O Homem da Máfia (Família Carbone Livro 1)
Capítulo 10
E meu pai tem mantido boa parte das ruas de Montreal limpas, sem mortes
desnecessárias. E digamos que eu estava causando um alvoroço e tanto.
O luto fode com a nossa cabeça.
E Rebecca era uma das coisas mais importantes para mim.
— Como anda a nossa mercadoria? — o Don pergunta ao Giuliano, o
caporegime mais antigo da família desde a geração do meu pai e bate de leve
com o charuto aceso no cinzeiro de cristal murano.
— Chegou na madrugada, estamos esperando [10] desembaraçar a
mercadoria.
— Quanto tempo? — ele quer saber.
— Ethan disse que até o final do dia, no máximo, Don Carbone —
Giuliano responde de forma respeitosa e meu pai faz um gesto quase
imperceptível com a cabeça, concordando.
— E Miguel? — o Don pergunta, encarando o charuto.
— O contratempo foi solucionado, ele não será mais um problema — é
Gabriel quem fala, se remexendo na cadeira e apoiando os cotovelos em cima da
mesa.
Miguel era um soldado que achou que conseguiria passar a perna na
família Carbone e abriu o próprio negócio, explorando garotas menores de idade
e ganhando dinheiro com prostituição.
Existem algumas coisas que o Don não tolera. Primeiro, que o
desobedeçam ou achem que ele não é inteligente o suficiente para ler as pessoas.
Segundo, que abusem de mulheres e tentem ganhar dinheiro explorando-as.
Apesar de não nos envolvermos ou lucrarmos com prostituição, a família
Carbone não é contra isso. Mas o Don não admite, em hipótese alguma, que
algum dos nossos explore ou se beneficie do corpo de qualquer mulher. É claro
que existe prostituição em Montreal, mas pelo menos no lado leste, norte e sul,
elas são donas de si e o chefe da máfia não permite cafetões pelas áreas.
Para o meu pai, Francesco Carbone, o Don da família, não existe nada mais vergonhoso para um homem do que depender do corpo de uma mulher para
ganhar dinheiro.
— Que isso sirva de exemplo para qualquer um que queira ir contra as
minhas regras — é o que o Don fala e nós todos assentimos em silêncio. — E os
nossos negócios da reserva?
— Os nossos homens foram até o lado americano da reserva e
conseguiram descarregar sem problema nenhum — Gabriel diz.
— Marque uma reunião com o Nibaa — o Don ordena.
Nibaa é o nosso sócio que trabalha na reserva que fica entre a fronteira do
Canadá e dos Estados Unidos. Ele facilita muito a vida dos nossos negócios, já
que conseguimos passar de tudo sem a alfândega ficar sabendo disso. E como os
policiais não podem cruzar a fronteira, podemos descarregar sem contratempos.
— Algum problema, Don Carbone? — Giuliano quer saber.
Meu pai nega de leve com a cabeça.
— Não, mas é sempre bom comprar estabilidade. — Dá uma tragada no
charuto e solta a fumaça devagar. — É assim que você mantém os negócios
estáveis, Giuliano.
É claro que Montreal é nossa. Somos a maior família da cidade e o nosso
negócio sempre deu muito lucro. No entanto, ainda existe uma parte da cidade
que não temos controle.
O chefe da família Fontana de Toronto mudou para cá há alguns anos.
Causou comoção, pois queria dominar o porto para o contrabando de drogas.
Mas meu pai conseguiu dar um jeito no problema, fazendo uma trégua com a
família recém-chegada.
Eles eram muito violentos e permanecer brigando, continuaria causando
morte de inocentes, e o Don sempre gostou de manter as coisas tranquilas nas
ruas e nos negócios. Embora não tenha nascido aqui, o papà considera Montreal
o seu lar.
O chefe da família Carbone permitiu que os Fontana ficassem com o lado
Oeste, fazendo seus trabalhos. Claro que não foi fácil, afinal, é a nossa cidade, nossa casa. Mas meu pai sempre foi um visionário e soube ler as pessoas muito
bem.
Fazer uma trégua com a família Fontana e continuar com o controle do
porto, sabendo tudo que entra e tudo sai, sem precisar responder a ninguém, a
não ser ele mesmo, foi a melhor solução.
No entanto, estamos preparados. Tréguas não duram para sempre e a
qualquer momento, podemos entrar em guerra com a família Fontana e acabar de
uma vez com eles. Faremos o que for necessário para manter Montreal sob
controle.
E bem, eu nasci aqui, é minha cidade, meu lar. Não permitirei que outra
família a não ser a nossa, seja dona de Montreal.
Já passam das dezoitos horas quando chego em casa. Arrastada, tiro os
sapatos no hall de entrada e corro para o banheiro. Preciso de um banho
quentinho para recarregar as energias.
Passar o dia estudando etnologia ameríndia e de quebra trabalhar com um
arqueólogo recém-formado chato e metido no museu, sugou toda minha
disposição.
Enquanto movo o secador para lá para cá em cima dos cabelos molhados
de frente para o espelho, observo os machucados no meu rosto. Começo a xingar
Tristan em pensamento, rogando maldições sobre ele.
E como consequência, lembro que tenho uma hóspede no apartamento.
Largo o secador na pia do banheiro e saio do quarto com o cabelo meio
molhado, procurando pela cachorra.
— Garota? — digo ao mesmo tempo em que faço um barulho ridículo com
a boca. — Garota, vem aqui — continuo chamando, mas nada da danada.
Reviro todo o apartamento e vou encontrá-la debaixo do sofá, cabisbaixa.
Arrasto o móvel e noto que ela vomitou. Enrugo o nariz ao me abaixar para
pegá-la e sinto-a queimando em febre.
— Você tá bem? — pergunto e ela me encara com os olhos meigos,
amolecendo meu coração. — O que será que você tem? — faço outra pergunta,
mas é claro que não tenho respostas.
Sem pensar muito, coloco a cachorra em cima do sofá e pego um casaco
no quarto ao mesmo tempo em que tento chamar um Uber pelo aplicativo do
celular. Pego a bolsa no cabideiro perto do hall de entrada e calço os tênis,
depois chamo a cachorrinha, que embora pareça sem forças, vem ao meu
encontro.
Do lado de fora do prédio, o Uber me espera e ao entrar no carro, ele faz
cara feia para a Lulu da Pomerânia nos meus braços, mas o ignoro e peço que
ande rápido até a clínica veterinária que passei o endereço.
Vinte minutos mais tarde, estamos em frente à clínica do pai da primeira
amiga que fiz ao me mudar para Montreal. O lugar tem dois andares e fica entre
uma cafeteria e uma clínica de depilação a laser. Está tudo movimentado por
aqui, porque existe um hotel cassino na rua de trás.
Empurro as portas de vidro e entro. A recepcionista fica me encarando de
um jeito estranho e eu não entendo o motivo. Depois de sair do êxtase, pergunta
qual o problema ao ver a cachorrinha cabisbaixa em meus braços. Digo como a
encontrei e comento sobre o vômito. Enquanto ela faz anotações, passos os
dedos de leve na cabecinha peluda de cor caramelo.
— Qual o nome dela? — a recepcionista quer saber.
Prenso os lábios por um segundo e digo a primeira coisa que vem à minha
cabeça.
— Garota.
A moça detrás do balcão ergue uma sobrancelha, mas assente, quando
percebe que estou falando sério.
“Garota” é um nome sem emoção e não tem criatividade nenhuma, mas eu
ainda não tive tempo de buscar no Google nomes para se colocar em um
bichinho de estimação.
Droga. Eu ainda nem tive tempo de me acostumar com a cachorra.
Ela pega o telefone e disca o número do médico veterinário, que surge na
recepção três minutos depois. Quando o senhor Canning coloca os olhos em
mim, parece assustado e até mesmo, confuso.
— Lina? Aconteceu algo? Você está bem? — pergunta com a testa
franzida e eu fico sem entender.
— Eu? Ah, sim, sim. O problema é com a Garota — falo ao erguer com
cuidado a cachorrinha dos meus braços.
— Tem certeza?
Enrugo o cenho.
— Sim... — murmuro.
Mesmo desconfiado, ele se aproxima e acaba pegando-a no colo e
caminhamos rumo ao consultório.
Ao entrar na sala e passar pelo quadro de borda espelhada, tomo um leve
susto ao perceber que não estou usando maquiagem. Os hematomas perto do
olho e boca estão bem visíveis para qualquer um ver.
Me sinto envergonhada e volto a xingar Tristan em pensamento.
Depois de quase uma hora e alguns exames de sangue, o senhor Canning
chega à conclusão prévia de que a Garota tem intolerância e sensibilidade à
frango, mas apenas os resultados que saem em dois dias podem confirmar com
certeza.
Ele medica a cadela e me doa alguns pacotinhos de ração úmida
hipoalergênica. É um homem prestativo e de coração generoso.
E claro, fico grata por ele não ter perguntado sobre os hematomas no meu
rosto. Não me sentiria confortável em ter que falar sobre o que aconteceu. É
vergonhoso e humilhante demais para se dizer em voz alta.
Saio da clínica com a promessa de retornar com Garota daqui dois dias.
Com ela nos braços, enrolada numa cobertinha que ganhei da recepcionista,
caminho até o outro lado da rua e chamo um Uber pelo aplicativo do
smartphone. Dez minutos para o carro chegar e acho que vou congelar de frio
segurando a Garota.
— Você está melhor? — pergunto com um sussurro, fazendo carinho no
seu focinho molhado. — Me desculpe. Nunca mais te darei frango, tudo bem?
De repente, uma van preta para na minha frente de maneira muito suspeita.
Sinto o estômago embrulhar e um arrepio na espinha. Quando a porta traseira
abre e dois homens usando preto saem de dentro, olhando para mim, por instinto
de sobrevivência, eu acelero o passo e saio de perto, correndo.
Os homens entram na van de novo e infelizmente, não têm dificuldades em
me seguir. Eles se aproximam e eu aperto a Garota nos braços, que começa a
latir de forma descontrolada. Sem articular nenhuma palavra, um dos
brutamontes me agarra com força pelo braço e tapa minha boca ao me enfiar
dentro da van, que corre em velocidade para sei lá onde.
Meu Deus, eu fui sequestrada.
Mordo a mão do homem que ainda continua cobrindo minha boca, e isso o
faz gemer e me soltar no mesmo segundo.
A Garota continua latindo.
— Você ficou doida? — ele grita comigo, me fazendo contrair a
mandíbula.
Um dos homens ri, como se a situação fosse uma brincadeira idiota e eu
não tivesse sido colocada dentro de um carro contra a minha vontade por
estranhos.
— O que vocês querem comigo? — pergunto, olhando os três homens no
banco de trás, mas não tenho respostas.
Quando noto que um deles está me encarando, olho de volta, mas o
homem desvia. Ele parece meio loiro e tem a cabeça quase raspada, um olhar
duro e pela expressão séria no rosto, sorrir parece algo impossível.
— O que vocês querem comigo? — pergunto de novo, dessa vez, quase
gritando. Desesperada e tentando segurar as lágrimas.
Começo a arquitetar um plano de fuga e no momento em que o carro para
num sinal vermelho, tento abrir a porta, mas ela está travada, é claro.
— Fique quieta — um deles fala, mas decido ignorar. Como vou ficar
quieta em uma situação dessas? É minha vida que está em risco. Eu sinto em
cada terminação nervosa do meu corpo.
Meto a mão na bolsa para pegar o celular e sei lá, enviar um pedido de socorro para minha melhor amiga Sophia. Antes que possa encontrar o aparelho,
o homem carrancudo de frente para mim, percebe meus movimentos e toma
minha bolsa.
— Sem chamada de emergência — fala com a voz grossa, fazendo os
outros homens rirem.
— Vai se ferrar — crispo.
De repente, o homem quase careca e de olhos claros tenta tirar a Garota
dos meus braços, mas ela late e ameaça morder. Ele recua com o cenho franzido.
— Tem certeza que é ela? — questiona, observando os outros e eu não
faço a mínima ideia do que estão falando, mas resolvo abrir a boca.
— Vocês pegaram a pessoa errada.
— Não se preocupe, nós nunca erramos — é o que um deles diz, fazendo
meu coração saltar do peito.
Respiro fundo, sentido o desespero tomar conta de mim.
Eu sei que a vida é um piscar de olhos, mas nunca imaginei que o meu fim
seria assim ou que minha jornada seria interrompida tão cedo. Acabei de
completar vinte e dois anos e ainda nem me formei. Começo a achar que foi uma
tremenda perda de tempo passar tantas horas com a cara enfurnada nos livros. Eu
deveria ter aproveitado mais. Deveria ter feito algo pela minha mãe antes de
partir.
Choro em silêncio, sentindo minha visão embaçar. Tento limpar as
lágrimas com as costas das mãos e gemo baixo ao tocar nos meus machucados.
Minha situação não podia ser pior.
Uns dez minutos mais tarde, a van para e os homens abrem a porta,
descem e depois esperam por mim. O careca de olhos claros fica me encarando e
gesticula com a cabeça para eu descer, mas fico parada, sem conseguir mover
um músculo.
— Vamos, ele não tem a noite toda.
— Ele quem? — retruco, quase gritando. Estou chorando e morrendo de
medo de hoje ser a noite em que vou dar meu último suspiro, mas mesmo assim, estou brava. Eu enfrentei tanta coisa na porra dessa vida, não vou morrer sem
pelo menos tentar me defender. Ou xingar esse careca de merda.
— Ande, venha. Vamos acabar logo com isso — é o que fala, impaciente.
Um deles cansa de esperar e me puxa pelo braço, apertando bem no
machucado que Tristan deixou. Reclamo de dor e ele me solta.
— Vai com calma — o homem quase careca fala.
— Eu nem toquei nela de verdade — o outro se defende e embora tenha
vontade retrucar, fico quieta.
Ele me tocou de verdade sim, não o suficiente para me machucar e deixar
com mais hematomas, mas meteu essas mãos imundas no meu braço.
— Alguém me ajude! — grito, sentindo o desespero tomar conta da minha
alma. — Socorro!
— Não faça cena — um deles diz, mas não me dou ao trabalho de saber
quem é.
Ainda chorando, eles me arrastam para os fundos de um estabelecimento.
De maneira breve, passos os olhos ao redor e noto que estamos em um
estacionamento aberto, do que me parece ser um restaurante. Não tenho certeza.
Vende comida, pois o cheiro de algo assando me invade o nariz e faz meu
estômago roncar.
Ótimo, vou morrer com fome. Não podia ser pior.
Um deles abre a porta e nós entramos numa espécie de dispensa, em
silêncio, caminhamos rumo a um corredor pequeno. Quando olho para o lado
esquerdo, vejo a cozinha e me dou conta de que é uma pizzaria. Antes que eu
possa pedir socorro ou algo do tipo, o homem quase careca abre uma porta que
eu nem tinha visto e nós descemos alguns poucos degraus que dá em um tipo de
escritório subterrâneo.
As paredes são em cores escuras e tem alguns quadros abstratos sombrios
de decoração, o chão é cinza, há estantes com livros de capa dura e uma mesa de
madeira velha com cadeira de couro acolchoada.
Do outro lado da sala, detrás da mesa, há um homem alto, de costas e com o celular no ouvido, falando num idioma diferente. Acho que é italiano, não sei
bem. Os que vieram comigo se posicionam do meu lado direito e esperam,
enquanto eu fico no meio do escritório, com a cabeça fervilhando.
Meu Deus, o que é isso? Tráfico humano? O que vai acontecer comigo?
Passo os olhos ao redor, tentando encontrar algo para me defender ou
traçar um plano de fuga. Infelizmente, minhas opções não são boas. Na verdade,
não tenho nada. Só se eu pegar um livro de capa dura e jogar na cabeça de
alguém enquanto tento correr para fora ao mesmo tempo em que grito por
socorro.
— Encontramos... é uma garota — um deles fala, depois que o homem de
costas encerra a ligação.
— Garota? — pergunta com a voz grossa e rouca, fazendo meu corpo
inteiro arrepiar e a cachorra nos meus braços se agitar um pouco.
Ele coloca o aparelho celular em cima da mesa e tamborila os dedos
longos sobre a madeira envelhecida, antes de girar o corpo e encontrar os meus
olhos e me prender num olhar enigmático.
Engulo em seco.
Eu com certeza, não devia estar pensando nisso agora, ainda mais em uma
situação de origem tão duvidosa, mas o homem à minha frente é bonito pra
caramba. Tão bonito, que me deixa confusa.
É alto, deve ter quase um metro e noventa, eu não sei. A pele é clara, o
cabelo é castanho escuro e os olhos negros, profundos, intensos e que brilham de
um jeito absurdo. Tem um pouco de barba delineando o queixo e em volta dos
lábios finos, mas bem desenhados. Ele usa terno de corte moderno com um
sobretudo por cima, que parece custar alguns milhares dólares canadenses.
Quando ele sai de trás da mesa e vem até mim em passos lentos, com uma
expressão severa e ao mesmo tempo curiosa, prendo a respiração por alguns
segundos. Os olhos intensos e negros dançam pelo meu rosto e não tenho
controle, fico hipnotizada.
A Garota late, quebrando o meu êxtase.
— Quem tocou nela? — pergunta, fitando com expressão séria os homens,
que se remexem, desconfortáveis.
Ele exala intensidade e autoridade. Tento não ficar encarando, mas é mais
forte que eu.
— Ela já estava assim, ninguém fez nada — fala o desgraçado que me
puxou pelo braço para fora da van.
O olhar do homem à minha frente ainda é duro e quando encaminha a
atenção para mim, por mais que tente desviar, não consigo.
— Quem fez isso com você?
Surpreendentemente, ele leva uma das mãos até o meu rosto e toca, como
se não fosse nada demais. Dou um salto para trás, assustada. O coração bate tão
rápido, que é quase doloroso.
— Não toque em mim — falo, ríspida.
Tudo bem, o homem pode ser bonito e o escambau, mas não tem direito
nenhum de me tocar sem permissão, como se fôssemos próximos ou algo do
tipo. Tenho certeza de que ele tem alguma coisa a ver com o fato de eu estar
aqui, nesse lugar todo suspeito e que cheira a perigo.
— Não vou machucar você — diz, mas continuo imóvel e ele não volta a
se aproximar. Aperto a Garota contra o peito, tentando nos manter seguras pelo
tempo que eu conseguir. — Quem fez isso com o seu rosto? Foi algum dos meus
homens? — ele quer saber.
Encaminho as vistas para os brutamontes que estavam comigo na van e
fico tentada a mentir, mas desisto. O olhar mortífero do homem de cabelos
negros me dá a entender que as coisas podem ficar feias depois de ouvir a minha
resposta.
O que de fato, não devia me preocupar, já que estou aqui, contra a minha
vontade, sem fazer a menor ideia do que está acontecendo.
— Não foram eles — é o que digo.
Ele assente, colocando os dois braços para trás. A atenção cai sobre a
Garota e depois, para mim de novo.
— Quem é você? — pergunta, a voz soa intimidadora e arrepia os pelos do
meu braço, mas me mantenho firme. — Não vai me dizer o seu nome? — insiste
quando fico calada.
— Meus amigos me chamam de Lina — falo e agradeço em silêncio pela
voz ter soado firme. Endireito os ombros, tentando parecer confiante. — Mas
você pode me chamar de Jolina Magdayao — emendo com arrogância.
Ele prende os olhos aos meus e o canto direito da boca repuxa de leve,
quase transformando os lábios em um sorriso cínico.
— Bem, Jolina Magdayao, o que você faz com ela? — questiona ao
gesticular com o queixo na direção da Garota.
— Ela é minha.
O homem à minha frente suspira e ergue as sobrancelhas, ficando ainda
mais instigante. Qual é o meu problema? O cretino é um belo de um arrogante,
eu não devia estar pensando nesse tipo de coisa.
— Ela não é sua — fala, esticando a mão e tocando com os dedos longos a
cabeça de pelo caramelo em meus braços. É uma mão bonita. Não parece de
alguém que faz trabalho braçal. O cara deve ser podre de rico. Só gente rica tem
mãos tão delicadas assim. — Você está bem, Laila?
Como se entendesse a pergunta, a cadela dá uma latida e eu noto que está
abanando o rabo. Contrariada, coloco-a no chão, me surpreendo ao ver a Garota
ir na direção dele e deitar ao lado dos seus pés calçados com sapatos caros.
— Ela é sua? — pergunto, confusa.
— Também não, mas Laila é da nossa família — é a resposta que recebo.
— Eu sinto muito, não sabia. Ganhei do meu ex-namorado — digo,
contraindo a mandíbula.
Tristan me deu um cachorro roubado? Mas que belo pedido de desculpas.
Esse imbecil, sempre fazendo minha vida ficar mais difícil.
— Então... — começa a falar e é ousado o suficiente para se aproximar de
mim outra vez. Vem em passos vagarosos e eu sinto que está no ritmo dos meus
batimentos cardíacos. — Está dizendo que não roubou Laila?
— O quê? Eu... eu... eu não roubei nada. Nem sabia que a Garota tinha
dono.
Ele ergue as duas sobrancelhas e assente, meio desdenhoso. É claro que
isso me deixa furiosa. O homem pode ser bonito, mas é um idiota arrogante.
Como se a minha vida já não tivesse idiotas o suficiente.
— Por que está me olhando desse jeito? — pergunto quando ele não para
de me encarar. — Por acaso, o senhor acha que eu tenho cara de quem sai por aí
roubando cachorros?
Vejo um lampejo de surpresa passar pelos seus olhos, mas não dura muito
tempo. Ao contrário dos seus homens, que parecem não acreditar que eu esteja
falando de forma tão áspera com o mandachuva.
— Na verdade, você é um pouco suspeita.
Uno as sobrancelhas, confusa.
— Como?
— Era você quem estava com um cachorro que já tinha dono. Como isso
não é suspeito? — questiona com um leve tom de sarcasmo.
— Primeiramente, eu sou uma pessoa ocupada. Se o senhor fosse
universitário, entenderia que eu não tenho tempo...
— O que você estuda? — ele me interrompe.
O que esse homem tem na cabeça? Como assim o que eu estudo?
Fecho os olhos por uma fração de segundos, pedindo por paciência.
Mesmo que eu queria explodir, não posso. Não sei por quanto tempo esses
brutamontes podem ser tão passivos.
— Eu perguntei o que você estuda — ele diz quando não respondo.
Nossos olhos se encontram e eu noto uma linha delicada no meio das suas
sobrancelhas. Ele parece intrigado ou curioso, não sei qual dos dois.
— Antropologia — murmuro, sem jeito.
— Interessante, Jolina Magdayao — fala meu nome de maneira pausada e
isso faz a minha espinha arrepiar. E por algum motivo inexplicável, sinto o
coração acelerar.
— Tanto faz — digo ao recuperar a lucidez. Ou parte dela. — Se o senhor
não vai me vender ou me comprar, ou pegar um dos meus rins, eu quero ir
embora. — Assim que fecho a boca, passo as mãos nos cabelos, torcendo para
não ter dado ideia a essa gente doida.
E algo inacreditável acontece.
Ele ri.
O homem ri.
Não consigo esconder a surpresa. Estava começando a achar que fosse
impossível alguém como ele fazer uma coisa dessa.
Os homens na sala continuam sérios e eu fico me perguntando se devo rir
também ou mandar todo mundo ir à merda de uma vez.
— Fique tranquila, não curtimos tráfico humano. Ou tráfico de órgãos —
fala, sorrindo.
Se as palavras que acabaram de sair da sua boca não fossem um completo
absurdo, eu teria achado incrível a leveza na voz dele. Parece irreal alguém
vestido desse jeito e com um olhar tão profundo ser leve de alguma forma, mas
esse homem consegue ser assim. E pelo visto, sem problema nenhum.
— Qual é o nome do seu namorado, Jolina Magdayao? — ele quer saber.
— Ex-namorado — corrijo e ele assente. Parece esperar que eu diga mais
alguma coisa, mas fico quieta. Se eu falar o nome do Tristan, com certeza ele
ficará em maus lençóis e apesar de eu odiá-lo no momento, não sou o tipo de
pessoa deseja o mal de alguém.
— Então?
— Ham? — sussurro.
— Eu preciso de um nome.
Engulo em seco e continuo calada, sem ter coragem de falar alguma coisa.
Ele rompe a nossa pequena distância com dois passos e eu tenho que erguer um
pouco o queixo para olhá-lo. O homem que riu poucos minutos atrás não existe
mais. Agora, ele parece um leão ameaçador, pronto para atacar a caça.
E a caça sou eu.
— Senhorita Magdayao, eu preciso de um nome. Me diga, não vou
perguntar de novo — ele ordena, levando uma onda de arrepio para a minha
espinha.
— Tri-Tristan... Miller — gaguejo.
Ele recua um pouco e troca um olhar com um de seus homens, que parece
pegar as ordens no ar, pois se afasta para fazer uma ligação e sai do escritório
subterrâneo.
— Posso ir embora agora ou tenho que gritar por socorro?
Como em câmera lenta, ele volta para perto da mesa e depois, gira o corpo
devagar para me encarar com intensidade, piscando devagar.
— Não costumo ser tão legal com qualquer um, mas vou dar uma dica,
Jolina Magdayao.
Engulo o nó que se forma na garganta no mesmo instante em que respiro
fundo, mas não encontro minha voz para dizer alguma coisa.
— Nunca peça por socorro — fala, me fazendo franzir a testa. — As
pessoas não se importam e elas não costumam ir ao encontro de uma voz
pedindo socorro. — Ele fica em silêncio por breves segundos e com os olhos
fixo aos meus. — Grite fogo. As pessoas são curiosas e a curiosidade delas pode
te salvar... eventualmente — acrescenta de uma forma sutil.
Não consigo dizer nada e nem desviar dos olhos profundos. O que ele
disse faz sentindo, mas por que diabos está me falando isso? Eu poderia muito
bem gritar fogo igual a uma doida e chamar atenção de todo mundo dessa
pizzaria.
— Podem levá-la — é ele quem fala, quebrando a nossa conexão.
— Não toque em mim — digo ao homem quase careca quando noto que
está se aproximando. Ele para um passo de distância e aguarda em silêncio.
Abaixo-me um pouco e chamo a Garota, que vem sem fazer cerimônia. Faço
carinho na sua cabeça e deposito um beijo, sentindo o calor do homem de olhos
intensos em mim. — Fique bem, Garota.
Fico de pé e não ouso olhar o mandachuva, embora ainda sinta que ele está me observando. Dou as costas e subo as escadas para sair do escritório.
Faço uma oração silenciosa em agradecimento por ainda estar viva e a
promessa de que começarei a aproveitar minha vida de verdade a partir de
amanhã, porque hoje só quero chegar em casa e esquecer dessa noite louca.
Quando coloquei homens atrás do ladrão de cachorro, não esperava que
me trouxessem uma garota. Deve ter a idade da minha irmã e mesmo sendo
nova, não parece ser uma pessoa fraca.
Ela está assustada, no entanto, não abaixa a cabeça nem por um segundo. É
petulante e tem um olhar afiado. Mesmo sem chance de um resultado positivo,
ela parece com alguém capaz de avançar em cima do meu pescoço para se
defender.
Os homens com nível hierárquico abaixo do meu, nunca ousariam me
olhar do jeito que a garota está me encarando. E eu definitivamente,
desaprovaria qualquer um que fizesse isso, mas ela é quase como um desafio
intrigante.
Aproximo-me e analiso o rosto machucado da garota. Apesar dos
hematomas, ainda é bonita. Tem sobrancelhas grossas, cílios longos e pretos,
olhos marrons e que parecem de um gato, lábios salientes e pele morena clara.
Levo a mão até a sua face e toco, fazendo-a pular para trás, assustada.
Depois de fazer parte da família Carbone, eu aprendi a ser alguém que não
precisa de permissão para pegar alguma coisa. Se eu quero, é fácil, eu consigo. Mas um inusitado sentimento de que fui longe demais com ela, incomoda meu
peito e me ouço dizendo.
— Não vou machucar você.
Ela fica calada, me encarando.
— Quem fez isso com o seu rosto? Foi algum dos meus homens? — quero
saber.
Nunca tive pretensão de ser um herói. Para ser honesto, heroísmo é algo
que não existe no dicionário da minha família. Porém, eu cresci com valores e
tenho minhas convicções.
Usar violência contra uma mulher indefesa não é algo que eu aprecie de
modo algum.
Ao saber que ela já estava assim quando meus homens a encontraram, fico
inquieto, o que é estranho. Não costumo me importar com os problemas que não
tenham a ver comigo ou com a minha família.
Decido ignorar a sensação questionável e me concentro no problema que
me diz respeito, Laila. Parece chacota, mas é isso. A cachorra é o motivo de eu
estar aqui e não no meu apartamento, aproveitando minha noite.
Falho miseravelmente na missão de me concentrar no problema.
Jolina Magdayao é uma garota interessante. O atrevimento dela instiga
algo dentro de mim e eu não consigo recuar. Ela parece um daqueles quebra-
cabeças irritantes de cinco mil peças do tipo impossível de montar, mas que você
não consegue desistir até vê-lo pronto.
E tem um sotaque tão sexy.
Quando ela se abaixa para fazer carinho em Laila antes de ir embora, não
consigo tirar os olhos de cima dela.
Ordeno um dos soldados para segui-la até em casa ao ver a garota subindo
as escadas sem olhar para trás.
Não devia estar fazendo isso. Meu contato com Jolina deveria acabar no
momento em que ela deu as costas, mas não faço o tipo de homem que volta
atrás com as decisões depois de tomadas.
Alguns dias depois...
— O que você tem pra mim?
Liam senta na cadeira à minha frente e me entrega um envelope marrom
lacrado. Não parece muito feliz em ter vindo me ver num sábado à noite, mas ele
não tinha escolha e eu não gosto de esperar.
— Eu devia cobrar hora extra — resmunga e Nicholas, meu melhor amigo,
está pronto para repreender o garoto, quando eu impeço com um gesto.
Liam é novo, tem apenas vinte e um anos, mas é alguém com muita
experiência e o melhor hacker que eu conheço. Foi difícil colocá-lo na folha de
pagamento, porque era muita modernidade para o meu pai, mas Noah e eu
conseguimos convencê-lo de que é importante ter alguém com o talento de Liam
do nosso lado.
— O que você quer com esse cara? — ele pergunta, curioso, mas não me
deixa responder. — Tristan Miller não é o nome dele de verdade.
Ergo uma sobrancelha na direção do Liam e em seguida, abro o envelope,
lendo as informações sobre o ladrão de cachorro. Nasceu em Nova Iorque, mas
cresceu em Toronto e atualmente, mora em Montreal. Tem vinte e seis anos e o
nome verdadeiro dele é Mason Fox.
— Ele foi já foi preso — Liam fala antes que eu possa continuar lendo o
relatório sobre o homem. — E existe uma ordem de restrição — continua e eu
desisto dos papéis para prestar atenção no garoto.
— Ordem de restrição?
Ele assente em resposta, coçando a nuca.
— Sim, uma namorada do ensino médio. Ela o acusou de abuso sexual e
agressão física. Mas não para por aí, ela não foi a única. Digamos, que Mason é
um cretino que adora se aproveitar de uma mulher indefesa.
Meus olhos caem sobre os papéis em cima da mesa e é inevitável, o rosto
da Jolina Magdayao invade minha cabeça sem autorização. Ela vem fazendo
muito isso nos últimos dias.
É algo que me deixa inquieto e irritado, é claro. A garota não é meu
problema, mas não consigo mantê-la longe da porra da minha cabeça.
Não tenho dúvida que os hematomas no rosto dela tenham sido obra desse
filho da puta. O sangue nas minhas veias ferve só de imaginá-lo se aproveitando
da fragilidade daquela garota.
De novo. Não é o meu problema, mas não consigo parar de me sentir
irado.
Que porra é essa?
— Obrigado, Liam — é o que digo. — Como está a faculdade? —
pergunto de repente, tentando ocupar a cabeça com outros assuntos.
O garoto enruga a testa, mas assente.
— Bem, bem. Como sempre, melhor aluno da classe — fala de maneira
convencida e sorri.
— Noah ainda quer que você faça parte da nossa família. Já pensou sobre
isso? — quero saber.
Liam deixa os ombros caírem e passa uma das mãos no topo da cabeça,
assanhando os cabelos escuros.
— Eu ainda não sei, estou pensando.
Concordo com um leve aceno de cabeça. Liam é tão diferente de mim. Eu
era apenas dois anos mais velho quando me juntei aos negócios da família e
antes, não via a hora disso acontecer. Mas o garoto à minha frente, não parece
tão ansioso para se tornar um membro oficial da nossa organização..
— Tudo bem, leve o tempo que precisar.
— Obrigado, Julian.
Liam levanta, mete as mãos dentro do casaco grande e vai embora do
escritório. Não demora muito para Nicholas sentar à minha frente e sem pedir
permissão, começar a remexer nos papéis que o hacker trouxe.
— Esse cara é um monte de lixo — resmunga, e eu concordo com um
aceno de cabeça, pensando no que fazer. Noah disse para quebrar um nariz ou
uma perna, mas Mason merece mais.
— Com certeza foi ele quem bateu nela — me ouço dizendo.
— Quem? — Nicholas retruca com as sobrancelhas loiras franzidas. —
Ah, Jolina?
— Sim.
Ele dá de ombros.
— Provavelmente — fala e me encara com certa desconfiança. — Julian, o
que você está pensando em fazer?
Abro a boca para responder, mas sou interrompido pelo toque do meu
celular. É um dos soldados que coloquei na cola da minha irmã. Fecho os olhos
com força e massageio as têmporas antes de atender.
— O que foi? — é a primeira coisa que pergunto.
— A senhorita Carbone está meio descontrolada, eu acho que não dou
conta. Você sabia que ela está armada? Ameaçou dar um tiro no meu saco se eu
me aproximar ou continuar seguindo os passos dela.
Respiro fundo, exausto.
— Me passe o endereço, estou indo.
Nicholas estaciona o carro em frente à casa noturna. Há um amontoado de
jovens na fila para entrar e daqui do lado de fora dá para ouvir a música alta e
remexida. Abro a porta e desço, meu amigo faz o mesmo, me acompanhando até
o segurança da boate, que ao me reconhecer, libera a nossa entrada.
Assim que entro, a visão é ofuscada pelas luzes que não param de piscar, a
camada de fumaça no ar e gente dançando. Em questão de minutos, o soldado
que estava seguindo minha irmã aparece.
— No bar — ele tenta falar mais alto que a música.
Nicholas e eu direcionamos os olhos ao bar e eu fico irado quando vejo
minha irmã se agarrando de forma indecente com um idiota, que é ousado o
suficiente para estar com a mão na bunda dela e apertar como se ele fosse a porra
do dono do corpo de Romie.
Tentando controlar a vontade de explodir e meter um soco na cara do
moleque, eu o afasto dela de forma abrupta. Romie está visivelmente bêbada e
parece odiar o fato de eu estar aqui.
Tudo bem, também não estou nada feliz em ter visto a cena de segundos
atrás.
— Cai fora — Nicholas diz ao garoto, que vai embora sem protestar.
— Cai fora você. Vai cuidar da sua irmã, Nicholas. Eu não preciso de
outro irmão mais velho. Já tenho dois e são um pé no saco — Romie diz ao meu
amigo, que contrai a mandíbula, mas fica quieto. — E você também, cai fora
daqui. — Leva o dedo indicador até o meu peito e me cutuca com força. — Só
quero curtir a minha noite.
— Já curtiu demais, vamos.
— Quem você pensa que é pra dizer que eu já curti demais? — questiona
ao cruzar os braços na altura dos seios, me fazendo notar o vestido muito
decotado e minúsculo que usa. Está mostrando coisas demais.
Sem dizer nada, tiro o sobretudo e coloco por cima dela, que resmunga e
me manda ficar longe. Entrelaço os dedos com os da minha irmã e a puxo para
fora da casa noturna. É claro que ela esperneia, mas ninguém parece se importar
com uma bêbada.
— Eu tenho uma arma — grita quando estamos do lado de fora, chamando
a atenção das pessoas na fila, que nos olham assustadas
— Ela está brincando — é o que eu digo ao tentar enfiar minha irmã
dentro do carro. — Vamos, Romie, entre.
— Por que eu devo fazer isso? — pergunta com desdém.
Respiro fundo, reunindo toda a minha paciência e pouso as mãos nos
ombros da minha irmã, fazendo-a olhar nos meus olhos. Ela tem as pupilas
dilatadas e o batom borrado, não parece em nada com aquela garotinha doce que
vivia me seguindo quando criança.
— Você precisa descansar, vamos pra casa.
— Não quero — diz ao enfiar a mão dentro da bolsa coberta de lantejoula
brilhante e tirar um calibre 38. — Estou armada, não devia estar me chateando,
Julian — resmunga, balançando a arma, como se fosse brinquedo.
Olho para os lados e fico aliviado ao notar que ninguém repara em nós.
Sem dificuldades, pego o calibre das mãos de Romie, que me xinga em italiano e
confiro o pente. Não está carregada, mas decido não devolver agora.
Faço-a entrar no carro e Nicholas ocupa o lugar do motorista, estou presta a me acomodar no banco traseiro para ir de olho na minha irmã, quando eu a
vejo.
Ela está no estacionamento a céu aberto que fica quase de frente para a
casa noturna. Jolina discute com um homem com o dobro do seu tamanho e
mesmo com pouca luz e a distância, eu o reconheço.
É Mason Fox.
Sinto raiva por ele estar andando sobre as duas pernas e tratando Jolina
como se ela não fosse nada.
— Você não vai entrar? — Romie pergunta e eu acabo fechando a porta
traseira do carro. Ela resmunga.
— Não saia daí — é o que falo ao passar pelo veículo.
Antes que possa atravessar a rua, noto Nicholas na minha cola. E o odeio
um pouco por ter deixado minha irmã sozinha. Se ela fugir vai ser uma dor de
cabeça.
— O que está fazendo? — questiono.
— Precisa de ajuda? — rebate, me fazendo olhar para o estacionamento.
— Não se preocupe, cuide da minha irmã — falo e lanço uma olhadela em
direção ao carro. Meio contrariado, Nicholas volta, mas não entra, fica me
observando encostado no veículo.
— ... me solta, imbecil — Jolina grita ao espernear, mas Mason aperta seu
braço com força e a impede de se afastar.
— A culpa dessa porra toda é sua.
— Vai à merda — ela crispa.
Aproximo-me dos dois e sem dizer nada, tiro as mãos sujas de Mason do
braço da garota, que me observa com o cenho franzido.
— Você está bem? — pergunto, mas ela não me responde.
— Cara, isso não é da sua conta, é melhor dar o fora daqui.
Abro um sorriso irônico para ele e me aproximo, prendendo seus olhos aos
meus. A vontade que tenho é de pegar o calibre 38 que escondi no terno e enfiar
no cu dele. Talvez assim, Mason aprenda a não maltratar mais uma mulher. Ou talvez, não. O cara é um bosta, não parece nem um pouco arrependido.
O mundo será um lugar melhor sem ele.
— Não me reconhece? — é o que falo.
— Deve ser um riquinho babaca — rebate.
Assinto, concordando.
— Mais ou menos — retruco. — A diferença é que eu odeio homens como
você e posso fazer algo sobre isso — digo, tirando do terno o calibre 38 que
peguei da Romie.
Os olhos de Mason se arregalam para a arma e sem pensar duas vezes, ele
sai correndo. Não esperava mais. O homem é um frouxo. Viro-me para Jolina
que tem as mãos levantadas em rendição e caminha de ré, sem conseguir desviar
a atenção do calibre.
— Não se preocupe, não está carregada — digo, mas ela está tão
assustada, que não me escuta. Antes que mais alguém me veja com a arma,
guardo-a dentro do terno outra vez. — Cuidado! — grito quando noto uma moto
se aproximando, mas isso só faz com que ela se assuste mais e vá de encontro
com a motocicleta.
Jolina é atropelada e cai no asfalto desmaiada.
— Droga!
Corro até ela e Nicholas faz o mesmo. A calça jeans foi rasgada e parece
que a garota quebrou o pé. O piloto da moto parece ter sofrido só alguns
arranhões, o que acaba me deixando enfurecido, mesmo sabendo que a culpa
disso tudo é minha.
Merda!
A culpa é minha, o que significa que Jolina se tornou o meu problema.
Minha responsabilidade.
Abro os olhos e encaro o teto. Fico confusa quando não reconheço o lugar.
Sento na cama e gemo de dor ao sentir uma fincada no meu pé esquerdo. Arrasto
o edredom para o lado e noto que estou vestindo um conjunto de moletom
branco e que meu pé está enfaixado.
Sinto o coração na garganta quando alguém abre a porta do quarto
desconhecido. Entra uma senhora de meia idade, usando roupas confortáveis e
de cabelo preso em um coque baixo. Ela sorri e gesticula com as sacolas da
Gucci que está segurando.
— Como você está se sentindo? — pergunta, mas eu não encontro a voz
para responder. — Espero que seja o seu número. — Coloca as sacolas em cima
da cadeira acolchoada perto da janela. — Se precisar de alguma coisa, pode me
chamar. Eu fico por aqui até às dezoito — é o que diz antes de sair do quarto e
me deixar sozinha novamente.
Olho ao redor e busco na memória os acontecimentos da noite passada. Eu
fui à balada com alguns amigos da faculdade e encontrei Tristan, que estava me
seguindo. Furioso, aliás. Segundo ele, eu fui burra demais por ter sido pega pelo
roubo da Lulu da Pomerânia e que não devia ter dito o seu nome quando fui levada contra a minha vontade para um escrito subterrâneo muito suspeito.
Aí meu Deus!
É isso. Aquele homem intenso e de olhar marcante apareceu, tentou me
ajudar, mas estava com a porra de uma arma e depois disso, só lembro de ter ido
de encontro com uma moto no meio da rua.
Com dificuldade, levanto da cama e mancando, caminho até a cadeira
perto da janela e dou uma espiada na vista. Devemos estar pelo menos no
vigésimo andar e não faço a mínima ideia de onde estou, mas parece ser um
bairro chique. Deixo as vistas caírem sobre as sacolas da Gucci e acabo
revirando.
Jesus amado! Tem calcinha e sutiã. Sinto o rosto formigar de vergonha e
acabo deixando as roupas de lado.
Noto que minha bolsa está em cima da cômoda ao lado da cama. Tento
correr até ela, mas meu pé enfaixado e dolorido não deixa. Assim que consigo
pegá-la, vasculho e encontro meu celular, os documentos e a chave do meu
apartamento. Está tudo no lugar, não falta nada.
Com o smartphone na mão, decido que é hora de sair do quarto. Não
parece que estou sendo mantida em cárcere privado e preciso saber o que diabos
estou fazendo aqui.
Abro a porta e enfio a cabeça para fora, noto o pequeno corredor de
paredes claras e alguns quadros com artes geométricas. Levo ar até os pulmões e
vou em frente, mancando e tentando não fazer muito barulho.
Assim que chego na sala ampla com grandes sofás macios e de formato em
L, noto a mesa de jantar feita de vidro transparente, parte da cozinha e uma
adega climatizada de design moderno cheia de vinhos. O chão todo é em
madeira escura, o que dá contraste com as paredes brancas e os móveis claros.
— Bom dia, Jolina.
Ao ouvir a voz profunda e grossa, sinto o coração na garganta. Olho para
trás e encontro o mandachuva, usando blusa cinza e de mangas curtas, calça
moletom e pés descalços. Ele não faz aquele tipo de homem que é puro músculo, mas dá para notar que os braços são definidos e até consigo imaginar as
marquinhas dos gominhos no abdômen.
Meu Deus, qual é o meu problema?
— O que estou fazendo aqui? — pergunto e fico feliz de ter conseguido
dizer alguma coisa. — Senhor... — acrescento.
Ele passa por mim e vai em direção à cozinha, se alongando. Engulo em
seco e tento não ficar secando o homem.
— Primeiro, não me chame de senhor.
— Ah, certo, senh... — minha frase morre ao notar os olhos deles em mim.
— O que estou fazendo aqui?
— Você foi atropelada por uma moto e torceu o tornozelo — fala ficando
de costas para mim enquanto enche uma xícara com café. — Não se preocupe,
nada grave, mas vai ter que ficar uns dias em repouso. Estou feliz de não ter
quebrado o pé.
Ele age como se não fosse estranho ter uma desconhecida na sua casa. De
pé enfaixado ainda por cima. Que homem louco é esse?
— Hãm?
— Você quer café? — o mandachuva quer saber.
— E por que diabos eu estou aqui? — disparo, ignorando a sua pergunta.
— Eu não devia estar num hospital? Sei lá. Por que me trouxe... pra sua casa? Eu
nem sei o seu nome. Eu nem sei quem você é. — Sinto o rosto queimar ao me
dar conta de algo. — Ai meu Deus, você comprou roupa íntima pra mim? —
pergunto, incrédula.
Ele sorri, fazendo os olhos ficarem meigos e eu me pergunto como ele
pode ser tão duro, impenetrável em uma hora e depois, parecer com alguém
normal.
— Julian Carbone — fala.
— Huh? — retruco.
— Eu me chamo Julian Carbone. — Por algum motivo inexplicável, ele
prende os olhos aos meus e ficamos em silêncio pelo que me parece uma eternidade, até que consigo reunir forças e desviar. — E sim, você deveria estar
em um hospital, mas o acidente é culpa minha e estou me responsabilizando pelo
que aconteceu.
Explodo em uma risada debochada, fazendo o mandachuva, que agora tem
nome, contrair a mandíbula e prensar os lábios em uma linha reta.
— Sim, é culpa sua. Você estava com a merda de uma arma apontada pra
mim.
Julian nega com a cabeça e passa uma das mãos entre os cabelos escuros e
grossos. Parece com alguém que teve a paciência esgotada.
— Nunca apontei a arma pra você e mesmo assim, estava descarregada.
Mancando, me aproximo da ilha da cozinha. Sem que eu tenha pedido, ele
enche uma xícara de café e arrasta o material de porcelana até próximo de mim,
me deixando um pouco desestabilizada.
Estamos no meio de uma discussão e o homem querendo ser bom
samaritano.
— Isso não muda o fato de que você estava carregando uma arma como se
fosse um acessório.
— Ele batia em você? — pergunta de repente e eu engulo em seco, sem
conseguir responder. Fixo os olhos em Julian, que mantém a atenção presa em
mim e abro a boca, mas fecho um segundo depois. — Ele batia em você —
conclui quando não digo nada.
Abaixo a cabeça e mordo o lábio inferior com força, me sentindo ridícula.
Tristan ter me batido mexe com tanta coisa dentro de mim, que sou incapaz de
falar as palavras em voz alta. Dói e é humilhante demais.
— Aquele homem... — Julian começa a falar, capturando meus olhos. —
Ele não merece sua proteção.
— Eu sei, não estou protegendo aquele imbecil — digo entre os dentes,
sentindo o coração acelerar. — Uma vez... foi só uma vez — murmuro
encarando a xícara de café na ilha.
— Não se preocupe, Mason não vai mais tocar em você.
Enrugo a testa. Mason? O quê? Com certeza ele está confundindo Tristan
com outra pessoa. E como assim ele nunca mais vai tocar em mim? O que esse
homem é? O que ele vai fazer?
— Mason? Do que você está falando? — retruco, intrigada.
Julian passa as mãos entre os cabelos mais uma vez, pensativo. Por um
momento, parece que ele não está mais aqui, na minha frente. Os olhos
continuam profundos, mas ao mesmo tempo, lembram o completo vazio.
— Não se preocupe com isso, Jolina
Ele fica de pé, largando a xícara meio cheia na pia e caminhando rumo a
uma porta no corredor, que eu só noto agora. Deve ser o quarto dele ou um
escritório, eu não sei.
— Obrigada por ter cuidado de mim. Vou embora em menos de uma hora.
Não devia estar avisando da minha partida, mas a boca foi mais rápida que
meu cérebro. E bem, ele me acolheu depois do acidente, e mesmo que a culpa
tenha sido dele, se fosse outra pessoa, teria me deixado na rua ou no hospital.
O homem alto paralisa os passos ao ouvir as palavras. Devagar, Julian gira
nos calcanhares e me olha de um jeito estranho, como se não acreditasse no que
acabou de escutar.
— Por quê? Você está segura aqui, Jolina e eu aconselho que permaneça
neste apartamento. Mason, seu ex-namorado, é um cara perigoso e ele pode
querer te machucar de novo.
Dou alguns passos mancos para frente e balanço a cabeça, tentando
organizar os pensamentos.
— Meu ex-namorado se chama Tristan, e não Mason. E como assim ele
pode me machucar de novo? Do que você está falando?
Depois de fechar a boca, me sinto uma idiota de nível máximo. Não
precisa ter uma bola de cristal para saber que ele me machucaria de novo. Na
verdade, ele só não fez isso ontem por causa de Julian Carbone e a bendita arma.
— Não vou entrar em detalhes, mas ele não se chama Tristan. Leve em
consideração e fique aqui, me sinto responsável por você.
— Por quê? Por que se sente responsável por mim? — questiono, confusa.
Não tem lógica o que ele disse. Ou talvez tenha sim, o homem é doido.
É visível, Julian fica sem jeito. Acho que nem ele sabe o real motivo dessa
palhaçada toda. Ok, tudo bem, fui atropelada por causa dele. Mas uma pessoa
normal me levaria em um hospital, pediria desculpas e depois de saber que eu
não fiquei com sequelas, cairia fora.
No entanto, esse homem parece funcionar de uma forma diferente dos
demais. Ele me trouxe para própria casa e ainda me deu conselhos para
permanecer aqui até cuidar do meu ex-namorado?
Que tipo de trabalho ele faz?
— Se você quiser ir, tudo bem, mas pelo menos espere o doutor Michael.
Ele virá depois do almoço checar você — é o que fala, dando as costas para mim
de novo e entrando no próprio quarto.
— Uma semana de repouso, analgésico pra dor, compressa de gelo de duas
a três vezes ao dia e manter o pé elevado sempre que possível — é o que o
doutor Michael diz enquanto volta a enfaixar meu pé torcido.
Ele é um homem de meia idade, barba e cabelos grisalhos, pele morena e é
dono de um sorriso gentil. Parece que é o médico da família do Julian, não
entendi bem, mas foi ele quem me examinou ontem de noite.
— Obrigada, doutor.
Eva, a mulher que cuida da casa de Julian, acompanha o médico até a
porta. E eu fico sentada, pensando. Eu deveria estar correndo ou tentando correr
na direção da saída desse apartamento e indo embora também. Mas devo ter
algum problema, pois não movo nenhum músculo.
Julian é intenso e às vezes, assustador, mas não acho que ele vá me fazer
algum mal. E bem, Eva disse que ele é um bom homem. Não levo em
consideração, ele paga o salário dela. Deve pagar para que as pessoas falem bem
dele também.
Meu lado racional quer ir embora o quanto antes e o lado irracional não vê
problema em ficar. Talvez Julian esteja certo e seja mais seguro permanecer por aqui. Pelo menos até a possível história com Tristan se resolver.
E Deus, o que será que aconteceu? Ele não se chama Tristan e sim,
Mason? E como assim ele é perigoso e pode me machucar de novo? Machucar
de que jeito? Nada faz sentindo.
O melhor deve ser ir embora mesmo. Beleza, é isso. Não vou ficar aqui, na
casa de um estranho doido.
Mesmo depois de ter decidido que vou partir, permaneço sentada no
grande sofá. É tão macio e confortável, e Eva acabou de trazer uma xícara com
chocolate quente para mim. Ela deve pensar que ainda sou uma adolescente, mas
quem se importa? Chocolate quente num frio desses é impossível de recusar.
— Cadê o Julian? — pergunto como se eu e ele fôssemos íntimos.
— Trabalhando — ela responde.
Ergo uma sobrancelha, ligeiramente curiosa. Deve ser a minha
oportunidade para saber o que esse homem faz da vida.
— Num domingo?
— Eu também estou trabalhando num domingo — fala ao me lançar uma
olhadela por cima dos ombros. — Dr. Michael também está trabalhando num
domingo.
Prenso os lábios e assinto, fingindo um meio sorriso ao perguntar:
— Ele trabalha de que?
— Ele é herdeiro do senhor Carbone, o magnata do cassino — é o que me
diz, como se isso fosse muita informação. Fico tentada a perguntar se ser
herdeiro de alguma coisa é emprego, mas fico quieta.
Coloco a xícara em cima da mesinha de centro, pego celular e digito na
aba do Instagram "Julian Carbone" e espero, torcendo para que eu encontre algo
relevante sobre ele. Não tenho muito sucesso, Julian não é um homem que
atualiza muito as redes sociais. A última foto foi postada há seis meses.
Decido expandir minha pesquisa e imigro para o Google. Acabo
descobrindo que ele se chama Julian Lorenzo Carbone. Existem alguns artigos
sobre a sua família e eu clico no mais recente e leio. Eles vieram para Montreal na década de 50 e abriram o Carbone Hotel Cassino na cidade, que cresceu
absurdamente nos últimos quinze anos.
Julian tem um irmão mais velho e uma irmã mais nova, é solteiro e tem
trinta e dois anos. É formado em administração e trabalha com o pai, cuidando
da parte administrativa do Cassino da família.
— Encontrou algo relevante? — Eva pergunta, me fazendo sobressaltar e
quase pular do sofá. A mulher estava com o rosto próximo ao meu, observando
em silêncio eu bisbilhotar.
Bloqueio a tela do celular e abro um sorriso largo, fingindo que não estava
procurando coisas sobre o homem que está me hospedando.
— Não sei do que você está falando — digo ao esticar o braço e pegar a
xícara com chocolate quente.
Eva semicerra os olhos e abre um sorrisinho cínico.
— Você deve ser uma garota especial, senhorita Jolina — fala e caminha
em direção à cozinha, me deixando confusa. Antes que possa perguntar, ela
continua: — É a primeira que vez que o vejo trazendo uma mulher para dormir
em casa. Mesmo na mansão Carbone, Julian nunca fez isso. Ele sempre foi um
homem muito reservado.
Bebo um gole de chocolate quente e fico em silêncio, sem saber o que
dizer. O que isso significa? Não sou especial, ele só está se responsabilizando de
uma forma bem estranha pelo meu tornozelo torcido. E Jesus amado, por que
ainda continuo aqui? Qualquer pessoa em perfeita sanidade mental sairia
correndo, mas por que não consigo fazer isso?
Está na cara que Julian Lorenzo Carbone não é alguém com quem eu deva
me envolver. A coisa mais sensata a se fazer é pegar a minha bolsa e sair daqui o
mais rápido possível e não procurar coisas sobre ele na internet.
Onde foi parar o meu juízo?
Dezoito horas e ponto, Eva vai embora e eu ainda não sei o que estou
fazendo aqui. Desisti de tentar entender também como funciona minha cabeça.
Por mais que meu lado racional esteja pronto para sair correndo para longe, não
é exatamente isso que meus pés querem fazer.
Ao ouvir gente conversando detrás da porta, tomada pela curiosidade,
acabo me arrastando até lá. Colo o ouvido no material de madeira frio e noto que
são homens, rindo e conversando. Sem saber muito bem se devo fazer isso ou
não, abro a porta, enfio metade da cabeça para fora e espio.
Ao ver o homem loiro de cabelo quase raspado do outro lado do corredor,
fico sem reação. Ele endireita a postura e depois de ajeitar o terno bem passado,
vem até mim.
— Precisa de algo?
— Não, obrigada — respondo ao encontrar a voz. — O que estão fazendo
aqui? — quero saber.
Se eu posso ir embora na hora que eu quiser, por que motivo, razão ou
circunstância existem três brutamontes do lado de fora da porta? É claro que isso
é cárcere privado, Julian só me fez achar que não. Mas que belo bom samaritano
este homem me saiu.
— Cuidando da sua segurança — fala como se fosse óbvio.
— E se eu quiser ir embora? — questiono com uma sobrancelha erguida,
mas feliz por a porta nos separar e ele não ter ousado se aproximar muito.
— Tenho ordens para acompanhá-la até em casa.
Irritada e sem entender toda essa merda, fecho a porta na cara dele, como uma adolescente mimada. Manco até o sofá e sento, abraçando uma almofada.