O Homem da Máfia (Família Carbone Livro 1)
Capítulo 14
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Não quero Lina passando mal de novo por comer algo que não pode.
— Sim, eu fiz como o senhor pediu — Abby, a chef de cozinha, fala
depois de ouvir minha pergunta sobre o jantar.
Abro meio sorriso.
— Certo.
Enfio as mãos nos bolsos e saio da cozinha e rumo na direção da sala de
estar, encontrando meu irmão no corredor. Está sozinho e de cara fechada.
— Hayle não vai descer?
Ele sibila e nega com a cabeça, carrancudo.
— Disse que está com enxaqueca. Mentiu, é claro — resmunga.
Naoh não tem culpa de Hayle odiá-lo tanto, mas a garota também tem seus
motivos. Foi obrigada a casar, por causa dos problemas que o pai causou.
O pai dela era um ex-associado[14] da família Carbone, que acabou se
envolvendo com a máfia Russa e foi burro o suficiente para trai-los. Ele era
muito ambicioso e isso foi o catalisador do fim da sua vida.
No dia da morte dele, a esposa conseguiu escapar com a filha, e quando
elas pediram ajuda ao meu pai, o Don sabia que elas precisavam de proteção.
Então, a garota e a mãe ficaram na nossa casa por algumas semanas,
escondidas. E foi aí que nossa mãe teve a brilhante ideia de casá-la com Noah e
teve o apoio do nosso pai. A mãe da Hayle ficou aliviada e sabia que enquanto
estivesse com Noah, a sua filha estaria segura.
Depois de algumas semanas do noivado, descobrimos que a mãe de Hayle
estava com câncer terminal, estágio avançado demais para ser operado.
Faleceu antes de ver a filha casar.
E agora, Noah tem uma esposa de vinte e quatro anos, que o odeia com
todas as forças e encara o casamento como uma prisão, e claro, não permite ser
tocada por ele.
— Onde está a Hayle, querido? — mamãe pergunta ao cortar a sala com
passos longos.
— Enxaqueca — Noah responde, tentando esconder o tom amargo na voz.
É visível que mamãe não gosta do que acabou de ouvir, mas assente e
finge um sorriso. Depois, encaminha aqueles olhos redondos na minha direção,
estudando minhas expressões.
— Nervoso? — ela quer saber.
— Irritado — respondo.
Ela solta uma risadinha.
— Não fique assim, querido. Não é como se fôssemos maltratar as garotas.
— As garotas? — Noah indaga, ligeiramente interessado no assunto.
Deve estar amando todo esse circo que a mamma está fazendo com a
minha vida pessoal. Tudo bem, quando mamãe falou que ele casaria e a única
escolha era aceitar, achei divertido também vê-lo não contrariar as ordens dela.
Mas era divertido quando não era comigo. Agora, parece o meu pequeno
inferno pessoal.
— Sim, Jolina e a amiga. Tive que aceitar o pacote completo, aquela
garota estava tentando se esquivar do pedido de jantar aqui hoje — ela alega.
— O que acha dela, mamma? — Noah dispara com uma certa onda de
excitação na voz. Contraio o maxilar e reprimo um suspiro. — Acha que ela vai
dar uma boa esposa pra Julian?
Ela passa as mãos no vestido de requinte e depois endireita os ombros,
meio tensa.
— Não sei, preciso saber mais sobre ela. Casamento na nossa família é
diferente do casamento das famílias normais. O significado é mais intenso e
requer muitas responsabilidades. Não sei se ela está apta, mas estou disposta a
tentar.
Noah faz cara feia e vai até a nossa mãe, envolvendo um braço no ombro
dela.
— Não me deixou escolher minha esposa, mas Julian vai casar com a
garota que ele quer — zomba.
— Não banque o inocente, Noah. Sua esposa é linda e vai lhe dar filhos mais lindos ainda. Eu não escolhi mal. — Oscila os olhos do meu irmão para
mim. — Mas, bem, Julian se tornou um homem indomável. Sempre foi difícil
mantê-lo na linha — fala como se eu não estivesse aqui.
Reviro os olhos, irritado com toda essa conversa sobre casamentos e
responsabilidades. Sempre estive ciente que minha vida é uma maré de dever e
obrigação, mas isso não significa que eu queira casar agora.
Ou envolver Lina nisso.
A campainha toca, silenciando a voz da mamma, que ainda falava como às
vezes, eu sou impulsivo e volátil, e que Noah precisava me manter na linha,
como se eu precisasse da porra de uma babá.
Acompanho à mamãe até a entrada da casa para recebermos Lina e Sophia.
Confesso que estou odiando a ideia do jantar em família, é obsoleto demais, mas
no momento em que meus olhos encontram Lina, eu quase sorrio.
Ela está usando uma espécie de suéter de pelos, calça jeans branca e botas
de cano curto. Não parece com alguém que está tentando impressionar minha
mãe, e sim, mostrar quem ela é de verdade.
Uma garota jovem e universitária.
— Sejam bem-vindas — mamãe fala, sorrindo e cumprimentando as
meninas com beijos calorosos no rosto, impondo de forma concisa as nossas
origens italianas.
Os olhos jaspe de Lina cruzam com os meus de novo e sem dizer nada,
caminho até a garota e ajudo-a tirar o sobretudo. De leve, os meus dedos roçam
na parte lateral dela, que tenta reprimir um gemido.
— Você está bem? — pergunto, baixo.
Ela engole em seco.
— Sim, obrigada.
Noto a atenção de Sophia em mim, me analisando e investigando. A
expressão na sua face é ilegível então não sei se ela gostou de mim. Ela arqueia
uma sobrancelha na minha direção e estende a mão para mim, fazendo mamãe
nos observar.
— Sophia Canning — fala de forma direta. Encaro a mão esticada no ar e
seguro, me surpreendo ao sentir o toque firme de Sophia. — É bom finalmente
conhecer o namorado da minha melhor amiga.
Mamãe pigarreia.
— Sophia — Lina murmura com um leve tom de repreensão, o que acho
divertido, na real.
A amiga sorri e solta minha mão, volta com a atenção para minha mãe e
abre um sorriso largo.
— Sua casa é linda, senhora Carbone.
Mamãe fica sem reação e concorda com um aceno de cabeça, mas fica
muda. Lina me olha de rabo de olho e morde o lábio inferior, tentando segurar o
riso. Acho que o jantar pode ser interessante.
Sophia tira o próprio casaco e me entrega com mais força que o necessário,
deixando Lina boquiaberta e minha mãe também. Ela dá as costas para mim e dá
de cara com Noah.
Ela paralisa os passos e encara meu irmão, que a observa com certa
intensidade. Sophia passa as mãos nos cabelos longos e lança uma olhadela para
Lina, que logo se põe ao lado da amiga, e junto da mamãe, as três entram na
casa.
— Essa é a amiga? — Noah pergunta enquanto coloco os casacos no
cabideiro do hall de entrada.
— Você é casado — faço questão de lembrar e Noah ergue uma
sobrancelha, como se não acreditasse na audácia de eu estar o repreendendo de
alguma forma, mesmo que seja de maneira leviana.
Com uma mão, meu irmão segura meu pescoço e com a outra, dá uma
tapinha forte no meu rosto, e eu espero. Ele com certeza vai começar com algum
discurso sobre ele ser o mais velho e respeito, mas para meu espanto, Noah não
diz nada.
Na sala de jantar, Lina senta ao meu lado e de frente para melhor amiga,
que ocupou o lugar vazio perto de Noah. Mamãe está tão concentrada na
universitária perto de mim, que não percebe a troca de olhares do filho mais
velho com Sophia.
O papà também não consegue parar de admirar Jolina. Ele está encantado
com a sabedoria da garota sobre os aspectos da vida social em diferentes culturas
e sociedades humanas.
O Don sempre admirou as mulheres inteligentes.
— Achei que fosse a mesma coisa de arqueologia — minha mãe, é claro,
dá uma fungada curta, de desprezo.
Talvez esteja com ciúmes ou irritada por Lina ter agradado o Don logo de
cara. No fundo, tenho certeza de que minha mãe esperava que Jolina
conquistasse a família aos poucos, e não de uma vez.
Sinto o canto da boca se contrair, mas faço esforço para reprimir o sorriso.
Pego a taça de vinho em cima da mesa e tomo um gole generoso, quase satisfeito
com a noite.
— É normal, todo mundo confunde — Sophia articula, deixando a mamma sem reação.
— Você dará uma ótima esposa, bambina — a nonna comenta, de repente,
fazendo Lina engasgar e tossir. A garota envolve os dedos no cristal e leva taça
até a boca, tomando todo o vinho.
A nonna ri, como se fosse engraçado. Romie que estava
surpreendentemente quieta, faz o mesmo que a vovó.
— Não vamos assustar as convidadas — falo, controlando o tom da voz.
— Julian tem razão — para surpresa de todos, é a Jolina quem diz as
palavras, observando minha mãe. — Pode continuar com o interrogatório,
senhora Carbone — é claro que ela só se dá conta do que acabou de falar alguns
segundos depois, quando minha família inteira está com os olhos arregalados e
pousados nela.
Meu pai solta uma risada. Faz tempo que não o vejo assim, tão feliz. Na
verdade, faz tempo que não temos um jantar em família tão inesperado e
divertindo assim.
Jolina puxa o ar num susto e me olha por breve instantes.
— Ah, sinto muito, eu não quis dizer isso — desculpa-se, apressada, mas é
tarde, a mamma já está de cara amarrada, então não fala nada.
O que não dura nem cinco minutos, é claro. Logo ela está rodeando Jolina
com perguntas, sobre a família e o motivo por ter saído do país natal, o que a
garota desconversa e não diz muito sobre.
Acabo ficando encucado.
Para ser sincero, eu sei e não sei nada sobre Jolina. Sei o dia exato em que
ela colocou os pés no Canadá e começou a estudar antropologia na universidade
de Montreal, onde trabalha e que tem ficha limpa, mas eu não a conheço de
verdade.
O resto da noite não é um desastre completo, as duas convidadas
conseguiram entreter a todos e talvez, minha mãe tenha dado um ou outro sorriso
com algum absurdo que saiu da boca da universitária.
Depois do jantar, meus pais e vovó nos deixam sozinhos na sala de estar. É perceptível como Lina está aliviada por ter sobrevivido à noite com a minha
família.
— Não vai me levar pra conhecer o seu quarto? — Jolina pergunta, para
minha surpresa, num tom bem alto, que faz todos na sala direcionarem a atenção
para nós dois.
A garota bebeu mais de três taças de vinho e está com as pupilas dilatadas,
não está bêbada, mas está uma coisinha linda de língua solta e bochechas
coradas.
Sophia abre a boca, prestes a protestar, quando Noah fala algo e tem a
atenção dela de novo. Romie olha no rumo das escadas e ergue as sobrancelhas,
com um sorriso atrevido desenhando todo o rosto.
Me sinto a porra de um adolescente na puberdade, mas acabo tocando o
ombro de Jolina e a conduzindo na direção das escadas, em silêncio.
— Eu não quero transar, tá bem? — ela solta, me fazendo olhá-la. — É a
casa dos seus pais, não vou fazer isso aqui.
— Não se preocupe, Jolina, quando eu te levar pra cama, eu prefiro fazer
isso com você sóbria.
— Por quê? — retruca, curiosa.
— Pra você aproveitar — murmuro e abro um sorriso de canto de boca.
— Posso aproveitar agora.
Uno as sobrancelhas e umedeço os lábios antes de voltar a falar.
— Você acabou de dizer que não quer transar.
Lina faz um gesto com a mão, como se estivesse espantando alguma coisa,
e de maneira bem insolente, revira os olhos.
— Que demora pra me levar pra cama.
— Eu estava enganado.
— Como assim? — ela quer saber.
— Você está bêbada.
— E você é um cafajeste — resmunga e solta um suspiro entrecortado.
Deveria me incomodar o fato de Jolina ser tão atrevida, mas a única coisa que consigo pensar no momento é que ela merece uns tapas bem dado nessa
bunda redonda e empinada.
Depois de alguns lances de escadas e um corredor com decoração
exagerada demais para o meu gosto, chegamos ao quarto. Abro a porta e faço um
gesto com a cabeça, convidando Lina para entrar.
Enfio as mãos no bolso e a observo caminhar devagar até o centro do
cômodo e olhar tudo com minuciosidade. É bem diferente da decoração do meu
apartamento em Downtown, mas de alguma forma, tudo aqui ainda parece
comigo.
— É você? — pergunta ao apontar para um dos porta-retratos em cima da
cômoda. É uma foto antiga de família, era aniversário de Romie. Ela era tão
pequena e sorridente. — Você tinha cabelo longo? — Lina parece surpresa.
Caminha até o móvel e com delicadeza, pega a fotografia, estica os lábios
em um sorriso meigo, encarando o eu de dez anos atrás.
— E você tem um furinho no queixo — comenta, me fazendo balançar a
cabeça de um lado para o outro e quase rir. — É sexy — acrescenta num
sussurro e coloca o retrato em cima da cômoda de novo.
Ela vem até mim, estreitando os olhos. Leva uma das mãos até o meu rosto
e pousa o polegar no meio do meu queixo.
— É aqui.
Franzo a testa.
— O quê?
— O seu furinho — diz num tom baixo e depois, abre um sorriso meigo.
— Por que não quis falar sobre os seus pais? — pergunto, de repente,
analisando as expressões faciais de Lina.
Ela se afasta e deixa os ombros caírem, sentando na beirada da cama. Uma
linha aparece entre as sobrancelhas e Lina força um pequeno sorriso. Ela está tão
triste, que sinto uma onda de inquietação assolar o meu peito.
— Todo mundo tem uma história triste, não é? Eles são a minha —
murmura, e noto um músculo da mandíbula dela contrair. — Qual é a sua?
— A minha, o quê? — questiono.
— Sua história triste — pergunta ao levantar o rosto e me encarar com
intensidade, piscando devagar. — O que você esconde por detrás dessa máscara
de mandão?
— Sem histórias tristes — minto.
— Você disse que não mentia, mas está mentindo agora. Então, a verdade
é que você é um mentiroso — resmunga ao desabar na cama e encarar o teto do
quarto. — Minha cabeça está girando.
Aproximo-me e observo Lina.
A barra do suéter de pelos subiu um pouco, o que me dá uma visão
significativa da barriga e umbigo dela. Quando imaginei Lina na minha cama,
não foi bem assim que estava pensando. Eu tinha uma imagem dela nua, girando
os olhos de prazer, a boca entreaberta enquanto gemia meu nome.
É a primeira garota que deita na minha cama e ainda continua vestida.
Ela tem razão, que demora para levá-la para cama. Por que diabos estou
sendo tão cauteloso com ela? O que essa garota está fazendo comigo? Em
poucas semanas e já conseguiu virar minha vida pessoal de cabeça para baixo,
me fazendo agir de forma diferente.
O certo seria afastá-la de mim. Jolina é pura demais e não sabe nada ou
quase nada da minha vida. Mas talvez, eu queira corrompê-la e fazer com que
seja minha. Talvez, eu queira que essa garota inocente abrace minha escuridão e
fique ao meu lado.
— Quero fazer uma pergunta — fala ao voltar a sentar. Olha-me por cima
dos cílios e morde o lábio inferior, pensativa.
A única coisa que faço é assentir, então ela respira fundo, fecha os olhos
por uma fração de segundos e pergunta.
— Por que você fez aquilo com Mason?
Sinto a garganta áspera e tento desviar das duas pedras marrons, mas não
consigo. São intensos demais e parecem que já me prenderam.
— Eu quero entender — fala baixinho.
— Por quê? — é o que pergunto.
Lina fica de pé e para um passo de distância, focalizando meus olhos. As
pupilas ainda estão dilatadas e as bochechas ruborizadas, mas não acho que
esteja bêbada de verdade.
— Talvez, eu queira encontrar motivos pra te aceitar na minha vida. Te
aceitar do jeito que você é. — As lágrimas inundam os seus olhos, mas nenhuma
ousa cair. — Eu sinto que não devia desejar você, Julian. Você é misterioso e
perigoso, não é um cara comum. Mas não consigo fugir de você.
— Você quer fugir? — quero saber.
— Às vezes, sim — admite, levando as mãos até o meu rosto e fazendo
carinho com um dos polegares no meu queixo. — Outras vezes, não.
Se eu fosse um homem de bem, diria agora para Lina se afastar e ir
embora. Viver a sua vida longe de mim, é a melhor opção, sem dúvidas. Mas
como eu sou eu, e não valho nada, envolvo as mãos na cintura fina dela e a trago
contra o meu próprio corpo. Depois, subo com uma mão até a sua nuca e enfio
meus dedos entre os cabelos sedosos de Lina.
— Não fuja de mim — murmuro.
— Você está pedindo ou ordenando? — ela rebate, e automaticamente,
sinto os meus lábios se curvarem em um pequeno sorriso.
— Ordenando.
Ela bufa e gira os olhos, mas não se afasta de mim.
Por que garotas insolentes são tão atraentes? Ou melhor, por que Jolina
quando está sendo insolente é tão atraente?
— Você não está merecendo, mas... — começo a falar e ela observa minha
boca. — Estou com vontade de lamber cada pedacinho do seu corpo.
Meus dedos dançam pela pele exposta do seu pescoço e eu vejo a boca
dela se abrir, e um gemido curto escapa dos lábios. Mas ela não se deixa levar
por mim por muito tempo, pois fecha os olhos e balança a cabeça, de um lado
para o outro, como se estivesse tentando recuperar a lucidez.
— Você ainda não me respondeu.
— Sobre o quê?
— Sobre Mason.
Respiro fundo, tentando decidir se devo explicar o motivo pelo qual acabei
com Mason. Mas no fundo, eu sei que não posso dizer a verdade inteira. A vida
dela não seria a mesma depois de escutar que o ex-namorado queria matá-la.
— Eu fiz isso pra salvar você e é só o que vou dizer — falo, segurando o
seu rosto com as duas mãos e focalizando os olhos marrons, que por um
segundo, tentaram desviar de mim. — Não sou um cara comum e minha vida é
mais complicada do que parece, mas eu nunca vou deixar nada acontecer com
você.
Ela passa a língua no lábio inferior e assente.
— E como isso vai funcionar? Eu e você? — ela quer saber.
Para ser sincero, não faço a mínima ideia, mas no momento, a única
certeza que tenho é que Lina será minha e vou protegê-la.
— Não sei, mas podemos descobrir.
Trago o rosto dela para próximo do meu e colo os nossos lábios, que não
resistem e se abrem para que eu enfie a língua dentro da sua boca, corro os dedos
entre os seus cabelos e puxo de leve.
Lina se agarra a mim, e dá intensidade ao beijo, mordiscando, chupando e
lambendo, enquanto geme contra a minha boca e me faz ficar de pau duro.
Permaneço com uma das mãos no seu emaranhado de cabelo e desço com
a outra até a cintura, aperto-a contra o meu corpo, pressionando minha ereção
contra a barriga dela.
Lina se afasta um pouco de mim e a atenção cai sobre o meio das minhas
calças.
— É por minha causa? — pergunta, obstinada.
— O que você acha? — retruco, e os lábios dela esticam em um sorriso
malicioso e quando os nossos olhos se encontram, vejo o seu desejo espelhando
o meu.
Trago-a para mais perto, colando nossos corpos mais uma vez e subo as mãos por dentro do seu suéter e tateio as costas lisas de Lina, tentando encontrar
o fecho do sutiã.
Antes que eu possa ir longe demais, alguém bate na porta, nos
interrompendo.
— Sinto muito por atrapalhar vocês, mas Sophia está chamando — Romie
fala, roubando um sorriso genuíno de Lina.
— Parece que vou ter que esperar mais uma pouco — resmungo, tentando
controlar o mau humor.
A garota solta uma risadinha gostosa.
— Você pode ir à minha casa amanhã — ela fala baixo ao meu ouvido e
morde de leve o lóbulo da minha orelha — Vinte horas.
Tiro as mãos de dentro do suéter e seguro o rosto dela, roçando meu nariz
no seu antes de mordiscar o lábio inferior de Lina.
— Isso é uma ordem também — minha garota sussurra de maneira
presunçosa.
— Está dando ordens agora?
— Aprendi com o melhor — retruca e então, dá de ombros, ainda sorrindo.
Porra.
Eu quero muito essa garota atrevida.
Fito a taça de vinho meio cheia à minha frente e suspiro, aborrecida.
Levanto da banqueta, pego os pratos em cima do balcão e guardo no armário.
Meus olhos param em cima da comida no fogão e por um momento passa pela
minha cabeça jogar tudo no lixo, mas a sanidade volta e me faz colocar dentro da
geladeira.
Com a taça e o vinho aberto, me arrasto até o sofá e ligo a tevê, tentando
não concentrar as minhas energias no bolo que tomei de Julian, o que é claro,
não funciona. Estou odiando o mandachuva no momento e focar minha raiva
nele parece tentador.
Verifico o celular em cima da mesinha de centro e fico decepcionada
quando não encontro nem um sinal de vida do homem. Quando achei que ele ia
chegar atrasado, mandei mensagem. Depois de duas horas, eu liguei, mas ele não
atendeu e nem se deu o trabalho de me dar uma desculpa, ou explicação.
Ontem ele parecia disposto a me dar o mundo. Hoje, nem apareceu para a
porra do jantar que eu preparei.
O que você tem na cabeça, Jolina? Julian não é homem de uma mulher só.
Você é apenas mais uma na interminável lista dele. Cai na real, garota!
Olho a telinha do celular de novo, sentindo um desconforto no peito e
odiando Julian. Devo ser uma piada para ele. Cretino.
Tomo o resto do vinho da taça e respiro fundo, encarando o programa
culinário que está passando na tevê e decido focar as energias nos meus livros. É
o melhor que posso fazer e não vou deixar um homem me desestabilizar e me
fazer tirar notas ruins.
Mesmo que esse homem seja Julian Carbone.
Guardo a garrafa de vinho e coloco a taça na pia. Descalça, vou até o
quarto pegar os livros, cadernos e canetas, organizo tudo em cima da mesinha de
centro e caio de cabeça nos estudos. Me manter acima da média é importante
também.
No momento, mais do que qualquer outra coisa.
Eu preciso voltar a focar no motivo que me fez sair de casa. Ter
estabilidade financeira, trazer minha mãe para cá e livrá-la das garras do meu
pai. Isso é importante. É minha vida, meu objetivo.
Julian é apenas uma distração. Talvez, um obstáculo. Não posso desviar do
meu caminho.
Não posso...
Depois de quase três horas com a cara enfiada nos livros da faculdade,
adormeço na sala mesmo, sobre a mesinha de centro.
Tomo um susto ao ouvir o alarme do celular tocando. Passo as mãos no
rosto e nos cabelos e demoro alguns segundos até me dar conta de que adormeci
na sala. Checo a hora no celular antes de levantar e alongar o corpo dolorido da noite mal dormida.
Bocejando, tomo coragem de ligar a cafeteira para preparar café e me
arrumar para sair de casa.
Apesar de fazer muita força para não ficar pensando em Julian ou
checando o celular na esperança de ter alguma mensagem dele, não consigo. Li
tantas coisas ontem enquanto não tentava pensar nele, mas mesmo assim, acabei
sonhando com Julian.
Na minha ilusão, ele não tinha se atrasado para o jantar, mas estava triste e
não podia dizer o que tinha acontecido.
Sonhos têm mesmo significados?
Enquanto escovo os dentes, abro a aba de pesquisa no celular e começo a
minha busca por significados de sonhos.
Lavo a boca com água antes de começar a ler o artigo em voz alta.
— Sonhar que alguém querido por você está se sentindo triste, pode
indicar que você sente culpa por alguma de suas ações ou falas para com
aquela pessoa. Em contrapartida, pode ser que você simplesmente sinta um
medo de que essa pessoa passe por maus momentos.
Reviro os olhos, descrente.
— Que perda de tempo. Fiquei louca — resmungo e jogo o celular em
cima da cama, em seguida, volto a me arrumar.
Saio do apartamento depois de meia hora, carregando bolsa, livros e o fone
de ouvido. Ao descer as escadas que dão na calçada, tenho a leve impressão de
que alguém está me observando.
Procuro com os olhos, mas não vejo ninguém conhecido ou quase
conhecido. Já tinha decorado alguns dos rostos dos homens de Julian e saberia se
alguns deles tivesse me vigiando.
Balanço a cabeça e faço uma tentativa de não ficar procurando sinais de
Julian. Respiro fundo e ajeito a bolsa no ombro e caminho até a estação de
metrô. Se ficar mais um minuto parada, vou me atrasar para minha primeira aula.
Conecto os fones no celular e depois levo até os ouvidos. Dou play e sinto um gosto ruim na garganta ao escutar “Arcade” do Duncan Laurence preencher
os meus ouvidos.
O coração acelera e eu me sinto ridícula.
“Eu gastei todo o amor que eu guardei. Nós sempre fomos um jogo
perdido. Garoto de cidade pequena em um grande fliperama, eu me viciei em um
jogo perdido. Tudo que eu sei, tudo que eu sei, amar você é um jogo perdido.”
Alguém esbarra em mim, me tirando do meu transe. O homem ao meu
lado fala algo, que escapa aos meus ouvidos, pois ainda estou de fone.
— Me desculpe, o que disse? — pergunto depois de silenciar a música e
guardar os fones de ouvido.
Ele me dá um sorriso de covinhas.
— Eu pedi desculpa por ter esbarrado em você — articula com um sotaque
diferente, engraçado, mas fofo.
Sorrio de volta.
— Tudo bem, não tem problema.
— Acho que isso é seu — fala ao gesticular com o meu caderno. Eu tinha
derrubado com impacto e nem ao menos tinha percebido.
— Obrigada, salvou minha vida.
Ele estende a mão para mim.
— Dimitry Mashkov.
Abro outro sorriso ao apertar a sua mão, pensando que é o russo mais
simpático que eu conheço. Na verdade, não conheço outros.
— Jolina Magdayao.
— Posso te pagar um café? — indaga, sugestivo. — Meu pedido de
desculpas por ter esbarrado em você.
— Eu tenho aula e se não correr agora, vou chegar atrasada — é o que
digo e dou de leve com os ombros.
— Tudo bem, eu entendo.
— Tchau e obrigada mais uma vez — digo, mas antes que possa continuar
meu trajeto, ele pergunta se estou indo para o metrô. — Sim — respondo.
— Que sorte a minha, é o meu caminho também.
Dimitry sorri e se põe ao meu lado, me acompanhado até ao meu destino
de todos os dias. Observo-o de rabo de olho. O homem é alto e bonito, usa
óculos e acho que deve estar na faixa dos trinta.
Quando ele me pega no flagra, desvio as vistas e começo a tagarelar
baboseiras. Graças a Deus, Dimitry age como um cavalheiro e me livra do
constrangimento, mantendo uma conversa digna comigo.
No trem, sentamos lado a lado e ele me conta o porquê veio a Montreal.
Ele está tentando viver a vida longe do pai, que é um banqueiro muito bem-
sucedido na Rússia. Acabo falando um pouco sobre mim e que falta apenas um
ano para me formar em Antropologia.
Perdida em uma conversa com Dimitry, não vejo o tempo passar.
— Vou descer na próxima estação — falo e ele assente, parecendo meio
decepcionado. — Até mais e boa sorte na sua nova vida.
— Posso pegar seu telefone? — quer saber.
Abro a boca, mas não consigo dizer nada, então, fico apenas encarando os
olhos claros dele.
— Tem namorado?
Suspiro.
— Não, mas é complicado, sabe? — é o que digo e nem na minha cabeça
isso faz sentindo. Julian vai me deixar doida.
— Posso pedir seu número como um amigo? — insiste, me fazendo sorrir.
Penso por uma fração de segundos e acabo concordando. Não vou me
privar de ter amigos por causa de Julian. Ele não é meu namorado. Demos
alguns amassos e apenas isso. Ainda me deu um bolo ontem à noite.
Vasculho a bolsa atrás do celular e quando o pego, surpreendo-me quando
Dimitry o tira das minhas mãos e me entrega o dele.
— Vamos trocar os nossos números — comenta, sugestivo e eu rio.
— Ok.
Digito meu número no celular e salvo como “Garota da colisão” e espero Dimitry terminar para trocarmos o aparelho. Rio quando vejo como ele salvou o
nome.
— Me desculpe pelo empurrão? — retruco, explodindo numa risada. — É
um ótimo nome.
— Sim, o seu também, garota da colisão. — Ele ri. — Na próxima vamos
sair pra tomar um café.
Não diga nada, apenas sorrio.
Dou tchau com uma das mãos e desço na minha estação quando as portas
automáticas se abrem. Caminho para saída do metrô e não ouso olhar para trás.
— Que cachorro! — Sophia rosna, me roubando uma risada. A essa altura
do campeonato, falar mal de Julian se tornou um hobby perfeito.
— Os cachorrinhos estão todos ofendidos neste exato momento — zombo.
— Eu voltei pra minha casa pra dar privacidade a vocês e ele te deu um
bolo? Ainda não deu nenhuma desculpa? Quem esse cara pensa que é? —
Balança a cabeça de um lado para o outro. — Desaprovo esse relacionamento.
— A culpa é minha. Não devia ter criado tantas expectativas.
— Se culpe outra vez e eu lavo a sua boca com sabão — Sophia articula
com as sobrancelhas erguidas.
Dou de ombros e deito no gramado do campus, aproveitando o sol do meio
dia. O verão está chegando, aqui não chega a ser tão quente como nas Filipinas,
mas o clima é agradável e dar para sair de regata sem congelar de frio.
Sophia deita ao meu lado, colocando o braço por cima dos olhos.
— Não quero falar dele — murmuro. — Vamos falar de você, como estão
as coisas com o seu pai?
Minha amiga solta um suspiro.
— Não estamos no nosso melhor momento, mas já paramos de brigar.
— Se quiser voltar pro meu apartamento, pode ir, tá bem?
Ela sorri.
— Obrigada.
— Tem notícias da sua mãe? — quero saber.
— Não. E a sua? Tem falado com ela? — Sophia quer saber.
— Ela faz um belo trabalho quando o assunto é me ignorar — retruco,
ficando de mau humor. — Deve ser o meu pai. Ela é cega pelo amor dele.
— Por que nossos pais são tão complicados?
— Eu não sei e eles nem vieram com manual — rebato, roubando uma
risada de Sophia. — O que vamos fazer no seu aniversário?
Sophia faz careta.
— Ainda faltam duas semanas e meia, não vamos adiar o papo de eu ficar
velha, por favor.
— Dramática — grunho.
Ainda deitada, ela revira a bolsa e coloca os óculos escuros, depois apoia o
cotovelo no chão e segura o rosto, me encarando através das lentes escuras.
— Tenha cuidado — murmura.
— Cuidado com o quê?
— Com Julian. Não merece ter o coração partido por ele. Ou por qualquer
outro homem.
Respiro fundo e prenso os lábios, depois concordo com um aceno de
cabeça.
— Não se preocupe, vou proteger o meu coração.
Minha melhor amiga sorri para mim, mas tenho certeza que não acredita
de verdade nas minhas palavras.
O resto do dia se arrasta, mas faço um bom trabalho em ocupar minha
cabeça com tarefas essenciais e não ficar checando celular.
O amor-próprio agradece.
Já são quase dezenove quando saio do museu e meus pés estão me
matando. Olho a rua e decido chamar um Uber para voltar para casa em vez de descer e até o metrô lotado. Pego o celular de dentro da bolsa e antes que possa
abrir o aplicativo, alguém chama por mim.
— Lina?
Olho para trás ao escutar a voz familiar e dou de cara com Nicholas. Os
olhos azuis parecem triste, mas a expressão do rosto ainda é dura.
— Oi — murmuro.
— Preciso que venha comigo.
— O quê? — rebato, irritada.
Não é possível. Julian sumiu por dois dias inteiros e do nada manda um
dos seus homens aparecer na minha frente para me levar sei lá pra onde. Não sou
um objeto e ele não é o meu dono.
— Ele precisa de você — é o que diz, me fazendo revirar os olhos.
— Eu sinto muito, mas eu não vou. Estou cansada.
Nicholas enfia as mãos dentro da calça social e solta um suspiro
entrecortado.
— Julian não sabe que estou aqui.
Franzo o cenho, confusa.
— O que está dizendo? Não faz sentindo.
Nicholas morde o lábio inferior e vejo o músculo do seu maxilar se
contrair.
— Ele precisa de você.
Aproximo-me dele, começando a ficar preocupada. Que merda é essa? O
que aconteceu? Um sentimento ruim se estala dentro do meu peito, me fazendo
respirar com dificuldade.
— Julian está bem? — me ouço perguntar.
— Não — murmura e meu coração acelera. — O senhor Carbone... —
começa, mas a frase morre e noto os seus olhos brilharem. Nicholas engole em
seco antes de voltar a falar. — O pai dele... se foi.
Levo as mãos até a boca e tento assimilar o que acabei de ouvir, mas não
consigo dizer nenhuma palavra.
— Ainda não entendo a relação de vocês, mas acho que ele precisa de
você, Lina.
Minha visão fica turva por conta das lágrimas, mas nenhuma ousa fazer
caminho até a boca. Assinto, e ainda em silêncio, sigo Nicholas até o carro
estacionado.
Dois dias atrás...
Sou acordado com gritos.
Por instinto, levanto rápido e pego a arma carregada de dentro da primeira
gaveta da cômoda ao lado da cama. Abro a porta e saio sorrateiro do quarto,
relaxando os músculos por um segundo ao encontrar uma Romie sonolenta no
corredor.
— É a mamãe? — pergunta ao bocejar.
Gritos de lamento de novo.
Ainda segurando a arma, apresso os passos e corro pelo corredor, até o
quarto dos meus pais. Sem bater, empurro a porta e entro. Me deparo com a
mamma de toalha, ao lado do meu pai, tentando fazer uma massagem cardíaca
em seu peito.
— Ele não acorda. Ele não acorda — ela choraminga.
Entrego a arma à Romie, que me seguiu e parece atônita com a cena, e
com as pernas pesando uma tonelada, corro até o meu pai. A mamma sai de cima
dele e eu começo a fazer a massagem cardíaca, tentando controlar as minhas próprias lágrimas.
Tentando controlar o meu desespero.
— Vamos, papà. Acorde — rosno entre os dentes, mas não tenho
respostas. — Acorde! — grito.
O corpo dele está frio, mas não desisto, continuo com a massagem
cardíaca, implorando em silêncio para que ele abra os olhos. Ele precisa abrir os
olhos.
Ele não pode morrer assim. Não. Ainda é cedo. Ele não pode ir embora
desse jeito, tão de repente. Não. Meu pai não pode.
— Acorde! — grito de novo e escuto Romie começar a chorar. — Pai, por
favor — suplico.
Noah surge à porta, todo suado e com roupas de academia. Os olhos
arregalam ao me ver em cima do nosso pai, tentando reanimá-lo. Ele corre até
mim, me tira de cima do papà e tenta ele mesmo fazer a massagem cardíaca,
enquanto grita para que ele acorde.
Infelizmente, é tudo em vão.
As vozes ao meu redor começam a ficar distantes e as lembranças com o
meu pai vêm de modo espontâneo. Eu, ainda criança e ele rindo, me ajudando a
montar o trilho de trem que me deu de presente aos oito anos de idade. Eu e meu
pai, jogando beisebol. Eu e meu pai, rindo. Eu e meu pai, comemorando meus
aniversários. Eu e meu pai, fazendo planos para o futuro.
Eu e meu pai...
Com os olhos ardendo, encaro o corpo do papà em cima da cama. Noah
ainda tenta reanimá-lo, mas não surte nenhum efeito.
Sinto a garganta seca e cerro os dentes. Saio do quarto rápido, mas Romie
me alcança no corredor, aos prantos.
— Aonde está indo? — choraminga, mas eu não consigo responder. Ela
corta a nossa distância e envolve os braços na minha cintura, chorando. — Por
que isso aconteceu? Por que ele se foi, Julian? Ele se foi — sussurra.
Meu peito dói tanto, que eu sinto que vou sufocar.
Contendo as lágrimas, passo os braços em volta do corpo da minha irmã e
aperto contra mim. Quero dizer a Romie que tudo vai ficar bem, mas não
consigo mentir. E no fundo, ela saberá que não é verdade.
— Chame o Dr. Michael — digo a ela, por um momento, pensando com
clareza. Afasto-a um pouco de mim e seguro seu rosto com as duas, focalizando
seus olhos. — Consegue fazer isso?
De lábios prensados, ela assente.
Dou um beijo na testa de Romie antes de deixá-la ir na direção do quarto.
Levo ar até os pulmões e respiro fundo e devagar, tentando me acalmar.
No entanto, não consigo. Meu peito dói como se alguém estivesse me
apunhalado. Fecho as mãos e punho com força e cerro os dentes.
Meu pai se foi...
Sem conseguir me conter, começo a esmurrar a parede do corredor. Uma,
duas, três, quatro, cinco e seis vezes, mas nem isso é capaz de me fazer sentir
melhor. Soco a parede de novo e noto as mãos sangrando, porém, continuo
extravasando contra a parede.
— Pare, Julian! — Romie grita, chorando. — Pare! Por favor.
Não consigo parar, então vou esmurrando a parede até fazer um buraco.
Noah me impede de continuar, segura com firmeza o meu pescoço e cola
minha testa na dele. Meu irmão tem os olhos vermelhos, respiração forte e
mandíbula contraída. Sem dizer nada, ele me abraça com força, como se não
fosse capaz de me soltar.
Horas mais tarde...
— Causas naturais? — a mamma pergunta com a boca torcida e os olhos
fumegantes. — Michael, está dizendo que o meu marido morreu de causas
naturais?
Dr. Michael respira fundo e massageia as têmporas.
— Foi o que o médico legista disse.
A mamma anda de um lado para o outro, exasperada. Tem os cabelos
presos em um coque malfeito, o rosto está todo inchado de chorar e a ponta do
nariz vermelha. Não lembro de ter visto minha mãe assim alguma vez na vida.
— Meu marido estava saudável ontem — murmura entre os dentes. —
Isso não faz sentindo. Francesco era um homem saudável.
— Isso acontece, Carlota. Eu sinto muito — Dr. Michael tenta confortar
minha mãe, mas não consegue.
Troco um olhar com Noah, que está em pé, na soleira da sala e algo me
vem à cabeça. Caminho até o escritório do nosso pai e ligo o computador, a fim de checar as câmeras de segurança.
O dia foi tão tenso, que não consegui pensar com clareza, mas a minha
mãe tem razão, o papà era alguém muito saudável. Morrer assim de repente, não
faz sentindo. Ainda mais, porque semanas atrás ele sofreu um atentado.
— O que tá pensando? — Noah pergunta ao entrar no escritório e ocupar a
cadeira à minha frente. — Concorda com a mamma?
— Não faz sentindo, Noah.
Ele assente, mas não articula nenhuma palavra.
Verifico as câmeras no computador e contraio a mandíbula ao notar que
não tenho nada. Por três horas e meias é a porra de um completo borrão. Soco a
mesa com a mão machucada e inspiro com força.
— As câmeras... não temos nada.
— Isso não é possível.
Noah levanta da cadeira e vem até mim, para verificar as câmeras de
segurança no computador.
— Chame o Liam, precisamos dele — é o que fala, saindo do escritório ao
mesmo tempo em que pega o celular de dentro do bolso para fazer uma ligação.
Passo a mão no topo da cabeça e respiro fundo, tentando controlar o
ímpeto de raiva que surge dentro de mim. Não posso perder a cabeça agora. Não
posso perder a cabeça de novo.
Minha família precisa de mim.
Eles precisam de mim com a cabeça no lugar e pensando com clareza.
Saio do escritório ao mesmo tempo em que tateio o bolso atrás do celular.
Vejo uma ligação perdida de Lina e a notificação de uma nova mensagem.
Droga.
Estou prestes a retornar à ligação, quando vejo Nicholas entrar no hall de
entrada. Ele parece tão triste, como todos da minha família, mas isso não o
impede de dizer as próximas palavras:
— Temos um problema.
Suspiro, irritado.
Tenho vontade de mandá-lo dar meia volta e ir embora com a porra do
problema.
— O que aconteceu? — pergunto, desdenhoso.
— Acharam um dos nossos depósitos e roubaram o carregamento de
armas. Será um prejuízo grande.
— Você está dizendo que roubaram cinco milhões de mercadoria? —
retruco.
— Sim.
Fecho os olhos por uma fração de segundos, respirando fundo.
Desde os anos 50, quando minha família veio da Itália para cá, a cidade
portuária de Montréal se tornou um dos maiores pontos de importação de armas
do mundo. Se você mora em qualquer lugar ao norte dos Estados Unidos ou em
qualquer cidade do Canadá, e usa arma, com certeza, veio de Montréal.
É claro que ao longo dos anos tivemos vários contratempos, prejuízos de
mais de bilhões de dólares, mas as coisas andavam, razoavelmente, tranquilas
nos últimos anos. Ninguém foi burro o suficiente para querer dominar o nosso
território e meu pai, conseguiu controlar bem as gangues e as família pequenas
da nossa cidade.
Agora, ele morreu e os problemas com os negócios começaram a surgir.
Isso não é coincidência. No nosso meio, nunca é. Não existe destino ou azar. As
coisas acontecem porque foram planejadas e executadas com perfeição.
— Preciso de Liam aqui — falo, chamando a atenção de Nicholas. — Não
temos imagens das câmeras desta madrugada. Por quase três horas, não temos
nada.
— Está achando que alguém matou o Don? — ele pergunta.
Até agora, Nicholas foi o único que teve coragem de falar isso em voz alta.
— O que você acha?
Ele dá um suspiro.
— A família Carbone é dona de um negócio que sempre foi muito
cobiçado pelas outras famílias. Até mesmo por famílias de fora do país — é o que fala, me fazendo assentir.
— Traga Liam aqui. Vamos resolver o problema com as câmeras e em
seguida, conversamos sobre o nosso carregamento.
Nicholas assente e vai embora, me deixando sozinho no hall de entrada.
Algum tempo depois...
Não sei há quanto tempo Liam está em frente ao computador deslizando os
dedos magros sobre os teclados, mas parece uma eternidade. A expressão dele
não é boa, o que começa a me deixar irritado.
Além de mim e Liam, no escritório do papà, se encontram meu irmão,
Giuliano, Gabriel, Nicholas e Thomas. Estão todos esperando que o hacker faça
milagres, como sempre foi capaz de fazer.
Mas infelizmente, parece que o dia vai continuar sendo uma merda.
— As imagens não foram apagadas — começa. — As câmeras foram
desligadas. Impossível saber o que aconteceu. — Abro a boca para resmungar
algo ou xingar, quando Liam é mais rápido e volta a falar. — Mas encontrei algo.
— O quê? — retruco, me aproximando dele.
— O sistema de segurança da casa foi programado para fazer atualização
na madrugada e isso demora umas duas horas, no mínimo.
— Impossível. O sistema foi atualizado semana passada — Noah fala,
ficando de pé também.
Liam nega com a cabeça.
— Não foi — é o que responde.
— Tudo bem, obrigado, Liam. Pode ir agora — falo, e faço um gesto com
a cabeça para que ele saia do escritório. Ele assente e vem até mim, dá uma
batidinha no meu ombro e abre meio sorriso.
— Sinto muito pelo pai de vocês — murmura, olhando de mim para Noah,
que faz que sim com a cabeça.
Assim que o garoto sai da sala, Giuliano abre a boca para começar a dizer.
— O Don Carbone não morreu de causas naturais. — Balança a cabeça de
um lado para o outro. — Se alguém o matou, foi alguém próximo dele...
— Giuliano, cuidado com as palavras — Thomas diz, num tom sério.
O consigliere é apenas cinco anos mais velho que eu e uns quinze mais
novo que Giuliano, mas mesmo assim, é o único de confiança, que sempre teve a
cabeça no lugar, nunca ultrapassou os limites e distribuiu conselhos inteligentes.
— O quê? — Giuliano rebate, fazendo Noah franzir o cenho. — Do que
você tem medo, Thomas?
Parece que o caporegime mais antigo da família Carbone tem muito a
falar, então eu me pronuncio.
— Pode deixá-lo falar, Thomas.
Giuliano abre um sorriso seco ao anuir.
— Bem, existem casos de chefes da máfia serem assassinados pelas
esposas — começa a dizer asneira. Cerro a mandíbula e sinto as narinas se
expandirem. — Não seria a primeira vez que isso acontece — acrescenta.
Noah dá um passo para frente, mas sou mais rápido, estou perto de
Giuliano, segurando o homem velho pelo colarinho.
— Ouse dizer que minha mãe é suspeita mais uma vez e você vai acordar
sem a língua — rosno.
Ele se solta de mim, mas prende meus olhos aos dele.
— Talvez, eu tenha exagerado — diz, ajeitando a blusa social. — Mas o
Don Carbone era como irmão mais velho pra mim e perdê-lo assim, sem mais e nem menos, fode com a minha cabeça também, garoto.
— Eu entendo, Giuliano — Noah fala e dá alguns passos para próximo de
nós. — Mas não quero ouvir esse tipo de absurdo de você de novo. Ela é a nossa
mãe e merece respeito.
Contrariado, Giuliano assente de leve.
— Precisamos nos calmar, estamos todos nervosos — Thomas tenta
amenizar o clima.
— O que você sugere? — Noah indaga ao conselheiro.
— Primeiro, pensar com clareza e agir com a razão. Se temos um traidor
entre nós, precisamos encontrá-lo de maneira sorrateira. Não podemos deixar o
boato de que temos uma falha na nossa organização se espalhar. Isso vai nos
enfraquecer.
Noah faz que sim com a cabeça.
— A notícia que sairá no jornal, é que o magnata do cassino, Francesco
Carbone, morreu pacificamente, em sua cama. Pode cuidar disso, Gabriel? —
Noah quer saber.
O caporegime concorda com um aceno e sai da sala. O homem entrou
mudo e saiu calado. Ainda parece abalado com a morte do Don. Estamos todos
abalados, para ser sincero.
E estou tentando muito não perder a cabeça no momento e esmurrar o
primeiro filho da puta que me tirar do sério de novo.
Giuliano acaba se retirando também, trocando umas tapinhas nas costas
com o meu irmão.
— Precisamos trocar toda a segurança interna — digo, fazendo os dois
homens na sala me olharem. — E interrogar os homens.
Noah concorda com um aceno.
— Sim, você tem razão, mas precisamos fazer isso com calma — Thomas
começa a falar e eu odeio o jeito calmo dele, como se todas as coisas no mundo
fossem se resolver se continuarmos tranquilos. — Mexer em toda segurança
interna agora pode ser perigoso. Temos muitos homens, mas não confiáveis o suficiente pra ficarem com acesso a casa.
— Não quero que o traidor continue zanzando por aí. Trocar os homens
me parece sensato — é Noah quem fala.
— Eu sei, mas não assim. — Thomas nega com a cabeça. — Nicholas, ele
é um bom soldado e tem o respeito de muitos. No momento, ele é a nossa
solução.
— O que quer dizer com isso? — eu quero saber.
— Vamos colocar ele no comando da segurança interna. Nicholas pode
descobrir alguma coisa. — Antes que possa dizer algo, ele continua. —
Qualquer um pode usar uma arma, mas nem todos são de confiança como o
Nicholas.
— Pra um começo, parece bom — Noah dá a palavra final.
E embora eu queira “interrogar” pessoalmente cada um dos homens que
estava de guarda no dia da morte do meu pai, concordo também. Thomas sempre
teve a cabeça no lugar e nos ajudou resolver problemas grandes, evitando
guerras. Não é à toa que ele é o conselheiro da família.
Darei o crédito a ele, mesmo com vontade de socar alguém até quebrar
dentes.
Hoje...
Nicholas me deixa no hall de entrada. Aperto os livros contra o peito e
prenso os lábios antes de começar a subir o primeiro degrau. Noto Romie no
topo da escada. Ela tem o rosto inchado, olhos e nariz vermelho, está usando um
robe amassado e tem os cabelos assanhados.
— Oi — murmuro.
O queixo dela treme, apertando o meu coração.
— Oi — fala tão baixo, que é quase difícil de ouvir.
Sem dizer mais nada, me aproximo dela e a envolvo em um abraço, no
qual ela desaba em lágrimas e me aperta. Passo a mão livre nos seus cabelos e
deixo que ela chore nos meus braços.
— Me desculpe — fala ao dar um passo para trás e limpar os olhos com as
costas das mãos. — Estou emotiva.
— Tudo bem, não tem problema. — Sorrio. — Eu sinto muito, Romie. De
verdade.
Em meio as lágrimas, ela abre um sorriso triste.
— Obrigada.
Passa por mim, segura no corrimão e desce as escadas, cabisbaixa. Levo ar
até os pulmões e continuo o trajeto até o quarto de Julian. Paro em frente a porta
e hesito por um momento.
Devo bater ou apenas entrar?
Dou uma batida firme e abro logo em seguida, sem dar a chance de ele me
mandar ir embora.
— Eu disse que quero ficar sozinho, Eva. Quando precisar de algo, eu
peço a você — resmunga de costas para mim.
Julian está em frente à mesa de madeira perto da varanda do quarto,
servindo uísque em um copo de cristal. Mesmo com os cabelos desgrenhados,
usando robe de seda preto e calças de tecido leve e de costas, ainda é lindo.
Em silêncio, coloco meus livros e bolsa em cima da cômoda grande perto
da parede e dou alguns passos até o homem.
— Eu falei sério — diz ao girar nos calcanhares. Julian fica surpreso ao
me ver. — Lina — murmura meu nome.
Sorrio.
— Muito decepcionado?
Os olhos negros e profundos brilham, e neles há tanta tristeza, que faz meu
coração doer.
— O que está fazendo aqui?
Enfio as mãos nos bolsos traseiros da calça jeans e mexo os ombros.
— Nicholas me trouxe.
Ainda me olhando, ele bebe todo o uísque de dentro do copo e o coloca em
cima da mesinha, e então, caminha até mim, parando um passo de distância.
Julian tem cheiro de álcool e uma expressão exausta.
— Eu sinto muito pelo seu pai.
Ele franze os lábios e desvia os olhos de mim por uma fração de segundos,
parece tentar controlar as lágrimas. Ou pior, acho que Julian está tentando
reprimir a dor. Rompo a nossa mínima distância e pouso uma mão em cima do seu peito e noto os batimentos cardíacos acelerados.
— Eu sinto muito, Julian.
Devagar, ele abaixa a cabeça e a descansa no meu ombro. Passo as mãos
entre os cabelos dele e o embalo num abraço, tentando de alguma, reconfortá-lo.
Julian não chora, mas fica quieto e com a respiração entrecortada por vários
minutos.
Quando se afasta, seguro o seu rosto com as duas mãos.
— Estou tentando ficar bem, mas é difícil — é ele quem fala. — Meu pai...
não consigo parar de pensar nele.
— É o luto, você precisa passar por isso.
Julian nega com a cabeça e dá alguns passos para próximo da mesa,
enchendo o copo de uísque de novo.
— Não posso.
— Por que não? — quero saber.
Aproximo-me dele e o impeço de continuar bebendo. É visível, ele fica
irritado, mas não tem forças para discutir comigo ou tomar o copo da minha
mão.
— Não posso perder a cabeça.
— Julian...
— A minha história triste — começa a falar, me interrompendo. — Tenho
uma e é por isso que não posso perder a cabeça. Não posso voltar a ser o que eu
era antes, Jolina. Você não ia me querer desse jeito.
— Converse comigo — arrisco.
Julian não tem cara de quem vai começar a falar dos problemas comigo ou