O Homem da Máfia (Família Carbone Livro 1)

Brenda Ripardo · Capítulo 14 de 19

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O Homem da Máfia (Família Carbone Livro 1)

Capítulo 19

— Eu sempre bebi, mamma.

— Não como ultimamente — rebate. — É por causa de Jolina, não é? —

pergunta e faço careta, depois nego com a cabeça. Ela não acredita, é claro. —

Se você gosta daquela [19] ragazza,vá buscá-la.

Bebo o líquido do copo de uma vez e o coloco em cima da mesinha de

centro.

— Mãe, por que você ficou com o meu pai? — quero saber.

Ela ri.

— Que pergunta é essa. Não tente mudar de assunto.

— Responda, mamma.

Ela suspira e endireita os ombros, depois abre um sorriso apaixonado.

Mesmo depois de tantos anos e que o meu pai não esteja mais aqui, minha mãe

ainda o amo. Muito.

— Eu sabia que seria um desafio, todos dias. E bem, ele era lindo, protetor,

gentil. — Faz uma pausa e passa uma das mãos nos cabelos. — Gentil do jeito

dele, é claro. E eu o amava. Eu sabia que a vida ao lado dele seria difícil, mas

não conseguia deixá-lo.

Minha mãe amou tanto o meu pai, que ficou com ele mesmo apesar de

tudo. E Jolina, ainda não está preparada para viver uma vida ao meu lado.

— Vocês se amavam muito — comento.

— Sim — concorda. — Eu sinto tanta falta dele — sussurra e pisca rápido,

tentando segurar as lágrimas.

— Eu sei, também sinto, mamma — assumo em voz baixa.

Ela ajeita os cabelos e me dá um sorriso gentil.

— Venha jantar esta noite, certo? Sinto falta de tê-lo sob o mesmo teto que

eu. A casa está tão vazia sem você.

— Até anteontem eu estava morando com você, mamma.

— Eu não sabia que existia um tempo certo para começar a sentir saudades

— resmunga ao se levantar. — É assim que as coisas funcionam hoje em dia? — fala com desdém.

Tento esconder o riso.

Ah, mãe. O que tem de linda tem de dramática.

Fico de pé também e seguro seu rosto entre as mãos. Ela sorri de novo e

envolve os braços em volta do meu corpo, me prendendo em um abraço

apertado. Aliso os cabelos da mamma e deposito um beijo no topo da sua

cabeça.

— Fique bem, ok? Tenho certeza de que é o desejo do papà. Ele amava

quando a senhora sorria.

Ela respira fundo entre os meus braços.

— Eu sei, eu sei. Estou tentando ficar bem. — Se afasta um pouco e olha

nos meus olhos. — Venha para o jantar. Sua avó também precisa de você. Ela só

tem vocês agora.

Dou um beijo em cada bochecha, fazendo-a sorrir.

— A nonna tem a senhora também.

— Eu sei, mas vocês se parecem mais com o Francesco do que eu —

brinca, me roubando uma risada. — Esteja em casa às sete e ponto.

Assinto, concordando.

Não importa em qual lugar da hierarquia eu esteja, a mamma é alguém que

sempre me fará abaixar a cabeça.

Esquecer Julian Lorenzo Carbone é mais difícil do que eu pensava. Mesmo

depois de ter enfiado minha cabeça no trabalho e nos livros, sempre que a mente

dá bobeira, eu me perco em pensamentos com ele.

O homem é insistente.

E eu sinto tanta falta dele, mas acho que é melhor assim.

Sophia concorda comigo. Depois de ter sido sequestrada, eu tive de contar

a ela o que Julian é. Minha melhor amiga ficou horrorizada e disse que eu tenho

que me manter a mil metros de distância do homem.

É claro que tentei argumentar. Julian é perigoso? É claro que sim, no

entanto, existe um lado bom nele também. Mas isso só fez Sophia achar que

preciso me desintoxicar ou de uma lavagem cerebral.

Talvez ela tenha razão.

Talvez não.

Ai que droga.

— Pare de pensar nele — Sophia fala, chamando minha atenção.

Nós estamos em um café no centro de Montreal. Ela acha que para

esquecer Julian de vez, eu preciso conhecer alguém novo, por isso, colocou na cabeça que vai me apresentar um amigo.

E cá estamos nós.

Ela não sossegaria enquanto não me tirasse de casa de qualquer forma.

— Quando você diz pra não pensar nele, é aí que minha cabeça vai

trabalhar nisso e fazer o contrário — resmungo. — E de verdade, eu não quero

conhecer ninguém.

— Ele é um cara bacana e o melhor... não trabalha com nada ilegal.

— Sophia! — repreendo.

Minha melhor amiga levanta as mãos em rendição.

— Eu sinto muito — murmura, fazendo bico. — Não precisa namorá-lo,

basta conhecê-lo. Quem sabe rola amor à primeira vista? — fala a última frase

como se estivesse testando as palavras.

Reviro os olhos, mas começo a rir.

Cinco minutos depois, o meu pretende chega. Ele é bonito e parece ser um

cara legal, mas não tem nada a ver comigo. Parece certinho demais. Ai, meu

Deus! O que está acontecendo comigo? Desde quando, o homem ser certinho

demais é defeito para mim?

— Bom, eu preciso ir — Sophia dá aquela desculpa esfarrapada. Fuzilo-a

com os olhos. — Cuide bem da minha melhor amiga, Elliot. — Pisca para ele.

Suspiro.

Elliot parece animado em ficar sozinho comigo. E eu odiando tudo.

— Ela é muito sútil — digo, fazendo o meu pretende rir.

— Sophia é uma ótima garota.

— Sim, eu sei — murmuro.

É uma ótima garota. A melhor amiga que todo mundo precisa ter. E ela

tem razão, eu preciso esquecer Julian de uma vez por todas, mas ninguém manda

no que o coração quer. Eu não consigo arrancá-lo do peito como se fosse um

curativo tampando uma ferida.

Tomo um susto quando Nicholas senta no lugar da Sophia. Ele olha Elliot

de um jeito estranho e depois, me encara com uma sobrancelha erguida.

— Oi, sou Nicholas — ele diz, oferecendo a mão em um aperto firme. Por

instinto ou idiotice, procuro Julian na rua através das janelas de vidro.

Infelizmente, só encontro um carro estacionado em mais homens de preto.

— Ah, oi. Eu sou Elioot.

— O que tá fazendo aqui? — pergunto a Nicholas, tentando manter o nível

da voz. — Vá embora.

— Não posso. — Respira fundo e volta a atenção para Elliot. — Você não

tem chance, garoto. Jolina é comprometida.

— O quê? — Elliot e eu perguntamos ao mesmo tempo. — Nicholas, saia

agora ou eu vou chutar a sua bunda — ameaço.

— Você tem namorado? — Elliot quer saber.

— Sim — Nicholas responde.

— Não — retruco. — Não mais — emendo. Massageio as têmporas com

as pontas dos dedos, implorando por paciência. — Me desculpe, Elliot, mas

Nicholas tem razão, você não tem chance. Sophia acha que preciso conhecer

gente nova e eu só estou aqui por causa ela.

— Uau — é o que Elliot diz, chateado. — Acho melhor eu ir embora —

diz ao levantar.

Nicholas assente.

Sem olhar para trás, meu pretendente sai da cafeteria.

— Você anda me seguindo? — pergunto entre os dentes.

— Parece surpresa. Acha mesmo que Julian deixaria de cuidar de você? —

responde, sério.

— Cuidar é uma coisa, afugentar meu pretendente é outra — rosno.

— Ah, isso... bem, isso é coisa minha. Julian não teria sido tão legal — é o

que fala, me fazendo revirar os olhos, injuriada. — Eu vim aqui porque preciso

dizer algo.

— O que é?

Faço cara feia e tomo um gole do meu café, controlando a vontade de

mandá-lo ir à merda.

— Sua mãe está vindo.

Engasgo-me com o líquido quente e tusso em cima da mesa. Nicholas pega

o guardanapo e limpa a mesa suja de baba de café.

— O que disse?

— Ela está vindo. Vou buscá-la e levá-la até você, mas ela não pode ficar

por mais de uma semana. Julian conseguiu identidade falsa e ela vai morar um

tempo em Los Angeles.

Engulo em seco. O coração acelerado e os olhos ardendo por conta das

lágrimas.

— Já? Ela não me disse nada. Quando ela chega? — quero saber.

— Ela quis fazer surpresa. Sua mãe chega amanhã, depois do meio-dia

mais ou menos.

Ao ouvi-lo, olho a hora no meu relógio de pulso. São quase dezoito horas

agora. Amanhã, meio-dia. Falta tão pouco e ao mesmo tempo, parece tantas

horas até eu finalmente conseguir abraçá-la depois de três anos.

— E o meu pai?

— Não está feliz, é claro — é o que fala. — Mas ele não vai encontrá-la,

não se preocupe. Enquanto estivermos protegendo sua mãe, ele não vai tocá-la.

Mordo o lábio inferior e assinto.

— Obrigada — sussurro. — Diga ao Julian que sou muito grata.

— Ele não fez isso pra receber um obrigado — começa a falar. — Julian

fez isso porque você é importante pra ele.

Meu coração bate tão alto dentro do peito, que me pergunto se Nicholas

pode ouvir.

— Eu sei — admito.

Nicholas abre meio sorriso e assente. De maneira inesperada, passa a mão

na minha cabeça antes de levantar e ir embora, me deixando sozinha no café.

Permito que as lágrimas escapem dos meus olhos e respiro fundo.

Como esquecê-lo? Como fazer isso se ele ainda continua tão presente na

minha vida? Por que ele não para de cuidar de mim? Por que não para de fazer coisas por mim? Droga.

Como vou tirá-lo do meu coração?

— Meu Deus, eu saio por dez minutos e você coloca tudo a perder? —

Sophia fala atrás de mim. Eu sabia que ela não tinha ido longe demais. Limpo as

lágrimas com as costas das mãos e tento sorrir, mas ela nota meus olhos

vermelhos. — Por que está chorando? — indaga ao sentar ao meu lado.

— Minha mãe está vindo pra cá — digo.

Sophia abre um sorriso largo e joga os braços em volta do meu pescoço.

— Que notícia maravilhosa, amiga.

— Sim, é. — Afasto-me dela e seco as lágrimas que ousaram cair de novo.

— Julian cuidou disso.

— Ah, não — resmunga.

— Sophia... — Pego a sua mão em cima da mesa e a olho com

intensidade. — Ele não é tão ruim, e não vou mentir, eu amo Julian. Não sei se

vamos ficar juntos de novo, mas você pode só ser minha amiga e ficar comigo?

Eu não preciso de um cupido agora, só preciso de alguém que fique ao meu lado,

esperando os pedaços do meu coração partido se juntarem outra vez.

Os olhos de Sophia brilham, porém, ela não chora. Volta a me abraçar e

dessa vez, me aperta forte, como se não fosse capaz de me soltar.

— Me desculpe. Prometo que vou ficar quieta, esperando o seu coração

partido sarar.

Rio entre as lágrimas.

— Obrigada.

Aperto-a contra mim e suspiro, aliviada. Mesmo que ela seja maluquinha,

eu a amo tanto. Não consigo ficar brava com Sophia, ainda mais quando sei que

está fazendo o que acha ser o certo.

E me fazer esquecer Julian parece o certo para ela. Parece o certo no

momento. Mas esquecê-lo não é algo que esteja sob o meu controle.

No fundo, eu sei a verdade.

Esquecer o homem da máfia não é algo que eu queira fazer.

Depois de saber que minha mãe está vindo, a única coisa que eu consegui

fazer foi esperar em casa. As horas resolveram se arrastar e o tempo parecia uma

eternidade. Apesar da vida não está do jeito que eu desejava, estou feliz de ela

ter conseguido se livrar das garras do meu pai.

Espero que agora minha mãe seja feliz.

Minha noite de sono foi turbulenta demais. Eu sonhei com minha mãe e

com Julian. Eu estava tão feliz na minha fantasia, que levantei da cama com um

sentimento esquisito no peito.

Droga.

Eu sinto tanta falta dele, que estou começando a me odiar por isso.

Por que eu tive que amá-lo desse jeito?

As lembranças do dia em que eu terminei com ele preenchem minha

cabeça. Ele ficou tão triste e aquilo acabou comigo. Acho que foi ali que o meu

coração se quebrou em tantos pedaços, que agora, parece impossível de

consertá-lo.

Nem tinha notado, mas parei de andar e estou congelada no lugar, no meio

da sala, incapaz de chacoalhar as lembranças da minha mente.

Meu celular notifica uma mensagem e é isso que me faz sair do êxtase.

Pego o aparelho em cima da mesinha de centro e acabo derrubando um dos meus

livros no chão. É Nicholas avisando que já pegou minha mãe no Aeroporto e já

estão a caminho.

Fico tão feliz, que me jogo no sofá, sorrindo. Me inclino para pegar o livro

caído perto da mesinha e quando o agarro com uma mão, noto o voucher de mil

dólares sair de dentro do livro e tocar o chão.

Meus lábios se esticam em um sorriso.

Pego o voucher com as pontas dos dedos e o observo, como se ele fosse

capaz de me dar as respostas e ajeitar minha vida bagunçada. Como se o pedaço

de papel entre os dedos fosse capaz de me dizer o que fazer.

É claro que ele não diz, mas acabo me sentindo incentivada para fazer

algo.

Digito uma mensagem de texto para Julian.

 

“Minha mãe já está chegando. Obrigada, Julian. Isso é importante para

mim. Espero que você esteja bem.”

 

Espero ávida por uma resposta, mas o homem decide se fazer de difícil e

não me manda nada de volta. Tudo bem, talvez ele esteja ocupado demais.

Ou tentando me dar um gelo.

Pensar que ele está me dando um gelo me incomoda um pouco. Muito, na

verdade. Droga. O que tenho na cabeça? Fui eu mesma quem dispensou Julian.

O que eu esperava? Que ele ficasse sofrendo por mim?

Talvez um pouco...

No entanto, Julian Lorenzo Carbone não faz o tipo de homem que vai ficar

sofrendo por uma mulher. Eu sei muito bem como ele vai me superar. Talvez

esteja comendo aquela ruiva ridícula. Que cretino. Imbecil.

Pronto.

Eu estou puta da vida.

Envio outra mensagem para ele.

 

“Por favor, senhor Carbone, ignore minha última mensagem. Foi um

momento de colapso, insanidade mental. Eu não deveria estar tentando

conversar com você. Então, tchau.”

 

— Babaca — resmungo quando noto que ele não vai me responder de jeito

nenhum. — Idiota — emendo, em um rosnado.

Deixo o celular em cima da mesinha de centro e fico de pé, procurando o

que fazer, mas não encontro nada. Meu apartamento está perfeito.

Ontem quando cheguei em casa, fiquei tão ansiosa com a notícia de que

minha mãe estava vindo, que dei uma faxina daquelas.

Não existe mais o que limpar nesse apartamento.

Não existe nada que eu possa fazer no momento.

Então, sento no sofá e espero minha mãe.