O Homem da Máfia (Família Carbone Livro 1)

Brenda Ripardo · Capítulo 8 de 19

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O Homem da Máfia (Família Carbone Livro 1)

Capítulo 12

— O quê? — retruco.

Lanço uma olhadela para Noah, mas ele fica quieto.

O Don solta uma risada sarcástica.

— Acha mesmo que eu não sei o que se passa na sua vida? — questiona,

me fazendo engolir em seco. — Case com ela de uma vez ou a deixe ir embora.

Não podemos perder tempo com distrações — dá o ultimato dele e a única coisa

que consigo fazer é assentir, contrariado.

 

Já passam das dezessete horas quando Nicholas me liga, avisando que

encontraram Mason. O cretino foi idiota o suficiente para ir ao apartamento de

Lina. Pego o sobretudo no cabideiro e aviso a secretária que estou encerrando o

dia mais cedo.

Na garagem subterrânea do cassino, um dos soldados já me espera com o

carro ligado. Entro e me acomodo no banco traseiro, sem dizer nada, ele ocupa o

lugar do motorista e pisa no acelerador, me levando até o meu destino.

Mason Fox.

Meia hora depois, estacionamos em frente a um galpão de uma fábrica

abandonada em Montréal-Est [12] .Desço do veículo e antes de entrar, peço para o

homem que me acompanhou espere do lado de fora.

Encontro Mason sentado em uma cadeira com os braços amarrados para

trás. O nariz está quebrado e o olho direito começando a ficar inchado.

Tem dois soldados com Nicholas, um de cada lado e a julgar pelas mãos

sujas de sangue, eles estão se revezando para quem deforma o rosto do filho da

puta à minha frente.

Aproximo-me de Mason e o observo. Não posso dizer que estou feliz em

vê-lo, mas ao mesmo tempo, é bom saber que ele está tendo o que merece.

— Ele falou? — pergunto ao Nicholas, fazendo com que Mason me

encare.

— Na verdade, muito, mas nada relevante — é a resposta que tenho.

Ao me reconhecer, o nosso visitante cospe sangue no meu terno.

— Esse terno é caro — é o que digo.

— Vai se foder, babaca — crispa.

Nicholas para ao meu lado e me mostra o celular de Mason. Na tela

colorida, vejo as mensagens que andou mandando para Lina nos últimos dias.

Como esperado, o homem sentado na cadeira é um monte de lixo.

Meu melhor amigo abre a boca para dizer algo, quando Mason é mais

rápido e começa a tagarelar.

— Se vocês me matarem, os Fontana vão retalhar — fala e depois abre um

sorriso cheio de sangue para mim.

Troco um olhar com Nicholas e sei que Mason não está mentindo. Mas no

fundo, não faz sentindo. Qual a vantagem de fazer algum acordo com Mason? E

bem, ninguém ganha a confiança de uma família assim, da noite para o dia.

Afrouxo o nó da gravata, pensando no que fazer. De qualquer forma, não

posso deixar esse fodido sair deste galpão andando sobre as duas pernas.

Ele precisa pagar de alguma forma pelo que fez com Lina. Precisa pagar

pelo que fez durante todos esses anos.

— Por que eles te esconderam? — quero saber.

Mason me dá outro sorriso ensanguentado e responde.

— Eu fiz um acordo com eles.

— Por quê? — questiono, mas Mason fica quieto, apenas me encarando.

Ele está com medo, consigo ver nos olhos dele, mas é um imbecil e não

vai falar as coisas importantes tão facilmente.

— O que você quer com ela? — pergunto ao gesticular com o celular nas

mãos. — Por que não a deixa em paz?

Mason cospe sangue no chão, querendo acertar o meu sapato, mas não tem

sucesso. Ele joga a cabeça para trás e solta uma risada, começando a me deixar

bem irritado.

— Qual é a sua, otário? — retruca. — Lina é minha, e não te devo

explicação nenhuma sobre o que eu quero com aquela puta.

Solto um suspiro longo e contraio o maxilar, sentindo o sangue ferver.

Entrego o celular a Nicholas e abro um sorriso cético para Mason antes de

acertá-lo um soco no olho direito.

Ele geme de dor e baba sangue.

E encontro a minha solução. Vou deixar o homem cego.

— Se você falar assim mais uma vez, além de te deixar cego, vou cortar a

sua língua — é o que falo, segurando com força Mason pela nunca e o fazendo

olhar dentro dos meus olhos. — Não estou mentindo.

— Por que se importa com ela? Está comendo aquela putinha também? —

rebate.

Solto Mason e respiro fundo antes de acertar um soco no rosto dele de

novo. Para meu desgosto, o desgraçado começa rir ao mesmo tempo em que

cospe sangue.

— Me dê — falo, encarando Nicholas. Ele sabe o que quero, por isso,

hesita um pouco, mas acaba me dando a pistola escondida no terno. Pego-a,

destravo e sem pestanejar, miro na testa de Mason. — Não importo de acabar

com sua vida.

— Não ousaria começar uma guerra.

Sorrio.

— Está confiante demais, Mason. O problema, é que você não me

conhece. — Encosto o cano da arma na testa dele e empurro um pouco para trás.

— Deixei-a em paz. Nunca mais procure aquela garota.

— Não posso.

Suspiro e prenso os lábios. Estou perdendo a paciência.

— Não é isso que quero ouvir.

— Não posso! — grita, e eu abaixo a arma. Ergo uma sobrancelha e espero

que ele diga alguma coisa, mas o imbecil fica calado.

— Escuta, Mason, eu não tenho tempo de sobra, e tem coisas que eu

preferia estar fazendo no momento, então, vamos resolver logo isso.

— Eu já disse que não posso.

— Por que não pode? — questiono, mas ele fica calado, apenas me

observando. — Por que não pode, Mason? — grito também.

Ele se remexe na cadeira e cospe um bocado de sangue antes de começar a

falar.

— Fui pago pra matar Lina. Se eu não fizer isso, vão me matar. Ela é

minha missão.

Ouvir aquilo me deixa com um gosto amargo na boca e eu sei o que tenho

de fazer. Não posso deixar Mason sair vivo deste galpão. Mesmo que eu consiga

proteger Jolina, uma hora ou outra, algo pode acontecer com ela.

— Quem pagou você? — Nicholas quer saber.

— Eu não sei. Nunca me encontrei com ele. Só o conheço pelo codinome,

capitão. — Olha de mim para Nicholas. — Eu gosto de Lina, mas era dinheiro

demais para ser recusado.

Olho para os soldados no galpão e faço um gesto para que saiam. Nicholas

fica, me analisando, mas não ousa dizer nada.

— Mason... — começo a falar, devagar. Inclino-me um pouco para frente e

olho o homem dentro dos olhos. — Por que pediram pra você matar Lina? Quem

deu a ordem?

— Eu não sei, foi uma surpresa pra mim também.

Não consigo acreditar nas palavras que saem da boca desse imbecil.

— Vou perguntar mais uma vez — murmuro, controlando a vontade de

acertar o rosto dele de novo. — Por que pediram isso a você?

— Eu não sei, porra! — grita.

Concordo com um aceno de cabeça e endireito a postura. Aponto a arma

para Mason de novo e ele começa a implorar para deixá-lo vivo.

Mas minha decisão já tinha sido tomada no minuto que ele disse que tinha

sido pago para acabar com Lina. E Mason, bem, ele é um desperdício de vida.

Não merece respirar nem por mais um dia.

Quando entro no apartamento, dou de cara com Lina sentada no sofá. Ela

tem o notebook nas pernas e alguns livros abertos na mesa de centro. Tento

ignorá-la e vou direto para o quarto, mas a garota me intercepta no caminho.

— Você está bem? — pergunta ao notar o sangue no meu terno. Sem aviso

prévio, ela pega minha mão entre as suas e encontra mais sangue. — O que

aconteceu?

Suspiro.

— Não faça perguntas, Lina. Não vai gostar de ouvir as respostas.

Ela revira os olhos.

— Você é um enigma pra mim. Não sei se consigo, Julian — murmura,

buscando meus olhos e isso estala algo dentro de mim.

Tenho ciência que alguém quer ver Jolina morta, e eu vou fazer o possível

e impossível para cuidar dela, mas não posso mantê-la aqui, perto de mim, na

minha casa. O melhor a se fazer é deixá-la viver a vida como antes de me

conhecer.

— Eu sei, Jolina. É melhor você voltar pro seu apartamento. Não pode

mais ficar aqui — falo num tom áspero.

Ela franze o cenho e parece ficar irritada com as minhas palavras. Tudo

bem, Lina tem direito de estar assim. Eu estou sendo um cretino de qualquer

forma.

— Está me expulsando?

— Não. Estou dizendo que o problema que te manteve aqui foi

solucionado — respondo, ríspido.

— O que você fez? — questiona, analisando meu terno sujo de sangue.

Não respondo, então ela começa a falar de novo.

— Tristan... — Balança a cabeça de um lado para o outro. — Mason...

cadê ele? Onde ele está, Julian?

Nossos olhos se cruzam por um longo segundo e me incomoda a forma

como isso mexe comigo.

— Como eu disse, o problema foi resolvido. Vá embora, Lina. Isso é pro

seu bem.

Os olhos dela se enchem de lágrimas e eu me sinto tão mal por isso, mas é

o melhor. Não posso manter Jolina na minha vida. Ela é pura demais e enquanto

eu, estou sujo da cabeça aos pés.

E eu não sei se consigo ficar longe dela, mas preciso tentar.

— O que você fez? — murmura e algumas lágrimas fazem caminho até a

sua boca. — O que você fez com ele?

— Não vai querer saber — é o que digo, sentindo um gosto amargo na

boca.

Ela aponta com o indicador para o terno sujo de sangue e pergunta.

— É sangue dele?

— Você já sabe a resposta — retruco.

Solto um suspiro longo e decido dar o assunto por encerrado, mas quando

tento ir na direção do quarto, Lina me impede.

— Você matou... — a frase dela morre e vê-la chorar por Mason me deixa

furioso. Aquele imbecil estava pronto para matá-la por uma quantia de dinheiro

e ela chorando por ele.

— Não chore por ele, Jolina. Mason não merece as suas lágrimas.

— Eu sei — sussurra. — Mas... Julian, é uma vida. Você acabou com uma

vida — fala meio aturdida, como se finalmente percebesse o peso das palavras.

— Você matou Mason.

Desfaço o nó da gravata e tiro-a do pescoço, de repente, me sinto

sufocado. Só quero parar com essa conversa e tomar um banho.

— Quem você é? Quem você é, Julian? — pergunta ao se aproximar de

mim e me puxar pelo colarinho. — Que merda você é?

— Eu sou alguém com quem você não deve se envolver — retruco, sem

tirar os olhos dela.

Ela me acerta um tapa com força e não parece arrependida de ter feito isso.

É claro que fico irritado, mas não consigo fazer nada, além de continuar com os

olhos fixos nela.

— Você é um assassino! — grita e bate no meu peito com força, chorando.

Seguro Lina pelos pulsos, impedindo de continuar. Os olhos brilhantes me

fitam e eu engulo em seco, me sentindo péssimo. Ela chora e parece tão triste, o

que eu não entendo.

Mason não valia a pena.

Acabo cedendo aos meus instintos e trago Lina contra o peito, enquanto

ela chora e tenta me afastar. Mesmo que ela esteja enfurecida comigo, é bom tê-

la perto, nos meus braços.

O cheiro dela é bom e me faz sentir bem.

Lina se afasta de mim, mordendo o lábio inferior e secando as lágrimas

com as costas das mãos.

— Vou embora.

Assinto, mesmo querendo mantê-la por perto.

Nós nunca vamos dar certo. Lina precisa de um herói e eu sempre serei o

vilão. Minha vida é intensa demais e ela é alguém que merece calmaria. Não

podemos ficar juntos e é melhor cortar o mal pela raiz de uma vez.

— Nicholas vai levá-la em casa.

— Não precisa. O problema foi solucionado, não existe razões para que eu

tenha escolta até em casa — retruca com desdém.

Assinto de novo.

— Fique bem, Jolina Magdayao.

Ela não diz nada, apenas passa por mim e entra no quarto, batendo a porta

com força.

Uma semana depois...

 

 

— Para um homem que está tentando passar despercebido... você está

fazendo um péssimo trabalho — digo ao parar de frente para escada que dá até o

prédio onde moro.

Cruzo os braços, balançando a sacola que trouxe da farmácia e o jantar

congelado que comprei no supermercado da esquina.

Nicholas sai de detrás da árvore e mete as mãos no casaco enquanto

caminha até mim. Pela primeira vez na vida, vejo o homem abrir meio sorriso.

Achei que fosse impossível ele fazer isso. A expressão dele é sempre tão séria,

que cheguei a pensar que os músculos do seu rosto não se mexessem.

— O que aconteceu com seu rosto? — questiona de testa enrugada assim

que os olhos dançam pela minha face. — Quem fez isso?

— Foi um acidente — minto e é claro, ele não acredita, pois arqueia uma

sobrancelha e me encara de forma cética. — Fui assaltada e... — minha frase

morre quando noto que Nicholas ainda não está acreditando. — Parece que

apanhar de homens está no meu sangue — resmungo, carrancuda.

Viro o corpo para começar a subir as escadas, mas sou impedida por

Nicholas.

— Quando isso aconteceu? Estamos de olho em você desde que saiu da

casa do Julian.

— Estão de olho vinte e quatro horas por dia? — zombo e rio, mas o

homem volta a ficar sério de novo. — Antes de ontem. Não foi nada.

— Como assim não foi nada?

Respiro fundo e engulo o caroço na garganta.

— Dois homens me seguiram, estavam atrás de Mason. Fiquei assustada e

acabei usando spray de pimenta em um deles e bem, ele ficou furioso, é claro —

digo a verdade como se não fosse nada.

Não é que eu esteja defendendo o cretino. Na verdade, eu fui à delegacia e

registrei boletim de ocorrência, o que até agora não deu em nada. E nem vai dar

em alguma coisa. Infelizmente, é desse jeito que a merda do mundo é para nós,

mulheres. Quando precisamos de ajuda e procuramos por ela, tentam calar a

nossa voz e fingem que o nosso problema não é importante.

Fico feliz de ter chutado o saco do homem que encostou em mim. Ele

provavelmente ficará estéril. Ruim não será. Um imbecil daquele não merece

colocar crianças no mundo.

— Vou resolver isso — Nicholas diz e eu nego com a cabeça, assustada.

Resolver as coisas no mundo deles é diferente do que resolver as coisas no

meu. Julian me provou isso semana passada e é por isso que preciso me manter

longe dele. É a coisa mais sensata a se fazer.

— Não faça nada, eu já registrei boletim de ocorrência — falo, e ao notar

que ele está abrindo a boca para retrucar, começo a tagarelar. — Por que está me

seguindo?

— Não é óbvio?

Meu coração acelera e eu sinto o rosto esquentar, mas me mantenho firme.

— Óbvio pra quem? — rebato, mesmo sabendo o que ele quis dizer.

— Ele está tentando cuidar de você.

— Julian cuida das pessoas de um jeito bem estranho e sinistro — é o que

falo, fazendo Nicholas assentir. — Diga a ele que estou bem e que dá próxima

vez que eu ver algum de vocês me seguindo, vou usar spray de pimenta e chutar

alguns sacos.

— Jolina...

— Diga a ele, que se continuar mandando homens me seguir, vou chamar

a polícia. Ou melhor, vou voltar pro meu país e ele nunca mais vai saber nada de

mim — falo e só depois noto o absurdo que acabou de sair minha boca.

Primeiro, não vou voltar para Filipinas. Segundo, não acho que Julian vá

se importar de verdade com isso.

— Diga ao mandachuva, que se ele quer saber como eu estou, basta apenas

me seguir no Instagram ou fazer uma conta no Twitter.

— Certo.

— Diga exatamente essas palavras, ok?

Nicholas aperta os lábios em uma linha reta e suspira, desviando os olhos

de mim.

— Vou passar o recado.

— Obrigada. — Sorrio. — Agora, tchau. Preciso comer e dormir, porque

amanhã tenho seminário.

— Ok, boa noite, Jolina.

Começo a subir os degraus da escada e noto que ele não moveu um

músculo sequer. Faço um gesto com a mão para que ele dê o fora e meio

contrariado, o noto indo embora, e eu volto a seguir o meu caminho.

Entro no apartamento e coloco as sacolas em cima do balcão da cozinha,

depois me jogo no sofá, pensando em Julian, aquele idiota engravatado.

Meu coração não devia ficar animado com o fato daquele homem “tentar

cuidar de mim”, eu sei do que ele é capaz e isso me assusta. Mas por que não

consigo me sentir diferente em relação a ele?

Tentei tanto ocupar minha cabeça na última semana, mas aqueles olhos

negros e profundos preenchiam meus pensamentos sempre que possível.

É como aquela música da Taylor...

Julian é como um pesadelo vestido de sonho.

E eu sei que é perigoso me envolver com ele, mas não consigo fazer com

que meus pés me obedeçam e corram para longe.

Hoje foi o dia mais tranquilo que tive em semanas, mas ao entrar na rua

onde moro e ver Julian na calçada, acompanhado de Nicholas e outro homem

que não conheço, sei que a serenidade foi para o ralo.

O homem é um furacão.

Tento não ficar abalada quando nossos olhos se encontram e decido

ignorá-los. Infelizmente, Julian me segue, em silêncio. Abro a porta do

apartamento e sem pedir permissão, ele entra.

Coloco a bolsa com livros no sofá e tiro o casaco, fazendo um esforço

muito grande para não olhá-lo, o que é bem difícil. Julian está lindo e tão

cheiroso, que me dá vontade de afundar nos braços dele e esquecer toda a merda

que o homem fez.

— Ainda brava? — é a primeira coisa que o homem fala.

— O que você quer? — pergunto de uma vez, ignorando as palavras que

saíram da sua boca. — Por que está aqui?

— Você vai voltar para as Filipinas? — é o que ele quer saber.

— Que bom que Nicholas deu o meu recado — rebato, dando alguns

passos para longe quando noto que ele quer se aproximar. — Veio por isso?

— Também.

Com três passos, chego na minha minicozinha e tiro uma garrafinha de

água de dentro da geladeira, desenrosco a tampa e bebo um gole generoso. O

mandachuva me observa com a testa meio enrugada.

— Quem bateu em você, Lina?

Fecho os olhos, suspirando. Pouso a garrafa em cima da mesa e encaro

Julian, balançando a cabeça de um lado para o outro.

— Não se meta nisso, Julian. Eu já resolvi a situação.

Ele contrai a mandíbula, visivelmente chateado.

— Tudo bem, eu posso descobrir de outra forma.

Dito isso, o homem tira o celular de dentro do bolso e digita uma

mensagem para alguém.

Fico irritada.

— Por que você se importa? — retruco, dando a volta no balcão e me

aproximando dele. — Por que fica atrás de mim? Uma hora você age como um

babaca, mata o meu ex-namorado e me expulsa da sua casa, depois coloca os

seus homens atrás de mim? O que você quer, Julian? O que você quer de mim?

— Eu estou tentando manter você segura, Jolina — é só que ele responde.

— Por quê? — questiono, furiosa. Quando noto que ele não vai falar nada,

respiro fundo e passo as mãos entre os cabelos, implorando em silêncio por

paciência. — Não faça nada, Julian. Por favor. Não faça nada.

— Você é bondosa demais, Lina.

Sem aviso prévio, Julian leva uma das mãos até o meu rosto e segura,

fazendo carinho na bochecha com o polegar. E em resposta, é claro, meu coração

dá um salto dentro do peito.

Não deveria aceitar o carinho dele, mas é exatamente isso que eu faço.

Deixo que esse homem intenso, perigoso e sombrio me toque.

— Não é isso — murmuro. — Não mate mais ninguém, Julian — me ouço

pedindo e os olhos dele se prendem aos meus. — Não pode resolver as coisas de

uma forma pacífica? No meu mundo, é assim que as coisas funcionam.

— Não foi assim que eu aprendi a resolver os problemas.

Assinto e seguro a sua mão no meu rosto.

— Mas você pode aprender, Julian. Não é tarde pra isso. Talvez, eu possa

ensinar a você — sussurro.

Julian tira a mão do meu rosto e noto um lampejo de tristeza passar por

seus olhos.

— Esse é o problema, Lina. Você acha que sou um herói, e na verdade, sou

o vilão. Eu sacrificaria o mundo pra salvar você e não o contrário.

— Por que você faria isso por mim? — pergunto, quase gritando. — Não

tem lógica. Nossa relação não tem sentido nenhum, Julian. Por que está atrás de

mim? Por que não me deixou em paz depois de eu ter saído da sua casa?

— Porque eu quero você. Não devia, mas eu quero — fala de um jeito

natural, como se isso fosse tão óbvio ou como se fosse a solução para todos os

problemas ao nosso redor.

Tudo bem, eu acho que quero Julian também. Mas querer um ao outro não

justifica o fato de que ele sacrificará qualquer pessoa para me proteger. A vida

que eu conheço não funciona dessa forma.

Os problemas no meu mundo são resolvidos com diálogos ou polícia.

— Tentei me manter longe, era o certo a se fazer, você é pura demais pra

mim. Jolina. Mas como eu disse, não sou o cara bonzinho, então vou fazer o que

eu quero. E bem, eu quero você.

Minha respiração acelera.

— Não diga coisas desse tipo.

— Por que não?

— Eu acho... que é pura luxúria, Julian — murmuro.

Ele volta a se aproximar de mim, pousando as mãos grandes no meu

pescoço e faz o meu corpo inteiro arrepiar. Minhas vistas caem sobre a sua boca

e eu mordo o lábio inferior, admirando e desejando essa boca diabólica.

— Qual é o problema se for luxúria?

— Eu não nasci pra ser como a sua Bella Thorne e não quero ser só uma foda fixa de um homem bonito e rico. Não preciso disso.

Os lábios do canalha se esticam em um meio sorriso lascivo, que consegue

mexer com as minhas entranhas. Continuo admirando a boca bonita, desejando-a

contra a minha.

Eu devia ligar o foda-se e me entregar à luxúria. Uma noite apenas. Uma

noite de sexo e orgasmos com Julian Lorenzo Carbone deve valer muito a pena.

E bom, nunca tive tanta sorte com o sexo masculino na hora H de qualquer

forma.

Perdi a virgindade com um garoto franzino que sofria de ejaculação

precoce e Tristan não fazia o tipo que estava ali para satisfazer a sua

companheira. E sei que Julian é diferente desde quando o vi entre as pernas

daquela ruiva peituda, chupando-a como se o mundo fosse acabar.

Ele pode fazer isso comigo também.

Não me importaria nenhum um pouco.

— Você quer exclusividade? — é a porra da pergunta que ele faz.

Seus olhos brilham de modo feroz, perverso e sexy. É até difícil pensar

com clareza perto dele.

Coloco as duas mãos sobre o seu peito coberto de tecido caro e o empurro

para trás. Julian dá um passo à frente e eu recuo. Ele insiste e ficamos assim até

encostar o meu cóccix na parede.

Ele me prende.

O corpo firme de Julian roça no meu, me deixando tonta e de respiração

ofegante.

— Você quer exclusividade? — pergunta de novo com os olhos fixos nos

meus lábios.

Deus, se ele se inclinar só um pouquinho, posso ser arrebatada por um

beijo quente e molhado.

— Você não? — rebato ao arquear uma das sobrancelhas. — Porque me

parece que você não faz muito o tipo de homem que quer dividir alguma coisa.

— Não gosto de dividir — sussurra com a voz sensual e dançando com os olhos pelo meu corpo ao mesmo tempo em que passeia com os dedos pelo meu

braço vestido de lã.

— Nem eu.

Julian aproxima o rosto do meu e engulo em seco, ansiando pelo beijo

avassalador que eu sei que ele sabe dar. Arfo em surpresa quando o sinto roçar

de leve os dentes no lóbulo da minha orelha e fico decepcionada quando o

homem se afasta.

— Eu preciso ir, tenho reunião hoje — fala e eu assinto, tentando não

demonstrar o quanto fiquei decepcionada.

— É aniversário da minha irmã no final de semana. Vou pedir pra alguém

vir te buscar.

Levanto as mãos em rendição e faço cara de surpresa.

— Você quer me apresentar a sua família? Eu não sabia que o apreciador

de vaginas Julian Lorenzo Carbone era tão sério — digo ao cruzar os braços na

altura dos seios.

Ele solta uma risada contagiante.

— Você é atrevida, Jolina. É a única pessoa que me desrespeita e me faz

achar isso divertido. Até sexy.

Concordo com um aceno de cabeça.

— É o meu charme. — Sorrio e ele também. — De qualquer forma, não é

melhor levar a sua Bella Thorne?

— Minha mãe não gosta dela.

Reviro os olhos ao ouvir a resposta.

— Então é por isso que quer me levar? Obrigada pelo convite, mas não sei

se quero ir. — Respiro fundo e dou de ombros. — E nada de homens me

seguindo — aviso.

— É algo que eu não posso prometer.

Dito isso, Julian pousa descaradamente uma das mãos na minha cintura e

aperta de leve ao depositar um beijo no canto da minha boca.

— Alguém virá buscar você no sábado — ele fala e em seguida, dá as costas e vai embora.

E eu me jogo no sofá.

Fiquei louca de vez.

Por que não consigo correr para longe dele?

— Você perdeu o juízo? — é a primeira coisa que escuto de Sophia depois

de ter contado sobre a visita de Julian.

É claro que eu não falei sobre o que Julian fez com Mason. Aí sim minha

melhor teria certeza de que meu juízo no está comigo há muito tempo. Por

enquanto, o que ela sabe é que o mandachuva é pobre de rico, intenso e segundo

ela, um sugar daddy em potencial.

— Você gosta dele? — Sophia pergunta enquanto tira o pacote de pipoca

de dentro do micro-ondas.

Estamos fazendo uma noite de meninas, com direito a unhas dos pés

pintadas, massagem capilar e filmes melosos de comédia romântica.

Prenso os lábios, refletindo.

— Atração física, talvez? — arrisco. — O homem é um molhador de

calcinhas.

Sophia faz bico e solta um assobio, me roubando uma risada.

— Jolina Magdayao, você está me saindo uma bela de uma safadinha —

retruca e começa a rir também.

Pego as cervejas de dentro geladeira, abro-as e levo até a mesinha de centro, enquanto ela, o balde cheio de pipoca. Nos acomodamos no sofá e ela

fica me observando de olhos semicerrados ao mesmo tempo em que joga

algumas pipocas dentro da boca.

Sophia é a mulher mais linda que eu conheço. Filha de pai afro-americano

e mãe judia, nasceu na Suíça e veio para o Canadá aos oitos anos de idade. É

dona de uma pele negra de tom quente e de um belo par de olhos verdes

curiosos, que parecem duas esmeraldas grandes.

— Por que tá me olhando assim? — resmungo.

— Meu pai falou sobre os seus machucados na semana passada. Vai

continuar sem me dizer nada?

Ao ouvi-la, levo as mãos até o rosto e lembro que estou usando uma base

de alta cobertura, então, Sophia ainda não viu o meu estado atual.

Respiro fundo e encosto a cabeça nas costas do sofá, olhando o teto e

pensando em como falar para minha melhor amiga o que Tristan/Mason fez duas

semanas atrás. Ela vai ficar muito irritada e com certeza, se Mason ainda

estivesse por aqui, Sophia chutaria a bunda dele.

— Ele me bateu quando eu disse queria terminar — digo de uma vez e

parece que tirei um pouco do peso das minhas costas. — Você sempre teve

razão, Sophia. Aquele cara... ele... ele...

— É um otário filho da puta — me interrompe e eu sorrio. — Quando eu

vir aquele imbecil, vou partir pra cima dele.

— Obrigada.

Sophia coloca o balde de pipoca em cima da mesinha de centro e se inclina

para me abraçar. Sinto os olhos arderem, mas não ouso chorar. Aperto-a contra o

corpo e respiro fundo, grata por ela ser tão compreensiva e ainda por cima,

minha melhor amiga.

— Está proibida de falar o nome daquele boy embuste — ela resmunga.

— Combinado.

Sophia se afasta de mim e me oferece o dedo mindinho, como se fôssemos

duas adolescentes. Rio, mas acabo entrelaçando os nossos dedos. Ela sorri e em seguida, pega as cervejas em cima da mesinha de centro e oferece em um brinde.

— Que o seu sugar daddy não seja um boy embuste também.

— É a isso que você quer brindar? — questiono, batendo minha long neck

na dela.

Sophia dá de ombros e depois bebe um gole generoso de cerveja, e eu faço

o mesmo. Pego o controle da tevê e antes que possa dar play no filme, minha

campainha toca. Levanto e corro até a porta, ao abri-la me deparo com um

homem que eu não sei o nome, mas já vi ao lado de Julian.

— Oi, senhorita Magdayao. — Abre um sorriso cordial e me oferece uma

caixa grande com um laço vermelho e outra média. — Pra você.

— Hãm?

Sophia surge detrás de mim e ao analisar a cena, dá alguns passos para

frente e pega as caixas, arqueando de maneira desconfiada uma sobrancelha

bem-feita para o homem à nossa frente.

— Quem é você? O que isso significa? O que tem dentro dessas caixas?

Quem mandou? — Sophia começa a interrogar o homem, que fica sem jeito.

— Obrigada — é o que digo ao abrir um sorriso amarelo e puxar Sophia

para dentro do apartamento e fechar a porta.

Nos aprumamos no sofá com as caixas entre nós e ela morde o lábio

inferior, enquanto faz um gesto com as mãos, me incentivando a abri-las. Passo

as mãos entre os cabelos e respiro fundo antes de desfazer o laço vermelho e

descobrir o que tem dentro.

— Ai. Meu. Deus — Sophia fala, pausadamente.

Tiro a peça de roupa de dentro da caixa e fico em pé, olhando, abismada.

É um vestido midi, confeccionado em paetê dourado, tem decote degagê,

alças finas com reguladores e costas nuas. É lindo, perfeito, sexy e com certeza

vou ficar gostosa usando o vestido. Com certeza custou uma fortuna.

Quando Julian e eu chegamos na fase de trocar presentes?

Sophia pega o cartão com detalhes prateados que eu nem havia notado na

caixa e começa a ler em voz alta.

— Espero você amanhã. Julian Carbone. — Minha melhor amiga faz bico

e me encara de olhos arregalados. — Como eu disse, um sugar daddy em

potencial. — Revira a caixa menor e encontra um par de sandálias de salto alto

com tiras beges.

— O homem é doido — concluo em voz alta.

— Mas precisamos admitir que tem bom gosto — ela retruca e dá de

ombros, me fazendo rir.

Sento no sofá de novo e coloco o vestido entre nós, com cuidado para não

amassar. Pego o cartão e vejo que foi escrito à mão. Parece que o mandachuva

teve o trabalho de escrever o próprio cartão.

— Isso é demais, não posso aceitar.

— Você devolve depois de usar — Sophia comenta e noto um sorriso

desenhando seu rosto. — Olhe esse vestido, você vai ficar linda pra caralho

usando isso. Não pode desperdiçar uma oportunidade dessas.

Reviro os olhos, mas acabo rindo.

— Sabe o que estou pensando? — pergunto, mordendo o lábio inferior.

Sophia me olha desconfiada.

— Não, o quê?

— Ele me ama, ele me dá todo o seu dinheiro. Aquela Gucci, Prada

confortável, meu papaizinho. Uh ha ha ha ha — cantarolo uma estrofe de

“Sugar Daddy” da Qveen Herby, fazendo minha melhor amiga explodir numa

risada gostosa.

— Ele me ama, ele não coloca ninguém acima de mim. Essas vadias

querem me julgar, mas eu não ligo. Uh ha ha ha ha — ela canta também e

levanta do sofá, me puxando junto e dançando de forma engraçada.

Rindo e dançando com a minha melhor amiga, esqueço por alguns minutos

que aceitar Julian, o homem intenso e de olhos profundos na minha vida pode

fazer o meu mundo girar de cabeça para baixo.

Depois de ter dado um fim a vida de Mason, estranhamente, Giuliano ficou

ao meu lado. Noah não gostou de eu ter agido por contra própria, já o meu pai,

tentou entender o que se passa dentro da minha cabeça.

A família Fontana está quieta e não pareceu se importar com o sumiço de

Mason. Talvez, ele tenha subestimado o seu valor.

Ainda não descobrimos quem está por trás do atentado contra o meu pai, e

nem quem é o tal Capitão que mandou acabar com Lina. O nosso hacker até fez

um dossiê sobre a garota, mas não há nada de errado sobre o passado ou a vida

dela.

Lina é quase uma santa.

Se eu fosse um herói, ficaria longe dela, mas como eu sou o cara mau, eu a

quero e a manterei por perto.

Mandei dar uma lição também nos homens que foram atrás dela e a

machucaram. É lógico que eu queria ter feito bem mais do que apenas quebrar

alguns ossos, mas meu pai ordenou que eu não agisse de maneira impulsiva de

novo.

— Primeiro livros, agora um vestido? — Romie questiona. — Quem é você e o que fez com o meu irmão? — Olha-me de esguelha e eu quase sorrio.

Quando não está bêbada e dando trabalho, minha irmã é adorável.

Romie está agarrada ao meu braço, enquanto caminhamos em uma loja do

Shopping Center. Já que ela me ajudou com os livros, decidi pedi conselhos

sobre que vestido comprar para Lina.

— Como ela é?

— Hum... — murmuro e olho para mim irmã. — Culta, inteligente,

respondona, atrevida e linda.

— Uau... — Romie se solta de mim e leva as duas mãos até a boca,

fingindo estar assustada. — Você está apaixonado? — questiona, me fazendo

girar os olhos.

Abro a boca para responder, quando minha irmã encontra um vestido em

meio aquele monte de tecido com lantejoulas brilhosas e mangas bufantes

exageradas.

— Esse, é lindo. — Romie aponta para o vestido no corpo do manequim.

— O que acha?

Encaro o vestido que ela escolheu e imagino Jolina dentro daquela roupa

discreta, mas sexy e quase sorrio. É perfeito.

— Vou levar esse — murmuro ao beijar o topo da sua cabeça, roubando

um sorriso grande de Romie.

— Agora, precisamos de um sapato — fala e passo uma das mãos na nuca

e massageio, depois concordo com um aceno de cabeça. — Não estava pensando

em sapatos, não é?

Franzo a testa e sou sincero ao negar com a cabeça.

— O que seria de você sem mim? — resmunga e entrelaça a mão na

minha, me puxando para o outro lado da loja.

Estou prestes a colocar a gravata quando alguém bate na porta do quarto e

depois de alguns segundos, entra.

É a mamma.

Ela não consegue esconder o sorriso. Desde que voltamos a morar na

mesma casa, mamãe parece mais feliz que o normal e não faz esforço para

disfarçar. Agora, as coisas estão do jeito que ela sempre quis.

Os filhos morando debaixo do mesmo teto.

Ela vem até mim e pega a gravata das minhas mãos, e sem dizer nada,

passa pelo pescoço e dá um nó perfeito.

— Quem você convidou? — pergunta como quem não quer nada, mas

conheço minha mãe muito bem. Ela quer saber tudo. — Romie contou algo

sobre o vestido.

— Mamma — sussurro, levando as mãos até o seu rosto e segurando. —

Pode tratá-la bem?

Ela enruga o nariz e pisca devagar, respirando fundo logo em seguida.

— Preciso vê-la primeiro. Se for alguém como a aquela ruiva escandalosa, eu sou contra. Não posso aceitar isso.

— Mamma...

— Vou me comportar — é o que diz, fingindo ajeitar o nó da gravata. —

Não se preocupe.

— Obrigado.

— De qualquer forma, não devia ter convidado alguém. — Pousa as mãos

espalmadas sobre o meu peito. — Shalom vem esta noite. Não deveria dar um

pouco de atenção a ela?

Seguro-a pelos pulsos e com delicadeza, afasto-a um pouco de mim,

buscando os seus olhos, que são idênticos aos meus e tento sorrir.

— Eu casarei quando for a hora. No momento, estou feliz de ser solteiro e

continuar curtindo a minha vida. Shalom é perfeita pra ser uma esposa, mas não

pra ser a minha.

Mamãe não fica contente ao me ouvir, mas fica quieta e desvia as vistas.

Solta-se de mim e passa as mãos com delicadezas sobre o vestido brilhante.

Finge um sorriso e suspira.

— Vamos conversar sobre isso outra hora — diz num tom baixo ao levar

uma das mãos até o meu rosto e fazer carinho antes de me deixar sozinho no

quarto.

Observo meu reflexo no espelho e a cabeça começa a traçar planos de

como fazer Shalom não ficar a noite inteira no meu pé. A mulher é determinada

e desde que minha adorável mãe disse para nós dois casarmos, quando estamos

juntos, Shalom adora agir como se fosse minha noiva prometida.

Saio do quarto na mesma hora que Nicholas manda uma mensagem,

avisando que Lina já está a caminho.

— Depois que cresci, eu vi você sorrindo poucas vezes. E hoje, você sorriu

duas vezes — Romie fala, escorada na soleira.

— Você está contando? — retruco.

Ela está linda e meiga, e mesmo assim, parece uma mulher. Nem acredito

que minha irmã cresceu tanto. Ainda lembro quando era pequena e gostava de fazer apresentações de dança para família inteira.

Romie sempre gostou de chamar atenção.

— Pronta? — pergunto ao me aproximar e oferecer um braço a ela. —

Aliás, está linda.

— Que cavalheiro, obrigada. Você também não é de se jogar fora —

retruca, me fazendo balançar a cabeça.

— Gostou do meu presente? — Aponto para o colar de topázio azul

pendurado em seu pescoço.

— Eu amei, é lindo. Obrigada.

Abro meio sorriso e assinto.

Se minha irmã soubesse o verdadeiro significado do colar, com certeza não

estaria usando, mas eu preciso cuidar dela, e o colar é sinônimo de que sempre

saberei onde Romie está.

Minha irmã se enrosca no meu braço e caminhamos rumo às escadas, em

silêncio.

Talvez por ser mais nova e a nossa diferença de idade ser menor, ela

sempre foi muito apegada a mim. Quando ela atingiu aquela idade que adora

problemas, Noah estava ocupado demais com os negócios da família e eu ainda

estava aqui, ao lado dela, tentando me encontrar.

Ao chegarmos no salão principal, Romie faz cara feia. Não posso culpá-la,

deve ser a pior festa de aniversário de todas para uma garota que acabou de

completar vinte e um anos.

Tudo muito sofisticado, música calma rolando de fundo e muita gente

velha, bebendo champanhe e conversando.

— Ai, Deus! Alguém me mata — rosna.

— Você convidou seus amigos? — questiono.

— Mas é claro. E eu preciso trocar essa música ou vou morrer antes de

chegar aos vinte e dois — fala ao se afastar de mim e sumir entre as pessoas.

Um garçom passa por mim, servindo bebida e eu pego uma taça. Antes

que possa levar um gole até a boca, a música é trocada por alguma remixada. Romie grita e vai para o centro do salão, com uma taça de champanhe na não.

— É isso! Vamos agitar o meu aniversário. Nada de desanimo, ok? Quero

todo mundo dançando — grita e começa a mexer o corpo de um jeito exagerado.

— Quando a nossa doce irmãzinha se tornou isso? — Noah pergunta ao

parar ao meu lado.

— Já faz um tempo — é o que digo.

— Pelo menos ela está se divertindo — Haylie fala, e só agora noto que

está enganchada no braço de Noah.

Ela não está com o semblante feliz e nem faz questão de esconder isso. De

repente, Haylie se afasta do meu irmão, pega a minha taça de champanhe que

ainda nem havia tocado e vai para o centro do salão dançar com a minha irmã.

Para uma mulher de poucas palavras, Haylie é bem atrevida.

— Ainda na mesma? — quero saber.

Quase três meses e meio de casados e Noah não consegue fazer com que

Haylie o ame. Ou pelo menos deixe de odiá-lo. Não posso culpá-la por isso. Se

estivesse no lugar dela, agiria do mesmo jeito.

— Ela me odeia.

— Eu percebi — retruco.

— Estou mantendo isso pra deixar a mamãe feliz, mas não sei se consigo

por muito tempo.

Viro o corpo para ele e uno as sobrancelhas.

— Por que aceitou se casar com ela então? Você podia ter dito não — falo

entre os dentes, tentando manter o nível da voz.

Noah contrai a mandíbula e me olha meio cético.

— Eu vou assumir o lugar do nosso pai, precisava mostrar que sou sério. E

que estou pronto pra isso.

— É, irmão. Se é isso que você quer. — Pego outra taça de champanhe

quando garçom passa por perto e bebo tudo de uma vez.

— Você fala como se isso não fosse acontecer com você. — Noah solta

uma risada seca. — Por quanto tempo acha que nossos pais vão deixar você solteiro também? Nossa família se move a tradições. Uma hora mamãe vai fazer

você sossegar o seu pau. Ela sossegou o meu.

Enrugo o nariz.

— Cara, nunca mais fale assim, eu imploro a você.

Ele começa a rir e eu acabo me rendendo e rindo junto do meu irmão.

Embora pareça que estamos sempre a um passo de entrar em discussão,

Noah é um dos meus melhores amigos e eu morreria por ele. E tenho certeza de

que ele faria o mesmo por mim.

Outro garçom passa por nós e eu o paro, pegando duas taças e oferecendo

uma a Noah.

— Quando a sua garota chega? — Noah questiona depois de dar um gole

generoso no champanhe.

— Ela não é minha garota.

Ainda...

Noah dá uma batida forte no meu ombro e faz que sim com a cabeça,

como se soubesse de algo que não sei.

— Eu disse que ela não era alguém pra você, mas mesmo que eu seja o

irmão mais velho e esteja certo, você nunca foi de me ouvir, não é? Sempre

metendo os pés pelas mãos.

Arqueio uma sobrancelha e elevo a taça em um brinde solitário,

concordando.

Noah está certo, eu nunca fui o tipo de homem que segue as regras em

linha reta. Respeito meu irmão, meu pai, a família, mas existem coisas que eu

prefiro fazer do meu jeito. Mesmo que seja quase sempre de um jeito distorcido.

Depois de algumas taças de champanhe, ainda não me sinto bêbado ou

pelo menos um pouco bêbado para continuar vendo minha irmã rebolando a

bunda com as amigas no centro do salão.

Minha mãe parece horrorizada, mas decidiu deixar Romie se divertir. É

aniversário da caçula, afinal.

Estou pedindo para que o garçom me traga uísque, quando a vejo no hall de entrada com Nicholas. A atenção de Lina está no piano e ela pergunta algo ao

meu amigo, que responde e a faz revirar os olhos, depois rir.

Lina envolve o braço em Nicholas para entrar no salão e isso me deixa

com um estranho gosto amargo na boca, que esqueço no exato momento em que

os lábios dela se curvam em um pequeno sorriso quando encontram os meus

olhos.

Os cabelos estão soltos e lisos, a boca está pintada de vermelho e os cílios

mais volumosos do que eu me lembrava. O vestido ficou perfeito no corpo de

Lina. Parece que foi feito especialmente para ela.

Sorrio.

Jolina está linda e muito sexy.

O pensamento de que tenho que fazê-la ser minha ecoa dentro da cabeça

como um mantra.

— Obrigado, Nicholas — digo e meu amigo se desvencilha dela e depois

de assentir, se afasta de nós. — Você está linda, Jolina.

— Obrigada — ela murmura. — Não precisava do vestido, mas eu adorei.

Acho que caiu bem em mim. Obrigada, de novo.

Como em modo automático, meus olhos dançam pelo corpo dela. Caiu

bem? Para mim, está perfeito. Tão perfeito que tenho vontade de descer o zíper

da lateral e investigar o que ela está usando por baixo.

— Pare de me olhar assim — Lina retruca.

Levanto uma sobrancelha, intrigado.

— Assim como?

— Como se você fosse um cachorro faminto e eu, um pedaço de carne

suculento e gostoso.

Não consigo impedir meus lábios de se transforarem um sorriso.

Por alguma razão inexplicável, eu adoro essa boca atrevida dela. Ainda

continuo achando que Jolina vai me causar problemas e ser minha ruína, mas

não consigo parar de desejá-la.

— Você cresceu aqui? — pergunta, de repente. Assinto em resposta, sem conseguir desviar a atenção de Lina. — É uma bela casa... — Balança a cabeça

de um lado para o outro. — Casa não, está mais para um palácio — emenda num

tom divertido.

— Mamãe sempre gostou de espaço e uma casa grande assim era a

desculpa perfeita para morar com os filhos, mesmo depois de casados.

Lina arregala os olhos e abre a boca, enquanto pisca devagar e anui.

— Deve ser uma mãe superprotetora — é o que comenta.

— Sim e muito.

Ela vira o corpo inteiro para mim e morde o lábio inferior de leve ao

estreitar os olhos. Parece uma garota travessa pronta para criar confusão.

— Ela é tão mandona como você?

Toco o braço de Lina com delicadeza e ao sentir meu toque, um gemido

baixo escapa dos seus lábios salientes pintados de vermelho. Abro meio sorriso e

subo com a mão até o seu ombro nu, afasto um pouco o cabelo e de propósito,

aproximo meu rosto da orelha da garota e sussurro:

— Você não imagina o quanto.

Noto a sua respiração ofegante e o momento em que ela engole em seco.

No entanto, Lina é uma garota forte e se recompõe rápido. Pronta para atacar ou

falar algo petulante para mim, é interrompida quando Romie se aproxima de nós.

— Então, você é a Jolina Magdayao — minha irmã diz com um leve

entusiasmo na voz e examinando Lina dos pés à cabeça. — A nova namorada do

meu irmão — dispara com a língua meio enrolada.

Ainda estamos no começo da sua festa de aniversário e Romie já está meio

bêbada.

Pelo visto, a noite será longa.

Analiso a minha imagem no espelho de corpo inteiro e dou um suspiro

inseguro. Estou linda, mas mesmo assim, não sei se é uma boa ideia ir. Talvez

não seja, no entanto, não acho que posso recuar, porque alguém acabou de bater

na porta e com certeza é a minha carona.

Ao abri-la, dou de cara com Nicholas, usando terno preto e com uma das

mãos dentro da calça social. O homem não é de sorrir muito e parece sempre

estar com uma cara carrancuda, mas tenho que admitir, ele é bem lindo.

— Não sabia que você era motorista também — falo, e milagrosamente,

Nicholas abre meio sorriso convencido.

— Ele não deixaria qualquer pessoa vir buscar você — articula, ainda

pairando na porta. — E eu não sou o motorista.

Solto um suspiro e assinto, reprimindo um riso.

— Ok, eu entendi. Vou buscar minha bolsa, um minuto — digo, deixando

a porta aberta e pegando a pequena bolsa cheia de strass brilhante que Sophia

me emprestou.

Mesmo que eu tenha achado exagero no começo, foi bom Julian ter

mandado um vestido e sapatos, caso contrário, eu poderia aparecer no

aniversário da irmã dele de calça jeans e mochila.

Quando você é uma universitária, morando sozinha em outro país, sem a

ajuda dos pais, dividindo o tempo entre a faculdade, trabalho e pagar aluguel,

não sobra muito dinheiro para comprar vestidos refinados e nem tempo de sobra

para frequentar lugares que precisam de vestidos desse tipo.

— Você está linda, Jolina — Nicholas diz quando saio do apartamento e

tranco a porta. Sorrio e agradeço com um sussurro, e sem pedir permissão, me

engancho no braço dele, porque preciso de apoio. Eu sei andar de salto alto, mas

esse é alto pra caralho e ainda não me acostumei. — Pronta?

— Não exatamente, mas vamos — balbucio, fazendo ele ri.

— Você sabe rir. Legal — zombo.

Nicholas me guia até o carro em frente ao prédio que eu moro e como um

verdadeiro cavalheiro, abre a porta do banco detrás e em seguida, se acomoda ao

meu lado e pede para o motorista seguir em frente.

Ainda em silêncio, ele pega o celular e os dedos ágeis digitam uma

mensagem para alguém.

— Avisando o mandachuva que estamos indo?

— Ele sabe que você o chama assim? — rebate.

Passo as mãos nos cabelos e busco na memória se já o chamei assim cara a

cara, mas acho que não. Então, minha resposta é um dar de ombros, nós dois

rimos.

— Me fale sobre a família dele — me ouço dizendo. Noto uma linha entre

as duas sobrancelhas e a boca um pouco torcida. Nicholas parece confuso. —

Preciso saber de algo. Não me jogue aos leões de qualquer jeito.

Ele dá uma risadinha seca, mas concorda com um aceno de cabeça.

— Bem, Romie é a irmã mais nova. Ela é bem louquinha e às vezes, a

língua não tem freio — começa a falar e eu fico atenta a cada palavra que sai da

boca de Nicholas ao mesmo tempo em que tento fazer uma nota mental. — A

senhora Carlota é uma supermãe e um pouco ciumenta, mas é uma pessoa

incrível.

Nicholas fala da família de Julian com um certo carinho, o que me deixa curiosa. Eu sei que ele é próximo do mandachuva, mas próximo como? O que

eles são de verdade? Amigos? Melhores amigos? Foram criados juntos?

— Como conheceu Julian? — quero saber.

Ele estreita os olhos e fica pensativo, como se estivesse tentando decidir se

me fala ou não.

— Julian me acolheu num momento difícil da minha vida e a família dele

cuidou de mim, por isso, devo muito a eles.

— Hum... você tem família também?

Nicholas assente.

— Moram em Toronto.

— Ah... sorte sua, eles moram perto. Apenas o oceano pacífico me separa

da minha família — brinco.

Nicholas olha a avenida noturna e movimentada através da janela de vidro

do carro e suspira.

— Às vezes, eu acho que um oceano pacífico me separa da minha família

também — sussurra, triste e eu fico me perguntando se devo aprofundar a nossa

conversa ou parar por aqui mesmo.

Não é como fôssemos amigos e bem, acho que é a conversa mais profunda

que tivemos desde que nos conhecemos.

Quase quinze minutos mais tarde, chegamos à casa da família de Julian.

Engulo o caroço na garganta e devagar, levo ar aos pulmões.

O lugar é de alto padrão e parece gigante. Há duas esculturas de leões

feitas em mármore na entrada da casa, e outra escultura gigante no gramado, mas

não consigo identificar o que é ou o que significa.

— Meu Deus, estou mesmo indo para a cova dos leões — zombo quando

Nicholas para ao meu lado.

— Não exagere — retruca, me roubando um leve riso.

Ele faz um gesto para que eu entre primeiro e quando paro no hall de

entrada imenso e luxuoso, meus olhos pairam sobre o piano aberto e preto

reluzente.

— Quem toca piano na família? — pergunto quando o sinto atrás de mim.

— Julian... pelo menos ele tocava — responde ao parar ao meu lado mais

uma vez e enfiar as mãos dentro dos bolsos.

Reviro os olhos.

É claro, o que esse homem não faz?

Rio sozinha.

Precisando de coragem para continuar entrando na casa, onde surpreendente rola uma música pop, entrelaço meu braço no de Nicholas para

continuar colocando um pé na frente do outro.

De repente, meu estômago está revirando e por alguns segundos de

insegurança, me sinto incapaz de continuar caminhando, mas o sentimento vai

embora quando eu encontro os olhos negros e profundos de Julian luzindo para

mim.

Abro um pequeno sorriso e me sinto confiante de novo.

O que só dura uns dez minutos mais ou menos. Primeiro, porque Julian

adora provocar e isso consegue mexer com as minhas entranhas. Segundo, a

irmã dele é bem amalucada mesmo.

Sinto as bochechas formigarem quando ela diz que sou “a nova namorada

do seu irmão”.

— Na verdade, não sou namorada dele — falo, mas ela nem ouve e Julian

tem os olhos em cima de mim, como quem quer decifrar um código difícil. —

Apenas, amiga.

— Hum, interessante. — Ela sorri, me encarando com as pupilas dilatadas.

Essa garota já está bem animadinha e sem dúvida, fazendo as coisas

acontecerem na sua festa de aniversário. — Sou Romie Carbone.

Dito isso, de modo inesperado, joga os braços no meu pescoço e cobre o

meu corpo com o seu para um abraço de urso.

— Ah, feliz aniversário, Romie.

— Obrigada.

Ela me solta e eu sorrio, sem jeito.

Depois de Sophia, ela é a pessoa mais espontânea que conheço desde que

comecei morar aqui. Romie é intensa, mas acho que podemos nos dar bem. A

garota parecer ser o tipo de amiga que adora entrar em confusões e que está

sempre pronta para ouvir desabafos de alguém quando é preciso.

— Mamma, aqui, venha — Romie articula e levanta a mão e faz um gesto

para que se aproxime. Respiro fundo e arrisco uma olhadela para atrás no exato

momento em que a mãe de Julian está a três passos de distância. — Essa é a garota do vestido — contesta, e eu enrugo as sobrancelhas, encarando Julian,

mas ele não diz nada.

A mãe dos meninos é linda, está com tudo em cima e poucas rugas no

rosto. Não tem um fio branco em cima da cabeça e parece o tipo de mulher que

gosta de uma academia e odeia glúten.

Nem de longe parece com uma mulher que tem três filhos adultos.

Uau. Estou impressionada.

Julian toca meu cotovelo de novo e eu tento ignorar o pequeno choque que

passa por mim.

— Lina, essa é minha mãe, Carlota — o homem fala com uma certa leveza

na voz. — E mamma, essa é Lina.

É claro que a mãe deles me analisa dos pés à cabeça e por conta da

ansiedade, eu sinto meu coração bater alto dentro do peito. Nunca conheci a mãe

de Tristan/Mason e a mãe do garoto franzino da minha adolescência me odiava.

Então... digamos que sogra ainda é um assunto novo para mim.

O quê? Sogra? Ai Jesus, já estou delirando e ainda não tomei nenhuma

taça de champanhe.

— É um prazer conhecê-la, querida — diz com tanta suavidade, que

tranquiliza meu coração. — Você é linda.

— Ah, obrigada, a senhora também — balbucio.

Ela ri.

— Obrigada. — Olha de mim para Julian. — Você é nova — acrescenta

num sussurro.

— Sim, mais ou menos. Sou universitária.

— Ah, universitária? Onde você estuda? — questiona com uma

sobrancelha levemente erguida.

— Na universidade de Montreal — respondo e abro um sorriso tímido.

A mãe de Julian abre a boca para continuar com o interrogatório, quando o

filho a impede de continuar.

— Mamma, por favor, ela é minha convidada — é o que diz, fazendo-a assentir a contragosto, mas sorrir para mim antes de se afastar.

Não sei se ela gostou de mim ou não, mas dou uma respirada funda, me

sentindo quase aliviada, o que não dura muito tempo, pois Romie me puxa para

o centro do salão para me apresentar às amigas.

Mesmo que Julian tenha tentado interceptar a irmã mais nova, não

conseguiu. E aqui estou, no meio de outras garotas mais novas que eu, e a esposa

de Noah, que está com expressão de quem comeu algo e não gostou.

O garçom passa oferecendo champanhe e eu pego uma taça, tomo um gole

generoso e tento manter uma conversa civilizada com as garotas. Não são todas

iguais a Romie, algumas são tímidas e já estão na faculdade, outras não tem

pretensão de estudar, porque os pais são ricos e amam virar a noite na balada.

— Como conheceu Julian? — Natalie, a amiga loira e de olhos azuis, filha

de pais ricos e que por enquanto, não tem pretensão de cursar uma faculdade,

pergunta.

Ela tem vinte anos, mas aparenta ser bem mais velha que eu, e não duvido

nada que tenha muito mais experiência com sexo oposto.

— Por causa dele fui atropelada por uma moto — falo e lanço um olhar

por cima do ombro para Julian, que também tem os olhos predadores em cima de

mim.

— Eu não sabia dessa — Romie comenta com um sorriso cínico

desenhado no rosto. — Ele é um pé no saco, mas é gato, não é? — pergunta,

curiosa.

Engasgo com o champanhe e não arrisco responder. Já as amigas delas, até

mesmo as tímidas, se perdem em risinhos e sussurros de como os irmãos de

Romie são lindos. Reviro os olhos, no entanto, continuo quieta.

Pego outra taça de champanhe quando o garçom se aproxima e antes que

consiga tomar um gole generoso, Romie me puxa para o centro do salão e

começa a dançar ao som de uma música pop.

Mesmo que sejamos as únicas no centro do salão e os outros convidados

tenham a atenção em cima de nós, inclusive Julian, eu acabo cedendo e dançando com as meninas depois de beber todo o líquido da taça.

Não faço o tipo de garota que vive na balada, mas sempre que queria

espairecer, aceitava os convites das meninas da faculdade que curtiam uma noite

agitada com dança e shots de bebidas.

Não estamos nem na metade da música, quando Romie dá uma estagnada

e arregala os olhos claros, pasma. Alterna as vistas de mim para algo acima do

meu ombro, me fazendo ficar curiosa e virar a cabeça para saber o que está

acontecendo.

Deparo-me com uma mulher magra, esguia, de pele clara e cabelo muito

preto agarrada ao braço de Julia, enquanto ri de algo. Ela é linda, parece uma

modelo e é tão delicada, que parece flutuar sobre os saltos altos.

— Quem é ela? — pergunto à Romie, que prensa os lábios e hesita em

responder. — Me diga — insisto.

Ela engole em seco e pisca devagar antes de falar.

— Ela é meio que a noiva de Julian.

Engasgo com saliva e a garota segura minha mão, perguntando se estou

bem.

— Noiva?

— É uma história complicada, não se preocupe — tenta explicar a

situação, mas só me faz ficar mais irritada com Julian. — No momento certo, ele

vai te contar tudo.

— No momento certo? — disparo, irritada. — Ele é um cretino —

resmungo e estou me preparando para ir embora, quando Romie segura meu

pulso e me impede de dar um passo para frente.

Abro a boca para protestar, mas sou interrompida quando ela me arrasta

até o casal de noivos.

— O que você tá fazendo? — pergunto, porém, ela não me responde.

— Shalom... — Romie não faz questão de esconder o desdém na voz. —

Quem te convidou pra minha festa de aniversário? — ela fala com um tom

inequívoco de rispidez em sua voz.

Julian me olha de maneira enigmática e noto que tem o maxilar cerrado, já

eu, o encaro com tanta raiva, que poderia transformá-lo em pó.

— Essa é a amiga do Julian, Jolina — Romie me apresenta, cortando algo

que essa tal de Shalom estava tagarelando.

Devagar, os olhos azuis da noiva do mandachuva varrem o meu corpo e

um sorriso cético toma conta dos lábios dela pintados com batom rosa claro. E

por fim, ela sai de cima de Julian e estende a mão para mim.

— Sou Shalom Bellini, a noiva de Julian.

— Shalom, você não é...

— Jolina Magdayao — interrompo Julian e observo a mão de Shalom

estendida, ponderando se devo ou não cumprimentá-la, mas pego e dou um

aperto firme. — Prazer em conhecê-la. — Finjo um sorriso e lanço uma olhadela

mortífera para o mandachuva.

— Como vocês se conheceram? — é o que a noiva pergunta.

— Essa história é interessante — começo e noto Julian ainda de maxilar

contraído. — Por causa dele, fui atropelada por uma moto.

— Uau — é o que Shalom diz e Romie tenta reprimir um riso.

— E adivinha o que aconteceu depois? — indago à noiva, que sacode a

cabeça de leve, negando. — Ele se tornou o meu sugar daddy — é lógico que

me arrependo das palavras no segundo depois de dizê-las em voz alta.

Tô ferrada!

Romie explode em uma gargalhada e Shalom parece abismada.

Sem dizer nada, Julian irrompe a nossa distância e toca meu cotovelo, me

conduzindo para algum cômodo da casa.

— Não toque em mim — rosno, mas o cretino só tira a mão quando

paramos em uma imensa sala de decoração exagerada, mesa grande com vários

petiscos servidos de forma elegante.

Ele faz um sinal com a cabeça e o garçom que estava montando uma

bandeja, assente e sai da sala de jantar, fechando a porta.

— Onde está Nicholas? Quero ir embora — é o que falo.

— Ela não é minha noiva.

— Foi um erro ter vindo aqui. Eu deveria ter escutado os meus instintos e

ficado longe de você — resmungo.

Pela primeira, vejo o homem com um olhar quase desesperado. Sem aviso

prévio, ele corta a nossa distância com alguns passos e segura meu rosto com as

duas mãos, fazendo minha respiração ficar ofegante.

É difícil, no entanto, consigo ser forte para afastá-lo.

— Você tem noiva, Julian — retruco. — Eu sei que sou só mais uma

conquista pra você, mas eu tenho sentimentos. Não pode brincar com as pessoas

desse jeito.

— Me escute...

— Não — interrompo. — Não quero ouvir mentiras. — Fecho os olhos

com força. — Que droga! Nós ainda nem nos beijamos e estamos tendo uma

briga de casal. Meu Deus, é demais pra mim — murmuro a última frase e me

dou conta de algo. — Você já tem uma amante e queria outra? Você é um

cafajeste de carteirinha.

— Você não vai me deixar falar, não é?

Nossos olhos se prendem por uma fração de segundos, mas eu desvio.

— Não. Chame o Nicholas, quero ir embora.

— Ela não é minha noiva — fala e eu finjo não prestar atenção nele,

focando as vistas na mesa cheia de comida. — Minha mãe quer que eu me case

com ela, mas nunca nem sai com Shalom — continua e a única coisa que faço é

encher a minha boca de um mini sanduiche gourmet com salmão defumado

acompanhado de um recheio cremoso.

Manter minha boca ocupada é a melhor coisa que posso fazer no

momento. Isso vai me impedir de xingá-lo e perder a paciência com esse

cachorro. Oh Deus! O homem nem merece ser chamado de cachorro.

Sinto que todos os cachorrinhos do planeta terra estão ofendidos no

momento.

O que Julian quer comigo, afinal? Que eu faça parte do seu harém? Mesmo que ele seja gostoso pra cacete, não vou me submeter a isso. De qualquer forma,

ele já tem aquela Bella Thorne, ela pode chupar o pau dele quando o homem

estiver entediado.

Quantas mulheres ele tem no momento? Sacudo a cabeça, espantando o

pensamento. Não quero saber. Não quero saber mais nada desse cretino. Vou

embora e nunca mais quero olhar na cara dele.

— Você pode parar de comer? — pede e eu percebo que estou com a boca

cheia. Faço um esforço para engolir e solto um suspiro, depois nego com a

cabeça. — Por que não?

— Vai me impedir de começar a te xingar — falo, colocando outro mini

sanduíche gourmet na boca.

— Eu não vou casar com ela, Lina.

Assinto, pegando um guardanapo para limpar a boca e percebo a merda

que eu fiz. Acabei de borrar todo o meu batom vermelho. Devo estar parecendo

uma palhaça. A noite não podia ser melhor.

— Meu batom tá borrado?

Ele ri.

— Sim, muito.

Julian volta a se aproximar, apanha outro guardanapo de pano em cima da

mesa e toca meu queixo com as pontas dos dedos, levando ondas de arrepios por

todo o meu corpo.

Com delicadeza, ele começa a limpar o meu rosto. Não consigo me

impedir de ficar contemplando a face dele, que é tão linda e sexy.

Ok, acho que o champanhe já começou a fazer efeito.

— Ela não é minha noiva — murmura e por alguns segundos, prende seus

olhos negros e profundos aos meus. — Minha mãe espera que eu case com ela,

mas já deixei claro que vou escolher minha futura esposa.

— Quem me garante que não está mentindo?

— Eu não estou. Posso ser muitas coisas, Lina, mas não sou um mentiroso

— ele diz, sério.

Mordo o lábio inferior e a atenção dele cai sobre a minha boca.

— Terminou? — quero saber.

— Sim — responde, mas não tira os dedos do meu queixo. Em vez disso,

ele se aproxima de mim, pressionando o corpo quente contra o meu num esforço

para chegar mais perto.

Meu coração bate alto dentro do peito.

Sinto a respiração quente dele sobre o meu rosto e não consigo pensar com

clareza.

Recuo um pouco, a fim de espaço, no entanto, não adianta de nada, pois

logo Julian está com o corpo colado ao meu de novo. Mesmo usando salto alto,

ele ainda é bem mais alto que eu, então tenho que manter minha cabeça

inclinada para encará-lo.

Arfo em surpresa quando ele pousa as mãos na minha cintura e me coloca

em cima de uma espécie de aparador de vidro. As mãos salientes sobem um

pouco o meu vestido até as coxas e eu prendo a respiração por um longo

segundo.

— O que você está fazendo, Julian?

— Você sabe perfeitamente o que estou fazendo, Jolina — sussurra, me

fazendo sentir o seu hálito morno e a voz que soa como sexo úmido em meu

ouvido.

As mãos pousam nos meus braços e vão subindo até os ombros, me

arrepiando e fazendo meu coração acelerar mais ainda. Julian segura meu rosto,

os dedos tocando o limite do maxilar, e sem pedir permissão, ele me beija.

Quando os seus lábios quentes encostam nos meus, abro a boca, recebendo

a língua sem resistência e me entregando ao beijo molhado, sedento. Subo com

as mãos até a nuca de Julian e afundo em seus cabelos, e o puxo para mais perto,

querendo mais dele.

Ele chupa e mordisca meu lábio inferior, depois volta a enroscar nossas

línguas e eu sinto o meio entre as minhas pernas latejar. Quando meus dedos

puxam o seu cabelo, Julian solta um gemido contra a minha boca.

E eu sei que agora, o meu mundo é sentir esse homem maravilhoso em

meus braços e presos entre as minhas pernas.

A boca dele me guia numa dança sensual, precisa e necessitada. Nossas

línguas, lábios e dentes se impactando, explodindo e sucumbindo ao intenso

desejo que existe entre nós.

Sugo o seu lábio inferior entre os dentes e lanço a língua para dentro da

boca de Julian de novo, o puxando contra o meu corpo em chamas. Estremeço

quando sinto suas mãos descerem até a minha bunda e me apertarem com

vontade, me fazendo arfar de desejo na sua boca.

Julian se afasta de mim, apenas o suficiente para passear com a língua

sobre a pele sensível do meu pescoço e depois mordiscar. De olhos fechados,

jogo a cabeça para trás, permitindo que a boca dele me explore.

As mãos salientes dele se movem ávidas pelas minhas costas, lombar e

chegam na bunda de novo, me apertando e provocando sensações deliciosas nas

minhas entranhas. Puxo Julian para mais perto, encostando meus seios

desprovidos de sutiã contra o seu peito.

— Julian, você... — Romie abre a porta, paralisando o nosso ato

animalesco. — Ah, desculpa, não queria interromper. — Fecha a porta de novo e

nos deixa a sós.

Sinto as bochechas queimarem de vergonha.

Surpreendo-me ao senti-lo depositar um beijo na minha bochecha e me

ajudar a descer do aparador de vidro. Levanto os olhos para encará-lo e rio baixo

quando noto que a boca dele está toda manchada de batom.

— O que foi?

— Sua boca, está toda suja de batom.

Ele sorri e pega um guardanapo para limpar a própria boca, e eu acabo

fazendo o mesmo com a minha, mas sou interrompida quando sinto uma fincada

forte no estômago, que me faz contrair o corpo.

— Você está bem, Lina?

— Eu... não sei — murmuro e me apoio em Julian para conseguir ficar de pé, mas a dor abdominal aumenta.

Algo estala dentro de mim e eu rezo em silêncio para que não seja o que

estou pensando. Meu Deus, por favor. Não. Isso não.

— Está ficando pálida — diz ele, preocupado e eu fecho os olhos por uma

fração se segundos, morrendo de vergonha.

— Qual a possibilidade de ter algo derivado de lactose nos sanduíches que

eu comi? — pergunto o óbvio, retraindo o corpo de dor.

— Tem intolerância à lactose? — ele quer saber.

Apenas assinto, sem ter forças ou coragem de dizer as palavras em voz

alta. Quantos desses malditos sanduíches eu comi? Não lembro, mas sei que

foram muitos. Droga. Estou perdida.

— Você precisa ir ao médico.

— Não exagere, eu preciso de um banheiro — resmungo. Ai Deus! Não

acredito que acabei de falar isso em voz alta. — Preciso ir pra casa, Julian.

Agora!

— Não prefere ficar até melhorar?

Fico horrorizada com a proposta e nego com a cabeça. Levo ar até os

pulmões e fico de pé. Pelo que me conheço tenho uns quinze minutos até o meu

corpo começar a desmoronar.

— Eu preciso ir, de verdade. Agora.

Julian assente, sério, como se a sua missão de vida fosse me levar até em

casa. Ótimo! Preciso mesmo que ele se doe de corpo e alma e me tire daqui o

mais rápido possível.

Fico surpresa quando o sinto entrelaçar uma mão na minha cintura, mas

não consigo dizer nada, já que a minha barriga começa a fazer barulho, avisando

que está acontecendo uma bagunça lá dentro.

Preciso chegar em casa e tentar salvar a minha dignidade.

Duas horas e meia mais tarde, eu sentia que tinha perdido vários quilos.

Tomo um banho quentinho e coloco moletom. Antes de sair do quarto, faço uma

oração silenciosa para Deus ter feito Julian ir embora.

O homem veio me deixar em casa e entrou, eu o mandei ir, mas ele ficou

preocupado comigo e sentou a bunda no sofá. Lembro de ter gritado do quarto

duas vezes, exigindo que ele me deixasse sozinha, mas Julian não me parece o

homem que segue ordens com facilidade.

Respiro fundo quando o vejo sentado no sofá, mexendo no celular. Mordo

o lábio inferior e tomo coragem de avançar para o meio da sala e me acomodar

ao seu lado no móvel.

— Você está bem?

Não consigo olhá-lo nos olhos, então encaro o tapete felpudo no chão,

concordo com um aceno de cabeça, prensando os lábios.

Julian não é idiota, ele sabe muito bem o que aconteceu comigo durante

aquelas duas horas e meia dentro do banheiro. Ai, Deus! Vou morrer de

vergonha. Por que o homem não foi embora? Me pouparia do constrangimento.

Seria tão mais fácil e eu poderia fingir que nada disso aconteceu.

— Não precisa ficar com vergonha de mim, Lina — ele diz e finalmente,

tomo coragem de olhar em seus olhos.

— Por que não?

Ele tem um sorriso doce nos lábios, o que consegue mexer com o meu

coração tolo. Não é sempre que Julian é tão amável e isso ainda vai acabar

fodendo a minha pobre cabeça.

— Confie em mim.

— Eu pedi pra você ir embora — é o que falo.

— Não podia te deixar sozinha.

Repouso a cabeça no encosto do sofá e fecho os olhos por uma fração de

segundos, tentando encontrar a minha dignidade.

— Eu estraguei a noite — falo ao abrir as pestanas devagar e encará-lo,

mas me dou conta de que é tudo culpa é dele. — Na verdade, a culpa é sua.

Shalom foi uma surpresa pra mim.

— Sugar daddy, hein? — retruca, me roubando uma gargalha.

— Sophia disse que você é um sugar daddy em potencial.

— Não quero ser o seu sugar daddy, Lina.

Giro os olhos e dou de leve com os ombros.

— Então, você quer ser o quê? — questiono, focalizando aqueles olhos

profundos e sentindo o coração acelerar de novo. — Estou cansada, preciso

dormir — murmuro quando percebo o clima ficar intenso entre nós.

Julian assente e fica de pé, e eu faço o mesmo. Ele rompe a nossa distância

com um passo e as costas dos dedos dele tocam o meu rosto, me fazendo fechar

os olhos por alguns breves segundos.

— Durma bem.

— Obriga... — sou interrompida com beijo delicioso e suculento de Julian,

que consegue me deixar sem ar e com o coração batendo a mil por hora.

Ao afastar o rosto de mim, noto que está com um sorriso insolente nos

lábios, que eu já tanto adoro. Então, eu o puxo pela gravata e volto a beijá-lo, me

deliciando com a sensação da língua dele dentro da minha boca.

— Boa noite, Lina — ele sussurra contra os meus lábios, enviando ondas

de calor para todo o meu corpo e arrepiando minha espinha. — Fique bem. —

Deposita um beijo na minha testa e vai embora.

Suspiro e me jogo no sofá, sorrindo que nem uma idiota.

No domingo pela manhã, sou acordada com batidas insistentes na porta.

Antes de levantar, confiro a hora no relógio em cima da cômoda e vejo que são

quase dez horas.

Arrasto os pés até a porta e quando abro, dou de cara com Sophia, em

lágrimas.

— O que aconteceu? — pergunto, enquanto a puxo para dentro do

apartamento e noto que está carregando uma mala. — Você vai viajar?

Fungando, ela faz que não com a cabeça.

— Vou passar uns dias aqui — fala de forma sucinta e embora fique

surpresa, concordo com um aceno de cabeça. — Briguei com o meu pai. —

Conduz a mala de rodinhas até perto do sofá e senta, limpando os olhos com as

costas das mãos.

Acomodo-me ao seu lado.

— Por quê?

— Minha mãe entrou em contato três meses atrás e ele escondeu de mim

— murmura, voltando a chorar. — Lina, eu sei que meu pai é incrível, mas não sou mais criança. E mesmo que minha mãe tenha abandonado a gente, eu quero

vê-la pessoalmente e entender o motivo que a fez ir embora. E... eu... eu... queria

conhecê-la, mesmo que eu a odeie, eu queria conhecê-la e ele me impediu disso.

Passo as mãos nos seus cabelos longos ondulados e tento de alguma forma,

confortá-la. Família é complicado, eu sei bem. E embora eu a entenda e ela

esteja certa em ficar tão chateada, não posso deixar de tentar fazer Sophia

entender que o pai dela só está preocupado.

— Ele não fez por mal, Sophia. O Sr. Canning te ama tanto, que meteu os

pés pelas mãos. Não fique brava com ele por muito tempo, tá certo? — Seguro

uma das suas mãos entre as minhas e sorrio. — Se quer mesmo encontrar a sua

mãe, podemos tentar procurá-la, ok?

Sophia me encara através do véu de lágrimas e cílios úmidos, e joga os

braços contra o meu pescoço, me envolvendo em um abraço apertado e fica em

silêncio. Aperto-a contra meu corpo e respiro fundo, feliz de termos uma à outra.

— Obrigada, mas ainda vou ficar uns dias aqui, eu preciso ficar longe do

meu pai por pelo menos uma semana — fala, e nós duas rimos. — Você é

incrível, Lina.

Nego com a cabeça.

— Não sou. — Suspiro. — Não tenho juízo nenhum na cabeça —

acrescento e fico de pé, caminhando até a cozinha com a intenção de preparar

café quentinho.

Sophia vira o rosto para mim e fica me analisando do sofá.

— O que aconteceu? Como foi ontem?

— Um verdadeiro desastre.

Ela arregala os olhos vermelhos, parece surpresa.

— O que deu errado?

Apoio os braços no balcão e deixo escapar um suspiro de chateação.

— Primeiro, Julian meio que tem uma pretendente, segundo, nós nos

beijamos, terceiro, tive que voltar correndo porque eu comi o que não devia e

estava com dor de barriga.

Minha amiga leva as mãos até a boca para esconder o grande O que seus

lábios estão fazendo.

— Isso é pior que um desastre.

— Eu sei.

Ela sacode a cabeça de um lado para o outro, fazendo as madeixas

balançarem e parece com alguém que está tentando organizar os pensamentos.

— Vamos por partes. Como assim, pretendente?

Levo o dedo indicador e médio de cada mão até a têmpora e faço uma

breve massagem.

Eu não sou tão ingênua assim. Existem coisas sobre Julian que eu não sei,

mas existem também aquelas coisas que finjo não saber. Nós nos conhecemos de

um jeito estranho. Fui levada contra à minha vontade para um escritório

subterrâneo muito estranho como suspeita de um roubo de cachorro de raça.

Depois, o homem apareceu armado, não importa se ela estava descarregada, era

a porra de uma arma. E não podemos esquecer que ele deu um fim a vida do meu

ex-namorado e que há homens vestindo preto dispostos a fazer tudo por ele.

É claro que Julian deve fazer parte de algum negócio fora da lei ou uma

organização criminosa. Agora, resta saber se quero trazer ele, isso... para minha

vida. Qualquer pessoa sensata diria que não, mas não acho que seja tão simples

assim.

Infelizmente, não consigo mandar no meu coração. E no momento, parece

que ele já abriu as portas para Julian Carbone.

— Vejamos... a família dele é do tipo bem tradicional — começo a falar,

escolhendo as palavras certas. — E Shalom... Shalom é o nome da pretendente, a

mãe dele meio que espera que eles casem, mas segundo Julian, não tem com ela.

Sophia semicerra os olhos, visivelmente desconfiada.

— Eu não sei, é bem estranho.

Assinto.

— Demais.

— E o beijo? — quer saber.

— Nos beijamos depois de brigarmos — é o que digo, enquanto preparo a

cafeteira para o café. — Devia dar um fora nele, mas não consigo. Eu passei

mal, fiquei umas duas horas e meia no banheiro e ele me esperou, ficou

plantando no sofá.

Ela sorri.

— Será que ele está apaixonado?

As palavras de Sophia me arrebatam uma gargalhada, que a faz franzir o

cenho. Levo ar até os pulmões e encaro minha melhor amiga.

— Julian quer me levar pra cama, essa é a grande verdade.

Sophia gira os olhos.

— Nossa, que romântico.

— Muito — retruco, me encaminhando para o sofá de novo. Sento e apoio

o cotovelo no encosto, sem tirar a atenção da minha amiga, fazendo uma prece

silenciosa para que ela consiga colocar juízo na minha cabeça. — E o problema

é que eu quero isso também. Me diz que eu tô doida e que o melhor é nunca

mais vê-lo.

— Não adianta. No final, você não vai seguir os meus conselhos —

contesta e eu faço um estalo com a língua, desdenhosa.

Porém, acho que minha melhor amiga tem razão.

Meu celular começa a tocar de algum lugar dentro do quarto. Corro até o

cômodo e procuro o aparelho até encontrá-lo dentro da bolsa de lantejoula em

cima da cadeira acolchoada.

O número que pisca na tela é desconhecido, mas o pré-fixo é local, então

decido atender.

— Oi — falo, caminhando de volta para sala.

— Lina? — uma voz feminina pergunta. — Hum, aqui é a, bem, é

estranho, mas sou eu, Romie, irmã de Julian.

— Ah, oi, Romie — digo e arregalo os olhos para Sophia, que pergunta

apenas movimentando os lábios “O quê?”, mas faço um gesto com a mão,

pedindo que espere um pouco.

— Então... nossa, o Julian vai me matar por fazer isso, mas, minha mãe me

obrigou a pegar seu número e te ligar — fala de maneira acelerada e de repente,

o telefone é passado para outra pessoa. — Jolina, bom dia, tudo bem? Aqui é a

Carlota, mãe de Julian.

Engulo o caroço na garganta.

— Ah... — é o único som que sai da minha boca.

— Menina, eu não gosto de fazer rodeios, então vou direto ao ponto.

Venha jantar aqui hoje à noite.

Não parece que ela está pedindo e sim, dando uma ordem. Tem tanta

semelhança com o mandachuva, que é quase assustador.

Meu coração acelera e eu sinto as bochechas corarem.

— Hoje? — murmuro e fico pensando numa desculpa. Não quero ir jantar

com eles de jeito nenhum. — Infelizmente, eu não posso. Minha amiga está

comigo e não posso deixá-la sozinha.

Sophia arqueia as sobrancelhas ao me ouvir.

— Amiga?

— É, sinto muito.

— Tudo bem, ela pode vir também. Alguém vai te buscar às vinte horas —

dito isso, ela passa o telefone para Romie de novo, que fala. — Sinto muito, mas

não é tão ruim assim. Julian não sabe de nada — acrescenta rápido, sussurrando

e encerra a ligação.

— O que aconteceu? — Sophia quer saber.

— Temos um jantar na mansão da família Carbone.

— Como assim, temos?

Mordo o lábio inferior e dou de ombros.

— Eu sinto muito, mas não posso ir sozinha — é o que digo, torcendo para

ela ficar com pena de mim e me acompanhar. Não quero encarar a família de

Julian sozinha. É demais para minha cabeça.

E por que diabos ela me convidou para um jantar?

Sophia suspira e deita no sofá, fazendo bico, mas sei que ela não vai me deixar na mão.

— Vai ficar me devendo uma, Lina.

Sorrio. Perfeito!

Deus me deu a melhor amiga do mundo.

— Mamma, por que fez isso?

Ela está na academia subterrânea da casa, acompanhada da professora de

pilates particular e da vovó. As três estão debruçadas sobre bolas gigantes e com

os braços esticados sobre o chão.

Lentamente, elas vão rolando com a bola na barriga e como se fosse muito

fácil, mudam de posição e sentam, inspirando e expirando ar de maneira

profunda.

— Você deve estar falando sobre o jantar — mamãe fala, calma. — Será as

vinte horas, esteja preparado.

— Por que fez isso? — retruco, alterado. Fecho os olhos com força e

contraio o músculo da mandíbula, tentando encontrar a paciência. — Qual é o

objetivo disse tudo?

Mamãe cruza o olhar comigo por um segundo e depois vai deitando de

costas sobre a bola. Se a intenção dela é me fazer sentir ridículo, conseguiu.

— Ontem, você sumiu com aquela garota por três horas. E bem, você

nunca nos apresentou Rebecca, mas trouxe Jolina. Você tem interesse nela, não

sou cega. Se ela vai fazer parte da família, quero conhecê-la.