Os Melhores Contos Fantásticos

Flávio Moreira da Costa · Capítulo 1 de 2 · parte 18/28

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Os Melhores Contos Fantásticos

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 28 partes.

rem over os pertences daquele infeliz, ficarei onde estou. Não direi nada sobre o assunto e acho que posso prom eter que não seguirei o cam inho do m eu

com panheiro de cam arote.

"O capitão tentou m e dissuadir das m inhas intenções, m as preferi ficar só no cam arote a partilhar um aloj am ento com qualquer oficial a bordo. Não sei

se agi im pensadam ente, m as se tivesse seguido seu conselho nada m ais teria a

contar. Perm aneceria aquela desagradável coincidência de vários suicídios ocorridos entre hom ens que ocuparam a m esm a cabine, m as isso teria sido

tudo.

"O assunto, no entanto, não estava de m odo algum term inado. Obsti-

nadam ente, decidi que não seria perturbado por aquelas histórias, e cheguei

até a argum entar com o capitão. Havia algo de errado com o cam arote, eu

disse. Ele estava m uito úm ido. A escotilha fora deixada aberta na noite

anterior. Meu com panheiro poderia j á estar doente quando veio a bordo, e

poderia ter sido tom ado por alucinações após ter ido dorm ir. Poderia, naquele

exato instante, encontrar-se escondido em algum lugar da em barcação e

poderia ser achado m ais tarde. O local precisava ser arej ado e a tranca da

escotilha exam inada. Se o capitão m e desse licença, eu iria cuidar para que

aquelas providências fossem tom adas im ediatam ente.

"— Claro, é seu o direito de ficar onde achar m elhor — retrucou ele, um tanto petulante —, m as gostaria que saísse de lá para eu poder interditar o

cam arote e acabar com essa história.

"Eu não via as coisas do m esm o m odo e deixei o capitão, após prom eter

m anter em sigilo o desaparecim ento do m eu com panheiro de cam arote. Ele

não tinha conhecido ninguém a bordo e não deram pela sua falta ao Longo do

dia. Quando a noite caiu, voltei a encontrar com o m édico e ele m e perguntou

se eu havia m udado de opinião. Eu lhe disse que não.

"— Então m udará m uito em breve — disse-m e com um a expressão m uito

séria."

III

"Jogam os bridge à noite e fui m e deitar tarde. Confessarei agora que tive um a sensação desagradável quando voltei para m eu cam arote. Não pude

deixar de pensar no hom em alto que vira na noite anterior, que agora estava

m orto, afogado, arrem essado de um lado para outro pelas im ensas ondas que

ficaram para trás. Seu rosto surgiu diante de m im enquanto m e despia e

cheguei m esm o a abrir as cortinas do leito superior, com o se quisesse m e

convencer de que ele tinha de fato desaparecido. Tam bém tranquei a porta do

cam arote. De repente, m e dei conta de que a escotilha estava aberta e a fechei.

Era m ais do que eu podia suportar. Apressadam ente, coloquei m eu robe e saí

em busca de Robert, o com issário responsável por aquele corredor. Eu estava

furioso, m e lem bro, e quando o encontrei arrastei-o rudem ente até a porta do

105 e o em purrei na direção da escotilha.

"— Que diabos você está pretendendo, seu patife, deixando a escotilha

aberta todas as noites? Não sabe que é contra os regulam entos? Não sabe que,

se o navio adernar e a água com eçar a entrar, nem dez hom ens seriam capazes

de fechá-la? Avisarei ao capitão, seu im becil, que você está colocando a

em barcação em perigo!

"Eu estava extrem am ente irado. O hom em trem ia e em palidecera, e então

com eçou a fechar o vidro esférico com o pesado trinco de bronze. "— Por que você não m e responde?

"— Por favor, senhor — balbuciou Robert —, não há ninguém a bordo

capaz de m anter essa escotilha fechada à noite. O senhor m esm o pode tentar.

Eu não viaj o m ais neste navio, senhor; nunca m ais. Mas se eu

fosse o senhor, sim plesm ente saía daqui e iria dorm ir com o m édico ou em outro lugar. Olhe só, senhor, está trancada com firm eza ou não está? Tente,

senhor, vej a se consegue abri-la.

"Eu verifiquei e notei que estava perfeitam ente trancada.

"— Pois bem , senhor — continuou Robert triunfante —, eu aposto a m inha

reputação de com issário de prim eira classe que em m eia hora ela estará aberta

m ais um a vez; e presa para trás tam bém , senhor, e é isso o m ais assustador!

"Exam inei o grande parafuso e a presilha que o prendia.

"— Se voltar a abrir nesta noite. Robert, lhe darei um a gratificação. Não é possível que isso aconteça. Pode ir em bora.

"— Um a gratificação, senhor? Muito bem . Obrigado, senhor. Boa noite.

Tenha um sono agradável e sonhos deliciosos, senhor.

"Robert se foi pelo corredor, satisfeito por ter sido liberado. É claro que eu pensei que ele estivesse tentando j ustificar sua negligência, contando um a

história absurda, destinada a m e assustar e, por isso, não acreditei nele. A

conseqüência foi que ele ganhou sua gratificação, e eu passei um a noite

m uito, m as m uito desagradável.

"Fui m e deitar e, cinco m inutos depois de ter m e posto sob os cobertores, o inexorável Robert apagou a luz que ardia atrás do candeeiro de vidro

esm erilhado, próxim o à porta. Fiquei deitado im óvel no escuro, tentando

adorm ecer, m as logo percebi que seria im possível. Tinha sentido algum a

satisfação ao m e zangar com o com issário, e aquela distração afastara a

incôm oda sensação que experim entara no início, quando pensava no hom em

afogado que havia sido m eu com panheiro de cabine; m as j á não tinha m ais

sono e fiquei deitado algum tem po, olhando de vez em quando para a escotilha, que eu podia ver parcialm ente de onde eu m e encontrava, e que, na

escuridão, parecia-se com um prato de sopa m eio lum inoso suspenso nas

trevas. Acho que fiquei daquele j eito por um a hora e, pelo que m e lem bro,

estava a ponto de adorm ecer quando fui despertado por um a corrente de ar

frio e pela nítida sensação de receber um a borrifada de gotas do m ar sobre o

rosto. Levantei-m e im ediatam ente e, não tendo levado em conta no escuro o

balanço do navio, fui logo atirado com violência para o outro lado do

cam arote, caindo sobre o sofá que se encontrava abaixo da escotilha. Mas

logo consegui m e recom por e m e levantei. A escotilha estava m ais um a vez

aberta e presa por trás!

"Agora, o que segue são fatos. Eu estava bem desperto quando m e levantei

e, seguram ente, teria sido acordado pela queda, se ainda

estivesse sonolento. Além disso, m achuquei bastante m eus cotovelos e m eus j oelhos, e os ferim entos estavam lá na m anhã seguinte para testem unhar o

fato, caso eu m esm o duvidasse. A escotilha estava toda aberta e presa por trás

— algo tão inj ustificável que lem bro m uito bem ter sido um a sensação de

espanto e não de m edo que se apoderou de m im , ao descobrir o que

acontecera. Im ediatam ente, fechei a escotilha e aparafusei o ferrolho com toda a m inha força. Estava m uito escuro no cam arote. Concluí que a escotilha com

certeza havia sido aberta um a hora depois de Robert a ter fechado diante de

m im , e decidi ficar observando para ver se ela abriria de novo. Aquelas

presilhas de bronze são pesadas e de m odo algum fáceis de rem over; eu não

podia acreditar que o gram po houvesse se soltado com a trepidação do

parafuso. Fiquei em pé, espiando através do vidro espesso os vestígios brancos e cinzentos do m ar que espum ava sob o bordo da em barcação. Devo

ter perm anecido assim durante 45 m inutos.

"De repente, ouvi com clareza algum a coisa se m exendo atrás de m im em

um dos leitos e, logo em seguida, assim que m e virei instintivam ente para

olhar — em bora, é claro, não conseguisse enxergar nada no escuro —, ouvi

um leve gem ido. Atravessei com passos rápidos o cam arote e abri as cortinas

do leito superior, apalpando-o para ver se havia alguém ali. Havia alguém .

"Lem bro-m e de que, ao colocar m inhas m ãos lá dentro, tive a sensação de

as estar introduzindo no interior de um porão úm ido, e por trás das cortinas

veio um a lufada de vento que recendia com intensidade a água do m ar

estagnada. Segurei algum a coisa que tinha a form a de um braço hum ano, m as

estava frouxo e m olhado, e glacialm ente frio. Mas de repente, quando recolhia

m inhas m ãos, a criatura saltou violentam ente na m inha direção, parecia um a

m assa pegaj osa e lam acenta, ainda assim dotada de um a força sobrenatural.

Cam baleei pelo cam arote e, num instante, a porta se abriu e a coisa saiu às

pressas. Não tive tem po de ter m edo e, m e recuperando num segundo, saí

correndo pela porta na sua captura, m as era tarde dem ais. Dez m etros na

m inha frente, pude ver — tenho certeza de que vi — um a som bra escura se

m ovendo na tênue claridade do corredor, rápida com o a som bra de um cavalo

veloz proj etada pela lam parina na noite escura. Mas, num instante, ela desa-

pareceu e m e encontrei segurando o corrim ão que se estendia ao longo do

corredor, antes de chegar à porta. Meus cabelos estavam em pé, e um

suor frio escorria pelo m eu rosto. Não tenho a m enor vergonha de afirm ar: eu estava terrivelm ente apavorado.

"Ainda assim , eu desconfiava dos m eus sentidos, e m ais um a vez m e

recom pus. Era um absurdo, pensei. O Welsh-Rarebit³ que tinha com ido não m e fizera bem . Era um pesadelo. Voltei para o m eu cam arote e tive que m e

esforçar para entrar. O lugar estava im pregnado com o cheiro de água do m ar

estagnada, com o antes, quando eu tinha acordado na véspera. Foi-m e preciso

im ensa energia para entrar e buscar entre m eus pertences um a caixa de velas.

Quando acendi um a lanterna de leitura, que sem pre carrego na bagagem no

caso de querer ler quando está escuro, percebi que a escotilha estava

novam ente aberta, e um a espécie de pavor arrepiante tom ou conta de m im ,

com o nunca acontecera antes, e tam pouco espero voltar a sentir. Avancei em

seguida com a lanterna e com ecei a exam inar o leito superior, esperando

encontrá-lo encharcado de água do m ar.

"Mas fiquei desapontado. A cam a havia sido usada, e o cheiro do m ar era

forte; entretanto os lençóis estavam totalm ente secos. Im aginei que Robert

não tivera coragem de arrum ar a cam a após o acidente da noite anterior —

fora um pesadelo abom inável. Abri as cortinas o m áxim o que pude e exam inei

o local com todo cuidado. Tudo perfeitam ente seco. Mas a escotilha estava

aberta outra vez. Com um a espécie de apática perplexidade diante do horror,

fechei-a, aparafusei-a e bati com força usando m inha bengala pesada, até o

espesso m etal com eçar a vergar sob a pressão. Em seguida, deixei m inha

lanterna de leitura sobre o encosto do sofá e sentei-m e para tentar recuperar os sentidos. Fiquei ali sentado a noite toda, incapaz de pensar em descansar —

incapaz de pensar em qualquer coisa. Mas a escotilha perm aneceu fechada e eu não acreditava que ela pudesse ser reaberta sem que fosse em pregada um a

força considerável.

"O dia finalm ente raiou e m e vesti com vagar, repensando no que ocorrera

na últim a noite. Fazia um belo dia e saí para o convés, m e expondo com

prazer aos prim eiros e puros raios de sol, e respirando a brisa que soprava das águas azuis, tão diferente do odor fétido e estagnado do m eu cam arote.

Instintivam ente, virei-m e para a popa e cam inhei na direção da cabine do

m édico. Lá estava ele, com um cachim bo na boca, em seu arej am ento m atinal,

exatam ente com o no dia precedente.

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3 Receita à base de queij o derretido com pedaços de lingüiça, criada no País de Gales. (N.T.)

"— Bom dia — disse ele calm am ente, porém m e observando com evidente curiosidade.

"— Doutor, você tinha razão de fato — adm iti. — Há algo estranho em

relação àquele lugar.

"— Eu achava m esm o que você m udaria de idéia — respondeu com um ar

triunfante. — Teve um a noite ruim , não? Posso lhe preparar um drinque?

Tenho um a receita da m elhor qualidade.

"— Não, obrigado — respondi. — Mas gostaria de contar-lhe o que

aconteceu.

"Tentei então explicar o m ais claram ente possível o que de fato havia

ocorrido, sem om itir aquele pavor que eu nunca havia experim entado em toda

a m inha vida. Detive-m e em particular no fenôm eno da escotilha, que era um detalhe que eu podia com provar, ainda que todo o resto tivesse sido um a

ilusão. Eu a fechara duas vezes durante a noite, e na segunda vez, chegara a

em penar o trinco de bronze, forçando-o com m inha bengala. Acredito ter

insistido um bocado neste porm enor.

"— Você parece pensar que eu duvide da sua história — disse o m édico,

sorrindo ao ouvir m inha narrativa detalhada sobre o estado da escotilha. —

Não duvido nem um pouco. Perm ita-m e insistir no m eu convite. Traga seus

pertences e pode ficar com a m etade de m eu cam arote.

"— Venha você e fique com a m etade do m eu por um a noite — disse eu.

— Aj ude-m e a chegar ao fundo desse m istério.

"— Você chegará ao fundo de um a outra coisa, se tentar — respondeu o

m édico.

"— Do quê? — perguntei.

"— Ao fundo do m ar. Eu vou deixar este navio. É m ais prudente. "— Então não m e aj udará a descobrir...

"— Não — respondeu ele im ediatam ente. — Faz parte do m eu trabalho

conservar m eu bom estado m ental, não sair por aí descobrindo m istérios

fantasm agóricos.

"— Acredita m esm o que se trata de um fantasm a? — indaguei com

desdém . Todavia, enquanto eu falava, lem brei-m e com detalhes da sensação

horrível ante o sobrenatural que se abateu sobre m im durante a noite. O

m édico voltou a falar com certa rispidez:

"— Você tem um a explicação sensata a oferecer sobre esses eventos? —

perguntou. — Não, você não tem . Muito bem , você diz que encontrará um a

explicação. Eu digo que não, sim plesm ente porque não existe nenhum a

explicação.

"— Mas, m eu caro — retorqui —, você, um hom em das ciências, está m e dizendo que tais coisas não podem ser explicadas?'

"— Estou — respondeu resolutam ente. — E, se pudessem , eu não estaria

interessado na explicação.

"Eu não m e im portava de passar m ais um a noite sozinho no cam arote. Eu

estava determ inado a alcançar a raiz daquele inquietante enigm a. Não acredito

que haj a m uitos hom ens que dorm iriam ali sozinhos, após passar duas noites

com o aquelas. Mas eu estava decidido a tentar, j á que não conseguia

encontrar ninguém que partilhasse a vigília com igo. O m édico,

evidentem ente, não estava inclinado a tal experim ento. Alegou que era

m édico e, no caso de um acidente qualquer se produzir a bordo, ele deveria

estar sem pre de prontidão. Não podia perm itir que seus nervos fossem

perturbados. Talvez tivesse razão, m as tendo a achar que sua precaução era

fruto de seu estado de espírito. Indagado, ele inform ou que não havia ninguém

a bordo capaz de se aliar a m im naquela investigação e, após conversarm os

m ais um pouco, eu o deixei. Mais tarde, encontrei o capitão e lhe contei

m inha história. Disse-lhe que, se ninguém poderia passar a noite com igo, eu

pediria perm issão para que a luz no corredor fosse deixada acesa a noite toda, e tentaria descobrir o m istério sozinho.

"— Vej a bem — disse-m e ele —, j á sei o que vou fazer: passarei eu

m esm o a noite com você e verem os o que acontece. Estou convicto de que

poderem os descobrir isso j untos. Pode haver algum suj eito, escondido a

bordo, querendo roubar o corredor dando sustos nos passageiros. É possível

que, sim plesm ente, haj a algo de estranho na carpintaria daquele leito.

"Sugeri que cham asse o carpinteiro do navio para exam inar o local; m as eu estava m uito satisfeito com a oferta do capitão de passar a noite no m eu

cam arote. Com o com binado, ele m andou o carpinteiro ir m e procurar e fazer

o que eu lhe pedisse. Seguim os para o cam arote. Toda a roupa de cam a foi

retirada do leito superior e nós exam inam os detalhadam ente o lugar,

procurando um a tábua solta ou um revestim ento que pudesse ser aberto ou

rem ovido. Verificam os todas as tábuas, abrim os o soalho, desatarraxam os os

encaixes do leito inferior e o desm ontam os todo; resum indo, não houve um a

polegada do cam arote que não tivesse sido exam inada. Tudo se encontrava

em perfeita ordem , e recolocam os tudo no lugar. Quando estávam os

term inando nossa tarefa. Robert apareceu à porta e olhou para dentro.

"— E então, senhor, acharam algum a coisa? — perguntou, com um sorriso horripilante.

"— Você tinha razão em relação à escotilha. Robert — eu disse, en-

tregando-lhe a gratificação prom etida.

"O carpinteiro, silencioso, concluiu com destreza seu trabalho, seguindo

m inhas orientações. Quando acabou, m e disse:

"— Sou um hom em sim ples, senhor. Mas acredito que seria m elhor retirar

seus pertences daqui e m e deixar trancar com um a dúzia de parafusos de

quatro polegadas a porta desta cabine. Este cam arote nunca trouxe nada de

bom , senhor, essa é a verdade. Já foram perdidas quatro vidas aqui, que eu m e

lem bre, e em quatro viagens. Melhor desistir, senhor, m elhor desistir!

"— Tentarei m ais um a noite — disse eu.

"— Melhor desistir, senhor, m elhor desistir! É um a tentativa inútil —

repetiu o carpinteiro, colocando suas ferram entas num a sacola e saindo da

cabine.

"Mas m eu ânim o tinha m elhorado consideravelm ente com a perspectiva de

contar com a com panhia do capitão, e eu estava decidido a ir até o fim

daquela estranha história. Abstive-m e de Welsh-Rarebit e qualquer bebida

alcoólica naquela noite, e nem m esm o participei do costum eiro j ogo de

bridge. Queria guardar m eu sangue-frio e, por vaidade, estava ansioso para causar um a boa im pressão ao capitão."

IV

"O capitão era um desses espécim es extrem am ente fortes e j oviais da

hum anidade navegante, cuj a com binação de coragem , audácia e placidez

diante das adversidades lhes confere um alto grau de confiança. Não era um

hom em que se deixasse levar por histórias infundadas, e o sim ples fato de

estar disposto a acom panhar-m e naquela investigação era prova de que

concordava que havia algo bastante errado, que não podia ser resultado de

incipientes teorias, tam pouco desprezado com o um a banal superstição. De um

certo m odo, tam bém , sua reputação estava em j ogo, assim com o a reputação

do navio. Perder passageiros que caem no m ar durante a viagem é algo

gravíssim o, e ele sabia disso.

"Por volta das dez horas, enquanto eu fum ava m eu últim o charuto, ele veio a m im e nos afastam os do grupo de passageiros que ocupava o convés aproveitando o calor da noite.

"— Esse assunto é sério, Brisbane — disse ele. — Tem os que nos preparar para duas possibilidades: ficar decepcionado ou enfrentar um a situação bem

difícil. Entenda que isso não é brincadeira e, o que quer que ocorra, pedirei

que assine seu nom e num relatório. Se não acontecer nada hoj e à noite,

tentarem os am anhã e na noite seguinte. Você está preparado?

"Descem os então pela escada e entram os no cam arote. Antes de entrar,

pude notar Robert, o com issário, que nos observava no corredor, um pouco

adiante, com seu sorriso habitual, com o se estivesse certo de que algo

horrendo estava prestes a acontecer. O capitão fechou a porta atrás de nós e a trancou.

"— Poderíam os colocar sua m ala contra a porta — sugeriu. — Um de nós

pode sentar-se sobre ela. Assim não haverá com o alguém fugir do quarto. A

escotilha está fechada?

"Encontrei-a com o a havia deixado pela m anhã. Aliás, sem usar um a

alavanca, do m odo que eu a deixara, ninguém poderia tê-la aberto. Descerrei

as cortinas do leito superior, de m aneira que pudesse observar bem seu

interior. Seguindo o conselho do capitão, acendi m inha lanterna de leitura e a coloquei sobre os lençóis brancos na cam a de cim a. Ele insistiu em sentar-se

sobre a m ala, queria ser capaz de j urar depois que tinha sentado diante da

porta.

"Em seguida, pediu-m e que vasculhasse todo o cam arote, operação essa

rapidam ente realizada, j á que consistia apenas em olhar sob o leito inferior e sob o sofá, abaixo da escotilha. Am bos os locais estavam perfeitam ente

vazios.

"— É im possível qualquer ser hum ano entrar aqui — disse eu — ou abrir a

escotilha.

"— Muito bem — concordou calm am ente o capitão. — Se virm os algum a

coisa agora, será fruto de nossa im aginação ou algo sobrenatural. "Sentei na beira do leito inferior.

"— A prim eira vez que isso aconteceu — disse o capitão, cruzando as

pernas e encostando-se contra a porta — foi em m arço. O passageiro que

dorm ia aqui, no leito superior, soubem os depois tratar-se de um lunático. De

qualquer m odo, era tido com o um desequilibrado e tinha com prado sua

passagem sem que seus conhecidos soubessem . Ele saiu correndo para fora no

m eio da noite e se lançou ao m ar, antes que o oficial do turno pudesse intervir.

Param os o navio e descem os os escaleres; era um a noite calm a, pouco antes

de a tem pestade nos alcançar;

no entanto não conseguim os encontrá-lo. Evidentem ente, seu suicídio foi depois atribuído a sua insanidade.

"— Im agino que isso aconteça com freqüência — com entei, distrai-

dam ente.

"— Não. Não com freqüência — disse o capitão. — Nunca acontecera

antes, na m inha experiência, em bora tenha ouvido falar de casos assim em

outros navios. Pois bem , com o eu dizia, isso aconteceu em m arço. Na viagem

que se seguiu... O que você está olhando? — perguntou ele, interrom pendo

bruscam ente sua narrativa.

"Acho que não lhe respondi. Meus olhos se viraram para a escotilha.

Pareceu-m e que o trinco de bronze estava com eçando a girar m uito lentam ente, tão lentam ente que não tive certeza de que aquilo estava de fato

acontecendo. Observei atento, fixando na m inha m ente sua posição e tentando

certificar-m e de que havia m exido. Vendo o que eu olhava, o capitão se

concentrou tam bém na m esm a direção.

"— Está se m exendo! — exclam ou ele, com convicção. — Não, não está

— acrescentou logo em seguida.

"— Se fosse a vibração da rosca — disse eu —, ela teria se aberto durante o dia, m as a encontrei agora há pouco apertada com o a deixei hoj e de m anhã.

"Levantei-m e e verifiquei a porca do parafuso. Certam ente, estava frouxa, pois com algum esforço pude m ovê-la com m inhas m ãos.

"— O que é estranho — disse o capitão — é que o segundo hom em que

caiu no m ar supostam ente passou pela escotilha. Passam os um m om ento

difícil por causa disso. Aconteceu no m eio da noite, e o tem po estava horrível; houve um alarm e indicando que um a das escotilhas estava aberta e a água

entrando na cabine. Eu desci e encontrei tudo inundado, a água penetrando a

cada vez que a em barcação oscilava, e a escotilha balançando, presa apenas

aos ferrolhos superiores. Enfim , conseguim os fechá-la, m as a água causou

algum dano. Desde então este lugar exala de vez em quando o cheiro do m ar.

Im aginam os que o passageiro tivesse passado pela abertura, em bora Deus

saiba com o teria conseguido. O com issário sem pre m e diz que não consegue

m anter nada fechado aqui. Palavra de honra, posso senti-lo agora, você não?

— indagou ele, respirando com um a expressão desconfiada.

"— Posso, distintam ente — respondi e estrem eci ao sentir aquele m esm o

odor de água do m ar estagnada dentro da cabine. — Mas para ter um cheiro assim , o lugar deveria estar encharcado — prossegui — e

no entanto, quando o exam inei com o carpinteiro hoj e de m anhã, tudo estava seco. É algo extraordinário... o que houve?

"Minha lanterna de leitura, que fora colocada no leito superior, apagou-se repentinam ente. Havia ainda bastante claridade vindo da lâm pada do corredor,

ao lado da porta. O navio balançava m uito e a cortina do leito superior

agitava-se dentro do cam arote. Ergui-m e logo de onde estava sentado, no

bordo da cam a, e o capitão, ao m esm o tem po, pôs-se de pé soltando um grito

de surpresa. Eu m e levantara na intenção de apanhar a lanterna e exam iná-la,

quando ouvi sua exclam ação e logo em seguida seu pedido de socorro. Parti

na sua direção. Ele estava lutando com toda sua força para fechar a escotilha.

Apesar de seu em penho, ela parecia virar no sentido contrário. Apanhei m inha

bengala, feita de carvalho resistente, que sem pre carrego com igo, e tentei

aj udá-lo com o podia. Mas a bengala se partiu e eu caí no sofá. Quando

consegui m e levantar, a escotilha estava inteiram ente aberta, e o capitão

estava em pé, as costas contra a porta, os lábios lívidos.

"— Há algum a coisa naquele leito! — berrou ele com um a voz estranha,

seus olhos esbugalhados. — Cuide da porta, enquanto eu olho. O que quer

que sej a, não deixarem os escapar!

"Mas, em vez de tom ar seu lugar, pisei sobre a m inha cam a e agarrei algo

que se encontrava no leito superior.

"Era algum a coisa fantasm agórica, tão horrível que não há palavras para

descrevê-la, e estava se m exendo sob m inha m ão. Era com o o corpo de um

hom em há m uito afogado, e que ainda assim se m ovia, e tinha o vigor de dez hom ens vivos; m as continuei segurando com o podia aquela coisa

escorregadia, lodosa, terrível, os olhos brancos e m ortos pareciam m e fixar

dentro da penum bra; o odor pútrido de água do m ar rançosa o envolvia, e os

cachos úm idos de seus cabelos lustrosos cobriam seu rosto defunto. Lutei com

a coisa m orta; ela se lançou contra m im , fazendo-m e recuar, e quase quebrou

m eu braço; seu braço cadavérico agarrou m eu pescoço e o m orto-vivo m e

subj ugou, de tal m odo que, por fim , eu berrei bem forte e, soltando-o, caí.

"Deitado no chão, vi a coisa passar por m im e, agora, parecia ter atacado o capitão. Este, na últim a vez que eu o vira, estava em pé, o rosto pálido e os

lábios rígidos. Tive a im pressão de que ele conseguira acertar um soco

violento na criatura m orta e, em seguida, acabara tam bém caindo no chão,

com um grito inarticulado de terror.

"Aquela coisa ficou im óvel por um instante, com o se pairasse sobre o corpo prostrado do capitão, e eu poderia ter berrado outra vez de pavor, m as

tinha perdido a voz. A coisa sum iu repentinam ente, e pareceu aos m eus

sentidos perturbados que ela saíra pela escotilha, em bora, considerando a

estreita abertura, aquilo fosse inim aginável. Fiquei um bom tem po estendido

no chão, o capitão deitado ao m eu lado. Por fim , consegui recuperar um

pouco os sentidos e m e m exi, percebendo de im ediato que m eu braço estava

quebrado — o osso do m eu antebraço esquerdo, perto do pulso.

"De algum m odo, consegui m e erguer e com m inha m ão ilesa tentei

levantar o capitão. Ele gem eu e se m oveu, finalm ente voltando a si. Não

estava ferido, m as parecia de todo aturdido.

"Bem , vocês querem ouvir m ais? Não há m ais nada. É o fim da m inha história. O carpinteiro executou seu plano e trancou a porta do cam arote 105

com tábuas e enorm es parafusos; e se um dia vocês viaj arem no Kamtschatka, podem solicitar um leito naquela cabine. Dirão que ela j á está reservada.

Claro, reservada pela criatura m orta.

"Concluí m inha viagem no cam arote do m édico. Ele tratou do m eu braço

fraturado e m e aconselhou a nãòbrincar com fantasm as e essas coisas' nunca

m ais. O capitão m anteve-se calado e j am ais voltou a navegar naquele navio

que, apesar disso, ainda continua em atividade. E eu tam pouco voltarei a

em barcar nele. Foi um a experiência desagradável dem ais e m e assustou

m uito, algo que detesto. Isso é tudo. Foi assim que eu vi um fantasm a — se é

que era um fantasm a. De qualquer m aneira, estava m orto."

Tradução de Mauro Pinheiro

Charles Baudelaire

________________________________

O poeta maior que é Charles Baudelaire (1821-1867), como tradutor, é

responsável por Edgar Allan Poe até hoje ter mais prestígio na França do

que nos Estados Unidos. E Poe deixou no autor de As flores do mal sua

marca (depois de Hoffmann, que influenciou várias gerações francesas) não

só nos seus versos "malditos" quanto nos Pequenos poem as em prosa , livro em que são freqüentes os diálogos com o Diabo. Caso deste "O jogador

generoso", que vamos ler aqui em nova tradução.

O j ogador generoso

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ONTEM. NO MEIO DA MULTIDÃO DA AVENIDA, senti-m e roçado por um ser m isterioso que sem pre desej ei conhecer e que im ediatam ente reconheci, em bora

j am ais o tivesse visto. Ele, por sua vez, sem dúvida nutria, em relação a

m im , desej o análogo, pois m e lançou, ao passar, um piscar de olho

significativo, que m e apressei a obedecer. Segui-o atentam ente e logo

desci atrás dele até um a m orada subterrânea, ofuscante, de onde irrom pia

um luxo do qual nenhum a das habitações superiores de Paris poderia

fornecer um exem plo aproxim ado. Pareceu-m e inexplicável que eu

tivesse podido passar tantas vezes ao lado daquele fascinante refúgio sem

lhe adivinhar a entrada. Reinava ali um a atm osfera sedutora, em bora

inebriante, que fazia esquecer quase de im ediato todos os penosos

horrores da vida; respirava-se ali um a beatitude obscura, sem elhante

àquela que devem ter experim entado os com edores de lótus quando,

desem barcando num a ilha encantada, ilum inada pela claridade de um a

eterna tarde, sentiram neles nascer, aos sons hipnóticos das m elodiosas

cascatas, o desej o de j am ais rever seus lares, suas m ulheres, seus

filhos, e j am ais voltarem ao cim o das altas ondas do m ar.

Havia ali rostos estranhos de hom ens e m ulheres, m arcados por um a

beleza fatal, que m e parecia j á ter visto em épocas e países dos quais m e

era im possível lem brar com clareza e que m ais m e inspiravam um a sim patia

fraterna do que aquele receio que em geral nasce à visão do

desconhecido. Se eu quisesse tentar definir de algum a form a a expressão

singular de seus olhares, diria que nunca vira olhos brilharem m ais

intensam ente de horror ao tédio e de desej o im ortal de se sentir viver.

Meu anfitrião e eu j á éram os, ao nos sentarm os, velhos e perfeitos am igos.

Com em os, bebem os além da conta todo tipo de vinhos extraordinários, e,

coisa não m enos extraordinária, parecia-m e, depois de várias horas, que eu

não estava m ais em briagado do que ele. Entretanto o j ogo, esse prazer sobre-

hum ano, interrom pera por diversas vezes nossas freqüentes libações, e devo

dizer que eu havia j ogado e perdido m inha alm a, em partida j usta, com

desenvoltura e leviandade heróicas. A alm a é um a coisa tão im palpável, tão

freqüentem ente inútil e algum as vezes tão constrangedora, que apenas senti,

em relação a tal perda, um pouco m enos de em oção do que se tivesse perdido,

num passeio, m eu cartão de visitas.

Fum am os por longo tem po alguns charutos cuj o sabor e perfum e in-

com paráveis tornavam a alm a nostálgica de países e felicidades desco-

nhecidas e, ébrio de todas essas delícias, ousei, num acesso de fam iliaridade

que não pareceu desagradar-lhe, exclam ar, apossando-m e de um a taça cheia

até a borda:

— À vossa im ortal saúde, Bode velho!

Conversam os tam bém sobre o universo, sua criação e sua futura des-

truição, da grande idéia do século, ou sej a, do progresso e do aperfeiçoa-

m ento; e, em geral, de todas as form as da vaidade hum ana. A esse respeito.

Sua Alteza não poupava pilhérias entusiastas e irrefutáveis e exprim ia-se com

um a suavidade de dicção e um a tranqüilidade na galhofa que não encontrei

em nenhum dos m ais célebres conversadores da hum anidade. Explicou-m e o

absurdo das diferentes filosofias que haviam até então tom ado posse do cérebro hum ano e chegou a se dignar m e confidenciar alguns princípios

fundam entais cuj os benefícios e cuj a propriedade não m e convém partilhar

com quem quer que sej a. De form a algum a queixou-se da m á reputação que

goza em todo o m undo, assegurou-m e que era, pessoalm ente, a criatura m ais

interessada na destruição da superstição e confessou-m e que só havia tem ido,

em relação a seu próprio poder, um a única vez, no dia em que ouvira um

pregador, m ais sutil do que seus pares, exclam ar do púlpito:

— Meus caros irm ãos, j am ais se esqueçam , quando ouvirem elogios ao

progresso das luzes, que a m ais bela astúcia do diabo é persuadi-los de que ele não existe!

A lem brança desse célebre orador conduziu-nos naturalm ente para o

assunto das academ ias, e m eu estranho conviva afirm ou-m e que não

desdenhava, em m uitos casos, inspirar a pena, a palavra e a consciência

dos pedagogos e que assistia quase sem pre em pessoa, ainda que invisível, a todas as seções acadêm icas.

Encoraj ado por tantas am abilidades, pedi-lhe notícias de Deus, e se ele o

vira nos últim os tem pos. Ele m e respondeu, com um desprendim ento eivado

de certa tristeza:

— Cum prim entam o-nos quando nos encontram os, m as com o dois velhos

cavalheiros, nos quais um a polidez inata não seria capaz de apagar por

com pleto a lem brança de antigos rancores.

É im provável que Sua Alteza tenha algum a vez concedido tão longa

audiência a um sim ples m ortal, e eu receava abusar. Enfim , quando a aurora

tiritante lavava as vidraças, esse célebre personagem , cantado por tantos poetas e servido por tantos filósofos que trabalham para a sua glória sem se

darem conta, m e disse:

— Quero que guarde de m im um a boa lem brança, e quero provar-lhe que

Eu, de quem se fala tão m al, sou às vezes um bom diabo, para m e servir de

um a de suas expressões vulgares. A fim de com pensar a perda irrem ediável

que sofreu de sua alm a, dou-lhe o lance que teria ganho se a sorte estivesse a seu favor, ou sej a, a possibilidade de aliviar e vencer, por toda a sua vida, essa curiosa afecção do Tédio, que é a fonte de todas as vossas enferm idades e de

todos os vossos m iseráveis progressos. Jam ais um desej o seu será form ulado

sem que eu o aj ude a realizá-lo; reinará sobre seus vulgares sem elhantes; será cercado de lisonj as e até m esm o de adorações; o dinheiro, o ouro, os

diam antes, os palácios feéricos, virão procurá-lo e im plorarão que os aceite,

sem que tenha feito qualquer esforço para ganhá-los; m udará de pátria e

território tantas vezes quantas ditar a sua fantasia, poderá inebriar-se de

volúpias, sem fastio, em países encantadores nos quais faz sem pre calor e

onde as m ulheres cheiram tão bem quanto as flores, et cetera, et cetera... —

acrescentou ele erguendo-se e m e despedindo com um belo sorriso.

Não fosse o tem or de m e hum ilhar diante de tão grande platéia, eu teria

com gosto caído aos pés daquele j ogador generoso, para agradecer sua

inaudita m unificência. Mas pouco a pouco, depois que o deixei, a incurável

desconfiança penetrou em m eu íntim o; não m ais ousava acreditar em tão

prodigiosa felicidade e, ao deitar, fazendo ainda m inhas preces por um resto

de hábito obtuso, repeti em m inha sonolência:

— Meu Deus! Senhor, m eu Deus! Fazei com que o diabo m antenha a palavra dada!

Tradução de Celina Portocarrero

3

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Atravessando o Século XX

Marcel Schwob

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Basta dizer que Marcel Schwob (1867-1905) foi um dos mestres de um

mestre incontestável. Sim, será que Jorge Luis Borges teria escrito sua His-tória universal da infâmia sem ter lido Vidas im aginárias ? Este é só um exemplo de uma admiração confessa do bruxo argentino pela obra toda

deste simbolista francês que morreu cedo, depois de se refugiar em sonho,

drogas e erudição. Sua obra ainda aguarda um revival da própria crítica

francesa, pois apenas alguns de seus livros estão hoje reeditados, como

Coeur Doublé e Le livre de Monelle . (Há uma tradução de Vidas

imaginárias editada no Brasil.) Esta antologia só se enriquece em poder

incluir contos como "A cidade adormecida", aliás até hoje inédito em português.

A cidade adorm ecida1

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A COSTA ERA ALTA E SOMBRIA à luz azul clara da aurora. O Capitão da bandeira

negra ordenou a abordagem . Porque as bússolas se haviam quebrado na

últim a tem pestade, não m ais sabíam os qual a nossa rota ou que terra se estendia à nossa frente. O oceano era tão verde que poderíam os ter acreditado

que ela acabara de brotar em plena água, por encanto. Mas a visão do

penhasco nos perturbava; os que haviam consultado os tarôs durante a noite e

os que estavam tontos com a erva de seu país e os que estavam vestidos de um

j eito diferente em bora não houvesse m ulheres a bordo e os que estavam

m udos tendo tido a língua cortada e aqueles que, depois de terem atravessado,

acim a do abism o, a prancha estreita dos piratas, haviam ficado loucos de

terror, todos os nossos com panheiros negros ou am arelos, brancos ou

sanguinolentos, apoiados nos alcatrates, olhavam a terra nova enquanto seus

olhos trem iam .

Sendo de todos os países, de todas as cores, de todas as línguas, não tendo

sequer os gestos em com um , só estavam unidos por um a paixão idêntica e por

assassinatos coletivos. Pois eles tanto haviam afundado em barcações,

averm elhado plainas com o corte sangrento de seus m achados, estripado

paióis com suas alavancas de m anobra, estrangulado

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¹ Estas páginas foram encontradas num livro oblongo com capa de m adeira, a m aioria das folhas estava em branco. Na lam ina superior estavam grosseiram ente gravados dois fêm ures encim ados por um crânio e o livro em ergia da areia dourada de um deserto até então inexplorado (nota de Marcel Schwob).

em silêncio hom ens em suas redes, tom ado de assalto os galeões com um enorm e grito, que se haviam reunido na ação; eram sem elhantes a um a

colônia de anim ais m alfeitores e díspares, habitando um a ilhota flutuante;

habituados uns aos outros, sem consciência, com um instinto total guiado pelos olhos de um só.

Agiam sem pre e não m ais pensavam . Viviam em sua própria m ultidão o

dia todo e toda a noite. Seu navio não continha silêncio, m as um prodigioso

ruído contínuo. Sem dúvida o silêncio lhes teria sido funesto. Eles tinham , no m au tem po, a luta da m anobra contra as ondas, na calm aria a em briaguez

sonora e as canções dissonantes, e o rugido da batalha quando em barcações os

cruzavam .

O Capitão da bandeira negra sabia de tudo isso e era o único a

com preender; ele m esm o só vivia na agitação e seu horror do silêncio era tal

que durante os m inutos tranqüilos da noite ele puxava por seu longo m anto

seu com panheiro de rede, a fim de ouvir o som inarticulado de um a voz

hum ana.

As constelações do outro hem isfério em palideciam . Um sol incandescente

furou o grande lençol do céu, agora de um azul profundo, e os Com panheiros

do Mar, tendo lançado âncora, em purraram os com pridos escaleres na direção

de um a enseada esculpida no penhasco.

Ali se abria um corredor rochoso, cuj as paredes verticais pareciam se

encontrar no ar, tão altos eram ; m as em vez de sentir um frescor subterrâneo,

o Capitão e seus com panheiros ressentiam a opressão de um extraordinário

calor, e os riachos de água m arinha que se infiltravam na areia secavam tão

depressa que toda a praia crepitava com o solo do corredor.

Aquela galeria de rocha desem bocava num cam po plano e estéril,

acidentado no horizonte. Alguns buquês de plantas cinzentas cresciam na

vertente da falésia, anim ais m inúsculos, m arrons, redondos ou com pridos,

com delgadas asas trem eluzentes de gaze, ou altas patas articuladas, zum biam

ao redor das folhas aveludadas ou faziam a terra estrem ecer em alguns pontos.

A natureza inanim ada havia perdido a vida m ovediça do m ar e o crepitar

da areia; o ar do alto-m ar fora parado pela barreira dos penhascos; as plantas pareciam fixas com o a rocha e os anim ais m arrons, rastej antes ou alados,

m antinham -se num a faixa estreita fora da qual não havia m ovim ento.

Ora, se o Capitão da bandeira negra não tivesse im aginado, apesar da

ignorância da região na qual estavam , que as últim as indicações das bússolas

haviam levado o navio ao País Dourado no qual todos os

Com panheiros do Mar desej am aterrar, não teria levado adiante a aventura, e o silêncio daquelas terras o teria apavorado.

Mas ele pensou que aquela costa desconhecida era a m argem do País

Dourado e disse a seus com panheiros palavras em ocionadas que lhes puseram

desej os diversos nos corações. Cam inham os de cabeça baixa, sofrendo com a

calm aria; pois os horrores da vida passada, tum ultuados, elevavam -se em nós.

Na extrem idade da planície, encontram os um a m uralha de areia de ouro

faiscante. Um grito se elevou dos lábios j á secos dos Com panheiros do Mar;

um grito brusco e que m orreu de repente, com o se abafado no ar, porque,

naquele lugar onde o silêncio parecia aum entar, não m ais havia eco.

Pensando o Capitão que aquela terra aurífera era m ais rica depois dos

m ontes de areia, os Com panheiros subiram com dificuldade; o chão fugia sob

nossos passos.

E do outro lado tivem os um a estranha surpresa, pois a m uralha de areia era

o contraforte dos m uros de um a cidade, na qual gigantescas escadarias

desciam do cam inho de guarda.

Nenhum ruído vital se erguia do coração daquela cidade im ensa. Nossos

passos ressoavam enquanto passávam os sobre as laj es de m árm ore e o som

extinguia. A cidade não estava m orta, pois as ruas estavam cheias de carroças, de hom ens e de anim ais: padeiros pálidos, carregando pães redondos,

açougueiros sustentando sobre suas cabeças peitos verm elhos de bois,

ladrilheiros curvados sobre carrinhos baixos sobre os quais se entrecruzavam

as fileiras de azulej os cintilantes, vendedoras de peixes com seus cestos,

pregoeiras de charque, m angas arregaçadas, com chapéus de palha

encarapitados no alto da cabeça, carregadores escravos aj oelhados sob liteiras drapeadas de tecidos com flores de m etal, corredores parados; m ulheres de

véus afastando ainda com o dedo a prega que lhes cobria os olhos, cavalos

em pinados ou puxando, exaustos, num a parelha de pesadas correntes, cães de

focinho erguido ou dentes arreganhados. Ora, todas essas figuras estavam

im óveis, com o na galeria de um escultor que m olda estátuas de cera; seu

m ovim ento era o gesto intenso da vida bruscam ente suspensa; só se

distinguiam dos vivos por essa im obilidade e por sua cor.

Pois aqueles que haviam tido a face colorida se haviam tornado

com pletam ente verm elhos, a carne inj etada; e aqueles que haviam sido

pálidos se haviam tornado lívidos, tendo o sangue fugido para o coração; e

aqueles cuj o rosto fora outrora escuro apresentavam agora um sem blante fixo

de ébano; e aqueles que havido tido a pele tisnada de sol se

haviam repentinam ente am arelado e suas faces eram cor de lim ão; de m odo que entre os hom ens verm elhos, brancos, negros e am arelos, os Com panheiros do Mar passavam com o seres vivos e ativos em m eio a um a reunião de gente

m orta.

A terrível calm a daquela cidade nos fazia apressar o passo • agitar os

braços, gritar palavras confusas, rir, chorar, sacudir a cabeça com o alienados; pensávam os que um daqueles hom ens que haviam sido de carne talvez nos

respondesse; pensávam os que aquela agitação fictícia interrom peria nossas

reflexões sinistras, pensávam os nos livrar da m aldição do silêncio. Mas as

grandes portas abandonadas bocej avam em nosso cam inho; as j anelas eram

com o olhos fechados, as torrinhas das vigias nos telhados alongavam -se

indolentes em direção ao céu. O ar parecia ter um peso de coisa corpórea; os

pássaros, planando sobre a s ruas, na beira dos m uros, entre as pilastras, num passeio im óvel e suspenso, pareciam anim ais m ulticores aprisionados num

bloco de cristal.

E a sonolência daquela cidade adorm ecida nos pôs nos m em bros um a

profunda lassidão. O horror do silêncio nos envolveu. Nós que buscávam os na

vida ativa o esquecim ento de nossos crim es, nós que bebíam os a água do

Lates, tingida pelos peixes narcóticos e pelo sangue, nós que em purrávam os

de onda em onda sobre o m ar rum oroso um a existência sem pre nova, nós em

poucos instantes fom os dom inados por laços invisíveis.

Ora, o silêncio que de nós se apoderou tornou delirantes os Com panheiros

do Mar. E, dentre as pessoas de quatro cores que nos olhavam fixam ente,

im óveis, escolheram em sua fuga apavorada, cada u m , a lem brança de sua

pátria distante; os da Ásia abraçaram os hom ens am arelos e ganharam sua cor

açafroada de cera im pura; e os da África seguraram os hom ens negros e ficaram escuros com o o ébano; e os do país situado além da Atlântida

estreitaram os hom ens verm elhos e se tornaram estátuas de acaj u; e os das

terras da Europa lançaram os braços ao redor dos hom ens brancos e seu rosto

tom ou a cor da cera virgem .

Mas eu, o Capitão da bandeira negra, que não tenho pátria, nem

lem branças que m e possam tornar vítim a do silêncio enquanto m eu

pensam ento está de vigia, eu m e atirei aterrorizado para longe dos

Com panheiros do Mar, para fora da cidade adorm ecida; e, apesar do sono e da

terrível lassidão que m e ganha, vou tentar reencontrar, pelas m odulações da

areia dourada, o oceano verde que eternam ente se agita e sacode sua espum a.

Tradução de Celina Portocarrero

Guillaum e Apollinaire

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Guillaume (na realidade Wilhelm) Apollinaire (Apollinaris de Kostrowitski), francês nascido em Roma (1880-1918), praticamente liderou a poesia simbolista francesa para novos caminhos que levariam ao surrealismo. Autor de Alcools (1913) e Calligram es (1918), seus livros mais marcantes. Amigo de Picasso e Cocteau, foi crítico de arte, o que não o impediu de escrever livros eróticos. E contos, alguns marcantes como "O marujo de Amsterdã", eeste surrealista avant la lettre que vamos ler.

O desaparecim ento de Honoré Subrac

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APESAR DAS MAIS MINUCIOSAS BUSCAS, a polícia não conseguiu elucidar o

m istério do desaparecim ento de Honoré Subrac.

Ele era m eu am igo e, com o eu conhecia a verdade a respeito de seu caso, considerei m eu dever colocar a j ustiça a par do que se passara. O j uiz que

recolheu m inhas declarações assum iu para com igo, depois de ouvir m eu

relato, um tom de polidez tão assustado que não tive qualquer dificuldade para entender que m e tom ava por louco. Disse-lhe isso. Ele se tornou ainda m ais

polido e então, levantando-se, em purrou-m e em direção à porta e vi seu

escrivão, de pé, punhos cerrados, prestes a pular sobre m im se eu bancasse o

alucinado.

Não insisti. O caso de Honoré Subrac é, de fato, tão estranho que a

verdade parece inacreditável. Soube-se pelas notícias dos j ornais que Subrac

passava por ser original. Fosse inverno ou verão, ele vestia apenas um casacão e nos pés só usava chinelos. Era m uito rico e, com o sua m aneira de vestir m e

surpreendesse, perguntei-lhe um dia a razão:

— É para m e despir m ais depressa, em caso de necessidade — respondeu

ele. — Com o tem po, a gente se acostum a a sair com pouca roupa. Passa-se

m uito bem sem roupas de baixo, m eias e chapéu. Vivo assim desde os vinte e

cinco anos de idade e nunca fiquei doente.

Tais palavras, em vez de m e esclarecerem , aguçaram m inha curiosidade.

"Mas afinal", pensei, "por que Honoré Subrac precisa se despir tão depressa?"

E eu fazia um sem -núm ero de suposições...

Num a noite em que voltava para casa — poderia ser um a hora, 1h15 —

ouvi m eu nom e pronunciado em voz baixa. Pareceu-m e vir da m uralha perto

da qual passava. Parei, desagradavelm ente surpreso.

— Não há m ais ninguém na rua? — recom eçou a voz. — Sou eu. Honoré

Subrac.

— Mas onde você está? — exclam ei, olhando para todos os lados sem

conseguir fazer idéia do lugar onde m eu am igo poderia estar escondido.

Descobri apenas o fam oso casacão estendido na calçada, ao lado de seus

não m enos fam osos chinelos.

"Eis um caso", pensei, "no qual a necessidade forçou Honoré Subrac a se despir num piscar de olhos. Vou finalm ente conhecer um belo m istério." E

disse em voz alta:

— A rua está deserta, m eu am igo, pode aparecer!

De repente. Honoré Subrac de algum a m aneira se desprendeu da m uralha

contra a qual eu não o avistara. Estava com pletam ente nu e, antes de tudo,

apanhou seu casacão que vestiu e abotoou o m ais depressa que pôde. Calçou-

se a seguir e, em tom decidido, falou com igo acom panhando-m e até m inha

porta:

— Você ficou surpreso! — disse ele. — Mas entende agora a razão pela

qual m e visto de m odo tão estranho. Entretanto, não com preendeu com o

consegui escapar tão com pletam ente de seu olhar. É m uito sim ples. Só deve

ver nisso um fenôm eno de m im etism o... A natureza é um a boa m ãe. Ela

Continuar: parte 19 de 28