Os Melhores Contos Fantásticos
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 28 partes.
episódios com ovedores) obliterou o que presidiu m inha infância; j á nas
m em órias um passado fictício ocupa o lugar de outro, do qual nada
sabem os com certeza — nem , ao m enos, que é falso. Foram reform adas a
num ism ática, a farm acologia e a arqueologia. Acho que a biologia e a
m atem ática aguardam tam bém seu avatar... Um a dispersa dinastia de
solitários m udou a face do m undo. Sua tarefa prossegue. Se nossas pre-
visões não errarem , daqui a cem anos alguém descobrirá os cem volum es
da Segunda Enciclopédia de Tlön.
Então desaparecerão do planeta o inglês e o francês e o sim ples espa-
nhol. O m undo será Tlön. Não m e im porto, continuo revisando, nos plácidos dias de Hotel Adrogué, um a indecisa tradução quevediana (que
não tenciono publicar) do Urn Burial, de Browne.
Tradução de Carlos Nejar
Julio Cortazar
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Tirar coelho de cartola faz parte do ofício de mágico. E é, até certo ponto, um expediente fácil. Difícil — pois é coisa de mago e artista — e
desconfortável é descobrir alguém que vomite coelhos. Julio Cortázar
(1914-1984) sabia disso, não fosse ele um dos maiores contistas da
América Latina. Já o era com seus primeiros livros de narrativas curtas,
Bestiário , de 1951 (de onde foi extraído o conto desta antologia), e Final de j ogo , de 1956, embora Cortázar tenha ficado internacionalmente
conhecido com o conto "O perseguidor", que tem Charles Parker como personagem, incluído em As armas secretas, de 1959. A obra deste
argentino nascido em Bruxelas e que passou sua vida profissional em
Paris é extensa e inclui romances como O j ogo da am arelinha , que o colocou na linha de frente do chamado boom da literatura latino-americana nos anos 1970. Foi nesta época, com Alejo Carpentier e seu
"real maravilhoso", e com Garcia Márquez de Cem anos de solidão que se consagrou a expressão "realismo mágico", que nada mais é do que um prolongamento da velha literatura fantástica, com as cores telúricas da
América Latina.
Carta a um a senhorita em Paris
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ANDRÉE. EU NÃO QUERIA VIVER EM SEU APARTAMENTO da Calle Suipacha. Não
tanto pelos coelhinhos, m as porque m e desagrada entrar em um a ordem fechada, construída até nas m ais finas m alhas do ar, essas que em sua casa
preservam a m úsica da lavanda, o adej ar de um cisne, o j ogo de violino e
viola no quarteto de Rará. Para m im é duro entrar em um am biente onde
alguém que vive confortavelm ente dispôs tudo com o um a reiteração de sua
alm a, aqui os livros (de um lado em espanhol, do outro em francês e inglês),
ali os alm ofadões verdes, neste exato lugar da m esinha, o cinzeiro de cristal
que se parece com um a bolha de sabão, e sem pre um perfum e, um som , um
crescer de plantas, um a fotografia do am igo m orto, um ritual de bandej as com
chá e pinças de açúcar... Ah, querida Andrée, que difícil opor-se, em bora
aceitando-a com inteira subm issão do próprio ser, à m inuciosa ordem que
um a m ulher instaura em sua agradável residência. Com o é condenável pegar
um a tacinha de m etal e pô-la no outro extrem o da m esa, pô-la ali
sim plesm ente porque alguém trouxe seus dicionários de inglês e é deste lado,
ao alcance da m ão, que deverão estar. Mexer nessa tacinha equivale a pôr um
horrível e inesperado verm elho em m eio a um a m odulação de Ozenfant, com o
se de repente as cordas de todos os contrabaixos rebentassem ao m esm o tem -
po, com o m esm o espantoso chicotaço, no instante m ais suave de um a
sinfonia de Mozart. Mexer nessa tacinha altera o j ogo de relações de toda a
casa, de um obj eto com outro, de cada m om ento de sua alm a com a alm a
inteira da casa e sua distante m oradora. E eu não posso
aproxim ar os dedos de um livro, aj ustar de leve o cone de luz de um lam pião, abrir a tam pa da caixa de m úsica, sem que um sentim ento de
ultraj e e desafio m e passe pelos olhos com o um bando de pardais.
Você sabe por que vim a sua casa, a sua tranqüila sala festej ada de sol.
Tudo parece tão natural, com o sem pre, que não se sabe a verdade. Você foi
a Paris, eu fiquei com o apartam ento da Calle Suipacha, elaboram os um
sim ples e satisfatório plano de m útua conveniência, até que setem bro traga-a
de novo a Buenos Aires e m e atire a algum a casa onde talvez... Mas não lhe
escrevo por isso, envio esta carta por causa dos coelhinhos, parece-m e j usto
inform á-la; e porque gosto de escrever cartas, e talvez porque chove,
Mudei-m e na quinta-feira passada, às cinco da tarde, entre névoa e tédio.
Fechei tantas m alas em m inha vida, passei tantas horas preparando bagagens
que não levavam a parte nenhum a, que a quinta-feira foi um dia cheio de
som bras e correias, porque quando vej o as correias das m aletas é com o se
visse som bras, partes de um látego que m e açoita indiretam ente, da m aneira
m ais sutil e m ais horrível. Mas fiz as m alas, avisei sua criada que viria
instalar-m e, e subi de elevador. Precisam ente entre o prim eiro e o segundo
andar, senti que ia vom itar um coelhinho. Nunca lhe contara antes, não
acredite que por deslealdade, m as naturalm ente a gente não vai ficar
explicando a todos que, de quando em quando, vom ita um coelhinho. Com o
isso sem pre m e tem sucedido estando só, escondia o fato com o se escondem tantos detalhes do que acontece (ou a gente faz acontecer) na intim idade
total. Não m e censure. Andrée, não m e censure. De quando em quando m e
acontece vom itar um coelhinho. Não é razão para não viver em qualquer
casa, não é razão para que a gente tenha de se envergonhar e estar isolado e
andar se calando,
Quando sinto que vou vom itar um coelhinho, ponho dois dedos na boca com o um a pinça aberta, e espero sentir na garganta a penugem m orna que
sobe com o um a efervescência de sal de frutas. Tudo é rápido e higiênico,
transcorre em um brevíssim o instante. Tiro os dedos da boca, e neles trago
preso pelas orelhas um coelhinbo branco. O coelhinho parece contente, é um
coelhinho norm al e perfeito, só que m uito pequeno, pequeno com o um
coelhinho de chocolate, m as branco e inteiram ente um coelhinho. Ponho-o
na palm a da m ão, levanto sua penugem com um a carícia dos dedos, o
coelhinho parece satisfeito de haver nascido e bole e esfrega o focinho na
m inha pele, m exendo-o com essa
trituração silenciosa e cosquenta do focinho de um coelhinho contra a pele de um a m ão. Procura com er, e então eu (falo de quando isto ocorria em
m inha casa de cam po) o levo com igo à varanda e o ponho no grande vaso
onde cresce o trevo que plantei com esse fim . O coelhinho levanta suas
orelhas, envolve o trevo novo com um veloz m olinete do focinho, e eu sei
que posso deixá-lo e ir em bora, continuar por algum tem po um a vida não
diferente da de tantos que com pram seus coelhos nas granj as,
Entre o prim eiro e o segundo andar. Andrée, com o um aviso do que seria
m inha vida em sua casa, soube que ia vom itar um coelhinho. Em seguida
tive m edo (ou era surpresa? Não, m edo da m esm a surpresa, talvez), porque
antes de deixar m inha casa, só dois dias antes, tinha vom itado um coelhinho
e estava livre por um m ês, por cinco sem anas, talvez seis com um pouco de
sorte. Vej a você, eu tinha resolvido inteiram ente o problem a dos coelhinhos.
Plantava trevo na varanda de m inha outra casa, vom itava um coelhinho,
punha-o no trevo e, ao fim de um m ês, quando suspeitava que de um
m om ento para outro... então dava o coelho j á crescido à sra. de Molina, que
pensava ser um hobby m eu e se calava. Já em outro vaso vinha crescendo um trevo novo e apropriado, eu esperava sem preocupação a m anhã em que
a cosquinha de um a penugem subindo fechava-m e a garganta, e o novo
coelhinho repetia desde aquela hora a vida e os costum es do anterior. Os
costum es. Andrée, são form as concretas do ritm o, são a cota do ritm o que
nos aj uda a viver. Não era tão terrível vom itar coelhinhos um a vez que isso
havia entrado no ciclo invariável, no m étodo. Você quererá saber por que
todo esse trabalho, por que todo esse trevo e a sra. de Molina. Teria sido
preferível m atar em seguida o coelhinho e... Ah, você teria de vom itar tão-
som ente um , pegá-lo com dois dedos e colocá-lo na m ão aberta, ainda
aderido a você pelo ato m esm o, pela aura inefável de sua proxim idade
apenas rom pida, Um m ês distancia tanto; um m ês é tanto, pêlos com pridos,
saltos, olhos selvagens, diferença absoluta. Andrée, um m ês é um coelho,
faz de verdade um coelho; m as o m inuto inicial, quando a m echa m orna e
bulidora encobre um a presença im utável... Com o um poem a nos prim eiros
m inutos, o fruto de um a noite de Idum éia: tão da gente que a gente m esm o...
c depois tão não a gente, tão isolado e distante em seu raso m undo branco
tam anho m apa.
Decidi, contudo, m atar o coelhinho m al nascesse. Eu viveria quatro
m eses em sua casa: quatro — talvez, com sorte, três — colheradas de
álcool no focinho, (Você sabe que a m isericórdia perm ite m atar instantaneam ente um coelhinho dando-lhe de beber um a colherada de álcool? Sua carne então sabe m elhor, dizem , em bora eu... Três ou quatro colheradas de
álcool, logo o banheiro ou um pacote som ando-se ao lixo,)
Ao passar o terceiro andar o coelhinho se m exia em m inha m ão aberta.
Sara esperava em cim a, para aj udar-m e a entrar com as m alas... Com o
explicar-lhe que um capricho, um a loj inha de anim ais? Envolvi o coelhinho
em m eu lenço, coloquei-o no bolsinho do sobretudo, deixando o sobretudo
solto para não esprem ê-lo. Mal se m exia. Sua m iúda consciência devia estar
revelando fatos im portantes: que a vida é um m ovim ento para cim a com um
click final, e que é tam bém um céu baixo, branco, envolvente e cheirando a lavanda, no fundo de um poço m orno,
Sara não viu nada, fascinava-a m uito o duro problem a de aj ustar seu
sentido de ordem a m inha m ala-roupeiro, m eus papéis e m inha displicência
diante de suas dem oradas explicações, onde abunda a expressão "por
exem plo". Tão logo pude, m e fechei no banheiro; m atá-lo agora, Um a fina
zona de calor rodeava o lenço, o coelhinho era branquíssim o e acho que
m ais lindo do que os outros. Não m e olhava, som ente bulia e estava
contente, o que era o m ais horrível m odo de m e olhar. Encerrei-o no
pequeno arm ário vazio e m e voltei para desfazer as m alas, desorientado m as
não infeliz, não culpado, não ensaboando as m ãos para tirar delas um a
últim a convulsão,
Com preendi que não podia m atá-lo. Mas nessa m esm a noite vom itei um
coelhinho negro. E dois dias depois um branco. E na quarta noite um
coelhinho cinza,
Você deve gostar do belo arm ário do seu quarto, com a grande porta que se
abre generosa, as prateleiras vazias à espera da m inha roupa. Agora guardo-
os ali. Ali dentro. Verdade que parece im possível; nem Sara acreditaria.
Porque Sara não desconfia de nada, e não desconfia de nada por causa da
m inha horrível tarefa, um a tarefa que consom e m eus dias e m inhas noites
num só golpe de gatilho e vai m e queim ando por dentro e endurecendo
com o aquela estrela-do-m ar que você pôs sobre a banheira e que a cada
banho parece encher o corpo da gente de sal e açoites de sol e grandes
rum ores de profundidade,
De dia dorm em . São dez. De dia dorm em . Com a porta fechada, o
arm ário é um a noite diurna som ente para eles, lá dorm em sua noite com
sossegada obediência. Levo com igo as chaves do quarto ao sair para o
trabalho. Sara deve pensar que ponho em dúvida sua honradez e olha-
m e desconfiada, noto todas as m anhãs que está para m e dizer algo, m as por fim se cala, e eu fico tão contente... (Quando arrum a o quarto, das nove às
dez, faço ruído na sala, ponho um disco de Benny Carter que tom a todo o
am biente, e com o Sara é tam bém am iga de saetas e pasodobles, o arm ário parece silencioso e talvez estej a, porque para os coelhinhos agora é noite e
hora de descanso.)
Seu dia principia nessa hora que vem depois da j anta, quando Sara leva a
bandej a com um m iúdo tilintar de pinças de açúcar, desej a-m e boa-noite —
sim , desej a. Andrée, o m ais triste é que m e desej a boa-noite — e fecha-se
em seu quarto e im ediatam ente estou só, só com o arm ário condenado, só
com m eu dever e m inha tristeza,
Deixo-os sair, lançarem -se ágeis pela sala, cheirando vivam ente o trevo
que m eus bolsos ocultavam e agora fazem no tapete efêm eras rendas que
eles alteram , rem ovem , consom em num instante. Com em bem , calados e
corretos, até aquele instante nada tenho a dizer, som ente os olho do sofá,
com um livro inútil na m ão — eu que queria ler todos os seus Giraudoux.
Andrée, e a história argentina de Lopez que você tem na prateleira m ais
baixa —; e com em o trevo.
São dez. Quase todos brancos. Levantam a m orna cabeça para as
lâm padas da sala, os três sóis im óveis do seu dia, eles que am am a luz por-
que sua noite não tem lua nem estrelas nem lam piões. Olham seu triplo sol e
estão contentes. Por isso, pulam pelo tapete, pelas cadeiras, dez suaves
m anchas m ovim entam -se com o um a constelação m óvel, de um lado para
outro, em bora eu quisesse vê-los quietos, vê-los a m eus pés e quietos — um
pouco o sonho de todo deus. Andrée, o sonho j am ais cum prido dos deuses
—, não assim , insinuando-se atrás do retrato de Miguel de Unam uno, em
torno do grande j arro verde-claro, pela negra cavidade da escrivaninha,
sem pre m enos de dez, sem pre seis ou oito, e eu m e perguntando onde
andarão os dois que faltam , e se Sara se levantasse por qualquer coisa, e a
presidência de Rivadavia que eu queria ler na história de Lopez,
Não sei com o resisto. Andrée. Você recorda que vim descansar em sua
casa. Não é culpa m inha se de quando em quando vom ito um coelhinho, se
esta m udança m e alterou tam bém por dentro — não é nom inalism o, não é
m agia, apenas que as coisas não podem m udar assim de pronto, às vezes as
coisas m udam brutalm ente e quando você esperava a bofetada direita... Assim . Andrée, ou de outro m odo, m as sem pre assim .
Escrevo-lhe de noite. São três da tarde, m as escrevo-lhe na noite deles.
De dia dorm em . Que alívio este escritório coberto de gritos, ordens,
m áquinas Roy al, vice-presidentes e m im eógrafos! Que alívio, que paz, que
horror. Andrée! Agora m e cham am ao telefone, são os am igos que se
inquietam com m inhas noites recolhidas, é Luis que m e convida a cam inhar
ou Jorge que reservou entrada para um concerto. Quase não m e atrevo a
dizer-lhes que não, invento prolongadas e ineficazes histórias de m á saúde,
de traduções atrasadas, de evasão. E quando volto e subo de elevador —
aquela passagem , entre o prim eiro e o segundo andar — renovo noite a noite
irrem ediavelm ente a vã esperança de que não sej a verdade,
Faço o que posso para que não destrocem suas coisas. Roeram um pouco
os livros da prateleira m ais baixa, você os encontrará escondidos para que
Sara não note. Você gostava m uito de seu lam pião com o ventre de
porcelana cheio de m ariposas e cavaleiros antigos? O trincado m al se
percebe, trabalhei toda a noite com um cim ento especial que m e venderam
em um a casa inglesa — você sabe que as casas inglesas têm os m elhores
cim entos — e agora fico ao lado dele para que nenhum o alcance outra vez
com as patas (é quase belo ver com o gostam de se pôr em pé, lem brança do
hum ano distante, talvez im itação de seu deus deam bulando e os olhando
carrancudo; além disso você terá percebido — em sua infância, talvez —
que se pode deixar um coelhinho em penitência contra a parede, de pé, as
patinhas apoiadas e m uito quieto horas e horas), Às cinco da m anhã (dorm i um pouco, estirado no sofá verde e desper-
tando a cada corrida aveludada, a cada tilintar) coloco-os no arm ário e faço a lim peza. Por isso Sara encontra tudo em ordem , em bora às vezes eu tenha
notado nela algum assom bro contido, um ficar olhando um obj eto, um a leve
descoloração do tapete, e de novo o desej o de perguntar-m e algo, m as eu
assobiando as variações sinfônicas de Franck, de m aneira que nada. Para
que contar-lhe. Andrée, as m inúcias desventuradas desse am anhecer surdo e
vegetal, em que cam inho entredorm ido levantando cabos de trevo, folhas
soltas, pêlos brancos, aos encontrões nos m óveis, louco de sono, e m eu Gide
que se atrasa. Troy at que não traduzi, e m inhas respostas a um a senhora
distante que j á estará se perguntando se... para que continuar tudo isto, para que continuar esta carta que escrevo entre telefones e entrevistas,
Andrée, querida Andrée, m eu consolo é que são dez e não virão m ais.
Faz 15 dias segurei na palm a da m ão um últim o coelhinho, depois nada,
som ente os dez com igo, sua diurna noite e crescendo, agora feios e nascendo-lhes o pêlo com prido, agora adolescentes e cheios de necessidades e
caprichos, saltando sobre o busto de Antínoo¹ (é Antínoo, verdade, aquele rapaz que olha cegam ente?) ou se perdendo no living onde seus m ovim entos
criam ruídos ressonantes, tanto que dali devo tirá-los, com m edo de que Sara
os ouça e apareça horripilada, talvez em cam isola — porque Sara deve ser
assim , de cam isola —, e então... Som ente dez, pense você nessa pequena
alegria que tenho, afinal de contas, na crescente calm a com que dou volta
aos duros céus do prim eiro e do segundo andar,
Interrom pi esta carta porque devia participar de um trabalho de com issões.
Continuo-a aqui em sua casa. Andrée, sob um m udo e grisalho am anhecer, É de fato o dia seguinte. Andrée? Um pedaço em branco da página será para
você o intervalo, apenas a ponte que une m eu escrito de ontem ao m eu
escrito de hoj e. Dizer-lhe que nesse intervalo tudo term inou, onde você vê a
ponte aberta ouço eu quebrar-se a cintura furiosa da água, para m im este
lado do papel, este lado da m inha carta não continua a calm a com que eu
vinha escrevendo, quando a deixei para participar de um trabalho de
com issões. Em sua cúbica noite sem tristeza dorm em 11 coelhinhos; talvez
agora m esm o, m as não, não agora — no elevador, logo, ou ao entrar; j á não
im porta onde, se o quando é agora, se pode ser em qualquer agora dos que
m e restam ,
Agora chega, escrevi isto porque m e interessa provar-lhe que não fui tão
culpado na destruição irrecuperável de sua casa. Deixarei esta carta
esperando-a, seria sórdido que o correio a entregasse em algum a clara
m anhã de Paris, À noite passada repus os livros da segunda estante; j á os
alcançavam , pondo-se de pé ou saltando, roeram as lom badas para afiar os
dentes — não por fom e, têm todo o trevo que lhes com pro e arm azeno nas
gavetas da escrivaninha. Rasgaram as cortinas, os forros das cadeiras, a
m oldura do auto-retrato de Augusto Torres, encheram de pêlos o tapete e
tam bém gritaram , estiveram dando voltas sob o lam pião, em círculo e com o
m e adorando, e logo gritavam , gritavam com o eu não acredito que gritem os
coelhos,
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¹Antínoo é um co-protagonista do rom ance Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, que Cortázar verteu para o espanhol. (N.T.)
Quis em vão tirar os pelos que estragam o tapete, arranj ar a m oldura da tela roída, fechá-los de novo no arm ário. O dia chega, talvez Sara se levante
agora. É quase estranho que Sara não m e im porte. E quase estranho que não
m e im porte vê-los correr em busca de brinquedos. Não tive tanta culpa,
você verá quando chegar que m uitos dos destroços estão bem reparados com
o cim ento que com prei em um a casa inglesa, eu fiz o que pude para evitar-
lhe um desgosto... Quanto a m im , do dez ao 11 há com o um vazio
insuperável. Você vê: dez estava bem , com um arm ário, trevo e esperança,
quantas coisas se podem construir. Mas não com 11, porque dizer 11 é
certam ente dizer 12. Andrée, 12 que será 13. Então está o am anhecer e um a
fria solidão na qual cabem a alegria, as recordações, você e talvez tantos
outros. Está esta sacada sobre Suipacha cheia de aurora, os prim eiros sons
da cidade. Não acho que sej a difícil j untar 11 coelhinhos salpicados sobre os
paralelepípedos, talvez nem os notem , atarefados com o outro corpo que
convém levar logo, antes que passem os prim eiros colegiais.
Tradução de Remy Gorga Filho
Dino Buzzati
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Diferente do fantástico do século XIX, pois passa de uma maneira
indelével pela marca da ficção de Kafka, como se transformasse assim
algum aspecto insólito da vida em absurdo da própria vida — um absurdo
construído com uma lógica interna rigorosa —. Dino Buzzati (1906-1972)
leva magistralmente este tipo de literatura à contemporaneidade narrativa. Não é à toa que se trata de um dos maiores contistas do século
xx. Aqui, como se não bastasse, ele foi buscar seu ponto de partida na
fantasia da infância de cada um de nós — e a transforma em realidade da
sociedade dita adulta, Uma realidade ficcional, é verdade, como
costumam fazer os grandes ficcionistas. Quem não teve medo do bicho-
papão na sua (nossa) mais remota infância? Mas atenção: "O bicho-
papão" está longe de ser literatura infantil,
O bicho-papão
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O ENGENHEIRO ROBERTO PAUDI, vice-diretor da COMPRAX e assessor do
departam ento de Urbanística, enfureceu-se certa noite, ao surpreender a babá
Ester, que, para acalm ar as m anhas do pequeno Franco, lhe dizia:
— Olhe, se você não ficar quieto, o bicho-papão aparece,
Era intolerável para ele que, na educação das crianças, ainda se usassem
superstições bobas que podiam criar dolorosos com plexos na psique
im atura. Passou um a descom postura na m oça, que saiu chorando, e pôs ele
m esm o o filho na cam a, o qual se acalm ou im ediatam ente,
Na m esm a noite, o bicho-papão, levitando a m eia-altura, com o era seu
hábito, apresentou-se no quarto onde o engenheiro dorm ia sozinho,
causando-lhe alguns m inutos de agitação,
Com o se sabe, o bicho-papão assum ia diversas form as, segundo os países
e os costum es locais. Naquela cidade, desde tem pos im em oriais, tinha a
aparência de um anim al gigantesco, escuro, cuj a figura era um a m istura de hipopótam o e de tapir. Horrível à prim eira vista. Mas, observando bem , com
olhos im parciais, notava-se, pelo vinco bondoso da boca e o brilho quase
afetuoso das pupilas, relativam ente m inúsculas, um a expressão, ao
contrário, absolutam ente sem m aldade,
É claro que, em circunstâncias de certa gravidade, sabia incutir trem or e
ate m edo. Mas norm alm ente executava suas tarefas com discrição. Tendo-se
aproxim ado da cam inha do m enino que devia ser repreendido, nem m esm o
o acordava, lim itando-se a penetrar em seus sonhos, nos quais
deixava, isto sim , traços im perecíveis. De fato, sabem os perfeitam ente que m esm o os sonhos das criancinhas tem um a capacidade ilim itada e acolhem ,
sem esforço algum , anim ais m astodônticos com o o bicho-papão, que podem
realizar todas as evoluções necessárias em plena liberdade.
Naturalm ente, ao apresentar-se ao dr. Paudi, a antiga criatura não tinha
um a cara m uito afável, m uito pelo contrário, pois assum ira a fisionom ia,
evidentem ente agigantada, do professor Gallurio, nom eado, havia dois
m eses, fiscal extraordinário da COMPRAX, sociedade que estava navegando
em águas difíceis. E esse professor Gallurio, hom em m uito severo, para não
dizer intratável, era profundam ente odiado por Paudi, cuj a alta posição na
firm a podia, em tal regim e, correr grandes riscos,
Tendo acordado num sudário de gélida transpiração. Paudi só teve tem po
de perceber o visitante que fugia através da parede (a j anela não teria sido
suficiente para tanta corpulência), m ostrando-lhe a m onum ental cúpula de
seu traseiro.
Na m anhã seguinte. Paudi não se desculpou com a pobre Ester. Pelo
contrário, o fato de ter constatado ele próprio que o bicho-papão realm ente
existia aum entava, j unto com sua indignação, a firm e determ inação de tudo
fazer para afastar o suj eito,
Nos dias seguintes, naturalm ente em tom de brincadeira, com eçou a
sondar o terreno com a m ulher, os am igos e os colaboradores. E ficou
espantado ao saber que a existência do bicho-papão era geralm ente
considerada coisa natural, com o um acontecim ento com um da natureza,
com o a chuva, o terrem oto e o arco-íris. Apenas o dr. Gem onio, do
Departam ento Jurídico, parecia ter caído das nuvens: claro, quando era
criança ouvira falar vagam ente na coisa, m as depois convencera-se per-
feitam ente de que era um a história idiota, sem sentido,
Com o se percebesse sua forte aversão, o bicho-papão com eçou então a
freqüentar com assiduidade a casa do engenheiro, sem pre com as de-
sagradáveis feições do professor Gallurio, fazendo caretas, puxando-o pelos
pés, sacudindo sua cam a e, certa noite, chegou a acocorar-se sobre seu peito,
a ponto de quase sufocá-lo,
Portanto, não foi de surpreender que, na prim eira reunião do Conselho
Municipal, tivesse tocado no assunto com alguns colegas: seria possível
aceitar, num a m etrópole que se orgulhava de pertencer à vanguarda, o
perpetuar-se de um a tal indecência, digna da Idade Média? Não seria o caso
de tom ar um a atitude, de um a vez por todas, para resolver o problem a?
A princípio, foram rápidos pour parler de corredores, trocas inform ais de pontos de vista. Em breve, o prestígio do dr. Paudi abriu-lhe o cam inho. Em m enos de dois m eses, o problem a foi levado ao Conselho Municipal. É
evidente que, para evitar o ridículo, na agenda do dia nada constava sobre o
bicho-papão, m as o item cinco falava de "um deplorável fator de
perturbação da calm a noturna da cidade",
Ao contrário do que Paudi esperava, não só o assunto foi encarado por
todos com grande seriedade, m as sua tese, que poderia parecer óbvia,
encontrou acirradas oposições. Algum as vozes se levantaram para defender
um a pitoresca e inofensiva tradição que se perdia na noite dos tem pos,
insistindo na com pleta inocuidade do m onstro noturno, aliás, absolutam ente
silencioso, e ressaltando os benéficos efeitos educativos de sua presença.
Alguns falaram claram ente num "atentado contra o patrim ônio cultural da
cidade" caso se recorresse a m edidas repressivas. E o orador foi
calorosam ente aplaudido.
Por outro lado, quanto ao m érito da questão, prevaleceram enfim os
irresistíveis argum entos aos quais apela, com dem asiada freqüência, o
cham ado progresso para destruir as últim as cidadelas do m istério. O bicho-
papão foi acusado de deixar um a m arca nociva nas alm as infantis, de
suscitar, às vezes, pesadelos contrários aos princípios da correta pedagogia.
Tam bém foram discutidas questões de higiene: sim , é verdade, o m astodonte
noturno não suj ava a cidade nem espalhava nenhum tipo de excrem ento,
m as quem poderia garantir que não fosse portador de germ es e vírus?
Tam bém nada se sabia de positivo sobre seu credo político: com o excluir o
fato de que suas sugestões, aparentem ente tão elem entares, se não sim plórias, escondessem insídias subversivas?
Os debates, aos quais os j ornalistas não haviam sido adm itidos, dada a
delicadeza do assunto, term inaram às duas da m adrugada. A proposta de
Paudi foi aprovada com um a pequena m aioria de cinco votos. Quanto a sua
aplicação prática, nom eou-se para isso um a com issão de peritos, da qual o
próprio Paudi foi eleito presidente,
De fato: proclam ar o ostracism o do bicho-papão era um a coisa, conseguir
elim iná-lo era outra bem diferente, É claro que não se podia confiar na
disciplina cívica,, tanto m ais que não se sabia se ele tinha capacidade de
com preender a língua. Tam pouco se podia pensar em capturá-lo e
encam inhá-lo ao zôo m unicipal: que j aula poderia reter um anim al, caso
fosse um anim al, capaz de sum ir através das paredes? Mesm o o veneno
devia ser descartado: o bicho-papão nunca fora visto com endo ou
bebendo. Então o lança-cham as? Um a pequena bom ba de napalm ? O risco para a população era excessivo,
Em sum a, a solução se apresentava, se não im possível, pelo m enos bastante
problem ática. E Paudi j á sentia que o alm ej ado sucesso lhe escapava das
m ãos quando lhe ocorreu um a dúvida: sim , a com posição quím ica e a
estrutura física do bicho-papão eram desconhecidas, m as, com o acontece
com m uitas criaturas registradas no cartório das lendas, não poderia ele, por
acaso, ser m uito m ais fraco e vulnerável do que se supunha? Quem sabe
bastava um a sim ples bala no ponto certo e estava feita j ustiça?
As forças da segurança pública, após a deliberação do Conselho Mu-
nicipal referendada pelo prefeito, tiveram de colaborar. Dentro da brigada
m óvel foi instituída um a patrulha especial, dotada de viaturas velozes e
interligadas por rádio. A coisa foi sim ples, Um a única circunstância estranha: um a certa relutância, entre os suboficiais e os agentes, em participar da
batida; seria m edo? O tem or obscuro de violar um a porta proibida? ou
sim plesm ente um nostálgico apego a certas lem branças perturbadoras da
infância?
O confronto aconteceu num a gélida noite de lua cheia. A patrulha,
colocada num a esquina escura da praça Cinquecento, avistou o vagabundo
que flutuava tranqüilo a uns trinta m etros de altura, com o um j ovem
dirigível. Os agentes avançaram com m etralhadoras apontadas. Ao redor não
havia vivalm a. O breve estalido das raj adas repercutiu ao longe, levado pelo
eco,
Foi um a cena estranha. Lentam ente, o bicho-papão rodou sobre si m esm o,
sem um único estrem ecim ento e, com as patas para cim a, foi caindo até
pousar na neve. Onde ficou deitado de costas, im óvel para sem pre. A luz da
lua se refletia sobre o ventre enorm e e enrij ecido, brilhante com o guta-
percha.
— Um a coisa que gostaria de não ver nunca m ais — disse depois o cabo
Onofrio Cottafavi, Um a m ancha de sangue alargou-se extraordinariam ente
sob a vítim a, negra sob o luar,
Foram logo cham ados os lixeiros para retirar os restos. Não chegaram a
tem po. Em poucos m inutos a coisa gigantesca, com o os balões furados,
contraiu-se a olhos vistos, reduziu-se a um a pobre larva, tornou-se um verm ezinho preto sobre a neve branca, e finalm ente tam bém o verm ezinho
desapareceu, dissolvendo-se no nada. Perm aneceu
apenas a abj eta m ancha de sangue que, antes do am anhecer, as m angueiras da lim peza pública apagaram .
Disseram que no céu, enquanto a criatura m orria, não apenas um a, m as
duas luas brilhavam . Contaram que, por toda a cidade, pássaros noturnos e
cães se lam entaram longam ente. Correu o boato de que m uitas m ulheres,
velhas e m eninas, despertadas por um cham ado som brio, saíram das casas,
aj oelhando-se e rezando ao redor do pobre infeliz. Nada disso foi
com provado historicam ente.
De fato, a lua continuou inabalável sua viagem prescrita pela astronom ia,
as horas escoaram regularm ente um a depois da outra e todas as crianças do
m undo continuaram a dorm ir tranqüilas, sem im aginar que seu engraçado
am igo-inim igo se fora para sem pre.
Era m uito m ais delicado e suave do que se pensava. Era feito daquela
substância im palpável que geralm ente se cham a fábula ou ilusão: ainda que
fosse verdadeiro.
Galopa, foge, galopa, im orredoura fantasia. Louco por destruir-te, o
m undo civil te persegue, nunca te deixará em paz.
Tradução de Fulvia M.L. Moretto
4
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O fantástico em bom português
Manuel Bernardes
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Contam que, antes de morrer; disse o padre Antônio Vieira (a quem
Fernando Pessoa chamou de Príncipe da Língua — e duvidar quem
haveria de?) que a língua portuguesa estava entregue em boas mãos. As
mãos e o talento, como ficcionista, eram os de padre Manuel Bernardes
(1644-1710). Sua densa e variada obra é Nova floresta , em vários
volumes, cujo subtítulo reza: "Silva (Selva] de vários apotegmas e ditos sentenciosos espirituais, e morais, com reflexões, em que o útil da
doutrina se acompanha com o vário da erudição, assim Divina como
humana.” Bem à maneira da época, Um escritor católico, sim, e com
todas as marcas antigas da religião. Mas esqueçam a "mensagem" e observem nele o escritor. E como curiosidade extra: a idéia desta "Lenda dos bailarins" é praticamente a mesma — séculos depois — de um conto
do inglês Jerome K. Jerome, "O dançarino" (incluído em Os melhores contos de medo, horror e morte) e do romance do americano Horace
McCoy, que se transformou num filme famoso de Sydney Pollack: A noite
dos desesperados ( They shoot horses, don't they ? ), É a dança da ficção ao longo dos séculos e das artes. Ao leitor o próximo passo.
Lenda dos bailarins
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NO ANO DA SALVAÇÃO HUMANA, 1012, im perando Henrique II, sucedeu em
Saxônia que um sacerdote por nom e Ruperto, presbítero da Igrej a de s.
Magno Mártir, havendo com eçado a celebrar a prim eira m issa da noite de
Natal, não podia prosseguir, por se achar distraído com os estrondos de um
baile, que ali perto se fazia. E era que um hom em plebeu, por nom e Otério, com outros 15 com panheiros, e três m ulheres, dançando e cantando todos
j untos no cem itério, faziam notável ruído. Mandou-lhes pois o sacerdote dizer
pelo sacristão que se quisessem aquietar; porque não era aquele o m odo
agradável a Deus de festej ar noite tão santa. E zom bando eles do recado com
risadas, e dichotes, com o gente de pouco entendim ento, e m enos tem or de
Deus, o sacerdote acendendo-se em zelo da honra divina, e do decoro que a
seu m inistro sacerdotal se devia, disse:
— Praza a Deus que um ano inteiro bailem , sem parar.
Caso estupendo, ainda som ente ouvido, quanto m ais visto! A boca do
sacerdote o disse, e a m ão do Onipotente assim o executou. Am anheceu e
anoiteceu o seguinte dia, e eles a bailar. Entrou a roda de novo ano, e eles
sem saírem da m esm a roda da sua dança: In circuitu impii ambulant1, Passou um m ês, e outro m ês: acudia a gente atônita com tão raro
espetáculo: dançando os achava, e dançando os deixava. Perguntavam -lhes
uns um a coisa, e outros outra: a nada respondiam , nem atendiam : o
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1 In circuitu impii ambulant (latim ): "Os ím pios andam a roda."
seu destino, a sua tarefa, que continuavam com incessante diligência, era sô andar à roda, uns atrás dos outros, seguindo aos que os guiavam , e todos
instigados do aguilhão daquela praga do sacerdote: Deus m eus pone illos ut rotam2. Não com iam , não bebiam , não m ostravam cansaço, não se lhes gastou o calçado, nem se lhes rom peu o vestido, nem caiu sobre eles chuva.
Da contínua pista, ou calcadura, sum iram -se pela terra até m ais acim a dos
j oelhos: a si m esm os parece que intentavam sepultar-se vivos, ou abrir
cam inho, por onde descessem a dançar ao inferno. Quis certo m ancebo tirar da roda a um a das três m ulheres, que era sua irm ã. E pegando-lhe do braço
com violência, este lhe veio na m ão desm em brado do corpo, com o se de
um a pedra de linho separasse fora algum a estriga; ou m etendo a m ão na
m assa lêvada3, trouxesse algum pouco no punho. E ela, com o se o braço
fosse alheio, nada disse, nem gem eu, e foi prosseguindo a dança do seu
fado, sem da ferida m anar sangue. Finalm ente ao cum prir-se o ano, pelo
Natal de 1013, veio àquele lugar s. Heriberto, arcebispo de Colônia, e os
absolveu da m aldição, e introduzidos na Igrej a, os reconciliou com Deus. As
três m ulheres, com o sexo m ais fraco, expiraram logo. Pouco tam bém
duraram alguns dos hom ens: dos quais se diz que, depois de m ortos, obrou
Deus por eles alguns m ilagres, com o significando o perdão de seus pecados,
que por m eio de tão custosa penitência tinham alcançado. Os m ais que
sobreviveram , sem pre com o trem or de m em bros e espanto dos olhos,
m ostravam bem o terrível caso, que por eles havia passado. E cada um deles
era um a estátua do escarm ento, erigida para protestação da reverência que se
deve aos Mistérios, aos Ministros e aos lugares Sagrados,
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2 Deus meus pone illos ut rotam (latim ): "Deus m eu, faze-os rodar. "
3 Lêvada: fem inino de lêvado, variante antiga de lêvedo, "que ferm entou, ferm entado",
Machado de Assis
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Sem em nada lembrar o fantástico exasperado e romântico de Hoffmann
(que, como vimos, contaminou quase que todo o século XIX), as tentativas primeiras de Machado fantástico estão mais para Theophile Gauthier e
Poe. No entanto, as excursões mais maduras no gênero do nosso Machado
de Assis (1839-1908) são de um contorno mais alegórico, exemplificado
aqui por "As academias de Sido". São muitas as aproximações de Machado com o gênero: já houve até quem (R. Magalhães Jr.) publicasse uma
antologia de contos fantásticos de sua autoria,
As academ ias de Sião
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CONHECEM AS ACADEMIAS DE SIÃO? Bem sei que em Sião nunca houve
academ ias: m as suponham os que sim , e que eram quatro, e escutem -m e,
I
As estrelas, quando viam subir, através da noite, m uitos vaga-lum es cor de
leite, costum avam dizer que eram os suspiros do rei de Sião, que se divertia
com as suas trezentas concubinas. E, piscando o olho um as às outras,
perguntavam :
— Reais suspiros, em que é que se ocupa esta noite o lindo Kalaphangko?
Ao que os vaga-lum es respondiam com gravidade:
— Nós som os os pensam entos sublim es das quatro academ ias de Sião;
trazem os conosco toda a sabedoria do universo,
Um a noite, foram em tal quantidade os vaga-lum es, que as estrelas, de
m edrosas, refugiaram -se nas alcovas, e eles tom aram conta de um a parte do
espaço, onde se fixaram para sem pre com o nom e de Via-Láctea,
Deu lugar a essa enorm e ascensão de pensam entos o fato de quererem as quatro academ ias de Sião resolver este singular problem a: — por que é que há
hom ens fem ininos e m ulheres m ásculas? E o que as induziu a isso foi a índole
do j ovem rei, Kalaphangko era virtualm ente um a dam a. Tudo nele respirava a
m ais esquisita fem inilidade: tinha os olhos doces, a voz argentina, atitudes
m oles e obedientes e um cordial horror às arm as. Os guerreiros siam eses
gem iam , m as a nação vivia alegre, tudo
eram danças, com édias e cantigas, à m aneira do rei que não cuidava de outra cousa. Daí a ilusão das estrelas,
Vai senão quando, um a das academ ias achou esta solução ao problem a:
— Um as alm as são m asculinas, outras fem ininas. A anom alia que se
observa é um a questão de corpos errados,
— Nego, bradaram as outras três; a alm a é neutra; nada tem com o
contraste exterior.
Não foi preciso m ais para que as vielas e águas de Bangkok se tingissem de
sangue acadêm ico. Veio prim eiram ente a controvérsia, depois a
descom postura, e finalm ente a pancada. No princípio da descom postura tudo
andou m enos m al; nenhum a das rivais arrem essou um im propério que não
fosse escrupulosam ente derivado do sânscrito, que era a língua acadêm ica, o
latim de Sião. Mas dali em diante perderam a vergonha. A rivalidade
desgrenhou-se, pôs as m ãos na cintura, baixou à lam a, à pedrada, ao m urro, ao
gesto vil, até que a academ ia sexual, exasperada, resolveu dar cabo das outras, e organizou um plano sinistro… Ventos que passais, se quisésseis levar
convosco estas folhas de papel, para que eu não contasse a tragédia de Sião!
Custa-m e (ai de m im !), custa-m e escrever a singular desforra. Os acadêm icos arm aram -se em segredo, e foram ter com os outros, j ustam ente quando estes,
curvados sobre o fam oso problem a, faziam subir ao céu um a nuvem de vaga-
lum es. Nem preâm bulo, nem piedade. Caíram -lhes em cim a, espum ando de
raiva. Os que puderam fugir, não fugiram por m uitas horas; perseguidos e ata-
cados, m orreram na beira do rio, a bordo das lanchas, ou nas vielas escusas.
Ao todo, 38 cadáveres. Cortaram um a orelha aos principais, e fizeram delas
colar e braceletes para o presidente vencedor, o sublim e U-Tong, Ébrios da
vitória, celebraram o feito com um grande festim , no qual cantaram este hino
m agnífico: "Glória a nós, que som os o arroz da ciência e a lum inária do
universo".
A cidade acordou estupefata. O terror apoderou-se da m ultidão. Ninguém
podia absolver um a ação tão crua e feia; alguns chegavam m esm o a duvidar
do que viam ... Um a só pessoa aprovou tudo: foi a bela Kinnara, a flor das
concubinas régias.
II
Molem ente deitado aos pés da bela Kinnara, o j ovem rei pedia-lhe um a
cantiga.
— Não dou outra cantiga que não sej a esta: creio na alm a sexual.
— Crês no absurdo, Kinnara.
— Vossa Maj estade crê então na alm a neutra?
— Outro absurdo, Kinnara. Não, não creio na alm a neutra, nem na alm a
sexual.
— Mas então em que é que Vossa Maj estade crê, se não crê em nenhum a delas?
— Creio nos teus olhos, Kinnara, que são o sol e a luz do universo.
— Mas cum pre-lhe escolher: ou crer na alm a neutra, e punir a academ ia
viva, ou crer na alm a sexual, e absolvê-la.
— Que deliciosa que é a tua boca, m inha doce Kinnara! Creio na tua
boca: é a fonte da sabedoria.
Kinnara levantou-se agitada. Assim com o o rei era o hom em fem inino, ela
era a m ulher m áscula — um búfalo com penas de cisne. Era o búfalo que
andava agora no aposento, m as daí a pouco foi o cisne que parou, e,
inclinando o pescoço, pediu e obteve do rei, entre duas carícias, um decreto
em que a doutrina da alm a sexual foi declarada legítim a e ortodoxa, e a outra
absurda e perversa. Nesse m esm o dia, foi o decreto m andado à academ ia
triunfante, aos pagodes, aos m andarins, a todo o reino. A academ ia pôs
lum inárias; restabeleceu-se a paz pública,
III
Entretanto, a bela Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto, Um a noite,
com o o rei exam inasse alguns papéis do Estado, perguntou-lhe ela se os
im postos eram pagos com pontualidade.
— Ohimè! — exclam ou ele, repetindo essa palavra que lhe ficara de um
m issionário italiano, — Poucos im postos têm sido pagos. Eu não quisera
m andar cortar a cabeça aos contribuintes... Não, isso nunca... Sangue? sangue?
Não, não quero sangue...
— E se eu lhe der um rem édio a tudo?
— Qual?
— Vossa Maj estade decretou que as alm as eram fem ininas e m asculinas
— disse Kinnara depois de um beij o, — Suponha que os nossos corpos estão
trocados, Basta restituir cada alm a ao corpo que lhe pertence. Troquem os os
nossos...
Kalaphangko riu m uito da idéia, e perguntou-lhe com o é que fariam a
troca. Ela respondeu que pelo m étodo Mukunda, rei dos hindus, que se
m eteu no cadáver de um brâm ane, enquanto um truão se m etia no dele Mukunda — velha lenda passada aos turcos, persas e cristãos. Sim , m as a
fórm ula da invocação? Kinnara declarou que a possuía; um velho bonzo
achara cópia dela nas ruínas de um tem plo.
—
Valeu?
— Não creio no m eu próprio decreto, redargüiu ele rindo; m as vá lá, se
for verdade, troquem os... m as por um sem estre, não m ais. No fim do sem estre
destrocarem os os corpos,
Aj ustaram que seria nessa m esm a noite. Quando toda a cidade dorm ia, eles
m andaram vir a piroga real, m eteram -se dentro e deixaram -se ir à toa.
Nenhum dos rem adores os via. Quando a aurora com eçou a aparecer,
fustigando as vacas rútilas, Kinnara proferiu a m isteriosa invocação; a alm a
desprendeu-se-lhe, e ficou pairando, à espera que o corpo do rei vagasse
tam bém . O dela caíra no tapete.
—
Pronto? — disse Kalaphangko.
—
Pronto, aqui estou no ar esperando. Desculpe Vossa Maj estade a
indignidade da m inha pessoa…
Mas a alm a do rei não ouviu o resto. Lépida e cintilante, deixou o seu vaso
físico e penetrou no corpo de Kinnara, enquanto a desta se apoderava do
despoj o real. Am bos os corpos ergueram -se e olharam um para o outro,
im agine-se com que assom bro. Era a situação do Buoso e da cobra, segundo
conta o velho Dante; m as vede aqui a m inha audácia. O poeta m anda calar
Ovídio e Lucano, por achar que a sua m etam orfose vale m ais que a deles do
us. Eu m ando-os calar a todos três, Buoso e a cobra não se encontram m ais, ao
passo que os m eus dous heróis, um a vez trocados continuam a falar e a viver
j untos — cousa evidentem ente m ais dantesca, em que m e pese à m odéstia,
— Realm ente — disse Kalaphangko —, isto de olhar para m im m esm o e
dar-m e m aj estade é esquisito. Vossa Maj estade não sente a m esm a cousa?
Um e outro estavam bem , com o pessoas que acham finalm ente um a casa
adequada. Kalaphangko espreguiçava-se todo nas curvas fem ininas de
Kinnara. Esta inteiriçava-se no tronco rij o de Kalaphangko. Sião tinha,
finalm ente, um rei.
IV
A prim eira ação de Kalaphangko (daqui em diante entenda-se que é o
corpo do rei com a alm a de Kinnara, e Kinnara o corpo da bela siam esa
com a alm a do Kalaphangko) foi nada m enos que dar as m aiores honrarias à academ ia sexual. Não elevou os seus m em bros ao m andarinato, pois eram m ais hom ens de pensam ento que de ação e adm inistração, dados à filosofia e à
literatura, m as decretou que todos se prosternassem diante deles, com o é de
uso aos m andarins. Além disso, fez-lhes grandes presentes, cousas raras ou de
valia, crocodilos em palhados, cadeiras de m arfim , aparelhos de esm eralda
para alm oço, diam antes, relíquias. A academ ia, grata a tantos benefícios, pediu m ais o direito de usar oficialm ente o título de Claridade do Mundo, que lhe foi outorgado.
Feito isso, cuidou Kalaphangko da fazenda pública, da j ustiça, do culto e do
cerim onial. A nação com eçou a sentir o peso grosso, para falar com o o excelso
Cam ões, pois nada m enos de 11 contribuintes rem issos foram logo
decapitados. Naturalm ente os outros, preferindo a cabeça ao dinheiro,
correram a pagar as taxas, e tudo se regularizou. A j ustiça e a legislação
tiveram grandes m elhoras. Construíram -se novos pagodes e a religião pareceu
até ganhar outro im pulso, desde que Kalaphangko, copiando as antigas artes
espanholas, m andou queim ar um a dúzia de pobres m issionários cristãos que
por lá andavam ; ação que os bonzos da terra cham aram a pérola do reinado,
Faltava um a guerra, Kalaphangko, com um pretexto m ais ou m enos
diplom ático, atacou a outro reino, e fez a cam panha m ais breve e gloriosa do
século. Na volta a Bangkok, achou grandes festas esplêndidas. Trezentos
barcos, forrados de seda escarlate e azul, foram recebê-lo. Cada um destes
tinha na proa um cisne ou um dragão de ouro, e era tripulado pela m ais fina
gente da cidade; m úsicas e aclam ações atroaram os ares. De noite, acabadas as
festas, sussurrou-lhe ao ouvido a bela concubina:
—
Meu j ovem guerreiro, paga-m e as saudades que curti na ausência:.
dize-m e que a m elhor das festas é a tua m eiga Kinnara.
Kalaphangko respondeu com um beij o.
— Os teus beiços têm o frio da m orte ou do desdém — suspirou ela.
Era verdade, o rei estava distraído e preocupado: m editava um a tragédia. Ia-
se aproxim ando o term o do prazo em que deviam destrocar os corpos, e ele
cuidava em iludir a cláusula, m atando a linda siam esa. Hesitava por não saber
se padeceria com a m orte dela visto que o corpo era seu, ou m esm o se teria de
sucum bir tam bém . Era esta a dúvida de Kalaphangko; m as a idéia da m orte
som breava-lhe a fronte, enquanto ele afagava ao peito um frasquinho com
veneno, im itado dos Bórgias.
De repente, pensou na douta academ ia; podia consulta-la, não claram ente, m as por hipótese. Mandou cham ar os acadêm icos; vieram todos m enos o
presidente, o ilustre U-Tong, que estava enferm o. Eram 13; prosternaram -se e
disseram ao m odo de Sião:
—
Nós, desprezíveis palhas, correm os ao cham ado de Kalaphangko,
—
Erguei-vos — disse benevolam ente o rei,
— O lugar da poeira é o chão, teim aram eles com os cotovelos e j oelhos
em terra,
— Pois serei o vento que subleva a poeira — redargüiu Kalaphangko; e,
com um gesto cheio de graça e tolerância, estendeu-lhes as m ãos.