Os Melhores Contos Fantásticos

Flávio Moreira da Costa · Capítulo 1 de 2 · parte 12/28

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Os Melhores Contos Fantásticos

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 28 partes.

porta igual. Estou fazendo papel de m edroso, m as pouco se m e & L..

* * *

10 de setem bro — Rouen. Hotel Continental. Está feito... está feito... m as será que ele está m orto? Tenho a alm a perturbada pelo que vi.

Ontem , então, tendo o serralheiro colocado m inha persiana e m inha porta de ferro, deixei tudo aberto, até m eia-noite, em bora com eçasse a esfriar.

De repente, senti que ele estava lá, e um a alegria, um a alegria louca tom ou

conta de m im . Levantei-m e devagar e andei para a direita, para a esquerda, m uito tem po, para que ele não adivinhasse coisa algum a; depois,

negligentem ente, tirei as botinas e botei m eus chinelos; então fechei a

persiana de ferro e, cam inhando a passos tranqüilos para a porta, fechei

tam bém a porta com duas voltas da chave. Voltando então para a j anela, fixei-

a com um cadeado, cuj a chave botei no bolso.

De repente, com preendi que ele se agitava ao m eu redor, que ele, por sua

vez, estava com m edo, que m e ordenava que abrisse. Quase cedi; não cedi,

m as, encostando-m e à porta, eu a entreabri, o suficiente para que eu passasse, andando de costas, e, com o sou m uito alto, m inha cabeça batia na verga. Eu

tinha certeza de que ele não tinha conseguido fugir e fechei-o, sozinho,

sozinho. Que alegria! Eu o prendera! Então desci, correndo; apanhei no salão,

abaixo de m eu quarto, m inhas duas lam parinas e j oguei todo o óleo no tapete,

nos m óveis, por toda parte; depois ateei fogo e fugi, depois de ter fechado

bem , com duas voltas de chave, a grande porta de entrada. E fui m e esconder

no fundo do j ardim , num grupo de loureiros. Com o dem orou! Com o

dem orou! Tudo estava escuro, m udo, im óvel; nem um sopro de ar, nem um a

estrela, m ontanhas de nuvens que não se viam , m as que eu sentia sobre m inha

alm a, tão pesadas, tão pesadas.

Eu olhava para m inha casa e esperava. Com o dem orou! Eu j á achava que o

fogo tinha apagado sozinho, ou que Ele o tivesse apagado, quando um a das

j anelas do térreo explodiu sob a pressão do incêndio e um a cham a, um a

grande cham a verm elha e am arela, com prida, m ole, acariciante, subiu pela

parede branca e beij ou-a até o telhado. Um a claridade correu pelas árvores,

pelos galhos, pelas folhas, e um trem or, um trem or de m edo, tam bém . Os

pássaros acordavam ; um cão com eçou a uivar; pareceu-m e que o dia estava

nascendo! Duas outras j anelas explodiram logo depois e eu vi que todo o

andar de baixo de m inha casa não era m ais do que um pavoroso braseiro. Mas

um grito, um grito horrível, agudíssim o, dilacerante, um grito de m ulher

percorreu a noite e duas m ansardas se abriram ! Eu m e esquecera dos criados!

Vi seus rostos desesperados e seus braços que se agitavam !...

Então, desvairado de horror, com ecei a correr para a aldeia, berrando:

"Socorro! Socorro! Fogo! Fogo!" Encontrei pessoas que j á acorriam e voltei com eles, para ver.

A casa, agora, não era m ais do que um a fogueira horrível e m agnífica, um a

fogueira m onstruosa, ilum inando toda a terra, um a fogueira na qual

queim avam hom ens e na qual ele tam bém queim ava. Ele. Ele, m eu prisio-

neiro, o Ser novo, o novo m estre, o Horla!

De repente, todo o teto desabou entre as paredes e um vulcão de cham as

j orrou até o céu. Por todas as j anelas abertas sobre a fornalha, eu via a cuba de fogo e pensava que ele estava ali, naquele forno, m orto...

Morto? Talvez!... Seu corpo? Seu corpo que a luz atravessava não seria

indestrutível pelos m étodos que m atam os nossos?

E se não estivesse m orto?... Talvez apenas o tem po tenha controle sobre o

Ser Invisível e Tem ível. Por que aquele corpo transparente, aquele corpo

invisível, aquele corpo de Espírito, deveria tem er, ele tam bém , os m ales, as

feridas, as enferm idades, a destruição prem atura?

A destruição prem atura? Todo o pavor hum ano dela decorre! Depois do

hom em , o Horla. — Depois daquele que pode m orrer todos os dias, em todas

as horas, em todos os m inutos, por todos os acidentes, veio aquele que só deve m orrer no seu dia, na sua hora, no seu m inuto, porque alcançou o lim ite de

sua existência!

Não... não... sem dúvida... sem dúvida... ele não está m orto... Então...

então... vai ser preciso que eu m e m ate!...

Tradução de Celina Portocarrero

Ivan Turgueniev

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Gógol. Dostoiévski. Tolstoi são os nomes que nos vêm à mente quando

pensamos em literatura russa do século XIX. Acrescente-se a eles Tchekhov e o quadro estaria completo, certo? Errado. O que dizer de outros tantos,

principalmente de Ivan Sergeyevich Turgueniev (1818-1883), "o mais francês dos russos", autor de no mínimo duas obras-primas, o romance Pais e filhos e o livro de contos Notas de um caçador? Pois ei-lo aqui presente com este

conto em que o onírico, a insanidade, a busca de paternidade, o cotidiano e o fantástico se unem num simples sonho — sonho que, na verdade, representa

uma espécie de pesadelo da Razão.

Um sonho

I

EU MORAVA COM MINHA MÃE num a cidadezinha m arítim a e acabara de fazer 17

anos. Minha m ãe não tinha nem 35 — casara-se bem j ovem . Meu pai m orrera

quando eu entrava em m eu sétim o ano, m as lem brava-m e m uitíssim o bem

dele.

Mam ãe era um a loura, de com pleição frágil, com um rosto agradável, m as

sem pre triste, um a voz cansada e surda, gestos tím idos. Já fora célebre pela beleza e, desde então, nada perdera de seu encanto, apesar das m arcas do

tem po. Nunca vi olhos m ais profundos, m ais doces e m ais m elancólicos que

os seus, cabelos m ais finos e vaporosos, m ãos m ais graciosas. Eu a adorava e

ela m e am ava...

Entretanto, nossa existência não era das m ais felizes; um m al secreto,

im erecido e incurável parecia estar corroendo m inha m ãe. E não era a dor de

ter perdido m eu pai, que am ara apaixonadam ente e de quem guardava

devotadam ente a lem brança no fundo do coração... Não, era um a coisa m uito

diferente, um a espécie de aflição inexplicável que eu distinguia de m odo

confuso, m as sem som bra de dúvida, ao olhar para seus olhos ternos e

im óveis, seus lábios belos e fechados, m arcados por um vinco am argo.

Mam ãe m e am ava, disse eu; apesar disso, acontecia de ela m e rej eitar

com o se m inha presença se tornasse para ela subitam ente insuportável.

Inspirava-lhe verdadeira repulsa; ela se arrependia em seguida, m e apertava

de encontro ao coração, chorando, e m e suplicava que a perdoasse. Eu atribuía essa espécie de acesso a sua saúde frágil, a sua dor... Não seria devido, em vez disso, a seu próprio caráter, a seus im pulsos m aldosos e até crim inais, que

afloravam em m im , em bora raram ente?... Não acredito, pois os dois

fenôm enos não coincidiam j am ais.

Minha m ãe se vestia sem pre de preto, com o se continuasse a guardar luto,

m as vivíam os bem , dentro de nossas posses. Nossos am igos eram pouco

num erosos.

II

Eu era a única preocupação de m am ãe, e nossas duas existências for-m avam um a só unidade, por assim dizer. Essas relações entre pais e filhos

nem sem pre são recom endáveis... Podem até se tornar nefastas. Junte-se a isso

eu ser filho único... e a m aioria das crianças que estão no m eu caso não

recebem um a educação norm al. Ao educá-las, os pais pensam dem ais em si

m esm os... Isso não é bom . Eu não era nem m im ado nem m alcriado (dois

defeitos que assaltam todos os filhos únicos), m as m eu sistem a nervoso fora

arruinado prem aturam ente. Aliás, em geral, m inha saúde deixava m uitíssim o

a desej ar; herdara isso de m inha m ãe, com quem m e parecia m uito, sob todos

os pontos de vista.

Evitava a com panhia dos m eninos de m inha idade, a vida social e m esm o

m inha própria m ãe. Meus prazeres preferidos eram a leitura, os passeios

solitários e o devaneio, sobretudo o devaneio! Não m e perguntem com que

sonhava, pois não saberia dizer. Algum as vezes, parecia que estava diante de

um a porta m eio fechada, atrás da qual se escondiam m istérios insondáveis...

Eu estava lá, inquieto, trêm ulo, m e perguntando o que havia do outro lado...

não ousava de m odo algum atravessar a soleira da porta... Esperava...

Esperava de novo e assim continuava, ou então... dorm ia.

Se tivesse a m enor inclinação poética m e poria certam ente a escrever

versos; se fosse devoto, m e tornaria m onge... Não era nem um nem outro, eis

porque continuava a sonhar — e a esperar.

III

Já assinalei que m e sucedia de dorm ir sob a influência de devaneios

confusos. Dorm ia m uito, em geral, e os sonhos desem penhavam , na m inha vida, um papel considerável: eu os tinha quase toda noite. Não os esquecia nunca, atribuía-lhes um sentido secreto e profético, tentava explicá-los a m im m esm o. Havia os que voltavam regularm ente, e isso m e surpreendia sem pre.

Um de m eus sonhos, sobretudo, m e perturbava m ais que os outros. Eu

cam inhava ao longo de um a ruela estreita e m al pavim entada, m argeada por

casas vetustas, de tetos pontiagudos. Estava à procura de m eu pai, que não

m orrera e se escondia em um a dessas estranhas construções. Eu penetrava

debaixo de um pórtico baixo e som brio, atravessava um patiozinho

atravancado de tábuas e lenha e entrava enfim num a espécie de m ansarda,

precariam ente ilum inada por duas lucarnas redondas. Meu pai se m antinha de

pé no m eio da peça, vestindo um roupão, e fum ava cachim bo. Mas não se

parecia, em absoluto, com m eu verdadeiro pai: era alto, m agro, m oreno, com

um nariz aquilino, olhos som brios e penetrantes, contando cerca de quarenta

anos. Estava irritado com igo por tê-lo encontrado e eu, de m inha parte, não

estava nada feliz com o encontro: só experim entava um sentim ento de

surpresa e m esm o estupefação. O hom em se desviou de m im e com eçou a

resm ungar algum a coisa, percorrendo a peça em passos m iúdos... Em seguida,

se afastou pouco a pouco, sem parar de resm ungar e lançando olhares para

trás, por sobre o om bro... As paredes da peça se distanciavam e se fundiam

num a névoa... Atem orizado ante a idéia de perder m eu pai m ais um a vez, eu

corria atrás dele, m as não o via m ais, em bora ouvisse sem pre seu resm ungo

irritado, um resm ungo rabugento... Meu coração se apertava, eu acordava e

não conseguia readorm ecer... Todo o dia seguinte, pensava nesse sonho e não

achava para ele, com o é evidente, explicação satisfatória.

IV

No m ês de j unho, nossa cidadezinha sem pre conheceu um a retom ada de

anim ação: num erosos navios iam atracar no porto, e rostos desconhecidos

circulavam nas ruas. Eu passeava com prazer ao longo do cais, em frente aos

restaurantes e às hospedarias, exam inando os rostos dos m arinheiros e dos

visitantes de além -m ar, instalados à som bra das cortinas de tela e bebendo em

pequenos goles a cervej a que lhes era servida em copos de estanho.

Durante um desses passeios, um hom em , num a m esa de calçada de

restaurante, atraiu irresistivelm ente m inha atenção. Mantinha-se im óvel

sobre a cadeira, de braços cruzados no peito, envolto num longo sobretudo negro, usando chapéu de palha. Mechas de cabelo raras e frisadas desciam

baixo sobre sua fronte, quase à altura do nariz; seus lábios se crispavam sobre a em bocadura de um cachim bo curto. Sua silhueta, seus traços, sua tez

am arelada, crestada, tudo m e parecia tão fam iliar que não pude m e im pedir de

parar em frente a ele e de m e perguntar quem ele era, onde j á o tinha visto.

Tendo sentido m eu olhar pesando sobre si, ele ergueu seus olhos som brios e

penetrantes... Abafei um grito...

Esse hom em era m eu outro pai, o que procurava em sonho!

Não podia m e enganar, pois a sem elhança era de fato evidente dem ais. O

próprio sobretudo evocava pela cor e pregas o roupão no qual aparecera para

m im .

— Será que estou dorm indo? — perguntei-m e — ... Não... o dia está claro,

o burburinho da m ultidão de passantes m e rodeia, o sol brilha alto no céu

azul... E o ser não é um fantasm a, m as um hom em com o eu.

Avistei um a m esinha vaga, lá m e instalei, pedi cervej a e j ornais e m e pus

de vigia.

V

A fim de m elhor observar m eu estranho vizinho sem cham ar sua atenção,

m e escondi atrás do j ornal.

O hom em quase não se m exia, m al reerguendo, de vez em quando, a

cabeça pesada que voltava logo a cair sobre o peito. Tinha j eito de estar à

espera de alguém ... Eu continuava olhando, bebia-o com os olhos... Por

m om entos, m e pareceu que era um j oguete de m inha im aginação e que não

havia nenhum a sem elhança real, em absoluto, entre esse indivíduo e m eu

"outro pai"... Mas não, bastava que fizesse um gesto ou virasse ligeiram ente a cabeça para que eu o reconhecesse e abafasse um novo grito de estupefação.

Ele term inou por perceber m inha indiscrição, m e olhou prim eiro com

surpresa, depois com despeito, fez m enção de se levantar e deixou cair a

bengala, que apoiara na m esinha. Eu m e precipitei para agarrá-la e entregá-la

a ele. Meu coração batia com o se fosse explodir.

Agradeceu-m e com um sorriso forçado, aproxim ou seu rosto do m eu,

ergueu as sobrancelhas e entreabriu os lábios, com o se algum a coisa o

houvesse intrigado.

— Você é m uito educado, rapaz — disse ele com um a voz brusca, nasal e gritada. — Isso é raro, hoj e em dia. Perm ita que o felicite: vej o que recebeu

um a excelente educação.

Não sei m ais o que respondi, m as o gelo estava quebrado. Soube que era

um com patriota, recém -chegado de volta da Am érica, onde vivera longos anos e para onde esperava retornar. Declarou ser o Barão de... não m e lem bro

m ais de quê e, aliás, não ouvi direito, naquele m om ento. De m odo parecido

com m eu "outro pai", term inava tudo que dizia por um a espécie de resm ungo indistinto.

O barão quis saber m eu nom e... Ao ouvi-lo, seu rosto exprim iu de novo a

m ais viva surpresa. Em seguida, perguntou-m e se fazia m uito tem po que m e

encontrava na cidade e com quem m orava. Respondi-lhe que vivia com m inha

m ãe.

— E o senhor seu pai?

— Meu pai m orreu há m uito tem po.

Então, inform ou-se do nom e de batism o de m inha m ãe, pôs-se a rir

acanhadam ente, desculpando-se logo a seguir e m e explicando que não devia

fazer caso disso, que era um tique trazido da Am érica e que, em geral, era um

grande excêntrico. No m om ento de nos separarm os, exprim iu o desej o de

saber nosso endereço. Dei-lhe o endereço.

VI

A perturbação que m e invadira no início de nossa conversa term inara por

se dissipar; no m om ento, estava surpreso por conhecê-lo, e só. Sem dúvida,

não gostava do sorrisinho de troça que flutuava no canto dos lábios do Sr.

Barão quando m e fazia perguntas, nem de seus olhos inquisidores que m e

furavam com o verrum as... Havia, ao m esm o tem po, em seu olhar, algo de

cruel e de protetor... algo assustador. Esse olhar, eu nunca vira em sonho.

Curioso rosto o seu: gasto, m urcho, cansado e, no entanto, j ovem .

Desagradavelm ente j ovem ! Além disso, m eu "outro pai" não tinha na testa a cicatriz profunda que riscava a do barão, e não percebida por m im no início de nossa conversa.

Mal tivera tem po de indicar a m eu novo conhecido o nom e de nossa rua e

o núm ero da casa, quando um negro alto, envolto num a capa, que lhe

dissim ulava toda a parte de baixo do rosto, se aproxim ou, por trás, de m eu

vizinho e lhe tocou o om bro. O outro se voltou m urm urando:

— Ah! Ah! Enfim !

Depois m e cum prim entou com um leve sinal de cabeça e desapareceu no

interior do estabelecim ento com o negro.

Resolvi esperar sua volta: não para falar com ele (não sabia m ais o que lhe

dizer), m as sim pôr à prova m inha im pressão inicial. Um a m eia-hora se

passou, depois um a hora... Nada de barão... Fui a sua procura, atravessei todos os salões, m as não o encontrei em parte algum a: devia ter partido m uito

tem po antes, com o negro, pela porta dos fundos.

Sentindo um pouco de dor de cabeça, decidi tom ar ar e percorri o cais até a

vegetação do parque m unicipal, lá plantado fazia uns dois séculos. Após haver

peram bulado cerca de duas horas sob os grandes plátanos, voltei para casa.

VII

Mal transpusera a entrada do vestíbulo, nossa criada se precipitou ao m eu

encontro, com a fisionom ia toda desfeita. Suspeitei que um a infelicidade

houvesse acontecido em m inha ausência...

Efetivam ente, um a hora antes, m inha m ãe, que ficara trancada no quarto,

dera um grande grito, e a criada, acudindo de im ediato, a encontrara deitada sobre o soalho, sem sentidos. Ao cabo de alguns m inutos, m am ãe voltara a si,

m as fora obrigada a guardar o leito. No m om ento, tinha um ar estranho e

assustado, não falava, não respondia a nenhum a pergunta, olhava em volta e

estrem ecia.

O m édico, cham ado de urgência por nosso j ardineiro, prescreveu um a

poção calm ante. Nem a ele m am ãe quis dizer nada. O j ardineiro j ulgava ter

visto, alguns segundos após o grito de m inha m ãe, um hom em que

atravessava a toda pressa o canteiro de flores e se dirigia ao portão principal.

(Nós m orávam os num a casinha de um andar, cuj as j anelas davam para um

j ardim razoavelm ente grande). Não pudera distinguir seus traços, m as o

hom em era alto, m agro, usava chapéu de palha enterrado até os olhos e um a

sobrecasaca de abas longas...

"É o bardo!", pensei im ediatam ente.

O j ardineiro o perseguira, m as não conseguira alcançá-lo, ainda m ais que a

criada o cham ara para enviá-lo ao m édico.

Entrei no quarto de m inha m ãe. Estava deitada na cam a, m ais branca que o

travesseiro no qual repousava a cabeça. Ela m e reconheceu, sorriu fracam ente

e estendeu a m ão. Acom odei-m e à cabeceira da cam a e

perguntei o que se passara. No com eço, ela não queria responder nada, m as, com o insisti, confessou ter visto algum a coisa que a assustara terrivelm ente.

— Alguém entrou aqui? — inquiri.

— Ah, não! — protestou ela —, m as tive a im pressão de ver... um

fantasm a...

Calou-se e cobriu os olhos com as m ãos. Tive vontade de revelar-lhe tudo

que o j ardineiro m e contara, de narrar o m eu encontro com o barão... Não sei

por que, as palavras se detiveram à beira de m eus lábios. Todavia, não

consegui m e im pedir de observar que os fantasm as não tinham , em geral, o

hábito de circular à luz do dia...

— Ah, m e deixe! — m urm urou ela — não m e torture... Um dia você vai

saber de tudo...

Calou-se de novo. Suas m ãos estavam geladas, seu pulso rápido e ir-

regular. Eu a fiz tom ar sua poção e m e afastei para não incom odar.

Ficou deitada até a noite, im óvel e silenciosa. Por vezes, suspirava, abria

os olhos e voltava a fechá-los, assustada.

Nós nos perguntávam os tudo que lhe acontecera.

VIII

Ao cair da noite, m inha m ãe sofreu um leve acesso de febre e m e m andou

em bora, m as, em vez de m e retirar para m eu quarto, resolvi deitar sobre um

divã, na peça vizinha. De 15 em 15 m inutos, m e levantava, m e aproxim ava de

sua porta na ponta dos pés e escutava... Um silêncio de m orte. Contudo,

duvido m uito que m am ãe tenha fechado os olhos nessa noite.

De m anhã cedo, m e apresentei diante dela: seu rosto estava inflam ado e

seus olhos brilhavam com um clarão peculiar.

À tarde, pareceu estar m elhor, m as, à noite, a febre voltou a subir cada vez

m ais.

Até lá, guardara um m utism o obstinado; de repente, se pôs a falar num tom

irregular e arquej ante. Isso não era delírio, pois o que dizia tinha sentido, em bora carecesse de elos lógicos. Um pouco antes da m eia-noite, ela se

ergueu bruscam ente sobre o travesseiro (eu m e m antinha sentado à cabeceira)

e se lançou a um a longa confissão. Nem um a vez m e olhou; de vez em

quando, bebia um gole d'água, pousava o copo com um gesto irritado, agitava

fracam ente as m ãos... Às vezes, tam bém ,

se detinha, fazia um esforço sobre si m esm a e retom ava o fio da narrativa... E

eu tinha a im pressão de que falava dentro de um a espécie de sonho, com o se

não se desse conta do que fazia, com o se algum a outra pessoa a substituísse

ou forçasse a sair de seu m utism o.

IX

— Escute bem o que vou dizer... Você não é m ais criança, e está na hora

de saber de tudo... Tem pos atrás, eu tinha um a grande am iga... Ela se casou

com um hom em por quem estava apaixonadam ente enam orada, e eles

viveram felizes. Depois do prim eiro ano de união, resolveram ir a São

Petersburgo por algum as sem anas, para se divertirem um pouco. Hospedados

num grande hotel, passavam todas as noites no teatro ou num baile. Minha

am iga era m uito bem feita de corpo, era m uito atraente e os j ovens a

cortej avam , um rapaz principalm ente... um oficial. Ele a seguia com o um a

som bra onde quer que fosse; a m oça sentia pesar sobre ela o olhar de seus

olhos negros, cruéis, espinhosos. Nunca tentou ser apresentado, nem lhe

dirigir a palavra, contentando-se em fitá-la com insolência m aliciosa.

"Cansada de suportar essa peculiar perseguição, m inha am iga se pôs a

suplicar a seu m arido que partissem , j á que os prazeres da capital não a tentavam m ais.

"Um a noite, ficou sozinha, pela prim eira vez, pois seu esposo se deixara

levar para um clube por um grupo de oficiais do m esm o regim ento que o

hom em dos olhos cruéis... Prim eiro, ela decidiu esperar a volta do

com panheiro; depois, vendo que dem orava, m andou em bora sua cam areira e

foi se deitar... De repente, viu-se invadida por um a estranha sensação de pavor e com eçou a trem er pelo corpo todo. Tivera a im pressão de perceber um leve

barulho atrás da parede, com o um cão arranhando um a porta. Virou os olhos.

Um a lam parina piscava no ângulo oposto; todas as paredes eram estofadas...

Subitam ente, o tecido se m exeu, se ergueu, se deslocou... E o hom em de olhos

cruéis pareceu sair da parede, todo vestido de preto!

"Ela quis gritar, m as nenhum som saiu da garganta, paralisada pelo terror.

O hom em saltou sobre ela, com o um a fera, e j ogou-lhe algum a coisa sobre a

cabeça, algum a coisa sufocante, pesada, de cor branca... Que se passou em

seguida? Não m e lem bro m ais... Não m e lem bro m ais de nada! Parecia um

assassinato... Quando a névoa se dissipou e eu... e

m inha am iga recobrou os sentidos, não havia m ais ninguém na peça. Durante m uito tem po, não teve forças para gritar... Enfim , soltou um berro estridente...

e tudo se anuviou de novo...

"Reconheceu o rosto do m arido inclinado sobre ela, ansioso... Seus

com panheiros o haviam retido no clube até duas horas da m anhã... Ele

com eçou a fazer perguntas, m as ela não quis lhe dizer nada... Depois sentiu-se m al... No entanto, sozinha no quarto, teve forças para exam inar a parede e

descobriu um a porta secreta atrás do estofo...

"De repente, percebeu que estava sem aliança, um a velha relíquia fam iliar, um curioso anel, ornado por sete estrelas de ouro alternando com estrelas de

prata.

"Seu m arido percebeu tam bém a falta e lhe perguntou o que era feito do

anel; com o ela não pôde evidentem ente responder nada, achou que o perdera,

procurou-o em todos os cantos e não o encontrou. Fortem ente abalados pelos

últim os acontecim entos, decidiram abandonar a capital o m ais rapidam ente

possível e se puseram a cam inho assim que o m édico perm itiu a m inha am iga

se locom over...

"Mas im agine!... No próprio dia de sua partida, cruzaram , na rua, com dois enferm eiros levando sobre um a m aca um hom em que acabara de ter o crânio

fendido por um golpe de sabre... E a vítim a não era outro senão o estranho

visitante noturno... Fora m orto durante um a partida de cartas!

"Minha am iga se refugiou no cam po, tornou-se m ãe pela prim eira vez...

viveu alguns anos ainda com seu m arido. Ele nunca soube de nada. Aliás, que

poderia dizer-lhe? Ela m esm a ignorava tudo...

"Mas eles não saborearam nunca m ais a felicidade de antes: um peso

inexplicável, um a tristeza sem nom e assom brava sua existência... não tiveram

outros filhos... e esse filho..."

Minha m ãe estrem eceu, e escondeu o rosto entre as m ãos.

— Diga-m e com toda a franqueza — recom eçou ela com energia re-

dobrada —: m inha am iga era culpada? Ela podia se censurar algum a coisa?

Fora punida, m as não tinha o direito de clam ar diante do próprio Deus que o

castigo lhe era im erecido?... Por que sucede então que ela sej a devorada por rem orsos, com o crim inosa e que, depois de longos anos, seu passado ainda a

assuste?... Macbeth m atara Banquo — nada de espantoso que o espectro de

sua vítim a nunca tenha cessado de persegui-lo... enquanto eu...

A essa altura, suas palavras se tornaram tão confusas que nada pude

com preender... No m om ento, delirava; eu não tinha dúvida.

X

Deixo a vocês a tarefa de im aginar a im pressão que m e produziu a

confissão de m inha m ãe. Desde as prim eiras palavras, com preendera que ela

falava de si m esm a, e seus lapsos só aum entaram essa convicção... Fora pois

m eu pai que m e aparecera em sonho, depois na realidade! Não fora m orto,

com o acreditara m am ãe, m as som ente ferido... Viera vê-la e fugira, assustado

com seu terror!

De repente, entendi tudo: os acessos de repulsa passageira que eu inspirava

em m inha m ãe, sua tristeza, nosso isolam ento voluntário... A m inha cabeça

girava e eu fazia vãos esforços para ficar calm o. Um pensam ento sobretudo

m e obcecava: estava resolvido a reencontrar o hom em que era m eu pai! Por

quê? Com que obj etivo? Sentia-m e im potente para precisá-lo, m as sentia que

precisava revê-lo e que isso era para m im um a questão de vida ou de m orte!

Na m anhã seguinte, m inha m ãe parecia voltar a si: a febre baixara, e ela

conseguira dorm ir. Eu aproveitava para confiá-la à guarda dos em pregados e

de nossos vizinhos e m e pus em cam po.

XI

Para com eçar, fui ao restaurante onde encontrara o barão. Ninguém o conhecia ou prestara atenção nele: era só um cliente de passagem . O

proprietário havia notado bem o negro, pois sua silhueta estranha não podia

passar despercebida, m as era incapaz de m e inform ar a seu respeito e de m e

dizer onde residia. Deixando o local, ao acaso, m e pus a peram bular pelas

ruas e ao longo do cais, entrando em todos os cafés, m as em lugar nenhum

descobri quem apresentasse a m enor sem elhança com o barão ou com seu

com panheiro!... Ignorando o nom e de m eu verdadeiro pai, não tinha nem

m esm o o recurso de m e dirigir à polícia; contudo, avistei dois representantes

da força pública e lhes prom eti um a grande recom pensa se conseguissem

reencontrar a pista dos dois personagens que lhes descrevi da m elhor m aneira

possível (m inha conduta não deixava de despertar sua surpresa e m esm o sua

suspeita). Continuei m inhas investigações até à refeição do m eio-dia e voltei

para casa esgotado. Minha m ãe estava de pé; um a espécie de surpresa

sonhadora se m esclava com sua tristeza habitual e m e trespassava

dolorosam ente o coração. Passei a noite em sua com panhia e não falam os em

absoluto:

ela pôs as cartas e eu as olhei sem nada dizer. Nenhum a vez sequer aludiu a sua confissão, nem aos recentes acontecim entos. Alguém diria que fizéram os

um a com binação tácita de esquecê-los... Mam ãe parecia irritada por ter

erguido o véu... Talvez tam bém não se lem brasse m uito bem do que m e

revelara em seu delírio e contasse com m inha generosidade... De fato, eu a

poupava e ela percebia, ainda que continuasse evitando m e olhar.

Toda a noite, não pude fechar o olho.

Um a tem pestade súbita agitou o m ar. O vento fazia os vidros trem erem .

Lam entos e uivos desesperados reverberavam no ar, com o se algum a coisa

estourasse, bem lá em cim a, e roçasse, a gem er, os tetos das casas. De

m adrugada, consegui enfim pegar no sono... De repente, pareceu-m e que

alguém entrava no quarto e m e cham ava em voz baixa. Ergui a cabeça e não

vi ninguém . Coisa estranha, não fiquei em absoluto assustado: ao contrário,

experim entei um sentim ento de reconforto, com o se tivesse, agora, a certeza

de chegar a m eus fins! Vesti-m e rápido e saí.

XII

A tem pestade silenciara, m as seus últim os sobressaltos sacudiam ainda a

atm osfera. O dia m al nascera; eu não cruzava com ninguém na rua, m as

percebia destroços de cham inés, telhas, tábuas e galhos de árvore que enchiam

abundantem ente o solo... "Pobres navegadores!", disse a m im m esm o

pensando em todos que haviam passado a noite no m ar. Tom ei a direção do

porto, m as um a força irresistível m e fez desviar. Dez m inutos m ais tarde, m e

encontrava num bairro que nunca visitara antes. Avancei sem pressa, m as sem

m e deter tam bém , presa de um a estranha sensação: tinha o pressentim ento de

algo que era extraordinário, im possível, m as que sobreviria apesar de sua

inverossim ilhança.

XIII

E, subitam ente, tudo se realizou! A uns vinte passos diante de m im ,

percebi o negro que viera reencontrar o barão na m esa ao ar livre do

restaurante. Envolto em sua capa negra, pareceu surgir do chão, m e virou as

costas e se afastou através da estreita passagem ! Quis alcançá-lo, m as ele

apressou o passo e desapareceu na prim eira esquina. Corri o

m ais que pude, atingi a extrem idade da ruela e... ó prodígio! Diante de m im , um a via longa, estreita e deserta, a brum a da m anhã a cobre de um véu de

chum bo que m eus olhos conseguem no entanto penetrar... Eu a vej o toda, até

o fim , e posso contar as casas... Nenhum ser vivo, fora ou num a j anela... O

negro alto desaparecera tão súbito quanto chegara... Fico estupefato, pelo

espaço de um instante som ente, pois um a outra im pressão expulsa a prim eira:

reconheço essa ruela m uda e m orta! É a rua de m eu sonho! Trem o de frio,

pois o alvorecer está glacial, m as retom o a m archa para a frente, sem som bra

de apreensão.

Procuro em volta de m im ... Eis m inha casa, lá, à direita, avançando pela

calçada, com seu portão ornado de um lado e do outro de chifres de carneiro...

As lucarnas não são redondas, m as retangulares... pouco im porta... bato à

porta... um a vez... duas vezes... três vezes, cada vez m ais forte... Ela se abre lentam ente, com o um m axilar que bocej a, e range surdam ente nos gonzos.

Um a j ovem criada m e encara, de cabelos desgrenhados e olhos m al despertos.

Acaba de se levantar.

— É aqui que m ora o Barão? — pergunto-lhe.

Enquanto isso, exam ino o patiozinho... Nenhum a dúvida possível, é esse...

as m esm as tábuas e toras que vi em sonho.

— Não — m e responde ela —, o Barão não m ora aqui.

— Com o?... É im possível!

— Não está m ais aqui. Partiu ontem .

— Para onde?

— Para a Am érica.

— Para a Am érica! — repeti sem querer. — Disse se tinha a intenção de

voltar?

A criada m e lançou um olhar cheio de desconfiança.

— Ignoro... Pode ser que o sr. Barão não volte nunca m ais.

— Ele passou m uito tem po aqui?

— Não, pouco m ais de um a sem ana. Agora, não está m ais.

— Com o é o nom e do Barão?

A m oça m e fitou com ar surpreso.

— Não sabe seu nom e?... A gente o cham a de Senhor Barão, sim ples-

m ente... Ei. Pierrot, vem dar um a olhada aqui — gritou ela ao ver que eu fazia m enção de ultrapassar a soleira. — Aqui tem um rapaz m e fazendo um m onte

de perguntas!

A silhueta desaj eitada de um operário grandalhão avançou através do

patiozinho.

— O que há? O que está querendo? — perguntou-m e ele num a voz rouca.

Depois de m e escutar, aborrecido, repetiu palavra por palavra tudo que m e

dissera a criada.

— Mas quem m ora então aqui? — indaguei.

— Nosso patrão.

— Quem é?

— Um m arceneiro. Só há m arceneiros nesta rua.

— Poderia vê-lo?

— Não. Está dorm indo.

— Posso entrar na casa?

— Não.

— Será que poderia ver seu patrão um pouco m ais tarde?

— Por que não? É claro que poderá vê-lo, com o todo m undo... é um

com erciante. Vá, rapaz; seria m elhor você voltar depois.

— E o outro, o negro? — disse eu de repente.

O em pregado nos olhou com estupefação; para m im , prim eiro; depois para

a criada.

— Um negro? Que negro? — m urm urou enfim . — Vá, rapaz, vá. Volte

outra hora. Se precisa ver o patrão...

Afastei-m e. A porta fechou-se atrás de m im , bruscam ente, pesadam ente,

m as sem ranger, com o antes.

Marquei cuidadosam ente a disposição dos lugares, m as não quis ainda

voltar para casa.

Estava decepcionado: tinha m e acontecido algum a coisa de extraordinário,

de inconcebível; por que precisara term inar tão estupidam ente, sem m ais nem

m enos? Em vez de reencontrar a m ansarda que conhecia bem , e m eu pai, o

barão, com seu roupão e seu cachim bo, dera com um m arceneiro, um hom em

com o os outros, que todo m undo podia ver, a quem eu podia até encom endar

m óveis, se m e desse na telha...

E m eu pai retornara para a Am érica! Que faria, agora? Contar tudo a

m inha m ãe ou m e calar e apagar em m im a m enor lem brança desse encontro? Decididam ente, não queria adm itir que acontecim entos tão sobrenaturais

pudessem ter um fim banal, sem graça! Eu seguia direto em frente, longe da

cidade.

XIV

Cam inhava de cabeça baixa, vazio de idéias e de sensações, curvado sobre

m im m esm o.

Um ruído surdo, igual e irritado m e tirou de m eu devaneio. Ergui a cabeça

e descobri o m ar que bram ia a uns cinqüenta passos de m im . Meus pés

escavavam a areia das dunas. Agitadas pelos últim os sobressaltos da

tem pestade noturna, as ondas se encapelavam até o horizonte e vinham m orrer

lentam ente no litoral raso. Prossegui depressa e ladeei a faixa que a m aré

traçara sobre a areia am arela, pontilhada de restos de algas, de m oluscos e de espadanas, cuj as bizarras sinuosidades desenhavam arabescos caprichosos.

Gaivotas de asas pontiagudas surgiam do abism o das ondas, voej avam , com o

grandes flocos de neve, no céu cinzento e nublado, voltavam para baixo

bruscam ente, pareciam saltar de crista em crista e se perdiam de novo,

sem elhantes a centelhas prateadas, no m eio das listras de espum a branca.

Logo percebi algum as que ficavam dando voltas obstinadam ente em torno de

um a pedra graúda, j ogada lá com o para m obiliar a m onotonia da praia.

Espadanas selvagens saíam em punhados irregulares de um lado do rochedo e,

um pouco m ais longe, lá onde a vegetação desgrenhada sustentava a areia das

dunas, um a m assa som bria, oblonga, arredondada, de pequenas dim ensões, se

recortava em negro sobre o fundo claro... Olhei m ais atentam ente... Sem dúvida, havia um a form a im óvel, estendida bem perto da rocha... Seus

contornos se tornavam m ais nítidos à m edida que m e aproxim ava...

Não estava a m ais de trinta passos, som ente...

Um corpo hum ano; provavelm ente o de um afogado, arrem essado à praia.

Atravessei rapidam ente a distância que ainda m e separava dele.

O barão!... Meu pai... Parei, petrificado, com preendendo de súbito que

desde o despertar fora guiado por um a força m isteriosa... E, durante alguns

instantes, não houve nada em m inha alm a além do m urm úrio regular do m ar e

um terror m udo diante do destino que se apoderara de m im ...

XV

Estava deitado de costas, levem ente de lado, com o braço esquerdo atirado

para trás da cabeça e o direito dobrado sob o corpo. O lim o

pegaj oso abraçava suas pernas, calçadas com botas de m arinheiro; sua j aqueta curta, de cor azul, esbranquiçada pelo sal, não estava nem um pouco

desabotoada; um foulard verm elho apertava estreitam ente seu pescoço. Seu rosto bronzeado, voltado para o céu, parecia escarnecer de leve, e o lábio

superior, deform ado pelo rictus da m orte, deixava à m ostra dentes m iúdos e regulares; as pupilas, apagadas e m olhadas, m al se destacavam do branco dos

olhos sem i-cerrados; os cabelos, m anchados de espum a, estavam espalhados

na areia, pondo a nu sua am pla testa riscada por um traço violáceo; o nariz,

delgado e pontiagudo, dividia com o um a m arca de alabastro o ocre das faces

côncavas.

A tem pestade fizera seu trabalho. O hom em nunca m ais veria a costa da

Am érica. Aquele que atacara m inha m ãe e destruíra toda sua existência, m eu pai — sim , m eu pai! —, não tinha m ais dúvida — j azia a m eus pés, no lim o.

Eu experim entava, ao m esm o tem po, um a intensa satisfação, piedade, repulsa

e horror... um a espécie de horror duplo diante do que via e do que acontecera.

Im pulsos m aldosos, crim inais, com o os que j á assinalei a vocês, tom avam

posse de m eu ser e m e sufocavam ... "Eis aí", m e dizia eu, "eis a quem os devo!"

Sem fazer um m ovim ento, observava o cadáver, à espreita de um brilho

nas pupilas vitrificadas, um trem or nos lábios azulados... Nada. Tudo estava

im óvel. As próprias espadanas pareciam petrificadas e as gaivotas fugiam do

lugar em que a m aré j ogara o corpo. Nenhum destroço de naufrágio. O espaço

ilim itado, o vazio, o deserto. Som ente ele, e eu, e o m ar bram indo ao longe...

Olhei para o outro lado, atrás de m im — a m esm a desolação, nenhum sinal

de vida, colinas estúpidas e inertes. Não queria abandonar o corpo nesse lim o, servindo de pasto a vorazes peixes e pássaros; um a voz interior m e ordenou

que fosse buscar hom ens — com o se pudesse encontrá-los nesse deserto! —,

transportar o m orto para um abrigo... De repente, um terror inom inável tom ou

conta de m im . Pareceu-m e que este cadáver sabia que eu viria, que ele m esm o

havia organizado este últim o encontro, acreditei ouvir um resm ungo surdo e

fam iliar... Afastei-m e alguns passos... lancei um últim o olhar a m eu pai...

Algum a coisa brilhava num dedo de sua m ão esquerda... A aliança de m inha

m ãe. Ainda m e lem bro quanto m e custou voltar sobre m eus passos, sofrer o

contato gelado dos dedos im óveis. arrancar o anel, fechando os olhos e

cerrando os dentes...

Enfim , eu o tenho. Atiro-m e para a frente, im petuosam ente, e algo m e

persegue e m e agarra...

XVI

Todas essas em oções deviam estar estam padas em m eu rosto quando voltei

para casa, pois m inha m ãe se levantou para ir a m eu encontro e m e encarou

com tanta insistência que, depois de ter em vão tentado balbuciar algum as

palavras confusas, só consegui estender-lhe a aliança sem outra explicação.

Ela em palideceu terrivelm ente e seus olhos se arregalaram im óveis e

assustadores, com o os do outro. Depois soltou baixinho um grito, pegou o

anel, titubeou, caiu sobre m eu peito e se retesou, com a cabeça j ogada para

trás, m e olhando com seus olhos de dem ente.

Enlacei-a afetuosam ente e lhe contei tudo, em voz baixa, sem m e apressar:

m eu sonho, m eu encontro... e todo o resto... Ela m e escutou sem m e

interrom per: só o seu peito m e pareceu se erguer com m ais força, enquanto

seus olhos readquiriam vida.

Quando parei, ela colocou a aliança em seu anular e fez questão de

procurar seu chapéu e sua m antilha. Com o lhe perguntei aonde tinha intenção

de ir, ela m e encarou com surpresa, tentou responder, m as em vão, estrem eceu

várias vezes, esfregou as m ãos, com o para se reaquecer, e proferiu enfim , com

esforço:

— Vam os... lá!

— Aonde, m ãe?

— À praia... Quero vê-lo... Devo vê-lo... Tenho de identificá-lo... Procurei

dissuadi-la, m as ela foi tom ada por um a verdadeira crise de nervos e tive que

m e subm eter.

XVII

Eis-m e de novo sobre a duna, m as não estou m ais sozinho. O braço de

m inha m ãe se apóia sobre o m eu. A m aré bateu em retirada e vai silenciar,

m as seu bram ido surdo continua terrível e m aléfico. Eis o rochedo e as

espadanas. Procuro com os olhos a m assa oblonga e não vej o nada. Nós nos

aproxim am os e eu dim inuo, sem querer, m eus passos... Onde está o hom em

m orto?... Só as hastes das espadanas sobressaem na areia am arela, j á seca.

O rochedo... Nada de cadáver... Mas a praia guardou a m arca do corpo, dos

braços, das pernas... Ao redor, as espadanas foram pisadas e se distinguem

traços de passos que atravessam a duna e se perdem de repente nas rochas de

sílex.

Trocam os um olhar e cada um ficou assustado com o que leu no rosto do outro...

Será que conseguiu se levantar e ir em bora?

— No entanto, ele estava bem m orto, não é, quando você o viu? —

perguntou-m e m inha m ãe, em voz baixa.

Só consegui balançar a cabeça afirm ativam ente. Não haviam se passado

três horas desde que descobrira o corpo do barão... Alguém o levara? Nesse

caso, era absolutam ente necessário reencontrá-lo, saber o que acontecera.

Mas, prim eiro, tinha que cuidar de m am ãe.

XVIII

Enquanto andávam os, a febre voltou, m as ela foi capaz de se dom inar. O

desaparecim ento do corpo a abalou definitivam ente, e receei que perdesse a

razão.

A m uito custo, reconduzi-a para casa, fiz com que se deitasse e cham ei o

m édico com urgência. Logo que voltou a si, m inha m ãe exigiu que m e

pusesse im ediatam ente à procura "daquele hom em ". Forcei-m e a isso, m as não obtive nenhum resultado apesar de todos os m eus esforços. Estive várias

vezes na delegacia, em preendi investigações em todas as cidades vizinhas,

coloquei anúncios nos j ornais, m as em vão.

Soube, no fim das contas, que o corpo de um afogado, arrem essado à

praia, fora transportado a um lugarej o das redondezas. Precipitei-m e até lá,

m as cheguei tarde dem ais: j á o haviam enterrado e, aliás, a descrição do m orto não correspondia à de m eu pai.

Outras inform ações m e fizeram saber que o navio a bordo do qual o barão

teria em barcado chegaria ao destino, ainda que o tivessem considerado

perdido por bastante tem po. Não sabendo m ais o que fazer, recorri ao negro e

lhe ofereci um a grande som a, por m eio dos j ornais, para que se desse a

conhecer.

Um dia em que estava ausente, um negro alto, envolto num a capa preta, se

apresentou em nossa casa, m as se afastou depois de fazer algum as perguntas à

criada e nunca m ais reapareceu.

Perdi qualquer vestígio de... m eu pai, irrem ediavelm ente desaparecido na

noite e no silêncio.

Não falam os m ais sobre ele com m am ãe. Um a só vez m am ãe m e per-

guntou por que não lhe contara m eu sonho m ais cedo e acrescentou quase

im ediatam ente:

— Então, ele é realm ente... — Sem chegar ao fim de seu pensam ento.

Mam ãe ficou m uito tem po doente. Depois de curada, nossas relações não

voltaram a ser as m esm as do passado. Ela ficava constrangida em m inha

presença — constrangida é bem a palavra — e esse sentim ento não a

abandonou m ais até o últim o suspiro. E eu não podia aj udá-la.

É certo que o tem po apaga tudo, e as lem branças m ais trágicas acabam

perdendo a força; m as se um a sensação de constrangim ento se estabelece

entre dois íntim os, nada m ais pode dissipá-la!

Não m ais revi o sonho que m e assustava tanto e não "procuro" m ais m eu pai. Contudo, ainda m e acontece de ouvir, quando durm o, gem idos distantes,

lam entos lancinantes, que repercutem atrás de um m uro que não consigo

escalar, e m e dilaceram o coração. Choro, de olhos fechados, e não

com preendo se é um hom em que soluça ou o m ar que uiva para a m orte,

irritado... De repente, o som se torna um resm ungo rabugento — e eu acordo,

com o terror na alm a.

Tradução de Augusto Alencastro

I.A. Ireland

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Erudito inglês do século XIX (1871-?), publicou A Brief History of

Nightm ares (1899), entre outros livros. O conto mínimo, ou miniconto,

escolhido é do livro Visitations (1919). Pequeno, mas suficientemente wit e metaliterário, a ponto de encantar Borges, que o incluiu na antologia

fantástica que organizou com Bioy Casares e Silvina Ocampo. Leia e releia e veja se o mestre não tem razão.

Final para um conto fantástico

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— QUE ESTRANHO! — disse a garota, avançando com cautela. — Que

porta m ais pesada, m eu Deus! — E, ao falar, tocou-a e a porta acabou

fechando-se de um golpe.

— Deus do céu! — disse o hom em . — Não é que não tem m açaneta do

lado de dentro? Agora estam os os dois trancados!

— Os dois, não — disse a garota. — Só você.

E passou através da porta e desapareceu.

Tradução de Flávio Moreira da Costa

Edgar Allan Poe

Há mais de um século, sua obra tem sido traduzida e retraduzida em praticamente todos os idiomas. Não é gratuito: Edgar Allan Poe (1809-1849) foi o

criador da literatura policial, com apenas três contos (vide Os 100 m elhores contos de crim e e m istério da literatura universal ), um marco da literatura de horror (vide Os m elhores contos de m edo, horror e m orte ) e um renovador da literatura fantástica. Acrescente-se a isso a qualidade de sua ficção, que influenciou escritores do quilate de Baudelaire e Chesterton. Conan Doyle e Paul Valéry. Horacio Quiroga e Borges. "William Wilson", aliás, tratando do problema do duplo, antecipa "Borges e eu" e outros textos do autor de O

aleph . Leia com cuidado, leitor — quem sabe duas vezes.

William Wilson

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"Que dirá ela? Que dirá a horrenda consciência.

Aquele espectro no m eu cam inho?"

cham berlain, pharronida

PERMITI QUE. POR ENQUANTO, m e cham e William Wilson. A página im aculada

que agora se estende diante de m im não precisa ser m anchada com m eu nom e verdadeiro. Esse nom e j á foi por dem ais obj eto de desprezo, de horror, de

abom inação para m inha fam ília. Não terão os ventos indignados divulgado a

sua incom parável infâm ia até as m ais longínquas regiões do globo? Oh, o

m ais abandonado de todos os proscritos! Não terás m orrido para o m undo

eternam ente? Para suas honras, para suas flores, para suas douradas

aspirações? E não está para sem pre suspensa, entre tuas esperanças e o céu,

um a nuvem espessa, som bria e sem lim ites?

Não quereria, m esm o que o pudesse, aqui ou hoj e, reunir as lem branças de

m eus últim os anos de indizível m iséria e de im perdoável crim e. Essa época —

esses últim os anos — atingiu súbita elevação de torpeza, cuj a origem , apenas,

é m inha intenção atual expor. Os hom ens geralm ente tornam -se vis pouco a

pouco. Mas de m im , num só instante, a virtude se desprendeu, realm ente,

com o um a capa. Dum a perversidade relativam ente trivial, passei, a passadas

de gigante, a enorm idades m aiores que as de Heliogábalo. Que acaso, que

único acontecim ento trouxe essa m aldição é o que vos peço perm issão para

narrar. A m orte se

aproxim a e a som bra que a antecede lançou sobre m eu espírito sua influência suavizante. Anseio, ao atravessar o som brio vale, pela solidariedade — ia

quase dizer, pela com paixão — de m eus sem elhantes. De bom grado, fá-los-ia

acreditar que tenho sido, de algum m odo, escravo de circunstâncias superiores

Continuar: parte 13 de 28