Os Melhores Contos Fantásticos

Flávio Moreira da Costa · Capítulo 1 de 2 · parte 21/28

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Os Melhores Contos Fantásticos

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 28 partes.

terrível Nag?

— Outra vez te pergunto, onde está Nagaina?

— Perto do estábulo, na lixeira, chorando a m orte de Nag. Grande Rikki-

tikki dos dentes brancos!

— Para o inferno com m eus dentes brancos! Sabe onde estão os ovos

dela?

— No canteiro dos m elões, no lado m ais próxim o da parede, onde o sol

bate quase o dia todo. Guardou-os lá há três sem anas.

— E nunca ocorreu-lhe que devia contar-m e esse fato? No lado perto da

parede, não é?

— Rikki-tikki, não está pensando em com er-lhe os ovos, está?

— Não seria exatam ente com ê-los. Darzee, se você conseguisse ter um

pouco de senso, iria até o estábulo e fingiria que te quebrou um a asa; depois, faria com que Nagaina te perseguisse até este arbusto. Preciso ir até os m elões e se for para lá agora, ela m e verá.

Darzee era lerdo, e sua cabeça não conseguia reter ao m esm o tem po m ais

de um a idéia. Porque os filhos de Nagaina, com o igualm ente os seus, nasciam

de ovos, não conseguia conceber que se podiam destruí-los. Sua com panheira,

contudo, era ave de m elhor visão. Sabia que os ovos das cobras transform am -

se em cobrinhas m ais tarde. Por isso, voou do ninho, deixando Darzee

encarregado de aquecer os filhotes e ocupado em cantar a m orte de Nag.

Darzee se assem elhava em alguns aspectos aos hom ens.

Esvoaçou perto da lixeira, bem diante de Nagaina, e com eçou a agitar

desordenadam ente as asas, dizendo:

— Ai, ai, m inha asa está quebrada! O rapaz da casa quebrou-m e a asa com um a pedrada. — Em seguida, pôs-se a esvoaçar ainda m ais aflita. Nagaina. alçou a cabeça e silvou:

— Você alertou Rikki-tikki na ocasião em que eu estava para o m atar. O

caso agora é que veio lam entar sua asa quebrada em péssim o terreno. — E

dirigiu-se para a ave, avançando sobre o pó.

— O rapaz quebrou-m e a asa com um a pedrada! — prosseguiu ela.

— Se lhe é possível algum consolo, afirm o que, depois de você estar

m orta, cuidarei de tirar desforra do rapaz. Meu com panheiro está na lixeira

esta m anhã, porém digo que o rapaz j á antes do anoitecer estará im óvel com o

pedra. De que te adianta fugir? Eu te apanharei por certo. Olha cá, tola!

Ela sabia que não deveria obedecer-lhe, pois a ave que fixa os olhos de

um a obra assom bra-se tanto, que fica im obilizada. Prosseguiu, pois, a

esvoaçar e piar de dor, sem pre à beira do chão, avançando pelo cam inho.

Nagaina foi forçada a segui-la.

Rikki-tikki percebeu que elas avançavam pelo cam inho, vindo para o

arbusto, a tratou de ir im ediatam ente ao canteiro dos m elões; exatam ente na

extrem idade m encionada por Darzee, abafados pela folhagem dos frutos,

encontrou engenhosam ente escondidos vinte e cinco ovos, de tam anho

aproxim ado aos da galinha, distintos apenas pelo fato de apresentarem no

lugar da casca um a pele esbranquiçada.

— Cheguei no m om ento exato — disse Rikki-tikki, vendo através da pele

transparente as cobrinhas enroladas. Ele sabia que estariam prontas para m atar um hom em tão logo estivessem libertas do ovo. Rom peu a cúpula dos ovos

com os dentes o m ais rapidam ente possível, cuidando de estraçalhar as crias.

Feito isso, tratou de vasculhar um a vez m ais entre a folhagem para certificar-

se de que não havia ficado nem um rem anescente. Faltavam ainda três ovos e,

estando na im inência de term inar o serviço. Rikki-tikki com eçou a rir

baixinho. Foi então que ouviu o grito da com panheira de Darzee:

— Rikki-tikki, trouxe Nagaina e a guiei para perto da casa. Ela entrou na

varanda e tenciona m atar alguém . Vem depressa!

Rikki-tikki esm agou ainda dois ovos, saiu com o terceiro na boca,

correndo alucinadam ente em direção à varanda. A fam ília estava lá reunida,

torrando a refeição da m anhã. Rikki notou, contudo, que não tocavam na

com ida, todos estavam com pletam ente paralisados e com o sem blante pálido.

Nagaina estava entre eles, enrolada sobre o tapete, de tal

m odo próxim a da cadeira de Teddy, que podia dali lançar-se m uito facilm ente contra a perna nua do garoto. Ela m anifestava seu triunfo cantando e

balançando o corpo.

— Filho do Hom em Grande que m atou Nag — pronunciou ela —, fica

quieto. Estou m e preparando. Espera ainda. Todos fiquem im óveis. Um único

m ovim ento, e eu ataco; da m esm a form a atacarei se não fizerem m ovim ento.

Infelizes im becis que m ataram m eu Nag!

Teddy parou os olhos fixos no pai, e tudo o que este podia fazer era dizer-

lhe que perm anecesse absolutam ente quieto.

— Não faça o m ínim o m ovim ento. Teddy. Teddy, não se m exa.

Rikki-tikki lançou então seu grito:

— Vira para cá. Nagaina. Vira e luta!

— Cada coisa a seu tem po — respondeu ela, m antendo os olhos im óveis.

— Daqui a pouco resolverei m inha questão contigo. Agora, vej a com o teus

am igos estão com pletam ente im óveis. Estão com m edo. Não se arriscarão a

m over-se, e se você avançar m ais um passo, vou ao ataque.

— Fosse eu, iria dar um a olhadinha nos ovos que estão chocando no

canteiro dos m elões — disse ele. — Vai lá. Nagaina.

Ela voltou-se e deparou com o ovo.

— Ah! Entrega-m e! — suplicou.

Rikki-tikki envolveu o ovo com as duas patas, seus olhos com pletam ente

em brasa, tão verm elhos quanto o sangue.

— Que preço paga por um ovo de cobra? E o preço de um a cobrinha? E de

um a cobrinha de fam ília nobre? Pelo últim o exem plar, últim o de fato, que

sobrou do ninho? Os dem ais que lá ficaram j á estão sendo devorados pelas

form igas.

Nagaina voltou-se inteiram ente, esquecida de tudo o m ais, tendo em vista

que ali estava o últim o ovo. Rikki-tikki viu que o pai de Teddy arrebatou-o

com as m ãos, puxando-o para fora do alcance de Nagaina.

— Trapaça! Trapaça! Trapaça! Rikki-tchk-tchk! — troçou Rikki-tikki. —

O rapaz está salvo, e fui eu que ataquei Nag ontem no banheiro e m ordi-lhe o

capelo. — Pôs-se então a pular com as quatro patas sim ultaneam ente, a

cabeça próxim a do chão. — Ele chocalhou-m e desenfreadam ente, m as não

conseguiu livrar-se de m im . Estava j á m orto quando o hom em grande o

decepou. Rikki-tikki-tck-tck! Fui eu! Apressa-te Nagaina, vem lutar com igo.

Não ficará viúva por m ais tem po.

Nagaina percebeu que perdera a oportunidade de m atar o m enino. E agora.

Rikki-tikki estava de posse do ovo, m antendo-o entre as patas.

— Devolve o m eu ovo. Rikki-tikki. Devolve o últim o que sobrou dos m eus ovos, e m e com prom eto a ir-m e daqui e não voltar — prom eteu

Nagaina, desarm ando o capelo.

— Certo, irá m esm o em bora e não voltará nunca, desde que tam bém você

irá para a lixeira acom panhar Nag que lá j á está. Luta! O hom em grande foi

buscar a espingarda. Luta!

Rikki-tikki dançava em torno de Nagaina, m antendo-se estrategicam ente

afastado da possibilidade dos seus golpes. Os olhos estavam acesos,

reluzentes com o brasa. Nagaina arm ou-se e assaltou-o. Rikki-tikki saltou para

cim a e para trás. Ela prosseguiu, repetiu o assalto m ais três vezes; a sua

vítim a, entretanto, voava ligeira, e a cabeça dela batia contra o ponto vazio

com um ruído surdo. Ela voltava à posição tão habilm ente com o se fosse um a

m ola. Rikki-tikki descreveu um círculo e tentou assaltá-la por trás, m as ela

girou para m antê-lo sob sua m ira. Toda essa m ovim entação de cauda e

escam as enchia o am biente de um som sem elhante a folhas secas carregadas

pelo vento.

Rikki-tikki acabou esquecendo-se do ovo, largado na varanda. Nagaina ia

aproxim ando-se sem pre, até que achou ocasião de tom á-lo na boca e bater-se

em retirada. O m angusto parara um segundo para tom ar fôlego, e quando

percebeu, j á ela ia descendo as escadas da varanda disparada em fuga. Ele

im ediatam ente correu a persegui-la. Mas, quando um a cobra foge, vai tão

veloz com o o traçado breve de um raio.

Rikki-tikki sabia que não podia deixá-la escapar. Caso isso ocorresse, o

problem a continuaria a rondar. Ela foi diretam ente para o m aciço de erva

perto da árvore, ponto de residência de Darzee, que persistia cantando sua tola nota triunfal. Rikki ouviu-o enquanto disparava atrás de Nagaina. Felizm ente,

a com panheira do parvo Darzee era m ais sensata. Por isso, logo que Nagaina

se aproxim ou, ela voou do ninho e bateu as asas bem em frente da cabeça

dela. Se Darzee tivesse aj udado, poderiam tê-la feito voltar, m as Nagaina

apenas baixou a cabeça e prosseguiu. Mesm o assim , aquele breve obstáculo

contribuiu para que Rikki-tikki a alcançasse e a pegasse pela cauda j ustam ente no m om ento em que ela entrava no buraco onde m orava. Resultou daí que ele

m ergulhou na toca j unto com sua caça. São raros os m angustos, até m esm o os

m ais idosos e experientes, que se atrevem a perseguir um a cobra a ponto de

penetrar em seu ninho. O buraco estava escuro, e Rikki-tikki não podia prever

quando ele se abriria fornecendo espaço à inim iga para o atacar. Apertou os

dentes com todo vigor para m anter-se firm e na cauda da

cobra, arrem etendo as patas traseiras para trás a fim de fazê-las de freio e sustentar-se na descida da toca escura e úm ida.

Logo depois a erva que ocultava a entrada da toca parou de agitar-se, e

Darzee lam entou:

— Está tudo term inado para Rikki-tikki! Agora tem os de cantar para ele

um a canção fúnebre. O coraj oso Rikki-tikki m orreu! Com toda certeza

Nagaina o m atou!

Pôs-se im ediatam ente a cantar a sua nota lam entosa, criada de im proviso,

e, quando j á se aproxim ava do trecho m ais com ovente, a erva novam ente trem ulou. A cabeça de Rikki-tikki apontou, por fim , na entrada da toca; saiu

um a perna, depois veio a outra e saltou inteiro para fora, todo em poeirado;

aprum ou-se e com eçou a lavar os bigodes com a língua. Darzee interrom peu a

canção e em seu lugar em itiu um grito de espanto. Nesse instante o m angusto

sacudiu o pêlo e espirrou.

— Está tudo acabado — disse. — A viúva não vai nunca m ais sair da toca.

— As form igas verm elhas ouviram -no, pelo que irrom peram em fila para a

toca em busca de confirm ação do que tinham ouvido.

Rikki-tikki envolveu-se na erva e ali m esm o adorm eceu. Dorm iu longas

horas, até o fim da tarde, cansado da espinhosa tarefa que o ocupou. Logo que

despertou, disse:

— Tenho de voltar para casa. Darzee, pede ao Caldeireiro para contar a

todos que vivem no j ardim que Nagaina está m orta.

O Caldeireiro é um a ave que em ite um som igual às pancadas de um

m artelo sobre um recipiente de cobre. Ocupa-se nisso porque é o pássaro

anunciador das novidades para aqueles interessados em sabê-las. Todo j ardim

indiano é habitado por um deles. Ao subir pelo cam inho. Rikki ouviu suas

cham adas noticiosas, sem elhantes a um som de batidas de sino, desses

em pregados para convocar os com ensais para o j antar. Em seguida, o ritm ado

anúncio:

— Ding-dong! Nag está m orto, dong! Nagaina está m orta! Ding-dong!

Dado o anúncio, as aves com eçaram a cantar e os sapos a coaxar. Nag e

Nagaina com iam não apenas aves bebês, m as tam bém sapos.

Chegando em casa, toda a fam ília foi a seu encontro, praticam ente em

lágrim as. A m ãe, principalm ente, estava excessivam ente pálida, visto que

perdera os sentidos. Agraciaram -lhe com todas as guloseim as apreciáveis,

fartam ente oferecidas. Fartou-se regaladam ente, e seguiu para a cam a sentado

sobre o om bro de Teddy, onde a m ãe o encontrou quando foi visitar o filho

noite alta.

— Ele salvou a m inha vida, a tua e a de Teddy — disse ao m arido. —É

um a loucura, salvou-nos a todos!

Rikki-tikki acordou subitam ente — os m angustos têm o sono m uito leve;

por isso, é com um acordarem m ediante m ínim o ruído no m eio da noite.

— Hum ! Vej o que são vocês! — pronunciou ele. — Mas que razão há

para inquietarem -se? As cobras j á estão m ortas. Ainda que não estivessem , eu

estou aqui!

O feito de Rikki-tikki com punha um a boa causa para ele orgulhar-se de si.

Entretanto, não se tornou um m ero presunçoso. Guardou o j ardim com zelo,

cum prindo com vigor o m ister de sua raça, com dentes e saltos, m ordidas e

golpes, e não houve m ais cobra que ousasse penetrar para dentro de seus

m uros.

Tradução de Vilma Maria da Silva

Anatole France

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Misticismo e sobrenatural, uma mistura sempre presente no gênero. Uma

igreja, uma missa e algumas almas penadas. Só isso. Suficiente para que Anatole France (1844-1924) crie um clima que parece escrito nos vitrais e

sobretudo na arquitetura (incluindo aí a presença do tempo escrita nas ve-

lhas paredes escurecidas) das centenárias igrejas espalhadas pelo interior da França. Houve uma época em que a leitura de Anatole France era quase

obrigatória, tal a sua qualidade e popularidade: romances como Os deuses têm sede . A ilha dos pingüins e contos como "Cranquebille" (presente em Os 100 m elhores contos de crim e e m istério da literatura universal ) e "A missa das almas" marcaram, e marcam, a presença do escritor no imaginário

ocidental.

A m issa das alm as

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Ao sr. Jean-François Bladé, de Agen, o

"copista piedoso", que coligiu os contos

populares da Gasconka.

EIS O QUE O SACRISTÃO DA IGREJA DE SANTA EULÁLIA, em Neuville-d'Aum ont, m e

contou debaixo da parreira do Cavalo Branco, num a bela noite de verão,

bebendo um a garrafa de vinho velho à saúde de um m orto m uito conveniente,

que ele, naquele dia m esm o, enterrara com honras, sob um lençol cravej ado

de belas lágrim as de prata.

— Meu falecido pai, coitado (é o sacristão que fala), era em vida coveiro.

Tinha bom gênio, sem dúvida um efeito de sua profissão, pois a gente observa

que as pessoas que trabalham nos cem itérios são de hum or j ovial. A m orte

não os assusta nada: nunca pensam nela. Este que lhe fala, cavalheiro, entra

num cem itério, à noite, tão tranqüilam ente quanto debaixo do caram anchão do

Cavalo Branco. E se, por acaso, encontro um a alm a do outro m undo, não m e perturbo de j eito nenhum , por considerar que ela pode m uito bem vir tratar

das suas coisas, assim com o trato das m inhas. Conheço os hábitos dos m ortos

e suas características. Sobre esse assunto, sei de coisas que os próprios padres não sabem . E se contasse tudo o que vi, o senhor ficaria espantado. Mas nem

todas as verdades se deve dizer, e m eu pai, m esm o gostando de contar

histórias, não revelou a vigésim a parte do que sabia. Em com pensação, repetia

com freqüência os m esm os relatos, e narrou um as cem vezes, pelo que sei, a

aventura de Catherine Fontaine.

Catherine Fontaine era um a solteirona que recordava ter visto quando

m enino. Eu não ficaria nada espantado se ainda houvesse na região até três

velhotes que se lem brassem de ter ouvido falar nela, pois era bem conhecida e

de boa reputação, ainda que pobre. Morava na esquina da rua das Freiras, na

torrezinha que o senhor ainda pode ver,

pertencente a um velho palácio que dá para o Jardim das Ursulinas. Há sobre essa torrezinha figuras e inscrições m eio apagadas. O finado cura de Santa

Eulália, sr. Levasseur, assegurava que está dito em latim que o am or é m ais

forte que a m orte. Entendido, acrescentava, com o am or divino.

Catherine Fontaine vivia só nessa pequenina habitação. Era rendeira. O

senhor sabe que as rendas feitas em nossas terras j á foram m uito renom adas.

Dela não se conheciam nem parentes nem am igos. Dizia-se que aos 18 anos

am ara o j ovem cavaleiro de Aum ont-Cléry, de quem fora secretam ente noiva.

Mas as pessoas de bem não queriam acreditar em nada disso e diziam ser um a

história que fora im aginada por Catherine ter m ais ar de dam a que de

trabalhadora, por guardar sob os cabelos brancos os restos de um a grande beleza, por ter um ar triste e por se ver no seu dedo um anel desses sobre os

quais o ourives colocou duas m ãozinhas unidas, que se tinha o costum e, nos

tem pos antigos, de dar um ao outro, nos noivados. O senhor j á vai saber o que

era.

Catherine Fontaine vivia santam ente. Freqüentava as igrej as e, toda

m anhã, chovesse ou fizesse sol, ia assistir à m issa das seis horas na Santa

Eulália.

Ora, um a noite de dezem bro, enquanto estava deitada em seu quartinho,

foi acordada pelo som dos sinos; não tendo dúvida algum a de que soavam a

m issa prim eira, a piedosa m oça se vestiu e desceu para a rua, onde a noite

estava tão escura que nada se via das casas e nenhum a claridade se m ostrava

no céu negro. E havia um tal silêncio nessas trevas que nem um cachorro que

fosse latia ao longe, e a gente se sentia separado de qualquer criatura viva.

Mas Catherine Fontaine, que conhecia cada um a das pedras onde botava o pé

e que poderia ir à igrej a de olhos fechados, chegou sem dificuldade à esquina

da rua das Freiras com a rua da Paróquia, onde se ergue a casa de m adeira que

tem um a árvore de Jessé esculpida sobre um a trave. Chegando a esse lugar,

viu que as portas da igrej a estavam abertas e que de lá safa um a grande

claridade de círios. Continuou a andar e, tendo atravessado o pórtico, deu com um a assistência num erosa que enchia a igrej a. Mas não reconhecia nenhum

dos espectadores, e estava surpresa de ver toda essa gente vestida de veludo e brocado, com plum as no chapéu e carregando a espada à m oda do tem po

antigo. Havia lá fidalgos que em punhavam com pridas bengalas com castão de

ouro e dam as com um a touca de renda segura por um pente na posição de diadem a. Cavaleiros de são

Luís davam a m ão a essas dam as, que escondiam sob o leque um rosto pintado, do qual só se viam a têm pora em poada e um a m osca no canto do

olho! E todos iam a seus lugares sem nenhum ruído, e não se ouviam ,

enquanto andavam , nem o som dos passos sobre as laj es nem o roçar dos

tecidos. As naves laterais se enchiam com um a m ultidão de j ovens artesãos,

de túnica parda, calções de fustão e m eias azuis, que seguravam pela cintura

m oças m uito bonitas, rosadas, de olhos baixos. E, j unto às pias de água benta, cam ponesas de saia verm elha e corpete de laço sentavam -se no chão com a

tranqüilidade dos anim ais dom ésticos, enquanto rapazes novos, de pé atrás

delas, arregalavam os olhos e rem exiam entre os dedos seus chapéus. Todos

esses rostos silenciosos pareciam eternizados no m esm o pensam ento, doce e

triste. Aj oelhada em seu lugar costum eiro. Catherine Fontaine viu o padre se

dirigir para o altar, precedido de dois ecônom os. Não reconheceu nem o

padre, nem os aj udantes. A m issa com eçou. Era um a m issa silenciosa, onde

não se ouvia nenhum som dos lábios que se m exiam , nem o tilintar do sininho

agitado em vão. Catherine Fontaine se sentia sob a vista e sob a influência de seu vizinho m isterioso e, tendo olhado para ele sem quase voltar a cabeça,

reconheceu o j ovem cavaleiro de Aum ont-Cléry, que a am ara e estava m orto

fazia 45 anos. Reconheceu-o por um pequeno sinal que tinha sob a orelha

esquerda e sobretudo pela som bra que seus longos cílios negros faziam sobre

suas bochechas. Estava vestido com roupa de caça, verm elha com galões de

ouro, que usava no dia em que, tendo-a encontrado no bosque de São

Leonardo, pedira-lhe de beber e pegara um beij o. Guardara a j uventude e a boa form a. Seu sorriso m ostrava ainda dentes de lobinho. Catherine disse-lhe

baixinho:

— Meu senhor, que foi m eu am igo e a quem dei outrora o que um a m oça

tem de m ais precioso. Deus o tenha em Sua graça! Possa Ele m e inspirar

enfim o rem orso pelo pecado que com eti com o senhor; pois a verdade é que,

de cabelos brancos e perto da m orte, não m e arrependo ainda de tê-lo am ado.

Mas, am igo falecido, m eu belo senhor, diga-m e quem são essas pessoas à

m oda de antigam ente que assistem aqui a essa m issa silenciosa.

O cavaleiro de Aum ont-Cléry respondeu num a voz m ais fraca do que um

sopro, porém m ais clara do que o cristal:

— Catherine, esses hom ens e essas m ulheres são alm as do purgatório que

ofenderam Deus pecando com o nós por am or às criaturas, m as nem por isso

afastadas de Deus, pois seu pecado foi, com o o nosso, sem m alícia.

"Enquanto, separados do que am avam sobre a terra, se purificam no fogo lustral do purgatório, sofrem as dores da ausência, e esse sofrim ento é para

eles o m ais cruel. São tão infelizes que um anj o do céu se apiedou de sua

aflição am orosa. Com a perm issão de Deus, reúne todo ano, durante um a hora

noturna, os enam orados na sua igrej a paroquial, onde lhes é perm itido assistir à m issa das alm as segurando as m ãos. Essa é a verdade. Se m e é dado vê-la

aqui antes da sua m orte. Catherine, é um a coisa que só acontece com a

perm issão de Deus."

E Catherine Fontaine lhe respondeu:

— Eu gostaria de m orrer para voltar a ser bela com o nos dias, m eu

falecido senhor, em que lhe dava de beber na floresta.

Enquanto falavam assim baixinho, um cônego velhíssim o fazia a coleta e

apresentava um a grande travessa de cobre aos espectadores que lá deixavam

cair, sucessivam ente, antigas m oedas fora de circulação há m uito: escudos de

seis libras, florins, ducados e ducatons, j acobus, nobles, e as m oedas caíam

em silêncio. Quando a travessa de cobre lhe foi apresentada, o cavaleiro

colocou um luís que não soou m ais do que as outras m oedas de ouro e prata.

Depois o velho cônego parou em frente a Catherine Fontaine, que rem exeu

o bolso sem lá achar nada. Então, não querendo recusar um a oferenda,

destacou do dedo o anel que o cavaleiro lhe dera na véspera de sua m orte, e o

j ogou na bandej a de cobre. O anel de ouro, ao cair, soou com o pesada batida

de sino e, diante do ruído reverberante que fez, o cavaleiro, o cônego, o

celebrante, os aj udantes, as dam as, os cavaleiros, a assistência toda

desapareceu; os círios se apagaram e Catherine Fontaine perm aneceu só nas

trevas.

Tendo acabado desse m odo o relato, o sacristão bebeu um grande gole de

vinho, ficou por um m om ento sonhador e depois retom ou nestes term os:

— Contei-lhe essa história tal qual m eu pai m e contou várias vezes e

acredito ser ela verídica, pois está de acordo com tudo o que observei dos usos e costum es dos defuntos. Convivo com os m ortos desde m inha infância e sei

que sua praxe é voltar a seus am ores.

"Assim é que os m ortos avarentos erram , à noite, perto dos tesouros que

esconderam em vida. Fazem guarda em torno de seu ouro; m as os cuidados

que tom am , longe de servi-los, acabam prej udicando-os, e não é raro

descobrir dinheiro enfiado na terra cavando-se o lugar assom brado por um

fantasm a. Tam bém os m aridos defuntos vêm atorm entar, à

noite, suas m ulheres casadas em segundas núpcias, e eu poderia nom ear vários que, m ortos, cuidaram m ais das esposas do que o fizeram vivos.

"Esses são reprováveis pois, de j ustiça, os defuntos não deveriam de m odo algum bancar os cium entos. Mas relato ao senhor o que observei.

com o que se precisa tom ar cuidado ao desposar um a viúva. Aliás, a

história que lhe contei foi com provada da m aneira seguinte:

"De m anhã, após essa noite extraordinária. Catherine Fontaine foi

encontrada m orta em seu quarto. E o guarda suíço de Santa Eulália achou na

travessa de cobre que servia às coletas um anel de ouro com duas m ãos

unidas. Aliás, não sou hom em de contar histórias das quais se ria. Que tal

pedirm os outra garrafa de vinho?..."

Tradução de Augusto Alencastro

Akutagawa Ry unosuke

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Akutagawa Ryunosuke (1892-1927), expoente da literatura japonesa, só

ganhou fama mundial quando Akira Kurosawa transformou dois de seus

contos num filme que se tornaria clássico: Roshomon. Muito pouco de sua

obra foi publicada no Brasil. Este aparentemente singelo "Sennin", por exemplo, só agora aparece em português. O conto começa como uma crônica

de costumes ou social e acaba como pura abstração: a fantasia, ou a

espiritualidade da tradição oriental, assume ares de realidade concreta e

efetiva. Detalhe: na tradição japonesa, o que chamamos no Ocidente (ou na

Inglaterra?) de "fantasma", fruto do imaginário ou da crendice popular, recebe o nome de "espírito", uma presença no cotidiano das pessoas. A leitura deste conto de Akutagawa, assim como o de Lafcadio Hearn nesta

mesma antologia, só se enriquece tendo em vista esta particularidade: os

espíritos são presenças reais que alteram, quando não determinam, nossas

vidas.

Sennin

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UM HOMEM QUE QUERIA SE EMPREGAR com o criado chegou um a vez ã cidade de

Osaka. Não sei seu verdadeiro nom e, todos o conheciam pelo nom e de criado.

Gonsuke, pois ele era, afinal, um criado para qualquer trabalho.

Esse hom em (a quem cham arem os Gonsuke) foi a um a agência de

COLOCAÇÕES PARA QUALQUER TRABALHO e disse ao funcionário, que estava

fum ando seu com prido cachim bo de bam bu:

— Por favor, senhor funcionário, eu gostaria de ser um sennin. 1 O senhor teria a gentileza de procurar um a fam ília que m e queira com o criado e m e

ensine o segredo de sê-lo, enquanto trabalho com o criado?

O funcionário, atônito, perdeu a fala por alguns instantes, diante do

am bicioso pedido de seu cliente.

— O senhor não m e ouviu, sr. Funcionário? — disse Gonsuke. — Eu

desej o ser um sennin. Poderia o senhor procurar um a fam ília que m e

em pregue com o criado e m e revele o segredo?

— Lam entam os desiludi-lo — m urm urou o em pregado, voltando a fum ar

seu cachim bo —, m as nem um a única vez em nossa extensa carreira

com ercial precisam os procurar um em prego para aspirantes ao posto de sennin. Se o senhor for a outra agência, talvez...

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1 Na m itologia j aponesa, o espírito im ortal de um santo erem ita que vive nas m ontanhas, capaz de realizar m ilagres devido aos incontáveis m éritos adquiridos através de seu ascetism o. (N.T.)

Gonsuke chegou m ais perto, roçando-o com seus petulantes j oelhos, cobertos pelas calças azuis, e com eçou a argum entar desta m aneira:

— Alto lá, senhor, isso não está certo. Sua tabuleta então não diz

COLOCAÇÕES PARA QUALQUER TRABALHO? Já que prom ete qualquer trabalho, o

senhor deve conseguir qualquer trabalho que se queira. Se não cum pre o que

prom ete, trata-se então de um a m entira proposital.

Diante de argum ento tão razoável, o funcionário não censurou aquela

explosão de raiva:

— Posso garantir-lhe, senhor forasteiro, que não há engano algum . Tudo

está correto — apressou-se a explicar o funcionário —; m as se insiste em seu

estranho desej o, peço-lhe que volte aqui am anhã. Tratarei de conseguir o que

nos pede.

Para se livrar, o funcionário fez essa prom essa e conseguiu que, m o-

m entaneam ente. Gonsuke se fosse. Desnecessário dizer, entretanto, que não

havia qualquer possibilidade de se conseguir um a casa onde pudessem ensinar

aos criados os segredos para se tornarem um sennin. De m odo que, ao sair o

visitante, o funcionário correu à casa de um m édico vizinho.

Contou-lhe a história do estranho cliente e perguntou-lhe ansioso:

— Doutor, que fam ília o senhor acredita poderia fazer desse rapaz um sennin, com rapidez?

Aparentem ente, a pergunta desconcertou o m édico, que ficou pensando

por um instante, com os braços cruzados sobre o peito, contem plando

vagam ente um grande pinheiro no j ardim . Foi a m ulher do m édico, um a

m ulher m uito astuta, conhecida com o a Raposa Velha, quem respondeu por

ele, ao ouvir a história do funcionário:

— Nada m ais sim ples. Mande-o aqui. Em alguns anos farem os dele um

sennin.

— Conseguirá m esm o, senhora? Seria m aravilhoso! Não sei com o

agradecer seu oferecim ento tão am ável. Mas confesso que im aginei desde o

com eço que algum a relação existe entre um m édico e um sennin.

O funcionário, que felizm ente ignorava as intenções da m ulher, agradeceu

outra vez e se afastou com im ensa alegria.

Nosso m édico seguiu-o com o olhar; parecia m uito contrariado e logo,

voltando-se para a m ulher, repreendeu-a m al-hum orado:

— Sua louca! Você viu a sandice que acabou de dizer e fazer? O que faria

se o fulano, depois de alguns anos, com eçasse um dia a se queixar que não lhe

ensinam os nem um pingo do que você tinha prom etido?

A m ulher, longe de pedir desculpas, foi até ele e grasnou:

— Idiota! É m elhor não se m eter! Um otário estúpido com o você não

consegue nem arrum ar o suficiente neste m undo m aldito para m anter j untos a

alm a e o corpo.

Essa frase calou o m arido.

Na m anhã seguinte, com o com binado, o em pregado levou seu hum ilde

cliente à casa do m édico. Com o fora criado no cam po. Gonsuke apresentou-se

naquele dia cerim oniosam ente vestido, de kaori e hakama2 , talvez em honra de tão im portante ocasião. Na aparência. Gonsuke em nada se diferenciava do

cam ponês com um , o que foi um a surpresa para o m édico, que esperava ver

algo inusitado na figura do aspirante a sennin. O m édico olhou-o com

curiosidade, com o se fosse um anim al exótico trazido da Índia longínqua, e

logo falou:

— Disseram -m e que desej a ser um sennin e estou m uito curioso para saber quem lhe m eteu essa idéia na cabeça.

— Bem , senhor, não tenho m uita coisa a lhe dizer — respondeu Gonsuke.

— Foi realm ente m uito sim ples. Quando eu vim pela prim eira vez a esta

grande cidade e olhei para o grande castelo, pensei desta m aneira: que até o

nosso grande governante Tay ko, que vive ali, deve m orrer algum dia; que

alguém pode viver com luxo, m as ainda assim voltará ao pó com o o resto de

nós. No fim das contas, que toda a nossa vida é um sonho passageiro... era

exatam ente o que eu sentia naquele instante.

— Então — bem depressa a Velha Raposa se m eteu na conversa —, você

faria qualquer coisa para se tornar um sennin?

— Sim , senhora, contanto que m e torne um .

— Muito bem . Então viverá e trabalhará aqui durante vinte anos a partir de

hoj e e, ao final do prazo, será o feliz possuidor do segredo.

— É verdade, senhora? Ficarei m uito agradecido.

— Mas — acrescentou ela —, durante vinte anos não receberá de nós nem um centavo de salário. Concorda?

— Sim , senhora. Obrigado, senhora. Concordo com tudo.

Com eçaram assim a transcorrer os vinte anos que passou Gonsuke a

serviço do m édico. Gonsuke carregava água do poço, cortava lenha, preparava

as refeições e fazia todo o trabalho de casa. Mas não era tudo;

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2 Tradicional quim ono preto j aponês, usado com casaco, o traj e form al da época, equivalente ao terno da civilização ocidental. (N.T.)

tinha que acom panhar o m édico em suas visitas, carregando em seus om bros a enorm e m ala de rem édios. Nem m esm o por esse trabalho pediu Gonsuke um

único centavo. Na verdade, em todo o Japão, não se poderia encontrar m elhor

serviçal por m enor salário.

Passaram -se afinal os vinte anos e Gonsuke, outra vez vestido ceri-

m oniosam ente com seu kaori engom ado, com o da prim eira vez em que o

viram , apresentou-se diante dos donos da casa.

Expressou-lhes seu agradecim ento por toda a bondade recebida durante os

vinte anos decorridos.

— E agora, senhor? — perguntou Gonsuke. — Podem os senhores m e

ensinar hoj e com o se chega a ser um sennin e a alcançar a j uventude eterna e

a im ortalidade?

E agora? O que fazem os? — suspirou o m édico ao ouvir o pedido. Depois

de tê-lo feito trabalhar por vinte longos anos por nada? Com o poderia em

nom e da hum anidade dizer agora a seu criado que nada sabia a respeito do

segredo dos sennins? O m édico se desculpou dizendo que som ente sua m ulher conhecia o segredo. — Precisa pedir a ela que lhe diga! — e grosseiram ente

se afastou.

A m ulher, entretanto, suave e im perturbável, disse:

— Muito bem , então eu ensinarei; m as considere que precisa fazer tudo o

que eu disser, por m ais difícil que pareça. De outro m odo, nunca poderia ser

um sennin e, além disso, teria que trabalhar para nós outros vinte anos sem

pagam ento, do contrário, acredite em m im , o Deus Todo-Poderoso o destruirá

no m esm o instante.

— Muito bem , senhora, farei qualquer coisa, por m ais difícil que sej a —

respondeu Gonsuke. Estava m uito contente e esperava que ela falasse.

— Bem — disse ela —, então suba nesse pinheiro do j ardim .

Desconhecendo por com pleto os segredos, suas intenções haviam sido

sim plesm ente im por-lhe qualquer tarefa im possível de ser cum prida para

garantir seus serviços gratuitos por outros vinte anos. Ao ouvir a ordem ,

porém . Gonsuke com eçou a subir na árvore, sem vacilar.

— Mais alto — gritava ela —, m ais alto, até o topo.

De pé na beira da varanda, ela erguia o pescoço para ver seu m elhor criado

sobre a árvore; viu seu kaori flutuando lá em cim a, por entre os galhos m ais

altos daquele pinheiro tão alto.

— Agora solte a m ão direita.

Gonsuke agarrou-se o m ais que pôde ao pinheiro com a m ão esquerda e

cuidadosam ente deixou livre a direita.

— Solte tam bém a m ão esquerda.

— Chega, chega, m inha boa m ulher — disse-lhe afinal o m arido, olhando

para as alturas. — Você sabe m uito bem que, se o cam ponês soltar o galho,

ele vai cair. Aqui em baixo há um a grande pedra e, tão certo com o eu sou um

m édico, ele será um hom em m orto.

— Neste m om ento não quero nenhum de seus preciosos conselhos. Deixe-

m e em paz. Ei, hom em ! Solte a m ão esquerda! Está m e ouvindo?

Enquanto ela falava. Gonsuke levantou sua trêm ula m ão esquerda. Com as

duas fora do galho, com o poderia se m anter em cim a da árvore? Então,

quando o m édico e sua m ulher recuperaram o fôlego. Gonsuke e seu kaori

puderam ser vistos soltando-se do galho e logo... e logo... Mas, o que era

aquilo? Gonsuke parou! Parou! Parou no m eio do ar, em vez de cair com o um

tij olo, e lá ficou, lá em cim a, em plena luz do m eio-dia, suspenso com o um a

m arionete.

— Estou agradecido a am bos, do m ais fundo do m eu coração. Os senhores

fizeram de m im um sennin — disse Gonsuke lá do alto.

Viram -no se inclinar num a respeitosa reverência e logo com eçou a subir

m ais alto, dando suaves passos no céu azul, até transform ar-se num pontinho

e desaparecer entre as nuvens.

Tradução de Celina Portocarrero

Oscar Wilde

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Como,um conto "infantil" numa antologia para adultos!? Sim. Oscar Wilde (1854-1900) pretendeu escrever Histórias de fadas para crianças. Mas a literatura infantil, que também pode ser lida por adultos quando de qualidade, é cheia de situações de peso e gravidade em relação ao ser humano. A crueldade na chamada literatura infantil já foi bastante estudada e não seria de estranhar a inclusão de um conto como "O Barba Azul", de Charles Perrault, numa antologia de horror, por exemplo. (Ele, aliás, está presente na antologia Os 100 m elhores contos de crim e e m istério da literatura universal .) Leiam e julguem.

O foguete notável

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O FILHO DO REI IA SE CASAR, de m odo que todo m undo estava em festa. Ele

havia esperado um ano inteiro por sua noiva, e ela finalm ente havia chegado.

Ela era um a Princesa russa, e tinha vindo desde lá da Finlândia em um trenó

puxado por seis renas. O trenó era do feitio de um enorm e cisne dourado, e

entre as asas do cisne ficava a própria Princesinha. Sua longa capa de arm inho chegava até os pés; na cabeça ela usava um a boininha pequena de tecido

prateado, e ela era tão pálida quanto o Palácio de Neve no qual sem pre havia

vivido. Ela era tão pálida que quando passou pelas ruas todos ficaram

espantados.

— Ela parece um a rosa branca! — gritavam , e atiravam flores de seus

balcões.

No portão do Castelo, o Príncipe estava esperando para recebê-la. Ele tinha

olhos violeta, sonhadores, e seus cabelos pareciam ouro refinado. Ao vê-la,

ele abaixou-se sobre o j oelho e beij ou-lhe a m ão.

— Seu retrato era lindo — m urm urou ele —, m as você é m ais linda do que

seu retrato — e a Princesinha enrubesceu.

— Antes ela parecia um a rosa branca — disse um j ovem Paj em a seu

vizinho —, m as agora ela parece um a rosa verm elha — e toda a Corte ficou

encantada.

Durante os três dias que se seguiram todo m undo andava de lá para cá

dizendo "Rosa branca. Rosa verm elha. Rosa branca. Rosa verm elha" e o Rei deu ordem para dobrar o salário do Paj em . Com o ele não recebia qualquer

salário, a ordem não adiantou m uito, m as foi considerada um a grande honra, e

publicada na Gazeta da Corte.

Ao fim desses três dias o casam ento foi celebrado. Foi um a cerim ônia m agnífica, e a noiva e o noivo passaram , de m ãos dadas, sob um dossel de

veludo roxo bordado de pérolas. Depois houve um Banquete de Estado, que

durou cinco horas. O Príncipe e a Princesa sentaram -se na extrem idade do

Grande Salão e beberam num a taça de cristal transparente. Só pessoas que

realm ente se am am é que podiam beber nesta taça, porque se lábios falsos a

tocassem ela ficaria cinzenta e opaca.

— É evidente que esses dois se am am — disse o pequeno Paj em . — Está

claro com o cristal!

E o Rei dobrou o seu salário um a segunda vez.

— Que grande honra — exclam aram todos os cortesãos.

Depois do banquete haveria um Baile. O noivo e a noiva iam dançar j untos

a Dança da Rosa, e o Rei prom eteu tocar flauta. Ele tocava m uito m al, m as

ninguém j am ais ousara dizer isso a ele, porque ele era o Rei. Para falar a

verdade, ele só sabia duas m elodias, e nunca sabia direito qual das duas ele

estava tocando; m as não im portava, pois fizesse o que fizesse, todo m undo

gritava "Que encanto! Que encanto!".

O últim o evento do program a era um a grande queim a de fogos de artifício,

a ter lugar exatam ente à m eia-noite. A Princesinha j am ais vira fogos de artifício em sua vida, de m odo que o Rei tinha dado ordens ao Pirotécnico

Real para que ele m esm o estivesse de serviço no dia do casam ento.

— Com o são os fogos de artifício? — perguntou ela ao Príncipe, certa

m anhã, quando estava passeando no terraço.

— Eles parecem com a Aurora Boreal — disse o Rei, que sem pre

respondia perguntas dirigidas a outras pessoas —, só que m uito m ais natural.

Eu pessoalm ente os prefiro às estrelas, porque sem pre se sabe quando eles vão

aparecer, e são tão deliciosos quanto o som de m inha flauta. Você não pode

deixar de vê-los.

De m odo que no fundo do j ardim do Rei um a arquibancada foi construída,

e logo que o Pirotécnico Real arrum ou tudo em seu lugar certo, os fogos

com eçaram a conversar uns com os outros.

— O m undo certam ente é m uito bonito — disse um a Estrelinha. — Olhem

só aquelas tulipas am arelas. Puxa! Se elas fossem bom binhas de verdade não

poderiam ser m ais bonitas. Fico m uito contente de ter viaj ado. A viagem

enriquece a m ente, e acaba com nossos preconceitos.

— O j ardim do Rei não é o m undo, sua estrelinha tola — disse um grande

Repuxo. — O m undo é um lugar enorm e, e você levaria três dias para

conhecê-lo por inteiro.

— Todo lugar em que se am a é o m undo para você — exclam ou,

pensativa, a Rodinha, que fora ligada a um a velha caixa de pinho logo no

início da vida e orgulhava-se de seu coração partido. — Mas o am or não está

m ais em m oda, os poetas o m ataram . Escreveram tanto a respeito que ninguém acreditou m ais neles, o que não m e surpreende. O verdadeiro am or

sofre, e cala. Lem bro que eu m esm a, certa vez... m as não im porta agora. O

rom antism o pertence ao passado.

— Bobagem ! — disse o Pistolão. — O rom antism o nunca m orre. É com o

a lua, que vive para sem pre. A noiva e o noivo, por exem plo, am am -se

profundam ente. Eu soube tudo a respeito deles, hoj e de m anhã, de um

cartucho com um , desses de papel pardo, que por acaso ficou na m esm a gaveta

que eu e m e contou todas as novidades da Corte.

Mas a Rodinha sacudiu a cabeça.

— O rom antism o m orreu, o rom antism o m orreu, o rom antism o m orreu —

m urm urou ela. Era um a dessas pessoas que acham que se um a coisa é repetida

m uitas vezes se torna verdade.

Repentinam ente, um a tosse aguda e seca foi ouvida, e todos se viraram

para ver do que se tratava.

A tosse vinha de um Foguete alto e com ares de superioridade, am arrado à

ponta de um a vara com prida. Ele sem pre tossia antes de fazer qualquer

observação, a fim de atrair a atenção de todos.

— Rã-rã! — disse ele, e todos prestaram atenção, m enos a pobre da

Rodinha, que ainda estava sacudindo a cabeça e m urm urando "O rom antism o

m orreu!".

— Ordem ! Ordem ! — gritou um a Bom binha.

Ele era um tanto quanto político, sem pre desem penhava papel im portante

nas eleições locais, e sabia usar todas as expressões parlam entares adequadas.

— Com pletam ente m orto — sussurrou a Rodinha, que então adorm eceu.

Tão logo o silêncio se tornou absoluto, o Foguete tossiu um a terceira vez e

com eçou. Ele falava com um a voz lenta e clara, com o se estivesse ditando

suas m em órias, e sem pre olhava por cim a do om bro da pessoa com a qual

estava falando. Na verdade, tinha m odos m uito distintos.

— Que felicidade para o filho do Rei — notou ele. — Casar-se exatam ente

no dia em que vou ser lançado!

Realm ente, se tudo houvesse sido planej ado com antecedência, as coisas não poderiam ter saído m elhor para ele: m as os Príncipes sem pre têm sorte.

— Minha nossa! — disse a Estrelinha. — Eu pensei que era exatam ente o

contrário: que nós íam os ser queim ados em honra do Príncipe!

— Talvez para você — respondeu ele. — Na verdade, não tenho dúvidas

de que assim sej a. Mas o m eu caso é com pletam ente diferente. Sou um

Foguete m uito notável, e descendo de notáveis pais. Minha m ãe foi a Rodinha

m ais célebre de seu tem po, renom ada por sua graciosa dança. Quando ela fez

sua grande exibição pública, girou 19 vezes antes de se apagar, atirando sete

estrelas cor-de-rosa a cada volta. Tinha um m etro de diâm etro e era feita com

a m elhor pólvora que existe. Meu pai era um Foguete, com o eu m esm o, e de

origem francesa. Voou tão alto que todo m undo teve m edo de que ele nunca

m ais caísse. Mas caiu, porque era de m uito boa índole, executando um a

brilhantíssim a descida de chuva de ouro. Os j ornais escreveram a respeito de

sua atuação nos term os m ais lisonj eiros. Para falar a verdade, a Gazeta da Corte cham ou-o um triunfo da arte Pilotécnica.

— Pirotécnica, você quer dizer Pirotécnica — disse um Fogo-de-Bengala.

— Eu sei que é Pirotécnica porque li na m inha própria lata.

— Bem , pois eu disse Pilotécnica — respondeu o Foguete, com tom de

voz severo, e o Fogo-de-Bengala sentiu-se tão arrasado que com eçou a

im plicar com as estrelinhas, a fim de m ostrar que continuava sendo um a

pessoa im portante. — Dizia eu — continuou o Foguete —, dizia eu... O que é

que eu dizia?

— Estava falando de si m esm o — retrucou o Pistolão.

— Claro! Eu sabia que estava discorrendo sobre algum assunto inte-

ressante quando fui tão rudem ente interrom pido. Detesto grosseria e toda

espécie de m aus m odos, pois sou extrem am ente sensível. Ninguém no m undo

é tão sensível quanto eu, disso tenho absoluta certeza.

— O que é um a pessoa sensível? — perguntou a Bom binha ao Pistolão.

— É um a pessoa que, só porque tem calos, sem pre pisa nos dedos dos pés

dos outros — respondeu o Pistolão sussurrando baixinho, e a Bom binha quase

estourou de rir.

— Por favor, do que é que estão rindo? — indagou o Foguete. — Eu não

estou rindo.

— Eu estou rindo porque estou contente — respondeu a Bom binha.

— Essa é um a razão bem egoísta — disse o Foguete, com raiva. —Que direito tem você de estar contente? Deveria estar pensando nos outros. Para

falar a verdade, deveria estar pensando em m im . Eu estou sem pre pensando

em m im m esm o, e espero que todos os outros façam o m esm o. É isso que se

cham a solidariedade. É um a bela virtude, que eu possuo no m ais alto grau.

Suponha, por exem plo, que algum a coisa acontecesse com igo hoj e à noite,

que infelicidade isso seria para todos! O Príncipe e a Princesa j am ais

tornariam a ser felizes, toda a sua vida de casados Ficaria estragada. E quanto ao Rei, sei que ele não conseguiria superar isto. Realm ente, quando com eço a

pensar na im portância da m inha posição, quase chego às lágrim as.

— Se quiser dar prazer aos outros — gritou o Pistolão —, é m elhor tratar

de ficar seco.

— Isso m esm o — exclam ou o Fogo-de-Bengala, que j á estava se sentindo

m elhor. — Isso nada m ais é do que bom senso.

— Bom senso, pois sim ! — disse o Foguete, indignado. — Vocês se

esquecem que eu sou m uito incom um , e m uito notável. Ora, bom senso

qualquer um pode ter, desde que não tenha im aginação. Mas eu tenho

im aginação, e j am ais penso nas coisas assim com o elas são. Sem pre penso

que podem ser algo com pletam ente diferente. E quanto a m e m anter seco, é

óbvio que por aqui não há ninguém capaz de apreciar um a natureza realm ente

em otiva. Felizm ente para m im , pouco m e im porta. A única coisa que sustenta

um a pessoa pela vida afora é a consciência da enorm e inferioridade de todos

os que a cercam , sentim ento esse que venho cultivando assiduam ente. Mas

nenhum de vocês tem coração, pois ficam todos rindo e se divertindo com o se

o Príncipe e a Princesa não tivessem acabado de se casar.

— Ora, realm ente — exclam ou um Balãozinho. — E por que não? Trata-

se de um a ocasião m uito feliz, e quando eu subir para o ar pretendo contar

tudo às estrelas. Vocês vão ver só com o elas vão brilhar quando eu falar a

respeito da linda noiva.

— Ah! Que visão m esquinha da vida! — disse o Foguete. — Mas era só

isso m esm o que eu esperava. Não há nada dentro de vocês. Vocês são ocos e

vazios. Ora, pode ser que o Príncipe e a Princesa vão m orar em um país onde

haj a um rio fundo, e é possível que eles tenham um filho único, um

m enininho louro, de olhos violeta com o os do próprio Príncipe. E pode ser

que um dia ele saia para passear com a sua am a, e pode

ser que a am a adorm eça, ao lado de um a arvore, e pode ser que o m enino caia no rio fundo e se afogue. Que terrível infelicidade! Pobre gente, perder seu

filhinho único! E realm ente um a desgraça! Eu j am ais superarei o caso!

— Mas eles não perderam seu filhinho único — disse o Pistolão —,

nenhum a desgraça lhes aconteceu.

Nem eu j am ais disse que haviam perdido — respondeu o Foguete.

— Eu disse que poderiam perder. Se eles tivessem perdido seu filhinho

único, não haveria nada m ais a dizer a respeito. Detesto gente que chora sobre o leite derram ado. Mas quando penso que eles poderiam perder seu único

filho, isso certam ente m e afeta m uito.

— Sem a m enor dúvida! — gritou o Fogo-de-Bengala. — Para falar a

verdade, você é a pessoa m ais afetada que eu conheço.

— Você é a pessoa m ais rude que eu j am ais conheci — disse o Foguete.

— E não pode sequer com preender m inha am izade pelo Príncipe.

— Ora essa, você nem sequer o conhece — grunhiu o Pistolão.

— Eu j am ais disse que o conhecia — respondeu o Foguete. — E ouso

dizer que se o conhecesse eu não seria seu am igo, em absoluto. É m uito

perigosa essa história de se conhecer os am igos.

— Olhe, o m elhor na verdade é você tratar de ficar seco — disse a

Girândola. — Isso é m uito im portante.

— Muito im portante para você, sem dúvida — respondeu o Foguete. Mas

eu choro se quiser.

E ele efetivam ente desatou-se em lágrim as de verdade, que escorreram por

sua vara com o gotas de chuva, e quase afogaram dois besourinhos que

estavam pensando em m orar j untos e procuravam um cantinho seco para

m ontar sua casa.

— Ele deve ser de natureza realm ente rom ântica — disse a Rodinha —,

pois chora quando não há o m enor m otivo para chorar — e soltou um suspiro

profundo, pensando em sua caixa de pinho.

Mas o Pistolão e o Fogo-de-Bengala estavam absolutam ente indignados, e

Continuar: parte 22 de 28