O Homem Mais Feliz do Mundo: A Bela Vida de um Sobrevivente de Auschwitz

Capítulo 7: A educação é um salva-vidas.

Meu segundo trabalho foi em uma mina de carvão. Não sei se foi uma punição por eu ter feito aquela pergunta na primeira seleção, com Mengele, ou se foi porque eu ainda estava relativamente forte, mas me enviaram ao profundo subterrâneo para explorar uma jazida de carvão. Dividíamo-nos em equipes de sete, um de nós soltando carvão com uma britadeira e os outros seis enchendo vagões que eram levados à superfície. Era um trabalho extenuante, muito duro, e não havia como ficar em pé; tínhamos que ficar agachados. Trabalhávamos das seis da manhã às seis da tarde e precisávamos encher seis vagões nesse período. Reconhecemos aí a oportunidade de obter um descanso valioso: trabalhávamos duro para cumprir nossa cota até as duas da tarde e poder ter algumas horas de sono antes de voltarmos para os terríveis beliches. Terminado o trabalho, desligávamos as lâmpadas e dormíamos um pouco.

Certa tarde, quando acordamos, uma equipe rival de cristãos poloneses (que nos odiavam tanto quanto os nazistas) estava roubando nossos vagões, substituindo-os por seus carros vazios. Eles eram preguiçosos demais para trabalhar e ficaram felizes por sermos punidos no lugar deles. Entretanto, eu não iria tolerar aquilo. Ao sair da mina, tínhamos que caminhar em fila e tirar nossos chapéus em respeito ao guarda. Eu descumpri a regra e fui até ele contar o que acontecera. Ele gritou comigo para que eu voltasse para a fila e, quando abri a boca para argumentar, ele a fechou com seu punho. Um dos socos me atingiu bem na orelha, e meu tímpano sangrou por algum tempo.

Pouco depois disso, fui levado a um escritório, onde me encontrei pela primeira vez com o comandante encarregado. Ele perguntou o que estava havendo. Eu lhe contei sobre o roubo e sobre ter sido espancado pelo guarda.

“Você quer nos matar? Atire em nós, acabe com isso. Mas estaremos mortos em um mês ou dois porque trabalhamos duro demais e esses outros prisioneiros roubam nosso trabalho.” Fui dispensado, e, na semana seguinte, já não havia poloneses em nosso local de trabalho. Todos me abraçaram, e agradeci, mas durante meses não me senti muito bem; aquele homem me dera um baita golpe. Eu tinha dores de cabeça fortes, e minha visão ficou embaçada por muito tempo. Mas continuava feliz por ter defendido meus direitos e os daqueles homens com os quais estava trabalhando na mina. Saí ferido, mas a vida deles ficou mais fácil daquele dia em diante. Na minha opinião, foi uma troca justa.

* * *

Não muito tempo depois disso, fui convocado para me encontrar com um representante da Interessengemeinschaft Farbenindustrie AG, ou IG Farben, um conglomerado químico e farmacêutico. Fui informado de que teria um novo trabalho. Os oficiais da SS que supervisionavam o campo perceberam que eu tinha habilidades em mecânica e engenharia de precisão e me classificaram como Judeu Economicamente Indispensável. Esses alemães... Eles tinham um termo especial para tudo.

Enquanto eu pudesse trabalhar, enquanto fosse lucrativo para os alemães, eu poderia sobreviver. Em três diferentes ocasiões, fui levado para as câmaras de gás, e, talvez vinte metros antes de entrar, o guarda viu meu nome, número e profissão e gritou: “Tirem o 172338!” Três vezes!

Eu agradecia em silêncio a meu pai, que insistira para que eu aprendesse as habilidades que salvariam minha vida. Ele sempre enfatizara a importância do trabalho. Entendia que era a maneira como uma pessoa contribuía para o mundo, que a todos é importante cumprir seu papel para a sociedade funcionar. Além disso, ele entendia algo fundamental sobre o mundo. A maquinaria da sociedade nem sempre funciona como deve. Na Alemanha, por exemplo, ela quebrou por completo. Mas partes dela continuaram funcionando, e, enquanto minhas habilidades profissionais fossem essenciais, eu estaria a salvo.

Tornei-me engenheiro mecânico da IG Farben, uma das piores instituições para os judeus. Mais de trinta mil pessoas foram forçadas a trabalhar em suas fábricas, e eles forneciam o gás venenoso Zyklon B, que matou mais de um milhão de pessoas nas câmaras de gás.

De certa maneira, porém, sou grato a essas fábricas. Sem elas, estaríamos mortos. Mais de um milhão de judeus morreram em Auschwitz, mas existiam outros campos onde não havia nenhum trabalho, nada para conter os sonhos da SS de uma exterminação completa. Os donos da fábrica queriam nos manter vivos e nos injetavam vitaminas e glicose para continuarmos em movimento. Era do interesse deles que estivéssemos saudáveis o bastante para trabalhar.

A SS tinha outras prioridades. Eles queriam matar todos nós. Tinham a instrução de matar tantos quantos pudessem. Hitler dera ordens para a Solução Final em relação à existência de judeus no mundo. Para a SS, os campos de concentração não eram apenas para acabar com nosso ânimo, mas para nos destruir por completo. Os nazistas de alto escalão por trás da Solução Final chamavam o trabalho escravo de Vernichtung durch Arbeit. Extermínio por meio do trabalho. Eles estavam determinados a assassinar todo e qualquer judeu, e mal conseguiam matar todos nós na velocidade que gostariam. Não importava quantos de nós baleassem, esfaqueassem, espancassem até a morte ou mandassem para o gás, mais judeus chegavam de trem todos os dias.

Em determinado momento, alguns prisioneiros reagiram. Algumas mulheres de Birkenau trabalhavam para a Krupp fabricando armas e contrabandearam explosivos da empresa. Todo dia, os fornos paravam por duas horas para esfriar. Certa vez, enquanto isso acontecia, os prisioneiros rebeldes entraram ali e os encheram com os explosivos. Quando os homens vieram acendê-los, os crematórios explodiram. Durante um mês, não tivemos crematórios nem câmaras de gás. Achamos isso maravilhoso. Nenhuma fumaça, nenhum fedor de morte. Mas depois construíram fornos ainda melhores, e as coisas pioraram.

* * *

Como chefe na oficina da IG Farben, eu era encarregado da manutenção dos tubos de ar de alta pressão responsáveis pelo funcionamento de máquinas que produziam suprimentos para o exército alemão. Também era responsável por regular a pressão do ar. Eu usava uma placa pendurada no pescoço dizendo que, se fosse constatado vazamento em algum dos tubos, eu seria enforcado.

Havia mais de duzentas máquinas, cada uma delas supervisionada por um operário, e eu era responsável por todas. Era o único no campo que podia corrigir os calibradores de pressão que as mantinham funcionando. Monitorar todas as máquinas era uma tarefa impossível, então encontrei uma solução. Fiz duzentos apitos e dei um para cada prisioneiro na fábrica. Se eles notassem que a pressão estava caindo em alguma delas, apitariam, e eu correria para corrigir o problema. Embora houvesse muitos tipos diferentes de máquina produzindo de tudo, de munição a substâncias químicas, a fábrica havia sido construída de maneira que, se uma delas parasse, todas parariam, e, se isso acontecesse, eu seria um homem morto. No ano em que trabalhei ali, nenhuma máquina enguiçou, nem uma vez.

E uma surpresa: um dos duzentos operadores era a minha irmã! Ela sobrevivera à seleção e estava alojada em Auschwitz II–Birkenau, o segundo maior campo do complexo, na seção das mulheres. Quando a vi pela primeira vez, meu coração se partiu um pouco. Ela sempre fora muito bonita, com a pele clara e um cabelo lindo, brilhante. Agora que era uma prisioneira, sua cabeça estava raspada e o uniforme da prisão sobrava em seu corpo magro de fome. Fiquei radiante por saber que ela tinha sobrevivido, mas também desesperado ao ver o quanto sofria. Fazia três meses que eu a vira pela última vez, saindo do trem no dia em que nossos pais morreram. Também foi difícil porque não podíamos falar um com o outro. Não podíamos deixar que as pessoas descobrissem que éramos parentes. Se soubessem de nossa relação, os nazistas e seus colaboradores usariam a informação contra nós. Então trocávamos olhares ou eu dizia uma frase quando passava por sua máquina. Eu não podia sequer abraçá-la nem a confortar pelo assassinato de nossos pais.

Sua estação de trabalho era muito difícil. Ela cortava balas a serem enviadas ao exército alemão; uma tarefa que produzia muito calor e muitas fagulhas. Para reduzir o risco de incêndio, minha irmã tinha que ficar em um fosso de água gelada proveniente de um tanque refrigerado. O dia inteiro, ela ficava na água gelada, algo terrível para sua saúde.

Meu trabalho também era difícil. Eu precisava subir em uma torre alta para direcionar a posição de todos os tubos: um pouco mais para o alto, um pouco mais para baixo. Eu só vestia meu uniforme de prisioneiro, e fazia muito frio nessa torre, no alto, na neve gelada. Com frequência, eram 28 graus abaixo de zero.

Um dia, eu devo ter adormecido, porque acordei com a cabeça ressoando. O guarda apanhara uma pedra e a atirara em mim para me acordar. A pedra abriu um grande corte em minha cabeça, e o guarda veio correndo, em pânico, temendo ter me matado; até mesmo ele teria problemas por matar um Judeu Economicamente Indispensável. Ele pôs uma toalha em minha cabeça para estancar o sangramento e me levou de carro para um hospital de campanha. Acabei levando dezesseis pontos. Quando entrei no hospital, passamos por uma sala onde um neurocirurgião estava operando um oficial nazista de alta patente, removendo uma bala de sua cabeça. Gritei o nome da máquina que ele estava usando e falei que sabia consertá-la. Quatro dias depois de eu chegar, quando ainda estava me recuperando, o médico me abordou. Era o professor Neubert, neurocirurgião importante e oficial de alta patente da SS. Ele queria saber como eu conhecia o nome daquela máquina médica muito específica.

“Eu as fabricava”, respondi.

“Você conseguiria fazer outras?”

“Não no kommando em que estou. Mas, sim, eu consigo.”

Ele me ofereceu o trabalho de fazer uma mesa de operação altamente especializada, que seria usada em neurocirurgias. Durante três meses, fui transferido para um novo trabalho, projetando e fabricando a mesa.

Meu pai estava, como em tudo o mais, certo em relação à importância da educação e do trabalho. Minha educação salvou minha vida, e não pela primeira ou última vez.