O Homem da Máfia (Família Carbone Livro 1)
Capítulo 15
As paredes possuem cores fortes e o piso é escuro, deixando o ambiente
quase intimidador à primeira vista. A sala é gigante, tem mais de seiscentos
metros quadrados. São mais de quarenta mesas de pôquer espalhadas, ainda há
espaço para os caça-níquéis, roleta, jogos de dados, blackjack, palco para música
ao vivo e um bar.
— Parece que eu tô em Las Vegas — murmura. — E olha que eu nunca fui
lá — acrescenta e ri.
— Gostou?
— Podemos mesmo fazer o aniversário da Sophia aqui? — indaga com as
sobrancelhas franzidas. — Parece muito, Julian.
— Não se preocupe. Desde que seus amigos não destruam a propriedade
da minha família, podemos usar.
Lina abre um sorriso largo, ficando na ponta dos pés e me dando um
selinho com gosto de gloss de morango, depois se solta de mim e vai até um
caça-níquel próximo de nós.
— Você tem alguma moeda? Deixei minha bolsa no carro — murmura,
encolhendo os ombros.
Aproximo-me dela, tiro a carteira do bolso e lhe dou uma nota de dez
dólares.
— Exibido — retruca, pegando a nota com a ponta dos dedos.
Rio.
— Não ando com moedas.
Ela morde o lábio inferior e com uma carinha travessa, enfia a nota na
máquina e me dá uma olhadela antes de apertar o botão. Tenho uma garota
ambiciosa, é o pensamento que me vem à cabeça quando noto que Lina resolveu
fazer a aposta máxima.
Cruza os dedos e fecha os olhos para as [15] bobinas, esperando o resultado.
De maneira surpreendente, o caça-níquel faz uma combinação de quatro
números sete e um [16] wilds. A máquina começa a tocar a música animada, anunciando a vitória do jogador.
Lina abre primeiro um olho e depois o outro. Fica boquiaberta quando vê
os números do valor ganho subirem sem parar. Não é muito. Já vi homens
jogando o valor que ela ganhou e não receberem nada em troca, mas para uma
principiante, é um prêmio bem gordo.
— Isso é sério? — questiona, atônita.
— Parabéns. Não vi isso acontecer muitas vezes. — Sorrio. — Por favor,
não jogue outras vezes, você vai falir o meu cassino — zombo.
Ela começa a rir.
— Meu Deus, Julian! E acabei de ganhar mil dólares — fala, perplexa.
Pigarreio e ajeito o nó da gravata.
— Na verdade, eu acabei de ganhar mil dólares. A nota que você apostou
era minha — brinco.
— O dinheiro era o seu, mas a sorte é minha — resmunga, apertando no
botão para receber o pagamento. — Mas como sou uma boa garota, vou
devolver os seus dez dólares, senhor — acrescenta a última palavra com desdém.
Faço um estalo com a língua, negando.
— O prêmio é meu, no entanto, você pode me pagar de outras formas —
digo, sugestivo e cheio de segundas intenções.
Lina dá de ombros.
— Vou pensar no seu caso — rebate.
— Jolina Magdayao, parabéns. Você está me devendo mil dólares.
Cuidado, eu posso cobrar com juros.
Ela revira os olhos, tentando reprimir uma risadinha. Quando o voucher sai
da máquina, a garota parece se dar conta de algo e fica de expressão amuada.
Levo uma das mãos até os seus cabelos e prendo uma mecha atrás da orelha.
— O que aconteceu?
— O caixa tá fechado, não vou conseguir pegar o meu dinheiro —
resmunga, me fazendo rir.
— Não se preocupe... — Tomo o seu rosto com as duas mãos e focalizo os olhos de jaspe. — Trago você aqui depois.
Concorda com um aceno de cabeça, sorrindo.
— Obrigada.
— Pelo quê?
— Você tem sido muito... hum, generoso, gentil. — Contorna minha
cintura com as mãos e ergue o queixo para mim. — Quem diria que um homem
da máfia podia ser tantas coisas desse tipo? — zomba.
Aperto-a contra meu corpo, roubando um gemido involuntário dela.
— Por que mesmo quando você faz um elogio, sinto que está implicando
comigo?
— Por que talvez eu esteja? — retruca.
Enfio meus dedos por entre os seus cabelos e trago o rosto delicado para
mim, envolvendo Lina em um beijo lento e ao mesmo tempo, intenso. Empurro-
a contra o caça-níquel e deslizo as mãos pelas laterais do corpo pequeno e quente
contra mim.
Meu corpo reage de imediato e a ereção latejante surge no meio das calças.
Lina geme na minha boca quando sente a volume contra coxa e me puxa mais
ainda para si.
Antes que possa me empolgar demais e fazer alguma coisa, ela me
interrompe.
— O que foi?
— Os botões da máquina... minha bunda tá doendo — balbucia com as
mãos espalmadas no meu peito e me empurra de leve para trás, saindo de perto
do caça-níquel. Ela começa a rir, e eu acabo não resistindo e rio também.
Nunca fui o tipo que dá tantos sorrisos, mas percebi que é fácil fazer isso
quando essa garota está ao meu lado.
Dias depois...
Arrastando uma Sophia vendada e resmungona, eu passo pelas portas e
levo-a até o cassino, onde os nossos amigos mais íntimos e os homens de Julian,
é claro, esperam.
O homem é viciado em segurança, por isso há pelo menos seis deles
usando terno preto espelhados pela sala. Não sei se os homens estão aqui para
proteger o cassino dos nossos amigos, ou nos proteger de algum possível evento
que não esteja nos planos.
De qualquer forma, não quero nem pensar na segunda possibilidade.
— O que você tá aprontando? — ela resmunga mais uma vez. — Tá me
cheirando a coisa cara. Eu disse que não queria nada extravagante.
Rio.
— Pronta? — pergunto.
— Sim, acho que sim.
Desfaço o nó da venda e tiro dos olhos de Sophia. Mesmo que tenha
passado o caminho inteiro reclamando, está com um sorriso grande emoldurando o rosto e ainda tem as pestanas fechadas.
— Abra — encorajo.
Devagar, ela abre os olhos e fica boquiaberta enquanto nossos amigos
gritam “surpresa”. Sorrindo, ela envolve uma mão no meu pescoço e me dá um
abraço de lado, depositando um beijo exagerado na minha bochecha.
— Eu não acredito, Lina. Você é a melhor, sério.
Dou de ombros e a empurro para próximos dos convidados, que esperam
animados para cumprimentar a aniversariante.
É uma festa íntima, fora os homens de Julian, somos em dez. Não tem
nenhuma decoração elaborada, além de uns balões nas cores rosa e branco em
cima de uma mesa de pôquer e o bolo de unicórnio. Mas o bar está funcionando
e os barmen já prepararam algumas bebidas malucas para os nossos amigos. E o
restaurante que fica na entrada da sala da jogatina está aberto, exclusivamente
para nós.
E o toque especial. Música ao vivo. Julian pediu para uma das cantoras do
cassino animar a noite do aniversário de Sophia. Como se não fosse o bastante, a
mulher em cima do palco está cantando “Criminal” da Britney Spears.
A música parece ter sido feita para mim.
“Mas, mamãe, eu estou apaixonada por um criminoso. E esse tipo de
amor não é racional, é físico. Mamãe, por favor, não chore, eu ficarei bem.
Pondo a razão de lado, não posso negar, eu amo aquele cara.
E ele tem meu nome tatuado no seu braço, é o seu amuleto. Então, eu acho
que está tudo bem. Ele está comigo.”
— Eu sei que ele fez isso por você, mas nossa, porra, que demais — minha
amiga fala ao se aproximar de mim e me tirar do meu devaneio. Ela está
tomando um shot colorido, que não faço a mínima ideia do que seja, mas parece
ser forte. — Aquele homem sabe como impressionar uma mulher, porque eu tô
impressionada.
Começo a rir.
— Feliz aniversário!
— Obrigada, amiga, de verdade.
Envolve os braços no meu pescoço e me aperta contra o corpo. Quando
nos afastamos ela grita animada, me fazendo rir de novo. A noite mal começou e
já parece louquinha. Tudo bem, hoje é o dia dela, Sophia pode tudo.
E eu como melhor amiga preciso ficar de olho nessa maluca.
Caminho até o bar e peço uma cerveja, que o barman serve em uma caneca
de vidro transparente. Tomo um gole generoso, mas não muito. Não quero ficar
bêbada hoje e sei que não sou uma das pessoas mais tolerantes para o álcool.
Jasper, que foi a segunda pessoa na universidade com quem fiz amizade e
sentou junto de mim e Sophia nas aulas por muitos semestres, se acomoda no
bar, ao meu lado.
Ele é um cara bonito. Certinho, estudioso. O tipo de rapaz com quem as
garotas deveriam se envolver. Está na cara que Jasper vai dar estabilidade
emocional para uma garota e fazer o possível para o relacionamento ser
saudável.
No bar, ele pede o mesmo que eu.
— Você tem contatos, Lina — brinca.
— Sou uma mulher poderosa, nunca duvide isso — digo, arrebatando uma
risada dele.
Nós brindamos quando a cerveja dele chega. Jasper bebe um gole, eu não.
— Quem teve a ideia? Esse lugar é incrível. Eu vim aqui algumas vezes
com meus amigos.
Semicerro os olhos e penso no que responder. Não posso dizer que meu
namorado deu a ideia, porque parece compromisso demais e eu não sei o que
Julian e eu somos. Mas dizer que somos amigos parece raso, como se faltasse
algo.
O que ele e eu somos?
O que existe entre nós é uma amizade colorida?
— Apenas aconteceu — é o que eu digo e encho a boca de cerveja, a fim
de dar o assunto por encerrado.
Mais amigos se aproximam e logo estamos em uma conversa animada
sobre como Sophia é âncora de muito de nós. Talvez ela não saiba, mas é a
minha também. A primeira pessoa que me acolheu em Montreal e me fez sentir
esperanças de que no final tudo ficaria bem.
Meus olhos captam Nicholas ao longe falando com alguém no celular.
Coitado. Mais uma vez sendo babá. E o pior, sendo babá de vários universitários.
Peço outra cerveja ao barman, e quando ele me entrega, pego a minha e vou até
ele.
— Pra você — falo ao oferecer a bebida. Nicholas fica sem jeito e hesita
em pegar a caneca.
— Não posso beber, estou trabalhando — é a sua desculpa.
— Não me faça voltar com essa cerveja, por favor — rebato.
Ele assente, sério, mas pega a bebida.
— Obrigado.
Bate a cerveja na minha, num brinde silencioso. Ele bebe tudo de uma vez,
me deixando de os olhos arregalados.
— Não fico bêbado fácil — se explica.
— Ah, certo — é o que murmuro e decido beber toda a minha cerveja
também. — Cadê o mandachuva? — quero saber.
— Você ainda o chama assim?
Sorrio e anuo.
— É claro, ele não deixou de ser mandão — brinco, e ele acaba sorrindo,
deixando o rosto com a expressão leve. — Você precisa de algo? — pergunto,
pegando a caneca de vidro das suas mãos. — Ou os homens de preto?
Ele nega com a cabeça.
— Estamos bem, Lina. Aproveite a noite e se divirta.
— Obrigada.
Tento dar uma batidinha no ombro dele antes de me virar e voltar ao bar. A
essa altura do campeonato, Sophia e nossos amigos estão perto do palco,
dançando com suas bebidas coloridas nas mãos.