O Beijo

Danielle Steel · Capítulo 13 de 17

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O Beijo

Capítulo Quinze

— Sei do que estou falando — teim ou Bill, franzindo o sobrolho.

— Não sabe, não! — retorquiu Isabelle, num tom firm e. Era a prim eira discussão que tinham . — Espero que a m ãe da Jane sej a m ais inteligente do que você. Nunca ouvi tam anha estupidez! Nem diga tal coisa à Jane. Ela nunca o perdoaria e teria toda a razão.

Mudaram então para outros assuntos e ficaram m ais calm os. Bill contou que passara o Natal com Cindy e as filhas, m as não fez qualquer referência ao novo nam orado dela, um a vez que Isabelle ainda não sabia que Cindy j á não fazia parte da sua vida. Isabelle com unicou-lhe que Gordon ia para Saint-Moritz, no dia seguinte, esquiar com am igos. Ela ia ficar em Paris, com Teddy, e assistiriam à entrada do novo ano sozinhos. Sophie j á partira.

Bill não parava de se espantar com a pouca atenção que Gordon dispensava a Isabelle. Porém , sentiu-se aliviado com o fato de ele não ter ficado em casa torturando-a. A sua ausência era um a bênção dos céus. Nessa noite, falaram durante horas. Bill tinha vontade de desabafar e sentia-se vulnerável e um pouco triste. Há quatro m eses que não via Isabelle e as saudades eram im ensas. Nem sequer podiam falar em encontrar-se de novo. Ainda tinha longos m eses de reabilitação pela frente.

Depois de desligar, ficou m uito tem po m atutando aquilo que Isabelle dissera sobre Jane e Joe. Continuava não concordando. Esta não sabia do que falava, nem fazia idéia dos enorm es desafios que iriam ter pela frente. Bill queria algo m uito m ais sim ples para Jane, por m uito que gostasse de Joe. Era a prim eira vez que discordava veem entem ente de Isabelle. Esta era dem asiado ingênua e idealista para perceber as im plicações do que dissera. Bill estava determ inado a abordar seriam ente o assunto com Jane, se necessário. Pelo m enos, até o m om ento, não pareciam estar dispostos a tom ar decisões precipitadas. Esperava que o bom senso im perasse.

Adorm eceu então. Sonhou com a árvore de Natal e, pela prim eira vez desde há m uito tem po, com a luz branca.

Cam inhava na sua direção, de m ão dada com Isabelle, e quando se virou para ela a fim de a beij ar, ficou perturbado ao ver Jane e Joe vindo na sua direção. Ele, de cadeira de rodas, ela, em passo lento ao lado dele, com ar m agoado. Quando parou, voltou-se para o pai e perguntou-lhe por que razão ele não a avisara das dificuldades que ela iria enfrentar.

CAPÍTULO QUINZE

 

Quando Gordon partiu para Saint-Moritz e Sophie para Courchevelle, a casa ficou m ergulhada num silêncio sepulcral. Isabelle passou toda a tarde no quarto de Teddy lendo-lhe livros. O dia estava nublado e m uito frio. Tivera de lhe vestir um a cam isola de lã sobre o pij am a e pôr-lhe um a colcha por cim a.

Teddy tivera um bom Natal. Recebera um a tonelada de livros e j ogos novos. Isabelle com prara-lhe um enorm e urso de pelucia para lhe fazer com panhia. Mas a única coisa que ela gostava de ter lhe oferecido era saúde. O filho representava um a constante fonte de preocupações.

Bill telefonava-lhe com m aior frequência desde que soubera que Gordon fora passar alguns dias fora. Chegava a telefonar-lhe duas vezes por dia. Tinha saudades dos tem pos no hospital, quando podia falar-lhe quando queria. Isabelle não sentia o m ínim o desej o de sair ou de visitar os am igos. Depois de o m arido partir, ao abrir a correspondência, ficou espantada ao ver um convite dirigido a am bos. Era de um casal seu conhecido do m undo da m oda. A m ulher estava à frente de um a casa de alta-costura, o m arido j á tinha um a idade avançada, possuía um título honorário e fora diretor de um banco im portante. Não se lem brava de algum a vez ter se encontrado com eles, m as presum iu que Gordon talvez os tivesse conhecido em algum a das suas atividades sociais, em que ela não participava, ou talvez no banco. O convite era para o casam ento da filha em j aneiro. Ainda pensou em m andar um presente para a noiva, depois pôs de lado a idéia. Já não ia a festas daquele gênero há m uito tem po e Gordon nunca a convidava para o acom panhar quando ia a algum a.

Passou os dias seguintes com Teddy e conversando com Bill. Este ia festej ar a passagem do ano no centro de reabilitação, onde estavam preparando um a grande festa. Bill prom eteu telefonar quando fosse m eia-noite em Paris, a fim de poderem entrar no Ano Novo j untos; e Isabelle telefonar-lhe-ia à m eia-noite em Nova Iorque. Esta aguardava a cham ada de Bill quando o telefone tocou e um a m ulher do outro lado da linha pareceu espantada ao ouvir a sua voz.

— Oh, que estupidez a m inha! Lam ento m uito, enganei-m e no núm ero. Estava telefonando para dizer que perdi o avião. — Com isto, parecendo ainda m ais confusa e um pouco alcoolizada, desligou. O quem era ou para onde ia era um m istério para Isabelle, que, convencida realm ente de que a m ulher m arcara o núm ero errado, desligou.

Bill telefonou logo a seguir, tal com o prom etera, e brindaram ao Ano Novo em Paris. Teddy dorm ia profundam ente. Às seis da m anhã, hora de Paris, Isabelle telefonou para Nova Iorque, onde era m eia-noite. Depois de falar com Bill, foi até à cozinha fazer um a xícara de chá e ler o j ornal. Dera o dia de Ano Novo de folga à enferm eira de Teddy. Estava felicíssim a por poder cuidar do filho sozinha.

No dia seguinte, Teddy dorm iu até tarde. Isabelle aproveitou para dar um a nova vista de olhos no j ornal e ficou espantada ao ver o nom e de Gordon na coluna social, onde se noticiava a sua presença em Saint-Moritz na com panhia de am igos. Aga Khan, o príncipe Carlos e um a série de pessoas im portantes encontravam -se entre eles. Reparou então em outro nom e. A condessa de Ligne tam bém iria j untar-se ao grupo. Era a m ulher que os convidara, no dia anterior, para o casam ento da filha. Presum iu então que ela e Gordon deveriam ser am igos. E lem brou-se do telefonem a, na noite anterior, de um a m ulher que dizia que perdera o avião. Por instantes, sentiu um arrepio no corpo. Por que m otivo a m ulher teria telefonado para a casa de Gordon? E por que raio seria a condessa de Ligne e não outra pessoa qualquer? O seu prim eiro nom e era Louise. Não conseguia im aginar que ela tivesse um caso com Gordon. Provavelm ente era am iga de outros dos presentes. Mas a coincidência não lhe saiu da cabeça durante todo o dia. Às seis horas, resolveu com eter um a loucura. Não tinha nada para fazer e queria ouvir a voz da condessa de Ligne. Telefonou para o serviço de inform ações e obteve o núm ero facilm ente. Após algum a hesitação, m arcou os algarism os. Do outro lado da linha atenderam de im ediato.

— Alô? Sim ?

— Madam e de Ligne? — indagou, elim inando o título.

— Sim

— Estou telefonando-lhe para confirm ar o seu voo para Saint-Moritz — proferiu Isabelle, não fazendo a m ínim a idéia do que dizer a seguir.

— Já lhe disse há um a hora que só poderei ir am anhã. O m eu m arido encontra-se m uito doente — retorquiu Louise de Ligne, algo irritada, m as Isabelle j á ouvira aquilo que queria. Tratava-se da m esm a voz da noite anterior.

— Oh, peço im ensa desculpa. Deve ter sido a m inha colega. As m inhas desculpas, Madam e de Ligne.

— Preciso de confirm ar de novo? — perguntou a condessa, num tom algo im perial. Tinha o m esm o tom de arrogância na voz que Gordon. Pareciam gêm eos.

— Não é necessário. Boa viagem ! — disse, num tom cordial, e desligou. Não sabia porquê, m as estava trem endo, tentando coordenar as idéias. E não conseguia deixar de se perguntar por que m otivo a condessa telefonara a Gordon na noite anterior. Não queria tirar conclusões precipitadas, m as o seu sexto sentido dizia-lhe que o m arido tinha um caso com a condessa. Esta devia ter querido ligar para Saint-Moritz para lhe dizer que perdera o avião, m as, com o estivera bebendo, telefonara para a casa de Paris.

— O quem era? — Perguntou Teddy, entrando no quarto da m ãe, o que raram ente acontecia. Mas ficou espantado quando viu o ar preocupado dela. — Há algum problem a?

— Não, eu... só estava a tentar ligar para o papai, m as ele saiu. Provavelm ente foi esquiar, ou a um a festa.

Quando Bill telefonou, Isabelle falou-lhe das suas suspeitas.

— Parece-m e um pouco forçado — com entou Bill, com algum a cautela. — Mas as m ulheres têm um a intuição extraordinária para essas coisas. Confio m ais no seu instinto do que na m inha cabeça. Sem pre soube quando a Cindy andava com alguém . Olhava-m e sem pre de m odo diferente e era m ais sim pática e m ais j ovial.

— Nem sequer sei por que m otivo é que lhe telefonei. Ela podia ter-se enganado no núm ero, m as m ostrou-se dem asiado delicada. Se tivesse sido m esm o engano, teria desligado de im ediato. E por que razão nos convidaria para o casam ento da filha?

— Se a sua teoria estiver correta, talvez o Gordon tivesse lhe dito que não, m as ela quer que ele vá. Portou-se com grande com postura. Podia ter convidado só a ele.

— Eu devia aceitar. Só para os assustar.

— Tem coragem para isso? — perguntou Bill, curioso com a reação de Isabelle. Sabia que esta não dorm ia com Gordon há anos. Além disso, tratava-a tão m al desde o acidente que seria um alívio se ele tivesse um caso com alguém . Não era um a form a agradável de abordar o problem a, m as Isabelle estava farta de ser tratada com o um a crim inosa na sua própria casa.

— Não sei se m e sinto m agoada, aborrecida, aliviada ou hum ilhada. Talvez sej am apenas am igos e eu estej a im aginando coisas.

— Seria interessante saber.

— Com o vou descobrir? Mesm o que eu tenha razão, ele não vai adm itir. Não faço idéia do que ele faz, onde vai ou com quem se encontra.

— Contrata um detetive.

— Acho que seria um a atitude despropositada. Ficaria furioso se descobrisse e atorm entar-m e-ia ainda m ais para encobrir a culpa.

— Bem , m antém -te atenta. Talvez apareça algum a coisa na im prensa depois dela chegar a Saint-Moritz.

— É dem asiado esperto para se expor.

Depois de desligarem , Isabelle teve outra idéia. Havia um a m ulher do m undo da alta-costura que conhecia há vários anos. Haviam estudado j untas e eram boas am igas, m as não a via desde o nascim ento prem aturo de Teddy. Cham ava-se Nathalie Vivier.

Telefonou de novo para o serviço de inform ações a fim de saber o núm ero de Nathalie. Esta nunca se casara e era um nom e firm ado no m undo da alta-costura. Tinha basicam ente a m esm a im portância que Louise num a casa rival. Sentia que estava desvendando um grande m istério e era com grande determ inação que procurava descobrir o que podia sobre Louise de Ligne. Nas últim as duas horas, tornara-se um a obsessão.

Aguardou por um a hora respeitável para lhe telefonar. Era sábado e foi ela m esm a que atendeu. Ficou m uda de espanto quando reconheceu Isabelle.

— Meu Deus, há anos que não falo contigo... Com o está o seu filho?

Isabelle explicou-lhe que Teddy era um a criança extrem am ente doente há catorze anos, desde que nascera.

— Desconfiei que um a coisa dessas tivesse acontecido. Todas as pessoas dizem que você se tornou um a reclusa. Ainda pinta?

— Não tenho tem po.

Puseram então a conversa em dia. A m ãe de Nathalie m orrera, o pai voltara a casar, ela vivera com um senador durante dez anos, depois este voltara para a esposa, que estava m oribunda. Nunca se casara, nem tivera filhos, e continuava adorando o trabalho que fazia. Dava a sensação de que não existira nenhum hiato de tem po desde a últim a vez que haviam se encontrado. Partilhavam um a grande am izade até Isabelle se casar com Gordon. Nathalie detestava-o. Achava-o pom poso e arrogante, e estava convencida de que casara com ela por causa das ligações sociais de Isabelle. Nunca confiara nele, m as não lhe recordou esse fato.

— Tenho um a pergunta terrível a fazer. Só quero saber um a coisa e não sei de que outra form a conseguirei saber.

Ouviu-se um longo silêncio do outro lado da linha. Nathalie perguntou-se se devia responder-lhe com toda a franqueza, não ficando inteiram ente surpreendida com o telefonem a de Isabelle, só estranhando que esta apenas o tivesse feito ao fim de tanto tem po.

— O que quer que te diga?

— O quero fazer-te um a pergunta sobre um a pessoa e gostaria que m e dissesse a verdade. O que sobre Louise de Ligne?

Nathalie soltou um suspiro e resolveu responder-lhe com toda a franqueza.

— É um a m ulher m uito talentosa, m uito difícil, m uito inteligente, bem -apessoada, em bora um pouco m ais velha do que nós e, por vezes, m uito grosseira. Extrem am ente fria. E m uito am biciosa. Dizem que é ela que financia a casa onde trabalha. Julgo que o m arido lhe com prou um a boa quota. É um velho de alguns cem anos, com pletam ente gagá e m uito doente. Ela herdará o dinheiro quando ele m orrer. Ele j á era casado e, por aquilo que dizem , os filhos dele têm -lhe um ódio de m orte. Mas ela é suficientem ente inteligente para m exer os pauzinhos de m odo a que eles recebam o m enos possível da herança. Já se gaba disso. Casou pelo dinheiro, quando ele j á tinha uns oitenta anos e teve um filho dele para garantir o futuro. O velho deve ter uns noventa e tantos. Pouco m ais pode durar. É um a das m aiores fortunas da França. — A inform ação era interessante, m as não era inteiram ente aquilo que Isabelle queria ouvir.

— O que m ais você sabe?

— Isabelle, não procure coisas que podem m agoar-te. A vida j á é suficientem ente dolorosa. Porque está perguntando-m e isso?

— Porque quero ter certeza. Sabe algum a coisa, não sabe?

Nathalie fez um a longa pausa e soltou novo suspiro

— Não é propriam ente um segredo. Meia Paris sabe. — Isabelle sentiu o coração bater m ais depressa.

— Ela anda m etida com o Gordon?

Nathalie riu-se. Isabelle continuava a ser extrem am ente ingênua, ao fim de todos aqueles anos. Sem pre adorara essa característica da am iga, m as j á era hora de crescer.

— É am ante dele há uns dez, doze anos. Vão a todo o lado j untos. Surpreende-m e que nunca tenham te contado... Há anos que vão a eventos sociais. Todos sabem .

— Já não conheço ninguém — declarou Isabelle, perplexa. — Está falando sério?

— Estou. Ele passa a vida oferecendo-lhe j óias e até lhe deu um carro. Acho que têm um apartam ento na Rive Gaúche. Rue du Bac, j ulgo. No Verão, vão para o Hotel du Cap. No ano passado encontrei-os em Saint-Tropez. Ele vai deixar-te? Se for, tem de lhe exigir um a boa pensão. Por aquilo que ouvi, gasta um a fortuna com ela.

— Não consigo acreditar, Nathalie. Com o é possível? Tem certeza?

— Absoluta. Se não acredita, telefona a dez pessoas com quem você se relacionava e todas te dirão a m esm a coisa. Há anos que agem com o um casal.

— Ele não vai deixar-m e. Mas nunca pensei que as coisas tivessem chegado a este ponto. Só ontem é que com ecei a suspeitar que algo se passava. — Sem pre im aginara que se tratava de um caso fortuito, nunca de um a vida inteira de doze anos com outra pessoa, enquanto ela, em casa, cuidava do filho.

— Ele ainda não tem m otivos para te deixar. Ela não pode abandonar o m arido enquanto ele for vivo. Quando isso acontecer, tenho quase certeza de que o Gordon não quererá perdê-la. É poderosa e rica. Talvez nessa altura estej a farta dele. Nunca se sabe. É um a autêntica cabra. Se souber que representa um a am eaça, é capaz de te fazer a vida negra. Era um a costureirinha de segunda quando conheceu o velho. Este fê-la condessa e m eteu-a na alta-costura. Se bem que sej a um a boa profissional, tenho de reconhecer. Mas não é flor que se cheire. Acaba com você num abrir e fechar de olhos, tenha ela de fazer o que fizer. Se quiser o Gordon, põe-no a rastej ar a seus pés, se necessário for. — Aliás, era o que j á fizera.

— Não represento qualquer am eaça para ela — observou Isabelle, algo assustada. Sentia-se um a perfeita idiota.

— Ela pode não ver as coisas dessa m aneira. Sinto m uito, Isabelle. — Nathalie detestara ser a pessoa que lhe dera a m á notícia. Sem pre gostara daquela am iga.

Isabelle não conseguia im aginar Gordon j unto com outra m ulher. E não deixava de se interrogar se a culpa não teria sido sua, por passar a m aior parte do seu tem po cuidando do filho. Nathalie dissera-lhe que o rom ance j á durava há dez, doze anos. Gordon pusera-a fora do quarto, do coração e da sua vida precisam ente na m esm a época. Tudo fazia sentido.

— É m elhor continuar a sua vida sem ele. É um indivíduo extrem am ente egoísta. Sem pre pensei que ele detestava as m ulheres.

Isabelle falou-lhe então do acidente, m as não de Bill, e prom eteram voltar a contatar m uito em breve. Ficou satisfeita por ter ouvido a verdade, por m ais dolorosa que tivesse sido. Após desligar, perm aneceu em silêncio durante algum tem po e depois telefonou a Bill. Acordou-o de um sono profundo, m as estava ansiosa por com unicar-lhe o que soubera.

Contou-lhe tudo. Quando acabou, Bill j á estava sentado na cam a, de olhos bem abertos e com ar perplexo. Tudo aquilo era tipicam ente francês. Ter am antes durante um a década ou m ais era pouco com um nos Estados Unidos. A m aioria das pessoas divorciava-se. Mas a condessa aguardava que o m arido m orresse para receber a herança.

— É um a história dos diabos! Tem certeza de que a Nathalie te contou m esm o a verdade? — No entanto, apenas confirm ava aquilo de que sem pre suspeitara: Gordon era um estúpido e um sacana.

— A Nathalie sem pre soube de tudo. Por que m otivo nunca m e contaram ? — Era hum ilhante constatar que todas as pessoas de Paris sabiam , m enos ela. Sentia-se um a idiota.

— Talvez pensassem que você sabia e não quisessem atirar m ais lenha na fogueira. Muitas pessoas fazem isso, especialm ente na Europa, se bem que tam bém o façam aqui. — Tam bém nunca ninguém lhe falara dos casos am orosos de Cindy.

— O que acha que devo fazer? — Isabelle não tinha a m enor idéia de com o atuar após a inform ação que possuía.

— O que quer fazer?

— Não sei. Adoraria atirar-lhe isso à cara no preciso m om ento em que entrasse em casa, ou telefonar-lhe para Saint-Moritz, m as reconheço que não é um a atitude m uito inteligente. — Sabia que Gordon lançar-se-ia sobre ela com o um anim al selvagem .

— Acho que deve esperar e, da próxim a vez que ele for desagradável contigo, atira-lhe com isso à cara. Quer deixá-lo? — O queria, m as achava que não devia fazê-lo. A m udança seria m uito violenta para Teddy e não tinha a certeza de que Gordon lhe desse um a pensão suficiente para cuidar do filho. De qualquer form a, a am ante não podia casar-se, por isso não estava ansioso por se divorciar de Isabelle ou ser generoso com ela. Gordon não quereria que explodisse um escândalo, dada a sua proem inência e reputação no banco. Era m ais prudente aguardar, com o Bill dizia. Teria m uito tem po para refletir no assunto e tom ar as decisões que achasse m elhor. — Bem , agora j á tem m unições. Talvez deva guardá-las para o m om ento certo e depois dá-lhe um tiro entre os olhos.

— Se todas as pessoas j á sabem , não seria um grande escândalo se nos divorciássem os, pois não?

— Acho que sim . Um a coisa é ter um a am ante, m esm o que sej a do conhecim ento público, outra coisa com pletam ente diferente é ter um a m ulher furiosa arm ando um escândalo, falando com a im prensa, fazendo acusações públicas, pedindo-lhe um a quantia exorbitante, virando a opinião pública contra ele. Você parece a Virgem Maria com um filho deficiente nos braços. Se um dos m eus candidatos estivesse m etido num rolo desses, aconselhá-lo-ia a m anter a m aior discrição possível, a continuar casado com você, a exibir um ar respeitável, a com eçar a dar de com er a órfãos ou a adotar freiras cegas. O Gordon quererá que toda essa bagunça se resolva o m ais discretam ente possível, e isso depende de você, m eu am or. A bola está nas suas m ãos. A últim a coisa que ele quererá é um escândalo público ou um divórcio. Especialm ente se ela ainda não estiver livre. Ele desej ará sair de casa o m ais discretam ente possível, quando ela ficar viúva, e não antes disso. E conhecendo a personalidade dele com o conheço, não creio que vá pedir-te desculpas e ser sim pático com você. Acabará sem pre por te culpar de tudo. Quanto m ais tiver de se esconder, m ais cruel se tornará. Se você o enfrentar, irá am eaçar-te de tudo e m ais algum a coisa. Tem cuidado, querida. Se o encurralares, corta-te o pescoço. Conheço o gênero. Não recuará, nem sairá pacificam ente da tua vida. Matar-te-á prim eiro. O casam ento tem servido os seus propósitos e não vai querer que arm es confusão. E talvez ela queira ver-te casada com ele para lhe dar um certo ar de respeitabilidade, pois nunca irá deixar o velho antes de ele m orrer. Acho que se estão passando coisas que nem você consegue im aginar. Tem cuidado. Não o pressione dem asiado.

Era um conselho sensato. Reconhecia que Bill tinha razão, só não sabia o que fazer com a inform ação que possuía. Pensou então nas m uitas noites que Gordon não dorm ira em casa e em que provavelm ente estava com a condessa no apartam ento que Nathalie referira. Vieram então à m em ória as viagens com os am igos, as férias que fazia “sozinho”, as festas a que ia, os lugares que frequentava. Nathalie tinha razão, tudo isso durava há um a dúzia de anos.

— O quero é que pense m aduram ente no assunto. Não faça nada por enquanto — aconselhou Bill, pensativo. Não queria que Isabelle saísse m agoada de toda aquela situação.

— Não farei.

— Lem bra-se de que, se o encurralar, ele ripostará, não tenho a m enor dúvida.

Isabelle concordava cem por cento com ele. Gordon podia ser de extrem a crueldade se se visse atacado. Descobrira essa característica dele há alguns anos.

Nos dias seguintes, continuaram falando sobre o assunto, m as não chegaram a novas conclusões. Quando regressou, Gordon exibia um ar feliz e um bronzeado invej ável, e m ostrou-se surpreendentem ente sim pático com Isabelle. Até lhe perguntou pelo estado de Teddy, m as a m ulher não disse um a única palavra sobre a condessa de Ligne.

Isabelle entregou-lhe então a correspondência. Abrira apenas um envelope, pois era dirigido a am bos e anunciou-lhe, com o ar m ais natural do m undo, que o conde e a condessa de Ligne os haviam convidado para um casam ento. Disse-lhe ainda que aceitara o convite em nom e dos dois. Gordon não esboçou qualquer reação.

— O m édico do Teddy diz que devo sair um pouco m ais e acho que tem razão. Deduzi que os conhecesse e, com o veio no nom e de nós dois, achei que talvez não se im portasse que eu tam bém fosse — disse num a voz suave e de olhos arregalados.

— De m odo nenhum — ripostou Gordon, com ar despreocupado. E, por instantes, Isabelle perguntou-se se Nathalie não estaria enganada. Gordon virou-se então para ela com um a expressão estranha no rosto. — Se bem que sej a um casal aborrecido e m uito velho. É capaz de ser incôm odo para você. Se vai com eçar a sair outra vez, acho que devia escolher algo um pouco m ais divertido — acrescentou, num tom m ais solícito que am edrontado.

— Que idade poderá ter a filha que vai casar? — indagou Isabelle, com ar inocente.

Gordon encolheu os om bros.

— Não creio que sej a m uito nova. Deve ser um a m atrona e com poucos atributos de beleza. Acho que vai ser um a grande chatice.

Gordon estava determ inado a convencê-la a não ir. E, pela prim eira vez, desde há m uitos anos, Isabelle sentia um prazer enorm e em trocar im pressões com o m arido.

— Tem razão, não deve ser m uito divertido. Acha que lhes escrevo dizendo que, afinal, não vam os? Não será um a indelicadeza da nossa parte?

— Eu trato do assunto. A propósito, onde está o convite?

— Em cim a da m inha secretária.

— Levo-o quando sair. Vou pedir à m inha assistente que trate do assunto.

— Obrigada, Gordon. Manda-lhes um bom presente acom panhando as desculpas.

— Tam bém vou pedir à Elizabeth que trate disso. Você j á tem preocupações suficientes.

Isabelle agradeceu-lhe. Quando saiu, Gordon j á levava o convite na m ão. Quando soube do sucedido, Bill riu-se.

— É um m onstro, não há dúvida. Mas lem bra-se do quete disse. Tem cuidado, ele não é parvo nenhum . Pode estar à espera de ver o que você faz. É possível que desconfie que alguém te disse qualquer coisa, um a vez que, de acordo com as palavras da tua am iga, todas as pessoas de Paris sabem .

— Não farei nada de nada. — Nos dias seguintes, a única coisa que fez foi verificar se o m arido se encontrava no quarto a altas horas da noite e de m adrugada. Tal com o calculara, não passava as noites em casa e não esperava que Isabelle viesse a saber, pois estava expressam ente proibida de entrar nos seus aposentos. Encontrava-se, presum ivelm ente, no apartam ento na Rue du Bac, na com panhia de Louise.

Isabelle e Gordon passaram o m ês seguinte brincando de gato e rato, e as coisas não se alteraram , com o acontecia há vários anos. Ele tinha a am ante, um apartam ento, um a relação e, de algum a form a, era m ais casado com ela do que com Isabelle. Tal com o esta se sentia m ais casada com Bill.

Este encontrava-se no centro de reabilitação há cinco m eses. Há m uitos anos que não se sentia em tão boa form a física. O pescoço praticam ente j á não lhe provocava qualquer problem a, os om bros estavam m ais fortes e os quadris m ais m agros. De roupa de banho, quando nadava, parecia um j ovem . Tinha m ais sensibilidade nas pernas, o que lhe perm itia m over-se m ais facilm ente na cadeira de rodas. Porém , não conseguia andar, nem pôr-se de pé. As pernas não tinham força, incapazes de suportar qualquer peso sobre elas. As perspectivas de voltar a ter Isabelle nos seus braços eram cada vez m enores. Continuava a encontrar-se com a Dr.a Hartcourt, a sexóloga, apesar da resistência inicial. Insistia que o sexo j á acabara para si. O fato de não ter conseguido consum ar o ato sexual com Isabelle fora extrem am ente traum ático e estava convencido de que as coisas não iriam alterar-se. Mas gostava de conversar com Linda Hartcourt, que continuava dando-lhe para ler um a série de livros interessantes. No entanto, não conseguiam convencê-lo.

Para com plicar ainda m ais as coisas, Jane e Joe foram falar com ele, em Março, para lhe com unicar que estavam noivos. Em bora gostasse m uito de Joe, ficou preocupado com o assunto e teve m uitas conversas telefônicas com Cindy. Esta m ostrava-se m uito m ais com preensiva e discutiram o assunto durante várias sem anas. Bill acabou por ter um a longa conversa com Jane, quando esta veio visitá-lo.

— Papai, sabem os o que estam os fazendo. Não som os crianças. Há sete m eses que nos conhecem os. Sei aquilo com que vou contar. — Devido à natureza das lesões, Joe usava fraldas, tom ava m edicam entos e só tinha m obilidade num dos braços. As suas lim itações eram m aiores do que as de Bill. Fora aceito na faculdade de Direito. Era um a pessoa inteligente e os m édicos achavam , m as não tinham a certeza, que ainda poderia vir a ter filhos. Linda explicara a Bill que hom ens com incapacidade de desem penho sexual podiam engravidar as m ulheres através de insem inação artificial. Não se sabia ainda se Joe, que tam bém era paciente de Linda, estava nessa situação. Mas, ao contrário de Bill, era j ovem , e isso j ogava a seu favor. Na sua idade, este j á não estava disposto a fazer “experiências” ou papel de idiota. Estava preparado para se abster do sexo até ao fim da vida. Aceitava isso com o um a inevitabilidade, ao contrário de Joe.

— Não sabe no que vai se m eter. Ele estará com pletam ente dependente de você, tanto no plano físico com o no em ocional.

— Não é verdade. O Joe preocupa-se com igo, com o nenhum outro hom em algum a vez se preocupou, além do papai. Vai ser advogado, investiu o dinheiro da indenização do acidente, tem um m ilhão de dólares em ações e outros ótim os investim entos. O corretor da m am ãe deu um a vista de olhos na carteira de ações e disse que o Joe fez os investim entos certos. E se ele não puder fazer m ontanhism o ou dançar a valsa, não m e im porto.

— Talvez um dia se im porte.

— O papai e a m am ãe não foram bem -sucedidos no casam ento e o papai andava quando se casaram . O que tem isto agora de tão diferente? Por que razão estam os nós em pior situação do que vocês estavam ?

— Porque ele é deficiente — insistiu Bill. — Vai ser um trem endo fardo para você. A sua m ãe e eu não tivem os sorte no casam ento quando eu conseguia andar, m as hoj e, tal com o estou, não sequer pensaria nessa hipótese.

— É um a patetice. Não acredito que você pense dessa m aneira.

Bill estava m ais do que arrependido por tê-la apresentado a Joe. Pensara que não tivesse qualquer m al e enganara-se. Nas duas sem anas seguintes, discutiu o assunto com Isabelle, Cindy e as duas filhas. Finalm ente, teve um a conversa com Joe. Esperava sinceridade e seriedade da parte dele e era óbvio que se m ostrava aborrecido ainda antes de a conversa ter com eçado. Mas não estava preparado para o que Joe tinha a dizer.

— Sei o que sente, Bill — proferiu, calm am ente. Jane j á lhe contara tudo. Estava furiosa com o pai e disposta a fugir com Joe, se necessário fosse. Mas este respeitava dem asiado Bill e Jane para fazer tal coisa. — Não posso dizer-lhe que está enganado. Não posso dizer-lhe que será um cam inho fácil, am bos sabem os que não. Eu sei. Com preendo isso m elhor do que a Jane. Som os j ovens. O casam ento não é fácil. Os m eus pais estão divorciados, você e a Cindy tam bém . Não há nada garantido na vida. Mas acho que existe um laço especial entre m im e a Jane, e j ulgo, com toda a sinceridade, que as coisas irão dar certo. Vou fazer tudo o que puder para a proteger, am ar e cuidar dela. — Havia lágrim as nos seus olhos. Bill virou o rosto, não queria deixar-se influenciar. — Mas tam bém o respeito m uito para fazer algo que lhe desagrade. Aceito a sua opinião, em bora a considere errada. Julgo que tanto você com o eu tem os o direito de usufruir de um a boa vida e de um bom casam ento com o o resto das pessoas. Apesar de não andar e de não conseguir m exer um braço, tenho direito ao am or. Espero que pense o m esm o. Porém , se não quiser que case com a sua filha, direi a ela que pensei m elhor no assunto e que m udei de idéia. Se é isso que quer, prefiro que ela odeie a m im . Você é o pai, ela precisa de você, talvez ainda m ais do que de m im . Além disso, não quero fazer parte da sua fam ília se não for essa a sua vontade.

As palavras de Joe deixaram -no algo perturbado queria que tudo fosse diferente, m as achava que seria um a vida m uito dura para am bos. O seu único intento era proteger a filha. Ele queria que ela tivesse um hom em que a pudesse levar, pelo seu próprio pé, a ver o pôr do sol.

— E se descobrir que não pode ter filhos? — Este era um dos principais problem as com que Bill se debatia e acreditava que Jane tam bém se debateria com ele no futuro.

— Adotarem os um a criança. Já falam os do assunto. Não há nada garantido na vida. Muitos dos casais que não têm os nossos problem as vêm a descobrir que não podem ter filhos. Farem os o que parecer ser m elhor para am bos.

Bill sabia que não poderia exigir m ais de outro hom em . Joe era honesto, afável, louco por Jane, inteligente, educado, atencioso, culto, financeiram ente estável, m as estava confinado a um a cadeira de rodas para o resto da vida. Era a decisão m ais difícil que algum a vez se vira obrigado a tom ar. Depois de ouvir o j ovem durante longo tem po, estendeu-lhe os braços e, de lágrim as nos olhos, os dois hom ens abraçaram -se.

— Tudo bem , seu reles patife! — Balbuciou Bill, m al contendo a com oção. Avance! Mas se a fizer infeliz, m ato-o.

— Juro. Farei tudo o que puder por ela até ao fim da vida.

Lim param as lágrim as e sorriram um para o outro. Bill tirou então um a garrafa de vinho do frigobar.

— Quando é que estão pensando em casar? — Indagou Bill, enquanto enchia dois copos de vinho. Tinha a sensação de ter acabado de escalar os Alpes, tal com o Joe.

— Talvez em j unho ou j ulho. Vou entrar na Faculdade de Direito da Universidade de Nova Iorque e podem os arranj ar aloj am ento para um casal. — No outono, Jane teria vinte anos. Joe, vinte e três. Eram j ovens, é certo, m as outros antes deles j á haviam feito o m esm o e tinham tido sorte. Bill esperava que eles pertencessem a esse grupo.

— Quando é que você terá alta?

— Dentro de um ou dois m eses. Já estou aqui há um ano. Pensei em ir passar uns tem pos em Minneapolis.

Bill teve vontade de dar pulos de alegria. Estavam am bos um pouco ébrios. Quando chegou ao seu quarto, Joe telefonou para Jane de im ediato. Sentia-se extrem am ente aliviado. Tivera m edo daquilo que Bill pudesse dizer, m as as coisas haviam corrido m aravilhosam ente bem . Mal ouviu a novidade, Jane não conseguiu conter as lágrim as de alegria. A bênção do pai era de extrem a im portância para ela. Tanto ela com o Joe não queriam casar-se sem o consentim ento de Bill.

Cinco m inutos depois de Joe sair do quarto, Jane telefonou ao pai, extrem am ente em ocionada, agradecendo-lhe. Depois de desligar, foi a vez de Cindy telefonar a Bill.

— Você fez bem . Fiquei um bocado preocupada com você, m as fez o que devia. — Parecia m ais calm a e m ais m adura. Todos haviam crescido no últim o ano, não só as filhas.

— O que te faz ter tanta certeza? — perguntou Bill, ainda algo preocupado.

— Sinto. Você está apenas assustado. Ele vai ser bom para ela. — Era a única coisa que poderiam pedir. O resto estava nas m ãos do destino.

— Espero que sim . Caso contrário, vai m e pagar.

— Tenho orgulho de você.

— Não tenha. Ele é um puto porreta, e eu não podia dizer que não.

— Sinto-m e im ensam ente feliz.

Isabelle disse a m esm a coisa quando telefonou para saber com o é que a conversa com Joe correra.

— Nunca te perdoaria se você tivesse dito que não. — Estivera preocupada toda a noite. Levantara-se às quatro da m anhã para lhe telefonar, desej ando que tudo tivesse corrido bem . Não havia nada m ais irresistível do que o am or. E um a coisa era certa Joe e Jane am avam -se loucam ente. Bill só esperava que a vida os tratasse bem . Joe, pelo m enos, j á pagara a sua conta.

A prim avera chegara a Paris. Nos últim os dois m eses, a vida de Isabelle continuara na m esm a rotina de sem pre. Nunca confrontara Gordon com a sua descoberta. Esperava a hora adequada para o fazer. Porém , desde que descobrira o envolvim ento do m arido com Louise, o m odo de encarar as coisas alterara-se por com pleto. Já não nutria o com plexo de culpa por causa do que sentia por Bill e, na m aior parte do tem po, m antinha-se longe de Gordon. Não esperava nada dele. Era sim plesm ente o hom em que, por acaso, vivia na m esm a casa que ela. Só tem ia que ele suspeitasse do seu com portam ento estranho.

Bill continuava a telefonar-lhe todos os dias, m as sabia que tinha de tom ar algum as decisões m uito em breve. Há sete m eses que se encontrava no centro de reabilitação e, em bora se sentisse em ótim a form a física e o estado de saúde tivesse sofrido algum as m elhoras, nada de significativo ocorrera. Planej ara ficar um ano no centro, m as os terapeutas diziam -lhe que não tardaria a ter alta. Era provável que saísse em m aio. Haviam lhe dito, finalm ente, que não podiam fazer m ais nada. Estava confinado à cadeira de rodas até o fim dos seus dias. Não havia nenhum m ilagre, nem nenhum a operação que pudessem oferecer-lhe. Tinha de fazer as pazes com a vida tal com o ela era agora. Era o golpe m ais cruel que sofrera. Pior teria sido se Isabelle não tivesse sobrevivido ao acidente. O fato de não conseguir andar significava que nunca m ais a veria. Preferia m orrer a ser um fardo para ela. Aliás, tivera a sensação de ter m orrido quando lhe com unicaram que não poderiam fazer m ais nada. Ainda não dissera nada a Isabelle, m as sabia que teria de o fazer em breve.

Os am igos continuavam a telefonar-lhe de Washington, e um im portante candidato a senador insistia para que Bill dirigisse a cam panha, em j unho. Tinha em vista as presidenciais, que seriam dentro de quatro anos e sabia que Bill era a pessoa certa para o levar até à Casa Branca.

Falou do assunto com Isabelle, que achava que devia aceitar, pois far-lhe-ia bem voltar ao trabalho. Por vezes, sentia-se algo desalentado por não ter conseguido m ais progressos no centro, m as, se isso não acontecera, não fora por culpa dos terapeutas, inexcedíveis na form a com o o haviam tratado. Deixar o centro era com o abandonar o útero m aterno.

As lesões de Isabelle j á haviam cicatrizado. As análises estavam norm ais e raram ente tinha dores de cabeça. Tivera um a recuperação extraordinária e não ficara com m arcas do acidente, à exceção de um a cicatriz ao longo do braço esquerdo, no local onde a artéria afetada fora suturada. Nada m ais restara a não ser a forte relação com Bill que nascera no hospital. Continuava a sentir im ensas saudades e pedira-lhe para vir vê-la quando saísse do centro. Mas sem pre que lhe pedia tal coisa, Bill dava respostas vagas. Sabia que ainda era m uito cedo para ele fazer planos de viagem , m as esperava que o fizesse o m ais brevem ente possível. Há sete m eses que não o via, o que lhe parecia um a eternidade.

À m edida que o tem po passava, Bill atorm entava-se constantem ente com o fato de não ver Isabelle. Sentia um a enorm e vontade de o fazer, m as não achava correto. A partir do m om ento em que aceitara verdadeiram ente o fato de nunca m ais voltar a andar, tudo se alterara para ele. Os telefonem as deixaram de ter a inocência que sem pre haviam tido. Sentia que estava enganando-a, dada a decisão que tom ara. Nada m ais tinha para lhe oferecer que não fosse conforto e, eventualm ente, alguns fugazes m om entos de conversa, um a m eia dúzia de vezes por ano. Não podia proporcionar-lhe um futuro digno, nem protegê-la de Gordon, nem aj udá-la a tratar do filho deficiente. Só podia dar-lhe palavras. A única coisa que não queria era que Isabelle sentisse dó em relação a ele. E sabia que, se optasse por deixá-la, ela tinha de acreditar que ele não o fazia por causa dos problem as físicos. Caso contrário, nunca perm itiria que ele a deixasse. Mas sem pre que pensava em afastá-la da sua vida ou em nunca m ais lhe telefonar, sofria um aperto no coração. Não queria que Isabelle se sentisse abandonada, m as, a longo prazo, seria m elhor para ela Se pudesse dar-lhe ofuturo que queria, esperaria eternam ente por ela, m as agora que sabia que iria ficar para sem pre na cadeira de rodas, o m elhor que tinha a fazer era afastar-se. Além disso, não podia fazer am or com ela. Apesar de Joe e Jane serem suficientem ente loucos para tentar construir um a vida em com um , nunca faria tal coisa com Isabelle. Bill vivia em luta constante com a sua consciência.

A outra graça divina na vida de Isabelle, para além de Bill, era o fato de Teddy ter registrado m elhoras consideráveis nos últim os dois m eses. Chegara a j antar com a m ãe na sala de j antar várias vezes. Em abril, Isabelle levou-o para passear de carro no Bois de Boulogne pela prim eira vez desde há vários anos. Com eram um sorvete no Jardin d’Acclim atation. Estava extasiada quando contou a Bill. Não fazia nada igual desde que Teddy era pequeno e deu graças a Deus pela bênção que o filho era na sua vida, quando ele fez quinze anos, no dia um de m aio.

Na tarde do dia seguinte, Bill telefonou e com eçou a preparar o terreno para aquilo que se convencera que tinha de fazer. Contou então a prim eira m entira. Refletira m aduram ente no assunto. Por m ais horrível que pudesse parecer, sabia que estava fazendo aquilo para o bem dela. Am ava-a o suficiente para se sacrificar por Isabelle. Há vários m eses que Gordon não a incom odava. Quase nunca se encontrava em casa. Sabia que não haveria um a ocasião m elhor para fazer o que acreditava ser o m ais correto. Com o coração batendo desenfreadam ente, Bill ligou-lhe dizendo que tinha novidades fantásticas e tentou dar um tom convincente às palavras. Isabelle conhecia-o tão bem que receava que ela suspeitasse de que estava m entindo. Porém , por m ilagre, Isabelle acreditou quando lhe disse que j á conseguira dar uns passos e que as pernas j á respondiam aos estím ulos cerebrais. Ficou atônita e não conseguiu conter as lágrim as. A felicidade que evidenciou foi tanta que Bill sentiu-se ainda pior Mas, apenas podia fazer o que a consciência lhe ditava. Isabelle j á tinha Teddy para cuidar, não precisava de outro fardo. Bill sentia que não possuía nada para lhe oferecer, independentem ente do rum o que Gordon viesse a dar ao casam ento deles. Recusava-se a destruir-lhe ainda m ais a vida e a transform á-la na sua am a-seca. Não podia deixar que ela sentisse pena dele. O que acabara de contar a Isabelle era o prim eiro passo para a deixar. Com o abrir a porta da gaiola a um pássaro de grande beleza.

Conversaram dem oradam ente. Isabelle perguntou-lhe o que sentira quando dera os prim eiros passos e se fora aterrorizador ou m aravilhoso, e Bill deu-lhe todos os porm enores sobre o assunto. Nos dias seguintes, acrescentou m ais detalhes à história, para a tornar m ais convincente. Agora, a cada vez que lhe telefonava, sentia-se m al consigo m esm o. Detestava m entir-lhe. Via-se com o um hom em reduzido a m etade, ou m enos, que j á não tinha nada para oferecer a um a m ulher. Mesm o que parte dele funcionasse, havia outra que não, nem nunca m ais funcionaria. O prognóstico dos terapeutas destruíra-lhe o que restava da sua vida e o que partilhava com Isabelle.

Quando não estava conversando com ela, encontrava-se tratando da sua vida futura em Washington. Com eçava, finalm ente, a fazer planos para quando deixasse o centro de reabilitação. Prom etera conduzir a cam panha do candidato a senador, em finais de j unho.

Antes disso, teria de arranj ar um apartam ento e queria passar algum tem po com o candidato para saber tudo o que pudesse sobre ele. E antes de voltar ao trabalho, havia o casam ento de Joe e Jane, em j unho. A filha ia ter m eia dúzia de dam as de honra e planej avam realizar a cerim ônia na casa de Greenwich. Haveria trezentos convidados, para os quais seria arm ada um a grande tenda no gram ado principal. Andavam todos num a enorm e correria. Cindy dedicava-se que nem um a louca a tratar dos preparativos com os fornecedores e as floristas e ainda arranj ava tem po para ir com as filhas às provas dos vestidos.

Joe e Jane estavam fora de si. Tinham conseguido um aloj am ento para casal na Universidade de Nova Iorque. Jane fora a Minneapolis conhecer os sogros. Iriam passar a lua de m el na Itália. Ao ver a alegria esfuziante em que Joe andava, Bill sentia-se cada vez pior consigo m esm o, com aquilo que estava prestes a fazer com Isabelle. Mas j á tom ara a decisão e não havia a m enor chance de recuo. A única coisa que faltava era dizer a Isabelle.

— Sente-se bem ? — Perguntou-lhe Joe, um a tarde, ao voltarem para os quartos. Tem andado tão calado ultim am ente. — Estava preocupado com o futuro sogro. Achava o seu com portam ento estranho. Sabia que Bill sofrera um a enorm e decepção quando lhe disseram que nada m ais poderiam fazer relativam ente à sua recuperação e preocupava-o o efeito que isso poderia ter tido sobre ele. Todos haviam passado pelo m esm o, ao ter de encarar a verdade.

— Estou preparando-m e para voltar ao m undo real. Tenho m uito trabalho depois do casam ento — explicou Bill, m as Joe reparara que o seu futuro sogro perdera praticam ente todo o interesse pelo tratam ento no m ês anterior. E deixara de ir às sessões terapêuticas com Linda Harcourt. Não tinha nada para dizer e perdera toda a esperança de poder usufruir de um a vida em com um com Isabelle. Concordara em ficar m ais um m ês no centro de reabilitação, m as a m otivação era pouca ou nenhum a. A cabeça j á não se encontrava ali. Andava quase sem pre com ar ausente, dando a sensação de estar m ergulhado em profunda depressão.

No final de m aio, ao sair do salão de j antar, deu de cara com Helena, que estava lavada em lágrim as. Esta quase o derrubou da cadeira, prosseguindo de im ediato o seu cam inho, a toda a velocidade.

— Alto aí, bater e fugir é crim e — gritou Bill. Helena parou e, sem voltar a cabeça, levou as m ãos ao rosto e desatou a soluçar. Bill m oveu a cadeira para o lado da dela e tocou-lhe no om bro. — Precisa de aj uda? — Helena abanou a cabeça e não respondeu. Ao fim de um longo instante, tirou a m ão do rosto e fitou-o com ar destroçado. Reparou então que ela j á não exibia o enorm e anel de diam antes que usava há nove m eses, quando se conheceram . Era fácil adivinhar o que acontecera. — Não quer conversar um pouco?

A j ovem assentiu com a cabeça. Foram então até ao quarto de Bill. Depois de se assoar com um lenço de papel que ele lhe dera, Helena agradeceu-lhe com um sorriso triste.

— Desculpe. Estou destroçada. — Mesm o chorando, continuava bonita com o sem pre. Era de um a beleza espetacular, apesar de estar confinada a um a cadeira de rodas.

— Devo adivinhar, ou quer dizer-m e?

— É o Sérgio. Telefonou-m e... as coisas têm estado esquisitas ultim am ente. Está trabalhando em Milão e passa a m aior parte do tem po fora. Adiam os o casam ento há m eses atrás, porque achávam os que precisávam os de m ais tem po... Merda, Bill, há seis anos que nam oram os... m as só ficam os noivos depois do acidente. Julgo que ele só o fez porque se sentiu culpado pela m inha queda, quando estava a trabalhando para ele. E agora com unicou-m e que j á não pode ser, que seria m uito difícil para ele, pois eu preciso de m uita atenção. Diz que tem necessidade de um a pessoa que sej a m ais independente. — Bateu com as palm as das m ãos nos braços da cadeira e desatou novam ente a chorar. Bill pôs-lhe um braço em volta dos om bros. A fala m elhorara consideravelm ente nos últim os nove m eses, m as o resto não, nem havia perspectivas de que algum a vez isso viesse a acontecer. Era exatam ente o que receava que se passasse entre Joe e Jane, e fora tam bém por essa razão que tom ara a decisão de deixar Isabelle, antes que ela viesse a detestá-lo por aquilo que j á não era ou que j á não podia fazer.

— Provavelm ente ficou com m edo. — Sérgio era um dos j ovens fotógrafos com m ais sucesso no m undo da m oda e tinha apenas vinte e nove anos. E tam bém podia ter a m odelo que quisesse, e não um a que se encontrava num a cadeira de rodas. Teria sido ótim o que tivesse conseguido m anter a prom essa de casam ento com ela, m as j á que achava que seria dem asiada carga para si, fora m elhor ter desistido agora. — Helena, se ele vê que é um a situação que não pode suportar, então fez aquilo que tinha que fazer. Você não quer que ele a abandone depois de casarem . Se não é o cara certo, é m elhor saber agora. — Era essa a sua teoria relativam ente a Isabelle, em bora soubesse que ela nunca o teria abandonado, se bem que achasse que era isso que ela deveria fazer. Nas últim as sem anas, pensara m uito sobre o assunto e convencera-se de que era essa a atitude m ais correta. O que Sérgio fizera vinha confirm ar tudo aquilo que pensava sobre o assunto. — Helena, acredite, um dia ainda vai ficar satisfeita por isto ter lhe acontecido.

Helena irrom peu num choro convulsivo. Nada daquilo fazia qualquer sentido para ela. Am ava-o e achava que ele tam bém a am ava. Já arranj ara o vestido de noiva, o fotógrafo, e tratara dos detalhes. Mas o casam ento era m ais do que isso, especialm ente nas circunstâncias em que eles se encontravam .

— Por que razão ficaria m ais satisfeita por isto ter acontecido? — O que Bill dizia não fazia qualquer sentido para Helena.

— Porque não quer ser um fardo para o Sérgio. Ele odiá-la-ia m ais cedo ou m ais tarde.

— Não sou nenhum fardo. Não m udei com o acidente. Continuo a ser a m esm a pessoa. — Joe e Jane teriam aplaudido o que ela dizia, m as Bill não. Tinha exatam ente a opinião contrária.

— Nenhum de nós é a m esm a pessoa. Não podem os ser. Tem os lim itações. Há coisas que nunca m ais voltarem os a fazer.

— Com o o quê? Dançar, Esquiar, Patinar? Quem é que se im porta com isso?

— Pelos visto, o Sérgio. Pelo m enos, foi honesto. Tem de adm irá-lo por isso.

— Não o adm iro. É um a m erda de hom em . Não fiz nada de m al para ele m e deixar assim .

— Pois não. Você só teve um azar dos diabos. Aliás, todos nós tivem os. É por isso que aqui estam os.

— Está dizendo-m e que ninguém voltará a am ar-nos porque estam os assim ? Acho que isso é besteira. Olhe para o Joe e para a Jane.

— Você j á tem idade suficiente para ser m ais esperta do que eles. — Helena tinha vinte e oito anos e queria desfrutar de um a vida norm al, com m arido e filhos. — Continuo achando que estão com etendo um erro e, um dia, pagarão por ele. Talvez um dia a Jane faça o que o Sérgio fez edepois nessa hora, é provável que j á tenham filhos e ficarão todos com a vida estragada.

— É isso o que pensa. Que ninguém nos quer? É um disparate. E sabe bem que é. Pelo m enos, espero que saiba. Tem os direito às m esm as coisas que todas as outras pessoas.

— Talvez não. Eu, pelo m enos, não. Só posso falar por m im E não tenho o direito de obrigar as outras pessoas a pensar o m esm o. Não seria j usto. — Am bos sabiam que falava de Isabelle, e Helena ficou ainda m ais irritada.

— Tem falado com o psiquiatra ultim am ente? — Indagou Helena, de repente, m ais preocupada com Bill do que consigo própria. — Penso que deveria falar com ele. A sua atitude é horrorosa. Acho que o Sérgio é um idiota e talvez você tenha razão, talvez tenha sido m elhor acabarm os agora do que ele abandonar-m e m ais tarde, m as não acho que deva ter a ver com isto — e apontou para a cadeira de rodas. — Acho que deve ter a ver com o fato de m e am ar ou não e com o tipo de m ulher que pensa que vou ser. Talvez pense que não sou suficientem ente boa para ele.

— É a m inha posição sobre o assunto — disse Bill, num tom presunçoso.

Helena lançou-lhe um olhar fulm inante.

— Não é, não, Bill. Você está confuso. Acha que perdem os o direito a serm os am ados no dia em que ficam os presos a um a cadeira de rodas. Não acredito nisso, nem nunca acreditarei. Há m uitas pessoas que se estão se lixando para o fato de conseguirm os pôr-nos de pé ou ficar sentados. Tam bém não gosto de estar nesta situação. Gostaria m uito m ais de andar correndo de um lado para o outro e de usar saltos altos. Mas não posso. Para quê chatear-m e? Quer dizer que você não am aria um a m ulher que estivesse retida num a cadeira de rodas? É assim tão m esquinho? Não creio.

— Talvez não — retorquiu Bill, esquivando-se à pergunta, m as reconhecendo que havia algum a verdade nas palavras da j ovem . Porque se fosse Isabelle que estivesse presa a um a cadeira de rodas, am á-la-ia da m esm a form a, talvez m ais. — Só quero dizer que não tem os o direito de serm os um fardo para as pessoas que am am os. Não podem os suj eitá-las a tal. Se as am am os de verdade, a nossa obrigação é deixá-las. — Falava de si próprio.

Helena parecia confusa.

— Por que razão não nos põem a todos em cim a de um icebergue, num lugar qualquer? Talvez isso resolvesse o problem a. Assim , não representaríam os um problem a para ninguém nem teriam de nos tratar com com paixão. Sabe um a coisa? Tenho um a adm iração trem enda pela Jane e pelo Joe e por aquilo que vão fazer. Am am -se e isso vale tudo. O resto, se anda de cadeira de rodas ou de m uletas, não tem im portância. Para m im , não. Não m e interessa se o cara com quem vou casar é surdo, m udo ou cego, desde que sej a boa pessoa e que nos am em os. Para m im , é suficiente. Esta cadeira de rodas não significaria nada para m im se outra pessoa estivesse sentada nela e não eu.

— Ótim o. Então, case com igo — gracej ou Bill. Helena endireitou-se na cadeira e sorriu.

— Você seria um chato terrível! — E riu-se. — Continuo achando que devia ir falar com o psiquiatra antes de ir em bora, ou ainda vai com eter um a estupidez. — Tam bém era um a das pacientes de Linda Harcourt e dera-se bem com ela.

— Com o o quê? — Gostava de Helena. Era um a m oça m uito inteligente e haviam se tornado bons am igos.

— Com o deixar a pessoa que am a, porque acha que é um fardo para essa pessoa. Porque não a deixa decidir sozinha, em vez de decidir por ela? Não tem o direito de controlar o que ela pensa ou de tom ar decisões por ela.

— Quando se am a um a pessoa, devem os protegê-la dela própria.

— Você não tem esse direito. — Helena trabalhara sem pre com afinco e tivera de enfrentar um a série de situações. Bill passara o tem po todo levantando pesos e evitava sem pre ir ao psiquiatra. — As pessoas têm o direito de tom ar as suas próprias opções. Não podem os lhe retirar, do m esm o m odo que elas não o podem retirar a nós. É um a questão de respeito.

— Talvez tenha razão — retorquiu Bill, pensativo. — Não tenho as respostas. Só as perguntas. Além disso, sou m uito m ais velho do que você. Com a sua idade, talvez fosse m uito m ais coraj oso. Talvez tenha razão, talvez o Sérgio sej a um a m erda de hom em . Mas, se for, é m elhor ficar sabendo agora.

— Concordo, m as não deixa de ser doloroso.

— Mas a vida tam bém o é. Há m uitas coisas nela que nos m agoam . Algum as pessoas nunca deixam de nos desapontar. E o m elhor que tem os a fazer é cortarm os logo o m al pela raiz. E o m ais cedo possível. — Pensava em Cindy, e o fim da relação não tivera nada a ver com a cadeira de rodas.

— Acho que o Sérgio é um a dessas pessoas.

— Talvez da próxim a vez tenha um anel de m enor qualidade e um cara m elhor.

Helena fez um sinal de concordância com a cabeça. Conversaram m ais um pouco. A j ovem voltou depois para o seu quarto, não sem antes aconselhar Bill a consultar o psiquiatra antes de abandonar o centro. Quando Isabelle telefonou ao fim da noite, Bill parecia algo perturbado. Algum as das coisas que Helena dissera haviam deixado-o confuso. Dera tanta ênfase ao fato de as suas lim itações físicas não fazerem qualquer diferença às pessoas que os am avam , que quase se perguntava se a j ovem não teria razão.

— Você está com voz cansada. Andou m uito hoj e? — Isabelle acreditara que Bill j á conseguia andar de novo. Este olhou para a cadeira de rodas, em baraçado. Era a m entira que o im possibilitava de voltar a vê-la. Era com o se tivesse envenenado a com ida, ficando im pedido de se aproxim ar dela. Mas fora o seu plano. E não pretendia recuar, independentem ente daquilo que Helena lhe dissesse. A única questão em aberto era a de quando é que iria com unicar a sua decisão a Isabelle.

— Sim . Tenho m uitas coisas para tratar antes de sair.

— Fizeram um grande trabalho — observou Isabelle, num tom m ais doce do que nunca. Bill ficou de coração destroçado. Por m ais disparatada que a sua atitude pudesse ser, a única coisa que queria era libertá-la de um fardo que, estava certo, arruinaria a sua vida. E sabia que Helena lhe teria dito que Isabelle tinha o direito de fazer a sua própria escolha e que ele estava retirando-lhe essa possibilidade. Mas tam bém sabia que ela tinha o coração bom dem ais para o deixar. Durante dias, Isabelle notara-lhe algo de estranho na voz, m as não conseguia dizer o que era. Achava-o diferente, distante, infeliz. A única explicação plausível seria o nervosism o de deixar o am biente protegido do centro para iniciar um a nova vida. — Com o estão correndo os preparativos para o casam ento? — perguntou, esperando distraí-lo daquilo que o aborrecia.

— A Cindy está ficando m aluca. Eu tento m anter-m e à parte. Só tenho de pagar as faturas. É a parte m ais fácil. — A parte m ais difícil era aquilo que planej ava fazer-lhe. Mas essa, ela ainda não conhecia. — Com o está o Teddy ? — Perguntou, m udando rapidam ente de assunto. Isabelle reparou que há vários dias que ele fazia isso, saltando de um assunto para o outro, com o se sentisse desconforto em discutir qualquer coisa em profundidade. Não era norm al nele. Mas ela conhecia-o m elhor do que ele pensava, m elhor ainda do que ele queria.

— Está ótim o — respondeu Isabelle, o que o tranquilizou, Bill nunca poderia acabar com ela se Teddy não se encontrasse em boas condições. — Nunca esteve tão bem — acrescentou, selando o seu destino.

— Ótim o. — Bill com unicou-lhe então que ia a Washington procurar um apartam ento na próxim a sem ana.

— Poderia vir a Paris depois do casam ento, se não estiver m uito cansado. Só uns dias, antes de com eçar a trabalhar. — Isabelle sabia que estava pedindo-lhe m uito, m as receava que não tivesse tem po depois do casam ento.

— Terei de ver. Devo entrar em cam panha nessa sem ana. — Outra m entira. A cam panha não com eçava antes do final de j unho. Teria tem po de dar um pulo em Paris, m as não podia dizer-lhe que não conseguia andar.

— É um caso a ver.

Quando desligaram , Isabelle ficou preocupada. Tinha a sensação de que Bill a evitava e não sabia porquê. Com eçara a agir assim de um dia para o outro. O que ela tam bém não sabia é que tudo tivera início no dia em que os terapeutas haviam confirm ado que ele nunca m ais voltaria a andar. Esse fora o ponto de virada para Bill. Sem pre prom etera a si próprio que, quando isso acontecesse, deixaria de lhe telefonar e nunca m ais voltaria a vê-la. Mas ainda não tinha coragem suficiente para cum prir a prom essa. Isabelle receava ter dito algo que o tivesse ofendido. Porém , não dava m ostras de estar zangado com ela, apenas distante. Haviam -se passado nove m eses desde a últim a vez que o vira e não fazia a m enor idéia de quando é que Bill iria visitá-la. E não havia qualquer form a de ir encontrá-lo ele em Nova Iorque ou em Washington. Não podia deixar Teddy tanto tem po sozinho, nem aventurar-se tão longe.

Quando o dia do casam ento chegou, Isabelle estava em pânico. Bill não lhe telefonava há algum tem po. Quando lhe perguntou o m otivo, desculpou-se com o fato de andar m uito ocupado. Arranj ara um apartam ento em Washington e encontrara-se com o j ovem senador para falarem da cam panha. Pareceu excitado quando abordou o assunto. Nos dois dias que se seguiram ao casam ento, não fez qualquer telefonem a a Isabelle. E esta, por qualquer razão recôndita ou instintiva, não se atreveu a ligar-lhe. Bill com eçava a afastar-se progressivam ente dela.

Fora um a cerim ônia encantadora e todas as pessoas ficaram com lágrim as nos olhos quando Joe e Jane fizeram o j uram ento de fidelidade. Com ele na cadeira de rodas e ela de pé, ao lado dele, segurando-lhe a m ão, o quadro não podia ser m ais com ovente. E ninguém chorou m ais do que Bill, confinado à sua cadeira de rodas, ao lado de Cindy, na ponta da prim eira fila de convidados.

— Sente-se bem ? — perguntou Cindy. Achava-o extrem am ente calado. — Está com um ar tenso.

— Estou pensando no trabalho. Vou deixar o centro e partir para Washington dentro de poucos dias. Sabe com o sou. — Do ponto de vista físico, estava com um ótim o ar, m as Cindy desconfiava que havia algo a perturbá-lo.

— Parece aborrecido. — Cindy acabou por concluir que talvez se devesse à em oção de ver a filha casar-se.

Olivia veio sentar-se ao pé do pai durante algum tem po. E quando Jane devia dançar com ele, fê-lo com o avô, enquanto Bill e Joe ficaram vendo, de sorriso nos lábios. O fato não pareceu aborrecer Joe, m as m agoou Bill. E bastante. Foi um a cerim ônia m aravilhosa, um banquete m agnífico, e todas as pessoas se divertiram . Nessa noite, na viagem de volta ao centro de reabilitação, não conseguia deixar de pensar em Isabelle.

Durante dois dias não saiu do quarto e nem sequer foi à fisioterapia. Então, ganhou coragem e ligou para Isabelle, que estava preocupada com ele e j á lhe telefonara várias vezes nos últim os dois dias. Bill não atendera. Sabia que era ela. Preferia ficar deitado na cam a, pensando nela, desej ando que a noite o poupasse àquele sofrim ento.

— Onde é que você tem andado? — Indagou Isabelle, com algum pânico na voz. Pensei que tam bém tivesse ido em lua-de-m el — gracej ou.

Bill sabia que a preocupação que a acom etia não era nada em com paração com a dor que iria sentir. Depois de cinco anos de conversas quase diárias, era inconcebível j á não a ter na sua vida. Mas estava certo de que esta seria a últim a prova do seu am or por ela.

— Que tal foi o casam ento? — Bill soltou um suspiro.

— Foi bonito. Todos choraram na cerim ônia e depois divertiram -se m uito.

— Conta-m e com o foi. — Teddy ainda estava dorm indo. Ultim am ente dorm ia até tarde, o que lhe perm itia ter m uito tem po livre.

Bill contou-lhe então todas as peripécias do casam ento. Depois, soltou novo suspiro. Tinha a sensação de ir m ergulhar da prancha m ais alta da piscina.

— Tenho um a coisa para te dizer.

Isabelle sentiu o coração parar. Sabia, ainda antes de ele articular qualquer palavra, que o que iria ouvir não seria agradável

— Não estou gostando desse tom de voz. Conteve a respiração, preparando-se para o choque.

— Eu e a Cindy renovam os os nossos votos.

Do outro lado da linha instalou-se um longo silêncio. Isabelle tentava entender o que acabara de ouvir.

— O que isso quer dizer? — Tentava m anter a calm a, m as só lhe apetecia gritar. Com o sem pre, m ostrou-se delicada e esperou que Bill se explicasse.

— Renovam os o com prom isso m atrim onial. — Era m ais um a m entira que Bill lhe contava. A prim eira ocorrera ao dizer-lhe que j á conseguia andar. — As coisas alteraram -se desde que estou no centro de reabilitação. Pensam os que fosse im portante para as m eninas. — Um a estava casada, a outra tinha vinte e dois anos. Que im portância poderia ter para duas m ulheres adultas o fato de os pais terem renovado o com prom isso m atrim onial? Mas não questionou o óbvio. O que contava era o fato de o terem feito.

— Quando é que você tom ou a decisão? — Sentia todo o corpo a trem er, m as esforçava-se por se m anter calm a.

— Nas últim as sem anas — proferiu Bill, num tom algo arrogante, tentando não pensar naquilo que estava fazendo.

— Eu sabia que havia qualquer coisa de estranho. — Já o conhecia bastante bem , o que não era surpresa ao fim de cinco anos. — Era por isso que não fazia planos de vir a Paris?

— Acho que não devíam os continuar conversando.

As palavras atingiram -na com um a violência desm esurada. Isabelle perm aneceu alguns instantes sem conseguir articular qualquer palavra e ainda pensou que ia desm aiar. Ficou sem respiração e, pela prim eira vez desde o acidente, sentia o coração bater freneticam ente. Era com o se tivesse sido atingida por um a enorm e bola de dem olição. Mas sabia que tinha de dizer qualquer coisa. Não esperava aquilo, m as não podia criticá-lo. Ela tam bém se recusara a deixar Gordon, por causa de Teddy. Tinha m uito pouca coisa para oferecer a Bill, à exceção dos telefonem as. Apesar da m ágoa que sentia, achava que Bill tom ara a m elhor decisão. Am ava-o o suficiente para lhe desej ar a m elhor sorte do m undo.

— Não sei o que dizer. Sinto-m e feliz por você. — Bill recuperara não só o m ovim ento das pernas com o tam bém o casam ento. Ao ouvi-la chorar, só teve vontade de m orrer. Mas achava que era a m elhor coisa para ela. Só o seu grande am or por Isabelle o levava a tom ar aquela decisão horrível. Era o últim o sacrifício que fazia por ela.

— Quero que cuide de você. Não deixe o Gordon pôr as m ãos em você. Poupa as m unições. Se ele te torturar, j oga o teu trunfo. Nunca m ais irá incom odar-te. Enquanto o m arido da Louise for vivo, quererá continuar casado com você. — Pensara m uito no assunto e era a única coisa que o preocupava agora. Não queria que Gordon a atorm entasse, m as nunca m ais saberia se isso acontecesse. Não poderia protege-la do m arido, a não ser com am or, o que era m anifestam ente pouco.

— Folgo em saber que se preocupa com isso — retorquiu Isabelle, parecendo algo chocada e confusa. — Não com preendo... Não m e contou quando é que as coisas entre você e a Cindy m elhoraram ... Com o e quando é que isso aconteceu?

— Não sei. Talvez quando o Joe e a Jane resolveram casar-se. Decidim os então renovar os votos de casam ento. — A verdade era que o processo de divórcio ficara concluído em m arço, depois de Jane e Joe lhes dizerem que iam casar-se. Cindy parecia ter um caso sério com um hom em com quem andava há nove m eses, e Bill estava feliz por ela.

— Quero que sej a feliz, Bill, signifique isso o que significar para você. E quero que saiba, se é que vale a pena dizer, que te am o do fundo do coração.

— Eu sei. — As lágrim as rolavam -lhe pelas faces, m as não podia deixar que ela as pressentisse no seu tom de voz. — Tam bém te am o, Isabelle. — Bill teve vontade de lhe dizer que sem pre a am aria, m as não podia fazê-lo. — Cuida de você. Se precisar de algum a coisa, liga-m e. Estarei sem pre ao teu dispor.

— Não creio que a Cindy gostaria disso.

— Trinta anos é m uito tem po. É difícil fugir disso. — Mas fugira. Por razões sem elhantes. Mas era Isabelle a dona do seu coração e sem pre haveria de ser. Mas só ele sabia.

— Vou sentir saudades loucas — disse Isabelle, com eçando a soluçar. Mas quero que você sej a feliz... feliz... É bom para você próprio. Merece tudo.

Bill considerava que o que m erecia era arder no inferno, m as continuava acreditando que era j usto o que estava fazendo e isso com pensava a enorm e m ágoa que sentia. Ela, um dia, dar-lhe-ia razão.

— Adeus — disse Bill, desligando.

Quando pousou o aparelho, Isabelle irrom peu num choro lancinante. Dava a sensação de que m orrera alguém . E, até certo ponto, não fugia m uito à verdade.

— O que se passa, m am ãe? — Teddy entrou correndo no quarto, com olhar assustado. Nunca a ouvira chorar daquela m aneira. Estava sem fôlego quando chegou j unto da m ãe.

Por instantes, Isabelle não conseguiu articular qualquer palavra, m as sabia que tinha de se recom por diante do filho.

— Um velho am igo m eu m orreu. — Não sabia que m ais havia de lhe dizer. Até certo ponto, fora isso que acontecera. Bill acabara de m orrer. Não conseguia im aginar viver sem ele, nem com o seria a vida sem os seus telefonem as. Era com o um a sentença de m orte num a vida que j á possuía tão pouco. A única coisa que tinha era os filhos. Então, levantou-se, vestiu o casaco e deu um abraço dm Teddy. — Estou ótim a. Apenas triste. Vou dar um passeio. Levou-o até ao quarto dele e deitou-o na cam a. Saiu e passeou durante horas. Estava quase na hora do alm oço quando voltou. Tinha um ar cadavérico. E até a enferm eira de Teddy se assustou ao vê-la.

— Sente-se bem , Mistress Forrester? — Há vários anos que se conheciam e nunca vira Isabelle com um ar tão abatido.

Isabelle assentiu com a cabeça, tentando esboçar um sorriso. Os olhos eram dois poços cheios de m ágoa.

— Estou ótim a — afirm ou m ecanicam ente. Não havia m ais nada que pudesse dizer. Nessa tarde, quando lia histórias a Teddy, havia rios de lágrim as a correrem -lhe pelas faces. Teddy tentava confortá-la, dando-lhe palm adinhas na m ão. Não sabia o que lhe dizer. Nessa noite, quando o abraçou, depois de o colocar na cam a, Isabelle não conseguiu conter um soluço.

— Sinto m uito, m am ãe — disse Teddy, num tom carinhoso, abraçando-a com força.

— Tam bém eu, querido. — E esboçou um sorriso triste.

Isabelle estava destroçada, m ais do que algum a vez se sentira em toda a sua vida. Bill levara-lhe a esperança, o riso, o am or e o conforto dos dias tristes. Não tinha ninguém para quem se virar agora e sabia que nunca m ais teria. Morreria prisioneira de Gordon. Mas isso pouco lhe im portava. Viveria para servir Teddy e Sophie, até m orrer.