O Homem Mais Feliz do Mundo: A Bela Vida de um Sobrevivente de Auschwitz
Capítulo 5: Abrace sua mãe.
Eu não sabia sobre Auschwitz na época, como poderia? Como algum de nós teria sido capaz de imaginar que uma coisa daquelas era sequer possível? Mas eu conhecia os nazistas o suficiente para saber que não podia voltar para um dos campos deles. Em pé em uma plataforma de trem, com guardas e engenheiros franceses, no território relativamente seguro da França, decidi fugir.
Por conta de meu treinamento, eu sabia que o engenheiro de cada estação de trem francesa tinha um pequeno estojo de ferramentas com uma chave de fenda e uma chave inglesa. Com os guardas distraídos, roubei essas ferramentas e as escondi no casaco. Fui até o maquinista e lhe perguntei, em francês, quanto tempo demoraria para o trem entrar na Alemanha. Seriam nove horas. Era o tempo que eu tinha para sair. Depois disso, não haveria esperança de liberdade.
Quando o vagão entrou em movimento, comecei meu trabalho. Desenrosquei todos os parafusos no chão, mas não percebi que as tábuas do assoalho estavam presas umas às outras. Cada peça de madeira tinha uma língua e uma ranhura que a mantinham no lugar, de modo que era impossível removê-la, mesmo depois de retirados os parafusos. Porém, eu ainda tinha uma boa chave de fenda e comecei a forçar uma tábua para soltá-la. Foram necessárias quase nove horas de trabalho árduo para soltar duas tábuas. A essa altura, estávamos a talvez dez quilômetros de cruzar a fronteira em Estrasburgo. Não restava mais tempo.
Nove de nós, aqueles que eram muito magros, contorceram-se desesperados pelo buraco no chão e escaparam. Rastejamos como aranhas, agarrando-nos ao fundo do vagão do trem. Segurei-me com as pontas dos dedos, com o máximo de esforço, até notar, pelo movimento do trem e pelas luzes visíveis à frente, que estávamos prestes a entrar em Estrasburgo, onde com certeza seríamos capturados. Gritei para os outros para que se soltassem do vagão, e caímos sobre os trilhos, deitando-nos da forma mais plana possível contra os dormentes. Cobrimos a cabeça com as mãos enquanto o trem rugia sobre nós, conscientes de que correntes soltas no fundo dos vagões poderiam nos atingir e partir nossos crânios como melões.
Então o trem se foi, e o céu aberto estava acima de minha cabeça.
Por medida de segurança, decidimos nos separar e seguir em diferentes direções. Não demorou muito para eu me perder dos outros na escuridão. Nunca mais vi nenhum deles. Procurando me orientar, calculei a direção que me levaria a Bruxelas, a mais de quatrocentos quilômetros, e fui em frente. Era perigoso demais entrar em uma estação e tentar embarcar em um trem; certamente eu seria preso. Em vez disso, decidi ficar do lado de fora da estação e saltar no primeiro trem que fosse na direção de Bruxelas. Eu tinha que me assegurar de pular para fora do trem antes que chegasse em cada estação, uma vez que soldados revistavam os vagões a cada parada e eu não sobreviveria. Assim, pulando para dentro e para fora dos trens na calada da noite, levei quase uma semana para voltar a Bruxelas.
Fui primeiro ao belo apartamento onde meus pais estavam morando, mas o homem que vivia ali não sabia nada sobre eles. Entrei em contato com um amigo da família, DeHeert, que eu esperava ser capaz de me informar o paradeiro de meus pais. Ele e meu pai eram amigos havia anos, e ele nos visitava com frequência quando eu era criança em Leipzig. Todo ano, trocávamos cartões de Natal. Ele era comissário da polícia em Bruxelas, e, devido a suas conexões com a polícia e ao fato de meu pai confiar nele, fazia parte de nosso plano de contingência. Meu pai combinara com o amigo que, se a família se separasse, ele sempre lhe informaria onde estavam os outros membros.
Eu me lembrava de onde ele trabalhava, então sabia como encontrá-lo. Encontrei-o na delegacia, e ele me levou para tomar um café na rua, onde poderíamos conversar com privacidade. Fiquei sabendo que meus pais haviam deixado o belo apartamento para se esconder fora de Bruxelas. Minha irmã Henni também estava lá, sã e salva. Ou, pelo menos, tão salva quanto possível em um país ocupado por alemães. Mas para onde mais eles poderiam ir? Os nazistas estavam em toda parte.
DeHeert me deu o endereço deles, e reencontrei minha família. Eles haviam arranjado um lugar para se esconder no sótão do sr. Toher, um homem muito idoso, perto dos cem anos, que possuía uma pensão. Era um homem bondoso e católico que não tinha a menor ideia do estado do mundo. Era velho demais para sair muito e não entendia que era ilegal abrigar judeus no sótão. Acho que não sabia nem o que era um judeu.
Portanto, tínhamos um refúgio, mas meus pais não estavam bem. A surra que meu pai sofrera nas mãos da polícia belga, mais de um ano antes, fora pior do que ele deixara transparecer. Ele enfrentou dificuldades para andar e problemas no estômago pelo resto da vida.
O sótão tinha dois quartos apertados e, embora confortáveis o bastante, estavam longe da vida que tivéramos. Não havia banheiro em nosso apartamento, tínhamos que ir ao andar de baixo no meio da noite, quando os outros pensionistas estavam dormindo. Mas meu pai fez o possível para que parecesse um lar. Encontrou belos móveis e tornou aquele espaço tão agradável e alegre quanto podia, dadas as circunstâncias.
Durante dois meses, minhas duas tias, irmãs de minha mãe, moraram conosco. Ficaram a salvo por algum tempo, mas um dia voltaram ao nosso antigo apartamento em Bruxelas para verificar a correspondência e a Gestapo estava à espera. Nunca mais as vimos. Elas foram presas e postas em um trem com destino a Auschwitz, mas nem mesmo chegaram até lá. O trem em que estavam foi desviado e fechado dentro de um túnel, onde foi possível enchê-lo de gases e matar cada homem, mulher e criança a bordo. Ninguém sabe o que aconteceu com as vítimas depois disso, os registros e testemunhos se perderam na história. É provável que nunca saibamos onde minhas tias assassinadas foram enterradas ou suas cinzas, espalhadas. Depois de todos esses anos, isso ainda me parte o coração.
* * *
Era muito perigoso ficar na rua. Tínhamos que temer qualquer pessoa que pudesse nos denunciar. Eu não gostava de sair durante o dia; meu cabelo era escuro, e, para a pessoa errada, isso me marcaria como judeu. Minha irmã, pelo menos, era muito bonita, com traços delicados e cabelo claro. Parecia “alemã” o bastante para poder sair um pouco de dia e encontrar comida para nós. Mas, ainda assim, era muito difícil. Não tínhamos dinheiro e, pior, não tínhamos vales para o alimento racionado.
A guerra criara uma escassez de tudo. Era impossível comprar comida sem os vales, que, por sua vez, eram impossíveis de obter sem cidadania belga. Em desespero, fui a dezenas de fábricas em busca de trabalho, mas ninguém me daria uma chance sem documentos. Por fim, um homem chamado Tenenbaum (um nome holandês) me empregou. Eu fazia manutenção e conserto de máquinas em sua fábrica à noite, quando não havia ninguém por perto, e ele me pagava em cigarros.
O serviço tinha que ser feito em sigilo absoluto, na calada da noite. Um toque de recolher estava em vigor, e qualquer pessoa encontrada na rua sem documentos após o anoitecer seria morta na hora. Eu caminhava até a fábrica assim que escurecia, tomando o cuidado de evitar patrulhas. Na fábrica, havia um pequeno compartimento escondido que, com jeito, dava para abrir. Toda noite, Tenenbaum deixava bilhetes indicando as máquinas que precisavam de reparo. Eu trabalhava a noite inteira às vezes, correndo contra o relógio para terminar até o amanhecer. Com o toque de recolher em vigor, não podia haver nenhuma luz acesa na fábrica, então eu cobria todas as janelas com papel preto, para que não pudessem ver que havia alguém ali dentro. Depois, voltava para casa com meu pagamento na mochila: dez maços de cigarro.
Mas o que eu faria com cigarros? Precisávamos de comida! Fui a mais de cem lojas procurando alguém que os comprasse e tive a sorte de encontrar uma mulher bondosa dona de um restaurante, a sra. Victoire Cornand. Ela concordou em vender os cigarros para mim e comprar itens essenciais. Toda noite, ao caminhar de volta para Bruxelas, eu deixava os cigarros em seu canil. Então ela saía e os vendia no mercado clandestino, e, quando eu voltava no dia seguinte, encontrava alimentos: batata, pão, manteiga, queijo. Nada de carne, porém. Minha família ficou sem carne durante um ano inteiro. Não havia carne em lugar algum, mesmo para a sra. Cornand, que tinha vales. Mas aquilo era o bastante. Manteve a mim e minha família vivos e a salvo por meses.
Certa noite, a caminho de casa, ouvi um carro se aproximando e tive que me esconder no vão de entrada de uma casa. Eu me salvei, mas só percebi que não estava sozinho tarde demais. Um cão são-bernardo gigante estava dormindo no vão de entrada (não sei como não o vi, ele era enorme, com uma cabeça que parecia de cavalo) e me mordeu feio, arrancando uma enorme porção de pele de meu traseiro. Aquele cachorro poderia muito bem ter me matado, mas, por sorte, se contentou com apenas uma mordida e depois saiu correndo pela rua. Fui mancando para casa, onde não contei a meus pais o que acontecera, já que isso só os preocuparia. Era arriscado sair de dia também, mas eu precisava de um tratamento para a ferida. De manhã, encontrei um químico que me deu uma seringa e uma dose de vacina antitetânica, que apliquei em mim mesmo. À noite, fui trabalhar como de costume e me deparei com meu chefe, que estava trabalhando até tarde. Eu lhe contei o que acontecera, e ele riu e comentou: “Melhor uma mordida na bunda do que uma bala na cabeça!”
Tínhamos que pensar em segurança o tempo todo. Meu pai cobriu a entrada para um dos quartos com uma parede falsa e pôs pranchas do lado de fora das janelas para que pudéssemos correr de um telhado para o outro caso a polícia viesse. Havia outra família de judeus, com três filhos pequenos, escondida no prédio vizinho. Um dia, os pais foram levados, e as crianças não tinham para onde ir, então nós as pegamos — dois meninos, de doze e treze anos, e sua irmã, de apenas dez. Eles estavam órfãos. Minha mãe cuidou deles como se fossem filhos dela. Sua bondade era inesgotável.
Não muito depois disso, tive uma surpresa maravilhosa: Kurt Hirschfeld estava em Bruxelas! Ele conseguira voltar depois de escapar da custódia francesa. Daquele momento em diante, nós nos tornamos irmãos. Ele não morava conosco, mas veio muitas vezes para o jantar de sexta-feira, viajando após o anoitecer e evitando as patrulhas. Morava com um primo que tinha uma esposa inglesa, e conseguíamos passar um bocado de tempo juntos no início da noite, antes de eu ir para o trabalho. A essa altura, não lhe restara muitos familiares, seus pais já haviam sido mortos em Berlim. Minha mãe adorava Kurt e o tratava como se fosse um filho.
Às vezes, quando me deito para dormir hoje em dia, as lembranças vêm, e penso que aquela foi a melhor época de minha vida. Valorizei muito esse tempo com minha família inteira junta naquele sótão. Era apertado e às vezes desconfortável, e eu dava um duro danado para apenas sobrevivermos, mas estávamos juntos. Aquela era a vida com a qual eu sonhara durante todos os dias solitários da minha existência secreta como Walter Schleif e depois em Buchenwald. Como jovem amedrontado e sozinho, era tudo o que eu queria. E, durante alguns meses maravilhosos, esse sonho se tornou realidade.
Onze meses se passaram assim. Então, um dia, Kurt desapareceu. Temi que o pior houvesse acontecido, que ele tivesse sido denunciado e preso pela SS. Estava muito preocupado com ele, mas, conforme se veria, eu também não continuaria por muito mais tempo na Bélgica.
* * *
Uma noite, no inverno de 1943, minha família foi presa pouco depois de eu sair para trabalhar. A polícia belga invadiu nosso apartamento e levou meus pais e minha irmã sob custódia. Eles poderiam ter fugido, mas tiveram muito pouco tempo e o usaram para esconder as crianças atrás da parede falsa. O menino mais novo estava resfriado, então meu pai lhe deu seu lenço para ele morder e, assim, não espirrar e alertar os guardas.
A polícia sabia que eu voltaria, então os canalhas me esperaram a noite inteira. Cheguei em casa às três e dez e havia nove policiais me aguardando no escuro, semiadormecidos. Eu os xinguei, gritei com eles: “Vocês são traidores! Vocês se arrependerão!” De nada adiantou. Levaram-me para a sede da Gestapo em Bruxelas. Minha família já estava ali. Fui posto em uma cela com meu pai, e minha mãe e minha irmã ficaram em outra. Mas houve um pequeno milagre: embora a polícia tenha me esperado a noite inteira no apartamento, não encontrou as crianças. Elas conseguiram continuar vivas. Outra família de judeus as recebeu, e elas foram mantidas a salvo por toda a guerra. Muitos anos depois, eu me reuniria a eles: tiveram uma vida longa e feliz, um na Bélgica e os outros em Israel. E tudo graças a meu pai, cuja coragem e raciocínio rápido os salvaram.
Fomos transferidos em família para um campo de trânsito em Malines, Bélgica. Ali, eles mantinham grupos de judeus juntos, esperando chegarem a uma quantidade crítica para enviá-los de trem da Bélgica para a Polônia. Os alemães eram horrivelmente eficientes em seus métodos e se certificavam de que cada trem estivesse com a capacidade máxima de 1.500 pessoas em dez vagões, cada um com 150 pessoas a bordo.
Estávamos muito preocupados enquanto aguardávamos no frio. Embora eu já tivesse ido para um campo de concentração alemão e imaginasse que conhecia o pesadelo que estava por vir, não fazia a menor ideia de como seria ruim. Mas então aconteceu algo em que não pude acreditar. Vi alguém dançando com empolgação e tentando chamar minha atenção do outro lado da plataforma e pensei que meus olhos estavam me pregando uma peça: Kurt! Ele havia sido parado pela polícia depois do toque de recolher em Bruxelas e estava sem documentos e sem cem francos, o suficiente para ser preso sob as leis contra vadiagem. Eu não podia acreditar que havia tantas maneiras de uma pessoa ser presa: judeu, alemão, vadio! Isso acontecera algumas semanas antes, mas o haviam mantido no campo até juntarem 1.500 judeus para deportação. Uma circunstância terrível, mas foi maravilhoso revê-lo.
* * *
Logo, os nazistas haviam recolhido as 1.500 almas necessárias e começaram a nos embarcar nos vagões: homens, mulheres, crianças pequenas. Ficamos apertados como sardinhas, ombro a ombro. Podíamos ficar em pé ou ajoelhar, mas não havia espaço para deitar, para tirar o casaco. Do lado de fora, estava um gelo, mas ali dentro logo ficou insuportável de quente no ar viciado.
A viagem era de nove dias e oito noites. Às vezes o trem seguia rápido, outras se arrastava. Às vezes parava por completo durante horas a fio. Não havia comida, e a água era muito pouca. O vagão era abastecido com um tambor de 166 litros de água, que deveria durar toda a viagem para as 150 pessoas. Outro tambor com o mesmo volume nos foi fornecido para ser usado como vaso sanitário, e todos nós (homens, mulheres, saudáveis ou doentes) tínhamos que usá-lo na frente de todos.
A água era o verdadeiro problema. Uma pessoa pode sobreviver algumas semanas sem comida, mas não sem água. Meu pai tomou a dianteira. De seus bolsos (até hoje não tenho a menor ideia de onde os encontrou), ele retirou um pequeno copo desmontável e um canivete suíço. Usando a faca, ele cortou uma folha de papel em 150 quadradinhos e explicou um sistema de racionamento. Todos no carro tomariam dois copos de água: um de manhã e outro à noite. Isso seria suficiente para sobreviver e fazer a água durar o máximo possível. Cada pessoa receberia um pedaço de papel ao receber o primeiro copo, e à noite, ao devolvê-lo, receberia o segundo. Se alguém perdesse o papel, não receberia mais água. Dias se passaram e o ar ficou mais viciado e fétido enquanto o balde usado como privada enchia e o balde de água esvaziava. O passar das horas era dividido pelos copos de água duas vezes por dia.
Logo, a água nos outros vagões acabou. Pelas paredes do trem, sobre o barulho dos trilhos, era possível ouvi-los berrando, uma mulher gritando: “Meus filhos estão com sede! Eles precisam de água! Meu anel de ouro por água!”
Dois dias depois, eles ficaram em silêncio.
Quando chegamos ao nosso destino, quase metade das pessoas dos outros vagões havia morrido. Em nosso vagão, apenas duas pessoas partiram. Graças a meu pai, os outros passageiros ali sobreviveram. Pelo menos até chegarem a Auschwitz.
* * *
Era fevereiro de 1944, o pior momento de um intenso inverno polonês, quando nosso trem chegou à estação ferroviária Auschwitz II–Birkenau e vi pela primeira vez a infame placa de ferro erguendo-se sobre as cercas de arame farpado: Arbeit macht frei — o trabalho liberta.
O chão estava escorregadio, com lama congelada, e as primeiras pessoas a sair do vagão tropeçaram. O carro do trem era elevado, e era preciso saltar entre o vagão e a plataforma. Estávamos todos muito fracos, e alguns doentes, mas meu pai e eu ainda nos encontrávamos fortes e nos demoramos para ajudar as mulheres, crianças e idosos a saírem do trem. Ajudamos minha mãe e minha irmã a desembarcar, e, enquanto estávamos auxiliando os outros, elas desapareceram na multidão à nossa frente conforme os nazistas arrebanhavam todos como gado, usando cassetetes, armas e cães de ataque ferozes. De repente, éramos apenas eu e meu pai, sozinhos na multidão.
Fomos levados da plataforma para um lugar onde um ho mem de jaleco branco e limpo estava parado acima da la ma, cercado pela SS. Era o dr. Josef Mengele, o Anjo da Morte, um dos piores assassinos que já existiu, um dos homens mais cruéis da história da humanidade. À medida que os prisioneiros recém-chegados passavam, ele indicava quem deveria seguir para a esquerda ou para a direita. Nós não sabíamos, mas ele estava conduzindo uma de suas infames “seleções”. Ali, os prisioneiros eram separados entre homens e mulheres, e entre aqueles que ainda estavam fortes (e seriam enviados a Auschwitz para serem usados em trabalho escravo, literalmente para trabalhar até morrer) e aqueles que seriam levados direto para as câmaras de gás. Um lado significava começar uma vida nova no inferno na Terra, e o outro, uma morte horrível no escuro.
“Por aqui”, disse Mengele, apontando para mim.
“Por ali”, disse ele para meu pai, apontando para o outro caminho, para um caminhão que estava sendo carregado de prisioneiros. Eu não queria me separar de meu pai, então me esgueirei de uma fila para a outra e segui atrás dele. Eu estava quase no caminhão quando um dos lacaios que montava guarda perto de Mengele me notou.
“Ei!”, chamou o homem. “Ele não falou para você ir por ali?” Ele apontou para a entrada de Auschwitz. “Você não vai para o caminhão.”
“Warum?”, perguntei. Por quê?
O capataz me disse que meu pai iria de caminhão porque era velho, e eu caminharia. Era uma explicação razoável, portanto não questionei mais. Se eu tivesse entrado naquele caminhão, teria sido morto. Naquele dia, o dr. Josef Mengele selecionou 148 homens jovens com bom potencial para trabalhar e nos enviou para o campo.
Marchamos para lá, onde fizeram com que nos despíssemos e jogássemos nossas roupas em uma pilha. Fomos guiados a um lavatório muito pequeno, todos os 148 apertados em um espaço minúsculo. Fui tomado pelo pavor, porque sabia o que estava prestes a acontecer. Eu vira aquilo antes, em Buchenwald. Os nazistas testariam nossa resistência. Ficaríamos trancados naquele cômodo escuro, frio e apertado durante dias. E, quando estivéssemos exaustos, os nazistas gritariam coisas para nos deixar em pânico: “Fogo!” ou “Gás!”. Ou espancariam uma pessoa para provocar pânico e agitação, prisioneiros esmagando uns aos outros. Cada um de nós recebeu um papel com um número de identificação, e nos disseram que se perdêssemos aquele número seríamos enforcados. Inventei um plano com Kurt e outros dois rapazes que conhecera em Buchenwald.
“Nós não sabemos quanto tempo ficaremos neste cômodo, mas temos que encontrar um canto para ficar”, falei. “Dois de nós montarão guarda contra a parede, e os outros dois poderão dormir atrás deles. E depois podemos trocar.”
Durante três dias e três noites, fizemos isso: dois de nós protegendo os outros dois enquanto a toda hora os nazistas incitavam o pânico e, à nossa volta, a multidão se agitava, esmagando uns aos outros no escuro. Durante três dias e três noites, houve gritos e cheiro de sangue. Quando as luzes voltaram, dos 148 que entraram ali, dezoito estavam mortos. Um homem perto de mim havia sido tão esmagado que seu olho pendia no rosto. Abri a mão para ver se ainda tinha meu número e constatei que havia sangue escorrendo na palma. De tanto eu apertar o papel, as unhas haviam perfurado a pele.
Os nazistas me levaram para um cômodo e me deram um uniforme de algodão fino listrado de azul e uma boina combinando. Nas costas, havia impresso o número do papel. Então puseram meu braço em uma tipoia para que eu não pudesse movê-lo e tatuaram com brutalidade um número em minha pele, tão fundo que jamais apagaria. Doeu muito, como ser perfurado por mil injeções. Deram-me um papel para morder, para que eu não mordesse a língua, mas esse foi o único ato de bondade que eu veria naquele dia, naquele inferno na Terra.
Dois dias depois, perguntei a um oficial da SS para onde meu pai tinha ido. Ele me pegou pelo braço, conduziu-me por talvez cinquenta metros, entre os alojamentos, e disse: “Está vendo aquela fumaça lá? É para onde seu pai foi. E sua mãe. Para as câmaras de gás e o crematório.”
Foi assim que descobri que estava órfão. Meus pais estavam mortos. Meu pai, o homem mais forte e bondoso que eu já conhecera, era agora apenas uma lembrança, sem sequer ter tido a dignidade de um enterro.
E minha mãe. Minha pobre mãe. Não tive a chance de me despedir de minha querida mãe e sinto sua falta todos os dias de minha vida. Ainda sonho com ela todas as noites, e às vezes acordo lhe chamando. Quando eu era jovem, tudo o que queria era voltar para ela, passar algum tempo com ela, comer a chalá que ela fazia nas tardes de sexta-feira, vê-la sorrir. Agora, nunca mais faria isso. Nunca mais ela sorriria. Ela se fora, assassinada, roubada de mim. Não há um dia em que eu não pense que daria tudo para vê-la só mais uma vez.
Se você tem a oportunidade hoje, vá, por favor, para casa e diga a sua mãe o quanto você a ama. Faça isso por sua mãe. E faça isso por seu novo amigo, Eddie, que não pode dizer isso à mãe dele.