O Homem Mais Feliz do Mundo: A Bela Vida de um Sobrevivente de Auschwitz

Capítulo 3: O amanhã virá se você sobreviver hoje. Um passo de cada vez.

O caminhão me levou para o Jardim Zoológico, onde fiquei detido em um hangar com outros rapazes judeus. Quando cheguei, havia mais ou menos trinta. Durante a noite, os criminosos arrastaram mais de nós ali para dentro, e, quando chegamos a 150, puseram-nos em outro caminhão. Enquanto seguíamos, os outros passageiros me contaram sobre o desastre da Kristallnacht, sobre os saques, sobre o incêndio nas sinagogas. Fiquei em choque, apavorado, preocupado com minha família. Na época, nenhum de nós entendia que aquilo era apenas o começo do pesadelo. Havia coisas muito piores por vir quando o caminhão deixou a cidade e fomos transportados para o campo de concentração de Buchenwald.

Os criminosos nazistas haviam me espancado tanto que, quando cheguei a Buchenwald, machucado e ensanguentado, o comandante entrou em pânico e fez com que os guardas me levassem ao hospital mais próximo, a 38 quilômetros. Eles me deixaram ali por dois dias, sem vigilância, enquanto eu me recuperava dos ferimentos sob os cuidados de enfermeiras alemãs. Perguntei a uma delas o que aconteceria se eu fugisse, e ela me olhou com tristeza.

“Você tem pai e mãe?”, perguntou.

“É claro.”

“Se tentasse fugir, eles encontrariam seus pais e os enforcariam quinze minutos depois de você sair por aquela porta.”

Isso afastou todos os pensamentos sobre fuga de minha cabeça. Eu não tinha a menor ideia do que acontecera a meus pais: teriam fugido de Leipzig antes de os nazistas chegarem? Teriam encontrado segurança com um amigo ou parente? Ou teriam sido aprisionados em outro lugar na Alemanha? Eu não sabia, e meu temor e minha preocupação me mantiveram prisioneiro com tanta eficiência quanto os guardas. Assim que me recuperei o suficiente para não estar mais às portas da morte, o hospital telefonou para o campo de Buchenwald, e guardas nazistas apareceram para me levar de volta.

Quando fui entregue em Buchenwald, a princípio fiquei aliviado. Eu recebera atenção médica e estava cercado de outros alemães, em sua maioria civilizados, profissionais de classe média. Cheguei a me tornar amigo de alguns de meus colegas prisioneiros. Meu melhor amigo ali era Kurt Hirschfeld, um jovem judeu alemão de Berlim que fora preso na Kristallnacht. Por causa de tudo isso, achei que talvez estivesse em segurança. Mas estava errado.

Buchenwald era o maior campo de concentração dentro do território alemão. Seu nome se devia à floresta de faias que havia nas proximidades, conhecida depois como Floresta Cantante, por causa dos gritos dos prisioneiros que ressoavam quando eles eram torturados ali.

Os primeiros prisioneiros eram comunistas, recolhidos em um dos primeiros expurgos nazistas, em 1937, e foram seguidos por muitas outras pessoas consideradas sub-humanas pelos nazistas: prisioneiros políticos, eslavos, maçons e judeus.

Quando chegamos, o campo não estava preparado para o número de prisioneiros que teria de manter. Não havia dormitórios nem alojamentos montados, então nos reuniram dentro de uma tenda gigante, onde dormimos no chão até conseguirem resolver a questão da acomodação. Em determinado momento, 1.200 homens tchecos foram abrigados no que havia sido um estábulo para oitenta cavalos. Dormiam cinco em um beliche. Eles juntavam as camas e deitavam na transversal, como sardinhas em lata. As condições eram tão ruins que doenças e inanição eram inevitáveis.

A história relembra os horrores dos campos de concentração do Terceiro Reich, e as imagens são bem conhecidas: judeus em estado de inanição, torturados, traumatizados após a desumanidade da perseguição que sofreram. Mas, quando cheguei, tudo isso ainda estava por vir. No início, não sabíamos do que nossos captores eram capazes. Quem poderia ter imaginado?

Não conseguíamos entender por que havíamos sido recolhidos e aprisionados. Não éramos criminosos. Éramos bons cidadãos, trabalhadores, alemães comuns com empregos e animais de estimação, e amávamos nossas famílias e nosso país. Tínhamos orgulho do modo como nos vestíamos e de nossos status na sociedade, usufruindo de música e literatura, bons vinhos e cervejas e três refeições substanciais por dia.

Agora, a refeição padrão era uma tigela com arroz e carne ensopada. Era possível diferenciar os prisioneiros políticos importantes pelas correntes maciças que eram obrigados a usar, prendendo os tornozelos aos punhos. As correntes eram tão curtas e maciças que eles não conseguiam ficar retos quando comiam, tinham que se curvar sobre os pratos. Não recebíamos colher, então só nos restava comer com as mãos. Isso não seria tão ruim se as condições não fossem tão insalubres. Não tínhamos papel higiênico e precisávamos limpar o traseiro com qualquer trapo que encontrássemos, ou com as mãos. Também não havia vaso sanitário de verdade. Em vez disso, usávamos um fosso gigante como latrina, uma vala comprida. E éramos forçados a ir ao mesmo tempo que mais outros 25 homens. Você pode imaginar a cena? Vinte e cinco homens (médicos, advogados, acadêmicos) equilibrando-se com cuidado sobre duas tábuas de madeira para se aliviar sobre um fosso cheio de dejetos humanos.

Meu amigo, como explicar o quanto tudo aquilo era surreal e horrível? Eu não conseguia entender o que acontecera. Ainda não entendo, não mesmo. Acho que nunca entenderei.

Éramos uma nação que prezava a lei acima de tudo, uma nação em que as pessoas não jogavam lixo no lugar errado por causa das inconveniências de ter ruas sujas. Você podia ser multado em duzentos marcos por jogar uma bituca de cigarro pela janela do carro. E agora era aceitável e incentivado que as pessoas nos batessem. Éramos espancados pelas menores infrações. Certa manhã, o alarme tocou, mas não acordei a tempo para a contagem e fui açoitado. Outra vez, fui surrado com um cassetete de borracha porque minha camisa estava para fora da calça.

Todas as manhãs, os nazistas faziam um jogo terrível. Eles abriam os portões e deixavam entre duzentas a trezentas pessoas saírem. Quando os pobres coitados haviam percorrido trinta ou quarenta metros, as metralhadoras começavam, abatendo-os como animais. Os guardas despiam os corpos, punham-nos em sacos e os enviavam para casa com uma carta dizendo: “Seu marido/irmão/filho tentou fugir e morreu no processo.” A prova seria a bala nas costas. Era assim que os canalhas resolviam o problema de superpopulação em Buchenwald.

Otto von Bismarck, o primeiro chanceler da Alemanha unificada, certa vez alertou ao mundo para que ficasse atento ao povo alemão. Com um bom líder, eles eram a maior nação de todas. Com um líder ruim, eram monstros. Para os guardas que nos perseguiam, a disciplina era mais importante que o bom senso. Se dizem a um soldado para marchar, ele marchará. Se lhe mandam atirar em um homem pelas costas, ele o fará e nunca questionará se é certo ou errado. Os alemães transformaram a lógica em uma religião, e isso os tornou assassinos.

Logo, muitos consideraram a morte como uma alternativa melhor do que a vida em Buchenwald. Conheci um dentista, dr. Cohen, que foi tão espancado pela SS que seu estômago rompeu e ele começou a sofrer uma morte lenta e agonizante. Ele pagou cinquenta marcos, o salário de uma semana, por uma lâmina de barbear contrabandeada. Homem da ciência, calculou as exatas artérias que precisaria cortar e quanto tempo demoraria para morrer. Elaborou um plano de sentar na latrina, bem no meio, no momento exato para que tivesse dezessete minutos antes de um guarda encontrá-lo, o tempo que ele calculara precisar para perder sangue suficiente para morrer. Então, ele cairia dentro da latrina e não conseguiriam tirá-lo dali, do contrário iriam retirá-lo, suturá-lo, puni-lo e dizer-lhe: “Você morre quando quisermos que morra. Não antes.” Esse pobre homem teve êxito em sua missão sinistra: escapou dos nazistas nos próprios termos.

* * *

Esta era a Alemanha em 1938: completamente transformada, sem qualquer moral, respeito ou decência humana. Mas nem todos os alemães eram desarrazoados.

Um dos primeiros soldados nazistas que vi depois de chegar a Buchenwald era um rosto familiar, um homem da minha pensão na época em que eu estudava engenharia. Seu nome era Helmut Hoer, e ele sempre fora simpático comigo quando eu vivia sob a identidade falsa de Walter Schleif.

“Walter!”, disse ele. “O que você está fazendo aqui?”

“Eu não sou Walter”, respondi. “Sou Eddie.”

Cuspi em seu sapato, disse-lhe o quanto estava chocado e quem eu de fato era. Que eu não podia acreditar que esse homem, antes um amigo, um bom homem, era agora guarda da SS.

Pobre Helmut... Ele não sabia que eu era judeu. Eu nunca tinha visto alguém tão confuso e em pânico. Ele disse que queria me ajudar, que não podia me deixar fugir, mas faria o que desse. Foi até o comandante do campo e lhe disse que eu era um bom homem e um ferramenteiro excepcional. Os nazistas precisavam de ferramenteiros.

O Terceiro Reich estava se preparando para Der totale Krieg, a guerra total contra o mundo. Nela, não havia diferença entre soldado e civil, culpado e inocente, Forças Armadas e indústria. A sociedade alemã estava sendo reorganizada por completo para fabricar armas de guerra, portanto qualquer pessoa que tivesse alguma expertise em maquinaria ou manufatura era considerada um potencial recurso para o esforço de guerra. Pouco depois de Helmut testemunhar a meu favor, fui convocado ao escritório do comandante. Perguntaram-me se eu queria trabalhar para eles.

“Sim.”

“Pelo resto da vida?”

“Sim.”

Não custava nada dizer sim. Os judeus haviam se tornado o bode expiatório, como aconteceu de tempos em tempos ao longo dos séculos, mas o anseio por dinheiro e produtividade do Terceiro Reich ainda era mais forte que a insanidade do puro ódio. Estávamos presos, mas, se o Estado alemão podia lucrar conosco, ainda éramos úteis para eles.

Fizeram-me assinar um contrato de emprego e uma declaração afirmando que eles cuidaram bem de mim, que haviam me alimentado e que meu período no campo fora confortável, e então traçaram planos para me transferir. Como parte do acordo, permitiram que meu pai me apanhasse em Buchenwald e me levasse para casa a fim de que eu passasse algumas horas com minha mãe. Depois, ele me acompanharia até a fábrica, onde me poriam para trabalhar até o dia de minha morte. Depois da Kristallnacht, meu pai e minha família haviam voltado para Leipzig e, sem chamar a atenção para si mesmos, aguardavam tempos melhores. Embora quisessem fugir da Alemanha, não partiriam sem mim.

Meu pai ficou exultante por ter encontrado uma oportunidade de obter minha liberdade. Em 2 de maio de 1939, às sete horas, ele me pegou em um carro alugado. Deixei Buchenwald seis meses depois de chegar lá.

Meu amigo, você pode imaginar como foi bom ir embora? Meu pai dirigir até os portões de Buchenwald e me abraçar? Sentar-me no banco do carona e seguir para a liberdade? Foi o paraíso, uma sensação de livramento e o fim da perseguição.

Eu me recordaria dessa sensação com frequência nos anos seguintes, e lembraria a mim mesmo que, se conseguisse sobreviver mais um dia, uma hora, um minuto, a dor acabaria e o amanhã viria.