Os Melhores Contos Fantásticos
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 28 partes.
m ulher e a seu filho com o arqueólogo ilustre, que devia tirar o Roussillon do
esquecim ento em que o deixava a indiferença dos sábios.
Sem deixar de com er com apetite, pois nada dá m ais disposição que o ar
vivo das m ontanhas, exam inava m eus anfitriões. Disse algo sobre o sr. de
Pey rehorade; devo acrescentar que era a própria vivacidade. Ele falava, com ia, se levantava, corria até a biblioteca, m e trazia livros, m e m ostrava
estam pas, m e servia de bebida; nunca ficava dois m inutos em repouso. Sua
m ulher, um pouco gorda dem ais, com o a m aior parte das catalãs logo que
passam dos quarenta anos, m e pareceu um a provinciana
reforçada, unicam ente ocupada com as questões dom ésticas. Em bora o j antar fosse suficiente para seis pessoas no m ínim o, ela correu à cozinha, m andou
m atar pom bos, fritar um a quantidade enorm e, abriu não sei quantos potes de
doce. Num instante a m esa ficou atulhada de pratos e garrafas, e eu teria
m orrido certam ente de indigestão se sim plesm ente provasse tudo que m e
ofereciam . Enquanto isso, a cada prato que recusava, havia novas desculpas.
Receavam que eu sofresse um desm aio em Ille. Na província tem os tão
poucos recursos, e os parisienses são tão difíceis!
Em m eio às idas e vindas de seus pais, o sr. Alphonse de Pey rehorade não
se m ovia m ais que Term inus. Era um rapaz alto de 26 anos, de fisionom ia
bonita e regular, m as inexpressiva. Seu tam anho e suas form as atléticas
j ustificavam bem a reputação de infatigável j ogador de péla que lhe atribuíam
na terra. Estava, nessa noite, vestido com elegância, exatam ente de acordo
com a gravura do últim o núm ero do Jornal das Modas. Mas m e pareceu
apertado em suas roupas; estava retesado com o um a estaca em seu colarinho
de veludo, e só se virava por inteiro. Suas m ãos grossas e queim adas, suas
unhas curtas contrastavam peculiarm ente com a vestim enta. Eram m ãos de
trabalhador saindo das m angas de um dândi. Aliás, em bora m e exam inasse da
cabeça aos pés com extrem a curiosidade, em m inha qualidade de parisiense,
só m e dirigiu um a vez a palavra durante toda a noite, para m e perguntar onde
com prara a corrente de m eu relógio.
— Ah, m eu caro hóspede — disse o sr. de Pey rehorade, quando o j antar ia
chegando ao fim —, o senhor m e pertence, está na m inha casa. Não o largo
m ais, a não ser quando tiver visto tudo que tem os de curioso em nossas
m ontanhas. Precisa aprender a conhecer nosso Roussillon, e fazer-lhe j ustiça.
Não duvide de tudo que vam os lhe m ostrar. Monum entos fenícios, celtas,
rom anos, árabes, bizantinos, verá tudo, desde o cedro até o hissopo. Eu o
conduzirei a todos os lugares e não lhe pouparei um tij olo.
Um acesso de tosse obrigou-o a parar. Aproveitei para dizer-lhe que
lam entaria incom odá-lo num a circunstância tão im portante para sua fam ília.
Se quisesse m e dar seus excelentes conselhos sobre as excursões que eu faria,
eu poderia, sem que ele precisasse m e acom panhar...
— Ah, quer falar do casam ento desse rapaz aí — exclam ou, m e
interrom pendo. — Nada de m ais, acontecerá depois de am anhã. O senhor vai
participar da celebração conosco, em fam ília, pois a futura esposa está de luto por um a tia da qual é herdeira. Assim , nada de festa, nada de baile... É pena...
O senhor veria dançarem nossas catalãs... Elas são
bonitas e talvez sentisse vontade de im itar m eu Alphonse. Um casam ento, com o se diz, conduz a outros... Sábado, com os j ovens casados, fico livre, e
nós com eçam os a nos m ovim entar. Peço desculpas pelo aborrecim ento de um
casam ento de província. Para um parisiense cansado de festas... e um
casam ento sem baile, ainda por cim a! Entretanto, vai ver um a noiva... um a
noiva... que vai dar o que falar... Mas o senhor é um hom em circunspecto e
não olha m ais para as m ulheres. Tenho m ais do que isso a lhe m ostrar. Farei
com que vej a m uita coisa!... Reservo-lhe um a surpresa e tanto para am anhã.
— Meu Deus! — disse-lhe eu —, é difícil ter um tesouro em casa sem que
o público se inform e. Acho que posso adivinhar a surpresa que m e prepara.
Mas se se trata de sua estátua, a descrição que m eu guia fez só serviu para
estim ular m inha curiosidade e m e predispor à adm iração.
— Ah, ele falou do ídolo, pois é assim que cham am m inha bela Vênus
Tur... m as não quero dizer-lhe nada. Am anhã, em pleno dia, irá vê-la, e m e
dirá se tenho razão de achá-la um a obra-prim a. Deus m eu! O senhor não
poderia ter chegado em hora m elhor! Ela tem inscrições que eu, pobre
ignorante, explico a m inha m aneira... m as um sábio de Paris! Vai achar graça
talvez de m inha interpretação... pois escrevi um a m onografia... eu, aqui
presente... velho antiquário de província, m e lancei... Vou fazer a im prensa
gem er... Se quisesse ler e corrigir, eu poderia esperar... Por exem plo, estou
bem curioso de saber com o o senhor traduziria esta inscrição sobre o soco:
CAVE... Mas não quero lhe perguntar nada agora! Am anhã, am anhã! Nem
um a palavra sobre a Vênus hoj e.
— Tem razão. Pey rehorade — disse sua m ulher —, de parar por aí com o
seu ídolo. Você devia ver que im pede o senhor de com er. Ora, ele viu em
Paris estátuas bem m ais bonitas que a sua. Nas Tulherias há dúzias delas,
além do m ais de bronze.
— Eis aí a ignorância, a santa ignorância da província! — interrom peu o
sr. de Pey rehorade. — Com parar um a adm irável antiguidade às figuras
inexpressivas de Coustou!
Com que tam anha irreverência
fala dos deuses m inha esposa!
— Sabe que m inha m ulher queria que eu fundisse m inha estátua para dela
fazer um sino e doar à nossa igrej a? É que ela teria sido a m adrinha. Um a
obra-prim a de My ron, senhor!
— Obra-prim a! Obra-prim a! Bela obra-prim a ele fez! Quebrar a perna de um hom em !
— Minha m ulher, você está vendo? — disse o sr. de Pey rehorade num tom
resoluto, e estendendo a ela sua perna direita dentro de um a m eia de seda
m ulticolorida. — Se m inha Vênus tivesse quebrado esta perna aqui, eu não
lam entaria.
— Deus m eu! Pey rehorade, com o pode dizer isso?! Felizm ente o hom em
m elhorou... E ainda não consigo encarar a estátua que traz infelicidades com o
essa. Pobre Jean Coll!
— Ferido por Vênus, senhor! — disse o sr. de Pey rehorade rindo às
gargalhadas —, ferido por Vênus, o patife se queixa. Veneris nec praemia
noris ("Os atrativos de Vênus não conhecerás"). Quem não foi ferido por Vênus?
O sr. Alphonse, que com preendia o francês m elhor que o latim , piscou os
olhos com ar inteligente, e m e olhou com o para m e perguntar: "E o senhor, parisiense, está com preendendo?"
O j antar term inou. Fazia um a hora que eu parara de com er. Estava
cansado, e não conseguia esconder os freqüentes bocej os que m e escapavam .
A sra. de Pey rehorade foi a prim eira a perceber, e observou que estava na
hora de ir dorm ir. Então com eçaram de novo desculpas sobre o m au aposento que iria ver. Eu não m e sentiria com o em Paris. Na província se vive tão m al!
Seria preciso indulgência para com os habitantes de Roussillon. Em vão
protestei que, depois de um traj eto pelas m ontanhas, um m onte de palha seria
para m im um colchão delicioso, continuavam a m e pedir que perdoasse
pobres cam poneses se não m e tratavam tão bem quanto desej ariam . Subi
enfim ao quarto que m e era destinado, acom panhado do sr. de Pey rehorade. A
escada, cuj os degraus superiores eram de m adeira, term inava no m eio de um
corredor que dava para vários quartos.
— À direita — disse-m e m eu anfitrião — é o apartam ento que destino à
futura senhora Alphonse. O quarto do senhor fica no fim do corredor oposto.
O senhor percebe — acrescentou, com ar de quem pretende estar sendo
sofisticado —, o senhor percebe que é necessário isolar recém -casados. O
senhor está num a extrem idade da casa, eles em outra.
Entram os num quarto bem m obiliado, onde o prim eiro obj eto sobre o qual
pus a vista foi um a cam a com o com prim ento de dois m etros e vinte, largura
de um m etro e noventa, e tão alta que requeria um banco para alguém se
guindar até ela. Meu anfitrião, após m ostrar a posição da
sineta e se assegurar pessoalm ente de que o açucareiro estava cheio, os frascos de água-de-colônia adequadam ente localizados no banheiro, depois de
ter-m e perguntado várias vezes se nada faltava, m e desej ou boa-noite e m e
deixou sozinho.
As j anelas estavam fechadas. Antes de m e despir, abri um a para respirar o
ar fresco da noite, delicioso após um longo j antar. Em frente estava o
Canigou, com aspecto adm irável o tem po todo, m as que m e pareceu essa
noite a m ais bela m ontanha do m undo, clareado com o estava por um a lua
resplandecente. Dem orei alguns m inutos a contem plar sua silhueta
m aravilhosa, e ia fechar a j anela, quando, baixando os olhos, percebi a estátua sobre um pedestal a um as vinte j ardas da casa. Estava localizada no ângulo de
um a sebe viva que separava um j ardinzinho de um a vasta quadra
perfeitam ente uniform e, que, vim a saber m ais tarde, era o j ogo de péla da
cidade. Esse terreno, propriedade do sr. de Pey rehorade, fora cedido por ele à com una, diante de insistentes solicitações de seu filho.
Da distância onde estava, era difícil distinguir a pose da estátua; só
conseguia avaliar sua altura, que m e pareceu de quase dois m etros. Nesse
m om ento, dois m oleques da cidade passavam sobre o j ogo de péla, bem perto
da cerca, assobiando a bonita ária do Roussillon: Montagnes régalades.
Pararam para olhar a estátua; um deles chegou a interpelá-la em voz alta.
Falava em catalão; m as eu estava no Roussillon tem po suficiente para
com preender m ais ou m enos o que dizia.
— Aí, vagabunda! (O term o catalão era m ais enérgico.) Aí — dizia ele —,
então foi você que quebrou a perna de Jean Coll! Se você fosse m inha, lhe
quebraria o pescoço.
— Bah! Com quê? — disse o outro. — Ela é de cobre, e tão dura que
Etienne quebrou a lim a nela, tentando riscá-la. É cobre do tem po dos pagãos,
m ais duro que não sei o quê.
— Se eu estivesse com m eu form ão a frio (parece que era um aprendiz de
serralheiro), eu faria logo saltarem seus olhões brancos, com o tiraria um a
am êndoa da casca. Aí tem m ais de cem tostões de prata.
Deram alguns passos, se distanciando.
— Preciso desej ar boa-noite ao ídolo — disse o aprendiz m ais alto,
parando de repente.
Baixou-se e provavelm ente pegou um a pedra. Eu o vi estender o braço,
lançar algum a coisa, e logo depois um a sonora batida retiniu no bronze. No
m esm o instante o aprendiz levou a m ão à cabeça, soltando um grito de dor.
— Ela j ogou a pedra de volta! — exclam ou ele..
E os dois m oleques fugiram em disparada. Era evidente que a pedra
ricocheteara sobre o m etal, punindo o engraçadinho pelo ultraj e à deusa.
Fechei a j anela rindo com vontade.
— Mais um vândalo punido por Vênus. Quem dera todos os destruidores
de nossos velhos m onum entos quebrassem desse m odo a cabeça. Com esse
desej o caridoso, adorm eci.
Era dia claro quando acordei. Perto de m inha cam a estavam , de um lado, o
sr. de Pey rehorade, num roupão; do outro, um em pregado enviado pela
m ulher com um a xícara de chocolate na m ão.
— Vam os, de pé, parisiense! Olha lá m eus preguiçosos da capital! —dizia
m eu anfitrião enquanto eu m e vestia às pressas. — São oito horas, e ainda na
cam a! Eu estou de pé desde as seis horas. Já são três vezes que subo, m e
aproxim o da sua porta na ponta do pé: ninguém , nenhum sinal de vida. Vai
fazer-lhe m al dorm ir dem ais na sua idade. E m inha Vênus, que ainda não viu.
Vam os, tom e depressa essa xícara de chocolate de Barcelona... Verdadeiro
contrabando. Chocolate com o não há em Paris. Revigore-se, pois, assim que ficar defronte da m inha Vênus, não será possível afastá-lo dela.
Em cinco m inutos fiquei pronto, quer dizer, barbeado pela m etade, m al
abotoado, e queim ado pelo chocolate que engoli fervendo. Desci ao j ardim e
m e encontrei diante de um a estátua adm irável.
Era um a Vênus, de m aravilhosa beleza. Tinha o topo do corpo nu, com o os
antigos representavam com um ente as grandes divindades; a m ão direita,
erguida à altura do seio, estava virada, com a palm a para dentro, o pulso e os dois prim eiros dedos estendidos, os dois outros ligeiram ente dobrados. A
outra m ão, perto da coxa, segurava a roupagem que cobria a parte inferior do
corpo. A atitude dessa estátua lem brava a do Jogador de Mourre, que é
designado, não sei bem por quê, com o nom e de Germ anicus. Pode ser que a
intenção fosse representar a deusa no j ogo de mourre.
Sej a o que for, é im possível ver algum a coisa m ais perfeita que o corpo
dessa Vênus; nada m ais suave, m ais voluptuoso que seus contornos; nada
m ais elegante e m ais nobre que sua roupagem . Eu esperava algum a obra do
Baixo-Im pério; via um a obra-prim a da m elhor época da estatuária. O que m e
im pressionou, sobretudo, foi a suprem a verdade das form as, de m odo a
parecerem im itar a natureza, se a natureza produzisse m odelos tão perfeitos.
A cabeleira, erguida sobre a fronte, parecia ter sido dourada anteriorm ente.
A cabeça, pequena com o a de quase todas as estátuas gregas, era levem ente
inclinada para a frente. Quanto ao rosto, eu nunca conseguiria exprim ir seu
aspecto estranho cuj o tipo não se aproxim ava do de nenhum a estátua antiga
de que m e lem bre. Não era em absoluto essa beleza calm a e severa dos
escultores gregos que, por sistem a, davam a todos os traços um a m aj estosa
im obilidade. Aqui, ao contrário, eu observava com surpresa a intenção
acentuada do artista em fazer a m alícia chegar até a m aldade. Todos os traços
eram levem ente contraídos; os olhos um pouco oblíquos, a boca erguida nos
cantos, as narinas um pouco in fiadas. Desdém , ironia, crueldade se liam
nesse rosto de um a incrível beleza, m esm o assim . Na verdade, quanto m ais se
olhava essa adm irável estátua, m ais se experim entava o sentim ento penoso de
que tão m aravilhosa beleza pudesse se aliar à ausência de qualquer
sensibilidade.
— Se o m odelo chegou a existir — disse eu ao sr. de Pey rehorade —, e
duvido que o céu tenha produzido um a tal m ulher, com o lam ento por seus
am antes! Deve ter sentido prazer em fazê-los m orrer de desespero. Há na sua
expressão algo de feroz e, no entanto, nunca vi nada tão belo.
— É Vênus toda inteira a sua presa agarrada! — exclam ou o sr. de
Pey rehorade, satisfeito com m eu entusiasm o.
Essa expressão de ironia infernal era acentuada talvez pelo contraste de
seus olhos incrustados de prata e m uito brilhantes com a patina de um verde
enegrecido que o tem po dera a toda a estátua. Os olhos brilhantes produziam
um a certa ilusão que lem brava a realidade, a vida. Lem brei o que dissera o
guia, que ela fazia baixar os olhos aos que a olhavam . Era quase verdade, e
não pude evitar um m ovim ento de raiva contra m im m esm o ao m e sentir um
pouco desconfortável diante daquela figura de bronze.
— Agora que adm irou tudo em detalhe, m eu caro colega antiquário —
disse m eu anfitrião —, vam os dar início, por favor, a um a reunião científica . Que diz dessa inscrição, que não notou ainda?
Mostrou-m e o pedestal da estátua, onde li estas palavras:
Cave am antem
— Quid dicis, doctissime? — perguntou ele esfregando as m ãos. — Vej am os se nós chegarem os a um acordo quanto ao sentido desse cave amantem !
— Mas — respondi — tem dois sentidos. Pode-se traduzir por: "Cuidado com quem te am a, desconfia dos am antes." Mas, nesse sentido, não sei se cave amantem seria bom latim . Ao ver a expressão diabólica da m ulher, fico m ais propenso a acreditar que o artista quis pôr o espectador em guarda contra essa terrível beldade. Eu traduziria, portanto: "Cuidado se ela te am a."
— Hm m ! — disse o sr. de Pey rehorade. — Sim , é um sentido adm issível:
m as, não se aborreça, prefiro a prim eira tradução, que vou aperfeiçoar, no
entanto. Conhece o am ante de Vênus?
— Existem vários.
— Sim ; m as o prim eiro foi Vulcano. Não quiseram dizer: "Apesar de toda
a sua beleza, seu ar desdenhoso, você terá um ferreiro, um desprezível m anco
com o am ante?" Lição profunda, senhor, para as m ulheres sedutoras!
Não consegui im pedir um sorriso, de tanto que a explicação m e pareceu
forçada.
— É um a língua terrível o latim , com sua concisão — observei, para evitar
contradizer form alm ente m eu antiquário, e recuei alguns passos a fim de
m elhor contem plar a estátua.
— Um instante, colega! — disse o sr. de Pey rehorade m e detendo pelo
braço. — O senhor não viu tudo. Existe m ais outra inscrição. Suba no
pedestal e olhe o braço direito. Assim falando, m e aj udava a subir.
Pendurei-m e sem m uita cerim ônia no pescoço da Vênus, com a qual
com eçava a m e fam iliarizar. Cheguei a olhar um instante sob o nariz dela, e a
achei de perto ainda m ais m aléfica e ainda m ais bela. Depois distingui,
gravados sobre o braço, alguns caracteres de escrita cursiva antiga, ao que
parecia. Com a aj uda de lunetas, soletrei o que se segue, enquanto o sr. de
Pey rehorade repetia cada palavra à m edida que eu a pronunciava, aprovando
com o gesto e a voz. Li, então:
veneri tvrbvl...
evty ches m y ro
im perio fecit.
Depois da palavra TVRBVL da prim eira linha, m e pareceu que havia algum as
letras apagadas; m as TVRBVL era perfeitam ente legível.
— O que quer dizer?... — perguntou m eu anfitrião radiante e sorrindo com
m alícia, pois achava que eu não m e sairia facilm ente desse TVRBVL.
— Há um a palavra que ainda não entendo — disse-lhe eu —, todo o resto é fácil. Euty ches My ron fez essa oferenda a Vênus por sua ordem . — À
perfeição. Mas TVRBVL, com o fica? O que é TVRBVL?
— TVRBVL m e confunde bastante. Procuro em vão algum epíteto
conhecido de Vênus que possa m e aj udar. Vej am os, que diria de
TVRBVLENTA? Vênus que perturba, que agita... O senhor percebe que
continuo preocupado com sua expressão m aléfica. TVRBVLENTA é um epíteto
nada m au para Vênus — acrescentei num tom m odesto, pois eu m esm o não
estava m uito satisfeito com m inha explicação.
— Vênus turbulenta! Vênus escandalosa! Ah, então acha que m inha
Vênus é um a Vênus de cabaré? De j eito nenhum ; é um a Vênus bem
relacionada. Mas vou explicar-lhe esse TVRBVL... Ao m enos m e prom eta nada
divulgar sobre m inha descoberta antes da im pressão de m inha m onografia. É
que, vej a, terei prestígio, com esse achado... Vocês têm que deixar algum as
espigas a respigar, para nós, pobres-diabos provincianos. Vocês são tão ricos, senhores sábios de Paris!
Do alto do pedestal, onde eu continuava em poleirado, prom eti-lhe so-
lenem ente que nunca teria a indignidade de roubar sua descoberta.
— TVRBVL... — disse ele, se aproxim ando e abaixando a voz com m edo
que um outro que não eu pudesse ouvi-lo. — Leia TVRBVLNERAE.
— Não estou com preendendo m ais que antes.
— Escute bem . A um a légua daqui, ao pé da m ontanha, há um lugarej o
que se cham a Boulternère. É um a corruptela da palavra latina TVRBVLNERA.
Nada m ais com um que essas inversões. Boulternère foi um a cidade rom ana.
Sem pre desconfiei, m as nunca tivera a prova antes. A prova, ei-la. Essa Vênus
era a divindade tópica da cidade de Boulternère, e essa palavra Boulternère,
que acabo de dem onstrar ser de origem antiga, prova um a coisa bem m ais
curiosa, ë que Boulternère, antes de ser um a cidade rom ana, foi um a cidade
fenícia!
Parou um m om ento para respirar e desfrutar m inha surpresa. Consegui
reprim ir um a forte vontade de rir.
— De fato — prosseguiu —. TVRBVLNERA é puro fenício. TVR, pronuncie
TUR... TUT e SUR, m esm a palavra, não é? SUR é o nom e fenício de TIRO; não preciso lem brar-lhe o sentido. BVL é Baal, Bâl, Bel, Bul, ligeiras diferenças de pronúncia. Quanto a NERA, m e traz um pouco de dificuldade. Fico tentado a
crer, à falta de encontrar um a palavra fenícia, que isso vem do grego "úm ido",
"pantanoso". Seria então um a palavra híbrida. Para j ustificar a palavra grega, vou m ostrar-lhe em Boulternère com o os riachos
da m ontanha lá form am pântanos infectos. Por outro lado, a term inação NERA poderia ter sido acrescentada m uito m ais tarde em honra de Nera
Pivesuvia, m ulher de Tetricus, a qual teria feito algo de bom à cidade de
Turbul. Mas, por causa dos pântanos, prefiro a etim ologia da palavra grega.
Serviu-se de um a pitada de tabaco com ar satisfeito.
— Mas deixem os os fenícios e voltem os à inscrição. Traduzi, portanto: À
Vênus de Boulternère My ron dedica por sua ordem esta estátua, sua obra.
Evitei criticar sua etim ologia, m as quis, por m inha vez, dar prova de
perspicácia, e disse a ele:
— Alto lá. My ron consagrou algum a coisa, m as não vej o em absoluto que
sej a essa estátua.
— Com o! — exclam ou ele. — My ron não era um fam oso escultor grego?
O talento será perpetuado em sua fam ília: um de seus descendentes é que teria
feito essa estátua. É a m aior certeza que existe.
— Mas — repliquei — vej o sobre o braço um furinho. Acho que serviu
para fixar algum a coisa, um bracelete, por exem plo, que esse My ron deu a
Vênus em oferenda expiatória. My ron era um am ante infeliz. Vênus estava
irritada com ele: apaziguou-a consagrando-lhe um bracelete de ouro. Repare
que fecit é m uitas vezes tom ado por consecravit. São term os sinônim os. Mostraria m ais de um exem plo disso se tivesse em m ãos Gruter ou Orelli. É
natural que um apaixonado vej a Vênus em sonho, que im agine que ela lhe
encom ende um bracelete de ouro a sua estátua. My ron lhe consagrou um
bracelete... Depois os bárbaros ou algum ladrão sacrílego...
— Ah, bem se vê que andou pelos rom ances! — exclam ou m eu anfitrião
m e dando a m ão para descer. — Não, senhor, é um a obra de escola de My ron.
Olhe som ente o trabalho, e se convencerá.
Prom etendo a m im m esm o nunca m ais contradizer em hipótese algum a os
antiquários teim osos, baixei a cabeça com um ar convencido, dizendo:
— É um exem plar adm irável.
— Ah, m eu Deus — exclam ou o sr. de Pey rehorade —, m ais um traço de
vandalism o! Jogaram um a pedra na m inha estátua!
Acabara de perceber um a m arca branca um pouco acim a do seio da Vênus.
Notei um traço parecido sobre os dedos da m ão direita, que, supus então,
haviam sido tocados no traj eto da pedra, ou um fragm ento
se destacara com o choque e ricocheteara sobre a m ão. Contei a m eu anfitrião o insulto de que fora testem unha e a pronta punição que se seguira. Ele riu
bastante e, com parando o aprendiz a Diom edes, desej ou-lhe que visse, com o o
herói grego, todos os seus com panheiros transform ados em pássaros brancos.
O sino do alm oço interrom peu essa conversa clássica e, com o na véspera,
fui obrigado a com er por quatro. Depois vieram os fazendeiros do sr. de
Pey rehorade; e, enquanto ele lhes dava audiência, seu filho m e levou para ver
um a caleça que com prara em Toulouse para sua noiva, e que eu adm irava,
nem é preciso dizer. Em seguida, entrei com ele na estrebaria, onde m e reteve
por um a m eia hora a louvar seus cavalos, m e transm itindo sua genealogia, a
m e contar os prêm ios que haviam ganhado nas corridas do departam ento.
Enfim , passou a m e falar de sua futura esposa, a partir da m enção a um
j um ento cinza que lhe destinava.
— Nós a verem os hoj e — disse ele. — Não sei se vai achá-la bonita.
Vocês são difíceis, em Paris; m as todo m undo, aqui e em Perpignan, a
considera encantadora. O bom é que é m uito rica. Sua tia de Prades lhe deixou
seus bens. Ah, eu vou ser m uito feliz.
Fiquei profundam ente chocado de ver um rapaz parecer m ais tocado pelo
dote que pelos belos olhos da futura esposa.
— O senhor conhece j óias — prosseguiu o sr. Alphonse —, o que acha
desta? Eis o anel que lhe darei am anhã.
Assim falando, tirou da prim eira falange de seu dedinho um a grande
aliança enriquecida de diam antes, e form ada de duas m ãos entrelaçadas;
alusão que m e pareceu infinitam ente poética. O trabalho era antigo, m as
j ulguei que fora retocado para encaixar os diam antes. No interior do anel se
liam estas palavras em letras góticas: Sempr'ab ti, quer dizer, sem pre contigo.
— É um belo anel — disse-lhe —, m as esses diam antes acrescentados lhe
fizeram perder um pouco de seu caráter.
— Ah. ele ë bem m ais bonito assim — respondeu ele a sorrir. — Aí tem
m il e duzentos francos de diam antes. Foi m inha m ãe que m e deu. Era um anel
de fam ília m uito antigo... do tem po da cavalaria. Servira a m inha avó, que a
recebeu da sua. Deus sabe quando isso foi feito.
— O costum e em Paris — disse-lhe eu — é dar um anel bem sim ples,
geralm ente com posto de dois m etais diferentes, com o ouro e platina. Vej a,
esse outro anel, que tem nesse dedo, seria m uito conveniente. Este,
com seus diam antes e suas m ãos em relevo, é tão grande que não se poderia colocar um a luva por cim a.
— Ah, a senhora Alphonse vai dar um j eito. Acho que ficará sem pre
contente com ele. Mil e duzentos francos no dedo é agradável. Esse anelzinho
— acrescentou, olhando com ar de satisfação o anel sem ornatos que trazia na
m ão — foi um a m ulher em Paris que m e deu num dia de terça-feira de
carnaval. Ah, com o m e esbaldei quando estive em Paris, há dois anos! É lá
que a gente se diverte!... — E suspirou de saudade.
Devíam os j antar nesse dia em Puy garrig, na casa dos pais da noiva;
subim os na caleça e chegam os ao castelo, distante de Ille cerca de um a légua
e m eia. Fui apresentado e acolhido com o am igo da fam ília. Não falarei do
j antar nem da conversação que se seguiram , e da qual pouco tom ei parte. O sr.
Alphonse, sentado ao lado da noiva, lhe dizia algo no ouvido de 15 em 15
m inutos. Ela não erguia em absoluto os olhos e, cada vez que seu prom etido
lhe falava, enrubescia com m odéstia, m as lhe respondia sem acanham ento.
A srta. de Puy garrig tinha 18 anos; sua com pleição flexível e delicada
contrastava com as form as ossudas de seu robusto noivo. Era não som ente
bonita, m as sedutora. Adm irei a espontaneidade perfeita de todas as suas
respostas; e seu ar de bondade que, entretanto, não era isento de um leve
m atiz de m alícia, m e lem brou, a despeito de m im m esm o, a Vênus de m eu
anfitrião. Nessa com paração que fiz interiorm ente, perguntei-m e se a
superioridade de beleza que cabia atribuir à estátua não se devia, em grande
parte, a sua expressão de tigresa; pois a energia, m esm o nas paixões
m aléficas, estim ula sem pre em nós um espanto e um a espécie de adm iração
involuntária.
"Que pena!", disse a m im m esm o ao sair de Puy garrig, "que um a pessoa tão am ável sej a rica, e que seu dote a faça ser procurada por um hom em
indigno dela!"
Voltando a Ille, e não sabendo m ais o que dizer à sra. de Pey rehorade, a
quem achava conveniente dirigir algum as vezes a palavra:
— Vocês têm o santo forte em Roussillon! — exclam ei. — Com o,
senhora, fazem um casam ento num a sexta-feira! Em Paris, teríam os m ais
superstição; ninguém ousaria tom ar um a m ulher em casam ento num dia
desses.
— Meu Deus! Nem m e fale! — disse ela. — Se dependesse de m im , com
certeza seria escolhido outro dia. Mas Pey rehorade assim quis, e foi preciso
ceder-lhe. Isso m e incom oda, no entanto. E se acontecesse
algo de ruim ? Deve haver um a razão, pois afinal por que todo m undo tem m edo da sexta?
— Sexta-feira — exclam ou seu m arido — é o dia de Vênus! Bom dia para
um casam ento! O senhor vê, m eu caro colega, só penso na m inha Vênus. Em
sua honra! Por causa dela escolhi a sexta-feira. Am anhã, se quiser, antes das
núpcias, nós lhe farem os um pequeno sacrifício, sacrificarem os duas pom bas
e, se eu soubesse onde encontrar incenso...
— Cruzes. Pey rehorade! — interrom peu sua m ulher escandalizada. —
Incensar um ídolo! Seria um a abom inação! Que diriam de nós na região?
— Pelo m enos — disse o sr. de Pey rehorade — você vai m e perm itir
colocar na cabeça dele um a coroa de rosas e de lírios: Manibusdate lilia plenis ("Prodigai lírios às m ãos-cheias!"). Vej a o senhor, a Constituição é letra m orta. Não tem os a liberdade de culto!
As providências para o dia seguinte foram acertadas da seguinte m aneira:
todo m undo devia estar pronto e vestido às dez horas em ponto. Depois de
tom ar o chocolate, iriam de caleça a Puy garrig. O casam ento civil devia se
fazer na prefeitura do lugarej o e a cerim ônia religiosa, na capela do castelo.
Em seguida, dar-se-ia o alm oço. Após o alm oço, cada qual passaria o tem po
com o quisesse, até as sete horas. Às sete horas, voltariam a Ille, para a casa do sr. de Pey rehorade, onde deviam j antar as duas fam ílias reunidas. O resto se
segue naturalm ente. Não podendo dançar, se com eria o m ais possível.
Desde as oito horas, eu estava sentado diante da Vênus, com um lápis na
m ão, recom eçando pela vigésim a vez a cabeça da estátua, sem conseguir
chegar a captar a expressão; o sr. de Pey rehorade ia e vinha em torno de m im ,
m e dava conselhos, m e repetia suas etim ologias fenícias; depois arranj ou
rosas de Bengala sobre o pedestal da estátua, e num tom tragicôm ico lhe
dirigiu votos para o casal que ia viver sob seu teto. Cerca de nove horas foi
para dentro de casa ocupar-se de seu traj e e, ao m esm o tem po, apareceu o sr.
Alphonse, bem apertado num a roupa nova, de luvas brancas, sapatos de
verniz, botões lavrados, com um a rosa na lapela.
— Vai fazer o retrato de m inha m ulher? — disse, se inclinando sobre m eu
desenho. — Ela é bonita tam bém .
Nesse m om ento com eçava, sobre o j ogo de péla do qual falei, um a partida
que, im ediatam ente, atraiu a atenção do sr. Alphonse. E eu, cansado, e
desesperando de fazer essa diabólica figura, deixei logo m eu
desenho para olhar os j ogadores. Havia entre eles alguns arrieiros espanhóis chegados de véspera. Eram aragoneses e navarrenses, quase todos de um a
destreza m aravilhosa. Por isso os de Ille, em bora encoraj ados pela presença e
os conselhos do sr. Alphonse, foram com presteza batidos por esses novos
cam peões. Os espectadores nacionais estavam consternados. O sr. Alphonse
olhou seu relógio. Ainda eram só nove e m eia. Sua m ãe não estava penteada.
Não hesitou m ais: tirou o fraque, pediu um paletó e desafiou os espanhóis. Eu
o olhava a sorrir, e um pouco surpreso.
— É preciso honrar a terra — disse ele.
Então achei-o de fato um a bela figura. Estava arrebatado. Seu traj e, que
tanto o ocupara pouco antes, não era m ais nada para ele. Alguns m inutos
antes, tem ia virar a cabeça de m edo de desarrum ar a gravata. Agora não
pensava m ais em seus cabelos frisados nem em sua gravata de babados tão
bem plissada. E sua noiva?... Deus m eu, se fosse necessário ele iria, acho,
adiar o casam ento. Eu o vi calçar às pressas um par de sandálias, arregaçar as m angas e, com um ar confiante, se pôr à frente do tim e vencido, com o César
j untando soldados em Dirachium . Pulei a cerca e m e coloquei com odam ente à
som bra de um lódão, de m odo a ver bem os dois cam pos.
Contra a expectativa geral, o sr. Alphonse perdeu a prim eira bola; é
verdade que ela vinha rasteira e lançada com força surpreendente por um
aragonês que parecia ser o chefe dos espanhóis.
Era um hom em de quarenta anos, seco e nervoso, com um m etro e noventa
de altura, e sua pele cor de oliva tinha um m atiz quase tão escuro quanto o
bronze da Vênus.
O sr. Alphonse j ogou a raquete no chão com furor.
— É esse m aldito anel — exclam ou — que m e aperta o dedo e m e faz
perder um a bola segura!
Tirou, não sem dificuldade, seu anel de diam antes: aproxim ei-m e para
segurá-lo; m as ele se antecipou, correu até a Vênus, colocou-lhe o anel no
dedo anular e retom ou seu lugar à frente dos j ogadores de Ille.
Estava pálido, m as calm o e resoluto. Desde então não errou m ais, e os
espanhóis foram batidos com pletam ente. Foi um belo espetáculo o entusiasm o
dos espectadores: uns soltavam m il gritos de alegria j ogando seus bonés para
o ar; outros lhe apertavam a m ão, cham ando-o de glória da terra. Se houvesse
rechaçado um a invasão, duvido que recebesse felicitações m ais vividas e m ais
sinceras. O lam ento dos vencidos se j untava à explosão de sua vitória.
— Farem os outras paridas, m eu bravo — disse ele ao aragonês num tom de superioridade —; m as eu lhes darei pontos.
Desej aria que o sr. Alphonse fosse m ais m odesto, e fiquei quase aflito com
a hum ilhação de seu rival.
O gigante espanhol ressentiu-se profundam ente com esse insulto. Eu o vi
em palidecer sob a pele bronzeada. Olhava com ar triste sua raquete, cerrando
os dentes; depois, com um a voz abafada, disse baixinho:
— Me lo pagarás.
A voz do sr. Pey rehorade perturbou o triunfo de seu filho: m eu anfitrião, m uito espantado por não vê-lo presidindo aos preparativos da caleça nova,
espantou-se ainda m ais ao vê-lo todo suado com a raquete na m ão. O sr.
Alphonse correu para casa, lavou o rosto e as m ãos, recolocou o fraque novo e
os sapatos de verniz e, cinco m inutos depois, estávam os seguindo a trote pela
estrada Puy garrig. Todos os j ogadores de péla da cidade e grande núm ero de
espectadores nos seguiram com gritos de alegria. Com dificuldade os cavalos
vigorosos que nos puxavam conseguiam m anter a dianteira sobre esses
intrépidos catalães. Estávam os em Puy garrig, e o cortej o ia se pôr em m archa
para a prefeitura, quando o sr. Alphonse, batendo na testa, m e disse baixinho:
— Que besteira! Esqueci o anel! Está no dedo da Vênus, que o diabo o
carregue. Não conte a m inha m ãe, pelo m enos. Pode ser que ela não perceba
nada.
— Poderia m andar alguém — disse-lhe eu.
— Bah! Meu criado ficou em Ille, nestes daqui não confio nada. Mil e
duzentos francos de diam ante! Isso poderia tentar m ais de um . Aliás, que
pensariam de m inha distração? Iam debochar m uito de m im . Cham ar-m e de
m arido da estátua... Tom ara que não roubem ! Felizm ente a estátua dá m edo
nos m alandros. Não ousam se aproxim ar à distância de um braço dela. Bah!
Isso não é nada; tenho outro anel.
As duas cerim ônias, civil e religiosa, se cum priram com a pom pa
conveniente: e a srta. de Puy garrig recebeu o anel de um a m odista de Paris,
sem duvidar que seu noivo lhe ofertava o sacrifício de um penhor am oroso.
Depois todos se acom odaram à m esa, onde beberam , com eram , até cantaram , tudo isso bem longam ente. Eu sofria pela noiva devido à alegria alvar que
eclodia em torno dela: no entanto, ela agüentava firm e, m ais do que eu
esperava, e seu constrangim ento não era nem falta de j eito nem afetação.
Talvez a coragem venha nas situações difíceis.
Findo o alm oço quando Deus quis, eram quatro horas; os hom ens foram passear no parque, que era m agnífico, ou ficaram olhando dançar sobre o
relvado do castelo as cam ponesas de Puy garrig, enfeitadas com traj es de festa.
Assim passam os algum as horas. Enquanto isso, as m ulheres estavam bem
solícitas em volta da noiva, que lhes fazia adm irar sua corbeille. Depois ela trocou de roupa, e notei que cobria os lindos cabelos com um gorro e um
chapéu de plum as, pois as m ulheres têm a m aior sofreguidão em adotar, assim
que podem , as aparências que o costum e as proíbe de exibir quando ainda são
senhoritas.
Eram quase oito horas quando nos dispusem os a partir para Ille. Mas
prim eiro houve um a cena patética. A tia da srta. de Puy garrig, que era com o
um a m ãe para ela, m ulher bem idosa e m uito devota, não devia em absoluto ir
conosco à cidade. Na partida, fez um serm ão tocante sobre seus deveres de
esposa, serm ão esse que resultou num a torrente de lágrim as e de abraços sem
fim . O sr. de Pey rehorade com parou essa separação ao Rapto das Sabinas.
Partim os, no entanto, e, a cam inho, cada um de nós se esforçou para distrair a noiva e fazê-la rir; m as foi em vão.
Em Ille, o j antar nos esperava, e que j antar! Se a alegria vulgar da m anhã
m e chocara, m ais chocado fiquei com os equívocos e as piadas de que o noivo
e sobretudo a noiva foram obj eto. O noivo, que desaparecera um instante antes de vir para a m esa, estava pálido e com um a seriedade glacial. Bebia a
todo instante o velho vinho de Collioure, tão forte quanto aguardente. Eu
estava a seu lado, e m e senti na obrigação de adverti-lo:
— Cuidado! Dizem que o vinho...
Não sei que bobagem lhe disse para m e pôr em uníssono com os convivas.
Ele m e cutucou o j oelho e disse baixinho:
— Quando levantarm os da m esa... tenho um a palavrinha a lhe dar. Seu
tom solene m e surpreendeu. Olhei-o m ais atentam ente, e notei a estranha
alteração de suas feições.
— Sente-se indisposto? — perguntei.
— Não.
E voltou a beber.
Enquanto isso, no m eio dos gritos e das palm as, um m enino de 11 anos,
que deslizara para baixo da m esa, m ostrava aos assistentes um a bonita fita
branca e rosa que acabara de destacar do tornozelo da noiva.
É o que se cham a de j arreteira. Foi im ediatam ente cortada em pedaços e distribuída aos j ovens, que enfeitaram a lapela, segundo um antigo costum e
que se conserva ainda em algum as fam ílias patriarcais. Foi para a noiva um a
ocasião de enrubescer até o branco do olho... Mas sua perturbação chegou ao
m áxim o quando o sr. de Pey rehorade, depois de pedir silêncio, lhe cantou
alguns versos catalães, impromptus (de im proviso), com o salientou. Este foi o sentido, se bem entendi:
— Que é isso, m eus am igos? O vinho que bebi m e faz ver duplo? Tem
duas Vênus aqui...
O noivo virou bruscam ente a cabeça com ar estarrecido, o que fez todo
m undo rir.
— Sim — prosseguiu o sr. de Pey rehorade —, há duas Vênus sob m eu
teto. Um a, encontrei na terra, com o um a trufa; a outra, descida dos céus, vem
partilhar conosco seu cinto.
Ele queria dizer sua j arreteira.
— Meu filho, escolha entre a Vênus rom ana e a catalã qual você prefere.
O m alandro pega a catalã, e sua parte é a m elhor. A rom ana é preta, a catalã é branca. A rom ana é fria, a catalã inflam a tudo que dela se aproxim a.
Esse arrem ate provocou um tal hurra, aplausos tão barulhentos e risos tão
sonoros que achei que o teto iria cair sobre nossas cabeças. Em volta da m esa
só havia três rostos sérios, os dos noivos e o m eu. Eu estava com um a grande
dor de cabeça; além disso, não sei por quê, um casam ento sem pre m e
entristece. Esse, além do m ais, m e desgostou um pouco.
Depois de as últim as estrofes serem cantadas pelo auxiliar do prefeito, e
eram bem indecentes, devo dizer, passam os ao salão para desfrutar a partida
da noiva, que devia ser logo conduzida a seu quarto, pois era perto da m eia-
noite.
O sr. Alphonse m e puxou para um vão de j anela, e m e disse, desviando os
olhos:
— O senhor vai debochar de m im ... Mas não sei o que tenho... Estou
enfeitiçado! O diabo m e leve!
O prim eiro pensam ento que m e veio foi que ele se achava am eaçado por
algum a desgraça do tipo dessas de que falam Montaigne e Madam e de
Sévigné: "Todo o im pério am oroso é cheio de histórias trágicas etc." "Achava que esse tipo de acidente só acontecia com pessoas refinadas", disse a m im m esm o.
— Bebeu vinho de Collioure dem ais, m eu caro senhor Alphonse —disse a ele. — Eu avisei.
— Sim , pode ser. Mas é algo bem m ais terrível.
Tinha a voz entrecortada. Eu o supus com pletam ente em briagado.
— Meu anel, sabe? — prosseguiu depois de um silêncio.
— E então? Alguém o pegou?
— Não.
— Então está com ele?
— Não... eu... não pude tirá-lo do dedo do diabo daquela Vênus.
— Bom , não puxou com força suficiente.
— Puxei, sim ... Mas a Vênus... ela apertou o dedo.
Olhou-m e fixam ente com ar desvairado, se apoiando no trinco da j anela
para não cair.
— Que história! — disse-lhe eu. — Forçou dem ais o anel. Am anhã vai
pegá-lo com tenazes. Mas cuidado para não estragar a estátua.
— Não, estou dizendo. O dedo da Vênus está contraído, dobrado; ela
aperta a m ão, com preende?... É m inha m ulher, ao que parece, j á que lhe dei
m eu anel... Ela não quer m ais devolvê-lo.
Experim entei um estrem ecim ento súbito, e fiquei um instante com a pele
arrepiada. Depois, um grande suspiro que ele soltou m e enviou um bafo de
vinho e toda em oção desapareceu.
"O m iserável", pensei, "está com pletam ente bêbado."
— O senhor é antiquário — acrescentou o noivo num tom lam entável —,
o senhor conhece essas estátuas... Há talvez algum a força, algum sortilégio
que eu desconheço com pletam ente... Gostaria de ir ver?
— Pois não — disse eu —, venha com igo.
— Não, prefiro que vá sozinho.
Saí do salão.
O tem po m udara durante o j antar, e a chuva com eçava a cair com força. Ia
pedir um guarda-chuva, quando um a reflexão m e deteve. "Eu seria um grande tolo", disse a m im m esm o, "de ir verificar o que m e disse um hom em
em briagado!" Talvez, aliás, ele quisesse fazer algum a piada de m au gosto, para que seus bons provincianos dessem risada; e o m ínim o que poderia m e
acontecer seria ficar encharcado até os ossos e pegar um belo resfriado.
Da porta lancei um olhar sobre a estátua pingando água, e subi para m eu
quarto sem entrar de novo no salão. Deitei-m e; m as o sono dem orou a chegar.
Todas as cenas do dia eram representadas em m eu espírito.
Pensava nessa m oça tão bonita e tão pura abandonada a um bêbado brutal.
"Que coisa odiosa", dizia a m im m esm o, "um casam ento de conveniência!
Um prefeito se cobre com um a faixa tricolor, um padre com um param ento, e
a m oça m ais decente do m undo é entregue ao Minotauro! Dois seres que não
se am am , o que podem dizer um ao outro num m om ento desses, que dois
am antes com prariam ao preço de sua existência? Um a m ulher pode vir a am ar
um hom em que viu sendo vulgar um a vez? As prim eiras im pressões não se
apagam e, tenho certeza, esse sr. Alphonse m erecerá ser odiado..."
Durante m eu m onólogo, que estou encurtando bastante, ouvira um bocado
de idas e vindas pela casa, portas se abrindo e fechando, coches partindo;
depois tive a im pressão de ouvir sobre a escada os passos leves de várias
m ulheres se dirigindo até a extrem idade do corredor oposto ao m eu quarto.
Era provavelm ente o cortej o da noiva sendo m andado para a cam a. Em
seguida alguém desceu de novo a escada. A porta da sra. de Pey rehorade
estava fechada. "Com o essa pobre m oça", pensei, "deve estar perturbada e pouco à vontade!" Virei na cam a de m au hum or. Um rapaz representa um tolo papel em casa onde se realiza casam ento.
Reinava o silêncio fazia algum tem po, quando foi quebrado por passos
pesados que subiam a escada. Os degraus de m adeira rangeram com força.
— Que boçal! — exclam ei. — Aposto que vai cair na escada.
Tudo voltou a serenar. Peguei um livro para m udar o curso de m inhas
idéias. Era um a estatística do departam ento, enfeitada por um a dissertação do
sr. de Pey rehorade sobre os m onum entos druidas do distrito de Prades.
Adorm eci na terceira página. Dorm i m al e acordei várias vezes. Poderiam ser
cinco horas da m anhã, e estava acordado fazia m ais de vinte m inutos, quando
o galo cantou. O dia estava quase nascendo. Então ouvi com nitidez os
m esm os passos pesados, o m esm o ranger da escada que ouvira antes de
adorm ecer. Achei peculiar. Tentei, bocej ando, adivinhar por que o sr.
Alphonse estava se levantando tão cedo. Não im aginava nada de verossím il.
Ia voltando a fechar os olhos, quando m inha atenção foi de novo solicitada
por pateadas estranhas às quais se m isturaram logo o tilintar das sinetas e o
barulho de portas que se abriam com estrondo, depois distingui gritos
confusos.
"O bêbado deve ter posto fogo em algum lugar!", pensei, saltando da
cam a.
Vesti-m e rapidam ente e entrei no corredor. Da extrem idade oposta partiam gritos e lam entações, e um a voz dilacerante dom inava todas as outras: "Meu filho! Meu filho!" Era evidente que um a desgraça acontecera ao sr. Alphonse.
Corri até o quarto nupcial: estava cheio de gente. O prim eiro espetáculo que
feriu m inha vista foi o j ovem sem inu, atravessado sobre a cam a cuj a m adeira
estava quebrada. Estava lívido, sem m ovim ento. Sua m ãe chorava e gritava ao
lado dele. O sr. de Pey rehorade se agitava, esfregava-lhe as têm poras com
água-de-colônia, punham -lhe sal no nariz. Tristeza! Fazia tem po que seu filho
estava m orto. Sobre um canapé, no outro extrem o do quarto, estava a noiva,
vítim a de horríveis convulsões. Soltava gritos inarticulados, e dois robustos
criados tinham a m aior dificuldade do m undo para contê-la!
— Deus m eu! — exclam ei —, o que aconteceu?
Aproxim ei-m e da cam a e ergui o corpo do infeliz rapaz; j á estava rígido e
frio. Seus dentes fechados e seu rosto enegrecido exprim iam as m ais
apavorantes angústias. Parecia claro que sua m orte fora violenta e sua agonia, terrível. Nenhum traço de sangue, entretanto, nas suas roupas. Afastei sua
cam isa e vi sobre o peito um a m arca lívida que se prolongava pelas costelas e
as costas. Era com o se tivesse sido apertado num círculo de ferro. Meu pé
pousou sobre algum a coisa dura que se achava sobre o tapete; m e abaixei e vi
o anel de diam antes.
Arrastei o sr. de Pey rehorade e sua m ulher para seu quarto; depois, fiz com
que levassem a noiva.
— Vocês ainda têm um a filha — disse-lhes —, vocês lhe devem cuidados.
Então deixei-os sozinhos.
Não m e pareceu duvidoso que o sr. Alphonse tivesse sido vítim a de um
assassinato cuj os autores houvessem encontrado m eios de se introduzirem à
noite no quarto da noiva. Esses m achucados no peito, sua direção circular, m e
perturbavam bastante, entretanto, pois um bastão ou um a barra de ferro não
teria podido produzi-los. De repente, m e lem brei de ter ouvido dizer que em
Valença os bravos se serviam de com pridas bolsas de couro cheias de areia
fina para bater nas pessoas j uradas de m orte. Em seguida, m e lem brei do
arrieiro aragonês e sua am eaça; de qualquer m odo, ousava com dificuldade
pensar que houvesse chegado a um a vingança tão terrível por um a brincadeira
leve.
Fui pela casa, procurando em todos os lugares vestígios de arrom bam ento
e não encontrando em lugar algum . Desci ao j ardim para ver se os assassinos
pudessem ter se introduzido por esse lado; m as não
encontrei nenhum indício seguro. A chuva da véspera havia, aliás, a tal ponto lavado o solo, que ele não poderia guardar um a m arca m uito nítida. Observei,
entretanto, alguns passos profundam ente im prim idos na terra; havia alguns
em duas direções contrárias, m as sobre um a m esm a linha, partindo do ângulo
da sebe contígua ao j ogo de péla e desem bocando na porta da casa. Podiam