O Homem Mais Feliz do Mundo: A Bela Vida de um Sobrevivente de Auschwitz
Capítulo 9: O corpo humano é a melhor máquina já feita.
De volta ao campo, corri para encontrar o dr. Kinderman, um senhor de Nice do qual eu ficara amigo. “Monsieur Kinderman, tenho uma bala na perna”, falei baixinho. “O senhor faria a bondade de retirá-la?”
Eu estava no Bloco 14, e o dr. Kinderman, no Bloco 29, mas ele me disse para encontrá-lo naquela noite no banheiro do Bloco 16, o único com porta. Ali, ele faria uma cirurgia para remover a bala. Não havia tranca na porta, então eu teria que segurá-la enquanto ele operava. Ele não tinha instrumentos, mas conseguiu encontrar um abridor de cartas de marfim, parecido com uma faca pequena. Ele me avisou que iria doer para diabo, mas tínhamos um plano. Havia um convento católico perto de Auschwitz, não muito longe do Bloco 16, e toda noite as freiras tocavam um sino bem alto. Naquela noite, esperamos o som dos sinos soar pelo campo para encobrir meus gemidos de dor e ele começar a trabalhar. Como prometido, doeu muito! Mas, com apenas um abridor de cartas e um grande empurrão, o médico extraiu a bala de minha perna. Ele me disse para lamber os dedos e usar a saliva como desinfetante; sem sabão nem água quente, era a única maneira de limpar a ferida. Toda noite, ele me encontrava no banheiro e me ajudava a limpá-la, e, conforme previsto, três meses depois eu estava curado. Ainda tenho a cicatriz, mas sobrevivi graças ao dr. Kinderman.
Lamento muito dizer que, quando tentei encontrá-lo depois da guerra, descobri que havia falecido. Ele salvou minha vida naquela noite, e sempre lhe serei grato. E o conselho que ele me deu foi ainda mais valioso que a cirurgia. “Eddie, se você quer sobreviver, quando voltar do trabalho, descanse, poupe sua energia. Uma hora de descanso são dois dias de sobrevivência.”
Algumas pessoas voltavam para o alojamento e ficavam andando. Algumas iam em busca de comida, outras procuravam familiares e amigos. Às vezes, elas encontravam pessoas amadas, mas não havia comida extra para ser encontrada em lugar algum. Sair à caça era desperdiçar uma energia preciosa. Eu poupava o máximo possível da minha. Sabia que cada caloria gasta andando pelo campo era uma caloria a menos que podia ser usada para me manter aquecido, curar feridas e permanecer vivo.
Essa era a única maneira de sobreviver a Auschwitz, um dia de cada vez, concentrado em manter o corpo funcionando. As pessoas que não conseguiam bloquear tudo, exceto a vontade de viver, que não eram capazes de fazer o que fosse necessário para viver mais um dia, não sairiam dali. Aquelas que se preocupavam com o que haviam perdido (sua vida, seu dinheiro, sua família) não sairiam dali. Em Auschwitz, não havia passado nem futuro, apenas a sobrevivência. Ou nos adaptávamos àquela estranha vida em um inferno real ou não sairíamos dali.
Um dia, chegou um vagão com húngaros que decidiram economizar a ração. Eles cortavam o pão ao meio, comiam a metade, embrulhavam o restante em papel e o guardavam. Ficamos furiosos. Eles não entendiam o que estavam fazendo. Se os nazistas descobrissem que estavam escondendo pão, bateriam neles, diriam que os judeus não conseguem nem comer toda a comida que lhes é dada e usariam essa justificativa para diminuir nossa ração, que já não era suficiente para nos manter saudáveis. Tínhamos fome o tempo todo, estávamos mais magros a cada dia, até delirarmos de fome.
Um homem que compartilhava o meu beliche, um judeu francês que fora chefe de cozinha antes da guerra, tinha pesadelos sobre comida. Gritava enquanto dormia nomes de deliciosos pratos franceses: vol-au-vent, filet mignon, baguette. Ninguém se importava muito, exceto eu, porque à noite eu ficava acordado, morrendo de fome e ouvindo esse francês descrevendo todas aquelas comidas deliciosas. Por fim, certa note, eu o sacudi para acordá-lo.
“Se você não parar de falar em comida”, disse em francês, “eu vou matar você!”
* * *
Auschwitz era uma questão de sobrevivência, mas não teria sido possível sobreviver sem um bom amigo. Sem a bondade e a amizade de pessoas que se esforçaram para me ajudar, eu não teria durado um mês.
Toda manhã, quando o convento próximo tocava o sino para a prece das cinco, eu e Kurt nos encontrávamos nos chuveiros para compartilhar nossas pequenas quantidades de sabão. Eu dava um pedacinho de pão a um barbeiro uma vez por mês para ele raspar nossas cabeças e nos manter livres de piolhos. Fazíamos tudo o que podíamos para nos manter vivos.
Durante quase quatro meses, tivemos café toda manhã. Não era um café muito bom (uma espécie de invenção química que imitava café de verdade), mas, naqueles primeiros quatro meses, nós o tomamos com avidez. Até que um dia senti um cheiro estranho no copo. Fui à cozinha e perguntei a um companheiro: “O que você está pondo no café?”
Ele respondeu “brometo”, que era uma substância química usada para diminuir o desejo sexual de homens jovens. É preciso meio copo para dez homens.
“Quanto você está pondo?”, questionei.
“Não seja bobo! Abrimos a lata e colocamos tudo!”
Era o suficiente para castrar quimicamente cem homens! Assim, eu e Kurt paramos de tomar café. E por isso hoje tenho uma família. Um amigo meu em Israel sobreviveu, mas não pôde ter filhos porque bebia esse café, que destruiu seus órgãos reprodutores.
A cada dia ficávamos mais fracos. E sabíamos que, assim que estivéssemos fracos demais para trabalhar, estaríamos mortos. O médico vinha com frequência ao alojamento nos inspecionar e checar se tínhamos piolho. Ele tirava a camisa de um de nós e a examinava. Se encontrassem até mesmo um único piolho, matariam a todos nós lacrando o dormitório e liberando gás nele. Isso era assustador, porque todos nós tínhamos terríveis infestações de piolhos. Na manhã de cada inspeção, encontrávamos a pessoa com a camisa mais limpa, e ela era a escolhida para ter seus piolhos removidos e ser apresentada ao médico a fim de passarmos na inspeção.
Mas nada podíamos fazer em relação à inspeção de nosso peso. Uma vez por mês, o médico vinha e nos enfileirava para inspecionar nossos traseiros. Ele olhava nossas nádegas e verificava se tínhamos perdido a reserva de gordura ali. Se suas nádegas fossem duas tiras de pele penduradas que o médico não conseguia beliscar, você já não lhes servia e era enviado para a câmara de gás. Todo mês, muita gente era enviada para a morte por esse motivo, e vivíamos com medo.
Kurt e eu nos encontrávamos após a inspeção e constatávamos que o outro ainda estava vivo. Era um milagre, todo mês. Mesmo quando estávamos muito doentes, nossos rostos continuavam redondos o bastante e sobrevivíamos.
Ainda fico admirado com o corpo humano e sua capacidade. Sou engenheiro de precisão e passei anos fazendo as máquinas mais complicadas e complexas, mas não seria capaz de fabricar uma máquina como o corpo humano. É a melhor já feita. Transforma combustível em vida, consegue consertar a si própria, pode fazer qualquer coisa de que você precisar. É por isso que hoje parte meu coração ver o modo como algumas pessoas tratam o próprio corpo, arruinando essa máquina maravilhosa fumando cigarros, bebendo álcool, envenenando-se com drogas. Elas estão destruindo a melhor máquina já posta neste planeta, o que é um desperdício terrível.
Todo dia, em Auschwitz, meu corpo era forçado a seu limite absoluto, e ainda além. Passava fome, era espancado, congelado, ferido. Mas me manteve de pé. Manteve-me vivo. Agora, ele me mantém vivo há mais de cem anos. Que máquina maravilhosa!
* * *
Nunca soubemos o que acontecia na área médica de Auschwitz. Depois da guerra, os cruéis e insanos experimentos médicos que Mengele e seus médicos realizaram em homens, mulheres e crianças a portas fechadas se tornariam conhecidos no mundo, mas, na época, só havia rumores. Se um prisioneiro adoecia e era levado para o hospital, eram grandes as chances de você nunca mais vê-lo.
Certa vez, fiquei muito doente, com algum tipo de infecção no fígado. Fiquei ictérico, muito fraco e minha pele adquiriu um tom de amarelo doentio. Fui levado para uma enfermaria, onde permaneci por duas semanas, e Kurt ficou muito preocupado comigo. Ele não sabia se eu estava sendo tratado, se estava sendo alimentado. Veio me visitar carregando uma tigela de sopa quente que deveria ter sido seu jantar. Isso em meio a uma tormenta, neve pesada e ventos uivantes. Pude vê-lo enfrentando a tempestade para me encontrar. Pude ver também um guarda da SS o seguindo. Tentei sinalizar para que voltasse, para que tomasse cuidado, mas ele não conseguiu me entender e só pude assistir impotente quando o guarda o apanhou. O nazista pegou a tigela e a usou para bater na cabeça de Kurt, queimando feio seu rosto.
Pobre Kurt. Pusemos neve sobre a queimadura e corremos para ver o dr. Kinderman. Conseguimos um pouco de creme e algumas ataduras especiais para queimaduras e pudemos tratar o rosto de Kurt. Do contrário, ele teria perdido toda a pele. Kinderman conseguiu salvá-lo. Conseguiu também remédio extra quando minha irmã precisou. Depois de alguns meses em pé na água gelada, ela desenvolvera uma gangrena e precisava de uma substância química especial antigangrena. Consegui fazer pequenas visitas a ela durante momentos mais calmos no campo. Na extremidade da parte de Auschwitz do campo, a cerca dava para Auschwitz II–Birkenau, e, às vezes, quando tínhamos sorte, podíamos combinar de nos encontrar ali e falar pela cerca por alguns instantes. Durante muito tempo, isso foi o mais próximo que consegui chegar dela.