O Homem Mais Feliz do Mundo: A Bela Vida de um Sobrevivente de Auschwitz
Capítulo 8: Se você perde seus princípios morais, você se perde.
Foi isso que logo aprendi sobre os nazistas. Sob o regime nazista, um alemão não era um homem mau, inicialmente; era fraco e podia ser manipulado com facilidade. E aos poucos, mas de maneira infalível, esses homens fracos perderam seus princípios morais e sua humanidade. Tornaram-se homens capazes de torturar outros e ainda assim ir para casa e encarar suas esposas e seus filhos. Testemunhei o modo como tiravam crianças de suas mães e batiam a cabeça delas na parede. E depois ainda eram capazes de comer e dormir? Não consigo entender isso.
Às vezes, os SS batiam em nós só por diversão. Eles usavam botas especiais com biqueira de aço, pontiaguda. Tinham um jogo em que esperavam você passar por eles e em seguida o chutavam com a maior força possível, bem na parte macia onde o traseiro se junta à perna, enquanto gritavam “Schnell! Schnell!” (Rápido! Rápido!). Faziam isso sem motivo, nada além da alegria sádica de machucar outro ser humano. As feridas causadas eram profundas e dolorosas, e difíceis de curar quando sem alimentos ou abrigo adequados. A única esperança era encher a ferida com trapos e tentar conter o sangramento.
Certa vez, deparei-me com um soldado alemão sozinho, e ele me bateu e me chutou, falando para eu me apressar. Dessa vez, eu parei, olhei-o bem nos olhos e lhe perguntei: “Você tem alma? Você tem coração? Por que está me batendo? Você quer trocar de lugar comigo? Eu fico com sua roupa e sua comida, e veremos quem trabalha mais duro.” Nunca mais esse camarada encostou em mim. Ele não era tão corajoso ou tão monstruoso quando estava sozinho.
Em outra ocasião, eu estava atravessando o campo quando um SS me bateu e quebrou meu nariz. Quando lhe perguntei por quê, ele falou que eu era um Juden Hund (um Cão Judeu) e me bateu de novo.
Isso não era verdade, contudo. Os nazistas tratavam os cães muito melhor do que os prisioneiros. Havia uma guarda da SS em particular, uma mulher, mais cruel que qualquer um dos outros dos quais morríamos de medo. Ela carregava um cassetete para nos golpear e ia a toda parte com seus grandes cães de ataque, pastores-alemães. Ela era muito gentil com eles, sempre os chamava de “Mein liebling”. Meu querido. Um dia, uma das crianças pequenas de Auschwitz me disse que, quando crescesse, queria ser um cachorro, porque os nazistas tratavam seus cachorros com muita gentileza.
Certa manhã, estávamos caminhando para o trabalho, dez em fila, contando piadas para manter o ânimo. Alguns de nós riram, e essa mulher da SS se aproximou e exigiu saber o que era tão divertido.
“O que você quer dizer com divertido?”, perguntei-lhe. “Não há nada para rir em Auschwitz.”
Ela ficou furiosa e se virou para me bater, mas eu me movi um pouco e ela, em vez de acertar o rosto, atingiu-me no peito. Isso não seria um problema se eu não tivesse escondido na camisa um tubo de pasta de dente contrabandeado. Quando ela me bateu, ele explodiu e foi pasta para todo lado, o que nos fez rir ainda mais. Ela ficou constrangida e fez questão de descontar em mim.
Recebi sete chicotadas nas costas. Fui amarrado a um poste com as pernas presas, e dois homens fortes se revezaram nas chicotadas. Na terceira, minha pele rompeu, e as feridas começaram a sangrar. Eram machucados terríveis, passíveis de infecção, e não havia aonde ir para conseguir ataduras nem ajuda. Nada.
Em seguida, tive que ficar três horas em uma gaiola, nu, diante de todos que passavam. E toda vez que eu caía, fraco de exaustão e frio, as paredes da gaiola, forradas de agulhas, espetavam-me, e eu despertava. O estrago nas minhas costas foi tanto que por três semanas tive que andar a noite inteira e dormir sentado, apoiando as costas nas de outro homem. Quando ele acordava e se movia, eu caía e tinha que encontrar outra pessoa em quem me encostar e dormir.
Havia também prisioneiros que se voltavam contra os próprios colegas. Eram os colaboradores, os desprezíveis kapos aos quais os nazistas faziam favores especiais para que agissem como supervisores do resto de nós. Nosso kapo era um verdadeiro canalha, um judeu da Áustria que enviou muitas pessoas para a câmara de gás para ser recompensado pelos nazistas com cigarros, bebidas e boas roupas quentes. Ele enviou até o próprio primo para os fornos. Um homem monstruoso.
Um dia, ele estava em sua ronda e se aproximou de um grupo de seis húngaros idosos que faziam um intervalo no trabalho para aquecer as mãos junto a um barril de coque de petróleo queimando. Era preciso fazer isso às vezes, porque não tínhamos luvas e ficava frio demais para nossos dedos funcionarem. Ele anotou seus números para açoitá-los. Eu sabia que eles não sobreviveriam, mas eu tinha mais chances (eu já havia sido açoitado), então gritei para ele que me açoitasse no lugar deles. Ele sabia que eu era economicamente valioso e que, se me incapacitasse, teria problemas. Então os açoitou e os matou.
Ele não precisava denunciá-los. Fez isso por ganância. Aquilo foi desumano.
Ver comportamentos como esse me tornou mais determinado do que nunca a permanecer fiel a mim mesmo, a manter minha honra intacta. Era difícil. A fome nunca nos abandonava. Drenava nossa moral com a mesma velocidade que drenava nossa força. Certo domingo, recebi minha ração de pão. Eu a pus no alto do beliche e saí para pegar minha tigela de sopa. Quando voltei, o pão havia sumido. Alguém no alojamento, em meu beliche talvez, roubara minha comida. Algumas pessoas diriam que isso é de se esperar. Isso é sobrevivência. Eu discordo. Em Auschwitz, a sobrevivência era para os mais adaptados, mas não à custa do outro.
Nunca esqueci o que era ser civilizado. Eu sabia que não faria sentido sobreviver se, para isso, tivesse que me tornar um homem mau. Nunca prejudiquei outro prisioneiro, nunca roubei o pão de outro homem e fiz tudo o que podia para ajudar um companheiro.
Veja bem, comida não é o suficiente. Não há remédio para seus princípios morais. Se eles acabam, você acaba.
* * *
Muitas pessoas comuns também se viram no caminho nazista contra a própria vontade. Às vezes, eu estava trabalhando na fábrica e um dos guardas sussurrava para mim: “A que horas você vai ao banheiro?” E então, quando eu ia para o meu intervalo, encontrava uma lata de mingau e leite à minha espera na barraca. Não era muito, mas me dava forças e esperança de ainda haver pessoas boas no mundo.
Mas, para os bons alemães, às vezes era difícil se manifestar. Eles tinham que saber se podiam confiar em você. Se fossem pegos ajudando um judeu, seria a morte deles. Os opressores tinham tanto medo quanto os oprimidos. Isto é o fascismo: um sistema que faz de todos vítimas.
Havia um homem em particular, que trabalhava entregando comida aos prisioneiros na fábrica da IG Farben, do qual me tornei amigo. Seu nome era Krauss, e, conforme os meses passaram, viemos a nos conhecer muito bem. Ele era um civil, não um nazista, e, quando podia, entregava-me escondido um pouco da comida que sobrava. Eles traziam a comida em um veículo e a tiravam de um barril para nos servir enquanto fazíamos fila com uma canequinha de lata na mão. Depois, levavam os tambores vazios. A comida era horrível, mas cada resto a mais que eu pudesse conseguir me aproximava um pouco mais da sobrevivência.
Certa vez, Krauss deu um jeito de me encontrar sozinho e falou que tinha um plano para me ajudar a escapar. Ele combinara com o motorista que fazia a entrega de pintar uma grande faixa amarela em um dos tambores. Esse barril seria especialmente modificado, com o acréscimo de uma corrente dentro. Quando ele fosse esvaziado, eu subiria ali, entraria e puxaria a corrente com muita força, para fechá-lo. Então, Krauss poria esse tambor no canto esquerdo da parte de trás do caminhão, e, quando o motorista saísse do campo e a área estivesse livre, ele assoviaria, indicando que estaríamos a meio caminho entre Auschwitz e a fábrica. Eu usaria meu peso para rolar o tambor para fora do caminhão quando o veículo fizesse uma curva.
Trabalhamos muito nesse plano. No dia, eu estava bastante nervoso, mas animado, quando subi no barril e entrei ali. Agarrei a corrente desesperado, prendendo a respiração, sem fazer um som sequer enquanto o tambor era posto no caminhão. Ouvi o veículo dar a partida, senti que começava a se mover, e, conforme combinado, quando estava seguindo rápido, ouvi o motorista começar a assoviar. Era o sinal para eu me jogar contra a lateral do barril e fazê-lo rolar para fora do caminhão.
O tambor caiu e começou a descer o morro comigo dentro, rodando como uma turbina. Segurei bem firme na corrente enquanto o barril rolava cada vez mais rápido, até por fim bater em uma árvore e parar de repente. Eu estava sem fôlego e com alguns arranhões, mas, fora isso, saí ileso. E estava livre! O plano funcionara à perfeição... exceto por uma coisa. Em nosso entusiasmo, havíamos esquecido que eu ainda estaria vestindo o uniforme do campo de concentração de Auschwitz, com uma tatuagem no braço e o mesmo número costurado em algarismos de vinte centímetros nas costas. Aonde eu poderia ir assim? E logo anoiteceria e estaria um frio terrível. Eu não tinha um casaco. Na fábrica, nós os tirávamos e os pendurávamos antes de começar a trabalhar, então eu só contava com minha camisa de prisioneiro. Precisaria de ajuda.
Caminhei durante algum tempo no bosque e acabei chegando a uma casa, muito isolada, com fumaça saindo da chaminé. Fui até a casa e bati na porta. Um polonês atendeu. Eu não sabia falar polonês, só alemão e francês, mas lhe perguntei em ambas as línguas se ele poderia me dar uma camisa. Ele me encarou, não disse uma palavra e então se virou e percorreu o corredor comprido, com cômodos dos dois lados. Ele entrou no último cômodo e me senti bastante aliviado, certo de que me ajudaria.
Ao voltar, não tinha uma camisa, mas um rifle. Quando o apontou para mim, eu me virei e comecei a correr. Corri em zigue-zague enquanto ele atirava em mim uma, duas, três vezes, mais. No sexto tiro, ele teve a sorte de atingir minha panturrilha esquerda. Gritei, mas consegui escapar. Rasguei a camisa e fiz um torniquete para estancar o sangramento enquanto pensava no que fazer. Percebi com horror que não sobreviveria se os poloneses locais fossem meus inimigos assim como os alemães. Só me restava uma opção: voltar às escondidas para Auschwitz.
Subi de volta a montanha, mancando, até onde a turma do último turno de trabalhadores da fábrica da Farben estaria. Elaborei um plano. Eles estariam fazendo muito barulho, eram centenas de pés marchando, alemães gritando, cachorros latindo. No meio de todo o caos, eu me esconderia na beira da estrada e, quando a coluna passasse, iria me esgueirar para me juntar a eles.
O plano funcionou, e consegui me aproximar do grupo. Apenas caminhei de volta a Auschwitz e a meu velho alojamento, e os nazistas nunca perceberam que eu havia sumido. A única reminiscência da fuga era a bala polonesa alojada no músculo da minha perna.
Se eu odeio aquele homem? Não, não odeio ninguém. Ele era fraco, e provavelmente estava tão assustado quanto eu. Deixou o medo dominar seus princípios morais. E sei que, para cada pessoa cruel no mundo, há uma pessoa boa. Eu sobreviveria a mais um dia com a ajuda de bons amigos.