O Homem da Máfia (Família Carbone Livro 1)
Capítulo 11
Eu deveria estar discando o número da polícia e pedindo resgate, mas em vez
disso, mando mensagem para minha melhor amiga.
“Sofri um acidente de moto ontem. Um homem bonito e rico se sente
responsável por mim e me levou pra casa dele. É muito estranho ou só
estranho?”
Ela me liga cinco minutos depois.
— Que história é essa? — é a primeira coisa que pergunta.
— Você sabia que Tristan não se chama Tristan, e sim, Mason? — rebato.
— O quê? Mas que merda você está falando?
Apoio a cabeça nas costas do sofá e fecho os olhos, respirando fundo.
— Eu não sei o que fazer.
— Onde você está, Lina?
— Em Downtown[11] — é minha resposta. Eva havia me dito em que bairro
fica o apartamento de Julian. Antes que Sophia possa falar, eu acrescento. —
Sofri um acidente de moto ontem por causa dele, no entanto, foi ele também que
me ajudou com Tristan... Mason.
— Ele quem? — retruca e até posso imaginá-la com as sobrancelhas
grossas franzidas. — Lina, você tá drogada?
Explodo em uma risada, deixando minha melhor amiga furiosa e
resmungona.
— Eu não uso drogas — digo a meu favor.
— Pra tudo tem uma primeira vez na vida — rosna do outro lado da linha.
— E do que diabos você está falando? Foi atropelada por uma moto de verdade?
Você está bem?
— Sim, torci meu pé e preciso de repouso, mas está tudo no lugar.
— Lina, onde você está? — pergunta de novo.
— Já disse, em Downtown, na casa do homem que me ajudou — falo e
jogo a almofada para longe. — É estranho, não é?
— Vocês estão juntos? É isso?
Endireito-me no sofá de boca escancarada. Não acredito que minha melhor
amiga acabou de me perguntar isso.
— Claro que não, eu nem conheço o homem direito.
— Então, o que está fazendo aí? Qual é o nome dele? — quer saber.
— Eu não sei o que estou fazendo aqui e o nome dele é Julian Lorenzo
Carbone — crispo no exato momento que o mandachuva entra no apartamento.
É claro que ele ouviu seu nome saindo da minha boca, pois está tirando o
sobretudo enquanto me encara com uma sobrancelha erguida. — Preciso
desligar. Tchau. — Encerro a ligação sem esperar por repostas.
— Você ainda está aqui — diz, deixando os sapatos no hall de entrada. —
E pelo visto, falando de mim. E sabe o meu nome completo. Andou
pesquisando?
— Era minha melhor amiga no telefone. E sim, eu ainda estou aqui na sua
casa, e sim, eu andei pesquisando, porque precisava saber coisas relevantes sobre
o anfitrião — murmuro e dou de ombros. — Você disse que eu podia ir embora
na hora que eu quisesse, mas deixou três brutamontes do lado de fora da porta.
— Eles estão cuidando da segurança — é a desculpa esfarrapada que ouço
saindo da sua boca bonita e irritante.
— Não tem medo que eu chame a polícia?
— Vá em frente, chame — me encoraja.
Maldito arrogante.
Olho para Julian e depois para o celular nas mãos. Decido discar o número
da polícia e coloco no viva-voz. Noto o músculo do seu maxilar contrair. Ele não
acreditava de verdade que eu fosse chamar.
— Central da polícia de Montreal, qual é a emergência? — a atendente do
outro lado da linha pergunta.
Julian Lorenzo Carbone me encara, os olhos irradiando fogo.
— Ah, é da polícia? Eu sinto muito, achei que fosse do meu restaurante
favorito — digo e encerro a ligação.
Mantenho a expressão impassível, mas o coração está acelerado que nem
uma batedeira.
— Você está brincando com fogo — me avisa.
— Não se preocupe comigo, foi por pouco que não me tornei bombeira —
minto, é claro.
Ele dá um pequeno sorriso e vem até mim, me fazendo prender a
respiração por alguns segundos. Abre o botão do terno de design moderno e
senta no sofá, mantendo uma distância segura entre nós.
— Meus homens estavam apenas protegendo você — fala ao esticar o
braço sobre o encosto do sofá e tamborilar os dedos longos pelo material macio.
— Como está o seu pé? — pergunta, de repente.
Aperto o celular entre as mãos e mordo o lábio inferior com força,
soltando uma longa respiração. Engulo em seco e encaro Julian, que continua
com os olhos em cima de mim.
— Bem. Uma semana de repouso e analgésicos quando sentir dor.
Julian assente e depois arregaça a manga direita do terno, conferindo as
horas no relógio de pulso.
— Você está com fome?
Enrugo a testa, confusa.
— O quê?
— Quer jantar?
Balanço a cabeça de um lado para o outro e passo as mãos entre os
cabelos, tentando recuperar a lucidez, que parece se perder toda vez que esse
homem está por perto.
— Não posso ficar aqui — digo de uma vez, fazendo-o desviar os olhos de
mim. — Amanhã tenho aula e preciso trabalhar.
— É por isso que não pode ficar? — questiona, mas não espera por
respostas. — Você tem uma semana de folga do trabalho e a universidade de Montreal já foi avisada. Foi tudo resolvido.
Arregalo os olhos, espantada com as palavras que acabei de ouvir. O
homem só não sabe onde eu trabalho e estudo, como já resolveu tudo para mim?
Meu Deus! O que Julian é?
— O que você fez?
— O necessário — é o que diz ao levantar e tirar o terno, jogando-a em
cima do sofá. Depois, começa a dobrar as mangas da blusa social e me olha com
as sobrancelhas levemente erguidas. — Você está com fome? Eu estou.
— Hãm?
— Está com fome? — repete. — Vou cozinha alguma coisa.
— Você sabe cozinhar? — é o que eu pergunto.
Fiquei doida.
Devia estar querendo saber como ele descobriu onde eu trabalho ou
melhor, arrumando minhas coisas e indo embora o mais rápido possível, mas
estou aqui, perguntando se o homem sabe cozinhar.
— Parece muito surpresa, Jolina Magdayao. Nunca conheceu um homem
que sabe cozinhar?
— Não é isso. — Sacudo a cabeça. — Você não parece com alguém que
sabe cozinhar. Você sabe?
— Sim, eu sei, por isso, estou dizendo que vou cozinhar alguma coisa.
Muito surpresa?
— Um pouco — admito.
Julian estica o canto dos lábios em um sorriso e eu não consigo desviar os
olhos da boca dele. É uma boca muito bonita e convidativa, e com certeza é
capaz de dizer atrocidades. E mesmo tendo consciência disso, não consigo
afastar as vistas.
— Se conhecesse minha mãe, saberia o porquê de os homens da família
saberem cozinhar — Julian fala de um jeito tão leve, que sinto meus lábios se
transformando em um meio sorriso.
Observo-o ir até a ilha da cozinha e em vez de ir para o lado contrário, caminho com passos mancos até a banqueta e me acomodo em cima dela,
admirando o homem que vai começar a cozinhar.
— Nossa relação é estranha — assumo, fazendo-o concordar com um
aceno de cabeça. — Você sabe disso, não é?
Ele me ignora, abre a geladeira e tira alguns ingredientes.
— Lorenzo, você tem um jeito diferente de socializar com os outros. Você
não funciona como as pessoas normais. Você vive no mesmo mundo que o meu?
O homem arqueia a sobrancelha esquerda para mim e ergue o queixo. Se
ele quer me intimidar, não está conseguindo. Só consigo perceber o quanto esse
cretino é bonito. Ele tem razão, talvez eu esteja mesmo brincando com fogo.
— Eu não sou como as pessoas normais — retruca. — E provavelmente,
eu vivo em um mundo diferente do seu.
Escancaro a boca e finjo surpresa.
— Sério? Eu realmente não tinha notado isso — provoco. — Droga —
xingo, tentando segurar o riso.
— Você também não é como as mulheres que eu conheço. Tem a boca
grande e fala demais. É atrevida e com facilidade consegue esgotar a minha
paciência.
Reviro os olhos.
— Julian Lorenzo, você precisa sair mais. Acho que é novidade pro seu
mundo, mas existem muitas mulheres como eu. Atrevidas e de boca grande.
Ele cruza o olhar comigo.
— Algo me diz que você é única.
Engulo o nó na garganta.
Tenho certeza que Julian não é o tipo de homem com quem eu deva me
envolver. Ele parece perigoso, como um paraíso sombrio e sedutor. Mas por que
não consigo me afastar dele?
Depois de ouvir minhas palavras, Noah arqueia uma sobrancelha, mas não
diz nada. Balança a cabeça de um lado para o outro e acende o cigarro entre os
dentes com o isqueiro.
É claro que ele não concorda com a minha atitude, mas não me vejo
fazendo as coisas de um jeito diferente. E não conseguiria dormir sossegado se
deixasse Jolina sozinha enquanto Mason anda sobre as duas pernas por aí.
De fato, eu trouxe mais problema e responsabilidade para minha vida. Mas
desde a noite em que coloquei os olhos nela, parte de mim sabia que ela seria a
porra da minha ruína.
Uma ruína irritante e de boca atrevida.
Mesmo assim, ela é apenas uma garota, que não tem nenhuma família por
perto e que sofreu um acidente por minha causa. Ou talvez, eu só esteja
inventando desculpas para me responsabilizar por Jolina.
Droga.
Pela primeira vez, não estou pensando com clareza. Que merda é essa?
— Por que a trouxe pra cá? — Noah pergunta ao sentar na cadeira da mesa
da varanda. — O que tinha na cabeça?
— Você teria feito diferente? — questiono sem elevar a voz, mas encaro
meu irmão, que dá uma tragada no cigarro.
— Sim, teria deixado a garota se recuperando no hospital. Fácil e simples
— resmunga e arqueia uma sobrancelha, como se fosse a coisa óbvia a se fazer.
— Ele bateu nela — falo ao fixar a vista no centro da cidade e apoiar um
dos braços no parapeito da varanda.
Não é da minha conta, no entanto, é mais um motivo pelo qual a garota
precisa de proteção.
— Aprendi a odiar homens assim, não podia ficar quieto — digo quando
Noah fica calado.
— É mesmo? Ou é apenas um motivo pra explodir de novo? — meu irmão
quer saber. — A raiva parece boa, mas não resolvemos nada assim, Julian. Já
devia ter aprendido algo com isso.
Contraio a mandíbula, mas não ouso retrucar, embora tenha vontade de
falar o quanto ele está errado.
Jolina surge na sala, usando um conjunto de moletom rosa e com os
cabelos presos em um rabo de cavalo.
— Ah, oi, bom dia — murmura e levanta a mão para dá uma espécie de
“tchau” de leve.
Meu irmão observa a garota por longos segundos, em seguida, apaga o
cigarro no cinzeiro em cima da mesa de vidro e fica de pé, em seguida, vai
adentrando a sala e caminhando até próximo dela.
— Então, você é a Jolina — diz, sorrindo.
Ela olha para mim e sem saber o motivo, acabo assentindo e ela estende a
mão para Noah.
— Sim, Jolina Magdayao.
— Noah Carbone — fala ao pegar a mão da menina em cumprimento.
— Eu só vim pegar um café — comenta sem jeito e se afasta, indo em
direção à cozinha. Parece curiosa, pois não consegue parar de dar olhadelas por
cima do ombro para nós.
— Quando vai contar a mamãe? Ela vai pirar quando souber disso.
— Não vou contar — é o que digo, fazendo Noah me olhar de forma
cética.
Ele respira fundo, assentindo.
— Olhe pra ela, Julian — fala, me fazendo olhar Jolina na cozinha. — De
homem pra homem, vou te dar um conselho.
Tenho vontade retrucar e dizer que não preciso de conselhos de um cara
que está casado há três meses e ainda nem conseguiu fazer a esposa parar de
odiá-lo, mas fico quieto.
— Essa garota não é pra você — diz sério, me deixando com um gosto
amargo na boca.
De saco cheio, saio de perto dele, antes que eu exploda de vez e comece
uma briga com meu irmão. Ao passar pela sala, meu olhar acaba cruzando com o
de Jolina.
Merda!
Noah tem razão.
Onde eu estava com a cabeça quando trouxe essa garota para minha casa?
O que deu em mim? Em vez de ficar sábio com a idade, estou ficando burro.
— Livros?
Jolina pega a sacola de livros que ofereci e revira, lendo os títulos ao
mesmo tempo que morde o lábio inferior. Sei que é hora de desviar os olhos,
mas não consigo. Quando ela levanta as vistas para mim, finjo verificar as horas
no relógio de pulso.
— Por que livros? — ela quer saber.
— Você tem que ficar uma semana de repouso, achei que os livros
ajudariam.
— Quem disse que vou passar uma semana aqui? — rebate, me fazendo
suspirar.
— Ok, leve pra sua casa os livros. Garotas da sua idade gostam desses
romances. Minha irmã gosta, são recomendações dela.
— São todos da sua irmã? — Gesticula com um dos livros que tem capa
com cores escuras e um homem de terno com metade do abdômen de fora com o
título “Green Card – Um magnata em minha vida”. — Interessante. Romance
erótico, eu gostei — diz ao ler a sinopse e sem saber muito o motivo, fico sem
jeito.
Afrouxo o nó da gravata e suspiro.
Minha irmã não é mais uma garotinha. Ela até lê romance erótico. Quando
foi que Romie cresceu tanto?
— Obrigada, Julian. Geralmente, quando as pessoas descobrem o que eu
estudo, acham que eu só gosto de ler livros sobre antropologia. — Ela sorri e eu
assinto, agradecendo em silêncio por ter escutado os conselhos de Nicholas para
pedir ajuda à minha irmã sobre livros que as garotas gostam de ler hoje em dia.
— Vou fazer bom proveito.
— Ah, claro.
Ela estica o corpo e coloca os livros em cima da mesinha de centro, sem
tirar o pé enfaixado do banco acolchoado. Ou Jolina é uma ótima paciente, já
que está fazendo tudo que o Doutor Michael pediu ou só quer ficar boa o quanto
antes para ir embora daqui.
— De verdade, você não acha estranho? — fala ao soltar o cabelo
castanho-escuro do rabo de cavalo. Não consigo parar de olhá-la. Acho que
manter Jolina na minha casa pode ser um problema. — Hospedar uma estranha
na sua casa?
— É pro seu bem — é minha resposta.
— Tá certo, mas eu preciso de explicações — retruca. — O que Mason
pode fazer comigo? E Deus, como você sabe que o nome dele é Mason e não
Tristan? Explicações, é o mínimo que eu mereço.
Sento no sofá e passo a mão no topo da cabeça, contrariado.
Não estou acostumado a ficar dando explicações do que eu faço para uma
mulher. Eu nunca precisei disso. E Rebecca não sabia o que minha família fazia.
Confesso, que me deixa um pouco irritado Jolina ser tão curiosa. Por que não
aceita que o melhor é ela ficar aqui até eu dar jeito no filho da puta de Mason?
Meu celular toca e eu levanto para atender, sem responder à Jolina, que
parece ficar furiosa. Ela caminha mancando até o quarto de hóspede, levando os
livros, é claro. Talvez a garota fique entretida e me deixe fazer o meu trabalho.
— Me diga que encontrou o desgraçado — falo ao atender a ligação de
Nicholas.
— Não — diz, me deixando de mau humor — Depois daquela noite,
ninguém mais viu Mason. Acho que ele se escondeu no lado Oeste. Temos que
esperar, Julian.
— Acha que a família Fontana está escondendo Mason?
Nicholas respira fundo antes de responder.
— Provavelmente.
— Droga! — resmungo e encerro a ligação, apertando o celular com força.
Arrasto-me até a adega para pegar uma garrafa de vinho e depois volto
para os armários da cozinha, procurando uma taça. Encho de vinho e bebo um
gole generoso, tentando me controlar e não fazer besteira.
Não posso travar uma guerra com a família Fontana, seria uma dor de
cabeça e meu pai não ficaria feliz com as possíveis consequências. E
consequências são coisas que tem de sobra no nosso mundo.
E aqui, ninguém joga limpo.
Meu celular toca de novo, me distraindo do meu problema. Vejo o nome
de Lily saltitar na tela.
Pondero se devo ou não atender. Ela pode ser uma ótima distração, mas também uma pedra no meu sapato.
Passam das vinte e três horas quando Lily aparece no meu apartamento.
Passamos o dia trocando mensagens safadas e eu fiquei de pau duro várias
vezes. Mas a mulher não estava em Montreal e só chegaria aqui depois das vinte.
— O que acha? — pergunta ao abrir o sobretudo que está vestindo. Sorrio.
A visão é perfeita. Lilly nua e lisinha do jeito que eu gosto. — Aprovado? —
pergunta ao morder o lábio inferior.
— Preciso experimentar primeiro.
— Você sabe que eu sou gostosa — diz ao jogar os braços no meu pescoço
e fechar a porta com pé. Arrasto Lily até a sala e abocanho um dos seios
enquanto aperto a sua bunda com força. — Calma, Julian. Vamos beber alguma
coisa primeiro.
Levanto os olhos e encaro Lily, que tem um sorrisinho travesso nos lábios.
— Não me provoque.
— Por que não? Eu gosto de como você fica quando eu te provoco —
responde passando a língua no lábio inferior.
Jogo Lily em cima do sofá, que dá um gritinho e ri. Arreganho as pernas
da ruiva e começo a chupá-la. Ela geme, alto. Lily sempre foi uma mulher muito escandalosa, mas que se dane. Estou com muita vontade de meter nela até não
aguentar mais.
Lily entrelaça os dedos nos meus cabelos enquanto geme meu nome alto.
Com as mãos no meu rosto, ela me leva até para cima e me beija na boca.
Depois me ajuda a tirar a calça jeans junto da cueca e me empurra para deitar no
sofá.
Ela monta em mim, de costas, com o rabo na minha cara e começa a me
chupar. Agarro o quadril de Lily e puxo para mim, chupando a bucetinha dela ao
mesmo tempo em que recebo prazer.
Somos interrompidos quando ouvimos um celular tocando.
— Que merda é essa? — Lilly grita ao sair de cima de mim e olhando para
o corredor.
Ao ver Jolina em pé, com os olhos arregalados e a boca escancarada,
começo a vestir minhas calças. Ela tenta recusar a ligação, mas demora uma
eternidade para fazer isso. Quando consegue, a atenção vai de encontro com a
minha ereção ainda exposta. Porra! Até parece que desaprendi a vestir as calças.
— Quem é você? — Lily pergunta.
— Uma hóspede inesperada, talvez, indesejada — Jolina responde com as
bochechas coradas. — Estava com sede, queria beber água.
Fecho os olhos por uma fração de segundos e suspiro. Eu sou um imbecil.
Não levei Lily para o quarto, porque ela sempre quer ficar e eu odeio dividir
minha cama. Pensei que pudesse comê-la aqui, no sofá, e depois, cada um ia
para um lado. Achei também que Jolina estivesse dormindo.
— Que porra é essa, Julian? — Lily quer saber.
— É uma longa história — é a única coisa que eu digo, sem a mínima
vontade de explicar. — É só isso que você precisa saber.
Jolina cruza o olhar comigo e vai mancando até à cozinha, enche um copo
grande com água e depois caminha rumo ao quarto, mas antes, parando no meio
da sala e dizendo para nós:
— Podem continuar, vou fingir que não vi e nem ouvi nada.
Os olhos asiáticos caem sobre o meu pau duro e quando me encara de
novo, noto as bochechas coradas. Jolina entra no quarto batendo a porta com
força. Respiro fundo, pedindo paciência para lidar com Lily.
Nunca prometi amor a ela, mas a ruiva sempre quis mais. Quando tentei
romper o que temos, ela insistiu que não me cobraria de novo. No entanto, Lily é
ciumenta e sempre achou que um dia mudaria a minha forma de pensar.
— Você está comendo essa aí?
Arqueio as sobrancelhas.
— O quê? Não — falo rápido. — E não fale assim dela, é apenas uma
garota.
Lily contrai o maxilar e engole em seco.
— Por que está a defendendo? — retruca, me fazendo fechar os olhos,
impaciente. — Você está comendo aquela garota.
— Não fale assim dela, não vou repetir.
— Quer saber de uma coisa? Cansei dessa merda. Eu não preciso disso.
Existem outros caras que fodem tão bem quanto você por aí. Tchau, Julian — é o
que diz ao sair do meu apartamento.
Sento no sofá e solto um suspiro longo.
Lá se vai minha foda.
Eu imaginava que algumas coisas indecentes estavam rolando na sala, mas
não tinha nada no mundo que me preparasse para cena de Julian chupando a
ruiva com tanta vontade.
Vê-lo entre as coxas dela me dá até uma comichão e um latejar entre as
minhas próprias pernas.
E o mais incrível acontece, a mulher o faz tirar as calças. Jesus amado! O
homem é grande pra caralho. Engulo em seco e não consigo desviar a atenção
dos dois fazendo um 69 bem desenvolvido na minha frente.
Meu celular toca, fazendo com que a mulher me olhe e saia de cima de
Julian. Olho a tela do smartphone e vejo o nome de Tristan, tento recusar a
ligação, mas os dedos trêmulos me impedem de fazer isso com destreza.
Quero enfiar minha cara num buraco.
Invento uma desculpa de estar com sede e tento sair de perto deles, mas
não sem antes olhar a ereção de Julian. O homem ainda está duro que nem pedra.
Bato a porta do quarto com força e coloco o copo de água em cima da
cômoda. O coração bate tão rápido, que eu sinto que ele pode sair do peito a
qualquer momento.
Ouço a mulher dizer algumas coisas alteradas e depois ir embora, irritada.
Respiro fundo, decidindo se devo ir lá fora de novo e pedir desculpas, ou ficar
no meu quarto, fingindo que não vi uma cena digna de um filme pornô.
A imagem do pau de Julian preenche a minha cabeça, mas tento expulsá-
la. Não posso ficar pensando no homem desse jeito. Mesmo que ele pareça saber
muito bem o que fazer com aquela língua sacana. Pelas expressões da mulher,
achei que ela fosse derreter no sofá enquanto ele a chupava.
Droga!
Que calor. Pego o copo em cima da cômoda e bebo a água toda de uma
vez, porque de repente, me deu sede de verdade. Muita sede.
Alterno as vistas do livro aberto em cima da cama que estava lendo, antes
de ser interrompida pelos gemidos na sala, e a porta. Será que devo ir lá fora? O
melhor seria ficar no quarto, mas acabo fazendo exatamente o contrário.
Caminho até a porta e abro de fininho, silêncio completo. Coloco o pé bom
para fora e depois o enfaixado, devagarzinho vou para sala e encontro Julian
bebendo vinho tinto. Está sentado na parte lateral do sofá, que dá uma vista
significativa da cidade através das janelas de vidro da varanda.
Sem saber muito bem o que fazer, sento ao seu lado, tentando não
bisbilhotar se a ereção ainda está presente no meio das calças dele.
— Me desculpe por ter atrapalhado — murmuro.
Julian balança a cabeça, negando. Bebe mais vinho e não ousa olhar para
mim ou dizer alguma coisa.
— É culpa sua, por que não a levou pro seu quarto? — me ouço dizendo.
Deus, eu devia calar a boca agora.
— Não gosto de dividir minha cama — é o que fala, como se isso
explicasse tudo, mas a verdade é que não explica nada. E não está parecendo que
o homem é um livro aberto. Com certeza, não vou ter outra resposta além dessa.
Então, decido amenizar o clima. Ou pelo menos tentar, mas ele é mais rápido e
diz:
— Pensei que estivesse dormindo.
Sem conseguir me segurar, eu explodo em uma risada, fazendo Julian
estudar minhas expressões.
— Não sei se percebeu, mas ela geme alto. É impossível dormir quando
acontece um filme pornô do outro lado da porta — depois de articular as
palavras, sinto que fui longe demais. — Sinto muito. Não devia estar falando
assim da sua namorada — arrisco e espero.
Se ela for namorada, Julian é louco em ter me hospedado na sua casa. Se
não for, bom, legal, eu acho.
— Ela não é minha namorada.
Ao ouvir a resposta, finjo surpresa.
— Ah, pensei que fosse.
Julian me encara de rabo de olho e eu começo a rir de novo. Jesus Cristo!
Eu vi o homem pelado e em uma posição muito comprometedora. Por que ele
não parece envergonhado? Por que eu não me sinto culpada?
— Está rindo muito hoje, Jolina.
— Pode me chamar de Lina — retruco. — Acho que já subimos alguns
níveis e somos quase íntimos — zombo.
Ele solta uma risada leve, fazendo as borboletas no meu estômago se
agitarem. Não é sempre que Julian é assim, e sem saber o porquê, eu gosto dessa
versão dele.
— Ok, Lina — sussurra, levando uma onda de arrepio eletrizante para o
meu corpo.
— Nunca mais sento nesse lado só sofá — resmungo na tentativa de
manter intacta minha lucidez. — Não quero imaginar quantas bundas peladas
sentaram aí. — Aponto para o lado do sofá em que a cena pornográfica
aconteceu minutos atrás.
— Talvez seja melhor não imaginar mesmo — fala baixinho e fico na
dúvida se eu escutei certo. De repente, Julian levanta, levando consigo a taça e
garrafa de vinho tinto. — Boa noite, Jolina — são as suas últimas palavras antes
de me deixar sozinha na sala.
Sou uma mulher de palavra. Passo boa parte da manhã sem encostar no
sofá do momento erótico entre Julian e a mulher ruiva. Sinto o rosto esquentar
toda vez que meus olhos vão naquela direção. Primeiro, porque, bem, eu vi o
homem pelado. Segundo, porque eu acabei sonhando que ele me chupava.
Acordei esbaforida e molhada. Molhada não, enxarcada. Ler livros
eróticos atiçou demais a minha imaginação.
Eva cuida da casa enquanto eu tiro a faixa do pé para o alongamento
matinal. Já passam das dez horas e Julian ainda está dormindo ou acordou bem
cedo e foi trabalhar, não sei qual dos dois. A agenda dele é muito confusa para
mim. O homem trabalha dia de domingo, mas passa a manhã de segunda em
casa, depois sai e volta com livros eróticos e de quebra, come mulher no sofá da
sala.
Começo a alongar o pé, em silêncio, perdida em pensamentos sobre se
devo falar com Eva sobre o que vi ontem ou fico na minha. Talvez ela me mande
parar de xeretar ou me ofereça uma xícara de chocolate quente e me dê alguns
detalhes sobre a vida amorosa do mandachuva.
E por que diabos estou interessada nisso?
Julian sai do quarto. Engulo em seco ao vê-lo de cabelos desengonçados e
sexys, usando robe vermelho escuro aberto e samba canção. Ele tem uma
tatuagem no peito, mas não consigo identificar o que é.
Acho que está com um pouco de resseca, mas ainda assim, lindo. Os olhos
dele caem sobre o meu pé e para minha surpresa, ele se aproxima, ficando de
joelhos na minha frente.
— Como está o seu pé?
Prendo meus olhos aos seus e tento entendê-lo. Ou melhor, tento entender
o fascínio estranho que estou sentindo por esse homem.
Solto um gemido involuntário quando sinto as mãos grandes dele tocarem
o meu pé para me ajudar com a alongamento.
— Está doendo? — quer saber.
— Não, estou bem — digo e o observo continuar com os alongamentos.
Ontem ele parecia um predador depravado entre as pernas daquela mulher ruiva,
hoje, parece tão carinhoso, preocupado.
— Por que está me olhando assim? — Julian pergunta sem tirar a atenção
do meu pé meio inchado e com alguns hematomas.
— Só estou pensando em como você é tão diferente — me ouço dizendo,
mas me arrependo no segundo seguinte. — Pode deixar, eu me alongo sozinha.
Julian assente e me olha com intensidade antes de se afastar ir na direção
da cozinha. Fala com Eva em italiano e quando espio por cima do ombro, o vejo
servindo café em uma xícara e voltando para o quarto.
Suspiro, tentando entender o que estou sentindo.
Desisto do alongamento e volto a enfaixar o pé, mas sou interrompida pelo
celular tocando. É Sophia. Ontem, ignorei minha amiga o dia inteiro, mas uma
hora ou outra teria que explicar de verdade toda a situação complicada em que
me encontro.
— Oi, Sophia.
— Julian Lorenzo Carbone? Você ainda está na casa dele? Isso é de
verdade? Me passe o endereço, estou indo aí — é o que fala, me fazendo bufar.
Alguns minutos mais tarde, depois da ligação com a minha melhor amiga,
tomo coragem para bater na porta de Julian. Ele não responde, então bato de
novo e nada.
— Preciso falar com você — digo, encostando a testa no material de
madeira, mas mais uma vez, não tenho respostas. — Julian? É importante. —
Revezo em bater na porta e chamar por ele, até que o mandachuva abre, me
fazendo engasgar com a visão.
Está usando apenas uma toalha amarrada na cintura e tem os cabelos e
abdômen molhados. Agora consigo ver a tatuagem cravada no peito. É um lobo
uivando. E acabo descobrindo um crucifixo tatuado no bíceps esquerdo.
Como se não fosse nada demais, escancara a porta e dá alguns passos para
trás. Fico na soleira e prenso os lábios, tentando prender a respiração e não
prestar atenção no cheiro de sabonete que o corpo dele emana no momento.
— Você não está me mantendo em cárcere privado, não é? — pergunto e
ele, que até então, estava de costas, vira para mim e me observa com uma
sobrancelha levantada. — É que... minha melhor amiga Sophia... — minha frase
morre e eu fico encarando o homem meio vestido.
É uma tentação.
— Qual é o problema? — questiona quando fico alguns minutos em
silêncio.
— Ah. Ela está preocupada comigo — falo ao fechar os olhos por uma
fração de segundos e sacodir a cabeça. — Preciso encontrá-la.
Julian assente.
— Tudo bem, vou pedir para alguém acompanhá-la.
— Não precisa — falo, mas o homem não aparenta ser alguém que vai
mudar de ideia. Ou eu saio acompanhada ou não saio. — Isso tudo é necessário
mesmo? Acho que você está exagerando — emendo, de repente, me sentindo
confiante.
É claro que Mason está atrás de mim. A ligação e as mensagens
incessáveis de ontem foram a prova disso. Ele está desesperado para me
encontrar. No entanto, não acho que vá aparecer do nada enquanto estou
tomando um café com Sophia. Não é como se ele estivesse me seguindo e
soubesse cada passo que dou.
— Quando não foi embora, eu entendi que você aceitou ficar sob minha
proteção, então vamos fazer as coisas do meu jeito, Jolina. Alguém vai
acompanhá-la e isso nunca esteve em discussão.
Abro a boca, surpresa. Ele não pode estar falando sério.
— Você não é meu dono e não vou fazer as coisas do seu jeito — retruco.
— Já acabou? Preciso me vestir — é o que pergunta, ignorando o que
acabei de dizer. Reviro os olhos e saio do quarto, enfurecida.
Que homem cabeça dura.
Estou em uma ligação internacional quando meu pai entra na sala sem
bater, é claro. Quando se é dono de tudo, não precisa bater nas portas. Ele
desabotoa o terno feito sob medida e senta no sofá, enquanto eu me apresso em
encerrar a chamada.
Levanto da cadeira e me aproximo dele, mas antes pegando uma garrafa de
uísque da adega do escritório e dois copos. Sirvo e ofereço, meu pai brinda antes
de beber um gole.
— Aqui... — Aponta com o dedo para a mesa do escritório amontoada de
papéis com problemas administrativos que preciso resolver até o final do dia. —
Foi o lugar que sempre quis pra você.
Assinto e bebo um gole da bebida, mas não digo nada.
Não é segredo para a família Carbone, que meu pai sempre esperou mais
de mim. Assumir os negócios legais e ficar de fora de tudo que fosse perigoso.
Eu acho que para ele, sempre serei aquele garoto franzino que precisava de ajuda
do irmão mais velho para se defender na escola.
Mas quando meu avô aos 65 anos foi indiciado em corte federal por
mentorar nacionalmente uma sucessão de roubos à bancos e por sonegar impostos, depois preso e sentenciado a 30 anos de prisão, eu sabia que nunca
mais o veria.
Eu fiquei devastado, meu avô era melhor amigo.
Ele durou 6 anos na prisão e depois de perdê-lo, de novo, eu disse ao meu
pai que queria me juntar aos negócios, como meu irmão. Mas o Don negou e
disse que eu deveria estudar e ser alguém melhor.
Era tarde demais e eu não queria ser melhor. Só queria entender e fazer
parte da família pela qual meu avô morreu e amava.
— Não queria que você fosse um mafioso, apenas um CEO — fala, me
fazendo encher o copo de uísque de novo. — Era o que seu avô queria. Ele
nunca quis que eu envolvesse vocês nisso.
— Eu sei, papà. Mas não tem como voltar atrás agora.
Ele bebe toda a bebida do copo e o coloca em cima da mesa, assentindo.
— É aniversário do Giuliano no final de semana. A família toda vai se
reunir, não chegue atrasado e compre um presente — é o que diz ao levantar.
Fico de pé e concordo com um aceno de cabeça. Meu pai toca meu rosto
com uma das mãos e dá um tapa de leve antes de sair do escritório.
Sirvo outra dose de uísque antes de voltar para o amontoado de papel em
cima da mesa. Estou caminhando até à cadeira de vice-presidente quando o
celular notifica uma mensagem.
É o soldado para qual dei a ordem de acompanhar Lina no encontro com a
melhor amiga.
Abro a mensagem e analiso a foto que recebi.
Jolina está de cabelos soltos, sentada à uma mesa de frente para uma
garota negra de cabelos longos, mas olha para câmera e mostra o dedo do meio
com uma das sobrancelhas erguidas.
Sem saber o motivo, me vejo sorrindo.
Lina é um problema.
Jolina ainda está fora quando chego no apartamento.
O relógio no meu pulso marca quase vinte e uma horas. Depois de tirar o
sobretudo, pego o celular dentro do terno e digito uma mensagem para o soldado
que está com ela.
“Não importa o que aconteça, traga a garota para o meu apartamento.”
Ok, sou um mentiroso. Um imbecil engravatado. Disse tantas vezes que
Jolina podia ir embora quando quisesse, mas a verdade é que não permitiria que
isso acontecesse de verdade.
Jolina está segura comigo. Talvez, não esteja de mim, mas esse não é um
problema que eu queira resolver agora.
Coloco o presente que pedi para minha secretária comprar para Giuliano
em cima da ilha da cozinha e vou pegar uma garrafa de vinho da adega
climatizada. Encho uma taça e bebo ao mesmo tempo em que o celular vibra.
É uma mensagem de Lily.
Estou cogitando responder, quando ouço a porta do apartamento abrir e
Jolina dizer “obrigada” ao soldado que a trouxe em casa. Ela entra e toma um
leve susto ao me ver sentado na banqueta da ilha da cozinha.
Eu deveria manter meus olhos bem longe da garota, mas existe algo nela
que não me deixa fazer isso.
Lina é linda.
Atrevida.
Irritante.
Mas muito linda.
— Achei que você não fosse voltar — digo, e ela relaxa os ombros,
deixando a mochila que está segurando no chão, perto do sofá e caminhando até
próximo de mim e sentando na banqueta.
— Para ser sincera, eu não sei o que estou fazendo aqui, Julian — fala,
encarando a taça de vinho meio cheia. — Minha melhor amiga disse que eu sou
doida de continuar aqui e ela tem razão. Qual é o meu problema? Por que eu
voltei?
Ela encaminha os olhos marrons até mim e noto que as pupilas estão
dilatadas. Nós ficamos assim, em em silêncio pelo que parece ser uma
eternidade, até que Lina desvia e abre meio sorriso depois de balançar a cabeça
de um lado para o outro.
Bebo um gole de vinho, sem conseguir tirar os olhos de cima dela e
pensando no que dizer. Poucas pessoas conseguem me deixar sem palavras, mas
Lina consegue fazer isso sem grandes dificuldades.
A garota me surpreende ao pegar a garrafa de vinho e tomar um gole
generoso do gargalo. E sem aviso prévio, ela fica de pé. Mancando, dá a volta na
ilha da cozinha e fica bem próximo de mim, entre as minhas pernas.
Estreita os olhos e me encara, franzindo a testa.
— O que você quer comigo, Julian Lorenzo Carbone? — pergunta bem
próximo do meu rosto, me fazendo perceber que está bêbada.
— Por isso demorou? Estava bebendo?
Lina finge refletir ao morder o lábio inferior e embora eu tenha tentado
não prestar atenção na boca dela, fico olhando. Desejando tocar os seus lábios
carnudos.
Ela não é garota para mim, mas a verdade é que eu a quero.
— Você é tão mandão, isso me irrita — murmura ao levar as mãos até a
minha nuca e entrelaçar nos meus cabelos, arrepiando meu corpo e me fazendo
ficar de pau duro. Respiro devagar, controlando a vontade de agarrar Lina pela cintura e devorar a boca atrevida dela com um beijo. — Mas é tão lindo também.
— Os dedos da mão esquerda tocam o meu queixo e eu sinto a ereção latejar.
Antes que faça besteira, afasto Lina ao segurá-la pelos pulsos.
— É chato também — resmunga. — Você prefere ruivas? — pergunta, de
repente.
— É melhor você ir dormir — é o que eu digo.
Lina revira os olhos e bufa.
— Por quê? — questiona com as sobrancelhas erguidas.
— Eu estou tentando proteger você, Lina.
— Me proteger de que exatamente? — ela rebate, irritada.
— No momento? De mim — murmuro.
Ela assente e mancando, vai até o seu quarto, deixando a mochila perto do
sofá.
Desfaço o nó da gravata e solto um suspiro longo. Encho a taça de vinho e
bebo o líquido todo de uma vez, tentando acalmar os instintos e pensar com
clareza.
Não tenho dúvidas, Lina será minha ruína, mas eu a quero mesmo assim.
Acordo com a língua pregada no céu da boca. Sento na cama e estico o
braço para acender o abajur em cima da cômoda. Minha cabeça dói e estou com
sede. Droga. Não devia ter bebido com Sophia.
Sinto as maçãs do rosto esquentarem quando as lembranças me invadem
como uma tempestade. Eu agarrei Julian e dei em cima dele. Endoidei de vez.
Fecho os olhos e me amaldiçoo por isso, fazendo uma nota mental de não beber
enquanto ainda sou hóspede dele.
Ouço barulhos vindo da sala e automaticamente, pouso os olhos no relógio
em cima da cômoda. Quase duas horas da manhã. Minha barriga está roncando
de fome e estou com sede.
Devagarzinho, caminho até a porta e colo a orelha no material de madeira.
Engulo em seco e sinto o sangue ferver quando percebo a indecência que está
acontecendo na sala.
Julian não vale um centavo.
Antes de sair do quarto, volto alguns passos e me olho no espelho de corpo
inteiro. Os cabelos estão assanhados, mas de um jeito sexy. Ótimo. Respiro
fundo e coloco a mão na maçaneta, girando-a com mais força que o necessário.
Caminho sem fazer barulho até a sala, que é iluminada apenas pela
claridade das luzes da cozinha. Meus olhos encontram a ruiva no colo de Julian.
Ela está nua, beijando o pescoço dele, mas ainda não estão protagonizando uma
das ações mais importantes de um filme pornô, já que o mandachuva ainda usa
calças.
Sem cerimônia, passo uma das mãos na parede, onde tem o interruptor e
acendo as luzes, clareando a sala inteira.
— Me desculpem por interromper, mas estou com fome e vou fazer uma
refeição — digo, fazendo Julian afastar a ruiva peituda e me encarar, perplexo.
A mulher contrai a mandíbula e me fita também, incrédula.
— Vocês podem ir pro quarto? — pergunto, mas balanço a cabeça e forço
um sorriso. — Ah, é mesmo, Julian não gosta de dividir a cama — emendo,
passando por eles.
Vejo o maxilar do homem cerrar e ele lança um olhar duro para mim, que
ignoro completamente. Quem ele pensa que é?
Ai Jesus!
O que estou fazendo? Tudo bem, o homem não vale nada. É um cafajeste
de nível máximo, mas não tenho nenhum direito de estar empatando as fodas
dele. Eu sou apenas uma hóspede inesperada. Nada mais, nada menos.
Abro a geladeira e finjo procurar por algo, pensando em formas de como
sairei dessa situação complicada. Pego os frios e coloco em cima da ilha da
cozinha, evitando olhar para o casal no sofá.
Mas acabo arriscando uma olhadela e vejo a mulher se vestir, enquanto me
encara irritada. Acho que ela quer avançar em mim.
Giro nos calcanhares e procuro por pão dentro dos armários, decidindo se
faço um sanduiche e me escondo no quarto ou fico mais uma pouco e espero
para ver se a ruiva vai embora.
— Sou idiota mesmo por ainda procurar você, Julian — a ruiva rosna. —
O que você tem com essa garota? — pergunta, fazendo minhas bochechas
queimarem.
Espero ouvir uma resposta, mas parece que o homem perdeu a língua.
Saltos altos quicando de forma exagerada no chão e bater de porta.
A mulher foi embora.
Cogito a possibilidade de pegar uma garrafa de água e sair correndo para o
quarto, mas sou impedida quando noto com a visão periférica Julian sentar na
banqueta e apoiar um dos cotovelos na ilha da cozinha e me observar.
— Você é atrevida, Lina. Uma empata foda.
Engulo em seco e fico em silêncio. O mandachuva canalha tem razão.
— Ela não estava fazendo tanto barulho dessa vez — comenta e por
alguma razão, isso me deixa nervosa, irada.
A vontade que tenho é de acertar a cara bonita dele com uma fatia de pão e
um pedaço de queijo.
— Estava com fome, não como nada desde as quinze horas — digo sem
olhá-lo, me concentrando na missão de fazer o sanduiche.
— E mesmo assim você bebeu com Sophia.
— Algum problema? — rebato.
— Lembra do que você fez? — questiona, me fazendo paralisar por alguns
segundos.
Sinto o coração na garganta e o rosto ruborizado.
Abro a boca para responder, mas perco o fio da meada quando o vejo
levantar e vir até mim, ficando bem próximo. O calor do corpo dele irradia para
o meu e consegue me deixar tonta.
Como quem não quer nada, ele abre a geladeira e de dentro, tira uma
garrafa de suco de laranja e coloca perto do meu sanduiche quase pronto.
Ainda tem os olhos em cima de mim, me analisando e me deixando com a
respiração ofegante.
— Obrigada — murmuro ao encontrar minha voz.
Surpreendo-me ao sentir Julian pousar a mão na minha nuca e entrelaçar
os dedos nos meus cabelos. O corpo inteiro parece entrar em combustão e o
coração bate tão rápido que é quase doloroso.
Ele aproxima o rosto do meu.
— No meu mundo, todas as atitudes têm consequências, Jolina —
murmura, e meu nome nos seus lábios soa de um jeito tão erótico, que sinto algo
entre as minhas pernas latejar.
Julian se afasta de mim, me fazendo engolir o caroço na garganta.
— Beba bastante água, vai ajudar a não acordar com a cabeça doendo
amanhã — dito isso, o homem dá as costas e me deixa sozinha na cozinha.
Só respiro fundo quando o vejo entrar no próprio quarto. Levo a mão até o
coração e tento acalmar os batimentos cardíacos descontrolados.
Esse homem vai me fazer ter um infarto.
Por causa da aproximação repentina de Julian, tive uma noite de sono
turbulenta. Tudo bem, eu sei que comecei, mas toda vez que pregava os olhos,
sentia as mãos dele na minha nuca, entre os cabelos e o calor do hálito contra o
meu rosto, enquanto sussurrava “No meu mundo, todas as atitudes têm
consequências, Jolina.”
O que será que ele quis dizer com isso?
Deus, por que diabos aquilo foi tão excitante?
Sophia tem razão, eu sou louca. Não devia ter voltado. Julian não parece
um homem simples. Sejamos sinceros, simples não é algo que deva existir no
dicionário dele. Julian é complicado, intenso e cheira a perigo a mil metros de
distância.
E lógico, não deve ser um dos caras bonzinhos.
Não deveria me sentir atraída por um ser humano como ele.
A fim de evitar qualquer tipo de contato com Julian, passo o dia inteiro no
quarto, alternando em ler os livros de romances eróticos e fazer os trabalhos da
faculdade no computador.
Mais um dia sem o notebook e eu teria pirado.
Depois de colocar em dia todas as obrigações da faculdade, levo a atenção
até a porta fechada, cogitando quebrar a minha promessa de permanecer
enfurnada aqui até o dia de eu ir embora.
Desço da cama, alongo o corpo e caminho até a porta, dessa vez, não
mancando mais como antes. Meu pé está bem melhor e isso me dá uma sensação
estranha. Tudo que eu mais quero é sair daqui, mas ao mesmo tempo, não quero.
É isso, perdi o juízo.
Saio do casulo e dou de cara com a porta do quarto de Julian aberta. Ando
para perto e espio. Ele está de frente para o espelho de corpo inteiro, decidindo
qual das gravatas fica melhor com o terno.
É um canalha, mas mesmo assim, é bonito pra caramba.
— Vermelho vinho — digo antes que o cérebro processe as palavras.
Julian me encara através do espelho por um longo segundo, depois leva em
consideração a minha sugestão e sei lá o porquê, mas isso me encoraja a dar
alguns passos para dentro do seu quarto.
— Não sabia que usava óculos — comenta, me fazendo levar as mãos até
o rosto, mas não consigo dizer nada.
Depois de dar um nó na gravata, Julian pega o terno de tom terroso e bem
passado em cima da cama e veste, me deixando com um frio na barriga.
É um canalha lindo de terno e gravata.
— Está indo ver a sua Bella Thorne? — pergunto quando a curiosidade é
maior. É claro que me arrependo no segundo depois, mas não demonstro. —
Aproveite a sua noite — acrescento, sorrindo.
Julian vira o corpo na minha direção e caminha até mim, me fazendo
prender a respiração e engolir o caroço na garganta. Está próximo demais. Muito
próximo. Meu Deus, socorro.
Os pelos dos meus braços estão todos arrepiados e eu não consigo desviar
dos olhos negros e profundos.
— Não devo nenhuma satisfação a você, mas ela não é minha e nem estou
indo vê-la — diz com aquela voz grossa e intensa, levando ondas eletrizantes
para todo o meu corpo e fazendo o meu couro cabeludo eriçar.
O homem acabou de ser um imbecil arrogante, mas me deixou excitada.
Preciso parar de ler os romances eróticos...
Os olhos de Julian caem sobre os meus lábios e vejo o canto da sua boca
esticar em um meio sorriso safado.
— Tenha uma ótima noite, Jolina Magdayao — sussurra sensualmente,
fazendo o meu corpo inteiro sentir calor.
E depois vai embora.
Levo a mão até o coração e o sinto acelerado. Esse homem tem que parar
de fazer isso comigo.
Julian passou a noite fora.
Não é que eu tivesse o esperando chegar, mas ao sair do quarto pela
manhã, vi que o homem ainda usava a mesma roupa de ontem.
Ele está sentado de frente para ilha da cozinha, e o Nicholas, o homem de
cabelo quase raspado, ao seu lado. Os dois parecem preocupados com algo e
com certeza não é um assunto que eu deva ouvir, pois param de conversar no
momento em que notam a minha presença.
Nicholas me cumprimenta com um leve aceno de cabeça e fica de pé,
fechando o botão do terno e saindo do apartamento. Ainda não gosto muito dele,
mas entre os homens de Julian, ele é o que me trata melhor e parece não se
incomodar em ficar de babá quando é preciso.
Ao me aproximar da cozinha, vejo uma garrafa de uísque vazia em cima
da mesinha de centro e dois copos, alguns papéis revirados, agenda aberta e
canetas espalhadas, como se um furacão tivesse passado e bagunçado tudo.
Os olhos de Julian se grudam aos meus e ele parece tão cansado, abatido.
É a primeira vez que o vejo assim.
Abro a boca para perguntar se está tudo bem, mas Julian desvia atenção de mim e eu entendo que falar sobre isso ou comigo, é a última coisa que ele deva
querer fazer no momento.
Em silêncio, caminho até a cafeteira e vejo que não tem café pronto.
De onde estou, dá para sentir o cheiro de álcool em Julian, mas ele não
parece com alguém bêbado e também, está longe de estar sóbrio.
Ainda muda, começo a preparar o café e noto que o homem tem os olhos
em cima de mim, me analisando e deixando as minhas mãos trêmulas.
— Você está com fome? — pergunto, a fim de quebrar o silêncio
constrangedor entre nós.
Julian passa as mãos entre os cabelos e acho que é a primeira vez que os
vejo tão despenteados. E isso consegue deixá-lo ainda mais bonito e quente.
Como algo assim pode ser possível?
— Não — é o que me diz, me fazendo assentir e prensar os lábios.
Está na cara que ele não quer conversar, então resolvo deixá-lo sozinho.
Estou pronta para sair de perto, quando Julian estica o braço sobre a ilha da
cozinha e segura meu pulso.
É um toque firme, necessitado, e até mesmo, sedento, mas de alguma
forma, parece gentil também. E eu sei o quanto isso é estranho.
Julian me puxa para mais perto e fica olhando dentro dos meus olhos, me
hipnotizando. Não deveria me importar o fato de ele estar tão abatido, mas não
consigo evitar o sentimento de preocupação se instalar dentro do peito.
É uma loucura, eu o conheço há pouco tempo. São apenas duas semanas e
mesmo assim, estou tocada com o estado dele. Quero saber o que aconteceu ou o
que se passa na cabeça dele, e talvez assim, eu consiga entendê-lo. Talvez, eu
consiga me entender também.
Talvez assim, eu consiga entender o motivo de ainda continuar aqui,
querendo me queimar com fogo.
Querendo mais desse fogo intenso, violento e corrompido que Julian é.
— Você está bem? — me ouço perguntando.
Ele libera meu pulso, mas não afasta as vistas de mim. Tem a respiração vagarosa, mas pesada na mesma medida.
— Não estou — fala o óbvio.
— Quer conversar?
Minhas vistas exploram os detalhes do rosto de Julian e eu sei que perdi
completamente o juízo, quando levo minhas mãos até o limite do seu maxilar e
pescoço. Os polegares dançam pela barba cerrada, em seguida, um dos dedos
sobe até a sutil pinta debaixo do olho direito.
De maneira delicada, Julian segura meus dois braços e me afasta.
— Não posso falar sobre isso com você — diz, fazendo meu coração
acelerar.
— Por que não? — rebato, curiosa.
Com certeza, eu não devia estar interessada em saber coisas sobre o
mundo de Julian Carbone, mas no momento, o que parece perigoso é tão
cativante.
— Porque você não é minha — murmura, como se eu ser dele fosse a
resposta para todos os problemas.
Engulo em seco e pisco devagar, depois, balanço a cabeça, na tentativa de
pensar com clareza.
Não preciso ter bola de cristal para saber que Julian é o tipo de homem que
quando quer uma coisa, vai lá e pega. O mandachuva exala poder e autoridade. E
na real, eu nunca gostei de homens assim. Mas por que “ser dele” soa como um
convite tão instigante?
— E você não vai querer ser minha, Lina — diz, chamando minha atenção.
Nossos olhos se prendem de novo, mas Julian não permite uma conexão
longa dessa vez, pois se arrasta com a banqueta para trás e num solavanco, fica
de pé, em seguida, caminha até o seu quarto.
Solto um suspiro longo, começando a ficar irritada.
Parece que virou algo comum ele jogar uma bomba e depois ir embora, me
deixando sozinha e com as engrenagens da minha cabeça trabalhando a mil por
hora.
— Façam as malas e voltem pra casa. Quero vocês dois morando sob o
mesmo teto até o final desta noite — mamãe fala com um tom ríspido, mas vejo
um lampejo de preocupação passar por seus olhos.
Ela anda de um lado para o outro, exasperada.
Fico calado e Noah se remexe no sofá, mas também não se atreve a
contrariar as ordens da nossa mãe.
— Carlota, isso é exagero — Giuliano é o único ousado o suficiente para
contrariar as ordens da minha mãe. Talvez por ser o mais velho na sala se sente
no direito de opinar em alguma coisa. — Vamos resolver as coisas, fique
tranquila.
Ela fica furiosa.
— O quê? — mamãe rebate de maxilar contraído. — Quem você pensa
que é, Giuliano? Eu sei que está com a família há muitos anos, no entanto, não
tem o direito de se meter nisso. Eu sou a única que sabe o que é melhor para os
meus filhos. Não ouse dizer que estou exagerando outra vez.
Giuliano aperta o maxilar e assente ao prensar os lábios em uma linha reta.
— Me desculpe — Giuliano murmura e baixa os olhos por uma fração de segundos.
Nosso pai desce as escadas, fazendo com que Noah e eu fiquemos de pé,
aguardando. Giuliano, Gabriel e Thomas, o conselheiro, não sentaram desde que
colocaram os pés na casa.
Depois dos acontecimentos da noite passada, ele parece melhor hoje. Já eu,
ainda continuo puto da vida. Não consigo relaxar nenhum músculo do corpo e a
cabeça não para de traçar planos e trabalhar em formas de fazer com que o meu
pai fique o mais seguro possível.
Ele se acomoda na poltrona de couro reclinável na sala e faz um gesto com
as mãos para que todos sentem.
— Obedeçam a sua mãe, é o meu desejo também — diz, olhando de Noah
para mim. — Estarão mais seguros aqui. No momento, manter vocês dois em
segurança é o mais importante.
Giuliano não gosta muito de ouvir as palavras do chefe da família, mas não
arrisca dizer nada sobre o assunto.
Noah e eu assentimos, em silêncio. Mesmo que eu não queira voltar para
casa, não posso desobedecer a um desejo do Don. E parece que as coisas estão
caminhando para um caminho arriscado, incerto.
Não importa quanto dinheiro ou poder você tenha, no nosso mundo,
ninguém está sempre seguro e as coisas nunca ficam tranquilas por muito tempo.
Existem acordos, que duram por alguns anos, mas há sempre alguém disposto a
quebrá-los.
Não é a primeira vez que tentam matar o chefe da família Carbone, mas
nunca foram insolentes o suficiente para tentar fazer isso em frente à casa de um
dos nossos.
O homem despretensioso que tentou atirar no meu pai ontem quando
estávamos saindo da casa de Giuliano, estava fadado ao fracasso. No entanto, a
tentativa ainda é algo que preocupa.
Não lembro de ter conhecido um homem como ele. Mesmo sob tortura,
não dedurou ninguém. Disse que estava sozinho, o que é mentira. Ninguém tenta apagar o chefe de uma família da máfia da noite para o dia, ainda mais, sozinho.
É patético e estúpido demais.
Alguém está por trás disso. Mas quem?
Por anos, meu pai conseguiu manter a ordem na cidade de Montreal e até
fez um acordo de não entrar em guerra com a família Fontana, a nossa maior
rival. Eles perderiam de qualquer forma.
A família Carbone controla a maioria das gangues, boa parte da prefeitura
da cidade e a polícia local.
Mas mesmo que a vitória em uma possível guerra seja garantida, não
estamos ilesos dos efeitos colaterais. E infelizmente, são as consequências que
nos marcam.
— Fale, eu sei que tem muito a dizer — o Don articula na direção de
Thomas, depois da mamãe deixar a sala. — Você é igual ao seu pai.
— Precisamos redobrar a sua segurança. — Thomas olha o meu pai. —
Você precisa ser extremamente inacessível. Pelo menos até descobrirmos quem
está tentando matar você. Não podemos arriscar de novo.
O Don concorda com um aceno de cabeça.
— A partir de hoje, nos encontraremos no escritório principal ou aqui —
meu pai anuncia. — E faremos tudo em sigilo agora. Os saldados só saberão o
que precisam saber.
— Até mesmo Nicholas? — Giuliano rebate, me fazendo erguer uma
sobrancelha para ele. — Eu sei que você gosta dele, Don Carbone, mas
precisamos ter cuidado. Ele pode ser o nosso traidor.
Sem conseguir me controlar, levanto e me aproximo de Giuliano, fixando
meus olhos nele, sentindo a respiração ficar pesada.
Giuliano nunca gostou de Nicholas e sempre teve um pé atrás com ele.
Mas dizer que ele pode ser um traidor, é uma acusação séria. E às vezes, uma
coisa assim pode tirar a vida de alguém.
— O que você disse? — grunho.
— Sente, Julian. Não vamos começar a brigar entre nós. — Noah fica de pé também e me afasta de Giuliano de forma brusca. — Fique calmo.
— Você ficou doido? — rosno.
Giuliano suspira e vira o rosto para mim, de jeito arrogante.
Filho da puta.
— Eu estou na família há muito mais tempo que você, Julian. Tenho mais
experiência com os nossos assuntos. Você apenas começou. Eu sei o que estou
dizendo, garoto — fala com desdém, fazendo o sangue do meu corpo se
transformar em lava.
Aperto as mãos em punho e tento controlar a vontade de acertar um soco
nele.
O velho fodido nunca me levou à sério de verdade. Sempre achou que eu
fizesse parte dos negócios apenas por diversão.
Meu avô foi o maior mafioso que Canadá já teve. E agora, meu pai está
indo pelo mesmo caminho. É claro que Giuliano, que esteve ao lado do meu avô,
aprendendo com ele e está ao lado do meu pai durante tantos anos, acha eu não
dou conta dos nossos negócios.
— Giuliano... — meu pai diz, chamando a atenção dele. — Nunca mais
fale com meu filho desse jeito. Você trabalha pra mim, e ele é o meu sangue.
Julian é um dos herdeiros também, não esqueça disso. Nunca mais.
O capitão mais antigo da família Carbone assente ao engolir em seco.
— Me desculpe, Don.
— Nicholas ainda é como um filho pra mim, mas se ele for o traidor, nós
vamos descobrir. As mentiras nunca ficam escondidas por muito tempo — o
Don diz.
Giuliano, Gabriel e Thomas assentem, em silêncio.
— Vocês dois — meu pai fala, alternando as vistas de mim para o meu
irmão. — Quero vocês nesta casa ainda hoje.
— Sim, senhor — Noah concorda.
— E você? — pergunta a mim, me fazendo franzir o cenho. — O que vai
fazer com a garota asiática na sua casa?