O Homem Mais Feliz do Mundo: A Bela Vida de um Sobrevivente de Auschwitz

Capítulo 2: Fraqueza pode se transformar em ódio.

Cometi o maior erro de minha jovem vida em 9 de novembro de 1938.

Depois que me formei, aceitei um trabalho fazendo instrumentos médicos de precisão e fiquei em Tuttlingen por vários meses. Era o aniversário de vinte anos de casamento de meus pais, e resolvi surpreendê-los com uma visita. Comprei uma passagem e fiz a viagem de nove horas de trem até a cidade onde nasci. Pela janela, vi passarem os campos e as florestas da Alemanha.

Nos confins protegidos da escola, eu não tivera acesso algum a jornais ou rádio. Não tinha a menor ideia do que acontecera no país que eu tanto amava, nem da crescente nuvem de antissemitismo que se instalara sobre a terra.

Cheguei e encontrei a casa escura e trancada. Minha família desaparecera. Eu não sabia que eles haviam partido em busca de um esconderijo, acreditando que eu estava longe e em segurança. Eu ainda tinha minha chave, senão teria que dormir na sarjeta. Abri a porta, e ali estava minha dachshund, Lulu. Na mesma hora, ela saltou e lambeu minhas pernas. Estava feliz, e eu também.

Fiquei muito preocupado com minha família. Não fazia sentido para mim que eles tivessem saído no meio da noite. Mas eu estava muito cansado e de volta à cama de minha infância depois de cinco anos fora. Não parecia possível que algo ruim pudesse me acontecer ali.

Deitei-me e fiquei ouvindo ao longe barulhos na rua. Não fazia a menor ideia do que estava acontecendo, de que, do outro lado da cidade, sinagogas estavam sendo queimadas. Por fim, exausto, adormeci.

Acordei às cinco da manhã ao som da porta sendo aberta a chutes. Dez nazistas invadiram a casa, arrancaram-me da cama e, juro, espancaram-me até quase me matar. Meu pijama logo ficou ensopado de sangue. Um deles pegou a baioneta, cortou minha manga e começou a entalhar uma suástica em meu braço. No primeiro corte, minha cachorrinha saltou na direção dele. Não sei se o mordeu ou só o assustou, mas o nazista me soltou e, usando a baioneta, apunhalou e matou minha pobre Lulu, gritando: “Ein Juden Hund!” Cachorro judeu.

Pensei: “Eddie, este é o último dia da sua vida. Hoje você vai morrer.”

Mas eles não estavam ali para me matar, apenas para me bater e me humilhar. Depois do primeiro ataque, eles me arrastaram para a rua e me fizeram testemunhar a destruição de nossa casa de duzentos anos, o lar onde gerações de minha família haviam crescido. Naquele momento, perdi a dignidade, a liberdade e a fé na humanidade. Perdi tudo pelo qual vivia. Fui reduzido de homem a nada.

Aquela noite agora é conhecida como a Kristallnacht, a Noite dos Cristais, assim chamada por causa dos cacos de vidro que encheram as ruas depois que lojas de judeus, casas e sinagogas foram saqueadas pelos camisas-pardas, a força paramilitar nazista. As autoridades alemãs nada fizeram para impedir isso.

Naquela noite, alemães civilizados cometeram atrocidades por toda Leipzig, por todo o país. Quase toda casa e negócio judeu em minha cidade foi vandalizado, queimado ou destruído de alguma outra forma, assim como nossas sinagogas. Assim como nosso povo.

Não foram apenas soldados nazistas e criminosos fascistas que se voltaram contra nós. Cidadãos comuns, nossos amigos e vizinhos desde antes de eu nascer, participaram da violência e dos saques. Quando a multidão acabou de destruir as propriedades, cercou os judeus (muitos deles crianças pequenas) e os jogou no rio onde eu patinava na infância. O gelo estava fino, e a água, congelante. Homens e mulheres com os quais eu crescera ficaram às margens do rio, cuspindo e zombando enquanto as pessoas se debatiam na água.

“Atirem neles!”, gritaram. “Atirem nos cães judeus!”

O que acontecera com meus amigos alemães para que se tornassem assassinos? Como é possível criar inimigos a partir de amigos, gerar tanto ódio? Onde estava a Alemanha da qual eu me orgulhava tanto de fazer parte, o país em que nasci, o país de meus ancestrais? Em um dia, éramos amigos, vizinhos, colegas; no outro, diziam-nos que éramos inimigos mortais.

Quando penso naqueles alemães se deleitando com a nossa dor, tenho vontade de lhes perguntar: “Vocês têm alma? Vocês têm coração?” Aquilo foi uma loucura, no verdadeiro sentido da palavra: pessoas a princípio civilizadas perderam por completo a capacidade de diferenciar o certo do errado. Cometeram atrocidades terríveis e, pior, gostaram disso. Pensaram que estavam fazendo a coisa certa. Nem os que não conseguiam enganar a si mesmos a ponto de acreditar que nós, judeus, éramos o inimigo fizeram algo para impedir a multidão.

Se as pessoas tivessem se manifestado na Kristallnacht e interferido, dizendo “Chega! O que vocês estão fazendo? O que há de errado com vocês?”, o curso da história teria sido diferente. Mas elas não fizeram nada. Estavam assustadas. Foram fracas. E sua fraqueza permitiu que fossem manipuladas rumo ao ódio.

Quando me puseram em um caminhão para me levar, o sangue se misturando às lágrimas em meu rosto, deixei de ter orgulho de ser alemão. Nunca mais.