O Homem Mais Feliz do Mundo: A Bela Vida de um Sobrevivente de Auschwitz

Capítulo 12: O amor é o melhor remédio.

Eu não me sentia totalmente em casa na Europa. Era difícil esquecer que estávamos cercados de pessoas que não haviam feito nada para impedir a perseguição, a deportação e o assassinato do meu povo. No total, mais de 25 mil judeus foram deportados da Bélgica. Menos de 1.300 sobreviveram.

Em Bruxelas, às vezes eu me sentia cercado de colaboradores. As pessoas que denunciaram meus pais (nunca saberei quem foram) podiam estar sentadas à mesa ao lado, tomando café. Judeus foram denunciados por ódio, antissemitismo, medo ou mesmo ganância. Muitas famílias foram assassinadas porque os vizinhos cobiçavam suas posses e queriam tomar seus pertences depois que fossem deportadas.

Um dia, eu e Kurt estávamos andando na bela praça do mercado de Bruxelas e vi algo em que não pude acreditar. Virei-me para Kurt e apontei para um homem que vestia um terno elegante do outro lado da praça.

“Está vendo aquele homem?”, perguntei. “Garanto a você que aquele terno é meu!”

“Você está brincando!”

“Não. Vou segui-lo.” A última vez que eu vira aquele terno, ele estava pendurado no guarda-roupa do apartamento de meus pais.

Seguimos o homem até ele entrar em um café, e então me aproximei e o confrontei. Eu lhe disse que ele estava usando um terno meu e lhe perguntei onde o conseguira. Ele me disse que eu era louco, que um alfaiate o costurara para ele. Eu sabia que ele estava mentindo. Era um terno muito diferenciado, e eu o encomendara em Leipzig, com a barra mais curta, para andar de bicicleta. Chamei um policial.

“Está vendo aquele homem sentado no café? Ele roubou meu terno.”

“Está bem”, disse o policial. “Vamos pedir para ele tirar o paletó.”

A princípio, o homem se recusou, mas acabou ceden do. Quando ele tirou o paletó, dito e feito, tinha a marca do excelente alfaiate que eu visitara em Leipzig antes da guerra. O homem não sabia nem ler a etiqueta em alemão e, encabulado, concordou em me devolver o terno. Ele era inofensivo, um mero ladrão, mas ainda havia verdadeiros colaboradores circulando, com sangue judeu nas mãos.

Certa vez, eu estava caminhando e dei de cara com o kapo de meu dormitório, o judeu criminoso encarregado de controlar os outros judeus. Não pude acreditar que ele estava vivo, que estava livre. Fui à polícia e pedi que ele fosse levado à justiça, e me disseram para esquecer aquela história. Ele casara com a filha de um poderoso político em Bruxelas, e a polícia não queria se envolver.

Eu e Kurt pensamos em fazer justiça com as próprias mãos, mas, depois de nos ver, esse homem tomou as devidas precauções. Ele ia a toda parte em grupo, como se fossem guarda-costas, e estava sempre acompanhado por dois lindos pastores-alemães. Ele, assim como muitos outros criminosos e assassinos, não teriam de enfrentar a justiça.

* * *

Pelo visto, a Bélgica não conseguia decidir o que fazer em relação a mim. Como refugiado, eu tinha permissão para ficar em Bruxelas apenas seis meses seguidos. Apesar disso, eu era o encarregado de uma fábrica e tinha assinado um contrato de dois anos!

Saí investigando e encontrei a mulher da foto que eu recebera após o trem da morte em Buchenwald. Eu lhe contei que ela estava presente nos últimos pensamentos de seu marido. Ela ficou muito comovida e me convidou para jantar com sua família. Cheguei em um belo terno, levando flores e bolos, mas me senti muito mal recebido pela família.

“Ah”, disse o pai com uma careta. “Você é judeu.” Fui embora sem comer. Eu disse à mulher que não poderíamos ser amigos. Se fôssemos, ela perderia a família.

Para nós, sobreviventes, era difícil tentar se encaixar na sociedade belga. O antissemitismo ainda era muito comum, e nosso nível de confiança no mundo era muito bai xo. Tínhamos visto horrores que só quem havia visto também era capaz de entender. Mesmo aqueles que tinham boas intenções e tentavam demonstrar empatia nunca compreenderiam. A única pessoa que de fato entendia pelo que eu passara era Kurt, mas não poderíamos ficar juntos para sempre. Ele encontrou uma namorada, Charlotte, uma mulher encantadora, e eles se casaram em fevereiro de 1946.

E então, justo quando eu temia jamais voltar a pertencer a algum lugar ou a alguém, conheci uma linda mulher chamada Flore Molho. Ela nascera em uma família de judeus sefaraditas em Tessalônica, na Grécia, mas fora criada na Bélgica. Quando a conheci, ela trabalhava na Maison Communale, a prefeitura da municipalidade de Molenbeek em Bruxelas, onde se recebia vales de alimentos durante o período de racionamento pós-guerra.

Um dia, entrei para apresentar meu cartão duplo de racionamento e receber meus vales de alimentos. Chamaram Flore e lhe disseram que havia um homem com uma tatuagem. Ela ouvira histórias sobre os campos de concentração e fazia questão de falar com todos que haviam passado por isso, então veio me ver. Eu me apaixonei à primeira vista. Eu lhe disse que queria lhe dar tudo, levá-la para longe e começar uma nova vida, e ela riu. Voltou para o escritório e contou a todos que um dos prisioneiros libertados se oferecera para levá-la para o exterior. Todos acharam hilário.

Ela tivera muita sorte durante a guerra. Era judia, mas sobrevivera se escondendo. Quando a Alemanha invadiu a Bélgica, em maio de 1940, ela trabalhava em um conselho local, mas os nazistas não sabiam que era judia. A vida ficou mais difícil com a escassez e as proibições impostas, desde tocar música americana até andar pelas ruas à noite, mas, de certa maneira, sua vida continuou normal. Ela ainda trabalhou e morou em casa até 1942, quando recebeu ordem para se apresentar à sede da Gestapo local. Fora denunciada por um colega que queria que a esposa ficasse com o emprego de Flore, e foi informada de que não poderia mais trabalhar no conselho. Então lhe deram uma lista de itens para pegar (garfo, faca, cobertor) e lhe disseram para se apresentar, em 4 de agosto de 1942, no antigo quartel militar de Mechelen, para ser deportada.

Nesse meio-tempo, seu chefe no conselho soube do destino que a esperava e conseguiu, por meio da resistência belga, que ela fosse levada para a França, onde assumiria uma identidade falsa. Ela adotou o nome de Christiane Delacroix, que significa Cristina da Cruz, o nome mais cristão no qual ela pôde pensar. Durante os dois anos seguintes, viveu em Paris, conhecida por todos como Christiane Delacroix, exceto pelo próprio irmão Albert e sua cunhada Madeleine, com os quais dividia um apartamento.

Quando Paris foi libertada, em agosto de 1944, ela se juntou à multidão na Avenue des Champs-Élysées, saudando o general Charles de Gaulle em seu desfile da vitória. Semanas depois, voltou para Bruxelas.

Ela não se apaixonou por mim de imediato. Para falar a verdade, primeiro ela sentiu pena, não amor. Não a culpo por ter tido pena de mim! Eu carregava muitas cicatrizes dos campos. O golpe que recebi da arma do guarda da SS continuou a me causar dores de cabeça durante muitos anos, e a desnutrição causava furúnculos terríveis em meu corpo.

Em uma das primeiras vezes que saímos, Flore e eu fomos ao cinema, mas eu tinha um furúnculo horrível no traseiro. Sentia uma dor terrível ao ficar sentado, então ficava me mexendo.

“O que há de errado com você? Por que não fica quieto?”, sussurrou ela. Eu não sabia como explicar. Quando cheguei em casa, pedi a Kurt para lancetá-lo para mim, para que eu pudesse ter um alívio.

Mas nós nos vimos de novo e, com o tempo, nos apaixonamos cada vez mais. O amor é como todas as coisas boas na vida: exige tempo, exige esforço, exige compaixão. Em 20 de abril de 1946, nós nos casamos em uma cerimônia civil. Meu chefe, o sr. Antcherl, que fora tão gentil comigo, ofereceu-se para acompanhar Flore. E o chefe de Flore, que a salvou dos campos, oficiou. A mãe de Flore, Fortunée, chorou lágrimas de felicidade. Era uma mulher maravilhosa, que me aceitou na família de braços abertos e logo me fez sentir como se eu fosse seu filho. Assim, ganhei uma esposa e uma mãe.

Flore e eu éramos pessoas muito diferentes, mas foi isso que me encantou tanto nela. Eu era muito prático, metódico e gostava de trabalhar com máquinas e números. Ela adorava conhecer pessoas novas, ouvir música, preparar uma boa refeição e ir ao teatro. Quando assistíamos a um espetáculo juntos, ela sabia a peça de cor e podia sussurrar as falas ao mesmo tempo que os atores! Isso era o que nos tornava um casal tão bom. Você não quer se apaixonar por um reflexo de si mesmo! Uma parceria forte precisa ser com um homem ou mulher diferente de você, que o desafia a experimentar coisas novas, a se tornar uma pessoa melhor.

Eu era uma pessoa muito difícil quando me casei. Não queria sair para dançar, não queria ir ao cinema. Não queria ir a nenhum lugar com muita gente. Eu vivera tanto tempo temendo por minha vida que não conseguia deixar de pensar como um sobrevivente. Fora programado para ficar alerta a sinais de perigo. Minha esposa não sabia nada disso. Quem não estivera nos campos não percebia como as pessoas podiam ser cruéis e a facilidade com que você pode perder a vida.

Eu ainda carregava muita dor. Um velho amigo da família em Leipzig visitou a antiga casa de nossa família, há muito tempo abandonada, e me enviou uma caixa de objetos pessoais recuperados. Quando a recebi, eu a abri com dedos trêmulos e encontrei um verdadeiro tesouro de fotos e documentos. Meus antigos documentos legais; diferentes carteiras de identidade; um talão com o qual meu pai começara a pagar um seguro para mim; um livro de exercícios da época em que me formei como Walter Schleif. Muitas fotos de todos os meus entes queridos que eu nunca mais veria.

Foi muito, muito comovente. Eu chorei. Minha irmã se recusava a examinar os papéis e fotos, estava transtornada demais. É possível esquecer quanta dor você carrega, quanta mágoa existe em seu inconsciente, até estar diante de evidências de tudo o que perdeu. Ao segurar aquelas fotos de minha falecida mãe, fui tomado pelo pensamento de que todos que amei haviam ido embora e nunca voltariam. E ali estava a prova: uma caixa de memórias, de fantasmas.

Foi um choque. Durante muito tempo, deixei a caixa de lado e não conseguia me forçar a examinar seu conteúdo.

* * *

Eu não era um homem feliz.

Para ser sincero, eu não sabia ao certo por que ainda estava vivo, ou se queria de fato viver. Olhando para trás, sinto-me mal por minha esposa. Ela precisou lidar com muitos desafios em nossos primeiros anos como casal. Eu era um mero fantasma miserável, e ela era uma pessoa muito vivaz, totalmente assimilada na sociedade belga, com muitos amigos dos mais diferentes tipos. E eu era quieto e reservado, triste.

Mas tudo isso mudou quando me tornei pai.

Mais ou menos um ano depois de nos casarmos, Flore ficou grávida. Para sustentar a família, aceitei um emprego em uma empresa que instalava equipamentos cirúrgicos por toda a Europa. Isso envolvia viajar para uma cidade, instalar máquinas muito específicas e complexas para operações médicas e depois passar algum tempo ali, treinando funcionários locais para operar as máquinas e fazer a manutenção. Ao todo, cada serviço exigia três ou quatro dias. Eu estava no meio de uma dessas tarefas quando fui informado de que minha esposa entrara em trabalho de parto. Na mesma hora, meu chefe alugou um aviãozinho para me levar de volta a Bruxelas. Era um troço mínimo, sem sequer uma cabine fechada, apenas o piloto e eu no céu, com uma touca e óculos de proteção. Fomos pegos por uma tempestade, e pensei que nunca mais veria minha esposa ou conheceria meu filho. O bebê nasceu meia hora depois de eu ter, por fim, chegado a Bruxelas.

Quando segurei meu filho mais velho, Michael, pela primeira vez, foi um milagre. Naquele momento, meu coração foi curado, e minha felicidade retornou em abundância. Desse dia em diante, percebi que eu era o homem mais sortudo da Terra. Fiz a promessa de que, daquele dia até o fim de minha vida, eu seria feliz, educado, prestativo e gentil. Eu iria sorrir.

Daquele momento em diante, tornei-me uma pessoa melhor. Aquele era o melhor remédio que eu podia ter, minha bela esposa e meu filho.

* * *

Nossa vida em Bruxelas não era perfeita, mas estávamos vivos! Você tem que tentar ser feliz com o que tem. A vida é maravilhosa se você é feliz. Não olhe para o outro lado da cerca. Você nunca será feliz se olhar para o vizinho e isso o deixar doente de inveja.

Não éramos ricos, mas tínhamos o suficiente. E vou lhe dizer: depois de passar fome na neve durante anos, ter comida à mesa já era maravilhoso. Depois que nos casamos, moramos em um belo apartamento com vista para o Castelo de Belvédère. Era pequeno, mas que prazer era ter aquela vista. Você não precisa ter um castelo com uma vista daquela, a vista é a melhor parte! E, mesmo que pudesse, eu não gostaria de viver no castelo, seria muita coisa para limpar!

Outras pessoas à nossa volta tinham mais dinheiro (aquele cara dirige um Mercedes, aquele homem tem um relógio de diamantes). E daí? Não precisávamos de carro. Compramos uma bicicleta de dois lugares para passearmos juntos. É claro que olhei para ela e concluí que podia ser melhor, então instalei dois motorzinhos para pedalarem por nós. Quando estávamos em terreno plano, eu ligava um motor e, quando subíamos uma ladeira, ligava os dois. Isso era o bastante.

Que milagre era estar vivo e segurar meu belo bebê, abraçar minha bela esposa. Se você me dissesse, quando eu estava sendo torturado e passando fome nos campos de concentração, que eu teria tamanha sorte, eu jamais teria acreditado. Com o tempo, minha esposa se tornou muito mais do que uma esposa, tornou-se minha melhor amiga. O amor me salvou. Minha família me salvou.

Eis o que aprendi: a felicidade não cai do céu; está em suas mãos. A felicidade vem de dentro de você e das pessoas que você ama. E, se você é saudável e feliz, é um milionário.

A felicidade é a única coisa no mundo que duplica cada vez que você a compartilha. Minha esposa duplica minha felicidade. Minha amizade com Kurt duplicou minha felicidade. E você, meu novo amigo? Espero que sua felicidade duplique também.

Todo ano, Flore e eu comemoramos nosso aniversário de casamento em 20 de abril, o dia do nascimento de Hitler. Ainda estamos aqui; Hitler está lá embaixo. Às vezes, quando estamos sentados à noite diante da televisão, com uma xícara de chá e um biscoito, eu penso: não é que temos sorte? Na minha cabeça, esta é mesmo a melhor vingança, e a única na qual estou interessado: ser o homem mais feliz do mundo.