O Homem Mais Feliz do Mundo: A Bela Vida de um Sobrevivente de Auschwitz

Capítulo 11: Sempre há milagres, por mais sombrio que o mundo pareça.

Fiquei seis semanas no hospital, me recuperando lentamente. Quando melhorei, decidi ir para a Bélgica procurar minha família. Antes de partir, tirei documentos básicos de refugiado e recebi roupas simples (calças, duas camisas e um gorro).

Viajei a pé, pegando carona quando dava. Na fronteira, pararam-me e me disseram que eu não tinha permissão de entrar no país por ser alemão.

“Não”, falei para o homem na fronteira. “Eu não sou alemão. Sou um judeu que a Bélgica entregou aos nazistas para morrer. Mas eu vivi. E agora vou voltar para a Bélgica.”

Eles não puderam argumentar contra isso e não apenas me deixaram entrar, como me deram o dobro do alimento racionado. Permitiram-me ter manteiga, pão e carne a mais. Todas essas coisas eram escassas com o racionamento pós-guerra.

Fui para Bruxelas, voltando ao ótimo apartamento onde meus pais moraram quando fugimos da Alemanha. O apartamento ainda estava lá, mas sem nenhum dos pertences que eles haviam sido obrigados a abandonar quando foram se esconder — e, é claro, minha família não estava lá. Apenas cômodos vazios. Foi muito difícil estar ali, sabendo que nunca mais os veria. Não consegui encontrar ninguém da família. Antes da guerra, eu tinha mais de cem parentes em toda a Europa. Depois, até onde eu sabia, era apenas eu.

Acho que não senti muita alegria com a libertação. Libertação é liberdade, mas liberdade para quê? Para estar sozinho? Para ter que dizer o Kadish (uma prece judaica) em memória de outras pessoas? Isso não é vida. Conheço muita gente que se matou quando fomos libertados. Com frequência, eu ficava muito triste. Estava muito solitário. Sentia muita falta de minha mãe.

Eu tinha que decidir o que fazer: viver ou encontrar um comprimido e morrer como meus pais. Mas fizera uma pro messa a mim mesmo e a Deus de que tentaria ter a melhor existência que pudesse, ou então a morte de meus pais e todo o sofrimento teriam sido em vão.

Então, escolhi viver.

* * *

Sem ter para onde ir e ninguém para encontrar, eu passava o tempo em uma cantina montada por uma sociedade assistencial judaica. Eles forneciam refeições e companhia para refugiados judeus por toda Bruxelas, bem como para soldados judeus de todos os exércitos dos Aliados. Que coisa incrível de ver. Depois de anos vendo meu povo sendo surrado, perseguido e ficando esquelético de fome, eu me encontrava cercado por combatentes judeus fortes, calejados pela batalha, saudáveis. Soldados do mundo inteiro: Europa, Estados Unidos, Inglaterra, Palestina. Que visão incrível. Mais incrível ainda: ali, na fila para receber comida com o restante dos homens, meu melhor amigo no mundo. Kurt!

Ah, isso foi extraordinário! Dá para imaginar? Aquele homem que era como um irmão para mim, que estivera a meu lado e me ajudara a sobreviver durante o inferno na Terra, e que eu achava ter deixado em Gleiwitz para morrer. Ali estava ele, tomando café e comendo bolo, são e salvo na Bélgica. Ah, fiquei tão feliz por vê-lo! Nós nos abraçamos e choramos lágrimas de alegria.

Ele me contou sua história enquanto comíamos. Estava escondido no buraco havia apenas dois dias quando ouviu botas pesadas de soldados se aproximando. Ele e os outros homens ficaram apavorados, pensando que com certeza aquele era seu último dia, até que ouviram os soldados falando russo e se renderam. Levaram algum tempo para convencer os russos de que eram prisioneiros inofensivos. Eles não falavam russo, e os russos não falavam alemão. Os russos tinham visto as provas das atrocidades nazistas por toda a Europa e estavam loucos de fúria, com toda a razão. Mas, quando perceberam que Kurt e os outros eram vítimas, cuidaram bem deles. Alimentaram, deram roupas e os levaram para Odessa, onde eles permaneceram seguros pelo resto da guerra. Kurt conseguiu um transporte de navio de Odessa para Bruxelas e chegara à cidade meses antes de mim.

O reencontro com Kurt me encheu de alegria. Eu estava certo de que ele era um homem morto, de que nunca mais o veria. Agora estávamos ali, tomando café e comendo bolo. Eu já não estava mais sozinho no mundo. Estava órfão e não sabia o que acontecera com minha irmã, mas voltei a ter uma família em Kurt. Isso era um sinal para continuar em frente, para não desistir. Quantas vezes na vida eu o havia perdido e reencontrado... Sempre um milagre.

Juntos, decidimos ir para um centro de refugiados que fornecia comida e vales para o racionamento, mas ao virar a esquina eu e Kurt ficamos desanimados com a fila, que se estendia por toda a rua, centenas de refugiados judeus que haviam perdido tudo.

“Nunca conseguiremos seguir em frente se dependermos de caridade”, falei para Kurt. “Precisamos encontrar um emprego.” Então, deixamos a fila e fomos a um escritório de empregos. Aparecemos lá e nos recusamos a ir embora enquanto não tivéssemos encontrado trabalho.

Kurt era um hábil marceneiro e logo se tornou gerente de uma pequena fábrica que fazia belos móveis. Eu encontrei um anúncio de um homem que queria abrir uma fábrica de ferramentas para a ferrovia e precisava de um engenheiro de precisão. O sr. Bernard Antcherl era um homem muito gentil e generoso. Fomos juntos para a Suíça, e ele comprou toda a maquinaria especializada de que precisaríamos. Logo, eu era o supervisor da fábrica e gerenciava vinte e cinco operários.

Uma semana depois de conseguirmos nossos primeiros empregos, Kurt e eu fizemos um depósito para um apartamento encantador no coração de Bruxelas. Tínhamos um carro e dinheiro o suficiente, mas às vezes nos sentíamos mal, porque a vida de repente ficara tão boa. As pessoas ainda suspeitavam de judeus que pareciam prósperos. Velhas atitudes antissemitas não desaparecem da noite para o dia. Às vezes, eu entreouvia pessoas na fábrica dizendo coisas como “judeus gananciosos” ou insinuando que eu estava tirando o emprego de uma família belga. Isso doía muito, ainda mais depois de a Bélgica ter levado minha família inteira.

Mas não minha família inteira! Alguns meses depois de ter me estabelecido em Bruxelas, o jornal judaico local publicou uma foto minha em uma seção onde sobreviventes do Holocausto podiam informar que ainda estavam vivos a seus familiares dispersos. Logo depois, encontrei minha irmã Henni em uma pensão. Ela sobrevivera à guerra depois de termos nos separado na Marcha da Morte e vivera os últimos meses em relativa segurança, trabalhando em uma fazenda de maçãs perto do campo de concentração de Ravensbrück. Dois milagres! Minhas duas pessoas mais queridas no mundo haviam sobrevivido! Eu não podia acreditar. Decidimos que ela deveria morar conosco.

Eu pensara que havia perdido minha família e a chance de algum dia ter uma, mas, agora, duas das minhas pessoas favoritas no mundo estavam vivas e ao meu lado! Eu tinha uma família, apesar de tudo, e podia recomeçar a reconstruir a vida.

* * *

Certa noite, estávamos sentados em nosso apartamento lendo o jornal Le Soir e deparamos com um artigo sobre duas moças judias que haviam tentado suicídio pulando de uma ponte. Elas estiveram em Auschwitz II-Birkenau e ao retornar a Bruxelas descobriram que suas famílias inteiras haviam morrido. Decidiram acabar com suas vidas. A ponte da qual escolheram pular não era muito alta, mas uma barcaça passava com frequência embaixo dela. Se você caísse no deque, com certeza morreria. As pobres moças haviam errado o alvo e caído na água, e foram na mesma hora presas e levadas para o hospital psiquiátrico. Decidimos que precisávamos fazer alguma coisa para ajudá-las.

Kurt e eu fomos ao hospital e pedimos para ver as moças. Na enfermaria, onde as duas estavam com uma terceira jovem judia que também tentara se matar, nosso coração se partiu; aquele hospital não era lugar para aquelas mulheres. As condições eram horríveis. Abordei o funcionário encarregado do hospital e lhe disse que queria assumir a responsabilidade por elas.

“Tenho um bom apartamento, tenho dinheiro suficiente, posso cuidar dessas pessoas. Por favor, não as deixe trancadas. O hospital é terrível. Mesmo alguém perfeitamente são em três meses acabaria enlouquecendo.”

Consegui convencê-lo, e então as três moças vieram morar conosco. Abri a porta do apartamento e disse a elas: “Olhem, somos dois homens, mas não haverá nada indecente. De agora em diante, vocês são minhas irmãs.” Moramos juntos enquanto elas se recuperavam do suplício dos campos. Com frequência, eu as levava de carro ao hospital, onde elas tomavam banho com sulfatos, pois tinham a pele em condições terríveis. Todos nós tivemos que tomar esses banhos, até minha irmã, cuja saúde estava melhor do que a minha e a de Kurt. Às vezes, Kurt e eu tínhamos que ir duas vezes por semana. Mas logo elas estavam se sentindo bem melhor. Não eram loucas, nunca haviam sido. Apenas tinham passado por um inferno. Tudo de que precisavam era um pouco de bondade. Isso era algo que quem não tivera a experiência dos campos tinha dificuldade de entender. Para mim e Kurt, dar-lhes um lar e um lugar para se recuperarem foi uma maneira de retribuir, de agra decer a Deus por nos manter vivos. Com o tempo, elas estavam totalmente recuperadas e saíram para o mundo a fim de encontrar emprego e maridos amáveis. Desde então, nós nos correspondemos.

Conhecer e ajudar essas meninas me fez entender os conselhos de meu pai: é dever dos afortunados ajudar aqueles que estão sofrendo, e dar é melhor do que receber. Sempre há milagres no mundo, mesmo quando tudo parece perdido. E, quando não há milagres, você pode fazê-los acontecer. Com um simples ato de bondade, você pode tirar uma pessoa do desespero, e isso pode salvar a vida dela. E esse é o maior milagre de todos.