Os Melhores Contos Fantásticos
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 28 partes.
nobres, m e leve para a pobreza e a felicidade.
Apertei-a nos braços com arrebatam ento. A velha estava sem palavras, em
sua fúria, e só desandou a lançar invectivas quando estávam os
longe, a cam inho da cabana onde nasci. Minha m ãe recebeu a linda fugitiva, libertada da gaiola dourada e devolvida à natureza e à liberdade, com ternura
e alegria; m eu pai, que a am ava, deu-lhe as boas-vindas de coração; era um dia de regozij o, e eu não necessitava do acréscim o da poção do alquim ista
para m e encher de deleite.
Logo depois desse dia cheio de acontecim entos, tornei-m e o m arido de
Berta. Deixei de ser discípulo de Cornélio, m as continuei seu am igo. Sem pre
m e senti grato a ele por ter, sem o saber, m e proporcionado aquela dose
deliciosa de um elixir divino que, em vez de m e curar do am or (triste cura!
Solitário rem édio destituído de alegria para m ales que parecem bênçãos à
lem brança), m e inspirara com coragem e resolução, para assim eu conquistar
um inestim ável tesouro na pessoa de m inha Berta.
Com freqüência, ao trazer à m ente esse período de inebriante
arrebatam ento, fiquei m aravilhado. A bebida de Cornélio não alcançara o re-
sultado para o qual ele afirm a ter sido preparada, m as seus efeitos foram m ais potentes e abençoados do que as palavras conseguem exprim ir.
Eles foram desaparecendo gradualm ente, m as atuaram durante bastante
tem po — e pintaram a vida em tons de esplendor. Berta costum ava se
m aravilhar com a leveza do m eu coração e m inha inabitual alegria; pois antes
eu fora bem sério, ou m esm o triste em m inha m aneira de ser. Ela m e am ou
m ais por m eu espírito anim ado, e vivíam os exultantes de alegria.
Cinco anos depois, fui cham ado às pressas à cabeceira do m oribundo
Cornélio. Mandara m e cham ar com urgência, suplicando por m inha im ediata
presença. Encontrei-o estirado no seu catre, tão debilitado que j á estava à
m orte; a vida que ainda restava anim ava seus olhos penetrantes, fixados num
recipiente de vidro, cheio de líquido rosado.
— Contem ple — disse ele, num a voz entrecortada e voltada para dentro
— a futilidade dos desej os hum anos! Pela segunda vez, m inhas esperanças
quase são coroadas de êxito; pela segunda vez, destruídas. Olhe para esse
líquido: você se lem bra que eu, cinco anos atrás, preparara um igual, com o
m esm o sucesso; então, com o agora, m eus lábios sedentos esperavam saborear
o elixir im ortal; você o tirou de m im e agora ë tarde dem ais.
Falava com dificuldade, e se abateu de novo sobre o travesseiro. Não
consegui deixar de dizer:
— Com o, venerável m estre, pode a cura do am or restaurar a vida? Um
pálido sorriso brilhou em seu rosto enquanto eu ouvia com atenção sua
resposta quase inteligível.
— Cura para o am or e para todas as coisas: o Elixir da im ortalidade. Ah, se eu bebesse agora, viveria para sem pre!
Enquanto ele falava, um clarão dourado brilhou no fluido; um perfum e do
qual eu m e lem brava m uito bem invadiu o ar; ele levantou-se, fraco com o
estava — a força parecia m iraculosam ente entrar de novo em sua carcaça —
esticou a m ão — um a alta explosão m e abalou — um raio de fogo j orrou do
elixir, e o recipiente de vidro que o continha se fragm entou até os átom os!
Voltei m eus olhos para o filósofo; ele caíra — seus olhos estavam vítreos...
suas feições rígidas... estava m orto!
Mas eu fiquei vivo, e viveria para sem pre! Assim disse o infeliz
alquim ista, e por alguns dias acreditei em suas palavras. Lem brei-m e da es-
plêndida em briaguez causada pela dose que roubei. Refleti na m udança que
sentira em m eu corpo — em m inha alm a. A saltitante elasticidade de um , a flutuante leveza da outra. Exam inei-m e num espelho e não consegui perceber
nenhum a m udança nas feições durante o espaço de cinco anos que
decorreram . Lem bro-m e dos m atizes lum inosos e do arom a agradável daquela
deliciosa beberagem — à altura da dádiva que era capaz de conferir — eu era,
pois, IMORTAL!
Dias depois, ri de m inha credulidade. O velho provérbio, segundo o qual
"ninguém é profeta em sua terra", era verdadeiro em relação a m im e m eu finado m estre. Gostava dele com o pessoa — respeitava-o com o sábio, m as
desprezava a noção de que ele pudesse com andar os poderes das trevas, e ria
dos m edos supersticiosos com que ele era encarado pelo vulgo. Era um sábio
filósofo, m as não tinha intim idade com quaisquer espíritos, a não ser os
traj ados de carne e ossos. Sua ciência era sim plesm ente hum ana, e a ciência
hum ana, logo m e persuadi, j am ais poderia conquistar as leis da natureza a
ponto de aprisionar a alm a para sem pre em sua habitação carnal. Cornélio
fabricara um a bebida capaz de refrescar a alm a — m ais inebriante que o vinho
— m ais doce e m ais arom ática do que todas as frutas; provavelm ente com
fortes poderes m edicinais, trazendo alegria ao coração e vigor aos m em bros;
m as seus efeitos se esgotariam ; j á estavam dim inuindo em m eu corpo. Eu era
um suj eito de sorte por ter sorvido saúde e alegre disposição, e talvez vida
longa das m ãos de m eu m estre; m as m inha boa fortuna findava aí;
longevidade era bem diferente de im ortalidade.
Continuei a nutrir essa crença durante m uitos anos. Às vezes um
pensam ento m e invadia: estava o alquim ista m esm o enganado? Mas m inha
crença habitual era de que eu deveria encontrar o destino de todos os
filhos de Adão no prazo m arcado para m im — um pouco atrasado, m as num a idade natural. Ainda assim era verdade que eu m antinha um a aparência
m aravilhosam ente j ovem . Riam -se da vaidade que m e levava a consultar o
espelho com tanta freqüência, m as eu o consultava em vão — m inha testa
estava sem m arcas, m inhas bochechas, m eus olhos, toda a m inha pessoa
continuava tão im aculada quanto no m eu vigésim o ano.
Estava perturbado. Olhava para a beleza desbotada de Berta: eu m ais
parecia seu filho. Gradualm ente nossos vizinhos com eçaram a fazer ob-
servações parecidas, e constatei por fim que eu era conhecido com o o
Discípulo Enfeitiçado. Berta ficou inquieta. Tornou-se cium enta e irritada, até que com eçou a m e questionar. Não tínham os filhos; éram os tudo um para o
outro; no entanto, à m edida que ela envelhecia e seu vivido espírito
tem perava-se com um m au gênio, e sua beleza dim inuía tristem ente, eu
acalentava a lem brança dela em m eu coração com o a da am ada que idolatrara,
da esposa que eu buscara e conquistara com tão perfeito am or.
Por fim nossa situação se tornou intolerável: Berta tinha cinqüenta anos;
eu, vinte anos de idade. Envergonhadíssim o, eu havia até certo ponto adotado
os hábitos de um a idade m ais avançada; não entrava na dança com os j ovens e
alegres, m as m eu coração balançava com eles, enquanto eu reprim ia m eus
pés; e um a triste figura eu fazia entre os Nestores da cidade. Mas antes da
época a que m e refiro, as coisas m udaram — éram os evitados por todos;
éram os — ao m enos eu era — descritos com o tendo iníquos contactos com
alguns supostos am igos de m eu antigo m estre. Lam entavam pela pobre Berta,
m as ela foi desertada. Eu era encarado com horror e repugnância.
O que havia a ser feito? Sentam os perto da lareira — a pobreza se fizera
sentir, pois ninguém iria com prar o produto da m inha fazenda; e, m uitas
vezes, eu fora forçado a viaj ar vinte m ilhas, para algum lugar onde eu não
fosse conhecido, a fim de vender nossos bens. É verdade que econom izáram os
algum a coisa para um a época ruim — essa época chegara.
Sentam os em nosso canto solitário em frente à lareira — o j ovem de
coração velho e sua antiquada esposa. De novo Berta insistiu em saber a
verdade; recapitulou tudo o que algum a vez ouvira falar de m im e acrescentou
suas próprias observações. Im plorou-m e que repudiasse o feitiço; descreveu
quão m ais atraentes eram os m eus cabelos grisalhos em com paração com
m eus cachos castanhos; discorreu sobre a reverência e o respeito devidos à
idade — quão preferíveis eram à insignificante atenção dada a m eras crianças:
podia eu im aginar que as desprezíveis
dádivas da j uventude e da boa aparência superavam a desgraça, o ódio, e o escárnio? Não, no final eu seria queim ado com o praticante de m agia negra,
enquanto ela, a quem eu não m e dignara contar nada sobre m inha boa sorte,
seria apedrej ada com o m inha cúm plice. Por fim , insinuou que eu deveria
com partilhar m eu segredo com ela, e conceder-lhe benefícios iguais aos que
eu desfrutara, ou m e denunciaria — e então desatou a chorar.
Assim pressionado, pareceu-m e m elhor contar a verdade. Revelei-a com
toda a delicadeza de que fui capaz, falando som ente de um a vida m uito longa,
não de im ortalidade, relato esse que, na realidade, se aj ustava m elhor a
m inhas próprias idéias. Quando term inei, levantei e disse:
— E agora, m inha Berta, você vai denunciar o am ado de sua j uventude?
Não vai, eu sei. Mas é duro, pobre esposa, você sofrer por m inha m á sorte e
pela m agia am aldiçoada de Cornélio. Vou m e afastar de você; você tem
recursos suficientes e os am igos voltarão em m inha ausência. Eu vou; j ovem
com o pareço e forte com o sou, posso trabalhar e ganhar m eu pão em m eio a
estrangeiros, insuspeito e desconhecido. Am ei-a na j uventude; Deus ë
testem unha que eu não a abandonaria quando estivesse idosa, m as sua
segurança e felicidade assim exigem .
Peguei m eu boné e andei em direção à porta; num m om ento, os braços de
Berta estavam em volta de m eu pescoço, e seus lábios pressionavam os m eus.
— Não, m eu m arido, m eu Winzy — disse ela —, você não deve ir
sozinho; leve-m e com você; vam os nos m udar deste lugar e, com o você diz,
entre estrangeiros ficarem os insuspeitos e seguros. Não estou tão velha a
ponto de envergonhar você, m eu Winzy ; e ouso dizer que o encanto logo irá
se desfazer e, com a bênção de Deus, você adquirirá aparência m ais idosa,
com o é adequado; não pode deixar-m e.
Correspondi afetuosam ente ao abraço da boa alm a.
— Não vou, m inha Berta; pelo seu am or, nem pensaria em tal coisa. Serei
seu sincero e fiel m arido enquanto estiver com igo, e cuidarei de você até o
fim .
No dia seguinte, preparam o-nos secretam ente para nossa viagem . Fom os
obrigados a fazer grandes sacrifícios pecuniários — não havia outro j eito.
Convertem os em dinheiro quantia pelo m enos suficiente para m anter-nos enquanto Berta vivesse; e, sem dizer adeus a ninguém , deixam os nosso país
natal em busca de refúgio num a rem ota parte da França ocidental.
Era cruel transportar a pobre Berta de sua cidade natal, para um novo país, nova língua, novos costum es, e para longe dos am igos de sua j uventude. O
estranho segredo de m eu destino tornou esta m udança sem efeito para m im ;
m as m e com padecia profundam ente dela, e estava satisfeito por perceber que
ela encontrara com pensação para seus infortúnios num m onte de
circunstanciazinhas ridículas. Longe dos arengueiros, ela procurou dim inuir a
evidente disparidade de nossas idades com m il artifícios fem ininos — ruge,
roupa e atitude j uvenis. Eu não podia m e zangar. Não usava tam bém um a
m áscara? Por que im plicar com a sua, por ser m enos bem -sucedida? Ficava
profundam ente desgostoso ao lem brar que aquela era a m inha Berta, que eu
am ara com tanto entusiasm o e conquistara com tanto arrebatam ento — a
m enina de olhos e cabelos escuros, com encantador sorriso de m alícia e passo
de gazela —, esta velha afetada, pretensiosa e cium enta. Eu devia reverenciar
seus cachos grisalhos e suas bochechas m urchas; m as nessas condições!... Era
o que m e cabia, eu sabia; m as, não obstante, deplorava esse tipo de fraqueza
hum ana.
Seu ciúm e nunca dava trégua. Sua principal ocupação era descobrir que,
apesar das aparências, eu estava ficando velho. Acredito m esm o que a pobre
alm a m e am asse sinceram ente em seu coração, m as nunca um a m ulher
dem onstrou afeto de form a tão atorm entada. Ela distinguia rugas em m eu
rosto e decrepitude em m eu andar, enquanto eu saltitava com vigor j uvenil,
aparentando ser o m ais j ovem no m eio de vinte j ovens. Nunca ousei m e
dirigir a outra m ulher: num a ocasião, ela achou que a beldade do lugar m e
encarava com olhos interessados e com prou-m e um a peruca grisalha. Entre as
conhecidas dizia sem pre que, em bora eu parecesse tão j ovem , o interior de
m eu corpo ia se arruinando; e afirm ava ser a saúde aparente o m eu pior
sintom a. Minha j uventude era um a doença, dizia, e eu tinha que estar a todo
m om ento preparado, se não para um a súbita e horrível m orte, ao m enos para
acordar um dia de cabelos brancos e curvado, com todas as m arcas da idade
avançada. Deixava-a falar — m uitas vezes participava de suas conj ecturas.
Seus alertas condiziam com m inhas incessantes especulações a respeito de
m eu estado, e m e interessei em ouvir e, atenta porém dolorosam ente, a tudo o
que seu veloz espírito e sua excitada im aginação pudessem dizer a respeito do
assunto.
Por que insistir em m inúcias circunstanciais? Sobrevivem os por m uitos
anos. Berta ficou decrépita e paralítica: cuidei dela com o m ãe cuida do
rebento. Tornou-se m al-hum orada e ainda batia na m esm a tecla: por
quanto tem po sobreviveria a ela. Sem pre foi um a fonte de consolo para m im o fato de m e com portar escrupulosam ente em relação a ela. Fora m inha quando
j ovem , era m inha idosa e, por fim , quando j oguei a terra sobre seu cadáver,
chorei a perda de tudo o que realm ente m e ligava a hum anidade.
Desde então, quantas preocupações e pesares não tive; com o foram poucas
e vazias as m inhas satisfações! Aqui faço um a breve pausa em m inha história
— não vou levá-la adiante. Maruj o sem lem e nem bússola, j ogado num m ar
tem pestuoso; viaj ante perdido em extenso pântano, sem m arco ou estrela para guiá-lo — assim tenho sido; m ais perdido, m ais desesperançado do que
qualquer dos dois. Um navio próxim o, a luz de algum a cabana distante
poderiam salvá-los; m as eu não tenho sinal orientador a não ser a esperança
da m orte.
Morte! Misteriosa, m alvista am iga da frágil hum anidade! Por que, de todos
os m ortais, só a m im você tirou de seu aprisco protetor? Quem m e dera a paz
do túm ulo! O profundo silêncio da tum ba fechada a ferro! Tanto pensam ento
cessaria de agitar-se em m inha m ente, e m eu coração deixaria de bater com
em oções que só variam por serem novas form as de tristeza!
Sou im ortal? Volto à prim eira questão. Em prim eiro lugar, não é m ais
provável que a beberagem do alquim ista contivesse longevidade em vez de
vida eterna? Essa é m inha esperança. Além disso, que sej a lem brado que só
bebi m etade da poção preparada por ele. Não era necessário tudo para
com pletar o encanto? Consum ir m etade do Elixir da Im ortalidade é ser não
m ais que m eio im ortal — m eu para sem pre está, pois, truncado e nulo.
Mas quem pode enum erar os anos da m etade da eternidade? Várias vezes
tentei im aginar as regras por m eio das quais o infinito pode ser dividido.
Algum as vezes im aginei a idade se apossando de m im . Um cabelo grisalho
encontrei. Tolo! Será que lam ento? Sim , o m edo da idade e da m orte com
freqüência invade, frio, m eu coração; e, quanto m ais vivo, m ais tem o a m orte,
m esm o quando abom ino a vida. Enigm a assim é o hom em — nascido para
m orrer — quando guerreia, com o faço, contra as leis estabelecidas de sua
natureza.
Mas por esta anom alia de sensibilidade com certeza posso m orrer: a poção
do alquim ista não seria à prova de fogo, espada, nem das asfixiantes águas.
Contem plo as profundezas azuis de m uitos lagos
plácidos e a corrente tum ultuosa de m uitos rios possantes, e digo: a paz habita essas águas; m as volto m eus passos para longe, para viver um outro dia.
Pergunto a m im m esm o se o suicídio seria um crim e para quem os portais do
outro m undo apenas assim pudessem ser abertos. Faço de tudo, a não ser
apresentar-m e com o soldado ou duelista, um obj eto de destruição para m eus
— não, não são m eus sem elhantes e, portanto, fico isolado. Não são m eus
sem elhantes. A inextinguível força da vida em m eu corpo e a efêm era
existência deles colocam -nos a um a distância tão am pla quanto a dos pólos.
Eu não conseguiria erguer a m ão contra o m ais insignificante nem contra o
m ais poderoso deles.
Assim sobrevivo há m uitos anos — sozinho e cansado de m im m esm o —
desej oso da m orte, m as nunca m orrendo... um im ortal m ortal. Nem am bição
nem avareza podem entrar em m inha m ente, e o ardente am or que m e corrói o
coração, sem nunca ser correspondido, sem nunca achar um igual onde se
consum ir, só existe para m e atorm entar.
Hoj e m esm o concebi um proj eto pelo qual posso term inar tudo — sem
autom assacre, sem transform ar outro hom em num Caim —: um a expedição a
que um corpo m ortal não pode sobreviver, m esm o dotado da j uventude e da
força que habitam o m eu. Assim , vou colocar à prova m inha im ortalidade e
descansar para sem pre — ou voltar com o m aravilha e benfeitor da espécie
hum ana.
Antes de ir, um a vaidade m iserável m e faz escrever estas páginas. Não vou
m orrer sem deixar um nom e. Faz três séculos desde que em borquei a fatal
beberagem ; outro ano não deve se passar antes que eu encontre perigos
gigantescos, guerreando com as forças do congelam ento em sua m orada,
pressionado pela fom e, labuta e tem pestade; entrego este corpo, gaiola
dem asiado tenaz para um a alm a sedenta de liberdade, aos elem entos
destrutivos do ar e da água ou, se sobreviver, m eu nom e ficará registrado
com o um dos m ais fam osos entre os filhos dos hom ens; e, term inada m inha
tarefa, adotarei um m eio m ais resoluto e, dispersando e aniquilando os átom os
que com põem m eu corpo, libertarei a vida aprisionada em seu interior, tão
cruelm ente im pedida de alçar vôo desta som bria terra para um a esfera m ais
condizente com sua essência im ortal.
Tradução de Augusto Alencastro
Guy de Maupassant
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Ele teve um mestre e amigo como poucos — Gustave Flaubert — e aos trinta
anos ficou famoso, ao publicar Bola de sebo . Guy de Maupassant (18501893) escreveu romances e cerca de trezentos contos, gênero do qual foi um
renovador. Morreu aos 43 anos, louco, da mesma loucura que já se prenun-
ciava em inúmeras páginas, caso deste antológico (desculpem a redundância, mas são inúmeras as antologias em que ele está incluído) "O Horla". Aliás, esse link invisível entre loucura e literatura fantástica já estava no mestre Hoffmann, como se pode ver "O Homem da Areia", conto, aliás, que muito serviu à teoria de Freud. Aqui, acrescente-se o menos famoso "Quem sabe?", com matizes mais nítidos da literatura fantástica, e que era um dos favoritos de Borges.
Quem sabe?
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I
MEU DEUS! MEU DEUS! Vou afinal escrever o que m e aconteceu! Mas será que
conseguirei? Terei coragem ? Aquilo é tão estranho, tão inexplicável, tão
incom preensível, tão louco!
Se eu não tivesse certeza do que vi, certeza de que não houve, em m eu
raciocínio, qualquer falha, qualquer erro em m inhas constatações, qualquer
lacuna na seqüência inflexível de m inhas observações, acreditaria ser um
sim ples alucinado, o j oguete de um a estranha visão. Afinal, quem sabe?
Estou hoj e num a casa de saúde; m as entrei aqui voluntariam ente, por
prudência, por m edo! Um único ser conhece m inha história. O m édico daqui.
Vou escrever para ele. Não sei bem por quê? Para m e livrar dela, pois a sinto
em m im com o um intolerável pesadelo.
Ei-la:
Sem pre fui um solitário, um sonhador, um a espécie de filósofo isolado,
benevolente, contente com pouco, sem azedum e contra os hom ens e sem
rancor contra o céu. Vivi sozinho, todo o tem po, em conseqüência de um a
espécie de desconforto que a presença alheia insinua em m im . Com o explicar
isso? Eu não conseguiria. Não m e recuso a ver gente, conversar, j antar com os
am igos, m as quando os sinto há m uito tem po perto de m im , m esm o os m ais
íntim os, eles m e aborrecem , m e cansam , m e enervam , e sinto um a vontade
crescente, inoportuna, de vê-los partir ou de sair eu, de ficar sozinho.
Essa vontade é m ais do que um a necessidade, é um a urgência irresistível.
E se a presença das pessoas com quem m e encontro continuasse, se eu
precisasse, não escutar, m as ouvir ainda por m uito tem po sua conversa, m e
aconteceria, sem dúvida, um acidente. Qual? Ah! Quem sabe? Talvez um
sim ples desm aio? É! Provavelm ente!
Gosto tanto de estar só que sequer consigo suportar a vizinhança de outros
seres dorm indo sob m eu teto; não posso m orar em Paris porque ali agonizo
todo o tem po. Morro m oralm ente, e sou tam bém supliciado em m eu corpo e
em m eus nervos por essa im ensa m ultidão que fervilha, que vive ao m eu
redor, m esm o quando dorm e. Ah! O sono dos outros m e é ainda m ais penoso
do que sua fala. E j am ais consigo repousar quando sei, quando sinto, atrás de
um a parede, existências interrom pidas por esses regulares eclipses da razão.
Por que sou assim ? Quem sabe? A causa talvez sej a bem sim ples: eu m e
canso m uito depressa de tudo o que não se passa em m im . E ha m uita gente na
m inha situação.
Som os duas raças sobre a terra. Aqueles que precisam dos outros, a quem
os outros distraem , ocupam , repousam , e a quem a solidão extenua, esgota,
aniquila, com o a escalada de um a terrível geleira ou a travessia do deserto, e aqueles a quem os outros, ao contrário, entediam , aborrecem , incom odam ,
extenuam , enquanto o isolam ento os acalm a, os banha de repouso na
independência e na fantasia de seu pensam ento.
Em sum a, há nisso um norm al fenôm eno psíquico. Uns são dotados para
viverem fora, outros para viver dentro. No m eu caso, tenho a atenção exterior
curta e logo esgotada e, assim que ela chega a seu lim ite, sinto em todo o m eu corpo e em toda a m inha inteligência um intolerável m al-estar.
Resultou daí que eu m e ligasse, que m e tivesse ligado m uito aos obj etos
inanim ados que assum em , para m im , um a im portância de seres, e que m inha
casa se tornasse, se tivesse tornado, um m undo no qual eu vivia um a vida
solitária e ativa, em m eio a coisas, m óveis, bibelôs fam iliares, sim páticos a
m eus olhos com o rostos. Eu a havia enchido pouco a pouco, eu a havia
enfeitado e eu m e sentia, dentro dela, contente, satisfeito, bem -aventurado
com o nos braços de um a m ulher am ável cuj a carícia habitual se tornou um a
calm a e doce necessidade.
Eu m andara construir aquela casa num belo j ardim que a isolava das
estradas e às portas de um a cidade onde eu poderia encontrar, quando fosse o
caso, o am biente social que, por alguns m om entos, desej ava.
Todos os m eus criados dorm iam num prédio afastado, no fundo do pom ar, cercado por um grande m uro. O envolvim ento obscuro das noites, no silêncio
de m inha m orada perdida, escondida, subm ersa sob as folhas das grandes
árvores, m e era tão repousante e tão bom que eu não hesitava, todas as noites, por várias horas, em ir para a cam a para saboreá-lo por m ais tem po.
Naquele dia, haviam levado Sigurd1 no teatro da cidade. Era a prim eira vez que eu assistia àquele belo dram a m usical e feérico e ele m e dera um enorm e
prazer.
Eu voltava a pé, num passo alegre, a cabeça cheia de frases sonoras e o
olhar m aravilhado por belas visões. Estava escuro, m uito escuro, escuro a
ponto de eu quase não distinguir a estrada principal e de quase ter caído,
várias vezes, na vala.
Da entrada da cidade até m inha casa há cerca de um quilôm etro, talvez um
pouco m ais, ou sej a, vinte m inutos de m archa lenta. Era um a hora da m anhã,
um a hora, ou um a e m eia; o céu ilum inou-se um pouco a m inha frente e a
m eia-lua surgiu, a triste m eia-lua do quarto m inguante. A m eia-lua do quarto
crescente, aquela que se ergue às quatro ou cinco horas da tarde, é clara,
alegre, pintada de prata, m as a que se levanta depois da m eia-noite é
averm elhada, abatida, inquietante; é a verdadeira m eia-lua do Sabá. Todos os
notívagos j á devem ter feito essa observação. A prim eira, m esm o se m agra
com o um fio, lança um a luzinha satisfeita que alegra o coração e desenha
sobre a terra som bras claras; a últim a m al difunde um a luz m ortiça, tão baça
que quase não cria som bras.
Percebi ao longe a m assa escura de m eu j ardim e não sei de onde m e veio
um a espécie de m al-estar diante da idéia de lá entrar. Dim inuí o passo. O
tem po estava am eno. O grande volum e de árvores parecia um túm ulo no qual
m inha casa estava enterrada.
Abri a porteira e penetrei na com prida aléia de sicôm oros, que seguia em
direção à casa, arqueada em abóbada com o um alto túnel, atravessando
m aciços opacos e contornando gram ados onde os canteiros de flores
colocavam , sob as trevas decoradas, m anchas ovais de tons indistintos.
Aproxim ando-m e da casa, um a estranha perturbação tom ou conta de m im .
Parei. Nada se ouvia. Não havia nas folhas um sopro de ar. "Mas
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1Sigurd. ou Sigfried. Ópera de Richard Wagner. (N.T.) afinal, o que estou sentindo?", pensei. Há dez anos eu entrava por ali sem que j am ais a m enor inquietação m e tivesse atingido. Eu não tinha m edo. Nunca
tive m edo, à noite. A visão de um hom em , de um m alfeitor, de um ladrão, m e
teria enchido o corpo de raiva e eu teria pulado sobre ele sem hesitar. Eu
estava arm ado, aliás. Tinha m eu revólver. Mas não toquei nele, pois queria
resistir àquela influência de tem or que germ inava em m im .
O que era aquilo? Um pressentim ento? O pressentim ento m isterioso que se
apodera dos sentidos dos hom ens quando eles vão presenciar o inexplicável?
Talvez? Quem sabe?
À m edida que avançava, eu sentia trem ores na pele e, quando cheguei
diante da parede, nos pára-ventos fechados de m inha enorm e m oradia, senti
que precisaria esperar alguns m inutos antes de abrir a porta e entrar. Sentei-
m e então num banco, sob as j anelas de m eu salão. Ali fiquei, trêm ulo, a
cabeça apoiada na m uralha, os olhos abertos para a som bra das folhagens.
Naqueles prim eiros instantes, nada percebi de estranho ao m eu redor. Sentia
nos ouvidos alguns estrondos, m as isso m e acontece com freqüência. Parece-
m e às vezes que ouço passarem trens, que ouço baterem sinos, que ouço
cam inhar um a m ultidão.
Então, logo aqueles estrondos se tornaram m ais distintos, m ais precisos,
m ais reconhecíveis. Eu m e enganara. Não era o rum or habitual de m inhas
artérias que colocava em m eus ouvidos aqueles ruídos, m as um barulho m uito
especial, ao m esm o tem po m uito confuso, que vinha, sem som bra de dúvida,
do interior da m inha casa.
Eu ouvia através da parede aquele ruído contínuo, m ais um a agitação do
que um ruído, um m ovim ento vago de um a porção de coisas, com o se alguém
sacudisse, m udasse de lugar, arrastasse suavem ente todos os m eus m óveis.
Oh! Duvidei, ainda por bastante tem po, da precisão de m eus ouvidos. Mas
tendo colado a orelha a um pára-vento para distinguir m elhor aquela estranha
perturbação de m eu lar, fiquei convencido, tive certeza, de que se passava em
m inha casa algo anorm al e incom preensível. Eu não tinha m edo, m as estava...
com o exprim ir aquilo... apavorado de surpresa. Não arm ei m eu revólver —
adivinhando perfeitam ente que seria inútil. Esperei.
Esperei m uito tem po, não conseguindo m e decidir, a m ente lúcida, m as
loucam ente ansioso. Esperei de pé, continuando a ouvir o ruído que aum en-
tava, que assum ia, por instantes, um a violenta intensidade, que parecia se
tornar um a explosão de im paciência, de cólera, de m isterioso m otim .
Então, de repente, envergonhado de m inha covardia, apanhei m eu m olho de chaves, escolhi a que precisava, enfiei-a na fechadura, girei-a duas vezes e, em purrando a porta com toda força, fiz o batente bater no tabique.
O golpe soou com o um a detonação de fuzil e eis que àquele som de
explosão respondeu, de cim a a baixo de m inha m oradia, um form idável
tum ulto. Foi tão súbito, tão terrível, tão ensurdecedor que recuei alguns passos e que, m esm o continuando a senti-lo inútil, tirei de seu coldre o m eu revólver.
Esperei ainda, oh!, por pouco tem po. Distinguia agora um extraordinário
tropel sobre os degraus de m inha escada, sobre os assoalhos, sobre os tapetes, um bater não de calçados, de sapatos hum anos, m as de m uletas, de m uletas de
m adeira e de m uletas de ferro que vibravam com o cím balos. E eis que de
repente percebi, na soleira da porta, um a poltrona, m inha grande poltrona de leitura, que saía bam boleando. Foi-se pelo j ardim afora. Outras a seguiram , as do salão, depois os canapés baixos e se arrastando com o crocodilos sobre suas
patas curtas, depois todas as m inhas cadeiras, com pulos de cabras, e os
pequenos tam boretes que trotavam com o coelhos.
Ah! Que em oção! Enfiei-m e num arbusto onde fiquei acocorado,
contem plando sem cessar aquele desfile de m eus m óveis, pois todos eles se
iam , um atrás do outro, depressa ou devagar, conform e seu tam anho e seu
peso. Meu piano, m eu grande piano de cauda, passou num galope de cavalo
furioso e um m urm úrio de m úsica nas entranhas, os obj etos m enores
deslizavam sobre a areia com o form igas, as escovas, os cristais, as taças, em
que o luar pendurava fosforescências de pirilam pos. Os tecidos rastej avam ,
desdobrando-se em poças com o os polvos do m ar. Vi surgir m inha
escrivaninha, um raro bibelô do século passado que continha todas as cartas
que recebi, toda a história de m eu coração, um a história antiga que tanto m e
fez sofrer! E dentro estavam tam bém as fotografias.
De repente, não tive m ais m edo, atirei-m e sobre ela e agarrei-a com o se
agarra um ladrão, com o se agarra um a m ulher que foge; m as ela ia num a
corrida irresistível e, apesar de m eus esforços e apesar de m inha cólera, nem
m esm o consegui dim inuir-lhe a m archa. Ao resistir com o um desesperado
àquela força espantosa, caí por terra lutando contra ela. Então ela me
envolveu, arrastou-m e pela areia e j á os m óveis, que a seguiam , com eçavam a
andar em cim a de m im , pisoteando m inhas pernas e
m achucando-as; então, quando a larguei, os outros passaram sobre m eu corpo com o um a carga de cavalaria sobre um soldado desm ontado.
Louco de pavor, enfim , consegui m e arrastar para fora da grande aléia e
m e esconder outra vez nas árvores, para observar desaparecerem os m ais
ínfim os obj etos, os m enores, os m ais m odestos, os m ais ignorados por m im ,
que m e haviam pertencido.
Depois ouvi, ao longe, em m eu lar agora sonoro com o as casas vazias, um
form idável barulho de portas se fechando. Elas bateram de alto a baixo da
m ansão, até que a do vestíbulo, que eu m esm o havia aberto, insensato, para
aquela fuga, se fechou, afinal, por últim o.
Fugi tam bém , correndo para a cidade, e só recuperei m eu sangue-frio nas
ruas, ao encontrar retardatários. Fui bater à porta de um hotel onde era
conhecido. Sacudira, com as m ãos, m inhas roupas para tirar-lhes a poeira e
contei que tinha perdido m eu chaveiro, que continha tam bém a chave do
pom ar, onde dorm iam m eus criados num a casa isolada atrás da cerca que
resguardava m inhas frutas e m eus legum es contra a visita dos vagabundos.
Enfiei-m e até os olhos na cam a que m e deram . Mas não consegui dorm ir e
esperei o dia ouvindo m eu coração pular. Tinha ordenado que prevenissem
m eus em pregados ao clarear do dia e m eu criado de quarto bateu a m inha
porta às sete da m anhã.
Seu rosto parecia transtornado.
— Aconteceu um a grande tragédia esta noite, senhor — disse ele.
— O que foi?
— Roubaram toda a sua m obília, senhor, tudo, tudo, até os m enores
obj etos.
Aquela notícia m e agradou. Por quê? Quem sabe? Eu estava tranqüilo,
seguro de poder dissim ular, de nada dizer, a ninguém , do que tinha visto, de
escondê-lo, enterrá-lo na m inha consciência com o um segredo terrível.
Respondi:
— Então são as m esm as pessoas que m e roubaram as chaves. É preciso
prevenir im ediatam ente a polícia. Vou m e levantar e o encontro lá em alguns
instantes.
A investigação durou cinco m eses. Nada se descobriu, não se encontrou
m ais o m enor de m eus bibelôs, nem o m enor traço dos ladrões. Caram ba! Se
eu tivesse dito o que sabia... se tivesse dito... teria sido preso, eu, não os ladrões, m as o hom em que fora capaz de ver um a coisa daquelas.
Oh! Eu soube ficar calado. Mas não m obiliei m inha casa. Era inútil.
Aquilo teria recom eçado. Eu não queria m ais entrar ali. Não entrei m ais. Não
m ais a revi.
Fui para Paris, para o hotel, e consultei m édicos a respeito do m eu estado
de nervos, que m e inquietava bastante desde aquela noite deplorável.
Eles m e aconselharam viaj ar. Segui seu conselho.
II
Com ecei com um a excursão pela Itália. O sol m e fez bem . Durante seis
m eses, vaguei de Gênova a Veneza, de Veneza a Florença, de Florença a
Rom a, de Rom a a Nápoles. Depois percorri a Sicília, terra adm irável por sua
natureza e seus m onum entos, relíquias deixadas pelos gregos e pelos
norm andos. Passei para a África, atravessei em paz aquele grande deserto am arelo e calm o, pelo qual vagam cam elos, gazelas e árabes errantes, onde,
no ar leve e transparente, não flutua qualquer assom bração, sej a à noite ou
durante o dia.
Voltei à França por Marselha e, apesar da alegria provençal, a luz reduzida
do céu m e entristeceu. Senti, ao retornar ao continente, a estranha im pressão
de um doente que se acredita curado e a quem um a dor surda previne que a
essência do m al não está extinta.
Depois voltei a Paris. Ao final de um m ês, aborrecia-m e. Era outono e quis
fazer, antes do inverno, um a excursão pela Norm andia, que eu não conhecia.
Com ecei por Rouen, é claro, e durante oito dias vaguei distraído,
encantado, entusiasm ado, por aquela cidade m edieval, por aquele surpreen-
dente m useu de extraordinários m onum entos góticos.
Ora, um a tarde, por volta das quatro horas, quando m e aventurava por um a
rua inacreditável, na qual corre um rio negro com o tinta, cham ada Eau de
Robec, m inha atenção, fixa na fisionom ia estranha e antiga das casas, foi de
repente desviada pela visão de um a série de loj as de brechós que lá estavam
um a ao lado da outra.
Ah! Aqueles sórdidos traficantes de velharias tinham escolhido m uito bem
seu lugar, naquela fantástica ruela acim a daquele sinistro riacho, sob aqueles telhados pontudos de tenhas de ardósia nos quais ainda rangiam os cataventos
do passado!
No fundo das loj as som brias, viam -se am ontoar os baús esculpidos, as porcelanas de Rouen, de Nevers, de Moustiers, estátuas pintadas, outras em
carvalho, cristos, virgens, santos, ornatos de igrej a, param entos, m antos, até m esm o vasos sagrados e um velho tabernáculo em m adeira dourada de onde
Deus se m udara. Oh! As singulares cavernas naquelas casas altas, naquelas
casas grandes, cheias, dos porões aos sótãos, de obj etos de todo tipo, cuj a
existência parecia term inada, que sobreviviam a seus donos, a seu século, a
seu tem po, a sua m oda, para serem com prados com o curiosidades pelas novas
gerações.
Minha ternura pelos bibelôs despertava naquela cidade de antiquários. Eu
ia de loj a em loj a, atravessando, em duas passadas, as pontes de quatro tábuas podres atiradas sobre a corrente nauseabunda da Eau de Robec.
Misericórdia! Que choque! Um de m eus m ais belos arm ários apareceu-m e
na entrada de um a abóbada atulhada de obj etos e que parecia a entrada das
catacum bas de um cem itério de m óveis antigos. Aproxim ei-m e com todos os
m em bros trêm ulos, tão trêm ulo que não ousava tocá-lo. Eu esticava a m ão,
hesitava. Mas era bem ele: um arm ário Luís XIII único, reconhecível por
quem quer que o tivesse visto um a única vez. Erguendo de repente os olhos
para um pouco m ais adiante, para as profundezas daquela galeria, avistei três
de m inhas poltronas cobertas de tapeçaria em petit-point, depois, ainda m ais
adiante, m inhas duas m esas Henrique II, tão raras que ia gente de Paris para
vê-las.
Im aginem ! Im aginem o estado de m inha alm a!
E eu avançava, paralisado, agonizando de em oção, m as avançava, pois sou
valente, avançava com o um cavaleiro das épocas tenebrosas penetrava num
antro de sortilégio. Encontrava a cada pilha tudo o que m e pertencera, m eus
lustres, m eus livros, m eus quadros, m eus tecidos, m inhas arm as, tudo, exceto
a escrivaninha com m inhas cartas, que não vi.
Eu prosseguia, descendo as galerias obscuras para voltar a seguir aos
andares superiores. Eu estava sozinho. Cham ava, ninguém respondia. Eu
estava sozinho; não havia ninguém naquela casa im ensa e tortuosa com o um
labirinto.
Chegou a noite e precisei m e sentar, nas trevas, sobre um a de m inhas
cadeiras, pois absolutam ente não queria ir em bora. De tem pos em tem pos
gritava:
— Olá! Olá alguém !
Eu estava lá há m ais de um a hora, sem dúvida, quando ouvi passos, passos leves, lentos, não sei onde. Quase fugi, m as, obstinado, cham ei novam ente, e
percebi um a luz no côm odo vizinho.
— Quem está aí? — perguntou um a voz.
Respondi:
— Um com prador.
Retrucaram :
— E bem tarde para entrar assim nas loj as.
Continuei:
— Estou a sua espera há m ais de um a hora.
— O senhor poderia ter voltado am anhã.
— Am anhã não estarei m ais em Rouen.
Eu não ousava m e aproxim ar, e ele não vinha. Eu continuava a ver a
claridade de sua luz ilum inando um a tapeçaria na qual dois anj os voavam acim a dos m ortos de um cam po de batalha. Tam bém m e pertencia. Eu disse:
— Então? O senhor vem ?
Ele respondeu:
— Estou a sua espera.
Levantei-m e e fui até ele.
No m eio de um grande côm odo estava um hom em m uito baixinho, m uito
baixinho e m uito gordo, gordo com o um fenôm eno, um pavoroso fenôm eno.
Ele tinha um a barba extraordinária, de pêlos desiguais, ralos e am arelados,
e nenhum fio de cabelo na cabeça! Nenhum fio de cabelo! Com o ele segurava
sua vela na ponta do braço erguido para m e ver, seu crânio m e surgiu com o
um a pequena lua naquele enorm e quarto abarrotado de velhos m óveis. O rosto
era enrugado e balofo, os olhos im perceptíveis.
Regateei três cadeiras que eram m inhas e logo paguei por elas um a grande
som a, dando sim plesm ente o núm ero de m eu apartam ento no hotel. Elas m e
deveriam ser entregues no dia seguinte antes das nove horas.
Depois, saí. Ele m e levou até sua porta com m uita cortesia.
Dirigi-m e a seguir ao com issário central da polícia, a quem contei o roubo
de m inha m obília e a descoberta que acabava de fazer.
Ele pediu, no m esm o instante, inform ações por telégrafo à instância que
cuidara do caso daquele roubo, pedindo-m e que aguardasse a resposta. Um a
hora m ais tarde, ela chegou, totalm ente satisfatória.
— Vou m andar prender esse hom em e interrogá-lo im ediatam ente —
disse-m e ele — pois ele poderia ter suspeitado de algo e feito desaparecer o que lhe pertence. Poderia ir alm oçar e voltar em duas horas? Eu o terei aqui e m andarei subm etê-lo a um novo interrogatório na sua presença.
— Com m uito prazer, senhor. Agradeço-lhe de todo o coração. Fui
alm oçar no m eu hotel e com i m elhor do que teria im aginado.
Apesar de tudo, eu estava bastante contente. Ele fora apanhado.
Duas horas m ais tarde, voltei ao funcionário da polícia, que m e aguardava.
— Pois bem , senhor! — disse ele ao m e ver. — Não encontram os o seu
hom em . Meus agentes não conseguiram pegá-lo.
Ah! Senti-m e desfalecer.
— Mas... conseguiram encontrar a casa? — perguntei.
— Com certeza. Ela vai ser observada e vigiada até a volta dele. Quanto a
ele, desapareceu.
— Desapareceu?
— Desapareceu. Ele passa em geral as noites na casa da vizinha, um a
com erciante de antiguidades tam bém , um a feiticeira estranha, a viúva Bidoin.
Ela não o viu esta noite, e não tem qualquer inform ação a dar sobre ele.
Precisam os esperar até am anhã.
Fui em bora. Ah! Com o as ruas de Rouen m e pareceram sinistras,
perturbadoras, assom bradas.
Dorm i m uito m al, com pesadelos a cada pedacinho de sono.
Com o não queria parecer por dem ais inquieto ou apressado, esperei até as
dez horas, no dia seguinte, para ir à polícia.
O com erciante não reaparecera. Sua loj a continuava fechada.
O com issário m e disse:
— Tom ei todas as providências necessárias. A delegacia está a par de
tudo; vam os j untos àquela loj a e vam os m andar abri-la, o senhor m e m ostrará
tudo o que é seu.
Um a viatura nos levou. Havia agentes parados, com um serralheiro, diante
da porta da loj a, que foi aberta.
Não vi, ao entrar, nem m eu arm ário, nem m inhas poltronas, nem m inhas
m esas, nem coisa algum a, nada, nada, do que havia m obiliado m inha casa,
absolutam ente nada, enquanto na véspera à noite eu não podia dar um passo
sem encontrar um de m eus obj etos.
O com issário central, surpreso, olhou-m e a princípio com desconfiança.
— Meu Deus, senhor — falei —, o desaparecim ento desses m óveis
coincide estranham ente com o do com erciante.
Ele sorriu.
— É verdade! O senhor fez m al com prando e pagando seus obj etos, ontem
à noite. Isso o alertou.
Continuei:
— O que m e parece incom preensível é que todos os lugares onde estavam
os m eus m óveis estej am agora ocupados por outros.
— Oh! — respondeu o com issário. — Ele teve a noite inteira, e cúm plices,
sem dúvida. Esta casa deve se com unicar com as casas vizinhas. Não se
preocupe, senhor, vou m e ocupar deste caso com m uito em penho. O m alandro
não nos escapará por m uito tem po, porque estam os observando o covil.
........................................................
Ah! Meu coração, m eu coração, m eu pobre coração, com o ele batia!
........................................................
Fiquei 15 dias em Rouen. O hom em não voltou. Céus! Céus! Quem seria
capaz de prender ou surpreender aquele hom em ?
Ora, no décim o sexto dia, pela m anhã, recebi de m eu j ardineiro, guardião
de m inha casa saqueada e ainda vazia, a estranha carta que segue:
Senhor,
Tenho a honra de informar ao senhor que se passou, ontem à noite, algo
que ninguém compreende, e a polícia tampouco. Todos os móveis voltaram,
todos sem exceção, todos, até os menores objetos. A casa está agora
exatamente igual ao que era na véspera do roubo. É de se perder a cabeça.
Isso se deu na noite de sexta-feira para sábado. Os caminhos estão em
péssimo estado, como se alguém houvesse arrastado tudo, da porteira até a
porta de entrada. Estava do mesmo modo no dia do desaparecimento.
Esperamos pelo senhor, de quem sou humilde servidor,
PHILIPPE RAUDIN
Ah, não! Ah, não! Ah, não! Não voltarei para lá!
Levei a carta ao com issário de Rouen.
— É um a restituição m uito hábil — disse ele. — Vam os nos fazer de
m ortos. Qualquer dia desses pegam os o hom em .
..........................................................
Mas não o pegaram . Não. Eles não o pegaram e eu tenho m edo dele, agora,
com o se fosse um a besta feroz solta atrás de m im .
Inencontrável! É inencontrável, aquele m onstro com cabeça de lua! Nunca o apanharão. Ele não voltará para casa. Não lhe interessa. Só eu posso
encontrá-lo, e eu não quero.
Não quero! Não quero! Não quero!
E se ele voltar, se entrar em sua loj a, quem poderá provar que m eus
m óveis estavam em sua casa? Contra ele só há o m eu testem unho, e vej o bem
que está ficando suspeito.
Ah, não! Esta existência não era m ais possível. E eu não podia guardar o
segredo do que vi. Não podia continuar a viver com o todo m undo, com o
tem or de que coisas sem elhantes voltassem a acontecer.
Vim em busca do m édico que dirige esta casa de saúde, e contei tudo.
Depois de m e interrogar por m uito tem po, ele disse:
— O senhor consentiria em ficar aqui por algum tem po?
— Com prazer, senhor.
— O senhor tem recursos?
— Tenho, senhor.
— Desej a um pavilhão isolado?
— Sim , senhor.
— Desej ará receber am igos?
— Não, senhor. Não. Ninguém . O hom em de Rouen poderia ousar, por
vingança, m e perseguir até aqui.
..........................................................
E estou só, só, com pletam ente só, há três m eses. Estou quase tranqüilo. Só
tenho m edo de um a coisa... Se o antiquário enlouquecer... e se o puserem neste hospício... Nem m esm o as prisões são seguras...
6 de abril de 1890
Tradução de Celina Portocarrero
O horla
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8 DE MAIO - QUE DIA LINDO! Passei toda a m anhã deitado na relva, na frente da
m inha casa, sob o enorm e plátano que a cobre, a abriga e a som breia por
inteiro. Gosto desse lugar, e gosto de viver aqui porque aqui tenho m inhas
raízes, essas profundas e delicadas raízes, que prendem um hom em na terra
em que nasceram e m orreram seus ancestrais, que o prendem ao que se pensa
e ao que se com e, aos usos e aos alim entos, às locuções orais, às entonações
dos cam poneses, aos cheiros do solo, das aldeias e do próprio ar.
Gosto de m inha casa onde cresci. De m inhas j anelas, vej o o Sena que
corre, ao longo de m eu j ardim , atrás da estrada, quase dentro de casa, o
grande e largo Sena que vai de Rouen ao Havre, coberto de barcos que
passam .
À esquerda, ao longe. Rouen, a grande cidade de telhados azuis, sob a
m ultidão pontuda dos cam panários góticos. Eles são incontáveis, frágeis ou
am plos, dom inados pela flecha m etálica da catedral e cheios de sinos que
batem no ar azul das belas m anhãs, enviando-m e seu suave e longínquo
burburinho de ferro, seu canto de bronze que a brisa m e traz, ora m ais forte
ora m ais fraco, conform e ela desperta ou cochila.
Com o estava bonita aquela m anhã!
Por volta das onze horas, um longo com boio de navios, puxados por um
rebocador, do tam anho de um a m osca e que resm ungava de dor vom itando
um a fum aça espessa, desfilou diante de m inha grade.
Depois de duas escunas inglesas, cuj o pavilhão verm elho ondulava ao céu,
vinha um a esplêndida barca brasileira de três m astros, toda branca,
adm iravelm ente lim pa e reluzente. Saudei-a, não sei por quê, tão grande foi o prazer que m e deu a visão daquele navio.
12 de m aio — Estou com um pouco de febre há alguns dias; sinto-m e
adoentado, ou talvez m e sinta triste.
De onde vêm essas influências m isteriosas que transform am em desânim o
nossa felicidade e nossa confiança em angústia? Dir-se-ia que o ar, o ar
invisível, está cheio de forças desconhecidas, cuj a m isteriosa proxim idade nos afeta. Acordo cheio de alegria, com vontades de cantar em m inha garganta. —
Por quê? — Desço o curso da água e de repente, depois de um curto passeio,
volto desolado, com o se algum a infelicidade m e aguardasse em casa. — Por
quê? — Será um arrepio de frio que, roçando m inha pele, abalou m eus nervos