Os Melhores Contos Fantásticos

Flávio Moreira da Costa · Capítulo 1 de 2 · parte 14/28

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Os Melhores Contos Fantásticos

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 28 partes.

m udança positiva na disposição, na parte m ais alta ou m ais distante do quarto.

Um grande espelho — assim a princípio m e pareceu na confusão em que m e

achava — erguia-se agora ali, onde nada fora visto antes, e com o eu

cam inhasse para ele, no auge do terror, m inha própria im agem , m as com as

feições lívidas e m anchadas de sangue, adiantava-se ao m eu encontro, com

um andar fraco e cam baleante.

Assim parecia, digo eu, m as não era. Era m eu adversário — era Wilson

que então se erguia diante de m im , nos estertores de sua agonia. Sua m áscara

e sua capa j aziam ali no chão, onde ele as havia lançado. Nem um fio em todo

o seu vestuário — nem um a linha em todas as acentuadas e singulares feições

de seu rosto que não fossem , m esm o na m ais absoluta identidade, os meus

próprios!

Era Wilson, m as ele falava, não m ais num sussurro, e eu podia im aginar

que era eu próprio quem estava falando, enquanto ele dizia:

— Venceste e eu m e rendo. Contudo, de agora por diante, tu tam bém estás

m orto; m orto para o Mundo, para o Céu, e para a esperança! Em m im , tu

vivias; e, na m inha m orte, vê por esta im agem , que é a tua própria im agem ,

quão com pletam ente assassinaste a ti m esm o!

Tradução de Oscar Mendes

A.P. Tchekhov

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Não são os mitos fantásticos? Ainda mais quando recriados, caso do milenar mito de Fausto, transformado em dezenas de obras literárias, de Goethe a

Thomas Mann? E o maior contista da modernidade, isto é, a partir do final

do século XIX. Tchekhov (1860-1904), também deixou sua versão desse mito

milenar e tão atual do homem que vende ou tenta vender a alma ao diabo.

Não, claro. Tchekhov não é um autor de literatura fantástica, mas, neste conto específico, sim. E o fez sem se afastar do seu mundo ficcional, que é o de pessoas comuns, em geral pobres, dentro de situações cotidianas, grande universo "pequeno" com o qual ele renovou o conto mundial.

O sapateiro e a força m aligna

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ERA VÉSPERA DE NATAL. Fazia tem po que Mária roncava sobre o fogão. Todo o

querosene queim ara-se na lâm pada, m as Fiódor Nilov continuava sentado,

trabalhando. Teria deixado há m uito o trabalho e saído para a rua, m as o

freguês do Beco dos Sinos, que lhe encom endara, duas sem anas atrás, uns

canos de bota, viera na véspera, discutira e m andara concluir a encom enda,

sem falta, ainda antes da Missa do Galo.

— Vida de forçado! — rosnou Fiódor, enquanto trabalhava. — Uns estão

dorm indo faz m uito tem po, outros estão passeando, e você tem que ficar

sentado aí, com o Caim , cosendo couro, diabo sabe para quem ...

Para não adorm ecer sem querer, tirava a cada m om ento um a garrafa, que

estava sob a m esa, e bebia pelo gargalo; depois de cada gole, balançava a

cabeça e dizia alto:

— Por que, digam -m e por favor, os fregueses passeiam e eu devo ficar

cosendo para eles? Por que eles têm dinheiro e eu sou um m endigo?

Odiava todos os fregueses, especialm ente aquele que residia no Beco dos

Sinos. Era um senhor de ar som brio, cabelos com pridos, rosto am arelo, de

grandes óculos azuis e voz rouquenha. Tinha um sobrenom e alem ão, difícil de

pronunciar. Im possível perceber qual a sua condição social e de que se ocupava. Quando, duas sem anas atrás. Fiódor fora a sua casa, para tirar as

m edidas, encontrara-o sentado no chão, pulverizando algo num gral. Fiódor

não tivera tem po de dizer boa-tarde e o conteúdo do gral de repente se

incendiou com um a cham a verm elha, fulgurante, passando a sentir-se um

fedor de enxofre e penas queim adas,

enquanto o quarto se enchia de um a fum aça densa e rósea, que fez Fiódor espirrar um as cinco vezes. Voltando para casa, pensou: "Um a pessoa que

tem e a Deus não se ocupa de coisas assim ."

Esvaziada a garrafa. Fiódor colocou as botas sobre a m esa e ficou

pensativo. Apoiou a cabeça pesada com o punho e pôs-se a pensar em sua

pobreza, em sua vida difícil, m iserável, e depois nos ricos, em suas grandes

casas, carruagens e notas de cem rublos... Com o seria bom , diabo que os

carregue, se a essa gente rica se rachassem as casas, m orressem os cavalos,

desbotassem as peliças e os chapéus de zibelina! Com o seria bom , se os

ricaços se convertessem , pouco a pouco, em m endigos, não tivessem o que

com er, e o pobre sapateiro se tornasse um ricaço, passando ele próprio a

m ostrar sua valentia contra um pobre sapateiro, num a véspera de Natal.

Devaneando assim . Fiódor lem brou-se, de repente, de seu trabalho e abriu

os olhos.

"Que coisa!", pensou, exam inando as botas. "Faz m uito tem po que term inei os canos de bota e continuo sentado aqui. Tenho que levar a

encom enda ao freguês!"

Em brulhou seu trabalho num lenço verm elho, vestiu-se e saiu de casa.

Caía neve m iúda, áspera, que espetava o rosto com o alfinetes. Fazia frio, a noite estava escura, o chão, escorregadio, os lam piões a gás ardiam

palidam ente e, sem se saber por quê, a rua cheirava a querosene, de m odo que

Fiódor pôs-se a pigarrear e tossir. Gente rica passava de carruagem e cada

ricaço tinha nas m ãos um pernil de porco e um a garrafinha de vodca.

Mocinhas ricas espiavam para Fiódor das carruagens e dos trenós,

m ostravam -lhe a língua e gritavam , rindo:

— Mendigo! Mendigo!

Atrás de Fiódor, iam oficiais, estudantes, negociantes e generais, que

zom bavam dele:

— Beberrão! Beberrão! Sapateiro pagão! Alm a perdida! Mendigo!

Tudo aquilo era ofensivo, m as Fiódor perm anecia calado, apenas cuspia.

Quando encontrou, porém , o m estre de sapataria Kuzm á Lebiédkin, de

Varsóvia, que lhe disse: "Eu m e casei com m ulher rica, tenho agora

aprendizes trabalhando para m im , e você é um m endigo que não tem o que

com er". Fiódor não se conteve e correu atrás dele. Perseguiu-o até alcançar o Beco dos Sinos. Seu freguês m orava na quarta casa a partir da esquina, no

últim o andar. Para ir até seu apartam ento, era preciso atravessar um pátio

com prido e escuro, depois subir um a escada

escorregadia e m uito alta, que balançava sob os pés. Quando Fiódor entrou ali, o freguês estava, tal com o duas sem anas atrás, sentado no chão,

pulverizando algo no gral.

— Vossa Alta Nobreza, eu trouxe as botinhas! — disse Fiódor,

carrancudo.

O freguês levantou-se e pôs-se a experim entar, em silêncio, as botas.

Querendo aj udá-lo. Fiódor abaixou-se sobre um dos j oelhos e tirou-lhe a bota

usada, m as, no m esm o instante, levantou-se de um salto e recuou,

horrorizado, para a porta. Em vez de perna, o freguês tinha um a pata de

cavalo.

"Aí!", pensou Fiódor. "Nisso ë que está a coisa!"

Em prim eiro lugar, deveria fazer o sinal-da-cruz, depois deixar tudo e

correr para baixo. No m esm o instante, porém , refletiu que era a prim eira vez,

e provavelm ente a últim a, que encontrava a força m aligna e que seria estúpido

deixar de aproveitar seus serviços. Dom inou-se, por conseguinte, e resolveu

tentar a sorte. Colocando as m ãos atrás, para não se persignar, tossiu

respeitosam ente e com eçou:

— Dizem que não há coisa pior, nem m ais repugnante no m undo que a

força m aligna, m as eu penso. Vossa Alta Nobreza, que a força m aligna é a

m ais instruída. O diabo, perdoe-m e, tem pata de cavalo e rabo, m as, em

com pensação, é m ais inteligente que m uito estudante.

— Você m e agrada por essas palavras — disse o freguês, lisonj eado. —

Obrigado, sapateiro! Mas, que quer você?

Sem perda de tem po, o sapateiro queixou-se de seu destino. Com eçou

dizendo que, desde a infância, invej ara os ricos. Sem pre lhe doera o fato de

que nem todos os hom ens vivessem em grandes casas e passeassem sobre

bons cavalos. Por que, perguntava, era ele pobre? Em que era pior que Kuzm á

Lebiëdkin, de Varsóvia, que possuía casa própria e cuj a m ulher usava

chapeuzinho? Ele. Fiódor, tinha o m esm o nariz, as m esm as m ãos, pernas, cabeça, costas, que os ricos; por que, então, era obrigado a trabalhar, enquanto os dem ais passeavam ? Por que era casado com Mária e não com um a senhora

que cheirasse a perfum e? Em casa dos fregueses ricos, acontecia-lhe m uitas

vezes ver m oças bonitas, que não reparavam nele sequer, e apenas às vezes

riam , m urm urando entre si: "Que nariz verm elho tem esse sapateiro!"

Verdade que Mária era um a m ulher boa, bondosa, trabalhadeira, m as,

realm ente, tinha pouca instrução e m ão pesada, com a qual sabia m achucar de

verdade; quando se falava, em presença dela, de política ou

de outros assuntos de inteligência, introm etia-se e dizia bobagens trem endas.

— Que é que você quer, então? — interrom peu-o o freguês.

— Peço-lhe. Vossa Alta Nobreza. Diabo Ivânitch, que m e faça a bondade

de m e tornar um hom em rico!

— Pois não. Mas, para isso, você tem que m e entregar a alm a! Enquanto

os galos ainda não cantaram , vem cá e assina, nesse papel, que você m e

entrega a alm a.

— Vossa Alta Nobreza! — disse Fiódor com delicadeza. — Quando o

senhor m e encom endou os canos de bota, eu não lhe pedi pagam ento

adiantado. É preciso, antes, executar a encom enda e só depois exigir dinheiro.

— Ora, está bem ! — concordou o freguês.

Um a cham a refulgente surgiu de repente no gral, espalhou-se um a fum aça

densa e rósea e sentiu-se no quarto um fedor de penas queim adas e enxofre.

Depois que a fum aça dissipou-se. Fiódor esfregou os olhos e viu que j á não

era Fiódor, nem sapateiro, m as um a outra pessoa, de colete e correntinha, de

calças novas, e que estava sentado num a poltrona, j unto a um a grande m esa.

Dois lacaios serviam -lhe com ida, com profundas reverências, dizendo:

— Tenha a bondade de com er. Vossa Alta Nobreza!

Que opulência! Os lacaios serviram um grande pedaço de carneiro assado

e um prato fundo com pepinos; em seguida, trouxeram ganso assado; um

pouco depois, carne cozida de porco e raiz-forte. E com o tudo aquilo era

nobre, cheio de etiqueta! Fiódor com ia e, antes de cada prato, bebia um

copázio de excelente vodca, com o se fosse um general ou conde. Depois da

carne de porco, serviram -lhe cacha¹ com gordura de ganso, em seguida, um a om elete com toucinho e fígado frito. Não parava de com er, entusiasm ado.

Bem , que m ais? Serviram ainda pastelão com cebola, nabo cozido a vapor e

kvás². "Com o é que os senhores não estouram com um a com ida dessas?", pensou. Por fim , serviram -lhe um grande pote de m el. Depois do j antar,

apareceu o diabo de óculos azuis e perguntou-lhe, com profunda reverência:

— Está satisfeito com o j antar. Fiódor Pantieléitch?

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1 Espécie de papa espessa, à base de cereais. (N.T.)

2 Bebida ferm entada, m uito popular na Rússia. (N.T.)

Mas Fiódor não conseguia dizer palavra, tão agoniado sentia-se depois do j antar. Aquela fartura era desagradável, pesada, e, para se distrair, com eçou a exam inar a bota de sua perna esquerda.

— Por botas assim , eu não cobrava m enos de sete rublos e m eio. Quem foi

que as fez? — perguntou.

— Kuzm á Lebiédkin — respondeu o lacaio.

— Cham e aquele im becil!

Pouco depois, chegava Kuzm á Lebiédkin, de Varsóvia. Parou à porta, em

atitude respeitosa, e perguntou:

— O que m anda. Vossa Alta Nobreza?

— Cale-se! — gritou Fiódor e bateu o pé. — Não se atreva a falar e

lem bre-se de sua condição de sapateiro, não se esqueça que tipo de pessoa

você é! Idiota! Não sabe fazer botas! Vou te dar em cheio, na cara! O que vem

fazer aqui?

— Vim buscar dinheiro.

— Que dinheiro? Fora daqui! Volte no sábado! Hom em , dá-lhe um

pescoção!

Mas, no m esm o instante, lem brou-se de com o ele próprio fora tratado sem

consideração pelos fregueses, sentiu o coração opresso e, para se distrair, tirou do bolso a gorda carteira e pôs-se a contar o dinheiro. Havia m uito, m as

Fiódor queria m ais ainda. O diabo de óculos azuis trouxe-lhe outra carteira,

m ais gorda até, m as ele queria sem pre m ais, e quanto m ais contava, m enos

satisfeito se sentia.

Ao anoitecer, o m aligno trouxe a sua presença um a patroa alta, peituda, de

vestido verm elho, e disse-lhe que era sua nova esposa. Até tarde da noite,

ficou beij ando-a e com endo pão-de-ló. Depois, deitado sobre colchão m acio

de penas, virava-se de um lado para outro, não conseguindo adorm ecer.

Vinha-lhe um a sensação de m edo.

— Tenho m uito dinheiro — dizia à m ulher. — Olha que os ladrões são

capazes de entrar aqui em casa. Seria bom você ir espiar por aí, com um a

vela!

Não dorm iu a noite toda, levantando-se a cada m om ento, para verificar se

o baú estava intacto. De m anhãzinha, era preciso ir à m issa. Na igrej a, honra-

se do m esm o m odo o rico e o pobre. Quando Fiódor era pobre, rezava na

igrej a assim : "Perdoa. Senhor, a este pecador!" O m esm o dizia agora, depois de enriquecer. Qual era a diferença então? E, depois da m orte, o rico Fiódor

não seria enterrado em ouro, nem em diam antes, m as na m esm a terra negra

em que se enterrava o últim o dos

m endigos. Iria arder no m esm o fogo que os sapateiros. Sentia-se despeitado por tudo aquilo e, ao m esm o tem po, tinha um peso em todo o corpo, em

conseqüência do j antar; em lugar da oração, esgueiravam -se, para dentro de

sua cabeça, pensam entos sobre o baú de dinheiro, os ladrões, e sobre a alm a

que vendera, irrem ediavelm ente perdida.

Saiu da igrej a zangado. Para expulsar os pensam entos m aus, entoou, com o

fazia antes, um a canção a plenos pulm ões. Mas, apenas com eçara, acercou-se

dele um policial e disse-lhe com um a continência:

— Senhor, os cavalheiros não podem cantar na rua! O senhor não e um

sapateiro!

Fiódor encostou os om bros a um m uro e pôs-se a pensar no que faria para

se distrair.

— Senhor! — gritou-lhe o zelador de um a casa. — Não se apóie m uito no

m uro, vai suj ar a peliça!

Fiódor entrou num a venda e com prou a m elhor gaita-de-boca, depois foi

andando pela rua, tocando. Todos os transeuntes apontavam -no com o dedo,

rindo.

— E ë um senhor! — zom bavam dele os cocheiros. — Parece um

sapateiro...

— Pensa que os cavalheiros podem fazer baderna? — disse-lhe o policial.

— Só falta ir a um botequim !

— Senhor, um a esm olinha pelo am or de Deus! — im ploravam os

m endigos, cercando Fiódor por todos os lados. — Um a esm olinha!

Antes, quando era sapateiro, os m endigos não lhe davam atenção, m as

agora não o deixavam passar.

Em casa, foi recebido pela nova m ulher, vestida de casaquinho verde e saia

verm elha. Quis acariciá-la e j á levantara o braço para um safanão nas costas,

quando ela disse, zangada:

— Muj ique! Ignorante! Não sabe lidar com senhoras! Se gosta de m im ,

beij e-m e a m ão, m as não vou perm itir que m e bata.

"Vida de excom ungados!", pensou Fiódor. "Com o vive essa gente! Não se pode cantar, nem tocar gaita; nem brincar com um a m ulher... Irra!"

Apenas se sentara com a patroa para tom ar chá, apareceu o m aligno de

óculos azuis e disse:

— Bem . Fiódor Pantieléitch, eu cum pri fielm ente a m inha parte. Agora, o

senhor vai assinar um papelzinho e fazer o favor de m e acom panhar. Já teve

ocasião de saber o que significa a vida de rico, chega!

E arrastou Fiódor para o inferno, diretam ente para a fogueira, e os diabos acorreram de todas as partes, gritando:

— Bobalhão! Im becil! Burro!

No inferno, havia um fedor horrível de querosene, podia-se sufocar.

Mas, de repente, tudo desapareceu. Fiódor abriu os olhos e viu sua m esa,

as botas, a lam parina de latão. O vidro da lam parina estava preto e a pequena

cham a, que havia sobre o pavio, em itia, com o um a cham iné, fum aça

fedorenta. Ao lado, estava o freguês de óculos azuis, gritando zangado:

— Bobalhão! Im becil! Burro! Vou te ensinar um a coisa, trapaceiro!

Tom ou a encom enda duas sem anas atrás e as botas ainda não estão prontas!

Pensa que tenho tem po de vir a tua casa cinco vezes por dia, para buscar as

botas? Canalha! Anim al!

Fiódor sacudiu a cabeça e pôs-se a trabalhar nas botas. O freguês ficou

ainda m uito tem po dizendo im propérios, am eaçando-o. Depois que ele,

finalm ente, se acalm ou. Fiódor perguntou-lhe, carrancudo:

— Com o que se ocupa, patrão?

— Fabrico roj ões e fogos de bengala. Sou pirotécnico.

Tocaram as m atinas. Fiódor entregou as botas, recebeu o dinheiro e foi à

igrej a.

Rua acim a e abaixo, passavam carruagens e trenós com m antas de pele de

urso. Pela calçada, ao lado da gente do povo, cam inhavam com erciantes,

senhoras, oficiais... Mas Fiódor não sentia j á invej a e não m aldizia m ais a

sorte. Pareceu-lhe que ricos e pobres viviam igualm ente m al. Uns tinham a

possibilidade de andar de carruagem , outros, de cantar a plenos pulm ões e

tocar gaita, m as, em sum a, esperava a todos o m esm o túm ulo e nada existia na

vida que m erecesse a pena de entregar ao m aligno a m enor partícula sequer da

alm a.

Tradução de Boris Schnaiderman

Villiers de l' I sle Adam

Um estranho e, por que não, macabro prolongamento do amor; em clima e

estilo românticos. A fantasia, em crescendo de puro delírio, substituindo aos poucos a realidade. Em outras palavras, o delírio é puro fantástico, e o fantástico é delírio transcriado. Um olhar sobre o mundo que a história jamaisregistra — só as histórias, as ficções. E um autor quase ausente dos catálogos editoriais brasileiros. "Vera" não é o conto mais explicitamente fantástico dos Contes cruels, de Auguste Villiers de l'Isle Adam (1838-1889), mas é sua obra-prima, aqui publicada pela primeira vez, em uma tradução

cuidadosa e sensível.

Vera

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A senhora condessa d'Osmoy.

"A forma do corpo lhe é mais essencial que sua

substância."

A fisiologia m oderna.

"O AMOR É MAIS FORTE DO QUE A MORTE", disse Salom ão: "Sim , seu m isterioso poder é ilim itado."

Caía a tarde sobre Paris, em um outono recente. Nas proxim idades

som brias do faubourg Saint-Germ ain, carros rolavam , j á acesos, regressando tarde do bosque. Um deles parou diante do portal de um a vasta m ansão

senhorial, circundada por j ardins seculares; acim a do arco destacava-se o

brasão de pedra com as arm as da antiga fam ília dos condes d'Athol: sobre

fundo azul, a estrela central em prata com a divisa Pallida Victrix sob a coroa debruada de arm inho do barrete principesco. Os pesados batentes se abriram .

Um hom em que teria entre trinta e 35 anos, de luto, com o rosto m ortalm ente

pálido, desceu. Na escadaria exterior, criados taciturnos elevavam archotes.

Sem vê-los, ele subiu os degraus e entrou. Era o conde d'Athol.

Cam baleando, subiu os degraus brancos que conduziam àquele quarto

onde, na m esm a m anhã, ele deitara, num ataúde forrado de veludo e coberto

de violetas, entre ondas de cam braia de linho, a senhora de sua volúpia, sua

pálida esposa. Vera, seu desespero.

Lá em cim a, a porta silenciosa deslizou sobre o tapete; ele ergueu as

cortinas.

Todos os obj etos estavam no lugar em que a condessa os deixara na

véspera. A m orte, súbita, a havia fulm inado. Na noite anterior, sua bem -

am ada se desvanecera em alegrias tão profundas, se perdera em abraços tão

sublim es, que seu coração, alquebrado pelas delícias, falhara: seus lábios se

fizeram bruscam ente úm idos, de um púrpura m ortal. Mal tivera tem po de dar

em seu m arido um beij o de adeus, sorrindo, sem um a

única palavra; em seguida, seus longos cílios, com o véus de luto, se baixaram sobre a bela noite de seus olhos.

O dia sem nom e se passara.

Por volta do m eio-dia, o conde d'Athol, após a m edonha cerim ônia do

j azigo fam iliar, havia dispensado no cem itério o cortej o negro. Em seguida,

fechando-se, sozinho, com a defunta, entre as quatro paredes de m árm ore,

cerrara as suas costas a porta de ferro do m ausoléu. O incenso queim ava sobre

um tripé, diante do ataúde; um a coroa lum inosa de lam parinas, na cabeceira

da j ovem defunta, a recam ava de estrelas.

De pé, m editativo, tendo com o único sentim ento um a ternura sem

esperança, ele havia ficado lá o dia todo. Às seis horas, ao crepúsculo, deixara o local sagrado. Fechando o sepulcro, tirara da fechadura a chave de prata e,

erguendo-se sobre o últim o degrau da soleira, j ogara-a suavem ente no interior

do túm ulo. Lançara-a sobre a laj e interior através do ornam ento em form a de

trevo que se erguia acim a do portal. Por que isso?... Com certeza devido a

algum a resolução m isteriosa de não m ais regressar.

E agora ele reencontrava o quarto vazio.

A j anela, sob as vastas pregas da cortina de caxem ira violeta com brocado

dourado, estava aberta: um últim o raio de sol ilum inava, entre m olduras de

m adeira antiga, o grande retrato da falecida. O conde viu, ao seu redor, o

vestido j ogado, na véspera, sobre um a poltrona; sobre a lareira, as j óias, o

colar de pérolas, o leque parcialm ente fechado, os pesados frascos de perfum e

cuj o odor ela não sentiria m ais. Sobre o leito de ébano com colunas retorcidas, ainda desfeito, j unto ao travesseiro em que o lugar da cabeça adorada e divina ainda era visível em m eio às rendas, ele notou o lenço averm elhado pelas

gotas de sangue, no qual sua j ovem alm a batera asas por um instante, o piano

aberto sustentando um a m elodia eternam ente inacabada; os crisântem os que

ela colhera, na serra, e que m orriam nos antigos vasos de porcelana de Saxe;

e, ao pé da cam a, sobre um a peliça negra, os chinelinhos de veludo oriental,

em cuj a parte superior um a divisa risonha de Vera brilhava, bordada em

pérolas: Ver Vera é am á-la. Os pés nus da bem -am ada brincavam ali ontem

pela m anhã, beij ados, a cada passo, pela penugem dos cisnes! E ali, ali, na

som bra, o relógio de parede, cuj a m ola ele havia quebrado, para não ouvir

m ais o soar das horas.

E assim ela havia partido!... Para onde!... Viver, agora? Com que pro-pósito?... Era im possível, absurdo.

E o conde se perdia em pensam entos obscuros.

Recordava-se de toda a existência passada. Seis m eses haviam transcorrido desde aquele casam ento. Não fora no exterior, durante o baile de um a

em baixada, que ele a havia visto pela prim eira vez?... Sim . Aquele instante

ressuscitava diante de seus olhos, com m uita clareza. Ela lhe aparecia ali,

radiante. Naquela noite, seus olhares haviam se encontrado. Haviam se

reconhecido, intim am ente, de natureza sem elhante, e destinados a se am ar

para sem pre.

As segundas intenções, os sorrisos que observam , as insinuações, todas as

dificuldades que suscita o m undo para retardar a felicidade inevitável

daqueles que se pertencem haviam desaparecido diante da certeza tranqüila

que am bos tiveram , no m esm o instante, um acerca do outro.

Vera, cansada da insipidez cerim oniosa de seu círculo, tinha vindo na

direção dele quando a prim eira contrariedade se apresentou, sim plificando,

assim , de m aneira augusta, os passos banais em que se perde o tem po precioso

da vida.

Ah! Com o, às prim eiras palavras, os vãos j ulgam entos daqueles que lhes

eram indiferentes pareceram -lhes um a revoada de pássaros noturnos

regressando às trevas! Que sorriso trocaram ! Que abraços inefáveis!

No entanto, sua natureza era das m ais estranhas, verdadeiram ente! Eram

dois seres dotados de sentidos m aravilhosos, m as exclusivam ente terrestres.

As sensações se prolongavam neles com um a força inquietante. Faziam , de

tão intensas, com que perdessem a consciência de si m esm os. Em

com pensação, certas idéias, a da alm a, por exem plo, do infinito, mesmo de

Deus, eram com o que veladas ao seu entendim ento. A fé de um grande

núm ero de pessoas nas coisas sobrenaturais não passava, para eles, de m otivo

para vagas surpresas: carta lacrada com a qual não se preocupavam , não se

encontrando em posição de condenar ou legitim ar. Do m esm o m odo,

reconhecendo com clareza que o m undo lhes era estranho, isolaram -se, desde

o início de sua união, naquela m ansão velha e som bria, onde a espessura dos

j ardins am ortecia os barulhos vindos de fora.

Ali, os dois am antes se em balsam aram no oceano dessas alegrias lânguidas

e perversas em que o espírito se m escla à carne m isteriosa! Esgotaram a

violência dos desej os, os frêm itos e os carinhos apaixonados. Tornaram -se o

palpitar do ser um do outro. Neles, o espírito penetrava tão bem o corpo que

suas form as lhes pareciam intelectuais, e a m alha incandescente de seus beij os unia-os num a fusão ideal. Longa fascinação! Subitam ente, o encanto se

desfez; o acidente terrível os desuniu;

seus braços se desenlaçaram . Que som bra levara-lhe sua querida m orta?

Morta! Não. Acaso a alm a dos violoncelos é arrebatada pelo grito de um a

corda que se parte?

As horas se passaram .

Ele observava, pela vidraça da j anela, a noite que avançava nos céus: e a

noite lhe surgia com o algo pessoal; parecia-lhe um a rainha cam inhando, com

m elancolia, ao exílio, e a presilha de diam ante em sua túnica de luto. Vênus,

brilhava solitária sobre as árvores, perdida nas profundezas do azul.

"É Vera", ele pensou.

Ao pronunciar esse nom e, em voz baixa, estrem eceu com o um hom em que

desperta; em seguida, erguendo-se, olhou ao seu redor.

Os obj etos, no quarto, estavam agora ilum inados por um a luz até então

im precisa, a luz de um a lam parina, azulando as trevas, e que a noite,

ganhando o firm am ento, fazia parecer um a outra estrela. Era a lam parina, com

perfum e de incenso, de um a iconóstase, relíquia fam iliar de Vera. O tríptico,

de m adeira antiga e valiosa, estava suspenso, por sua espartaria russa, entre o espelho e o quadro. Um reflexo do ouro em seu interior caía, vacilante, sobre

o colar, entre as j óias na lareira.

A auréola da Madona em hábitos celestes brilhava, decorada pela rosácea

da cruz bizantina cuj o lineam ento, delicado e verm elho, fundido no reflexo,

som breava com um toque de sangue o oriente ilum inado das pérolas. Desde a

infância. Vera pousava com com paixão seus grandes olhos sobre o rosto

m aternal e tão puro da Madona hereditária, e por sua natureza, que pena!, não

podendo consagrar-lhe m ais do que um am or supersticioso, era o que lhe

oferecia às vezes, ingênua, pensativam ente, quando passava diante da

lam parina.

O conde, diante dessa visão, tocado pelas lem branças dolorosas no m ais

profundo de sua alm a, ergueu-se, soprou rapidam ente o lum e santo e, tateando

no escuro, esticou a m ão na direção de um torçal, que fez soar.

Um criado apareceu: era um velho vestido de preto; segurava um a

lam parina, que colocou diante do retrato da condessa. Quando se virou, foi

com um arrepio de terror supersticioso que viu seu m estre de pé, sorrindo

com o se nada tivesse acontecido.

— Ray m ond — disse tranqüilam ente o conde —, esta noite estam os

m ortos de cansaço, a condessa e eu; sirva a ceia por volta das dez horas.

Aliás, decidim os nos isolar ainda m ais, aqui, a partir de am anhã. Nenhum de

m eus serviçais, exceto você, deverá passar a noite na m ansão.

Pague-lhes o salário de três anos, e que se retirem . Em seguida, feche a barra do portal; acenda os castiçais lá em baixo, na sala de j antar; você será

suficiente para nós dois. Não receberem os m ais ninguém no futuro.

O velho trem ia e o fitava atentam ente.

O conde acendeu um charuto e desceu até os j ardins.

O criado pensou, a princípio, que a dor, por dem ais difícil de suportar, por

dem ais desesperada, havia enlouquecido o espírito de seu m estre. Conhecia-o

desde a infância; com preendeu, no m esm o instante, que o choque de um

despertar excessivam ente súbito poderia ser fatal a esse sonâm bulo. Seu dever

era, em prim eiro lugar, respeitar um segredo com o aquele.

Baixou a cabeça. Um a cum plicidade devotada a esse sonho religioso?

Obedecer?... Continuar a servi-los sem levar em conta a Morte? Que estranha

idéia!... Teria ela um a noite?... Am anhã, am anhã, ai!... Ah! Quem saberia?...

Talvez!... Mas, afinal, um proj eto sagrado! Com que direito ele refletia?...

Saiu do quarto, executou as ordens à risca e, na m esm a noite, a existência

insólita com eçou.

Tratava-se de criar um a m iragem terrível.

O incôm odo dos prim eiros dias se apagou rapidam ente. Ray m ond. a princípio com estupor, depois com um a espécie de deferência e de ternura,

esforçou-se tanto em ser natural que três sem anas ainda não se haviam

passado e ele se sentia, em alguns m om entos, quase crédulo, de bom grado.

Suas reservas esvaneciam ! Às vezes, experim entando um a espécie de

vertigem , tinha necessidade de se dizer que a condessa estava positivam ente

defunta. Entregava-se a esse j ogo fúnebre e esquecia a cada instante a

realidade. Logo lhe era necessário m ais do que um a reflexão para se

convencer e retornar ao seu norm al. Viu que acabaria por se abandonar por

inteiro ao m agnetism o assustador que o conde espalhava pouco a pouco ao

redor deles. Tinha m edo, um m edo indeciso, suave.

D'Athol, com efeito, vivia inteiram ente na inconsciência da m orte de sua

bem -am ada! Não tinha outra escolha senão senti-la sem pre presente, tanto a

form a da j ovem estava m isturada a sua. Ora lia em voz alta, num banco do

j ardim , nos dias de sol, as poesias que ela apreciava; ora, à noite, j unto ao

fogo, as duas xícaras de chá sobre um a m esinha, conversava com a ilusão

sorridente, sentada, a seus olhos, na outra poltrona.

Os dias, as noites, as sem anas voavam . Nenhum dos dois sabia o que

realizavam . Fenôm enos singulares se davam agora, ou então tornava-se

difícil distinguir o ponto onde o im aginário e o real eram idênticos. Um a presença flutuava no ar: um a form a se esforçava em transparecer, em se

entrelaçar no espaço tornado indefinível.

D'Athol vivia duas vidas, com o um visionário. Um rosto suave e pálido,

vislum brado com o um raio, entre um piscar de olhos e outro; um acorde frágil

tocado no piano, de repente; um beij o que lhe fechava a boca no m om ento em

que ia falar, afinidades de pensam entos fem ininos que despertavam nele, em

resposta ao que dizia; um a tal duplicação de si m esm o a ponto de fazê-lo

sentir, com o em um nevoeiro fluido, o perfum e vertiginosam ente doce de sua

bem -am ada j unto de si; e, à noite, entre vigília e sono, ouvia palavras em voz baixa: tudo indicava um único fato. A negação da Morte elevada, enfim , a um

poderio desconhecido!

Um a vez, d'Athol a sentiu e viu tão bem ao seu lado que a tom ou nos

braços: m as esse m ovim ento fez com que ela se dissipasse.

— Criança! — m urm urou ele, sorrindo.

E dorm iu com o um am ante recusado por sua sorridente e sonolenta am ada.

No dia de seu aniversário, colocou, por brincadeira, um a perpétua no

buquê que depositou sobre o travesseiro de Vera.

— Já que ela acha que está m orta — disse.

Graças à profunda e onipotente vontade de M. d'Athol, que, pela força do

am or, forj ava a vida e a presença de sua m ulher na m ansão solitária, essa

existência acabara por se transform ar num a m agia obscura e persuasiva. O

próprio Ray m ond j á não sentia m ais qualquer pavor, habituando-se

gradualm ente a essas im pressões.

Um vestido de veludo negro percebido na curva de um cam inho; um a voz

risonha que o cham ava no salão; o retinir da cam painha pela m anhã, ao

acordar, com o outrora; tudo isso se tornara fam iliar: dir-se-ia que a m orta

brincava de esconde-esconde, com o um a criança. Ela se sentia tão am ada! Era

bastante natural.

Um ano transcorrera.

Na noite do aniversário de m orte da esposa, o conde, sentado j unto ao

fogo, no quarto de Vera, acabava de ler para ela um a trova florentina:

Calím aco. Fechou o livro; depois, servindo-se de chá:

— Douschka — disse ele —, você se lem bra do Vale das Rosas, das

m argens do Lahn, do Castelo das Quatro Torres?... Esta história lem brou

essas coisas, não é m esm o?

Levantou-se e, no espelho azulado, viu-se m ais pálido que o habitual.

Pegou um bracelete de pérolas em um copo e observou as pérolas

atentam ente. Vera não as havia tirado do braço, havia pouco, antes de se

despir? As pérolas ainda estavam m ornas e seu nácar m ais suave, com o pelo

calor de sua pele. E a opala daquele colar siberiano, que tam bém am ava o

belo seio de Vera a ponto de em palidecer, com o se adoentada, em sua

arm ação de ouro, caso a j ovem a esquecesse por algum tem po! Outrora, a

condessa am ava por esse m otivo a pedra fiel!... Esta noite, a opala brilhava

com o se acabasse de ser rem ovida, com o se o sublim e m agnetism o da bela

falecida ainda a penetrasse. Recolocando no lugar o colar e a pedra preciosa, o conde tocou por acaso o lenço de cam braia de linho cuj as gotas de sangue

estavam úm idas e verm elhas com o cravos sobre a neve!... Ali, sobre o piano,

quem , afinal, havia virado a página final da m elodia do passado? Ora!, a

lam parina sagrada se havia acendido no relicário! Sim , sua cham a dourada

lançava um a luz m ística sobre o rosto de olhos fechados da Madona! E

aquelas flores orientais recém -colhidas, a desabrochar nos antigos vasos de

porcelana de Saxe, que m ão acabava de colocá-las ali? O quarto parecia

alegre e cheio de vida, de um a form a m ais significativa e m ais intensa do que

o habitual. Mas nada podia surpreender o conde! Tudo lhe parecia tão norm al

que ele sequer prestou atenção na hora que soava naquele relógio im obilizado

fazia um ano.

Naquela noite, contudo, dir-se-ia que, do fundo das trevas, a condessa

Vera se esforçava de m odo sublim e para regressar àquele quarto totalm ente

im pregnado de sua pessoa! Deixara ali tanto de si! Tudo o que havia

constituído sua existência a atraía de volta àquele local. Seu encanto flutuava ali; a força intensa exercida pela vontade apaixonada de seu m arido deviam

ter desatado os vagos laços do Invisível ao redor dela!...

Ela era necessária ali. Tudo o que am ava estava naquele lugar.

Devia ter vontade de se ver sorrir m ais um a vez naquele espelho

m isterioso onde havia tantas vezes adm irado seu rosto com a brancura do

lírio! A adorável m orta, lá em baixo, se sobressaltara, sem dúvida, em m eio a

suas violetas, sob as lam parinas apagadas; a divina m orta estrem ecera, no

j azigo, sozinha, observando a chave de prata lançada sobre as pedras.

Tam bém queria vir até ele! E sua vontade se perdia na idéia do incenso e do

isolam ento. A Morte só é um a circunstância definitiva para aqueles que

esperam os céus, m as a Morte, e os Céus, e a Vida, para ela,

não eram os abraços que trocavam ? E o beij o solitário de seu m arido atraía seus lábios na penum bra. E o som passado das m elodias, as palavras

inebriadas de outrora, os tecidos que cobriam seu corpo e retinham seu

perfum e, aquelas pedrarias m ágicas que a desej avam , em sua obscura

sim patia — e sobretudo a im ensa e absoluta im pressão de sua presença,

opinião com partilhada ao fim pelas próprias coisas, tudo a cham ava àquele

local, e a atraía fazia tanto tem po, e tão im perceptivelm ente, que, curada

enfim da Morte sonolenta, só o que faltava ali era Ela própria!

Ah!, as idéias são seres vivos!... O conde havia escavado no ar a form a de

seu am or, e era necessário que esse vazio fosse preenchido pelo único ser que

lhe era hom ogêneo; de m odo contrário, o Universo desabaria. A im pressão,

nesse m om ento, definitiva, sim ples, absoluta, era de que ela devia estar ali,

dentro do quarto! Ele tinha um a certeza tão tranqüila desse fato quanto de sua própria existência, e todas as coisas ao seu redor estavam saturadas com essa

convicção. Podia-se ver! E, com o só o que faltava era a própria Vera,

tangível, exterior, era im perativo que ela ali se encontrasse e que o grande

Sonho da Vida e da Morte entreabrisse por um m om ento suas portas infinitas!

O cam inho da ressurreição havia sido enviado a ela pela fé! Um a gargalhada

lím pida e m usical ilum inou com sua alegria o leito nupcial; o conde se virou.

E ali, diante de seus olhos, feita de vontade e de lem brança, apoiada nos cotovelos, etérea, sobre o travesseiro de rendas, a m ão segurando os pesados

cabelos negros, a boca deliciosam ente entreaberta num sorriso que encerrava

um paraíso de delícias, linda de m orrer, enfim !, a condessa Vera o fitava,

ainda sonolenta.

— Roger!... — disse ela, com um a voz distante.

Ele se aproxim ou. Seus lábios se uniram num a alegria divina, extasiada,

im ortal!

E eles se deram conta, então, de que eram , realm ente, um único ser. As

horas roçaram , em um vôo alheio, esse êxtase em que se m esclavam , pela

prim eira vez, a terra e o céu.

Subitam ente, o conde d'Athol estrem eceu, com o que atingido por um a

rem iniscência fatal.

— Ah!, agora eu m e lem bro!... — disse ele. — Mas o que faço? Você está

m orta!

No m esm o instante, diante dessa palavra, a m ística lam parina da

iconóstase se apagou. A luz pálida da m anhã — um a m anhã banal, cinzenta e

chuvosa — penetrou no quarto, filtrada pelos interstícios das

cortinas. As velas em palideceram e se extinguiram , subsistindo apenas a fum aça acre que se elevava de seus pavios rubros; o fogo desapareceu sob

um a cam ada de cinzas m ornas; as flores m urcharam e secaram em poucos

instantes; o pêndulo do relógio voltou gradualm ente a sua im obilidade. A

estabilidade de todos os obj etos desapareceu subitam ente. A opala, m orta, j á

não brilhava; as m anchas de sangue tam bém desbotaram , sobre a cam braia de

linho, ao seu lado; e, desaparecendo entre os braços desesperados que

desej avam em vão continuar a estreitá-la, a visão branca e ardente retornou

aos ares e ali se perdeu. Um suspiro débil de adeus, distinto, longínquo,

alcançou a alm a de Roger. O conde se pôs de pé; dava-se conta naquele

m om ento de que estava sozinho. Seu sonho acabava de se dissipar,

subitam ente; ele rom pera o fio m agnético de sua tram a radiante com um a

única palavra. A atm osfera, agora, era a dos defuntos.

Com o aquelas gotas de vidro em form a de lágrim a, agregadas de m aneira

ilógica, e no entanto tão sólidas que um golpe de m artelo sobre a parte m ais espessa não conseguiria quebrá-las, m as que se transform am em súbito e

im palpável pó se a extrem idade m ais fina do que a ponta de um a agulha se

parte, tudo se dissolvera.

— Oh! — m urm urou ele. — Então term inou! Ela se foi!... Está com -

pletam ente só! Qual é o cam inho, agora, para chegar até você? Indique-m e o

cam inho que pode m e conduzir até você!...

Subitam ente, com o um a resposta, um obj eto brilhante caiu do leito nupcial

sobre a peliça negra, com um ruído m etálico: um raio do hediondo dia

terrestre o ilum inou!... O abandonado se abaixou, apanhou-o, e um sorriso

sublim e ilum inou seu rosto, ao reconhecer o obj eto: era a chave do túm ulo.

Tradução de Adriana Lisboa

Charles Dickens

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Um só autor, duas vertentes: no primeiro conto, a obra-prima "O sinaleiro", o fantástico ligado ao sobrenatural (um viés constante do gênero); e no outro,

"A história dos duendes que raptaram um coveiro" — para quem NÃO

acredita em duendes —, o fantástico resgatado ou recriado a partir dos contos populares/folclóricos. Num e noutro, a mão firme de um mestre. Ah, sim, o nome dele é Charles Dickens (1812-1870), autor; para quem não sabe, de

romances marcantes da literatura mundial, como Oliver Twist e David

Copperfield. entre outros. "O sinaleiro", presente em outras antologias (inclusive na minha Os 100 melhores contos de crime e mistério da literatura

universal), aparece aqui em nova tradução. Já o segundo conto recupera uma tradução de José Paulo Paes, em sua homenagem.

O sinaleiro

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— ALOOÔ! AÍ EMBAIXO!

Quando ouviu a voz gritar para ele, o sinaleiro estava à porta do posto,

segurando um a bandeirola enrolada em sua haste curta. Considerando-se a

natureza do terreno, não se im aginaria que o hom em pudesse duvidar da

direção da voz; entretanto, em vez de erguer os olhos para o alto do corte

íngrem e quase sobre sua cabeça, onde eu m e encontrava, deu m eia-volta e

observou os trilhos. Havia algo fora do com um no m odo com o o fez, em bora

eu não conseguisse defini-lo nem se m inha vida dependesse disso. Mas foi

m arcante o suficiente para cham ar a atenção, em bora a figura do hom em

estivesse dim inuída e som breada na trincheira profunda, e eu, bem acim a

dele, tão em bebido pelo fulgor do raivoso pôr-do-sol que protegera os olhos

com a m ão antes m esm o de avistá-lo.

— ALOOÔ! AÍ EMBAIXO!

Após olhar os trilhos, ele deu m eia-volta de novo e, erguendo os olhos, m e

viu la no alto.

— Existe algum cam inho por onde eu possa descer e falar com o senhor?

Ele continuou m e encarando sem responder e eu continuei fixando-o lá

em baixo, sem pressioná-lo com a repetição de m inha pergunta frívola. Neste

exato m om ento senti um a vaga vibração na terra e no ar, transm utando-se

rapidam ente num a violenta pulsação, e um j orro repentino avançou até m im e

m e fez recuar rapidam ente, com o se aquilo

pudesse arrastar-m e para baixo. Depois que o vapor do trem veloz chegou a m inha altura e passou por m im , dissem inando-se à distância através da

paisagem , olhei de novo para o hom em lá em baixo e o vi enrolando a

bandeirola que exibira enquanto o trem passava.

Repeti m inha pergunta. Depois de um a pausa em que pareceu olhar-m e

fixam ente, ele apontou com a bandeirola enrolada para um ponto situado no

nível de terreno onde eu m e encontrava, a uns duzentos ou trezentos m etros

de distância. "Está bem !", gritei para ele, e fui m e dirigindo para lá. Só depois de m uito esquadrinhar a m inha volta, descobri um cam inho descendente

aberto num irregular ziguezague. Desci por ele.

O corte do terreno era extrem am ente profundo, caindo a pique de m odo

inesperado; feito num a rocha úm ida e escorregadia, tornava-se m ais viscoso e

m olhado à m edida que eu avançava. Por esses m otivos, o cam inho m e

pareceu longo o bastante para que eu lem brasse o estranho ar de relutância ou

com pulsão com que fora indicado.

Quando desci pelo ziguezague o suficiente para avistar de novo o sinaleiro,

vi-o em pé entre os trilhos por onde o trem acabara de passar, com o se

estivesse esperando eu aparecer. Com a m ão esquerda no queixo, o cotovelo

esquerdo descansando na m ão direita e o antebraço cruzando-lhe o peito, sua

atitude era de tal expectativa e vigilância que parei um instante, pensativo.

Retom ei a descida, chegando finalm ente ao nível da estrada de ferro. Ao

m e aproxim ar do hom em notei que era som brio, am arelado, com um a barba

escura e sobrancelhas espessas. Eu j am ais vira local tão solitário e lúgubre

com o aquele em que seu posto se situava. Nos dois lados, um m uro de pedras

agudas e desiguais pingando um idade excluía qualquer vista, exceto um a

faixa do céu; de um lado, a perspectiva era apenas um prolongam ento torto dessa grande m asm orra; a perspectiva na outra direção, m ais curta, term inava

num a sinistra luz verm elha, e a entrada ainda m ais sinistra de um túnel negro

cuj a arquitetura m aciça transm itia um ar bárbaro, deprim ente e repulsivo. O

sol alcançava tão pouco esse local que se exalava dele um cheiro terroso,

m orto, e um corredor de vento gelado soprava tão forte ali que fui percorrido

por um calafrio, com o se tivesse deixado o m undo natural.

Antes que o hom em se m ovesse, aproxim ei-m e dele o bastante para tê-lo

tocado. Sem tirar os olhos de m im por um segundo, ele recuou um passo e

ergueu a m ão.

Com o eu j á disse, ocupar tal posto era um a tarefa solitária, e isso cham ara a m inha atenção quando o divisei lá de cim a, à distância. Qualquer visitante

devia ser um a raridade ali, im aginei; esperava não ser um a raridade

indesej ada. O sinaleiro via em m im apenas alguém confinado a lim ites

estreitos a vida toda e que, finalm ente livre, sentira seu interesse despertado por aquelas grandes obras. Com tal obj etivo m e dirigira a ele; contudo, estou

longe de ter certeza sobre os term os que usei, pois além de não m e sentir

confortável iniciando um a conversa, havia algo no hom em que m e intim idava.

Ele olhou de um m odo bastante estranho para a luz verm elha próxim a à

boca do túnel, investigando tudo à volta dela, com o se desse por falta de algo.

A seguir, fitou-m e de novo.

— Tam bém ficava encarregado daquela luz, não?

Respondeu em voz baixa:

— O senhor não sabe que fico?

Então, enquanto eu esquadrinhava seus olhos fixos e o rosto saturnino, um pensam ento m onstruoso m e ocorreu: o de que tinha diante de m im um espírito

e não um hom em . A partir dali cogitei se ele não teria um desequilíbrio

m ental.

Recuei um passo. Ao fazer isso, no entanto, detectei em seus olhos um

certo m edo latente de m im . Isso pôs em fuga o pensam ento m onstruoso.

— O senhor m e olha com o se tivesse pavor de m im — disse eu, forçando

um sorriso.

— Estava em dúvida se j á o tinha visto antes — respondeu.

— Onde?

Apontou a luz verm elha na boca do túnel.

— Lá? — disse eu.

— Sim — disse ele (m as sem em itir som ), vigiando-m e atentam ente.

— Meu bom am igo, o que faria eu lá? Sej a com o for, pode ter certeza de

que nunca estive naquele lugar.

— Acho que posso — disse ele. — É, com certeza, posso.

Então ficou m ais tranqüilo, assim com o eu. Respondeu prontam ente as

m inhas observações, e com palavras bem escolhidas. Tinha m uito a fazer ali?

Sim ; isto é, tinha bastante responsabilidade, que lhe exigia exatidão e

vigilância; m as quanto ao trabalho efetivo — trabalho braçal — era quase

nenhum . Mudar o sinal, aj ustar aquelas luzes e m anobrar essa m anivela de

ferro de vez em quando era tudo o que tinha a fazer em term os de trabalho

m anual. Quanto às longas e solitárias horas que eu

parecia encarar com o um a grande carga, ele só podia dizer que a rotina de sua vida m odelara-se dessa form a, e j á se acostum ara com ela. Aprendera sozinho

um a língua ali em baixo — se é que conhecê-la superficialm ente e esboçar

idéias próprias e cruas de sua pronúncia podia ser cham ado de aprendizado.

Tam bém trabalhara com frações e decim ais, e tentara um pouco de álgebra,

m as desde garoto fora fraco em núm eros. Quando em serviço, precisava ficar

sem pre naquele canal de ar úm ido, sem nunca subir e receber um pouco de sol

entre os altos m uros de pedra? Ora, isso dependia das épocas e circunstâncias.

Sob determ inadas condições havia m enos m ovim ento na linha férrea, o

m esm o valendo para certas horas do dia e da noite. Com tem po bom , escolhia

m om entos para subir um pouco além daquelas som bras inferi ores; m as com o

podia ser cham ado pelo sino elétrico a qualquer instante, e com o ficar atento a ele redobrava sua ansiedade, o benefício era m enor do que eu poderia supor.

Levou-m e a seu posto, onde havia um fogo aceso, a m esa com um livro

oficial onde tinha que fazer certas anotações, um instrum ento telegráfico com

seu m ostrador e ponteiros, e o pequeno sino que m encionara. Quando m e

desculpei por observar que sua instrução era bom e, acrescentei — esperava

poder dizê-lo sem ofensa —, talvez m ais de que seu cargo pedia, ele replicou

que leves discrepâncias desse tipo geralm ente estavam presentes em grandes

grupos de hom ens; que tinha conhecim ento da ocorrência disso em fábricas,

na força policial e até m esm o naquele últim o e desesperado recurso, o

exército; e que sabia ser m ais ou m enos assim na equipe de qualquer grande

estrada de ferro . Quando j ovem (se é que eu podia acreditar nisso, vendo-o

naquela cabana; ele m al o conseguia), havia estudado filosofia da natureza e

freqüentara palestras; m as vivera desregradam ente, desperdiçara as oportunidades, decaíra e j am ais se erguera de novo. Não tinha nenhum a

queixa a fazer. Fizera a cam a e deitara nela. Era tarde dem ais para fazer outra.

Tudo o que condensei aqui foi dito por ele de m odo tranqüilo, com graves

olhares escuros divididos entre m im e o fogo. Lançava na conversa a palavra

"senhor" de vez em quando, especialm ente ao referir-se a sua j uventude —

com o se m e pedisse para entender que não reivindicava nada senão o que eu

descobria nele. Por diversas vezes foi interrom pido pelo sino, e precisou ler as m ensagens e enviar respostas. Outra vez teve que perm anecer fora do posto,

Continuar: parte 15 de 28