Os Melhores Contos Fantásticos
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 28 partes.
física.
Depois de apalpar-m e surpreso, tateei o pescoço, o tronco e os quadris de
Laura. Parecia-m e ter debaixo das m inhas m ãos de gigante a estátua colossal
de um a deusa pagã. Seus peitos eram fecundos e opulentos; suas ilhargas
cheias e grossas com o as de um anim al bravio.
E assim refeitos pusem o-nos a andar fam iliarm ente naquele lodo, com o se
fôram os criados nele. Tam bém j á não podíam os ficar um instante no m esm o
lugar, inativos; um a irresistível necessidade de exercício arrastava-nos, a
despeito da nossa vontade, agora fraca e m al segura. E, quanto m ais se nos
em brutecia o cérebro, tanto m ais os nossos m em bros reclam avam atividade e
ação; sentíam os gosto em correr, correr m uito, cabriolando por ali a fora, e
sentíam os ím petos de lutar, de vencer, de dom inar alguém com a nossa força.
Laura atirava-se contra m im , num a carícia selvagem e pletórica,
apanhando-m e a boca com os seus lábios fortes de m ulher irracional e
estreitando-se com igo sensualm ente, a m order-m e os om bros e os braços.
E lá íam os inseparáveis naquela nossa nova m aneira de existir, sem
m em ória de outra vida, am ando-nos com toda a força dos nossos im pulsos; para sem pre esquecidos um no outro, com o os dois últim os parasitas do
cadáver de um m undo.
Certa vez, de surpresa, nossos olhos tiveram a alegria de ver.
Um a enorm e e difusa claridade fosforescente estendia-se defronte de nós, a
perder de vista. Era o m ar.
Estava m orto e quieto.
Um triste m ar, sem ondas e sem soluços, chum bado à terra na sua profunda
im obilidade de orgulhoso m onstro abatido.
Fazia dó vê-lo assim , concentrado e m udo, saudoso das estrelas, viúvo do luar. Sua grande alm a branca, de antigo lutador, parecia debruçar-se ainda
sobre o resfriado cadáver daquelas águas silenciosas, chorando as extintas
noites, claras e felizes, em que elas, com o um bando de náiades alegres,
vinham aos saltos, tontas de alegria, quebrar na praia as suas risadas de prata.
Pobre m ar! Pobre atleta! Nada m ais lhe restava agora sobre o plúm beo
dorso fosforescente do que tristes esqueletos dos últim os navios, ali fincados, espectrais e negros, com o inúteis e partidas cruzes de um velho cem itério
abandonado.
Aproxim am o-nos daquele pobre oceano m orto. Tentei invadi-lo, m as m eus
pés não acharam que distinguir entre sua fosforescente gelatina e a lam a negra da terra. Tudo era igualm ente lodo.
Laura conservava-se im óvel com o que aterrada defronte do im enso cadáver
lum inoso. Agora, assim contra a em baciada lâm ina das águas, nossos perfis se
destacavam tão bem , com o, ao longe, se destacavam as ruínas dos navios. Já
não nos recordávam os da nossa intenção de afogar-nos j untos. Com um gesto cham ei-a para m eu lado. Laura, sem dar um passo, encarou-m e com espanto,
estranhando-m e. Tornei a cham á-la; não veio. Fui ter então com ela; ao ver-
m e porém aproxim ar, deu m edrosa um ligeiro salto para trás e pôs-se a correr
pela extensão da praia, com o se fugisse a um m onstro desconhecido.
Precipitei-m e tam bém , para alcançá-la. Vendo-se perseguida, atirou-se ao
chão, a galopar, quadrupedando que nem um anim al. Eu fiz o m esm o, e coisa
singular! notei que m e sentia m uito m ais à vontade nessa posição de
quadrúpede do que na m inha natural posição de hom em .
Assim galopam os longo tem po à beira-m ar; m as, percebendo que a m inha
com panheira m e fugia assustada para o lado das trevas, tentei detê-la, soltei
um grito, soprando com toda a força o ar dos m eus pulm ões de gigante. Nada
m ais consegui do que dar um ronco de besta; Laura, todavia, respondeu com
outro. Corri para ela, e os nossos berros ferozes perderam -se longam ente por
aquele m undo vazio e m orto.
Alcancei-a por fim ; ela havia caído por terra, prostrada de fadiga. Deitei-
m e ao seu lado, rosnando ofegante de cansaço. Na escuridão reconheceu-m e
logo; tom ou-m e contra o seu corpo e afagou-m e instintivam ente.
Quando resolvem os continuar a nossa peregrinação, foi de quatro pés que nos pusem os a andar ao lado um do outro, naturalm ente sem dar por isso.
Então m eu corpo principiou a revestir-se de um pêlo espesso. Apalpei as
costas de Laura e observei que com ela acontecia a m esm a coisa.
Assim era m elhor, porque ficaríam os perfeitam ente abrigados do frio, que
agora aum entava.
Depois, senti que os m eus m axilares se dilatavam de m odo estranho, e que
as m inhas presas cresciam , tornando-se m ais fortes, m ais adequadas ao ataque,
e que, lentam ente, se afastavam dos dentes queixais; e que m eu crânio se
achatava; e que a parte inferior do m eu rosto se alongava para a frente,
afilando com o um focinho de cão; e que m eu nariz deixava de ser aquilino e
perdia a linha vertical, para acom panhar o alongam ento da m andíbula; e que
enfim as m inhas ventas se patenteavam , arregaçadas para o ar, úm idas e frias.
Laura, ao m eu lado, sofria iguais transform ações.
E notam os que, à m edida que se nos apagavam uns restos de inteligência e
o nosso tato se perdia, apurava-se-nos o olfato de um m odo adm irável,
tom ando as proporções de um faro certeiro e sutil, que alcançava léguas.
E galopávam os contentes ao lado um do outro, grunhindo e sorvendo o ar,
satisfeitos de existir assim . Agora, o fartum da terra encharcada e das m atérias em decom posição, longe de enj oar-nos, cham ava-nos a vontade de com er. E
os bigodes, cuj os fios se inteiriçavam com o cerdas de porco, serviam -m e para
sondar o cam inho, porque as m inhas m ãos haviam afinal perdido de todo a
delicadeza do tato.
Já não m e lem brava, por m elhor esforço que em pregasse, um a só palavra
do m eu idiom a, com o se eu nunca tivera falado. Agora, para entender-m e com
Laura era preciso uivar; e ela m e respondia do m esm o m odo.
Não conseguia tam bém lem brar-m e nitidam ente de com o fora o m undo
antes daquelas trevas e daquelas nossas m etam orfoses, e até j á não m e
recordava bem de com o tinha sido a m inha própria fisionom ia prim itiva, nem
a de Laura. Entretanto, m eu cérebro funcionava ainda, lá a seu m odo, porque, afinal, tinha eu consciência de que existia e preocupava-m e em conservar
j unto de m im a m inha com panheira, a quem agora sô com os dentes afagava.
Quanto tem po se passou assim para nós, nesse estado de irracionais, é o
que não posso dizer; apenas sei que, sem saudades de outra vida,
trotando ao lado um do outro, percorríam os então o m undo, perfeitam ente fam iliarizados com a treva e com a lam a, esfocinhando no chão, à procura de
raízes, que devorávam os com prazer; e sei que, ao sentir-nos cansados, nos
estendíam os por terra, j untos e tranqüilos, perfeitam ente felizes, porque não
pensávam os e porque não sofríam os.
* * *
De um a feita, porém , ao levantar-m e do chão, senti os pés trôpegos,
pesados, e com o que propensos a se entranharem por ele. Apalpei-os e
encontrei as unhas m oles e abaladas, a despregarem -se. Laura, j unto de m im ,
observou em si a m esm a coisa. Com eçam os logo a tirá-las com os dentes, sem
experim entarm os a m enor dor; depois passam os a fazer o m esm o com as das
m ãos; as pontas dos nossos dedos, logo que se acharam despoj adas das unhas,
transform aram -se num a espécie de ventosa de polvo, num as bocas de
sanguessuga que se dilatavam e contraíam incessantem ente, sorvendo gulosas
o ar e a um idade. Com eçaram -nos os pés a radiar em longos e ávidos
tentáculos de pólipo; e os seus filam entos e as suas radículas m inhocaram pelo lodo fresco do chão, procurando sôfregos internar-se bem na terra, para ir lá
dentro beber-lhes o húm us azotado e nutriente; enquanto os dedos das m ãos
esgalhavam , um a um , ganhando pelo espaço e chupando o ar
voluptuosam ente pelos seus respiradores, fuçando e fungando, irrequietos e m orosos, com o trom bas de elefantes.
Desesperado, ergui-m e em toda a m inha colossal estatura de gigante e
sacudi os braços, tentando dar um arranco, para soltar-m e do solo. Foi inútil.
Nem só não consegui despregar m eus pés enraizados no chão, com o fiquei de
m ãos atiradas para o alto, num a postura m ística, com o arrebatado num êxtase
religioso, im óvel. Laura, igualm ente presa à terra, ergueu-se rente com igo,
peito a peito, entrelaçando nos m eus braços esgalhados e procurando unir sua
boca a m inha boca.
E assim nos quedam os para sem pre, aí plantados e seguros, sem nunca
m ais nos soltarm os um do outro, nem m ais poderm os m over os nossos duros
m em bros contraídos. E, pouco a pouco, nossos cabelos e nossos pêlos se nos
foram desprendendo e caindo lentam ente pelo corpo abaixo. E cada poro que
eles deixavam era um novo respiradouro que se abria para beber a noite
tenebrosa. Então sentim os que o nosso sangue ia-se a m ais e m ais se
arrefecendo e desfibrinando, até ficar de todo
transform ado num a seiva linfática e fria. Nossa m edula com eçou a endurecer e revestir-se de cam adas lenhosas, que substituíam os ossos e os m úsculos; e
nós fom os surdam ente nos lignificando, nos encascando, a fazer-nos fibrosos
desde o tronco até às hastes e às estipulas.
E os nossos pés, num m isterioso trabalho subterrâneo, continuavam a
lançar pelas entranhas da terra as suas longas e insaciáveis raízes; e os dedos das nossas m ãos continuavam a m ultiplicar-se, a crescer, e a esfolhar, com o
galhos de um a árvore que reverdece. Nossos olhos desfizeram -se em gom a
espessa e escorreram -nos pela crosta da cara, secando depois com o resina; e das suas órbitas vazias com eçaram a brotar m uitos rebentões viçosos. Os
dentes despregaram -se, um por um , caindo de per si, e as nossas bocas m urcharam -se inúteis, vindo, tanto delas, com o de nossas ventas j á sem faro,
novas vergônteas e renovos que abriam novas folhas brácteas. E agora só por
estas e pelas extensas raízes de nossos pés é que nos alim entávam os para
viver.
E vivíam os.
Um a existência tranqüila, doce, profundam ente feliz, em que não havia
desej os, nem saudades; um a vida im perturbável e surda, em que os nossos
braços iam por si m esm os se estendendo preguiçosam ente para o céu, a
reproduzirem novos galhos, donde outros rebentavam , cada vez m ais copados
e verdej antes. Ao passo que as nossas pernas, entrelaçadas num sô caule,
cresciam e engrossavam , cobertas de arm aduras corticais, fazendo-se
im ponentes e nodosas, com o os estalados troncos desses velhos gigantes das
florestas prim itivas.
* * *
Quietos e abraçados na nossa silenciosa felicidade, bebendo longam ente
aquela inabalável noite, em cuj o ventre dorm iam m ortas as estrelas, que nós
dantes tantas vezes contem plávam os em bevecidos e am orosos, crescem os
j untos e j untos estendem os os nossos ram os e as nossas raízes, não sei por
quanto tem po.
Não sei tam bém se dem os flor ou se dem os frutos; tenho apenas
consciência de que depois, m uito depois, um a nova im obilidade, ainda m ais
profunda, veio enrij ar-nos de todo. E sei que as nossas fibras e os nossos
tecidos endureceram a ponto de cortar a circulação dos fluidos que nos
nutriam ; e que o nosso polposo âm ago e a nossa m edula se foi alcalinando, até
de todo se converter em grés siliciosa e calcária; c que afinal fom os
perdendo gradualm ente a natureza de m atéria orgânica para assum irm os os caracteres do m ineral.
Nossos gigantescos m em bros, agora com pletam ente desprovidos da sua
folhagem , contraíram -se hirtos, sufocando os nossos poros; e nós dois, sem pre
abraçados, nos inteiriçam os num a só m ole inform e, sonora e m aciça, onde as
nossas veias prim itivas, j á secas e tolhidas, form avam sulcos ferruginosos,
feitos com o que do nosso velho sangue petrificado.
E, século a século, a sensibilidade foi-se-nos perdendo num a som bria
indiferença de rocha. E, século a século, fom os de grés, de xisto, ao suprem o
estado de cristalização.
E vivem os, vivem os, e vivem os, até que a lam a que nos cercava principiou
a dissolver-se num a substância líquida, que tendia a fazer-se gasosa e a
desagregar-se, perdendo o seu centro de equilíbrio; um a gaseificação geral,
com o devia ter sido antes do prim eiro m atrim ônio entre as duas prim eiras
m oléculas que se encontraram e se uniram e se fecundaram , para com eçar a
interm inável cadeia da vida, desde o ar atm osférico até ao sílex, desde o
eozoon até ao bípede.
E oscilam os indolentem ente naquele oceano fluido.
Mas, por fim , sentim os faltar-nos o apoio, e resvalam os no vácuo, e
precipitam o-nos pelo éter.
E, abraçados a princípio, soltam o-nos depois e com eçam os a percorrer o
firm am ento, girando em volta um do outro, com o um casal de estrelas errantes
e am orosas, que vão espaço a fora em busca do ideal.
Ora aí, fica leitor paciente, nessa dúzia de capítulos desenxabidos, o que
eu, naquela m aldita noite de insônia, escrevi no m eu quarto de rapaz solteiro, esperando que Sua Alteza, o Sol, se dignasse de abrir a sua audiência m atutina com os pássaros e com as flores.
Afonso Arinos
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O que há por trás deste conto — extraído do livro-marco do nosso
regionalismo. P elo sertão — de Afonso Arinos (1868-1916) é a tradição popular e folclórica do Brasil Profundo, as antigas histórias de
assombração que corriam e ainda correm pelo interior do país. Uma
história de se arrepiar os cabelos, como se dizia. É só entrar no clima —
um clima caipira, porém fantástico.
Um a noite sinistra
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MANUEL ALVES. AO CAIR DA NOITE, sentindo-se refeito pelo j antar,
endireitou-se para a tapera, cam inhando vagarosam ente. Antes de sair,
descarregou os dois canos da garrucha num cupim e carregou-a de novo,
m etendo em cada cano um a bala de cobre e m uitos bagos de chum bo grosso.
Sua franqueira, aparelhada de prata, levou-a tam bém , enfiada no correão da
cintura. Não lhe esqueceu o rolo de cera, nem um m aço de palhas. O arrieiro
partira calado. Não queria provocar a curiosidade dos tropeiros. Lá chegando,
penetrou no pátio pela porteira escancarada.
Era noite.
Tateando com o pé, reuniu um m olho de gravetos secos e, servindo-se das
palhas e da binga, fez fogo. Aj untou m ais lenha, arrastando paus de cercas
velhas, apanhando pedaços de tábua de peças em ruína, e com isso form ou
um a grande fogueira. Assim alum iado o pátio, o arrieiro acendeu o rolo e
com eçou a percorrer as estrebarias m eio apodrecidas, os paióis, as senzalas
em linha, um a velha oficina de ferreiro com o fole esburacado e a bigorna
ainda em pé,
— Quero ver se tem algum a coisa escondida por aqui. Talvez algum a
cam a de bicho do m ato,
E andava escarafunchando por aquelas dependências de casa nobre, ora
desbeiçadas, sítio preferido das lagartixas, dos ferozes lacraus e dos
caranguej os cerdosos!
— Senhor! Por que seria? — inquiriu de si para si o cuiabano; e parou à
porta de um a senzala, olhando para o m eio do pátio, onde um a caveira
alvadia de boi espácio, fincada na ponta de um a estaca, parecia am eaçá-lo com a grande arm ação aberta,
Encam inhou-se para a escadaria que levava ao alpendre e que se abria em
duas escadas, de um lado e de outro, com o dois lados de um triângulo,
fechando no alpendre, seu vértice. No m eio da parede e erguida sobre a
sapata, um a cruz de m adeira negra avultava; aos pés desta, cavava-se um
tanque de pedra, bebedouro do gado da porta, noutro tem po. Manuel subiu
cauteloso e viu a porta aberta, com a grande fechadura sem chave, um a tranca
de ferro caída e um espeque de m adeira atirado a dois passos no assoalho.
Entrou. Viu a sala da frente, sua rede arm ada, e, no canto da parede,
em butido na alvenaria, um grande oratório com portas de alm ofadas
entreabertas. Subiu a um banco de recosto alto, unido à parede, e chegou o
rosto perto do oratório, procurando exam iná-lo por dentro, quando um
m orcego enorm e, alvoroçado, tom ou susto, ciciando, e foi pregar-se ao teto,
donde os olhinhos redondos piscaram am eaçadores.
— Que é lá isso, bicho am aldiçoado? Com Deus adiante e com paz na
guia, encom endando Deus e a Virgem Maria!...
O arrieiro voltou-se, depois de ter m urm urado as palavras de esconj uro, e,
cerrando a porta de fora, especou-a com firm eza. Depois, penetrou na casa,
por um corredor com prido, pelo qual o vento corria veloz, sendo-lhe preciso
am parar com a m ão espaldada a luz vacilante do rolo. E foi dar na sala de
j antar, onde um a m esa escura e de rodapés torneados, cercada de bancos
esculpidos, estendia-se, vazia e negra.
O teto de estuque, oblongo e escantilhado, rachara, descobrindo os caibros
e rasgando um a nesga de céu por um a frincha de telhado. Por aí corria um a
goteira no tem po das chuvas e, em baixo, o assoalho podre am eaçava tragar
quem se aproxim asse despercebido. Manuel recuou e dirigiu-se para os
côm odos do fundo. Enfiando por um corredor que parecia conduzir à cozinha,
viu, ao lado, o teto abatido de um quarto, cuj o soalho tinha no m eio um
m ontículo de escom bros. Olhou para o céu e viu, abafando a luz apenas
adivinhada das estrelas, um bando de nuvens escuras, roldando. Um outro
quarto havia j unto deste, e o olhar do arrieiro deteve-se, acom panhando a luz do rolo no braço esquerdo erguido, sondando as prateleiras fixas da parede,
onde um a coisa branca luzia. Era um caco velho de prato antigo. Manuel
Alves sorriu para um a figurinha de m ulher, m uito colorida, cuj a cabeça
aparecia ainda pintada ao vivo na porcelana alva.
Um zunido de vento im petuoso, constringido na fresta de um a j anela que olhava para fora, fez o arrieiro voltar o rosto de repente e prosseguir o exam e do casarão abandonado. Pareceu-lhe ouvir nesse instante a zoada plangente de
um sino ao longe. Levantou a cabeça, estendeu o pescoço e inclinou o ouvido,
alerta: o som continuava zoando, zoando, parecendo ora m orrer de todo, ora
vibrar ainda, m as sem pre ao longe.
—
E o vento, talvez, no sino da capela.
E penetrou num salão enorm e, escuro. A luz do rolo, trem endo, deixou no
chão um a réstia averm elhada. Manuel foi adiante e esbarrou num tam borete
de couro, tom bado aí. O arrieiro foi seguindo, acom panhando um a das
paredes. Chegou ao canto e entesou com a outra parede.
—
Acaba aqui, m urm urou.
Três grandes j anelas, ao fundo, estavam fechadas.
—
Que haverá aqui atrás? Talvez o terreiro de dentro. Deixe ver.
Tentou abrir um a j anela, que resistiu. O vento, fora, disparava, às vezes
reboando com o um a vara de queixadas em redem oinho no m ato.
Manuel fez vibrar as bandeiras da j anela a choques repetidos. Resistindo elas, o arneiro recuou e, de braço direito estendido, deu-lhes um em purrão
violento. A j anela, num grito estardalhaçante, escancarou-se e um a raj ada
rom peu por ela adentro latindo qual m atilha enfurecida; pela casa toda houve
um tatalar das portas, um ruído de reboco que cai das paredes altas e se
esfarinha no chão.
A cham a do rolo apagou-se à lufada e o cuiabano ficou só, babatando na
treva.
Lem brando-se da binga, sacou-a do bolso da calça; colocou a pedra com
j eito e bateu-lhe o fuzil; as centelhas saltavam para a frente, im pelidas pelo vento, e apagavam -se logo. Então, o cuiabano deu uns passos para trás,
apalpando até tocar a parede do fundo. Encostou-se nela e foi andando para os
lados, roçando-lhes as costas, procurando o entrevão das j anelas. Aí,
acocorou-se e tentou de novo tirar fogo: um a faiscazinha cham uscou o
isqueiro e Manuel Alves soprou-a delicadam ente, alentando-a com carinho; a
princípio, ela anim ou-se, quis alastrar-se, m as de repente sum iu-se. O arrieiro apalpou o isqueiro, virou-o nas m ãos e achou-o úm ido; tinha-o deixado no
chão, exposto ao sereno, na hora em que fazia a fogueira no pátio e percorria
as dependências deste.
Meteu a binga no bolso e disse:
— Espera, diaba, que tu hás de secar com o calor do corpo!
Neste entrem entes, a zoada do sino fez-se ouvir de novo, dolorosa e longínqua. Então o cuiabano pôs-se de gatinhas, atravessou a faca entre os
dentes e m archou com o um felino, sutilm ente, vagarosam ente, de olhos
arregalados, querendo varar a treva. Súbito um ruído estranho fé-lo estacar, arrepiado e encolhido com o um j aguar que prepara o bote.
No teto, soaram uns passos apressados de tam ancos paracatando e um a voz
rouquenha pareceu proferir um a im precação. O arrieiro assentou-se nos
calcanhares, apertou o ferro nos dentes e puxou da cinta a garrucha; bateu
com os punhos cerrados nos fechos da arm a, cham ando a pólvora aos ouvidos
e esperou. O ruído cessara; a zoada do sino continuava, interm itentem ente.
Nada aparecendo. Manuel tocou para diante, sem pre de gatinhas; m as,
desta vez, a garrucha, aperrada na m ão direita, batia no chão a intervalos
rítm icos, com o a úngula de um quadrúpede m anco. Ao passar j unto ao quarto
do teto esboroado, o cuiabano lobrigou o céu e orientou-se. Seguiu então pelo
corredor afora, apalpando. Novam ente parou, ouvindo um farfalhar distante,
um sibilo com o o da refega no buritizal.
Pouco depois, um estrépito m edonho abalou o casarão escuro e a ventania
— alcatéia de lobos rafados — investiu uivando e passou à disparada,
estroando um a j anela. Saindo por aí, voltaram de novo os austros furentes,
perseguindo-se, precipitando-se, gargalhando sarcasticam ente pelos salões
vazios.
Ao m esm o tem po, o arrieiro sentiu no espaço um arfar de asas, um soído
áspero de aço que ringe e, na cabeça, nas costas, um as pancadinhas
assustadas. Pelo espaço todo ressoou um psiu, psiu, psiu!... e um bando enorm e de m orcegos sinistros torvelinhou no m eio da ventania.
Manuel foi im pelido para a frente, à corrim aça daqueles m ensageiros do
negrum e e do assom bram ento. De m úsculos crispados, num com eço de reação
selvagem contra a alucinação que o invadiam , o arrieiro alapardava-se,
eriçando-se-lhe os cabelos; depois, seguia de m anso, com o pescoço estendido
e os olhos acesos, assim com o um sabuj o que negaceia. E foi rom pendo a
escuridão, à caça desse ente m aldito, que fazia o velho casarão falar ou gem er, am eaçá-lo ou repeli-lo, num conluio dem oníaco com o vento, os m orcegos e a
treva.
Com eçou a sentir que tinha caído num laço arm ado, talvez, pelo m aligno.
De vez em quando, parecia-lhe que um a cousa lhe arrepelava os cabelos e uns
anim álculos desconhecidos perlustravam seu coro em
carreira vertiginosa. Ao m esm o tem po, um rir abafado, uns cochichos de escárnio pareciam acom panhá-lo de um lado e de outro.
— Ah! vocês não m e hão de levar assim , não! — exclam ava o arrieiro
para o invisível, — Pode ser que eu sej a onça presa na arataca. Mas eu
m ostro! Eu m ostro!
E batia com força a coronha da garrucha no solo ecoante.
Súbito, um a luz indecisa, coada por algum a j anela próxim a, fê-lo
vislum brar um vulto branco, esguio, sem elhante a um a grande serpente,
coleando-se, sacudindo-se. O vento trazia vozes estranhas das socavas da
terra, m isturando-se com os lam entos do sino, m ais acentuados agora.
Manuel estacou com as fontes latej ando, a goela constrita e a respiração
curta. A boca sem i-aberta deixou cair a faca: o fôlego, a m odo de um sedenho,
penetrou-lhe na garganta seca, sarj ando-a, e o arrieiro roncou com o um barrão
acuado pela cachorrada. Correu a m ão pelo soalho e agarrou a faca: m eteu-a
de novo entre os dentes, que rangeram no ferro; engatilhou a garrucha e
apontou para o m onstro; um a pancada seca do cão de aço do ouvido m ostrou-
lhe que a sua arm a fiel o traía. A escorva caíra pelo chão e a garrucha negou
fogo. O arrieiro arroj ou contra o m onstro a arm a traidora e gaguej ou em m eio
a um a risada de louco:
— Mandingueiros do inferno! Botaram m andinga na m inha arm a de
fiança! Tiveram m edo dos dentes de m inha garrucha! Mas vocês hão de
conhecer hom em , som brações do dem ônio!
Deu um salto, arrem eteu contra o inim igo; a faca, vibrada com ím peto
feroz, ringou um a coisa e foi enterrar a ponta na tábua do assoalho, onde o
sertanej o, apanhado pelo m eio do corpo num laço forte, tom bou pesadam ente.
A queda assanhou-lhe a fúria e o arrieiro, erguendo-se, deu um pulo,
rasgou, num a facada, um farrapo branco que ondulava no ar; deu-lhe um bote
e estrincou nos dedos algo com o um tecido grosso. Durante alguns m om entos,
ficou no lugar, hirto, suando, rugindo.
Pouco a pouco, foi correndo a m ão cautelosam ente, tateando aquele corpo
estranho, que seus dedos arrochavam ; era um pano, da sua rede talvez, que o
Venâncio arm ara na sala da frente.
Neste instante, pareceu-lhe ouvir chascos de m ofa nas vozes do vento e
nos assobios dos m orcegos; ao m esm o tem po, percebia que o cham avam lá
dentro; "Manuel. Manuel. Manuel!", em frases tartam udeadas. O arrieiro avançou com o um possesso, dando pulos, esfaqueando som bras que fugiam .
Foi dar na sala do j antar, onde, pelo rasgão do telhado, pareciam descer um as form as longas, esvoaçando, e uns vultos alvos, em que por vezes
passavam cham as rápidas, dançavam -Lhe diante dos olhos incendidos.
O arrieiro não pensava m ais. A respiração se lhe tornara estertorosa;
horríveis contrações m usculares repuxavam -lhe o rosto e ele, investindo às
som bras, uivava:
— Traiçoeiras! eu queria carne para rasgar com este ferro! Eu queria osso
para esm igalhar num m urro!
As som bras fugiam , esiloravam as paredes em ascensão rápida,
ilum inando-lhe subitam ente o rosto, brincando-lhe um m om ento nos cabelos
arrepiados, ou dançando-lhe na frente. Era com o um a chusm a de m eninos
endem oninhados a zom barem dele, puxando-o daqui, beliscando-o d'acolá,
açulando-o com o a um cão de rua.
O arrieiro dava saltos de tigre, arrem etendo contra o inim igo, nesta luta
fantástica, rangia os dentes e parava depois, ganindo com o a onça esfaim ada a
que se escapa a presa.
Houve m om ento em que um a coréia dem oníaca se concertava ao redor
dele, entre uivos e guinchos, risadas ou gem idos. Manuel ia recuando, e
aqueles círculos infernais o iam estringindo; as som bras giravam correndo,
precipitando-se, entrando num a porta, saindo noutra, esvoaçando, roj ando no
chão ou saracoteando desenfreadam ente.
Um longo soluço despedaçou-lhe a garganta, num ai sentido e profundo, e
o arrieiro deixou cair pesadam ente a m ão esquerda espalm ada num portal,
j ustam ente quando um m orcego, que fugia am edrontado, lhe deu um a forte
pancada no rosto.
Então Manuel pulou novam ente para diante, apertando nos dedos o cabo
da franqueira fiel; pelo rasgão do telhado, novas som bras desciam e algum as, quedas, pareciam dispostas a esperar o em bate.
O arrieiro rugiu:
— Eu m ato! Eu m ato! Mato! E acom eteu com fúria de alucinado aqueles
entes m alditos.
De um salto, foi cair no m eio das form as im palpáveis e vacilantes: um
fragor m edonho se fez ouvir; o assoalho podre cedeu e um barrote, roído de
cupins, baqueou sobre um a coisa que se desm oronava em baixo da casa.
O corpo de Manuel, tragado pelo buraco que se abriu, precipitou-se e
tom bou lá em baixo. Ao m esm o tem po, um som vibrante de m etal, um
tilintar com o de m oedas derram ando-se pela fenda de um a frasqueira que se racha, acom panhou o baque do corpo do arrieiro.
Manuel, lá no fundo, ferido, ensangüentado, arrastou-se ainda, cravando as
unhas na terra com o um ururau golpeado pela m orte; em todo o corpo
estendido com o ventre na terra perpassava-lhe ainda um a crispação de luta;
sua boca proferiu ainda: "Eu mato! Eu mato! Ma..." — e um silêncio trágico pesou sobre a tapera.
Eça de Queiroz
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O mestre do realismo em língua portuguesa Eça de Queiroz (1845-1900),
que anda meio fora da moda editorial, seria um grande escritor em
qualquer país, em qualquer idioma. O romancista de Os Maias . O prim o Basílio e A cidade e as serras também foi um Ótimo contista. Mas
curiosamente, mesmo entre as reedições de seus contos, este "O defunto"
quase não é lembrado. Talvez por sua extensão, talvez por destoar da
classificação de autor realista que imputaram ao autor Pois aqui se distanciando historicamente de suo época — o conto passa-se no final da
Idade Média, num Portugal sombrio de aldeias cheias de crenças e
crendices religiosas —. Eça transforma seu realismo (que por definição
reporta-se sempre à sociedade da época do autor) num inesperado relato
em que a consistência e a atmosfera nos levam a um crescendo que só um
mestre consegue nos levar Ou a um sufoco — um sufoco marcante,
O defunto
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I
NO ANO DE 1474. QUE FOI POR TODA A CRISTANDADE tão abundante em m ercês
divinas, reinando em Castela El-Rei Henrique IV, veio babitar na cidade de
Segóvia, onde herdara m oradias e um a horta, um cavaleiro m oço, de m uito
lim pa linhagem e gentil parecer, que se cham ava d. Rui de Cárdenas.
Essa casa, que lhe legara seu tio, arcediago e m estre em cânones, ficava
ao lado e na som bra silenciosa da igrej a de Nossa Senhora do Pilar; e, em
frente, para além do adro, onde cantavam as três bicas de um chafariz
antigo, era o escuro e gradeado palácio de d. Alonso de Lara, fidalgo de
grande riqueza e m aneiras som brias, que j á na m adureza da sua idade, todo
grisalho, desposara um a m enina falada em Castela pela sua alvura, cabelos
cor de sol claro, e colo de garça real. D. Rui tivera j ustam ente por
m adrinha, ao nascer. Nossa Senhora do Pilar, de quem sem pre se conservou
devoto e fiel servidor; ainda que sendo de sangue bravo e alegre, am ava as
arm as, a caça, os saraus bem galanteados, e m esm o por vezes um a noite ruidosa de taverna com dados e picheis de vinho. Por am or, e pelas
facilidades desta santa vizinhança, tom ara ele o piedoso costum e, desde a
sua chegada a Segóvia, de visitar todas as m anhãs, à hora de prim a, a sua
divina m adrinha e de lhe pedir, em três ave-m arias, a bênção e a graça.
Ao escurecer, m esm o depois de algum a rij a correria por cam po e m onte
com lebréus ou falcão, ainda voltava para, à saudação de vésperas, m urm urar
docem ente um a salve-rainha.
E todos os dom ingos com prava no adro, a um a ram alheteira m ourisca, algum ram o de j unquilhos, ou cravos, ou rosas singelas, que espalhava, com
ternura e cuidado galante, em frente ao altar da Senhora.
A esta venerada igrej a do Pilar vinha tam bém cada dom ingo d. Leonor, a
tão falada e form osa m ulher do senhor de Lara, acom panhada por um a aia
carrancuda, de olhos m ais abertos e duros que os de um a coruj a, e por dois
possantes lacaios que a ladeavam e guardavam com o torres. Tão cium ento era
o senhor d. Alonso que só por lho haver severam ente ordenado o seu
confessor, e com m edo de ofender a Senhora, sua vizinha, perm itia esta visita
fugitiva, a que ele ficava espreitando sofregam ente, de entre as rexas de um a
gelosia, os passos e a dem ora. Todos os lentos dias da lenta sem ana os passava a senhora d. Leonor no encerro do gradeado solar de granito negro, não tendo,
para se recrear e respirar, m esm o nas calm as do estio, m ais que um fundo de
j ardim verde-negro, cercado de tão altos m uros, que apenas se avistava,
em ergindo deles, aqui, além , algum a ponta de triste cipreste. Mas essa curta
visita a Nossa Senhora do Pilar bastou para que d. Rui se enam orasse dela,
tresloucadam ente, na m anhã de m aio em que a viu de j oelhos ante o altar, num a réstia de sol, aureolada pelos seus cabelos de ouro, com as com pridas
pestanas pendidas sobre o Livro de horas, o rosário caindo de entre os dedos finos, fina toda ela e m acia, e branca, de um a brancura de lírio aberto na
som bra, m ais branca entre as rendas negras e os negros cetins que à volta do
seu corpo cheio de graça se quebravam , em pregas duras, sobre as laj es da
capela, velhas laj es de sepulturas. Quando depois de um m om ento de enleio e
de delicioso pasm o se aj oelhou, foi m enos para a Virgem do Pilar, sua divina
m adrinha, do que para aquela aparição m ortal, de quem não sabia o nom e nem
a vida, e só que por ela daria vida e nom e, se ela se rendesse por tão incerto preço, Balbuciando, com um a pressa ingrata, as três ave-m arias com que cada
m anhã saudava Maria, apanhou o seu som breiro, desceu levem ente à nave
sonora e no portal se quedrou, esperando por ela entre os m endigos lazarentos
que se catavam ao sol. Mas, quando ao cabo de um tem po em que d. Rui
sentiu no coração um desusado bater de ansiedade e m edo, a senhora d.
Leonor passou e se deteve m olhando os dedos na pia de m árm ore de água
benta, os seus olhos, sob o véu descido, não se ergueram para ele, ou tím idos
ou desatentos. Com a aia de olhos m uito abertos colada aos vestidos, entre os
dois lacaios, com o entre duas torres, atravessou vagarosam ente o adro, pedra
por pedra, gozando decerto, com o
encarcerada, o desafogado ar e o livre sol que o inundavam . E foi um espanto para d. Rui quando ela penetrou na som bria arcada, de grossos pilares, sobre
que assentava o palácio, e desapareceu por um a esguia porta recoberta de
ferragens. Era, pois. essa a tão falada d. Leonor, a linda e nobre senhora de
Lara...
Então com eçaram sete arrastados dias, que ele gastou sentado a um poial
da sua j anela, considerando aquela negra porta recoberta de ferragens com o se
fosse a do Paraíso, e por ela devesse sair um anj o para lhe anunciar a bem -
aventurança. Até que chegou o vagaroso dom ingo: e passando ele no adro, à
hora de prim a, ao repicar dos sinos, com um m olho de cravos am arelos para a
sua divina m adrinha, cruzou d. Leonor, que saía de entre os pilares da escura
arcada, branca, doce e pensativa, com o um a Lua de entre nuvens. Os cravos
quase lhe caíram naquele gostoso alvoroço em que o peito lhe arfou m ais que
um m ar, e a alm a toda lhe fugiu em tum ulto através do olhar com que a
devorava. E ela ergueu tam bém os olhos para d. Rui, m as uns olhos
repousados, uns olhos serenos, em que não luzia curiosidade, nem m esm o
consciência de se estarem trocando com outros, tão acesos e enegrecidos pelo
desej o. O m oço cavaleiro não entrou na igrej a, com piedoso receio de não
prestar a sua m adrinha divina a atenção que decerto lhe roubaria toda aquela
que era só hum ana, m as dona j á do seu coração, e nele divinizada.
Esperou sofregam ente à porta, entre os m endigos, secando os cravos com o
ardor das m ãos trêm ulas, pensando quanto era dem orado o rosário que ela
rezava. Ainda d. Leonor descia a nave, j á ele sentia dentro da alm a o doce
rugir das sedas fortes que ela arrastava nas laj es. A branca senhora passou — e o m esm o distraído olhar, desatento e calm o, que espalhou pelos m endigos e
pelo adro, o deixou escorregar sobre ele, ou porque não com preendesse aquele
m oço que de repente se tornara tão pálido, ou porque não o diferenciava ainda
das coisas e das form as indiferentes.
D. Rui abalou, com um fundo suspiro; e, no seu quarto, pôs devotam ente
ante a im agem da Virgem as flores que não oferecera, na igrej a, ao seu altar.
Toda a sua vida se tornou então um longo queixum e por sentir tão fria e
desum ana aquela m ulher, única entre as m ulheres, que prendera e tornara sério
o seu coração ligeiro e errante. Num a esperança, a que antevia bem o
desengano, com eçou a rondar os m uros altos do j ardim — ou em buçado num a
capa, com o om bro contra um a esquina, lentas horas se quedava contem plando
as grades das gelosias, negras e
grossas Com o as de um cárcere. Os m uros não se fendiam , das grades não saía sequer um rasto de luz prom etedora. Todo o solar era com o um j azigo onde
j azia um a insensível e por trás das frias pedras ainda havia um frio peito. Para se desafogar com pôs, com piedoso cuidado, em noites veladas sobre o
pergam inho, trovas gem entes que o não desafogavam . Diante do altar da
Senhora do Pilar, sobre as m esm as laj es onde a vira aj oelhada, pousava ele os
j oelhos, e ficava, sem palavras de oração, num cism ar am argo e doce,
esperando que o seu coração serenasse e se consolasse sob a influência
d'Aquela que tudo consola e serena. Mas sem pre se erguia m ais desditoso e
tendo apenas a sensação de quanto eram frias e rígidas as pedras sobre que
aj oelhara. O m undo todo só lhe parecia conter rigidez e frieza.
Outras claras m anhãs de dom ingo encontrou d. Leonor: e sem pre os olhos
dela perm aneciam descuidados e com o esquecidos, ou quando se cruzavam
com os seus era tão singelam ente, tão lim pos de toda a em oção, que d. Rui os
preferiria ofendidos e faiscando de ira, ou soberbam ente desviados com
soberbo desdém . Decerto d. Leonor j á o conhecia — m as, assim , conhecia
tam bém a ram alheteira m ourisca agachada diante do seu cesto à beira da
fonte; ou os pobres que se catavam ao sol diante do portal da Senhora. Nem d.
Rui j á podia pensar que ela fosse desum ana e fria. Era apenas soberanam ente
rem ota, com o um a estrela que nas alturas gira e refulge, sem saber que, em
baixo, num m undo que ela não distingue, olhos que ela não suspeita a
contem plam , a adoram e lhe entregam o governo da sua ventura e sorte.
Então d. Rui pensou: "Ela não quer, eu não posso: foi um sonho que
findou, e Nossa Senhora a am bos nos tenha na sua graça!"
E com o era cavaleiro m uito discreto, desde que a reconheceu assim
inabalável na sua indiferença, não a procurou, nem sequer ergueu m ais os
olhos para as grades das suas j anelas, e até nem penetrava na igrej a de Nossa
Senhora quando casualm ente, do portal, a avistava aj oelhada, com a sua
cabeça, tão cheia de graça e de ouro, pendida sobre o Livro de horas,
II
A velha aia, de olhos m ais abertos e duros que os de um a coruj a, não
tardara em contar ao senhor de Lara que um m oço audaz, de gentil parecer,
novo m orador nas velhas casas do arcediago, constantem ente se atravessava
no adro, se postava diante da igrej a para atirar o coração
pelos olhos à senhora d. Leonor. Bem am argam ente o sabia j á o cium ento fidalgo, porque quando da sua j anela espreitava, com o um falcão, a airosa
senhora a cam inho da igrej a, observara os giros, as esperas, os olhares
dardej ados daquele m oço galante — e puxara as barbas de furor. Desde então,
na verdade, a sua m ais intensa ocupação era odiar d. Rui, o im pudente
sobrinho do cônego, que ousava erguer o seu baixo desej o até à alta senhora de Lara. Constantem ente agora o trazia vigiado por um serviçal — e conhecia
todos os seus passos e pousos, e os am igos com quem caçava ou folgava, e até
quem lhe talhava os gibões, e até quem lhe polia a espada, e cada hora do seu
viver. E m ais ansiosam ente ainda vigiava d. Leonor — cada um dos seus
m ovim entos, os m ais fugitivos m odos, os silêncios e o conversar com as aias,
as distrações sobre o bordado, o j eito de cism ar sob as árvores do j ardim , e o ar e a cor com que recolhia da igrej a... Mas tão inalteradam ente serena, no seu sossego de coração, se m ostrava a senhora d. Leonor, que nem o ciúm e m ais
im aginador de culpas poderia achar m anchas naquela pura neve.
Redobradam ente áspero então se voltava o rancor de d. Alonso contra o
sobrinho do cônego, por ter apetecido aquela pureza, e aqueles cabelos cor de
sol claro, e aquele colo de garça real, que eram sô seus, para esplêndido gosto da sua vida. E quando passeava na som bria galeria do solar sonora e toda de
abóbada, em brulhado na sua sam arra orlada de peles, com o bico de barba
grisalha espetado para diante, a grenha crespa eriçada para trás e os punhos
cerrados, era sem pre rem oendo o m esm o fel:
— Tentou contra a virtude dela, tentou contra a m inha honra... E culpado
por duas culpas e m erece duas m ortes!
Mas ao seu furor quase se m isturou um terror, quando soube que d. Rui j á
não esperava no adro a senhora d. Leonor, nem rondava am orosam ente os
m uros do palacete, nem penetrava na igrej a quando ela lá rezava, aos
dom ingos; e que tão inteiram ente se alheava dela que um a m anhã, estando
rente da arcada, e sentindo bem ranger e abrir a porta por onde a senhora ia
aparecer, perm anecera de costas voltadas, sem se m over, rindo com um cavaleiro gordo que lhe lia um pergam inho. Tão bem afetada indiferença só
servia decerto (pensou d. Alonso) a esconder algum a bem danada tenção! Que
tram ava ele, o destro enganador? Tudo no desabrido fidalgo se exacerbou —
ciúm e, rancor, vigilância, pesar da sua idade grisalha e feia. No sossego de d.
Leonor suspeitou m anha e fingim ento — e im ediatam ente lhe vedou as visitas
à Senhora do Pilar.
Nas m anhãs costum adas corria ele a igrej a para rezar o rosário, a levar as desculpas de d. Leonor — "que no puede venir (m urm urava curvado diante do altar) por lo que sabeis. Virgen Purísima!" Cuidadosam ente visitou e reforçou todos os negros forrolhos das portas do seu solar.
De noite soltava dois m astins nas som bras do j ardim m urado.
À cabeceira do vasto leito, j unto da m esa onde ficava a lâm pada, um
relicário e o copo de vinho quente com canela e cravo para lhe retem perar as
forças — luzia sem pre um a grande espada nua. Mas, com tantas seguranças,
m al dorm ia — e a cada instante se solevava em sobressalto de entre as fundas
alm ofadas, agarrando a senhora d. Leonor com m ão bruta e sôfrega, que lhe
pisava o colo, para rugir m uito baixo, num a ânsia: "Diz que m e queres só a m im !..." Depois, com a alvorada, lá se em poleirava, a espreitar, com o um
falcão, as j anelas de d. Rui. Nunca o avistava, agora, nem à porta da igrej a às horas de m issa, nem recolhendo do cam po, a cavalo, ao toque de ave-m arias.
E por o sentir assim sum ido dos sítios e giros costum ados — é que m ais o
suspeitava dentro do coração de d. Leonor.
Enfim , um a noite, depois de m uito trilhar o laj edo da galeria, rem oendo
surdam ente desconfianças e ódios, gritou pelo intendente e ordenou que se
preparassem trouxas e cavalgaduras. Cedo, de m adrugada, partiria, com a senhora d. Leonor, para a sua herdade de Cabril, a duas léguas de Segóvia! A
partida não foi de m adrugada, com o um a fuga de avarento que vai esconder
longe o seu tesouro — m as realizada com aparato e dem ora, ficando a liteira
diante da arcada, a esperar longas horas, de cortinas abertas, enquanto um
cavalariço passeava pelo adro a m ula branca do fidalgo, enxairelada à
m ourisca, e do lado do j ardim a récua de m achos, carregados de baús, presos
às argolas, sob o sol e a m osca, aturdiam a viela com o tilintar dos guizos.
Assim d. Rui soube a j ornada do senhor de Lara — e assim a soube toda a
cidade.
Fora um grande contentam ento para d. Leonor, que gostava de Cabril, dos
seus viçosos pom ares, dos j ardins, para onde abriam , rasgadam ente e sem
grades, as j anelas dos seus aposentos claros: aí ao m enos tinha largo ar, pleno sol, e alegretes a regar, um viveiro de pássaros, e tão com pridas ruas de
loureiro ou teixo, que eram quase a liberdade. E depois esperava que no
cam po se aligeirassem aqueles cuidados que traziam , nos derradeiros tem pos,
tão enrugado e taciturno seu m arido e senhor. Mas não logrou esta esperança,
porque ao cabo de um a sem ana ainda se não desanuviara a face de d. Alonso
— nem decerto havia
frescura de arvoredos, sussurros de águas correntes, ou arom as esparsos nos rosais em flor, que calm assem agitação tão am arga e funda. Com o em
Segóvia, na galeria sonora de grande abóbada, sem descanso passava,
enterrado na sua sam arra, com o bico da barba espetado para diante, a grenha
basta eriçada para trás, e um j eito de arreganhar silenciosam ente o beiço,
com o se m editasse m aldades a que gozava de antem ão o sabor acre. E todo o interesse da sua vida se concentrara num serviçal que constantem ente
galopava entre Segóvia e Cabril, e que ele por vezes esperava no com eço da
aldeia, j unto ao cruzeiro, ficando a escutar o hom em que desm ontava,
ofegante, e logo lhe dava novas apressadas.
Um a noite em que d. Leonor, no seu quarto, rezava o terço com as aias, à
luz de um a tocha de cera, o senhor de Lara entrou m uito vagarosam ente,
trazendo na m ão um a folha de pergam inho e um a pena m ergulhada no seu
tinteiro de osso. Com um rude aceno despediu as aias, que o tem iam com o a
um lobo. E, em purrando um escabelo para j unto da m esa, volvendo para d.
Leonor a face a que im pusera tranqüilidade e agrado, com o se apenas viesse
por coisas naturais e fáceis:
—
Senhora, quero que m e escrevais aqui um a carta que m uito m e
convêm escrever...
Tão costum ada era nela a subm issão, que, sem outro reparo ou curiosidade,
indo apenas pendurar na barra do leito o rosário em que rezara, se acom odou
sobre o escabelo, e os seus dedos finos, com m uita aplicação, para que a letra fosse esm erada e clara, traçaram a prim eira linha curta que o senhor de Lara
ditara e era: "Meu cavaleiro..." Mas quando ele ditou a outra, m ais longa, e de um m odo am argo, d. Leonor arroj ou a pena, com o se a pena a escaldasse, e,
recuando da m esa, gritou, num a aflição:
— Senhor, para que convém que eu escreva tais coisas e tão falsas?...
Num brusco furor, o senhor de Lara arrancou do cinto um punhal, que lhe
agitou j unto à face, rugindo surdam ente:
— Ou escreveis o que vos m ando e que a m im m e convém , ou, por Deus,
que vos varo o coração!...
Mais branca que a cera da tocha que os alum iava, com a carne arrepiada
ante aquele ferro que luzia, num trem or suprem o e que tudo aceitava, d.
Leonor m urm urou:
— Pela Virgem Maria, não m e façais m al!... Nem vos agasteis, senhor,
que eu vivo para vos obedecer e servir... Agora, m andai, que eu escreverei.
Então, com os punhos cerrados nas bordas da m esa, onde pousara o punhal, esm agando a frágil e desditosa m ulher sob o olhar duro que fuzilava, o senhor
de Lara ditou, atirou roucam ente, aos pedaços, aos repelões, um a carta que
dizia, quando finda e traçada em letra bem incerta e trêm ula:
" Meu cavaleiro,
Muito mal haveis compreendido, ou muito mal pagais o amor que vos
tenho, e que não vos pude nunca, em Segóvia, mostrar claramente... Agora
aqui estou em Cabril, ardendo por vos ver; e se o vosso desejo corresponde ao meu, bem facilmente o podeis realizar; pois que meu marido se acha
ausente noutra herdade, e esta de Cabril é toda fácil e aberta. Vinde esta noite, entrai pela porta do jardim, do lado da azinhaga, passando o tanque, até ao terraço. Aí avistareis uma escada encostada a uma janela da casa, que é a janela do meu quarto, onde sereis bem docemente agasalhado por quem
ansiosamente vos espera..."
— Agora, senhora, assinai por baixo o vosso nom e, que isso sobretudo
convém !
D. Leonor traçou vagarosam ente o seu nom e, tão verm elha com o se a
despissem diante de um a m ultidão.
— E agora — ordenou o m arido m ais surdam ente, através dos dentes cerrados — endereçai a d. Rui de Cárdenas!
Ela ousou erguer os olhos, na surpresa daquele nom e desconhecido.
— Andai!... A d. Rui de Cárdenas! — gritou o hom em som brio. E ela
endereçou a sua desonesta carta a d. Rui de Cárdenas.
D. Alonso m eteu o pergam inho no cinto, j unto ao punhal que em bainhara,
e saiu em silêncio com a barba espetada, abafando o rum or dos passos nas
laj es do corredor.
Ela ficara sobre o escabelo, as m ãos cansadas e caídas no regaço, num
infinito espanto, o olhar perdido na escuridão da noite silente. Menos escura
lhe parecia a m orte que essa escura aventura em que se sentia envolvida e