O Homem Mais Feliz do Mundo: A Bela Vida de um Sobrevivente de Auschwitz
Capítulo 15: Não compartilho minha dor. Compartilho minha esperança.
Durante muito tempo, não quis pôr sobre meus filhos o fardo de minha história. Eles souberam o que aconteceu comigo sem meu conhecimento. Já crescido, meu filho Michael soube que eu falaria na Grande Sinagoga sobre minhas experiências no Holocausto, coisas sobre as quais eu nunca lhe contara. Ele chegou antes de mim e se escondeu atrás das cortinas pesadas, para que eu não soubesse que estava na plateia. Depois, saiu dali às lágrimas para me abraçar. Foi assim que ele soube. Desde então, meus filhos têm estado nas plateias para as quais eu falo, mas nunca consegui conversar com eles sobre isso cara a cara. Quando tento falar com meu filho, vejo meu pai em seu rosto. É difícil demais.
Às vezes, penso que aqueles de nós que não contaram suas histórias por tanto tempo cometeram um erro. Parece, às vezes, que perdemos uma geração que poderia ter ajudado a tornar este mundo um lugar melhor, que poderia ter impedido o ódio que agora cresce em toda parte no mundo. Talvez não tenhamos falado o bastante. Agora existem aqueles que negam o Holocausto, pessoas que não acreditam que aconteceu. Dá para imaginar? Para onde eles acham que seis milhões de nós foram? Onde eles pensam que recebi essa tatuagem?
Sinto que é meu dever hoje contar minha história. Sei que, se minha mãe estivesse aqui, diria: “Faça isso por mim. Tente tornar este mundo um lugar melhor.”
Ao longo dos anos, vi minha mensagem começar a se espalhar. Isso é maravilhoso. Falei com milhares e milhares de estudantes, políticos e profissionais. Minha história é para todos. Nos últimos vinte anos, viajei todos os anos para a Australian Defence Force Academy (Academia da Força Aérea Australiana) para falar com jovens soldados. Sãos estas as pessoas que quero alcançar: os oficiais, sim, mas, em especial, os jovens que um dia estarão em combate. Minha mensagem é muito importante para aqueles que talvez acabem segurando uma arma.
Toda vez que falo em uma escola, digo: “Por favor, levantem a mão todos aqueles que disseram ‘Mãe, eu te amo’ quando saíram de casa esta manhã.” Certa noite, voltei para casa e minha esposa falou: “Eddie, uma tal sra. Leigh ligou. Ela pediu para você ligar para ela.”
Retornei a ligação e perguntei: “Sra. Leigh, a senhora queria falar comigo?”
“Queria, sr. Jaku. O que o senhor fez com minha filha?”
“Sra. Leigh, eu não fiz nada!”
“Pelo contrário! O senhor fez um milagre. Ela chegou em casa hoje, me abraçou e sussurrou no meu ouvido: ‘Mãe, eu te amo.’ Ela tem 17 anos! Tudo o que ela faz é discutir comigo.”
Tento ensinar isso a todo jovem que encontro. Sua mãe faz tudo por você. Diga a ela que você é grato, diga a ela que você a ama. Por que discutir com as pessoas que você ama? Saia, pare uma pessoa que esteja jogando lixo na rua e discuta com ela. Há um milhão de pessoas melhores para discutir do que sua mãe!
* * *
Toda semana, eu acordava, beijava minha esposa, punha meu terno e ia ao Jewish Museum contar minha história. No início, eram crianças judias que vinham me ouvir. Depois, crianças de outras escolas de Sydney. Depois, da Austrália. E então os adultos (os professores, seus amigos, seus entes queridos) começaram a vir para ouvir o que eu tinha a dizer. Isso foi muito comovente para mim. Comecei a viajar, para perto e para longe, à medida que escolas, grupos comunitários, empresas, todo tipo de gente, jovens e velhos, começaram a entrar em contato comigo, pedindo-me para compartilhar as lições do Holocausto.
Um dia, recebi uma carta do governo da Austrália. Dizia que eu havia sido indicado por um médico proeminente para receber a medalha da Ordem da Austrália e que uma comissão estava considerando me conceder a honraria.
Em 2 de maio de 2013, fui com Flore e minha família até a sede do governo, em Sydney, onde, em uma cerimônia presidida pela governadora de New South Wales, Marie Bashir, recebi a medalha da Ordem da Austrália por serviços à comunidade judaica. Que honra! Que coisa maravilhosa. Em outra época, fui um refugiado sem pátria, que não conhecia nada além de tristeza. Agora, sou Eddie Jaku, medalha da Ordem da Austrália!
Depois, em 2019, fui procurado pela TEDx, uma organização que viabiliza palestras e discursos de todos os tipos de pessoas, no mundo inteiro, unidas pelo ideal comum de “ideias que merecem ser espalhadas”. Queriam me ajudar a espalhar minha mensagem ao maior público possível, mais de cinco mil pessoas em um salão e outras centenas de milhares que assistiriam on-line. Em 24 de maio de 2019, subi ao palco para o que talvez tenha sido o maior discurso de minha vida. Nunca havia falado para milhares de pessoas de uma vez! Quando terminei, toda a plateia se levantou e não parava de aplaudir. Depois, centenas de pessoas fizeram fila no salão só para apertar a minha mão ou me abraçar.
Desde que essa palestra está on-line, mais de 250 mil pessoas lhe assistiram. A tecnologia é incrível. Quando eu era criança, ainda enviávamos mensagens por telegrama e pombo-correio! E agora recebo mensagens de pessoas do mundo inteiro que ouviram minha história e foram inspiradas a entrar em contato e me dizer o quanto se comoveram. Outro dia, recebi uma carta escrita à mão de uma mulher nos Estados Unidos, uma completa estranha, que escreveu: “Em dezessete minutos, você me deu muito para pensar, isso mudou minha vida inteira.”
Dá para imaginar? Até pouco tempo, eu relutava em compartilhar minha dor com quem quer que fosse. Mas isso foi antes de eu perceber que o que eu compartilho não é minha dor. Eu compartilho minha esperança.
Em 2020, fui indicado para o título de Cidadão Australiano Sênior do Ano, em New South Wales. Não venci, mas fiquei entre os quatro finalistas, o que não é nada mau para um centenário!
Continuarei contando minha história até quando puder. O museu judaico terá que me expulsar para fazer com que eu me aposente! Quando fico cansado, penso em todos aqueles que não sobreviveram para contar suas histórias. E em todos aqueles que estão feridos demais, depois de todo esse tempo, para contá-las. É por eles que eu falo. E por meus pais.
É difícil contar minha história. Às vezes, é muito doloroso. Mas pergunto a mim mesmo: o que acontecerá quando não estivermos mais aqui? O que acontecerá quando todos nós, sobreviventes, tivermos falecido? Tudo o que passamos será esquecido pela História? Ou seremos lembrados? É a vez da nova geração, dos jovens, aqueles com um desejo ardente de tornar o mundo melhor. Eles conhecerão nossa dor e herdarão nossa esperança.
Um campo está vazio, mas, se você se esforçar para cultivar algo, terá um jardim. E a vida é assim. Dê algo, algo virá. Não dê nada, nada virá. Cultivar uma flor é um milagre: significa que você pode cultivar mais. Lembre-se de que uma flor não é só uma flor, é o começo de um jardim inteiro.
Então continuo contando minha história a qualquer um que queira saber sobre o Holocausto. Se consigo alcançar apenas uma pessoa, já vale a pena. E espero que seja você, meu novo amigo. Espero que esta história siga com você.