Os Melhores Contos Fantásticos

Flávio Moreira da Costa · Capítulo 1 de 2 · parte 27/28

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Os Melhores Contos Fantásticos

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 28 partes.

levada! Quem era esse d. Rui de Cárdenas, de quem nunca ouvira, que nunca

atravessara a sua vida, tão quieta, tão pouco povoada de m em órias e de

hom ens? E ele decerto a conhecia, a encontrara, a

seguira ao m enos com os olhos, pois que era coisa natural e bem ligada receber dela carta de tanta paixão e prom essa...

Assim , um hom em , e m oço decerto bem nascido, talvez gentil, penetrava

no seu destino bruscam ente, trazido pela m ão de seu m arido? Tão intim am ente

m esm o se entranhara esse hom em na sua vida, sem que ela se apercebesse,

que j á para ele se abria de noite a porta do seu j ardim , e contra a sua j anela, para ele subir, se arrum ava de noite um a escada!... E era seu m arido que m uito secretam ente escancarava a porta, e m uito secretam ente levantava a escada...

Para quê?...

Então, num relance, d. Leonor com preendeu a verdade, a vergonhosa

verdade, que lhe arrancou um grito ansiado e m al sufocado. Era um a cilada! O senhor de Lara atraia a Cabril esse d. Rui com um a prom essa m agnífica, para

dele se apoderar, e decerto o m atar, indefeso e solitário! E ela, o seu am or, o seu corpo, eram as prom essas que se faziam rebrilhar ante os olhos seduzidos

do m oço desventuroso. Assim seu m arido usava a sua beleza, o seu leito,

com o a rede de ouro em que devia cair aquela presa estouvada! Onde

houvesse m aior ofensa? E tam bém quanta im prudência! Bem poderia esse d.

Rui de Cárdenas desconfiar, não aceder a convite tão abertam ente am oroso, e

depois m ostrar por toda a Segóvia, rindo e triunfando, aquela carta em que lhe fazia oferta do seu leito e do seu corpo a m ulher de Alonso de Lara! Mas não!

O desventurado correria a Cabril — e para m orrer. m iseravelm ente m orrer no

negro silêncio da noite, sem padre, nem sacram entos, com a alm a encharcada

em pecado de am or! Para m orrer, decerto — porque nunca o senhor de Lara

perm itiria que vivesse o hom em que recebera tal carta. Assim , aquele m oço

m orria por am or dela, e por um am or que, sem lhe valer nunca um gosto, lhe

valia logo a m orte! Decerto por am or dela — pois que tal ódio do senhor de

Lara, ódio que. com tanta deslealdade e vilania, se cevava, só podia nascer de ciúm es, que lhe escureciam todo o dever de cavaleiro e de cristão. Sem dúvida

ele surpreendera olhares, passos, tenções deste senhor d. Rui, m al acautelado

por bem nam orado.

Mas com o? Quando? Confusam ente se lem brava ela de um m oço que um

dom ingo a cruzara no adro, a esperara ao portal da igrej a, com um m olho de

cravos na m ão... Seria esse? Era de nobre parecer, m uito pálido, com grandes

olhos negros e quentes. Ela passara — nem pensara... Os cravos que segurava

na m ão eram verm elhos e am arelos... A quem os levava?... Ah! se o pudesse avisar, bem cedo, de m adrugada!

Com o, se não havia em Cabril serviçal ou aia de quem se fiasse? Mas deixar que um a bruta espada varasse traiçoeiram ente aquele coração, que

vinha cheio dela, palpitando por ela, todo na esperança dela!...

Oh! A desabrida e ardente correria de d. Rui, desde Segóvia a Cabril, com

a prom essa do encantador j ardim aberto, da escada posta contra a j anela, sob a m udez e proteção da noite! Mandaria realm ente o senhor de Lira encostar um a

escada à j anela? Decerto, para com m ais facilidade o poderem m atar, pobre, e

doce, e inocente m oço, quando ele subisse, m al seguro sobre um frágil degrau,

as m ãos em baraçadas, a espada a dorm ir na bainha... E assim , na outra noite,

em face ao seu leito, a sua j anela estaria aberta, e um a escada erguida contra a sua j anela à espera de um hom em ! Em boscado na som bra do quarto, seu

m arido seguram ente m ataria esse hom em ...

Mas se o senhor de Lara esperasse fora dos m uros da quinta, assaltasse

brutalm ente, nalgum a azinhaga, aquele d. Rui de Cárdenas, e, ou por m enos

destro, ou por m enos forte, num terçar de arm as, caísse ele traspassado, sem

que o outro conhecesse a quem m atara? E ela, ali, no seu quarto, sem saber, e

todas as portas abertas, e a escada erguida, e aquele hom em assom ando à

j anela na som bra m acia da noite tépida, e o m arido que a devia defender m orto

no fundo de um a azinhaga... Que faria ela. Virgem Mãe? Oh! decerto repeliria,

soberbam ente, o m oço tem erário. Mas o espanto dele e a cólera do seu desej o

enganado! "Por vós é que eu vim cham ado, senhora!" E ali trazia, sobre o coração, a carta dela, com seu nom e, que a sua m ão traçara. Com o lhe poderia

contar a em boscada e o dolo? Era tão longo de contar, naquele silêncio e

solidão da noite, enquanto os olhos dele, úm idos e negros, a estivessem suplicando e traspassando... Desgraçada dela se o senhor de Lara m orresse, a

deixasse solitária, sem defesa, naquela vasta casa aberta! Mas quanto

desgraçada tam bém se aquele m oço, cham ado por ela, e que a am ava, e que

por esse am or vinha correndo deslum brado, encontrasse a m orte no sítio da

sua esperança, que era o sítio do seu pecado, e, m orto em pleno pecado,

rolasse para a eterna desesperança... Vinte e cinco anos, ele — se era o m esm o de quem se lem brava, pálido, e tão airoso, com um gibão de eludo roxo e um

ram o de cravos na m ão, à porta da igrej a, em Segóvia...

Duas lágrim as saltaram dos cansados olhos de d. Leonor. E dobrando os

j oelhos, levantando a alm a toda para o céu, onde a Lua se com eçava a

levantar, m urm urou, num a infinita m ágoa e fé:

— Oh! Santa Virgem do Pilar. Senhora m inha, vela por nós am bos, vela por todos nós!...

III

D. Rui entrava, pela hora da calm a, no fresco pátio da sua casa, quando de

um banco de pedra, na som bra, se ergueu um m oço do cam po, que tirou de

dentro do surrão um a carta, lhe entregou, m urm urando:

— Senhor, dai-vos pressa em ler, que tenho de voltar a Cabril, a quem m e

m andou...

D. Rui abriu o pergam inho: e, no deslum bram ento que o tom ou, bateu com

ele contra o peito, com o para o enterrar no coração... O m oço do cam po

insistia, inquieto:

— Aviai, senhor, aviai! Nem precisais responder. E só que m e deis um

sinal de vos ter vindo o recado...

Muito pálido, d. Rui arrancou um a das luvas bordadas a retrós, que o m oço

enrolou e sum iu no surrão. E abalava na ponta das alpercatas leves. Com um

aceno. d. Rui ainda o deteve:

—

Escuta. Que cam inho tom as tu para Cabril?

— O m ais curto e sozinho para gente afoita, que é pelo Cerro dos

Enforcados.

— Bem .

D. Rui galgou as escadas de pedra, e no seu aposento, sem m esm o tirar o

som breiro, de novo leu j unto da gelosia aquele pergam inho divino, em que d.

Leonor o cham ava de noite ao seu quarto, a posse inteira do seu ser. E não o

m aravilhava esta oferta — depois de um a tão constante, im perturbada

indiferença. Antes nela logo percebeu um am or m uito astuto, por ser m uito

forte, que, com grande paciência, se esconde ante os estorvos e os perigos, e

m udam ente prepara a sua hora de contentam ento, m elhor e m ais delicioso por

tão preparado. Sem pre ela o am ara, pois, desde a m anhã bendita em que os

seus olhos se tinham cruzado no portal de Nossa Senhora. E enquanto ele

rondava aqueles m uros do j ardim , m aldizendo um a frieza que lhe parecia m ais

fria que a dos frios m uros, j á ela lhe dera a sua alm a, e, cheia de constância, com am orosa sagacidade, recalcando o m enor suspiro, adorm ecendo

desconfianças, preparava a noite radiante em que lhe daria tam bém o seu

corpo.

Tanta firm eza, tão fino engenho nas coisas do am or, ainda lha tornavam

m ais bela e m ais apetecida!

Com que im paciência olhava então o sol, tão desapressado nessa tarde em descer para os m ontes! Sem repouso, no seu quarto, com as gelosias cerradas

para m elhor concentrar a sua felicidade, tudo aprontava am orosam ente para a

triunfal j ornada: as finas roupas, as finas rendas, um gibão de veludo negro e as essências perfum adas. Duas vezes desceu à cavalariça a verificar se o seu

cavalo estava bem ferrado e bem folgado. Sobre o soalho, vergou e revergou,

para a experim entar, a folha da espada que levaria à cinta... Mas o seu m aior

cuidado era o cam inho para Cabril, apesar de bem o conhecer, e a aldeia

apinhada em torno ao m osteiro franciscano, e a velha ponte rom ana com o seu

Calvário, e a azinhaga funda que levava à herdade do senhor de Lara. Ainda

nesse inverno por lá passara, indo m ontear com dois am igos de Astorga, e

avistara a torre dos de Lara, e pensara: "Eis a torre da m inha ingrata!' Com o se enganava! As noites agora eram de lua, e ele sairia de Segóvia caladam ente,

pela Porta de s. Mauros. Um galope curto o punha no Cerro dos Enforcados...

Bem o conhecia tam bém , esse sítio de tristeza e pavor, com os seus quatro

pilares de pedra, onde se enforcavam os crim inosos, e onde ficavam ,

balouçados da ventania, ressequidos do sol, até que as cordas apodrecessem e

as ossadas caíssem , brancas e lim pas da carne pelo bico dos corvos. Por trás

do cerro era a lagoa das Donas. A derradeira vez que por lá andara, fora em

dia do apóstolo s. Matias, quando o corregedor e as confrarias de caridade e

paz, em procissão, iam dar sepultura sagrada às ossadas caídas no chão negro,

esburgadas pelas aves. Dai o cam inho, depois, corria liso e direito a Cabril.

Assim d. Rui m editava a sua j ornada venturosa, enquanto a tarde ia caindo.

Depois, quando escureceu, e em torno às torres da igrej a com eçaram a girar os m orcegos, e nas esquinas do adro se acenderam os nichos das alm as, o valente

m oço sentiu um m edo estranho, o m edo daquela felicidade que se acercava e

que lhe parecia sobrenatural. Era, pois, certo, que essa m ulher de divina

form osura, fam osa em Castela, e m ais inacessível que um astro, seria sua, toda sua, no silêncio e segurança de um a alcova, dentro em breves instantes,

quando ainda se não tivessem apagado diante dos retábulos das alm as aqueles

lum es devotos? E o que fizera ele para lograr tão grande bem ? Pisara as laj es

de um adro, esperara no portal de um a igrej a, procurando com os olhos outros

dois olhos, que não se erguiam , indiferentes ou desatentos. Então, sem dor,

abandonara a sua esperança... E eis que de repente aqueles olhos distraídos o

procuram , e aqueles braços fechados se lhe abrem , largos e nus, e com o corpo

e com

a alm a aquela m ulher lhe grita: "Oh! m al-avisado, que não m e entendeste!

Vem ! Quem te desanim ou j á te pertence!" Houvera j am ais igual ventura? Tão alta, tão rara, que decerto atrás dela, se não erra a lei hum ana, j á devia

cam inhar a desventura! Já na verdade cam inhava — pois quanta desventura

em saber que depois de tal ventura, quando de m adrugada, saindo dos divinos

braços, ele recolhesse a Segóvia, a sua Leonor, o bem sublim e da sua vida, tão inesperadam ente adquirido por um instante, recairia logo sob o poder de outro

am o!

Que im portava! Viessem depois dores e zelos! Aquela noite era

esplendidam ente sua, o m undo todo um a aparência vã e a única realidade esse

quarto de Cabril, m al alum iado, onde ela o esperaria, com os cabelos soltos!

Foi com sofreguidão que desceu a escada, se arrem essou sobre o seu cavalo. Depois, por prudência, atravessou o adro m uito lentam ente, com o som breiro

bem levantado da face, com o num passeio natural, a procurar fora dos m uros a

frescura da noite. Nenhum encontro o inquietou até à Porta de S. Mauros. Aí,

um m endigo, agachado na escuridão de um arco, e que tocava m onotonam ente

a sua sanfona, pediu, em lam úria, à Virgem e a todos os santos, que levassem

aquele gentil cavaleiro na sua doce e santa guarda. D. Rui parara para lhe

atirar um a esm ola, quando se lem brou que nessa tarde não fora à igrej a, à hora de vésperas, rezar e pedir a bênção a sua divina m adrinha. Com um salto,

desceu logo do cavalo; porque j ustam ente, rente ao velho arco, trem eluzia um a

lâm pada alum iando um retábulo. Era um a im agem da Virgem com o peito

traspassado por sete espadas. D. Rui aj oelhou, pousou o som breiro nas laj es e

com as m ãos erguidas, m uito zelosam ente, rezou um a salve-rainha. O clarão

am arelo da luz envolvia o rosto da Senhora, que, sem sentir as dores dos sete

ferros, ou com o se eles só dessem inefáveis gozos, sorria com os lábios m uito

verm elhos. Enquanto ele rezava, no Convento de S. Dom ingos, ao lado, a

sineta com eçou a tocar a agonia. De entre a som bra negra do arco, cessando a

sanfona, o m endigo m urm urou:

— Lá está um frade a m orrer!

D. Rui disse um a ave-m aria pelo frade que m orria. A Virgem das sete

espadas sorria docem ente — o toque de agonia não era, pois, de m au

presságio! D. Rui cavalgou alegrem ente e partiu.

Para além da Porta de S. Mauros, depois de alguns casebres de oleiros, o

cam inho seguia, esguio e negro, entre altas piteiras. Por trás das colinas, ao fundo da planície escura, subia o prim eiro clarão, am arelo e lânguido, da lua cheia, ainda escondida. E d. Rui m archava a passo, receando chegar a Cabril m uito cedo, antes que as aias e os m oços findassem o serão e o rosário. Por que não lhe m arcara d. Leonor a hora, naquela carta tão clara e tão pensada?... Então a sua im aginação corria adiante, rom pia pelo j ardim de

Cabril, galgava aladam ente a escada1 prom etida — e ele largava tam bém atrás, num a carreira sôfrega, que arrancava as pedras do cam inho m al j unto. Depois

sofreava o cavalo ofegante. Era cedo, era cedo! E retom ava o passo penoso,

sentindo o coração contra o peito, com o ave presa que bate às grades.

Assim chegou ao cruzeiro, onde a estrada se fendia em duas, m ais j untas

que as pontas de um a forquilha, am bas cortando através de pinheiral.

Descoberto diante da im agem crucificada, d. Rui teve um instante de angústia,

pois não recordava qual delas levava ao Cerro dos Enforcados. Já se

em brenhara na m ais cerrada, quando, de entre os pinheiros calados, um a luz

surgiu, dançando no escuro. Era um a velha em farrapos, com as longas

m elenas soltas, vergada sobre um bordão e levando um a candeia.

— Para onde vai este cam inho? — gritou d. Rui.

A velha balançou m ais ao alto a candeia, para m irar o cavaleiro.

—

Para Xaram a.

E luz e velha im ediatam ente se sum iram , fundidas na som bra, com o se ali

tivessem surgido som ente para avisar o cavaleiro do seu cam inho errado... Já

ele virara arrebatadam ente; e, rodeando o Calvário, galopou pela outra estrada m ais larga, até avistar, sob a claridade do céu, os pilares negros, os m adeiros negros do Cerro dos Enforcados. Então estacou, direito nos estribos. Num

côm oro alto, seco, sem erva ou urze, ligados por um m uro baixo, todo

esbrechado, lá se erguiam , negros, enorm es, sob a am arelidão do luar, os quatro pilares de granito sem elhantes aos quatro cunhais de um a casa desfeita.

Sobre os pilares pousavam quatro grossas traves. Das traves pendiam quatro

enforcados negros e rígidos, no ar parado e m udo. Tudo em torno era m orto

com o eles.

Gordas aves de rapina dorm iam em poleiradas sobre os m adeiros. Para

além , rebrilhava lividam ente a água m orta da Lagoa das Donas. E, no céu, a

Lua ia grande e cheia,

D. Rui m urm urou o padre-nosso devido por todo o cristão àquelas alm as

culpadas. Depois im peliu o cavalo, e passava — quando, no im enso

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1Arcada no texto base.

silêncio e na im ensa solidão, se ergueu, ressoou um a voz, um a voz que o cham ava, suplicante e lenta:

—

Cavaleiro, detende-vos, vinde cá!...

D. Rui colheu bruscam ente as rédeas e, erguido sobre os estribos, atirou os

olhos espantados por todo o sinistro erm o. Só avistou o cerro áspero, a água

rebrilhante e m uda, os m adeiros, os m ortos. Pensou que fora ilusão da noite ou ousadia de algum dem ônio errante. E, serenam ente, picou o cavalo, sem

sobressalto ou pressa, com o num a rua de Segóvia. Mas, por trás, a voz tornou,

m ais urgentem ente o cham ou, ansiosa, quase aflita:

—

Cavaleiro, esperai, não vos vades, voltai, chegai aqui!...

De novo d. Rui estacou e, virado sobre a sela, encarou afoitam ente os quatro corpos pendurados das traves. Do lado dele soava a voz, que, sendo

hum ana, sô podia sair de form a hum ana! Um desses enforcados, pois, o

cham ara, com tanta pressa e ânsia.

Restaria nalgum , por m aravilhosa m ercê de Deus, alento e vida? Ou seria

que, por m aior m aravilha, um a dessas carcaças m eio apodrecidas o detinha

para lhe transm itir avisos de além da cam pa?... Mas que a voz rom pesse de um

peito vivo ou de um peito m orto, grande covardia era abalar, espavoridam ente,

sem a atender e a servir.

Atirou logo para dentro do cerro o cavalo, que trem ia; e, parando, direito e

calm o, com a m ão na ilharga, depois de fitar, um por um , os quatro corpos

suspensos, gritou:

—

Qual de vós, hom ens enforcados, ousou cham ar por d. Rui de

Cárdenas?

Então aquele que voltava as costas à lua cheia respondeu, do alto da corda,

m uito quieta e naturalm ente, com o um hom em que conversa da sua j anela para

a rua:

— Senhor, fui eu.

D. Rui fez avançar para diante dele o cavalo. Não lhe distinguia a face.

enterrada no peito, escondida pelas longas e negras m elenas pendentes. Só

percebeu que tinha as m ãos soltas e desam arradas, e tam bém soltos os pés nus,

j á ressequidos e da cor do betum e.

— Que m e queres?

O enforcado, suspirando, m urm urou:

— Senhor, fazei-m e a grande m ercê de m e cortar esta corda em que estou

pendurado,

D. Rui arrancou a espada, e de um golpe certo cortou a corda m eio

apodrecida. Com um sinistro som de ossos entrechocados o corpo caiu

no chão, onde j azeu um m om ento, estirado. Mas im ediatam ente se endireitou sobre os pés m al seguros e ainda dorm entes — e ergueu para d. Rui um a face

m orta, que era um a caveira com a pele m uito colada, e m ais am arela que a Lua

que nela batia. Os olhos não tinham m ovim ento nem brilho. Am bos os beiços

se lhe arreganhavam num sorriso em pedernido. De entre os dentes, m uito

brancos, surdia um a ponta de língua m uito negra,

D. Rui não m ostrou terror, nem asco. E em bainhando serenam ente a

espada:

— Tu estás m orto ou vivo? — perguntou.

O hom em encolheu os om bros com lentidão:

— Senhor, não sei... Quem sabe o que é a vida? Quem sabe o que é a

m orte?

— Mas que queres de m im ?

O enforcado, com os longos dedos descarnados, alargou o nó da corda que

ainda lhe laçava o pescoço e declarou m uito serena e firm em ente:

— Senhor, eu tenho de ir convosco a Cabril, onde vós ides.

O cavaleiro estrem eceu num tão forte assom bro, repuxando as rédeas, que

o seu bom cavalo se em pinou com o assom brado tam bém .

— Com igo a Cabril?!...

O hom em curvou o espinhaço, a que se viam os ossos todos, m ais agudos

que os dentes de um a serra, através de um longo rasgão da cam isa de

estam enha.

— Senhor — suplicou —, não m o negueis. Que eu tenho a receber grande

salário se vos fizer grande serviço!

Então d. Rui pensou de repente que bem podia ser aquela um a traça

form idável do Dem ônio. E, cravando os olhos m uito brilhantes na face m orta

que para ele se erguia, ansiosa, à espera do seu consentim ento — fez um lento

e largo sinal-da-cruz.

O enforcado vergou os j oelhos com assustada reverência:

—

Senhor, para que m e experim entais com esse sinal? Só por ele

alcançam os rem issão, e eu só dele espero m isericórdia.

Então d. Rui pensou que, se esse hom em não era m andado pelo Dem ônio,

bem podia ser m andado por Deus! E logo devotam ente, com gesto subm isso

em que tudo entregava ao Céu, consentiu, aceitou o pavoroso com panheiro:

—

Vem com igo, pois a Cabril, se Deus te m anda! Mas eu nada te

pergunto e tu nada m e perguntes.

Desceu logo o cavalo à estrada, toda alum iada da Lua. O enforcado seguia ao seu lado, com passos tão ligeiros, que m esm o quando d. Rui galopava ele

se conservava rente ao estribo, com o levado por um vento m udo. Por vezes,

para respirar m ais livrem ente, repuxava o nó da corda que lhe enroscava o pescoço. E, quando passavam entre sebes onde errasse o arom a de flores

silvestres, o hom em m urm urava com infinito alívio e delícia:

— Com o é bom correr!

D. Rui ia num assom bro, num torm entoso cuidado, Bem com preendia

agora que era aquele um cadáver reanim ado por Deus, para um estranho e

encoberto serviço. Mas para que lhe dava Deus tão m edonho com panheiro?

Para o proteger? Para im pedir que d. Leonor, am ada do Céu pela sua piedade,

caísse em culpa m ortal? E, para tão divina incum bência de tão alta m ercê, j á

não tinha o Senhor anj os no Céu, que necessitasse em pregar um supliciado?...

Ah! com o ele voltaria alegrem ente a rédea para Segóvia, se não fora a galante

lealdade de cavaleiro, o orgulho de nunca recuar, e a subm issão às ordens de

Deus, que sentia sobre si pesarem ...

De um alto da estrada, de repente, avistaram Cabril, as torres do convento

franciscano alvej ando ao luar, os casais adorm ecidos entre as hortas. Muito

silenciosam ente, sem que um cão ladrasse de trás das cancelas ou de cim a dos

m uros, desceram a velha ponte rom ana. Diante do Calvário, o enforcado caiu

de j oelhos nas laj es, ergueu os lívidos ossos das m ãos, ficou longam ente

rezando, entre longos suspiros. Depois, ao entrar na azinbaga, bebeu m uito

tem po, e consoladam ente, de um a fonte que corria e cantava sob as frondes de

um salgueiro. Com o a azinhaga era m uito estreita, ele cam inhava adiante do

cavaleiro, todo curvado, os braços cruzados fortem ente sobre o peito, sem um

rum or.

A Lua ia alta no céu. D. Rui considerava com am argura aquele disco. cheio e lustroso, que espargia tanta claridade, e tão indiscreta, sobre o seu segredo!

Ah! com o se estragava a noite que devia ser divina! Um a enorm e Lua surdia

de entre os m ontes para tudo alum iar. Um enforcado descia da forca para o

seguir e tudo saber. Deus assim o ordenara. Mas que tristeza chegar à doce

porta, docem ente prom etida, com tal intruso ao seu lado, sob aquele céu todo

claro!

Bruscam ente, o enforcado estacou, erguendo o braço, donde a m anga

pendia em farrapos. Era o fim da azinhaga que desem bocava em cam inho m ais

largo e m ais batido — e diante deles alvej ava o com prido m uro

da quinta do senhor de Lara, tendo aí um m irante, com varandins de pedra, e todo revestido de hera.

— Senhor — m urm urou o enforcado, segurando com respeito o estribo de

d. Rui — logo a poucos passos deste m irante é a porta por onde deveis

penetrar no j ardim . Convém que aqui deixeis o cavalo, am arrado a um a

árvore, se o tendes por seguro e fiel. Que na em presa em que vam os, j á é

dem ais o rum or dos nossos pés!...

Silenciosam ente d. Rui apeou, prendeu o cavalo, que sabia fiel e seguro, ao

tronco de um álam o seco.

E tão subm isso se tornara àquele com panheiro im posto por Deus, que sem

outro reparo o foi seguindo rente do m uro que o luar batia.

Com vagarosa cautela, e na ponta dos pés nus, avançava agora o enforcado,

vigiando o alto do m uro, sondando a negrura da sebe, parando a escutar

rum ores que só para ele eram percebíveis — porque nunca d. Rui conhecera

noite m ais fundam ente adorm ecida e m uda,

E tal susto, em quem devia ser indiferente a perigos hum anos, foi

lentam ente enchendo tam bém o valoroso cavaleiro de tão viva desconfiança,

que tirava o punhal da bainha, enrodilhava a capa no braço, e m archava em

defesa, com o olhar faiscando, com o num cam inho de em boscada e briga.

Assim chegaram a um a porta baixa, que o enforcado em purrou, e que se abriu

sem gem er nos gonzos. Penetraram num a rua ladeada de espessos teixos até

um tanque cheio de água, onde boiavam folhas de nenúfares, e que toscos

bancos de pedra circundavam , cobertos pela ram a de arbustos em flor.

—

Por ali! — m urm urou o enforcado, estendendo o braço m irrado.

Era, além do tanque, um a avenida que densas e velhas árvores abobadavam

e escureciam . Por ela se m eteram , com o som bras na som bra, o enforcado

adiante, d. Rui seguindo m uito sutilm ente, sem roçar um ram o, m al pisando a

areia. Um leve fio de água sussurrava entre relvas. Pelos troncos subiam rosas trepadeiras, que cheiravam docem ente. O coração de d. Rui recom eçou a bater

num a esperança de am or.

— Chut! — fez o enforcado.

E d. Rui quase tropeçou no sinistro hom em que estacara, com os braços

abertos com o as traves de um a cancela. Diante deles quatro degraus de pedra

subiam a um terraço, onde a claridade era larga e livre. Agachados, treparam

os degraus — e ao fundo de um j ardim sem árvores, todo em canteiros de

flores bem recortados, orlados de buxo curto, avistaram um

lado da casa batido pela lua cheia. Ao m eio, entre as j anelas de peitoril fechadas, um balcão de pedra, com m anj ericões aos cantos, conservava as

vidraças abertas, largam ente. O quarto, dentro, apagado, era com o um buraco

de treva na claridade da fachada que o luar banhava. E, arrim ada contra o

balcão, estava um a escada com degraus de corda.

Então o enforcado em purrou d. Rui vivam ente dos degraus para a

escuridão da avenida. E aí, com um m odo urgente, dom inando o cavaleiro,

exclam ou:

— Senhor! Convém agora que m e deis o vosso som breiro e a capa! Vós

quedais aqui na escuridão destas árvores. Eu vou trepar àquela escada e

espreitar para aquele quarto... E se for com o desej ais, aqui voltarei, e com

Deus sede feliz...

D. Rui recuou no horror de que tal criatura subisse a tal j anela!

E bateu o pé, gritou surdam ente:

— Não, por Deus!

Mas a m ão do enforcado, lívida na escuridão, bruscam ente lhe arrancou o

som breiro da cabeça, lhe puxou a capa do braço. E j á se cobria, j á se

em buçava, m urm urando agora, num a súplica ansiosa:

— Não m o negueis, senhor, que se vos fizer grande serviço, ganharei

grande m ercê!

E galgou os degraus — estava no alum iado e largo terraço.

D. Rui subiu, atontado, e espreitou. E, oh m aravilha!, era ele, d. Rui, todo

ele, na figura e no m odo, aquele hom em que, por entre os canteiros e o buxo

curto, avançava, airoso e leve, com a m ão na cintura, a face erguida

risonham ente para a j anela, a longa plum a escarlate do chapéu balançando em triunfo. O hom em avançava no luar esplêndido. O quarto am oroso lá estava

esperando, aberto e negro. E d. Rui olhava, com olhos que faiscavam ,

trem endo de pasm o e cólera. O hom em chegara à escada: destraçou a capa,

assentou o pé no degrau de corda!

— Oh! lá sobe, o m aldito! — rugiu d. Rui.

O enforcado subia. Já a alta figura, que era dele, d. Rui, estava a m eio da

escada, toda negra contra a parede branca. Parou!... Não! Não parara: subia,

chegava — j á sobre o rebordo da varanda pousara o j oelho cauteloso. D. Rui

olhava, desesperadam ente, com os olhos, com a alm a, com todo o seu ser... E

eis que, de repente, do quarto negro surge um negro vulto, um a furiosa voz

brada:

— Vilão, vilão! — e um a lâm ina de adaga faísca, e cai, e outra vez se

ergue, e rebrilha, e se abate, e ainda refulge, e ainda se em bebe!... Com o

um fardo, do alto da enseada, pesadam ente, o enforcado cai sobre a terra m ole.

Vidraças, portadas do balcão logo se fecham com fragor. E não houve m ais

senão o silêncio, a serenidade m acia, a Lua m uito alta e redonda no céu de

verão.

Num relance d. Rui com preendera a traição, arrancara a espada, recuando

para a escuridão da avenida — quando, oh m aravilha!, correndo através do

terraço, aparece o enforcado, que lhe agarra a m anga e lhe grita:

— A cavalo, senhor, e abalar, que o encontro não era de am or, m as de

m orte!...

Am bos descem arrebatadam ente a avenida, costeiam o tanque sob o refúgio dos arbustos em flor, m etem pela rua estreita orlada de teixos, varam a porta — e um m om ento param , ofegantes, na estrada, onde a Lua, m ais

refulgente, m ais cheia, fazia com o um puro dia.

E então, só então, d. Rui descobriu que o enforcado conservava cravada no

peito, até aos copos, a adaga, cuj a ponta lhe saía pelas costas, luzidia e

lim pa!... Mas j á o pavoroso hom em o em purrava, o apressava:

— A cavalo, senhor, e abalar, que ainda está sobre nós a traição!

Arrepiado, num a ânsia de findar aventura tão cheia de m ilagre e de horror,

d. Rui colheu as rédeas, cavalgou sofregam ente. E logo, em grande pressa, o

enforcado saltou tam bém para a garupa do cavalo fiel. Todo se arrepiou o bom

cavaleiro, ao roçar nas suas costas aquele corpo m orto, dependurado de um a

forca, atravessado por um a adaga. Com que desespero galopou então pela

estrada infindável! Em carreira tão violenta o enforcado nem oscilava, rígido

sobre a garupa, com o um bronze num pedestal. E d. Rui a cada m om ento

sentia um frio m ais regelado que lhe regelava os om bros, com o se levasse

sobre eles um saco cheio de gelo. Ao passar no cruzeiro m urm urou:

—

Senhor, valei-m e!

Para além do cruzeiro, de repente, estrem eceu com o quim érico m edo de

que tão fúnebre com panheiro, para sem pre, o ficasse acom panhando, e se

tornasse seu destino galopar através do m undo, num a noite eterna, levando um

m orto à garupa... E não se conteve, gritou para trás, no vento da carreira que os vergastava:

—

Para onde quereis que vos leve?

O enforcado, encostando tanto o corpo a d. Rui que o m agoou com os

copos da adaga, segredou:

—

Senhor, convém que m e deixeis no Cerro!

Doce e infinito alívio para o bom cavaleiro — pois o Cerro estava perto, e j á lhe avistava, na claridade desm aiada, os pilares e as traves

negras... Em breve estacou o cavalo, que trem ia, branqueado de espum a,

Logo o enforcado, sem rum or, escorregou da garupa, segurou, com o

bom serviçal, o estribo de d. Rui. E com a caveira erguida, a língua negra

m ais saída de entre os dentes brancos, m urm urou em respeitosa súplica:

— Senhor, fazei-m e agora a grande m ercê de m e pendurar outra vez da

m inha trave.

D. Rui estrem eceu de horror:

— Por Deus! Que vos enforque, eu?...

O hom em suspirou, abrindo os braços com pridos:

— Senhor, por vontade de Deus é, e por vontade d'Aquela que é m ais cara

a Deus!

Então, resignado, subm isso aos m andados do Alto, d. Rui apeou — e

com eçou a seguir o hom em , que subia para o Cerro pensativam ente, vergando

o dorso, donde saía, espetada e luzidia, a ponta da adaga. Pararam am bos sob a trave vazia. Em torno das outras traves pendiam as outras carcaças. O silêncio era m ais triste e fundo que os outros silêncios da Terra. A água da lagoa

enegrecera. A Lua descia e desfalecia.

D. Rui considerou a trave onde restava, curto no ar, o pedaço de corda que

ele cortara com a espada.

— Com o quereis que vos pendure? — exclam ou. — Àquele pedaço de

corda não posso chegar com a m ão: nem eu só basto para lá vos içar.

— Senhor — respondeu o hom em — aí a um canto deve haver um longo

rolo de corda, Um a ponta dela m e atareis a este nó que trago no pescoço: a

outra ponta a arrem essareis por cim a da trave, e puxando depois, forte com o

sois, bem m e podereis reenforcar.

Am bos curvados, com passos lentos, procuraram o rolo de corda. E foí o

enforcado que o encontrou, o desenrolou... Então d. Rui descalçou as luvas. E

ensinado por ele (que tão bem o aprendera do carrasco) atou um a ponta da

corda ao laço que o hom em conservava no pescoço, e arrem essou fortem ente a

outra ponta, que ondeou no ar, passou sobre a trave, ficou pendurada rente ao

chão. E o rij o cavaleiro, fincando os pés, retesando os braços, puxou, içou o

hom em , ate ele se quedar, suspenso, negro no ar, com o um enforcado natural

entre os outros enforcados.

— Estais bem assim ?

Lenta e sum ida, veio a voz do m orto:

— Senhor, estou com o devo.

Então d. Rui, para o fixar, enrolou a corda em voltas grossas ao pilar de pedra. E tirando o som breiro, lim pando com as costas da m ão o suor que o

alagava, contem plou o seu sinistro e m iraculoso com panheiro. Estava j á rígido

com o antes, com a face pendida sob as m elenas caídas, os pés inteiriçados,

todo puído e carcom ido com o um a velha carcaça. No peito conservava a adaga

cravada. Por cim a, dois corvos dorm iam quietos.

— E agora que m ais quereis? — perguntou d. Rui, com eçando a calçar as

luvas.

Sum idam ente, do alto, o enforcado m urm urou:

— Senhor, m uito vos rogo agora que, ao chegar a Segóvia, tudo conteis

fielm ente a Nossa Senhora do Pilar, vossa m adrinha, que dela espero grande

m ercê para a m inha alm a, por este serviço que, a seu m andado, vos fez o m eu

corpo!

Então, d. Rui de Cárdenas tudo com preendeu — e, aj oelhando devo-

tam ente sobre o chão de dor e m orte, rezou um a longa oração por aquele bom

enforcado.

Depois galopou para Segóvia. A m anhã clareava, quando ele transpôs a

Porta de s. Mauros. No ar fino os sinos claros tocavam a m atinas. E entrando

na igrej a de Nossa Senhora do Pilar, ainda no desalinho da sua terrível

j ornada, d. Rui, de roj o ante o altar, narrou a sua Divina Madrinha a ruim

tenção que o levara a Cabril, o socorro que do Céu recebera, e, com quentes

lágrim as de arrependim ento e gratidão, lhe j urou que nunca m ais poria desej o

onde houvesse pecado, nem no seu coração daria entrada a pensam ento que

viesse do Mundo e do Mal.

IV

A essa hora, em Cabril, d. Alonso de Lara, com olhos esbugalhados de

pasm o e terror, esquadrinhava todas as ruas e recantos e som bras do seu

j ardim .

Quando ao alvorecer, depois de escutar à porta da câm ara onde nessa noite

encerrara d. Leonor, ele descera sutilm ente ao j ardim e não encontrara,

debaixo do balcão, rente à escada, com o deliciosam ente esperava, o corpo de

d. Rui de Cárdenas, teve por certo que o hom em odioso, ao tom bar, ainda com

um resto débil de vida, se arrastara sangrando e arquej ando, na tentativa de

alcançar o cavalo e abalar de Cabril... Mas, com aquela rij a adaga que ele três vezes lhe enterrara no peito, e que no

peito lhe deixara, não se arrastaria o vilão por m uitas j ardas, e nalgum canto devia j azer frio e inteiriçado. Rebuscou então cada rua, cada som bra, cada

m aciço de arbustos. E, oh m aravilha!, não descobria o corpo, nem pegadas,

nem terra que houvesse sido rem exida, nem sequer rasto de sangue sobre a

terra! E todavia, com m ão fam inta e certeira, três vezes ele lhe em bebera a

adaga no peito, e no peito lha deixara!

E era Rui de Cárdenas o hom em que ele m atara — que m uito bem o

conhecera logo, do fundo apagado do quarto donde espreitava, quando ele, à

claridade da Lua, veio através do terraço, confiado, ligeiro, com a m ão na

cintura, a face risonham ente erguida e a plum a do som breiro m eneando em

triunfo! Com o podia ser coisa tão rara — um corpo m ortal sobrevivendo a um

ferro que três vezes lhe vara o coração e no coração lhe fica cravado? E a

m aior raridade era que nem no chão, debaixo da varanda, onde corria ao longo

do m uro um a tira de goivos e cecéns, deixara um vestígio aquele corpo forte,

caindo de tão alto pesadam ente, inertem ente, com o um fardo! Nem um a flor

m achucada — todas direitas, viçosas, com o novas, com gotas leves de

orvalho! Im óvel de espanto, quase de terror, d. longo de Lara ali parava, considerando o balcão, m edindo a altura da escada, olhando esgazeadam ente

os goivos direitos, frescos, sem um a haste ou folha vergada. Depois

recom eçava a correr loucam ente o terraço, a avenida, a rua de teixos, na

esperança ainda de um a pegada, de um galho partido, de um a nódoa de sangue

na areia fina.

Nada! Todo o j ardim oferecia um desusado arranj o e lim peza nova, com o

se sobre ele nunca houvesse passado nem o vento que desfolha, nem o sol que

m urcha.

Então, ao entardecer, devorado pela incerteza e m istério, tom ou um cavalo,

e sem escudeiro ou cavalariço, partiu para Segóvia. Curvado e

escondidam ente, com o um foragido, penetrou no seu palácio pela porta do

pom ar: e seu prim eiro cuidado foi correr à galeria de abóbada, destrancar as

portadas da j anela e espreitar avidam ente a casa de d. Rui de Cárdenas. Todas

as gelosias da velha m orada do arcediago estavam escuras, abertas, respirando

a fresquidão da noite — e à porta, sentado num banco de pedra, um m oço de

cavalariça afinava preguiçosam ente a bandurra.

D. Alonso de Lara desceu a sua câm ara, lívido, pensando que não houvera

certam ente desgraça em casa onde todas as j anelas se abrem para refrescar, e

no portão da rua os m oços folgam . Então bateu as palm as, pediu furiosam ente

a ceia. E, apenas sentado, ao topo da m esa,

na sua alta sede de couro lavrado, m andou cham ar o intendente, a quem ofereceu logo, com estranha fam iliaridade, um copo de vinho velho. Enquanto

o hom em , de pé, bebia respeitosam ente, d. Alonso, m etendo os dedos pelas

barbas e forçando a sua som bria face a sorrir, perguntava pelas novas e

rum ores de Segóvia. Nesses dias da sua estada em Cabril, nenhum caso criara

pela cidade espanto e m urm uração?... O intendente lim pou os beiços, para

afirm ar que nada ocorrera em Segóvia de que andasse m urm uração, a não ser

que a filha do senhor d. Gutierres, tão m oça e tão rica herdeira, tom ara o véu no Convento das Carm elitas Descalças. D. Alonso insistia, fitando vorazm ente

o intendente. E não se travara um a grande briga?... Não se encontrara ferido,

na estrada de Cabril, um cavaleiro m oço, m uito falado?... O intendente

encolhia os om bros: nada ouvira, pela cidade, de brigas ou de cavaleiros

feridos. Com um aceno desabrido, d. Alonso despediu o intendente.

Apenas ceara, parcam ente, logo voltou à galeria a espreitar as j anelas de d.

Rui. Estavam agora cerradas; na últim a, da esquina, trem eluzia um a claridade.

Toda a noite d. Alonso velou, rem oendo incansavelm ente o m esm o espanto.

Com o pudera escapar aquele hom em , com um a adaga atravessada no coração?

Com o pudera?... Ao luzir da m anhã, tom ou um a capa, um largo som breiro,

desceu ao adro, todo em buçado e encoberto, e ficou rondando por diante da

casa de d. Rui. Os sinos tocaram a m atinas. Os m ercadores, com os gibões m al

abotoados, saíam a erguer as portadas das loj as, a pendurar as tabuletas. Já os hortelões, picando os burros carregados de seiras, atiravam os pregões da

hortaliça fresca, e frades descalços, com o alforj e aos om bros, pediam esm ola, benziam as m oças.

Beatas em biocadas, com grossos rosários negros, enfiavam gulosam ente

para a igrej a. Depois o pregoeiro da cidade, parando a um canto do adro, tocou um a buzina, e num a voz trem enda com eçou a ler um edital.

O senhor de Lara, parara j unto do chafariz, pasm ado, com o em bebido no cantar das três bicas de água. De repente pensou que aquele edital, lido pelo

pregoeiro da cidade, se referia talvez a d. Rui, ao seu desaparecim ento...

Correu à esquina do adro — m as j á o hom em enrolara o papel, se afastava

m aj estosam ente, batendo nas laj es com a sua vara branca. E, quando se

voltava para espiar de novo a casa, eis que os seus olhos atônitos encontram d.

Rui, d. Rui que ele m atara — e que vinha cam inhando para a igrej a de Nossa

Senhora, ligeiro, airoso, a face risonha e erguida no fresco ar da m anhã, de

gibão claro, de plum as claras,

com um a das m ãos pousando na cinta, a outra m eneando distraidam ente um bastão de borlas e torçal de ouro!

D. Alonso recolheu então a casa com passos arrastados e envelhecidos. No

alto da escadaria de pedra, achou o seu velho capelão, que o viera saudar, e

que, penetrando com ele na antecâm ara, depois de pedir, com reverência,

novas da senhora d. Leonor, lhe contou logo de um prodigioso caso, que

causava pela cidade grave m urm uração e espanto. Na véspera, de tarde, indo o

corregedor visitar o cerro das forcas, pois se acercava a festa dos Santos

Apóstolos, descobrira, com m uito pasm o e m uito escândalo, que um dos

enforcados tinha um a adaga cravada no peito! Fora gracej o de um pícaro

sinistro? Vingança que nem a m orte saciara?... E para m aior prodígio ainda, o

corpo fora despendurado da forca, arrastado em horta ou j ardim (pois que

presas aos velhos farrapos se encontraram folhas tenras) e depois novam ente

enforcado e com corda nova!... E assim ia a turbulência dos tem pos, que nem

os m ortos se forraram a ultraj es!

D. Alonso escutava com as m ãos a trem er, os pêlos arrepiados. E

im ediatam ente, num a ansiosa agitação, bradando, tropeçando contra as portas,

quis partir, e por seus olhos verificar a fúnebre profanação. Em duas m ulas

aj aezadas à pressa, am bos abalaram para o Cerro dos Enforcados, ele e o

capelão arrastado e aturdido. Num eroso povo de Segóvia se j untara j á no

cerro, pasm ando para o m aravilhoso horror — o m orto que fora m orto!...

Todos se arredaram ante o nobre senhor de Lara, que se arrem essara pelo

cabeço acim a; estacou a olhar, esgazeado e lívido, para o enforcado e para a

adaga que lhe varava o peito. Era a sua adaga — fora ele que m atara o m orto!

Galopou espavoridam ente para Cabril. E ai se encerrou com o seu segredo,

com eçando logo a am arelecer, a definhar, sem pre arredado da senhora d.

Leonor, escondido pelas ruas som brias do j ardim , m urm urando palavras ao

vento, até que na m adrugada de s. João, um a serva, que voltava da fonte com a

sua bilha, o encontrou m orto, por baixo do balcão de pedra, todo estirado no

chão, com os dedos encravados no canteiro de goivos, onde parecia ter

longam ente esgaravatado a terra. e procurado...

V

Para fugir a tão lam entáveis m em órias, a senhora d. Leonor, herdeira de

todos os bens da Casa da Lara, recolheu ao seu palácio de Segóvia.

Mas com o agora sabia que o senhor d. Ruí de Cardenas escapara

m iraculosam ente à em boscada de Cabril, e com o cada m anhã, espreitando de

entre as gelosias, m eio cerradas, o seguia, com olhos que se não fartavam e se um edeciam , quando ele cruzava o adro para entrar na igrej a, não quis ela, com

receio das pressas e im paciências do seu coração, visitar a Senhora do Pilar enquanto durasse o seu luto. Depois, um a m anhã de dom ingo, quando, em vez

de crepes negros, se pôde cobrir de sedas roxas, desceu a escadaria do seu

palácio, pálida de um a em oção nova e divina, pisou as laj es do adro, transpôs

as portas da igrej a. D. Rui de Cardenas estava aj oelhado diante do altar, onde depusera o seu ram o votivo de cravos am arelos e brancos. Ao rum or das sedas

finas, ergueu os olhos com um a esperança m uito pura e toda feita de graça

celeste, com o se um anj o o cham asse. D. Leonor aj oelhou, com o peito a arfar,

tão pálida e tão feliz que a cera das tochas não era m ais pálida, nem m ais

felizes as andorinhas que batiam as asas livres pelas ogivas da velha igrej a.

Ante esse altar, e de j oelhos nessas laj es, foram eles casados pelo bispo de

Segóvia, d. Martinho, no outono do ano da graça de 1475, sendo j á reis de

Castela Isabel e Fernando, m uito fortes e m uito católicos, por quem Deus

operou grandes feitos sobre a terra e sobre o m ar.

Raul Brandão

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Um rei que vivia enclausurado num castelo inóspito e que "odiava a vida", uma árvore que servira de forca, o amor de dois mendigos — e a morte

que "em lugar da foice simbólica, pela primeira vez trazia nas mãos um ramo de árvore". Eis o conto. Eis um escritor marcante da melhor

literatura portuguesa, que aqui publicamos, salvo erro, pela primeira vez

entre nós. Fausto Cunha, há muitos anos, foi quem me falou deste

simbolista e decadentista convicto. Mais cio que isto: Raul Brandão

(1867-1930) foi um precursor do realismo e do romance moderno, com

Húm us (1917); escreveu, entre outros. O s pescadores (1923) e os contos de A m orte do palhaço e O m istério da árvore (1926). À sombra desta árvore, um Conto para ser admirado, um autor para ser notado.

O m istério da árvore

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ESGALHADA E SECA. OS SEUS FRUTOS ERAM CADÁVERES OU CORVOS. Ninguém se

lem brava que tivesse dado folhas nem flor, a árvore enorm e que havia séculos

servia de forca: ninguém se deitava à sua som bra, e até o sol fugia da árvore

estarrecida e hirta que havia séculos servia de forca.

Em frente ficava o Palácio real, construído num bloco de pedra escura, e sô

o Rei, de alm a igual à sua alm a, nua e trágica, se pusera a am á-la, a árvore

triste que havia séculos servia de forca.

Que doença estranha, lenta m as tenaz, m atava o Rei?... Só am ava os

crepúsculos, as agonias da luz, o passado, e a m ultidão silenciosa vinha vê-lo, ao fim da tarde, de cabeça encostada aos vidros das j anelas, fixo o olhar nas

águas verdes e lim osas e no espectro da árvore levantada diante do Palácio.

Tudo que era vivo fugira de ao pé dele, porque o Rei m andava punir a

m ocidade e o am or, e dez léguas à roda o país tinha sido assolado pelos seus

guerreiros brutais. Mandara queim ar tudo, devastar tudo no seu reino. Nem

um a folha nem um a ave — nem um sinal de vida. De pé unicam ente a árvore,

desde séculos estarrecida e hirta, a árvore m aldita que no seu reino servia de forca.

No silêncio tum ular do Palácio os passos do Rei ecoavam pelos corredores

desertos, lentos ou precipitados, conform e o pensam ento tenaz que o

devorava, gastando pouco a pouco as laj es duras do chão. Não podia am ar.

Nem a voluptuosidade, nem o ideal, nem o am or, nem a carne láctea das m ulheres tudo the era vedado. Horas atrás de horas se

ouviam no Palácio os passos do Rei doente, toda a noite, toda a noite a rondar...

Sucedeu que veio a prim avera e todas as árvores, para la do território

assolado, estrem eceram e se cobriram de flor, Borboletas nascidas do seu

hálito noivavam no azul, e dois m endigos am orosos, de países lendários,

entraram e perderam -se naquela terra praguenta, ela envolta na poalha dos

cabelos louros, ele feliz e esbelto, preso ao seu olhar. Eram pobres. E assim , apenas vestidos, vieram enlaçados com a prim avera, cobrindo a terra erm a,

que calcavam , de vida e de am or. Eram pobres e felizes. Flores esvoaçavam

pela sua nudez, e as m acieiras dos quintais deitavam galhos fora dos m uros, de propósito para os ver passar.

Azul, sonho, entontecim ento, toda a atm osfera estrem ecia. Só o Rei no

Palácio deserto vivia braço a braço com a dor. A vida, a luz, as árvores

enoj avam -no. Queria todo o país negro, deserto e escalvado; e o am or que

trespassava a terra e os bichos, a própria m orte que tudo transform a, lhe

Continuar: parte 28 de 28