O Homem Mais Feliz do Mundo: A Bela Vida de um Sobrevivente de Auschwitz

Capítulo 13: Todos nós fazemos parte de uma sociedade maior, e o trabalho é nossa contribuição para uma vida livre e segura para todos.

Nós não podíamos ficar na Bélgica. Tecnicamente, eu ainda era um refugiado e, a cada seis meses, tinha que solicitar minha permanência. Éramos muito felizes ali, mas não dava para construir uma vida a cada seis meses. Kurt se mudara para Israel com a esposa, e minha irmã fora para a Austrália, casou e começou a própria família.

Fiz duas solicitações, uma para a Austrália e a outra pa ra a França. Em março de 1950, recebi uma permissão para morar e trabalhar na Austrália. Viemos para Sydney no navio a vapor MS Surriento, que, de Bruxelas a Paris, depois de Paris a Gênova e então para a Austrália, demorava um mês. Chegamos a Sydney em 13 de julho. As despesas de viagem para nós três somavam mil libras esterlinas, e foram pagas pelo American Jewish Joint Distribution Committee (Comitê Judaico-Americano de Distribuição Conjunta), uma organização humanitária judaica também conhecida como Joint. Prometi pagá-los o que devia e o fiz assim que pude. Eles ficaram muito surpresos e disseram que não eram muitas as pessoas que os reembolsavam, mas era algo que eu queria fazer. Com esse dinheiro poderiam ajudar outra pessoa, assim como eu havia sido ajudado.

Chegamos a Sydney em uma quinta-feira e fui me apresentar direto no escritório da Elliot Brothers, na O’Connell Street, onde eu trabalharia fazendo instrumentos médicos. Levei minha esposa e meu filho, já que não tínhamos para onde ir.

O chefe riu.

“Só preciso de uma pessoa para fazer os instrumentos, não de três!”, disse ele. Então, trouxe as plantas de uma máquina muito complicada, de um tipo que era fabricado na Europa antes de a indústria ser destruída pela guerra.

“Ah, sim”, comentei. “Muito fácil.”

Comecei na segunda-feira seguinte.

* * *

Aquele inverno em Sydney foi um dos mais úmidos da história. Nos três meses seguintes à nossa chegada, não parou de chover. Acho que vi mais sol em Auschwitz. Minha esposa e eu ficamos muito desanimados. Havíamos visto fotos de Sydney com belas praias e palmeiras, e, em vez disso, a cidade ficou totalmente fria e molhada por semanas e semanas. Tudo o que tínhamos ficou úmido. Eu voltava do trabalho, pendurava a camisa para secar e a umidade do ar penetrava nela. Começamos a nos perguntar se havíamos cometido um erro.

Mas então o sol apareceu, e foi encantador.

Encontramos um quarto em uma casa muito boa no subúrbio de Coogee, dividindo-a com uma família polonesa, os Skorupa, primos de meu pai. Eles não me conheciam, nunca tinham ido à Alemanha, mas foram muito gentis e generosos conosco. Harry e Bella Skorupa eram um casal humilde e modesto com três filhos: Lily, Ann e Jack. Eles estavam dispostos a amparar nossa família e nos receber em sua casinha em Coogee. Abriram mão das próprias camas para nos acomodar, e ficamos com eles por vários meses.

Harry Skorupa era alfaiate, e nos tornamos melhores amigos após um acidente terrível. Ele adormeceu sobre uma garrafa de água quente, e seus filhos estavam tentando tirá-la de baixo dele. Cada um deles fez força em lados diferentes, e de repente a garrafa explodiu. Por sorte, as crianças não se machucaram, mas Harry sofreu queimaduras graves, o que era complicado, porque ele tinha diabetes.

Eu o levei ao hospital. A lesão era terrível, toda a pele de suas costas se soltara. Ele precisou de tratamentos regulares para se recuperar: toda manhã, de pijama, eu o levava ao hospital e voltava para dormir mais uma hora antes de ir trabalhar. Durante o longo percurso, acabamos nos aproximando.

A Austrália foi generosa conosco. Não muito tempo depois de chegarmos, eu estava em um hotel em Botany, socializando com alguns amigos do trabalho, e um homem chamado Walter Rook se aproximou, disse-me que eu parecia ser novo no país e perguntou se eu estava à procura de uma casa para comprar. Ele disse que tinha um terreno em Brighton-Le-Sands, muito perto da praia, onde estava construindo duas casas idênticas. Será que eu gostaria de comprar uma delas? Eu lhe disse que não tinha dinheiro, e ele retrucou que isso não era problema: ele me ajudaria a conseguir um bom crédito e a me estabelecer na Austrália.

Nós nos mudamos em novembro de 1950, e nunca olhamos para trás. Onze meses depois, a mãe de Flore, de quem eu gostava muito, veio da Bélgica para a Austrália para morar conosco, e construímos um quarto a mais na casa a fim de acomodá-la. Ela também prosperou na Austrália, firmando-se como costureira e reunindo uma clientela de mulheres muito glamourosas em Sydney. Senhoras de toda a cidade a procuravam, uma vez que havia muito poucas costureiras europeias.

Naqueles anos, Flore e eu também recebemos nosso se gundo maravilhoso filho, Andre. Eu pensava que nunca seria tão feliz quanto no dia em que segurei pela primeira vez meu filho mais velho, mas Andre provou que eu estava errado. Ao segurá-lo, ao ver seu irmão o olhar pela primeira vez, achei que meu coração não fosse aguentar tanta felicidade. Isso fez todo o sofrimento que eu passara parecer um pesadelo distante. Que coisa maravilhosa, uma alegria perfeita, para acrescentar à minha família crescente.

* * *

Em 1956, passei pelo Coogee Hotel e eles estavam em reforma, jogando fora todo o bar e os painéis de revestimento. Comprei tudo por uma pechincha e os instalei em minha casa, ganhando um pub maravilhoso em meu próprio lar! E ainda usei o balcão para fazer duas escrivaninhas para meus filhos. Comecei a pensar na Austrália como o paraíso do trabalhador. Não podia acreditar nas oportunidades que o país oferecia.

Decidi que precisava fazer algo que a sociedade australiana valorizasse muito. Olhando ao redor, reparei que todo australiano adorava uma coisa: automóveis. Embora eu tivesse pouca experiência com carros, sabia que era capaz de adaptar minhas habilidades de engenharia e consegui um emprego em uma empresa especializada em consertar Holdens. Com minha afinidade por máquinas, logo aprendi a consertar carros e fazer a manutenção deles. De vez em quando, encontrava algo que não entendia, então levava o manual de instruções para o banheiro a fim de aprender em segredo a resolver o problema!

Em meados dos anos 1950, eu tinha experiência suficiente para abrir meu próprio negócio, então comprei um posto de gasolina na Botany Road, em Mascot. Pendurei uma placa: “Posto do Eddie.” Flore e eu trabalhávamos em equipe: eu consertava os carros, ela os abastecia, calibrava pneus, cuidava dos funcionários, vendia peças sobressalentes e cuidava dos registros contábeis. Em alguns anos, ampliamos o negócio até empregarmos uma equipe inteira de profissionais de automóveis. Oferecíamos consertos, lanternagem, serviço elétrico e tínhamos até um salão de carros novos que vendia automóveis da Renault.

Mas não se pode trabalhar com as mãos para sempre. Em 1966, vendemos a oficina, e eu tirei umas bem merecidas férias de sete meses na Europa e em Israel, para visitar parentes e amigos. Na volta, tornei-me vendedor de imóveis, empregado por um agente em Bondi Beach. Estudei para obter minha licença de corretor e então abri minha própria agência imobiliária, a E. Jaku Real Estate.

Trabalhamos ali até ultrapassarmos a marca dos noventa anos de idade, quando, por fim, decidimos que era hora de nos aposentarmos. Durante décadas, Flore e eu íamos ao escritório todos os dias para trabalhar lado a lado, uma ótima equipe nos negócios, assim como na vida. Tivemos o prazer de vender ou alugar a primeira propriedade de muita gente, e até hoje meus filhos de vez em quando encontram alguém que se lembra de ter nos conhecido décadas atrás e lhes diz que fomos os únicos agentes imobiliários honestos da sua vida!

Nós nos lembrávamos da experiência de sermos refugiados, da importância da bondade e de termos sido ajudados pelos Skorupa quando chegamos. Até hoje, somos muito próximos de Lily Skorupa, a filha de Harry e Bella. Então nos assegurávamos de fazer o possível para auxiliar famílias jovens e aqueles que precisavam de uma ajudinha para começar a vida.

Aprendi muito cedo que todos nós somos parte de uma sociedade maior e que nosso trabalho é nossa contribuição para uma vida livre e segura para todos. Quando eu ia a um hospital, via instrumentos feitos por mim e sabia que eles estavam sendo usados todos os dias para tornar a vida melhor. Isso me dava uma felicidade enorme. O mesmo é verdade para cada trabalho que você faz. Você é professor? Você torna a vida de jovens mais rica todos os dias! Você é chefe de cozinha? Cada refeição que você prepara traz um prazer imenso para o mundo! Talvez você não ame seu emprego, ou trabalhe com pessoas difíceis. Ainda assim, está fazendo coisas importantes, contribuindo um pouquinho para o mundo em que vivemos. Não se esqueça disso nunca. Seus esforços hoje afetarão pessoas que você jamais conhecerá. Se esse efeito será positivo ou negativo, a escolha é sua. A cada dia, a cada minuto, você pode optar por agir de maneira a inspirar um estranho ou a arrasá-lo. A escolha é fácil. E cabe a você fazê-la.