Os Melhores Contos Fantásticos

Flávio Moreira da Costa · Capítulo 1 de 2 · parte 20/28

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Os Melhores Contos Fantásticos

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 28 partes.

levanta, j á que em geral fica sentada distraída no chão, se levanta e estica o pescoço e tenta ver por sobre as cabeças de seu rebanho com o um pastor antes

da tem pestade.

É sem dúvida um hábito das crianças, no seu j eito indom ado e im pulsivo,

fazer tais alegações, m as as de Josefina não são tão infundadas quanto as das

crianças. Por certo ela não nos salva e não nos dá forças, é fácil para alguém posar de salvador do nosso povo, habituado que ele está ao sofrim ento,

tem erário, rápido nas decisões, fam iliarizado com a m orte, acanhado apenas

na aparência, na atm osfera de despreocupada audácia que respira sem cessar,

e além disso tão prolífico quanto coraj oso; é fácil, digo, alguém posar, a posteriori, de salvador do nosso povo, que de algum m odo sem pre conseguiu se salvar, m esm o a custo de sacrifícios que deixam os historiadores — em

geral ignoram os por com pleto a pesquisa histórica — horrorizados. É tam bém

verdade, entretanto, que exatam ente nas em ergências prestam os m ais atenção

do que em outros tem pos à voz de Josefina. As am eaças suspensas sobre nós

nos tornam m ais quietos, m ais hum ildes, m ais subm issos à dom inação de

Josefina; gostam os de ficar j untos, gostam os de nos am ontoar uns contra os

outros, sobretudo em m om entos que nada têm a ver com os problem as que nos preocupam ; é com o se estivéssem os bebendo com m uita pressa — sim , é

preciso pressa. Josefina com freqüência se esquece — de um a taça de paz em

com um antes da batalha. Trata-se m enos de um espetáculo de canto do que de

um a assem bléia do povo, e um a assem bléia onde, exceto pela vozinha que

chia à frente de todos, reina um absoluto silêncio; o m om ento é grave dem ais

para que o desperdicem os em conversas.

Um a relação desse tipo, certam ente, j am ais satisfaria Josefina. Apesar de

todo o estado de nervos que tom a conta de Josefina devido ao fato de que sua

posição nunca ficou m uito clara, ainda há m uita coisa que ela não vê, cega por sua presunção, e ela pode com m uita facilidade ser levada a desconsiderar

m uitas outras: um enxam e de aduladores está sem pre cuidando disso,

prestando assim um serviço público — para ser apenas um a intérprete

incidental e despercebida, num cantinho, em m eio a um agrupam ento do

povo, ainda que em si não fosse pouca coisa, por isso ela não faria por nós o

sacrifício de cantar.

Nem precisa fazer, pois sua arte não passa despercebida. Ainda que

estej am os no fundo preocupados com m uitas outras coisas e não sej a

em absoluto porque ela canta que a quietude prevalece e em bora m ais de um ouvinte sequer olhe para cim a e esconda a cara no pêlo de seu vizinho, de tal

m odo que Josefina de pé lá na frente pareça estar se esforçando à toa, ainda

assim há algo — não se pode negar — que irresistivelm ente nos atinge a

partir do chiado de Josefina. Esse chiado, que se eleva quando todos os

dem ais estão entregues ao silêncio, chega quase com o um a m ensagem de todo

o povo a cada indivíduo; o tênue chiado de Josefina em m eio às graves decisões é quase com o a precária existência de nosso povo em m eio ao

tum ulto de um m undo hostil. Josefina se esforça, um a coisinha de nada em

voz, um a coisinha de nada em interpretação, ela se im põe e nos chega à alm a;

pensar nisso nos faz bem . Nesses m om entos, não conseguiríam os suportar um

cantor realm ente experiente, supondo que pudesse haver algum entre nós, e

unânim es daríam os as costas à insensibilidade de sem elhante espetáculo. Que

Josefina nunca descubra que o sim ples fato de a escutarm os é a prova de que

não é um a cantora. Algum a idéia a respeito ela deve ter, ou não afirm aria com

tanta veem ência que não a ouvim os, m as continua cantando e chiando para

afastar essa idéia.

Há outras coisas, porém , que poderiam consolá-la: nós realm ente a

ouvim os, num certo sentido, talvez do m esm o m odo que se ouve um a cantora

experiente; ela consegue efeitos que um grande artista tentaria em vão

conquistar entre nós e que só são alcançados exatam ente por serem seus

recursos tão inadequados. Para tanto, sem dúvida, contribui sobretudo nosso

m odo de viver.

Em nosso povo não se conhece a j uventude e a m uito custo há um a curta

infância. Regularm ente, é verdade, surgem proj etos para que se concedam às

crianças um a liberdade especial, um a proteção especial, para que seu direito

de ser um pouco despreocupadas, de ter um pouco de fantasia inconsistente,

um pouco de brincadeira, para que tal direito sej a respeitado e encoraj ado o

exercício do m esm o; tais proj etos são apresentados e quase todos os aprovam ,

nada m erece m aior aprovação, m as nada tam bém , na realidade de nossa vida diária, tem m enos probabilidades de ser aprovado; tais proj etos são

aprovados, tentativas são feitas para pô-los em prática, m as bem depressa

estão de volta os velhos tem pos. Nossa vida é tal que um a criança, tão logo

pode correr um pouco e perceber um pouco da diferença entre um a coisa e

outra, j á deve ganhar a vida, com o um adulto; as regiões nas quais, por razões econôm icas, precisam os viver dispersos, são vastas dem ais, nossos

inim igos num erosos dem ais, os perigos à espreita por toda parte incalculáveis dem ais — não podem os m anter nossas crianças ignorantes da luta pela

sobrevivência, se assim fizéssem os, isso as levaria à m orte prem atura. Tais

deprim entes considerações são reforçadas por outra, que não é deprim ente: a

fertilidade de nossa raça. Um a geração — e cada um a é m aior que a anterior

— vem nos calcanhares da outra, as crianças não têm tem po de ser crianças.

Outras raças podem criar seus filhos com cuidado, escolas podem ser

construídas para suas crianças, dessas escolas podem fluir diariam ente

crianças, o futuro da raça, e são sem pre as m esm as crianças que delas saem ,

todos os dias, por m uito tem po. Não tem os escolas, m as de nossa raça brotam

a brevíssim os intervalos nossos inúm eros bandos de crianças, alegrem ente

ciciando ou chilrando enquanto não sabem ainda chiar, rolando ou girando

sob a pressão geral enquanto não podem correr, arrastando desaj eitadam ente

tudo a sua frente enquanto não podem ver, nossas crianças! E não as m esm as

crianças, com o naquelas escolas, não, sem pre novas crianças, m ais e m ais,

sem fim , sem trégua, tão logo surge um a criança e j á não é m ais criança,

enquanto atrás dela novas carinhas infantis j á se am ontoam tão depressa e tão

j untas que se tornam indistinguíveis, rosadas de felicidade. Na verdade, por m ais encantador que isso possa ser e em bora m uitos outros possam , com

razão, nos invej ar por isso, sim plesm ente não podem os dar às nossas crianças

um a verdadeira infância. E isso tem conseqüências. Um a espécie de

inesgotável e arraigada infantilidade atinge o nosso povo; em direta oposição

com o que há de m elhor em nós, nosso infalível senso prático, com freqüência

nos portam os com a m ais rem atada insensatez, exatam ente a m esm a

insensatez das crianças, inconscientes, desperdiçadores, grandiosos,

irresponsáveis, e tudo isso m uitas vezes em nom e de algum a diversão trivial.

E ainda que nosso prazer daí derivado não possa, é claro, ser tão intenso

quanto o prazer de um a criança, algo desse prazer sem dúvida sobrevive.

Dessa infantilidade de nosso povo tam bém Josefina se aproveita desde o

início.

Mas nosso povo não é apenas infantil, som os tam bém em certo sentido

prem aturam ente velhos. A infância e a velhice não nos chegam com o aos

outros. Não tem os j uventude, logo som os todos adultos e então

perm anecem os adultos por tem po dem ais, daí se originando um certo cansaço

e um a certa desesperança que deixa um a profunda m arca na natureza do nosso

povo, em geral resistente e esperançoso. Nossa falta de dotes m usicais está

com certeza relacionada a isso; som os velhos

dem ais para a m úsica, sua em oção, seu arrebatam ento não convêm ao nosso peso, cansados, nós a pom os de lado; contentam o-nos com o chiado; um

pouco de chiado aqui e ali nos é suficiente. Quem sabe, talvez haj a entre nós

talentos para a m úsica; m as se os houvesse, o tem peram ento de nosso povo os

anularia antes que pudessem desabrochar. Josefina, por outro lado, pode chiar

tanto quanto queira, ou cantar, ou com o ela preferir cham á-lo, isso não nos

perturba, isso nos convém , podem os perfeitam ente tolerar; qualquer m úsica

que possa aí existir é reduzida a sua m enor expressão, um a certa tradição

m usical é preservada, sem que nos cause o m enor desconforto.

Mas nosso povo, sendo com o é, ganha algo m ais com Josefina. Em seus

concertos, sobretudo em tem pos de estresse, só os m uito j ovens se interessam

pelo seu canto enquanto canto, apenas eles a observam com assom bro quando

ela franze os lábios, expele o ar por entre seus lindos dentes da frente, quase desfalece de puro deslum bram ento com os sons que ela própria produz e

depois de tal desm aio eleva seu desem penho a novas e m ais incríveis alturas,

enquanto a verdadeira m assa do povo —é fácil perceber — está m ergulhada

em si m esm a. Aqui, nos breves intervalos entre suas lutas, o povo sonha, é

com o se os m em bros de cada um se soltassem , com o se o m ais atorm entado

indivíduo pudesse de vez em quando relaxar e se espreguiçar à vontade no

am plo e aquecido leito da com unidade. E nesses sonhos o chiado de Josefina

gotej a nota a nota; ela o cham a de gotas de pérola, nós o cham am os staccato; m as de qualquer m odo ele ali está no lugar certo, com o em nenhum outro,

encontrando o m om ento — esperam os por ele — com o raram ente a m úsica

consegue. Há ali algo de nossa pobre e breve infância, algo de felicidade

perdida que nunca m ais pode ser encontrada, m as tam bém algo da ativa vida

diária, de suas pequenas alegrias, irresponsáveis e ainda assim borbulhantes e im possíveis de se conter. Tudo isso se exprim e não em sons profundos, m as

suavem ente, aos sussurros, em confidências, às vezes um pouco roucos. Sem

dúvida é um a espécie de chiado. Por que não? O chiado é a fala diária de nosso povo, só que m uitos chiam por toda a vida e não sabem , enquanto aqui

o chiado se liberta das am arras da vida diária e tam bém nos liberta por alguns instantes. Com certeza não querem os ficar sem esses espetáculos.

Mas há um a grande, grande distância entre isso e a afirm ação de Josefina

de que ela nos dá novas forças e daí por diante. Para as pessoas com uns, ao

m enos, não para seu séqüito de aduladores.

— Que outra explicação pode haver? — dizem eles com descarado

atrevim ento. — De que outro m odo se poderia explicar a grande afluência do

público, sobretudo quando o perigo é im inente, que m ais de um a vez im pediu

que as devidas precauções fossem tom adas a tem po para afastar o perigo?

Ora, essa últim a pergunta é infelizm ente verdadeira, m as dificilm ente pode

ser considerado um título de glória para Josefina, sobretudo considerando-se

que, quando tais grandes platéias foram arrasadas de surpresa pelo inim igo e

m uitos dos nossos ali deixados para m orrer. Josefina, a responsável por tudo

isso, e que talvez tenha até m esm o com seu canto atraído o inim igo, sem pre

ocupou o lugar m ais seguro e foi sem pre a prim eira a escapar depressa e em

silêncio, sob a proteção de seu guarda-costas. Todos sabem disso e ainda

assim as pessoas continuam a afluir a qualquer lugar escolhido por Josefina, a qualquer m om ento em que ela se levante para cantar. Poder-se-ia diante disso

argum entar que Josefina se coloca acim a da lei, que ela faz o que bem

entende, arriscando-se a pôr em perigo a com unidade, e que tudo lhe é

perdoado. Se assim fosse, até m esm o as queixas de Josefina seriam totalm ente

com preensíveis, sim , nessa liberdade que lhe é concedida, nessa

extraordinária vantagem que lhe é concedida e a ninguém m ais, em direta contravenção legal, poder-se-ia ver um a adm issão do fato de que o povo não

com preende Josefina, exatam ente com o ela afirm a, de que ele se deslum bra,

im potente, diante de sua arte e dela se sente indigno, tenta am enizar a m ágoa

que lhe provoca fazendo por ela sacrifícios realm ente desesperados e, assim

com o sua arte está além de sua com preensão, considera sua arte sua

personalidade e seus desej os além de sua j urisdição. Bem , isso está longe de

ser verdade; talvez, enquanto indivíduos, o povo possa se render facilm ente a

Josefina, m as, com o um todo, esse povo não se rende incondicionalm ente, a

ninguém e tam bém não a ela.

Desde há m uito, talvez desde o início de sua carreira artística. Josefina

vem lutando pela isenção de todo o trabalho diário, por conta de seu canto; ela seria dispensada de qualquer responsabilidade de ganhar seu pão de cada dia e

de se envolver na luta geral pela sobrevivência, que deveria ser —

aparentem ente — em seu nom e transferida para o povo com o um todo. Um

crédulo entusiasta — e j á os houve — pode argum entar, diante do insólito de

tal reivindicação e da atitude espiritual necessária para apresenta-la, que há nela um a j ustificativa. Mas nosso povo tira outras conclusões e com

tranqüilidade a recusa. Sequer se preocupa m uito cm

contestar seus fundam entos. Josefina argum enta, por exem plo, que o esforço do trabalho é prej udicial a sua voz, que evidentem ente o esforço do trabalho

nada é diante do esforço de cantar, m as ele a im pede de ser capaz de

descansar o suficiente depois de cantar e de se recuperar para cantar m ais,

suas forças são com pletam ente exauridas e ela, em tais circunstâncias, j am ais

consegue chegar ao ápice de suas possibilidades. O povo ouve seus argum entos e não lhes dá atenção. Nosso povo, capaz de com tanta facilidade

se com over, às vezes por nada se com ove. Sua recusa é às vezes tão clara, que

até m esm o Josefina é apanhada de surpresa, parece se subm eter, faz sua

própria cota de trabalho, canta o m elhor que pode, m as sem pre por algum

tem po; então, com força renovada — para esse obj etivo suas forças parecem

inesgotáveis — parte outra vez para o ataque.

É evidente, porém , que o verdadeiro desej o de Josefina não é o que ela

coloca em palavras. Ela é honrada, não é preguiçosa, fugir do trabalho, aliás, é algo praticam ente desconhecido entre nós, se sua reivindicação fosse aceita

ela com certeza continuaria a viver com o antes, o trabalho não lhe atrapalharia o canto nem cantaria ela m uito m elhor — o que ela desej a é o reconhecim ento

público, inequívoco e perm anente de sua arte, m uito acim a de qualquer outro

precedente até então conhecido. Mas em bora quase tudo m ais pareça ao seu

alcance, tal reconhecim ento lhe foge sem cessar. Talvez ela devesse adotar

um a outra linha de ataque desde o início, talvez ela própria percebesse que

sua abordagem não é adequada, m as agora ela não pode voltar atrás, recuar

seria desleal para com ela m esm a, agora é obrigada a lutar ou m orrer por sua

reivindicação.

Se ela realm ente tivesse inim igos, com o diz, eles poderiam se divertir

m uito observando essa luta, sem ter que m over um dedo. Mas ela não tem

inim igos e, m esm o que sej a criticada aqui e ali, ninguém acha divertida sua

luta. Exatam ente porque o povo se m ostra aqui sob um frio aspecto de j uiz,

poucas vezes visto entre nós. E em bora alguns possam aprovar tal atitude, a

sim ples idéia de que tal aspecto possa algum dia se voltar contra eles m esm os im pede que qualquer conclusão daí derive. O im portante, tanto na recusa do

povo quanto na reivindicação de Josefina, não é o ato em si, m as o fato de que o povo é capaz de apresentar um a barreira em pedernida e im penetrável a um

dos seus e que tal barreira é ainda m ais im penetrável porque em outros

aspectos ele dem onstra um cuidado paternal e ansioso, e até m ais do que um

cuidado paterno, em relação a esse m esm o m em bro de sua com unidade.

Suponham os que, em vez do povo, tivéssem os que lidar com um indivíduo: poder-se-ia im aginar que tal hom em tivesse se curvado todo o tem po

diante de Josefina e sim ultaneam ente nutrido um ardente desej o de um belo

dia pôr um ponto final a sua subm issão; que ele tivesse feito sacrifícios sobre-hum anos por Josefina na firm e convicção de que haveria um lim ite natural a

sua capacidade de sacrifício; sim , que ele se tivesse sacrificado m ais do que

seria necessário apenas para acelerar o processo, apenas para corrom per

Josefina e encoraj á-la a reivindicar m ais e m ais até que ela realm ente

chegasse ao lim ite m áxim o com um últim o pedido; e que ele então acabasse

com ela, com um a recusa final que seria lacônica por ter sido guardada por

m uito tem po. Ora, não é assim que se passam as coisas, o povo não precisa de

tais artim anhas, além disso, seu respeito por Josefina é genuíno e com provado

e as reivindicações de Josefina são antes de tudo tão exageradas que qualquer

criancinha lhe poderia ter dito qual seria o resultado; m as pode ser que tais

considerações façam parte do m odo de Josefina ver as coisas e tenham assim

som ado um a certa am argura à dor da recusa. Mas sej am quais forem suas

idéias a respeito, ela não as deixa detê-la em sua luta. Há pouco tem po,

chegou a intensificar seus ataques; até então usava apenas palavras com o arm as, m as agora com eça a recorrer a outros m eios, que na sua opinião se

provarão m ais eficazes m as que nós pensam os poder colocá-la em perigos

m aiores.

Muitos acreditam que Josefina estej a se tornando tão insistente porque se

sente envelhecer e sente sua voz com eçando a falhar, então pensa ter chegado

a hora de travar sua últim a batalha pelo reconhecim ento. Eu não acredito.

Josefina não seria Josefina se isto fosse verdade. Para ela, não existe velhice, nem enfraquecim ento de sua voz. Se faz exigências, não é devido a

circunstâncias externas e sim a sua lógica interior. Se alm ej a os m ais altos

louros não é por estarem no m om ento m ais acessíveis, m as por serem os m ais

altos; se dependesse dela, estariam m ais altos ainda.

Essa desconsideração pelas dificuldades externas, para dizer a verdade,

não a im pede de em pregar os piores m étodos. Seus direitos lhe parecem

inquestionáveis; então não im porta com o os faz valer, sobretudo se nesse

m undo, com o ela o vê, os m étodos lícitos estão fadados ao fracasso? Talvez

por isso tenha transferido a luta pelos seus direitos do cam po da canção para

outro que lhe interessa m uito pouco. Seus sim patizantes fizeram saber que,

em suas próprias palavras, ela se sente perfeitam ente

capaz de cantar de tal m odo que todos os níveis de público, m esm o os m ais ferrenhos centros de oposição, considerariam um verdadeiro deleite, um

verdadeiro deleite não pelos padrões populares, pois o povo afirm a que seu

canto sem pre lhe deu prazer, m as um deleite de acordo com seus próprios

padrões. Entretanto, acrescenta ela, j á que não pode adulterar os m ais altos

padrões nem corrom per os m ais baixos, seu canto terá que ficar com o é. Mas quando se trata de sua cam panha pela isenção do trabalho, a história é outra;

trata-se, é claro, de um a cam panha em prol de seu canto, m as com o não está

lutando diretam ente com a inestim ável arm a de seu canto, qualquer

instrum ento é válido. Difundiu-se, então, por exem plo, o boato de que

Josefina estaria decidida a cortar drasticam ente todos os floreados em seu

canto, caso sua petição não fosse aceita. Eu nada entendo de floreados, e

nunca os percebi no canto de Josefina. Mas Josefina vai reduzir seus

floreados, não, por enquanto, elim iná-los por com pleto, apenas reduzi-los. É

possível que tenha cum prido sua am eaça, em bora no que m e diz respeito

nenhum a diferença se perceba em sua apresentação. O povo ouviu com o

sem pre, sem fazer qualquer observação relativa aos floreados, nem m udou

um a vírgula em sua resposta à petição. É preciso adm itir que o m odo de

pensar de Josefina, com o sua aparência, é m uitas vezes encantador. Assim por

exem plo, depois daquele espetáculo, com o se sua decisão quanto aos

floreados tivesse sido severa dem ais ou representasse um a m udança repentina

dem ais para o povo, ela anunciou que na próxim a vez voltaria a cantar com

todos os floreados. Mas depois do concerto seguinte voltou a m udar de idéia,

teria que suprim ir em definitivo aquelas grandes árias com floreados e não

voltaria a cantá-las até que fosse favorável o parecer relativo a sua petição.

Bem , o povo deixou que todos aqueles avisos, decisões e contradecisões

entrassem por um ouvido e saíssem por outro, com o um adulto im erso em

pensam entos que ouvisse sem dar atenção o balbuciar de um a criança, em

princípio sem m ás intenções, m as inacessível.

Josefina, entretanto, não desiste. Outro dia, por exem plo, declarou que

havia m achucado o pé enquanto trabalhava, então era-lhe difícil ficar de pé

para cantar; m as, com o não podia cantar sem ser em pé, suas canções

precisariam ser agora abreviadas. Em bora ela m anque e se apóie em seus

sim patizantes, ninguém acredita que estej a realm ente m achucada. Adm itindo

que seu frágil corpo fosse hipersensível, ela ainda é um a de nós e nós som os

um a raça de trabalhadores; se com eçássem os a

m ancar a cada vez que nos arranhássem os, o povo inteiro j am ais deixaria de m ancar. Mas ainda que ela se deixe carregar com o um a inválida, ainda que se

apresente nessas patéticas condições m ais vezes do que o norm al, o povo

continua, tão agradecido e encantado com o antes, a ouvir seu canto, m as não

se incom oda m uito com a abreviação de suas canções.

Com o não pode continuar m ancando para sem pre, ela pensa em outra

coisa, alega que está cansada, não tem ânim o para cantar, que se sente fraca.

Então tem os um espetáculo teatral som ado ao espetáculo m usical. Vem os os

sim patizantes de Josefina ao fundo, pedindo e im plorando que cante. Ela

gostaria de atendê-los, m as não pode. Eles a confortam e a acariciam com sua

adulação, quase a carregam para o local de antem ão escolhido para que se

apresentasse. Finalm ente, explodindo inexplicavelm ente em lágrim as, ela

cede, m as quando se ergue para cantar, visivelm ente sem forças, exausta, com

os braços não abertos com o sem pre, m as inertes e caídos ao longo do corpo, o

que dá a im pressão de que talvez sej am um pouco curtos dem ais —

exatam ente quando parece que vai com eçar, pronto, não consegue fazê-lo

afinal, um involuntário trem or de sua cabeça assim nos dem onstra, e ela

desm aia diante de nossos olhos. Sem dúvida ela se refaz e canta, para m im

m ais ou m enos com o sem pre, talvez alguém que tenha um bom ouvido para

os m ais sutis m atizes de expressão possa perceber que ela está cantando com

um sentim ento especial, o que talvez sej a excelente. E, no final, na verdade

m enos cansada do que antes, pisando firm e, se alguém pode usar tal im agem

para definir seus passinhos trôpegos, ela se vai, recusando qualquer aj uda de

seus sim patizantes e m edindo com olhos frios a m ultidão que respeitosam ente

lhe abre cam inho.

Isso aconteceu há um ou dois dias; m as a últim a notícia é que ela havia

desaparecido, exatam ente quando deveria cantar. Não apenas seus

sim patizantes procuram por ela, m uitos se dedicam à busca, m as é tudo em

vão: Josefina evaporou-se, não cantará, sequer poderá ser baj ulada para que

cante, dessa vez ela desertou por com pleto.

É estranho o quanto ela pode estar equivocada em suas m aquinações, a

astuta criatura, tão equivocada que se poderia acreditar que não há qualquer

m aquinação, m as que ela está apenas sendo conduzida pelo seu próprio

destino, que no nosso m undo não pode deixar de ser um triste destino. Por

vontade própria ela abandona o canto, por vontade própria destrói o poder que

havia conseguido sobre o coração de todos.

Com o poderia ela ter conseguido tal poder, se conhece tão pouco a respeito do nosso coração? Ela se esconde e não canta, m as nosso povo,

calm am ente, sem qualquer desapontam ento visível, m assa autoconfiante em

perfeito equilíbrio, de tal m odo constituída que, m esm o que as aparências o neguem , pode apenas dar e nunca receber, nem m esm o de Josefina, nosso

povo continua seu cam inho.

O cam inho de Josefina. entretanto, deve declinar. Logo chegará o

m om ento em que suas últim as notas se ouvirão e se converterão em silêncio.

Ela é um pequeno episódio na história eterna de nosso povo, e o povo

superará sua perda. Não será fácil; com o poderão nossos encontros acontecer

em absoluto silêncio? Mas afinal, não eram eles silenciosos m esm o quando

Josefina estava presente? Seria seu chiado m uito m ais alto e m ais vivo do que

será sua lem brança? Não terá sido porque o canto de Josefina estivesse m uito

à frente de seu tem po que nosso povo, em sua sabedoria, tanto o apreciou?

Então talvez não sintam os tanta falta dela, afinal, enquanto Josefina,

redim ida das dores terrenas que segundo ela se destinam a todos os eleitos, se perderá alegrem ente em m eio à incalculável m assa de heróis do nosso povo e

logo, j á que não som os historiadores, atingirá as alturas da redenção e será

esquecida com o todos os seus irm ãos.

Tradução de Celina Portocarrero

Rudy ard Kipling

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Romancista (Kim, entre outros títulos), contista ( O livro das selvas , que alegrou muitas infâncias de antigamente) e poeta (seu poema "Se" correu o mundo). Rudyard Kipling (1865-1936), que nasceu e viveu na Índia sob

colonização britânica, foi o primeiro escritor inglês a ganhar o Nobel — em 1907. Seus contos misturam o domínio literário da elite inglesa com o imaginário hindu mais "primitivo". Em muitas de suas histórias, os animais falam

— mas não como nas velhas fábulas ocidentais: são personagens "reais"

(quem não se lembra de Mogli, o Menino Lobo?) de um mundo entre o mágico tropical e o fantástico mais primitivo. É só escutar o que diz "Rikki-tikki-tavi".

Rikki-tikki-tavi

Olho escarlate convocou Pele Escam osa

Na toca onde este se abrigou.

Ouçam o que diz Olho Escarlate:

"Nag, vem para fora bailar com a m orte!"

Olho com olho e fronte com fronte

(Sustenta-te. Nag.)

Com um de nós m orto nossa dança finda

(Estou às ordens. Nag.)

Recua, vira, revira!

(Corre e protege-te. Nag.)

Ah! O capelo da m orte falhou!

(Maldito sej as. Nag!)

AQUI ESTÁ A HISTÓRIA DO GRANDE COMBATE que Rikki-tikki-tavi levou a efeito,

sem m ais ninguém que o auxiliasse, nos banheiros de um a grande casa

cam pestre, em Segowlee. Darzee, o pássaro-alfaiate, deu-lhe um a pequena

aj uda; tam bém Chuchundra, o rato alm iscarado, que, prevenindo-se contra

riscos, anda grudado às paredes e j am ais chega até o centro do piso, deu-lhe

alguns conselhos. Mas o corpo-a-corpo, a este som ente Rikki-tikki-tavi se

atirou.

Rikki era m angusto, espécie de anim al que se assem elha m uito ao gato no tipo de pêlo e cauda, e à doninha, quanto à cabeça e aos hábitos. Os olhos e o nariz têm cor rosada. É capaz de coçar-se em qualquer lugar do corpo, sej a

com as patas traseiras, sej a com as dianteiras. Inflava a cauda de tal m odo que parecia um a pequena vassoura. Seu grito de

guerra, enquanto se lançava a toda carreira pela relva, era "Rikk-tikk-tikki-tikki-tchk!"

Certa ocasião, as águas de um a chuva forte de verão arrebataram -no da

toca onde habitava com os pais. Foi grunhindo e debatendo-se pela valeta

água abaixo, até que se agarrou a um ram alhete de erva que ia flutuando na

correnteza; perdeu os sentidos, e quando recobrou a consciência viu-se

deitado ao sol num j ardim , ouvindo um j ovenzinho que dizia:

— O m angusto está m orto. Vam os enterrá-lo.

— Não! — obj etou a m ãe. — Vam os levá-lo para casa e enxugá-lo. Pode

ser que não estej a m orto.

Assim fizeram , e o pai — um inglês a quem os bichos do j ardim cha-

m avam de Hom em Grande — tom ou-o entre os dedos, olhou-o e disse que

não estava m orto, m as apenas m uito j udiado. Aqueceram -no com um pano

flanelado, e logo ele abriu os olhos e espirrou.

— Agora, não o intim idem , vam os deixá-lo quietinho e ver o que fará —

disse o pai.

É coisa sum am ente difícil intim idar um m angusto, desde que a curiosidade

é sua m arca principal. O lem a que acom panha a raça dos m angustos é "Vai e descobre tudo", e Rikki-tikki era um m angusto legítim o. Olhou para o

pequeno cobertor, viu que não era coisa com estível; deu um a volta em torno

da m esa, sentou-se, penteou o pêlo e em seguida pulou para o om bro do m enino.

— Não estranhe. Teddy — observou o pai. — Esse é seu j eito de fazer-se

am igo.

— Uh! Sinto cócegas no pescoço!

Rikki-tikki olhou dentro da gola da cam isa, cheirou a orelha, depois pulou

de volta para o chão, e aí ficou friccionando o nariz.

— Que coisa! — exclam ou a m ãe. — Nem parece um anim al selvagem !

Im agino que está assim dócil porque o acolhem os.

— Os m angustos são assim — disse o pai. — Se Teddy não o segurar pelo

rabo, nem prendê-lo em gaiola, vai viver entrando e saindo de casa todo dia.

Precisam os dar-lhe algo para com er.

Buscaram um pedaço de carne crua. Ele gostou m uito da refeição, e,

term inado o prato, saiu para a varanda, sentou-se para tom ar sol e arm ou os

pêlos para que secassem bem . E parecia estar m uito m elhor.

"Esta casa tem m uito m ais coisas por descobrir do que m inha fam ília teria para a vida inteira", pensou. "Eu descobrirei tudo."

Vagueou o dia todo pela casa. Esteve prestes a se afogar na banheira, m ergulhou o nariz num tinteiro e, por fim , subiu ao colo do Hom em Grande,

curioso de ver com o se escrevia, e aí queim ou-se na ponta do charuto. À

noite, foi para o quarto de Teddy, desej oso de ver com o se acendem os

candeeiros, e logo que o m enino foi para a cam a, ele im ediatam ente fez o

m esm o. Porém , era um a com panhia inquieta: ao m enor ruído noturno pulava

da cam a para investigar de onde o ruído provinha e o que lhe dera causa. A

m ãe e o pai entraram para visitar o filho antes de dorm ir e deram com Rikki-tikki deitado sobre o travesseiro.

— Não m e agrada nada disso — preocupou-se a m ãe —, pode m order o

nosso filho.

— Não fará isso — garantiu o pai. — Esse anim alzinho lhe proporciona

m ais segurança do que um cão de guarda. Se entrasse um a cobra...

Mas a m ãe afastou esse pensam ento, pois lhe parecia um acontecim ento

horrível.

Pela m anhã. Rikki-tikki foi tom ar o seu café acom odado ao om bro de

Teddy. Com eu banana e ovo cozido, e passou pelo colo de todos, um por vez.

É am bição de todos os m angustos bem criados chegar a ser um anim al

dom éstico e viver num a casa com salas para correr. A sua m ãe, que vivera na

casa do general, em Segowlee, instruíra o pequeno Rikki sobre o m odo com o

deveria conduzir-se caso algum a vez se visse diante de hom ens brancos.

Saiu e foi ao j ardim , interessado em ver o que lá havia. Era extenso,

contudo só em parte trabalhado. Havia um grande roseiral que se entrelaçava

form ando um ram alhal, tílias e laranj eiras, m oitas espessas de bam bu e tufos

de ervas altas. Rikki-tikki lam beu a boca.

— É um excelente lugar para caçar — disse consigo. E esse pensam ento

excitou-lhe a cauda, tornando-a inflada. Com eçou a ir de um lado para outro,

farej ando, espreitando tudo, e, por fim , ouviu vozes queixosas vindas de um a

árvore.

As vozes eram de Darzee, o pássaro-alfaiate, e da com panheira. Estavam

pousados sobre a extrem idade de um ninho, e isto o fazia oscilar. Tinham -no feito com duas folhas grandes, unidas com cerdas, o interior preenchido com

algodão e plum as. Os dois com panheiros choravam à beira dele.

— O que houve? — quis saber Rikki-tikki.

— Estam os m uito am argurados — desabafou Darzee. — Caiu do ninho

um de nossos filhotes e Nag o com eu.

— Hum ! — balbuciou Rikki-tikki. — Isso é deveras triste; não sou daqui.

Quem é Nag?

Darzee e a com panheira recolheram -se no ninho e não pronunciaram

qualquer resposta, intim idados por um silvo vindo de entre um a ram agem de

ervas. O som , frio e intim idante, fez Rikki-tikki pular cerca de dois pés para trás. E logo viu levantar, pouco a pouco, do m eio da ram agem a cabeça e o

capelo arm ado de Nag. Tratava-se da grande cobra negra de cinco pés de

com prim ento. Tendo alçado um terço do corpo, ficou oscilando de um lado

para outro, tal com o um dente-de-leão oscila com o vento. Olhou Rikki-tikki

com os olhos m alignos da serpente, olhos que são perm anentem ente

m alignos, independente do que os tocam ou deixam de tocar.

— Quem é Nag? — Era o próprio Nag que repetia a pergunta. — Eu sou

Nag. O grande Deus Brahm a, com a finalidade de im pedir que o sol o

atingisse, im prim iu sua m arca no nosso povo assim que a prim eira serpente

arm ou o capelo. Vê e assusta!

Estendeu o capelo tanto quanto lhe foi possível; Rikki-tikki pôde perceber

um sinal, m uito sem elhante a óculos guarnecidos com cordões nas hastes.

Rikki teve, de fato, um princípio de susto, m as a um m angusto pouco dura

essa sensação. E j á vira cobras, ainda que apenas as m ortas com que sua m ãe

o alim entara. Adem ais, conhecia perfeitam ente que caçar cobras constitui a

razão de ser essencial dos m angustos. Nag igualm ente o sabia, e, apesar de

seu coração frio, sentia no íntim o de si um a ponta de m edo.

— Muito bem — com eçou Rikki-tikki, e a cauda com eçou a inflar

novam ente —, com m arcas ou sem m arcas, pensa que pode com er as

avezinhas que caem dos ninhos?

Nag achava-se concentrado num pensam ento consigo próprio e, ao m esm o

tem po, observava o m ovim ento das ervas im ediatam ente atrás de Rikki-tikki.

A presença de m angustos no j ardim im plicava m orte certa para os da sua

gente, m as tencionava fazê-lo baixar a diligência. Assim pretendendo,

arqueou m inim am ente a cabeça, deixou-a pender para o lado e prosseguiu:

— Devem os conversar — principiou. — Você com e ovos. Qual a razão

por que eu não deva com er aves?

— Cuidado! Olha para trás! — alertou Darzee.

Rikki-tikki, em vez de perder o m ínim o tem po com olhar para trás, saltou

para o ar o m ais alto que pôde. Logo abaixo resvalou a cabeça de

Nagaina, a perversa com panheira de Nag. Tencionando aniquilar Rikki--

tikki, aproxim ou-se pelas costas, aproveitando a ocasião em que ele estava

ocupado em conversar com Nag. Rikki-tikki veio cair de volta quase em cim a

do dorso de Nagaina. Caso fosse adulto, saberia que essa era a ocasião exata

de quebrar-lhe os ossos e m atá-la com apenas um a m ordida. Ficou, contudo,

apreensivo, com receio do contragolpe da cobra. Mordeu-a até, m as não

suficientem ente, e saltou a tem po de escapar da chicotada da cauda, deixando-a m achucada e furiosa.

— Darzee, com o você é m au! — repreendeu Nag, alongando-se o m áxim o

possível em direção ao ninho. O m áxim o que conseguiu, entretanto, foi ficar

oscilando no ar, frustrado em sua tentativa de alcançar a ave, pois Darzee

construíra o ninho em local m ais alto, salvo do alcance das cobras.

Os olhos dos m angustos tornam -se verm elhos toda vez que estão furiosos,

e Rikki-tikki sentiu seus olhos tornarem -se tal naquela hora. Sustentou-se

sobre as patas traseiras com o um canguru, olhou em torno e trincou com fúria

os dentes. Mas, a esta altura. Nag e Nagaina j á tinham desaparecido no m eio

da relva. Um a cobra fica em silêncio toda vez que erra um assalto, do m esm o

m odo que não deixa o outro ver suas intenções futuras. Rikki-tikki não tentou

persegui-las, um a vez que não estava seguro de poder sustentar um a luta com

duas cobras a um só tem po. Saiu correndo para j unto da casa, sentou-se e pôs-

se a pensar. Aquela era um a questão m uito im portante para ele.

Consta nos livros de história natural que os m angustos, quando m ordidos

em luta com um a cobra, com em um a erva capaz de curá-los. Porém , isso não

é verdadeiro. A vitória é m ais um a questão de vista aguçada e de rapidez do

salto, ante o golpe veloz da cobra contra o salto do m angusto. Na verdade, não há olhos que conseguem apanhar o m ovim ento da cabeça de um a cobra

quando ataca. E assim sendo, escapar ao seu golpe torna-se um fato m ais

espantoso do que os poderes m ágicos de um a erva qualquer. Rikki-tikki tinha

consciência de que era apenas um m angusto j ovem , sem experiência. O fato

de ter escapado ao golpe de um a cobra tornava-o m ais satisfeito consigo,

fazia-o sentir-se m ais confiante, e, quando Teddy veio correndo ao seu

encontro, ele estava pronto para se deixar acariciar.

Ocorreu que, no m om ento em que Teddy inclinou-se, algum a coisa

trem ulou no pó, e um a voz pronunciou:

— Cuidado! Eu sou a m orte! — Estava ali Karait, a cobrinha castanha que

gosta de viver principalm ente m isturada no pó da terra. Sua

m ordida é tão perigosa com o a das outras cobras; entretanto, porque é dem asiadam ente pequena, ninguém lhe dá im portância. Por isso, é a que m ais

freqüentem ente faz m al às pessoas.

Os olhos de Rikki-tikki colocaram -se em brasa, e m oveu-se em direção a

Karait no gingado característico que lhe adveio dos antecedentes. É um a

dança engraçada, a princípio, m as é o que propicia ao salteador prom over o

ângulo eficiente para o salto. E, em se tratando de cobras, é um a habilidade

essencial. Rikki não tinha consciência de que aquela luta era m ais perigosa do que se bater com Nag, pois Karait, por causa do seu pequeno tam anho, revira-se com incrível velocidade. Se a quisesse derrotar, teria de golpeá-la na nuca, pois, de outro m odo, receberia o contragolpe nos olhos ou na boca. Os olhos

em fogo, dançava para cá e para lá, investigando o ponto exato que o

sustentaria. Karait atacou prim eiro. Rikki-tikki saltou e retornou para o

contragolpe, m as a cabecinha opaca de pó trem ulou sobre seu om bro, e ele

precisou volver-se num a cam balhota rápida.

— Venham ver! O nosso m angusto está m atando um a cobra — gritou

Teddy. E nesse instante. Rikki ouviu a m ãe de Teddy lançar um grito. O pai

veio correndo arm ado de um pau, m as j á encontrou a cobra m orta. Karait

tinha assaltado de novo, m as com m ais ím peto, forçando Rikki a pular sobre seu dorso; em seguida, cravou-lhe os dentes na nuca. O golpe paralisou a

cobra. Rikki j á se preparava para devorá-la a partir da cauda, conform e o

m odo da fam ília, m as recordou-se de que o com er dem asiado torna os

m angustos vagarosos. Com o queria resguardar a sua força e agilidade, acabou

por fugir dali.

O pai surrava a cobra, despercebido de que ela j á estava m orta. Enquanto

isso. Rikki desaparecia entre os arbustos, resolvido a banhar-se no pó. "Para que tudo aquilo?", pensou. "Eu j á fiz o serviço todo." A m ãe apareceu entre os arbustos, tom ou-o, acarinhou-o, dizendo que Rikki salvara o filho, o pai

proclam ava que o m angusto era um a providência divina e Teddy, por sua vez,

tinha os olhos arregalados de susto. Rikki-tikki divertia-se com toda aquela

louvação, de que afinal não entendia nada. Para ele, elogiar o filho por ter ido brincar no pó teria o m esm o significado, e ele achava tudo m uito engraçado.

Ao j antar, poderia bem ter se regalado com todas aquelas coisas deliciosas,

enquanto passeava entre os copos sobre a m esa. Apesar dos afetos que recebia

da m ãe de Teddy e das subidas ao om bro do rapaz, tinha o pensam ento em

Nag e Nagaina e seus olhos, vez por outra, se acendiam em brasas, e ele

lançava seu longo grito de guerra "Rikk-tikk-tikk-tikk-tchk!"

Teddy foi para a cam a, levando-o consigo, e fez questão de que ele dorm isse abraçado ao seu pescoço. Rikki era m uito dócil e, por certo, não o

arranharia. Logo que o rapaz adorm eceu, saltou da cam a para fazer a sua

ronda noturna pela casa. Tropeçou no escuro com Chuchundra, o rato

alm iscarado, que andava sem pre grudado às paredes. Chuchundra é um

ratinho m uito infeliz. Vive suas noites chorando, sem pre buscando ânim o para

ir ao m eio da sala, m as nunca lá vai.

— Não m e m ate — pediu o rato, m eio choroso. — Não m e m ate. Rikki-

tikki.

— Então pensa que quem m ata cobras tam bém m ata ratos alm iscarados?

— perguntou, m eio desdenhosam ente.

— Quem m ata cobras é m orto por cobras — disse o outro, m ais choroso

ainda. — Com o posso assegurar-m e de que Nag não m e confundirá contigo

em qualquer noite dessas?

— Quanto a isso, fica tranqüilo. Nag vive no j ardim e, pelo que sei, você

não vai lá nunca.

— Chua, m eu prim o, disse-m e...

— Disse o quê?

— Psiu! Nag está em todo lugar. Rikki-tikki. Você devia ter conversado

com Chua no j ardim .

— Não conversei. Você terá de m e dizer. Rápido. Chuchundra, se não

quer levar um a m ordida.

Chuchundra sentou-se e chorou copiosam ente.

— Sou um desventurado — lam entou. — Faltou-m e sem pre coragem para

m e aventurar a ir até o m eio da sala. Psiu! Não posso te dizer nada. Não está

ouvindo?

Rikki-tikki aguçou os ouvidos. Toda a casa se guardava em com pleto

silêncio. Entretanto, pareceu-lhe ouvir um breve roçar, qualquer coisa m uito

am ena, com o o esvoaçar de um a vespa pela vidraça, o deslizar seco das

escam as de um a serpente pelas paredes. "Deve ser Nag ou Nagaina", pensou Rikki-tikki. "Está indo para os canos do banheiro."

— Você está certo. Chuchundra. Eu devia ter conversado com Chua.

Correu para o banheiro do quarto de Teddy, m as não encontrou nada. Foi

ao banheiro do quarto da m ãe, e percebeu que na parede de gesso ao fundo

havia um a abertura para o escoam ento da água. Aproxim ou-se e ouviu Nag e

Nagaina conversarem do lado de fora ao luar.

— Quando j á não houver ninguém habitando a casa — dizia Nagaina ao

com panheiro —, ele irá em bora, e o j ardim será novam ente nosso.

Entra com cautela e não esqueça que deve m order em prim eiro lugar o hom em que m atou Karait. Depois volta para cá e irem os atrás de Rikki-tikki.

— Você está segura de que a m orte dessas pessoas nos será vantaj osa? —

perguntou Nag.

— Existia entre nós algum m angusto quando a casa estava vazia? Com a

casa desabitada som os o rei e a rainha do j ardim . É bom que não esqueça que

nossos ovos aninhados no canteiro de m elões estarão em breve chocados, e

isto pode ser para am anhã m esm o. Nossos filhotes vão precisar de espaço e

tranqüilidade.

— É verdade, não m e ocorrera isso. Vou então, m as penso que não haverá

necessidade de perseguir Rikki-tikki. Dou cabo do hom em , da m ulher e do

m enor se puder, e volto para cá sem o m enor barulho. A casa ficará deserta e

Rikki-tikki não terá outra alternativa, a não ser ir em bora.

Rikki ouviu toda a conversa; a fúria o dom inou de tal m odo, que es-

trem eceu-se todo. Pouco tem po depois, a cabeça de Nag apareceu no cano, e

logo atrás o seu longo e gélido corpo de cinco pés. Apesar da grande fúria. Rikki-tikki levou um grande susto quando viu o tam anho da cobra. Nag

encaracolou o corpo, levantou a cabeça e exam inou o recinto no escuro.

Rikki-tikki podia ver os olhos de Nag luzindo na escuridão.

"Se eu acabar com ele aqui. Nagaina descobrirá em breve; se o assaltar em pleno piso, a vantagem será dele. Que faço?", pensou Rikki. A cobra com eçou a balançar a cabeça, e Rikki-tikki pôde perceber que ela bebia a água do vaso

m aior, usado para encher a banheira.

— O hom em m atou Karait com um pedaço de pau — relem brou Nag. —

É possível que ainda o tenha. De m anhã, porém , quando vier para o banho,

não o portará consigo. Vou esperá-lo aqui. Nagaina, você pode m e ouvir? Vou

ficar esperando aqui até o dia am anhecer.

Não houve nenhum a resposta, e Rikki-tikki percebeu que ela tinha ido

em bora. Nag enrolou-se na base do vaso, e Rikki-tikki m anteve-se o m ais

quieto possível. Esperou um a hora, e com eçou a m ovim entar-se m uito

sorrateiram ente em direção ao j arro. Nag dorm ia. Rikki-tikki exam inou-lhe o

dorso, procurando saber qual o m elhor ponto para aplicar a m ordida. "Caso não lhe arrebente a espinha no prim eiro salto, terá condições de lutar, e, nesse caso, você cairá em desgraça. Rikki." Exam inou a espessura do pescoço

abaixo do capelo, e concluiu que era dem asiado para ele. Um a dentada na

cauda para nada serviria, a não ser

para excitar a fúria de Nag. "Terá de ser na cabeça, acim a do capelo", pensou.

"E, dado o golpe, não posso soltar a presa."

Preparou-se e saltou. A cabeça estava um pouco afastada do vaso. Ao

cravar-lhe os dentes. Rikki-tikki firm ou as costas contra a parede do vaso.

Calculava com isso reter a cabeça da sua presa. Essa estratégia garantiu-lhe um aum ento de força que, em bora tenha durado apenas um segundo, ele

tratou de aproveitar bem . No instante seguinte, foi sacudido de um lado para

outro do m esm o m odo que um rato é sacudido por um cão. Agarrou-se ao

corpo da cobra com todo vigor, e seus olhos eram todo brasas. Nag chicoteava

pelo chão, virou a saboneteira, a escova de banho e batia fortem ente contra a

banheira. O m angusto apertava os dentes sem pre com m ais força, pois estava

certo de que ia m orrer esborrachado. Por honra da fam ília, era m elhor que

m orresse com os dentes cerrados. Sentia dores fortes e lhe parecia estar se

desm anchando aos pedaços. Subitam ente qualquer coisa explodiu atrás dele;

um vento m orno soprou-lhe rente às orelhas e ele caiu sem sentidos. O pai

acordara com o barulho, e descarregou os dois canos da espingarda na cabeça

de Nag.

Rikki-tikki m anteve os olhos fechados, certo de estar m orto. O pai tom ou-

o nas m ãos e disse:

— É o m angusto novam ente. Alice. Desta vez ele salvou nossas vidas.

A m ãe de Teddy entrou pálida e viu o que havia sobrado de Nag. Rikki-

tikki arrastou-se para o quarto do rapaz e passou boa parte da noite tateando e sondando o corpo para certificar-se de que não estava transform ado em

dezenas de pedaços.

Pela m anhã, achou-se todo alquebrado, porém orgulhoso de si. "Tenho

ainda de cuidar de Nagaina, e com ela a coisa será m uito pior do que foi com

Nag. Adem ais, não se pode fazer a m ínim a idéia de quando os ovos dela

estarão chocados. Tenho de falar com Darzee."

Não esperou sequer pelo café da m anhã, foi im ediatam ente procurar

Darzee, que entoava um canto triunfal com todo o vigor que lhe era possível.

Todo o j ardim sabia da m orte de Nag, um a vez que o criado j ogara o corpo na

lata de lixo.

— Ah! Você, novelo de penas estúpido! — bradou Rikki bastante

enervado. — É esta um a ocasião para cantorias?

— Nag m orreu! Morreu! Morreu! O coraj oso Rikki-tikki agarrou-o pela

cabeça e não vacilou. O hom em grande veio com o pau-de-fogo, e Nag veio

ao chão despedaçado! Nunca m ais com erá os m eus filhotes.

— Isso tudo não deixa de ser verdade. Mas onde está Nagaina? —

perguntou Rikki-tikki, pesquisando em torno com atenção.

— Nagaina foi à entrada do cano de escoam ento de água e cham ou por

Nag — prosseguiu Darzee. — Ele apareceu pendurado na ponta de um a vara,

trazido pelo criado que o tirou de lá e o lançou no lixo. Cantem os em honra do grande Rikki-tikki de olhos escarlates! — A ave respirou fundo e com eçou a

cantar.

— Se eu pudesse alcançar o teu ninho, tirava-lhe os teus filhotes —disse

Rikki-tikki. — Não sabe fazer as coisas no m om ento adequado. Está

resguardado em teu ninho, m as aqui em baixo tenho um a guerra para

enfrentar. Deixa de cantar ao m enos por um m inuto. Darzee.

— Já que é o grande e form idável Rikki-tikki que assim m e pede, paro de

cantar — respondeu o outro. — Que desej a, ó grande Rikki-tikki, m atador do

Continuar: parte 21 de 28