O Homem Mais Feliz do Mundo: A Bela Vida de um Sobrevivente de Auschwitz

Capítulo 14: Tristeza compartilhada é metade da tristeza; prazer compartilhado é o dobro do prazer.

Tivemos uma vida maravilhosa na Austrália. Depois da minha experiência durante a guerra, parecia de fato o paraíso. Meus filhos cresceram e tiveram seus próprios filhos. Eu era muito feliz, mas, no fundo, sentia uma tristeza. Meu pai tinha 52 anos quando morreu. Meus filhos hoje são mais velhos do que ele quando morreu. Por quê? Para que todo aquele sofrimento?

Nós sofremos e morremos, e por quê? Para quê? Por causa de um louco, por motivo algum. Aqueles seis milhões de judeus que morreram, todos os inúmeros outros que os nazistas assassinaram, entre eles havia artistas, arquitetos, médicos, advogados, cientistas. Fico muito triste ao pensar no que todos aqueles homens e mulheres instruídos, profissionais, teriam alcançado se tivessem podido viver. Acredito que teríamos a cura do câncer a esta altura. Mas, para os nazistas, não éramos humanos. Eles não conseguiam ver a perda que esses assassinatos trariam ao mundo.

Durante décadas, não falei sobre minhas experiências no Holocausto. Eu não tinha vontade alguma de falar sobre isso porque me doía, e, ao sofrer, você quer se afastar daquilo, não se aproximar para encarar o que está sentindo. Quando você perde a mãe e o pai, todas as tias e os primos, quase todos que amou, como consegue falar sobre isso? Era doloroso demais para mim até mesmo pensar sobre tudo o que eu enfrentara, tudo o que havíamos perdido. Talvez eu quisesse proteger meus filhos; saber a verdade só lhes causaria dor. Então mantive a boca fechada.

Depois de muitos anos, porém, comecei a me fazer outra pergunta: por que eu estou vivo, em vez de todos os outros que morreram de forma tão terrível? A princípio, decidi que Deus, ou qualquer que fosse o poder mais supremo, havia escolhido as pessoas erradas, que eu deveria ter morrido também. Mas então comecei a pensar que talvez eu ainda estivesse vivo porque tinha a responsabilidade de falar sobre isso, e que tinha o dever de ajudar a educar o mundo sobre os perigos do ódio.

Minha esposa se interessa muito por poesia. Sempre achei que ela poderia ter se casado com um poeta, não comigo, e foi apenas sorte minha ela ter me escolhido. Trabalhar com as palavras nunca foi minha vocação. É de máquinas que eu entendo: matemática, ciência, construir coisas usando as mãos. Mas a vontade de contar minha história foi ficando mais forte.

A primeira vez que falei em público foi em uma igreja católica. Amigos próximos em Brighton-Le-Sands eram católicos devotos e me convidaram para compartilhar minha história em uma cerimônia. Foi difícil, mas me ajudou a sair um pouco da minha zona de conforto.

Em 1972, um grupo de vinte sobreviventes se reuniu e disse: “Temos que começar a falar sobre o que aconteceu conosco.” O mundo precisava saber. Resolvemos montar uma associação e, se conseguíssemos reunir dinheiro suficiente, criaríamos um lugar onde pudéssemos nos encontrar e falar. Em 1982, formalizamos esse grupo como a Australian Association of Jewish Holocaust Survivors (Associação Australiana de Judeus Sobreviventes do Holocausto). Anos depois, quando nossos filhos se envolveram, nós nos tornamos a Australian Association of Jewish Holocaust Survivors and Descendants (Associação Australiana de Sobreviventes e Descendentes Judeus do Holocausto). Então começamos a procurar um lugar para fundar o Sydney Jewish Museum, o museu judaico de Sydney.

Um dos integrantes de nossa associação era amigo de John Saunders, um empresário muito bem-sucedido que cofundara o Westfield Group com Frank Lowy. Isso aconteceu no auge do sucesso cada vez maior do Westfield Group, quando eles estavam construindo as Westfield Towers na William Street. O sr. Saunders doou seis milhões de dólares para fundar o museu no Maccabean Hall, em Darling-hurst, que foi criado em 1923 para celebrar os soldados judeus que estiveram na Primeira Guerra Mundial. Nascia assim o Sydney Jewish Museum.

Em 2007, expandimos o âmbito do museu. Hoje, ele apresenta não apenas a história do Holocausto, mas a cultura e história judaica na Austrália, que remonta à First Fleet, primeira frota britânica a conduzir os colonos, na qual havia dezesseis judeus.

Em 2011, estabelecemos um grupo menor, no qual sobreviventes podiam se encontrar e compartilhar experiências. Isso era à parte da associação, que era aberta a todos os judeus que se dedicassem à memória do Holocausto. Nosso grupo era apenas para sobreviventes. Nós o chamamos de Focus, e era voltado para pessoas que haviam passado pela experiência dos campos de concentração, que sabiam o que era encarar a morte todos os dias, sentir o cheiro do crematório no ar enquanto os amigos eram assassinados por toda parte. Aqueles que perguntaram “Aonde devo ir para estar a salvo?” e constataram que não havia para onde ir. Que foram traídos, atormentados e quase morreram de fome.

Formamos esse grupo por causa do sentimento de libertação que ele nos deu para finalmente contarmos nossas histórias. Não consigo descrever a sensação de estar na companhia de alguém que esteve lá, que sentiu o mesmo que você, que sabe por que você reage às coisas do modo como reage. Outras pessoas podem tentar, e isso é admirável, mas elas jamais entenderão de fato, uma vez que não tiveram essa experiência. Não importa quantos livros elas leiam ou o quanto se esforcem, isso é algo que apenas nós podemos entender, aqueles que sobreviveram ao Holocausto.

Eu vivia em um país livre, e esse país se tornou minha prisão. Tenho que compartilhar isso com pessoas que sofreram o mesmo. Há um ditado: tristeza compartilhada é metade da tristeza; prazer compartilhado é o dobro do prazer. Há um poema na minha língua materna que expressa nossos sentimentos:

Menschen sterben (Pessoas morrem)

Blumen welken (Flores murcham)

Eisen und stahl bricht (Ferro e aço quebram)

Aber unsere frundshaft nicht (Mas não nossa amizade)

Há sobreviventes que lhe dirão que o mundo é ruim, que todas as pessoas têm o mal dentro delas, que não encontram alegria na vida. Essas pessoas não se libertaram. Seus corpos alquebrados podem ter saído dos campos 75 anos atrás, mas seus corações partidos permaneceram ali. Conheço sobreviventes que nunca tiveram a sorte de sentir a liberdade que advém de largar o fardo do sofrimento para ser capaz de sustentar a felicidade. Até para mim, foram necessários muitos anos para perceber que, enquanto eu ainda tivesse medo e dor no coração, não seria livre de verdade.

Não peço a meus companheiros sobreviventes para perdoar os alemães. Eu mesmo não poderia fazer isso. Mas tive sorte, amor e amizade o bastante na vida para ter sido capaz de me desprender da raiva que sentia por eles. Não faz bem se prender a ela. A raiva leva ao medo, que leva ao ódio, que leva à morte.

Muitos de minha geração criaram seus filhos com a sombra desse ódio e desse medo. Não faz bem aos filhos ensinar-lhes a ter medo. A vida é deles! Eles deveriam celebrar cada minuto dela. Você os trouxe a este mundo, deve apoiá-los, ajudá-los, não os derrubar com pensamentos negativos. Essa é uma lição importante que nós, sobreviventes, precisamos entender. Se você não é livre em seu coração, não tire a liberdade de seus filhos. Sempre digo aos meus: “Eu trouxe vocês a este mundo porque queria amá-los. Vocês não me devem nada além disso. Tudo o que preciso de vocês são sua afeição e seu respeito.” É disto que me orgulho: minha família é meu maior feito.

Não há nada tão maravilhoso quanto ver sua família crescer e prosperar e sentir a felicidade dos filhos quando eles próprios se tornam pais. É um vínculo especial. Quando me tornei avô, entendi, de verdade, as coisas mais importantes. Vi a alegria que meu filho teve ao segurar seu filho e ao vê-lo crescer e se tornar uma criança, depois um homem, obter educação, apaixonar-se, construir uma vida... A mesma alegria que senti ao ver meus filhos. Sempre digo que eles não me devem nada, mas eles escutam? Não! Eles desobedecem e me dão tudo o que eu poderia pedir.

Todos os dias, eu me sento à mesa para o café e me encontro cercado de fotos de meus belos filhos, Michael e Andre, suas esposas, Linda e Eva, meus netos, Danielle, Marc, Phillip e Carly, e meus bisnetos, Lara, Joel, Zoe, Samuel e Toby. Neles, vejo a mim mesmo e a minha querida Flore. E também meu pai e minha mãe: vejo o amor que eles me deram em seu breve tempo na Terra. E não há palavras para descrever quão maravilhoso é isso. Os filhos seguirão adiante e terão as próprias lutas e os próprios triunfos; crescerão, construirão e retribuirão a esta sociedade que tanto nos ofereceu. É por isso que vivemos. É por isso que trabalhamos e nos esforçamos para transmitir o melhor de nós à geração seguinte.

A bondade é a maior de todas as riquezas. Pequenos atos de bondade duram mais do que uma vida. Essa lição, de que bondade, generosidade e fé nos homens são mais importantes que dinheiro, é a primeira e a maior que meu pai me ensinou. E, com isso, ele sempre estará conosco, e viverá para sempre.

São estas as frases segundo as quais tento viver e que gosto de incluir quando falo em público:

Que você tenha sempre muito amor para compartilhar,

Saúde de sobra,

E muitos bons amigos que queiram o seu bem.