O Homem Mais Feliz do Mundo: A Bela Vida de um Sobrevivente de Auschwitz
Capítulo 4: Você pode encontrar bondade em todo lugar, até mesmo em estranhos.
Meu pai deveria me levar a uma fábrica da aeronáutica em Dessau, onde eu fora requisitado como ferramenteiro. Em vez disso, fez uma curva e foi direto para a fronteira. Iríamos fugir do país, aquela talvez fosse nossa única chance. Minha mãe e minha irmã, ainda em Leipzig, iriam em seguida, e nos reuniríamos na Bélgica.
Não tínhamos bagagem e levávamos pouco dinheiro, porque seria um risco grande demais se os alemães revistassem o carro e se deparassem com malas para uma viagem. Seguimos para a cidade fronteiriça de Aachen, onde encontramos, em um restaurante, um contrabandista de pessoas, ao qual pagamos para nos escoltar da Alemanha à Bélgica. Abandonamos o carro alugado e, com um pequeno grupo de fugitivos e o contrabandista ao volante, seguimos pela noite ao longo de uma estrada na floresta escura, a fim de alcançar uma parte isolada e pouco habitada da fronteira. O contrabandista prometera nos transportar até a Bélgica, mas, em vez disso, nos levou para a Holanda, onde nos reunimos com outros sete fugitivos na escuridão, à beira de uma estrada. Aquelas estradas, na época, eram motivo de inveja na Europa: largas, bem construídas e elevadas um metro e meio acima de valas de drenagem que ladeavam a via.
Nós nos agachamos naquela vala, aguardando uma oportunidade para fugir. O contrabandista nos avisou que logo um caminhão passaria por ali com um holofote montado na traseira. Teríamos que esperar o caminhão passar e depois correr o mais rápido possível antes que a luz pudesse ser virada para trás para nos encontrar. Após cruzarmos a fronteira, deveríamos continuar seguindo em velocidade máxima até estarmos a dez quilômetros da Holanda. Depois disso, legalmente, estaríamos na Bélgica, onde o regime nazista não tinha poder algum para nos capturar. Muitos judeus que haviam fugido para a Holanda foram posteriormente devolvidos à Alemanha, enquanto a Bélgica estava aceitando mais refugiados tentando escapar da Alemanha e da perseguição que se agravava.
Eu estava nervoso, suando e muito preocupado com a possibilidade de não conseguirmos escapar, mas meu pai estava calmo. Ele me instruiu a ficar perto dele e disse que me agarraria se alguma coisa desse errado. Conforme previsto, logo o caminhão veio roncando pela noite, fazendo um bocado de barulho. A luz ofuscou minha vista, mas senti uma mão agarrando a parte de trás de meu cinto, os dedos segurando firme. É meu pai com medo de me perder na correria, disse a mim mesmo. Esperamos e, segundos depois de o caminhão passar, começamos a correr junto ao grupo, chegando à segurança da vala no lado belga da estrada segundos antes de o holofote ser virado para trás. Percebi então, para meu horror, que a pessoa que segurava meu cinto não era meu pai, mas uma das mulheres do grupo. Meu pai estava atrás de nós. Ele havia parado para ajudar uma mulher a subir o barranco e estava no meio da estrada quando a luz foi virada para trás e o encontrou. Ele teve que tomar uma decisão em uma fração de segundo: voltar para a Holanda e para uma possível captura ou correr para a Bélgica e pôr em risco aqueles de nós que havíamos escapado. Fez a escolha corajosa de virar e desapareceu, voltando para a Holanda.
Fiquei muito preocupado, mas não tinha escolha. Precisava seguir em frente. Havíamos elaborado um plano de nos encontrar em um hotel no vilarejo belga de Verviers caso nos separássemos. Aluguei um quarto e esperei, ansioso, uma noite e um dia, até que meu pai apareceu, muito machucado.
Ele havia sido capturado pela gendarmaria (polícia belga) tentando cruzar a fronteira de novo, e o haviam espancado. Tinha muito pouco dinheiro consigo, mas ofereceu à polícia suas abotoaduras de platina se o deixassem passar. O chefe examinou as abotoaduras, disse que não eram de platina, apenas folheadas, e o entregou à Gestapo. Ele estava sob custódia, em um trem que voltava para os campos, quando se soltou, puxou o freio de emergência, parando o trem, e escapou. Naquela noite, conseguiu atravessar a fronteira, e nos reunimos no hotel.
Na manhã seguinte, viajamos para Bruxelas, onde minha família alugara um apartamento bem no coração da cidade. Era um apartamento muito bom, confortável, com espaço suficiente para minha mãe e minha irmã. Mas elas não vieram. Deveriam ter feito a mesma travessia na fronteira juntas, mas haviam sido presas e estavam na cadeia em Leipzig. Quando ligamos para falar com elas, a Gestapo atendeu o telefone. Disseram-me que se eu não voltasse de imediato matariam minha mãe.
O que fazer? Como eu poderia abandonar minha mãe? Como poderia colocá-la em tamanho perigo? Perguntei se poderia falar com ela um minuto, e, no instante em que chegou ao telefone, ela gritou: “Não volte! Isso é uma armadilha! Vão matar você!” E a ligação foi encerrada.
Só soube depois que o oficial da Gestapo pegou o telefone e o usou para bater no rosto de minha pobre mãe, quebrando seu osso zigomático. O machucado nunca sarou direito, e, pelo resto da vida, ela sofreu com uma maçã do rosto afundada, a carne inflamada e enrugada, que ela precisava cobrir com um curativo.
Você pode imaginar o horror que senti? Corri para fora em fúria e pânico, disposto a voltar à Alemanha de imediato. Insisti que não seria capaz de deixar minha mãe sofrer. Meu pai me proibiu, e brigamos feio por isso. Ele estava convencido de que, se eu me entregasse, logo estaria morto.
“Você não vai!”, disse ele em lágrimas. “Não posso perder você também.”
Minha mãe ficou três meses na cadeia, até enfim conseguir negociar sua libertação e a de minha irmã. No instante em que saiu, pegou um trem com ela para Aachen, na fronteira com a Bélgica, onde encontraram o contrabandista de pessoas que levara a mim e meu pai à fronteira. Nós nos reuniríamos todos em Bruxelas.
Mas, quando elas chegaram, eu já não estava mais lá.
* * *
Duas semanas.
Fiquei livre por duas semanas antes de ser preso pela gendarmaria belga. Dessa vez, não por ser judeu, mas por ser um alemão que cruzara a fronteira de maneira ilegal. Eu não pude acreditar naquilo. Na Alemanha, eu não era alemão, era judeu. Na Bélgica, eu não era judeu, mas alemão. Eu só saía perdendo. Fui preso e levado ao campo de refugiados de Exarde com outros quatro mil alemães.
Dessa vez, eu estava cercado por todo tipo de alemão, em sua maioria refugiados da Alemanha de Hitler: socialistas, comunistas, homossexuais, pessoas com deficiência. As condições no campo eram, se não agradáveis, incrivelmente civilizadas após a selvageria e o sadismo de Buchenwald. Tínhamos certas liberdades e podíamos nos afastar até dez quilômetros, desde que voltássemos até certo horário. Contávamos com nossas próprias camas e três refeições por dia; toda manhã, pão e margarina com geleia ou mel. Alimentavam-nos bem, e era possível levar uma vida decente. O mais difícil era não ter contato com minha família. Eles estavam na Bélgica, mas não havia como me comunicar com eles sem alertar as autoridades sobre sua localização.
Fiz uma solicitação ao governo belga, explicando minha situação. “Não sei por que estão me colocando em um campo por eu ser alemão. Não estou com os nazistas. Jamais colaborei com os nazistas, mas peço permissão para aperfeiçoar meu francês. Estou disposto a ensinar engenharia mecânica aos jovens de seu país.” Eles aceitaram e me deram uma carteira de identidade que me permitia, todos os dias, tomar o trem para Ghent, uma bela cidade antiga na região flamenga da Bélgica, a cerca de vinte quilômetros do campo. Eu precisava de uma permissão especial para ir. Toda manhã, às sete horas, eu caminhava até a delegacia de polícia, tinha meus documentos de identidade carimbados e então viajava até a universidade para lecionar. Eles haviam me colocado como instrutor na faculdade de engenharia mecânica. Tive tempo suficiente para aprender flamengo, melhorar o francês e fazer muitas boas amizades na universidade.
Também fiquei amigo de alguns de meus colegas prisioneiros. E dá para acreditar que meu amigo de Buchenwald, Kurt, estava ali? Ele fugira do campo e seguira para Bruxelas, onde fora preso como refugiado. Ele não trabalhava, mas toda noite nos encontrávamos e passávamos algum tempo juntos. Também ficamos amigos de outro judeu, Fritz Lowenstein, um marceneiro talentoso que me incentivou a tirar o maior proveito possível da situação e pôr meu conhecimento em prática.
* * *
Ficamos ali quase um ano, até 10 de maio de 1940, quando a Alemanha invadiu a Bélgica e se tornou arriscado para os refugiados ficar ali. Entre os prisioneiros, havia vários refugiados políticos que tinham sido políticos alemães importantes contrários à ascensão do partido nazista ao poder. Eles planejavam retornar ao país após a queda do Terceiro Reich e reconstruir o que sobrara da democracia alemã. Um deles era um companheiro muito gentil e inteligente chamado Artu Bratu, que fora do Partido Social-Democrata da Alemanha durante a República de Weimar.
Ele era um líder muito calmo e inspirador e, embora fosse um eLivros político, era dotado da esperança inextinguível de um dia voltar à Alemanha e ajudar a restaurar a sanidade. Pensei comigo mesmo: eu seguirei esse homem, o que quer que aconteça. Ele é um sobrevivente.
Foram feitos planos para nos levar para a Grã-Bretanha, e um navio de refugiados foi providenciado para nos pegar no porto belga de Ostend. Para o nosso azar, o oficial belga encarregado era um colaborador e queria que caíssemos nas mãos dos nazistas. Ele se assegurou de que, quando chegássemos a Ostend, o navio tivesse partido sem nós. Sem saber o que fazer em seguida, Bratu, agora nosso líder na ausência de outro, decidiu nos levar para Dunquerque, a quase cinquenta quilômetros. A cidade portuária francesa teria navios e ofereceria uma possível via para escapar do continente europeu. Começamos a caminhar pelo litoral em direção à França, na esperança de nos salvar.
A viagem para Dunquerque levou cerca de dez horas. Enquanto caminhávamos, tropas alemãs atravessavam a França e a Bélgica: demorou pouco mais de duas semanas para os tanques Panzer alemães esmagarem os exércitos dos Aliados e os colocarem em retirada, e chegamos justo no meio da lendária evacuação de Dunquerque. A tática do blitzkrieg, ou guerra-relâmpago, havia derrubado a resistência militar dos Aliados, cujas tropas estavam agora presas na praia daquela cidade, esperando para serem resgatadas por uma frota civil enquanto eram submetidas a um forte bombardeio vindo das tropas alemãs.
Muitos milhares de soldados Aliados estavam mortos, seus corpos estendidos no chão, e o ar era só tiros e explosões. Os soldados continham os alemães com armas de fogo pequenas enquanto eram removidos aos poucos, um pequeno navio por vez. Eles tinham apenas doze horas para pegar os soldados que eram capazes de caminhar até a praia, os mortos tinham que ser abandonados. Nosso grupo maltrapilho de mais ou menos doze pessoas implorou para entrar no navio, mas o capitão se recusou.
“Só podemos levar soldados ingleses”, disse ele. “Sinto muito.”
Fritz teve uma ideia. Encontrou o corpo de um pobre soldado inglês que tinha mais ou menos o seu tamanho e lhe tirou o uniforme. Conseguiu passar pelos oficiais ingleses e entrar em um barco rumo à segurança. Tentei fazer o mesmo. Um jovem soldado inglês fora baleado e morrera encostado em uma tora. Sentindo-me muito mal, desabotoei seu casaco para pegá-lo. Quando movi o corpo para despir a parte de baixo, vi que a bala explodira em seu estômago e não consegui levar aquilo adiante; não consegui me forçar a tirar as roupas daquele pobre rapaz. Uma coisa era improvisar e ser engenhoso, outra era roubar daquele pobre soldado morto a dignidade, a última coisa, a única coisa que a guerra não lhe tomara.
Fomos pegos entre os exércitos alemão e o dos Aliados; armas pesadas se aproximando, bombardeiros alemães berrando no alto. No caos da evacuação, eu me perdi do grupo, e então, de repente sozinho, decidi ir a pé para o sul da França, onde poderia haver outra via de fuga. Na estrada, juntei-me a milhares de refugiados, uma longa fila que parecia se estender até a França.
* * *
Caminhei até o sul da França.
Durante dois meses e meio, eu caminhava do amanhecer ao pôr do sol. Demorei muito tempo porque me mantive em estradas secundárias, passando por vilarejos, onde havia menos chance de me deparar com soldados nazistas e oficiais da SS à procura de prisioneiros fugitivos.
Devo lhe dizer: nunca encontrei tanta bondade vinda de estranhos quanto nos vilarejos da França. Eu dormia ao relento (em vãos de entrada e lugares escondidos de áreas públicas) e acordava muito cedo para voltar a caminhar, a fim de não levantar suspeitas de autoridades. Agora os nazistas detinham o poder por toda a França, com colaboradores trabalhando junto às forças de ocupação. Com frequência, ainda estava escuro quando eu começava a andar, mas os camponeses me avistavam e chamavam em francês: “Você comeu? Está com fome?” E me convidavam a entrar e compartilhar seu café da manhã. Eram pessoas que tinham muito pouco, agricultores pobres que já sofriam as dificuldades da guerra, mas se dispunham a compartilhar tudo o que tinham comigo, um estranho... e um judeu. Elas sabiam que estavam arriscando a vida ao me ajudar, e ainda assim o faziam. Mesmo quando estavam eles próprios famintos, esses camponeses partiam o pão e me faziam levar um pouco para a viagem. Nem uma única vez tive que mendigar ou roubar comida para sobreviver. Depois da guerra, ficaríamos sabendo que, entre todos os países da Europa, o povo francês fora um dos mais corajosos e íntegros, escondendo e protegendo judeus e outras minorias perseguidas.
Em Lyon, havia tantos refugiados que as estradas foram fechadas e não pude avançar. A essa altura, a exaustão e a falta de comida haviam me esgotado, eu estava doente e ficando muito fraco. Fui a um banheiro público me limpar. O habitual naquela região era pagar um franco ao atendente do banheiro, que lhe dava uma toalha e limpava as instalações depois que você as usava. Paguei meu franco e a atendente pegou meu casaco e me levou ao banheiro, reluzente de tão limpo. Eu acabara de sentar no vaso sanitário quando a porta foi aberta de novo, aos chutes, e um grupo de mulheres furiosas que vinha passando me arrastou para fora, minhas calças ainda abaixadas, chutando-me, cuspindo em mim e gritando: “Paraquedista!” A Alemanha vinha despejando espiões por toda a Europa. Eles desciam de paraquedas por trás das linhas inimigas com um rádio e depois usavam o aparelho para instruir bombardeiros sobre onde mirar seus ataques.
A mulher revirara meus bolsos ao pendurar meu casaco e encontrara meu passaporte alemão. Ela pensou que eu fosse um espião alemão sabotador! A sorte não estava a meu favor naquele dia. Por acaso, um policial francês estava passando e se aproximou para ver o que era aquela agitação. Fui preso mais uma vez, agora como alemão, não como judeu.
Fui mandado para um campo de concentração chamado Gurs, perto de Pau, no sudoeste da França. Era muito básico, muito primitivo. Fora construído às pressas, em 1936, para os espanhóis que fugiam da Guerra Civil Espanhola. Mas, de novo, eu tinha uma cama e três refeições. Passei sete meses ali e poderia ter sobrevivido à guerra numa existência miserável, porém digna, se não fosse uma reviravolta cruel do destino. Hitler estava cada vez mais obcecado por judeus na Europa, em particular aqueles que fugiram para territórios que posteriormente ele invadira. Muitos de nós éramos profissionais com alto grau de instrução, como médicos e cientistas, as pessoas das quais Hitler precisava para desenvolver a ciência e a indústria em seu Estado. E ele nos queria de volta.
O chefe de Estado da França de Vichy, o colaborador Philippe Pétain, queria libertar os prisioneiros de guerra franceses qualificados, e os judeus estrangeiros que se encontravam na França eram sua moeda de troca.
Eu não sabia o que estava acontecendo até o comandante do campo me chamar ao seu escritório. Ele me informou que eu seria mandado embora junto aos demais judeus. Até aquele dia, eu nem sequer sabia que havia outros judeus no campo. Dos quase quinze mil prisioneiros, 823 foram embarcados em trens, 35 em cada vagão. Quando estávamos sendo encaminhados pela plataforma, perguntei a um dos guardas para onde o trem estava indo, e ele me disse que iríamos para um campo de concentração na Polônia. Foi a primeira vez que ouvi o nome Auschwitz.