando viesse visitar o pai, ficaria na Rue de Crenelle, m as com a m ãe e Teddy ausentes, sentia-se deprim ida só de pensar no assunto.
Isabelle j á tinha em seu poder a proposta de acordo de divórcio de Gordon. Este oferecia-lhe um a pequena pensão, que não refletia, de m odo nenhum , a vida que haviam partilhado durante vinte e um anos. O advogado de Gordon sugeriu-lhe que arranj asse um em prego, o que ela pretendia fazer, em vez de pedir apoio financeiro a Gordon. Recusou tudo o que lhe foi oferecido no acordo, o que era efetivam ente um a enorm e bofetada dada com luva de pelica. Não queria nada dele. Tudo aquilo confirm ava o que pensara quando receara abandoná-lo por causa de Teddy. Ele deixá-los-ia m orrer de fom e, se ela tivesse saído de casa. Dele só queria o suficiente para fazer face a um im previsto ou a um a situação de doença.
O advogado de Isabelle ficou furioso com aquilo que Gordon lhe oferecia e queria que ela lutasse por um a m elhor partilha de bens, tentando até ficar com a casa da Rue de Crenelle. Mas Isabelle sabia que seria um a falsa vitória. Só queria o m ínim o para fazer face às suas necessidades e nada m ais do que isso.
Mudou-se para o apartam ento da Rue de Varenne, em m eados de outubro, e ficou espantada com a sua beleza depois de lhe dar uns pequenos retoques. A parte m ais dolorosa ao abandonar a velha casa relacionava-se com o fato de deixar os quartos onde ela e Teddy haviam passado um a vida inteira. Mas sabia que levava as recordações consigo. Com um últim o olhar triste por cim a do om bro, saiu, enquanto Josephine, a governanta, chorava. Prom eteu convidá-la para visitar o seu novo lar.
E até Sophie ficou espantada com o apartam ento na prim eira vez que foi passar uns dias com a m ãe. Era um fim -de-sem ana prolongado devido ao feriado de Todos os Santos e tinha quatro dias sem aula.
— Está m aravilhoso, m am ãe! — Sorriu quando viu o seu quarto, todo decorado com seda cor de alfazem a com lilases e violetas. As paredes eram cor de m arfim , com um a risca fina tam bém em cor de alfazem a. Isabelle decorara o seu em tons de am arelo. Na sala de estar, instalara m óveis antigos que haviam sido de sua m ãe: peças m uito requintadas, na sua m aioria estilo Luís XV e XVI. Apesar de estar vivendo ali há apenas duas sem anas, j á se sentia em casa. De certo m odo, m uito m ais do que na casa da Rue de Crenelle. O apartam ento era dela.
Estava adm irada com a facilidade com que se adaptara à nova vida. Não sentia qualquer saudade de Gordon. A única pessoa de quem sentia im ensa falta era de Teddy. O novo apartam ento proporcionara-lhe algum a distração, m as não havia form a de atenuar a tristeza por ele ter m orrido. De certa m aneira, era m ais fácil habitar num a casa nova, sem ter de deam bular pelos corredores por onde passara diariam ente, nem ter de se sentar no quarto onde dedicara ao filho horas interm ináveis. Mas não fora só a saudade de Teddy que a acom panhara até à nova casa; a saudade de Bill tam bém . Não conseguia conceber que nunca m ais voltaria a vê-lo, e que, depois de cinco anos a conversar com ela, a aconselhá-la, a confortá-la, a ser o seu m entor e m elhor am igo e, finalm ente, am ante, a tivesse abandonado. Era a últim a coisa que esperava dele, a sua única crueldade. Sabia que dificilm ente o esqueceria e não se im aginava am ando ou confiando em outra pessoa. Não fora Gordon quem a m agoara m ais, pois j á não esperava nada dele, há vários anos, m as sim Bill, porque o am ara verdadeiram ente e depositara nele um a confiança cega. Mas sabia que essa seria um a cruz que teria de carregar até ao final da vida, custasse o que custasse.
Duas sem anas depois de ter se m udado, viu um a fotografia de Bill no Herald Tribune. O artigo falava das próxim as eleições nos Estados Unidos e do papel de Bill num a im portante corrida para o Senado. Deteve-se dem oradam ente olhando para a fotografia. Achou-o com bom aspecto. Não conseguia dizer ao certo, m as dava a sensação de que Bill se encontrava de pé, no m eio de um grupo de hom ens, com o candidato que ele apoiava a seu lado. O artigo até fazia um a breve referência ao fato de ele ter sido vítim a de um acidente de trânsito quase fatal em Londres, no ano anterior, tendo alcançado um a recuperação extraordinária e regressando m ais forte do que nunca. Em bora não m encionasse se Bill andava ou conseguia correr parecia com provar o que ele dissera quando lhe m entira sobre o fato de ter recuperado a capacidade de andar. Tudo levava a crer que se encontrava de perfeita saúde. Depois de dois dias olhando para a fotografia e torturando-se, j ogou o j ornal no lixo.
Sophie acabara de partir para a faculdade, depois do fim -de-sem ana de Todos os Santos, quando Isabelle viu Bill na CNN. Encontrava-se num a audiência no Senado, em Washington, sentado num a m esa com prida, dirigindo-se a um a com issão. O que diziam era de caráter técnico e extrem am ente aborrecido, m as Isabelle ficou hipnotizada m al lhe viu o rosto. Não conseguiu tirar os olhos dele. Bill fazia um discurso arrebatado. De repente, virou-se para a câm ara, com o se estivesse falando com ela.
— Sacana! — m urm urou Isabelle. Ainda se sentia m agoada com o que Bill lhe fizera. Lem brava-se de todas as palavras que ele dissera quando lhe com unicara que estava tudo acabado entre eles. Sentia que não m erecera aquilo da parte dele, depois de o ter am ado tanto e dos m om entos felizes que haviam passado j untos. Continuava nessa angústia trem enda recordando esse m om ento, quando, acabado o discurso, se viu um plano alargado da sala e alguém em purrando a cadeira de rodas onde Bill estava sentado. Ficou boquiaberta. Dissera-lhe que j á conseguia andar, m as era óbvio, por aquilo que via, que ainda estava confinado à cadeira de rodas. Por que razão teria lhe dito que j á conseguia andar, se não era esse o caso? Qual teria sido o obj etivo? Então, ao vê-lo desaparecer do ecrã com um aceno às várias pessoas na assistência, lem brou-se do que ele dissera desde o princípio. Ainda em Londres, tinha dado a entender que, se não voltasse a andar, não ficaria com ela, que não queria ser nenhum fardo. Nunca expressara tal decisão por palavras, m as Isabelle com preendera o que ele queria dizer e achara que se sentia apenas deprim ido. Não o levara a sério, parecendo-lhe que estava dram atizando a situação. De repente, perguntou-se se Bill não teria levado ao pé da letra essa sua decisão. Nunca pensara nisso, porque ele a inform ara com toda a clareza que voltara a andar. E não conseguia deixar de questionar-se se ele tam bém teria m entido relativam ente a todo o resto.
Isabelle sentou-se então na cam a refletindo no que faria e na form a de descobrir o que acontecera. Tinha vontade de pegar o telefone e perguntar-lhe. Todavia, se Bill tivesse querido que Isabelle soubesse a verdade, ter-lhe-ia contado cinco m eses antes, em vez de m entir. Estava com pletam ente confusa. Deu um pulo da cam a e pôs-se a andar de um lado para o outro no quarto. Desligou a televisão, para poder pensar m elhor e olhou para o relógio. Era m eio-dia em Washington e seis da tarde em Paris. Então, teve um a idéia. Correu para a cozinha e pegou no telefone.
Ligou para Washington, para o serviço de inform ações e pediu o núm ero do escritório de Bill, que lhe deram de im ediato. Não sabia m uito bem o que haveria de fazer a seguir, m as, quando atenderam , pediu para falar com o assessor de Mr. Robinson e um a voz m asculina surgiu do outro lado da linha. Explicou então que Mr. Robinson lhe pedira para telefonar se precisasse de aj uda para um a com issão que se ocupava da alfabetização de crianças no Sul do país. Sabia que a luta contra o analfabetism o era de prim ordial im portância para Bill e fazia questão de que os seus candidatos a adotassem com o bandeira.
—Gostaríam os que Mister Robinson e a esposa pudessem assistir ao nosso encontro em dezem bro. E fazem os questão de que Mistress Robinson sej a nossa presidente honorária.
Fez-se então um a breve pausa, enquanto o assessor recuperava o fôlego e Isabelle se recom punha, rezando para que as suas previsões estivessem certas.
—Estou certo de que Mister Robinson adoraria. Vou verificar a agenda quando m e der a data. Mas receio que Mistress Robinson não possa presidir ao encontro. Talvez pudesse, m as... bem , estão divorciados — disse, algo em baraçado. —Ela vai casar-se de novo no próxim o m ês. Creio que ela gostaria m uito. É questão de lhe telefonar. Posso dar-lhe o núm ero, se quiser. Caso contrário, j ulgo que Mister Robinson estaria interessado em presidir ao vosso encontro, se m e enviar algum m aterial sobre o assunto e m e disser qual é a data.
—Envio-lhe o m aterial ainda hoj e. — A m ão de Isabelle trem ia. Fechou os olhos. Bill m entira-lhe sobre am bas as coisas. Não estava casado com Cindy e não conseguia andar. Provavelm ente deixara-a porque a am ava. Ou talvez j á não a am asse. Porém , de duas coisas tinha certeza: j á não estava casado com Cindy e ainda andava de cadeira de rodas. —Muito obrigada.
—E qual é a data?
—Doze de Dezem bro.
—Marco aqui na agenda. Depois inform o-a.
—Obrigada.
—E qual é o seu nom e? Desculpe.. não ouvi...
—Sally Jones.
—Obrigado, Miss Jones. Obrigado pelo telefonem a.
Isabelle sentou-se na cam a, ponderando o que fazer a seguir. Estava cada vez m ais certa dos m otivos que haviam levado Bill a deixá-la. Tinha a sensação de que tudo m udara num abrir e fechar de olhos. Porém , agora, em vez de ter vontade de m orrer, com o acontecera nos últim os cinco m eses, sentia-se renascer.
À m eia-noite, depois de refletir m aduram ente no assunto durante horas, j á sabia o que fazer. Pegou no telefone, ligou para a com panhia de aviação e fez um a reserva para a tarde seguinte. As eleições eram só dali a quatro dias e a hora provavelm ente não era a m ais adequada, m as não podia esperar por m ais tem po. Marcou lugar no voo das duas horas do dia seguinte. Telefonou então a Sophie com unicando-lhe que ia passar uns dias em Washington.
—Porquê? —Sophie pareceu surpreendida, m as estava satisfeita. Há m eses que a m ãe andava tão sem vida, triste e desesperada, especialm ente depois da m orte de Teddy, que era um alívio saber que ela ia viaj ar.
—Vou visitar um velho am igo.
—Alguém que eu conheça? —A m ãe estava eufórica. Havia um m isto de excitação, felicidade e algum receio na voz.
—O Bill Robinson. Estava com igo na época do acidente —inform ou Isabelle, enquanto Sophie sorria do outro lado da linha.
—Eu conheço-o, m am ie. Foi m uito sim pático com igo quando fui visitá-la no hospital. Tem duas filhas e um a esposa m uito sim páticas.
—Tem razão. —Exceto no que tocava à esposa.
—Ele tam bém gostava m uito de você —disse Sophie, com algum a inocência, e Isabelle sorriu.
—Tam bém gosto dele. —Depois telefono-te dizendo onde estou e quando volto, está bem ? Cuida de você, querida. Não m e dem oro por lá.
—Não é preciso vir correndo. Só vou em casa no Natal. Divirta-se.
—Obrigada — agradeceu Isabelle, e desligou.
Nessa noite, não conseguiu dorm ir; partiu para o aeroporto às onze da m anhã. Tinha de estar lá apenas ao m eio-dia. Durante o voo, m al era capaz de conter a alegria que sentia. E nem sequer sabia qual seria a reação de Bill ou o que iria lhe dizer quando o visse. Talvez ficasse furioso por ela ter descoberto. Se tivesse tido vontade de estar com ela, tê-lo-ia feito. Ele fora claro na decisão que tom ara. Mas estava enganado. Com pletam ente. Não precisava de ter se sacrificado por ela. O seu am or não seria posto em discussão pelo fato de nunca m ais voltar a andar. A única coisa que ela podia fazer agora era encontrá-lo e dizer-lhe isso m esm o. Mas sabia que não seria tarefa fácil. Era um hom em m uito teim oso. Ainda se lem brava bastante bem das m uitas obj eções que fizera ao casam ento de Joe e Jane.