O Homem Mais Feliz do Mundo: A Bela Vida de um Sobrevivente de Auschwitz
Capítulo 6: Um bom amigo é todo o meu mundo.
De repente, eu tinha perdido tudo: minha família, minhas posses, o que restava de minha fé na humanidade. Só me foi permitido manter o cinto, minha única lembrança de uma vida que eu nunca mais veria.
Quando as pessoas chegavam a Auschwitz, os nazistas confiscavam tudo o que tinham e levava para uma área especial, para ser organizado por trabalhadores forçados judeus. Nós, prisioneiros, chamávamos essa área de Kanada, porque o Canadá era considerado um lugar pacífico onde todas as coisas boas da vida (comida, dinheiro, joias) estavam disponíveis em abundância. Tudo o que eu tinha foi roubado e enviado para o Kanada.
Pior ainda, minha dignidade me foi arrancada. Quando Hitler escreveu seu livro odioso, Mein Kampf, em que culpou os judeus por todos os problemas do mundo, ele fantasiou sobre um mundo onde seríamos humilhados: comendo como porcos, vestidos em trapos, as pessoas mais deploráveis do mundo. Agora, isso se tornara realidade.
Meu número, 172338, havia se tornado minha única iden tidade. Tiravam-lhe até o nome; não mais um homem, apenas uma engrenagem girando devagar em uma grande máquina mortífera. Quando tatuaram o número em meu braço, fui condenado a uma morte lenta, mas primeiro eles queriam matar meu espírito.
Eu morava em um alojamento com quatrocentos judeus de toda a Europa; húngaros, franceses, russos. Os prisioneiros eram segregados por raça e categoria: judeus neste alojamento, prisioneiros políticos naquele. Para Hitler, éramos todos iguais, mas vínhamos de muitos diferentes países, classes, profissões, todos misturados juntos. Muitos não sabiam falar a mesma língua, e poucos tinham algo em comum. Isso foi um grande choque para mim, ser aprisionado com tantos estrangeiros de tantas culturas diferentes. A única coisa que tínhamos em comum era o judaísmo, e mesmo isso tinha significados variados para cada um. Alguns eram muito religiosos. Outros, como eu, pensavam sobre o próprio judaísmo raramente antes de se tornar perigoso ser judeu. Ao crescer, tive sempre orgulho de ser alemão. Para mim, era isso que tornava tão louco o que acontecera conosco. É por isso que sempre perguntarei: por quê? Por quê?
Ainda não consigo entender como pessoas com as quais eu ia para o trabalho, com as quais eu estudava e praticava esportes puderam se tornar animais. Como Hitler conseguiu fazer de amigos inimigos, transformar homens civilizados em zumbis desumanos? Como é possível criar tanto ódio?
* * *
Auschwitz era um campo de extermínio.
Você nunca sabia, quando acordava de manhã, se voltaria para sua cama – não que tivéssemos uma. Dormíamos em beliches rudimentares, feitos de tábuas duras de madeira, medindo pouco mais de dois metros de largura. Eram noites gélidas, dez homens um ao lado do outro, sem colchão, sem coberta. O único calor vinha das outras pessoas. Ficávamos enfileirados, encolhidos como arenques em um pote, porque essa era a única maneira de sobreviver. Fazia muito frio, oito graus abaixo de zero, e éramos forçados a dormir nus, porque, se você estivesse nu, não conseguiria fugir.
Se alguém ia ao banheiro à noite, tinha que voltar e sacudir a primeira e a décima pessoa na fila, para que elas pudessem se mexer rumo ao centro do bloco humano. Caso contrário, aqueles que estavam mais afastados morreriam de frio. Toda noite, dez a vinte pessoas morriam porque estavam distantes demais do restante do grupo. Toda noite. Você ia dormir nos braços do homem ao seu lado para tentar sobreviver e, ao acordar, o encontrava duro e congelado, os olhos mortos arregalados encarando você.
Aqueles que sobreviviam à noite acordavam para um banho gelado, uma xícara de café e um ou dois pedaços de pão antes de caminhar para uma das fábricas alemãs que dependiam do trabalho escravo dos prisioneiros. Muitas das mais respeitadas empresas alemãs, incluindo algumas em atividade ainda hoje, nos usaram para o seu lucro.
Marchávamos diante de guardas armados por até uma hora e meia na ida para o trabalho e, de novo, na volta. Nossa única proteção contra a neve, a chuva e o vento era nosso uniforme fino e os sapatos, feitos de lona e madeira barata. A cada passo que eu dava com eles, podia sentir o ângulo pontudo do pedaço de madeira mal cortado ferindo a parte macia de meu pé.
Se alguém caísse enquanto caminhávamos para o trabalho, ou no retorno, era morto na hora, e os outros prisioneiros eram obrigados a carregar o corpo de volta. Logo, ficamos fracos demais para carregar os corpos de nossos amigos, então começamos a levar trapos com os quais podíamos fazer uma maca. Se não conseguíssemos levar os cadáveres, os nazistas nos matariam também, mas esperariam marcharmos por todo o caminho de volta ao campo para poderem nos matar diante dos outros prisioneiros, a fim de servir de exemplo. No instante em que você não era mais capaz de trabalhar, não tinha qualquer utilidade para os nazistas, e eles o matavam.
Trapos eram tão preciosos quanto ouro em Auschwitz. Mais preciosos, talvez. Não dava para fazer muita coisa com ouro, mas dava para usar trapos para envolver ferimentos ou forrar o uniforme para se aquecer ou se manter um pouco mais limpo. Eu os usava para fazer meias que tornassem os duros sapatos de madeira um pouco mais confortáveis. A cada três dias, eu virava a madeira do sapato para que a ponta dura que pressionava a pele não machucasse a mesma parte do pé. Foi com esses pequenos hábitos que consegui sobreviver.
Meu primeiro trabalho foi limpar a área de um depósito de munição bombardeado. Não muito longe de Auschwitz, ficava uma vila usada como depósito de estoques de munição e armamento a serem enviados para a frente de batalha. Éramos forçados a marchar até o local e recolher pedaços de munição explodida usando apenas nossas mãos. Era um trabalho difícil, perigoso.
Eu estava muito infeliz; os outros judeus do grupo não confiavam em mim porque eu era alemão, e logo aprendi a me manter isolado. A exceção era Kurt. Meus pais estavam mortos, e eu não sabia se minha irmã sobrevivera à seleção. Kurt era a única ligação com minha antiga vida, com um tempo em que eu era feliz. Devo lhe contar, não havia nada mais importante para mim naquela época do que minha amizade com Kurt. Sem ele, eu teria sucumbido ao desespero depois que meus pais foram assassinados. Estávamos em alojamentos diferentes, mas, ao fim de cada dia, nos encontrávamos, caminhávamos e conversávamos. Essa coisa simples era suficiente para me fazer seguir em frente, saber que restava alguém no mundo que se importava comigo e com quem eu podia me importar.
Kurt e eu nunca estávamos no mesmo grupo de trabalho. Os alemães eram muito precisos ao guardar registros e reuniam dados sobre as localizações e profissões de judeus de todo o país. Isso era em parte o que os tornava assassinos tão horríveis e eficientes. Para a sorte de Kurt, Auschwitz não tinha nenhum documento sobre ele. Ele vinha de uma cidade na fronteira da Alemanha com a Polônia, e os nazistas não tinham os registros desse lugar. Quando lhe perguntaram sua profissão, ele respondeu “sapateiro”, então foi posto para trabalhar como artesão qualificado, fabricando sapatos em uma oficina no campo. Ele ficava em ambiente fechado e não precisava caminhar na chuva e na neve para trabalhar em uma fábrica, como o resto de nós. Voltávamos mortos de fome, com bolhas nos pés, e ele estava são e seco, com comida a mais na barriga. Toda vez que havia sobra de comida para os prisioneiros, ia primeiro para aqueles que permaneciam no campo: alfaiates, sapateiros, carpinteiros. As fábricas para as quais trabalhávamos deveriam nos alimentar antes de irmos embora, mas nunca havia comida suficiente, e, quando voltávamos para o campo, geralmente também não havia nada para nós.
Isso era muito bom para Kurt, e com frequência ele conseguia guardar um pouco de sua comida extra e compartilhá-la comigo. Podíamos cuidar um do outro. Isso é a amizade verdadeira.
* * *
No lixo do campo, era possível encontrar muitas coisas que prestassem. Por exemplo, quando as serras dos carpinteiros ficavam cegas, eles as jogavam fora. Em vez de desperdiçar aquele aço precioso, eu o recolhia e o afiava, eliminando os dentes para criar belas facas, e depois talhava cabos de madeira polida para elas. Eu as vendia em troca de roupas ou um pouco de comida ou sabão, tanto para outros prisioneiros (como aqueles que trabalhavam no Kanada e tinham objetos de valor) quanto para civis. Além dos nazistas, havia muitos civis em Auschwitz, como os cozinheiros, os motoristas. Alemães ou poloneses, eles só estavam ali para sobreviver à guerra, como qualquer outra pessoa. Deles, eu recebia comissões por minhas criações sob encomenda. Usava a maquinaria da fábrica para fazer anéis para suas namoradas e gravava iniciais neles. Trocava um bom anel de aço por uma camisa ou uma barra de sabão.
Um dia, encontrei uma panela grande que tinha um buraco e havia sido jogada fora. Tive uma ideia, então a remendei e a levei para o campo. Abordei alguns médicos entre os prisioneiros. Havia muitos médicos em Auschwitz: talvez dois em cada dez judeus alemães de classe média ali fossem médicos, de todo tipo de especialidade. Toda manhã, eles eram levados de ônibus para vários hospitais e postos para trabalhar. Às vezes, eram enviados para o front, para cuidar de alemães feridos que voltavam da batalha. Nesse caso, ficavam dias fora. Eram pagos diariamente com batatas; quatro batatas cruas por um dia de trabalho. Mas você não pode comer uma batata crua, é um veneno. Então eles vinham a mim! Eu cobrava uma batata para cozinhar quatro. Isso me dava um pouco de comida extra para compartilhar com Kurt. Com frequência, à noite, eu caminhava para encontrá-lo com os bolsos cheios de batatas, e compartilhávamos duas ou três como jantar. Certa noite, quando eu estava passando pela SS, um dos guardas com fama de intimidador se aproximou para me chutar por trás, mas me virei e ele chutou meu bolso cheio de batatas. Tive que fingir estar ferido e mancar, senão ele me daria outro chute.
Avisei a Kurt: “Sinto muito, mas hoje a refeição é purê de batata!”
Posso dizer que não estaria aqui hoje se não fosse Kurt. Graças ao meu amigo, sobrevivi. Cuidávamos um do outro. Quando um de nós se machucava ou ficava doente demais para trabalhar, o outro encontrava comida e ajudava. Um mantinha o outro vivo. O tempo médio de sobrevivência de um prisioneiro em Auschwitz era sete meses. Sem Kurt, eu não teria conseguido chegar à metade disso. Quando tive dor de garganta, ele cortou seu cachecol e me deu a metade, assim pude me recuperar. As pessoas nos viam usando o mesmo cachecol e achavam que éramos irmãos; éramos próximos assim.
Toda manhã, acordávamos e, antes de trabalhar, caminhávamos em torno dos blocos e conversávamos, para manter o ânimo. Escondíamos presentinhos um para o outro atrás de um tijolo que eu escavara na parede do banheiro: sabão, pasta de dente, trapos.
Esses momentos de amizade e gratidão eram necessários para que fosse possível sobreviver àquele lugar desumano que Hitler criara. Muitos optaram por tirar a própria vida em vez de seguir em frente. Era tão comum que havia até uma frase para isso: ir para o arame. O campo de Auschwitz II–Birkenau — um subcampo do complexo de Auschwitz, que era muito maior — era rodeado por uma cerca de arame farpado eletrificada. Tocar na cerca era morte certa, e, portanto, para acabar com a própria vida sem dar aos nazistas a satisfação de matá-las, as pessoas corriam para a cerca e a agarravam. Perdi dois bons amigos assim. Eles foram nus, de mãos dadas, para o arame. Não os culpo. Sem dúvida, houve muitos dias em que eu teria preferido estar morto. Sentíamos frio, adoecíamos. Muitas vezes, eu dizia a Kurt: “Vamos. De que adianta viver, se for só para sofrer amanhã?”
Kurt se recusava. Não me deixava ir para o arame.
* * *
Este foi o meu aprendizado mais importante: a maior coisa que você fará é ser amado por outra pessoa.
Gostaria de frisar bastante essa lição, em especial para os jovens. Sem amizade, um ser humano está perdido. Um amigo é alguém que lembra a você de se sentir vivo.
Auschwitz era um pesadelo real, um lugar de horrores inimagináveis. Sobrevivi porque devia ao meu amigo Kurt a sobrevivência, viver mais um dia para poder vê-lo de novo. Basta um bom amigo para que o mundo ganhe um novo sentido. Um bom amigo pode ser seu mundo inteiro.
Isso, mais do que a comida que compartilhamos ou as roupas quentes ou os remédios, foi a coisa mais importante. O melhor bálsamo para a alma é a amizade. E, com aquela amizade, pudemos fazer o impossível.