Os Melhores Contos Fantásticos
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 28 partes.
ser os passos do sr. Alphonse quando fora procurar seu anel no dedo da
estátua. Por outro lado, a sebe, nesse lugar, sendo m enos com pacta, devia ter
sido nesse ponto atravessada pelos m atadores. Passando um a e outra vez
diante da estátua, detive-m e um instante para observá-la. Desta vez,
confessarei, não pude contem plar sem susto sua expressão de m aldade
irônica; e, com a cabeça toda cheia das cenas horríveis que acabara de
testem unhar, pareceu-m e ver um a divindade infernal aplaudindo a desgraça
que se abatia sobre aquela casa.
Voltei a m eu quarto e ali fiquei até o m eio-dia. Então saí e pedi notícias de
m eus anfitriões. Estavam um pouco m ais calm os. A srta. de Puy garrig, que
deveria cham ar de a viúva do sr. Alphonse, voltara a si. Até falara com o
procurador do rei de Perpignan, então em viagem de inspeção a Ille, e esse
m agistrado recebera seu testem unho. Ele pediu o m eu. Eu lhe disse o que
sabia, e não lhe escondi m inhas suspeitas contra o arrieiro aragonês. Ordenou
que ele fosse preso im ediatam ente.
— Soube algum a coisa da sra. Alphonse? — perguntei ao procurador do
rei, quando m eu testem unho foi escrito e assinado.
— Essa j ovem infeliz ficou louca — disse-m e ele, sorrindo tristem ente. —
Louca! Com pletam ente louca. Eis o que ela conta:
"Ela estava deitada, disse ela, fazia alguns m inutos, com as cortinas
puxadas, quando a porta de seu quarto se abriu e alguém entrou. Então a sra.
Alphonse estava na beirada da cam a, com o rosto virado para a parede. Não
fez um m ovim ento sequer, persuadida de que era seu m arido. Ao cabo de um
instante, a cam a gem eu com o se estivesse carregada com um peso enorm e.
Ela sentiu um grande m edo, m as não ousou virar a cabeça. Cinco m inutos,
dez m inutos talvez... ela não consegue calcular o tem po, se passaram assim .
Depois ela fez um m ovim ento involuntário, ou a pessoa que estava na cam a fez um , e ela sentiu o contato de algo frio com o o gelo, essas são suas
expressões. Ela se afundou no espaço entre a cam a e a parede, trem endo com
todos os m em bros. Pouco depois, a porta se abriu um a segunda vez, e alguém
entrou, a dizer: `Boa noite, m inha m ulherzinha.' Logo depois, as cortinas
foram puxadas. Ela
ouviu um grito abafado. A pessoa que estava na cam a, ao lado dela, se sentou e pareceu estender os braços para a frente. Virou a cabeça então... e viu, diz ela, seu m arido de j oelhos j unto ao leito, tendo a cabeça à altura do
travesseiro, entre os braços de um a espécie de gigante esverdeado que o
apertava com força. Ela disse e repetiu vinte vezes, pobre m ulher!... Diz que a reconheceu... adivinhe o quê? A Vênus de bronze, a estátua do sr. de
Pey rehorade... Desde que está na região, todo m undo sonha com ela. Mas
retom o o relato da infeliz louca. Ante esse espetáculo, ela perdeu os sentidos, e provavelm ente alguns m inutos antes tinha perdido a razão. Ela não sabe de
m odo algum dizer quanto tem po ficou desm aiada. Voltando a si, reviu o
fantasm a, ou a estátua, com o ela sem pre diz, im óvel, com as pernas e a parte
de baixo do corpo na cam a, com o busto e os braços estendidos para a frente,
e entre seus braços seu m arido, sem m ovim ento. Um galo cantou. Então a
estátua saiu da cam a, deixou cair o cadáver e saiu. A sra. Alphonse se
pendurou na sineta, e o senhor sabe o restante."
Levaram o espanhol; estava calm o e se defendeu com bastante sangue-frio
e presença de espírito. De resto, não negou o que eu o ouvira dizer, m as
explicou que só quisera dizer que no dia seguinte, j á descansado, teria
ganhado um a partida de péla de seu vencedor. Lem bro que acrescentou:
— Um aragonês, quando ultraj ado, não espera o dia seguinte para se vingar. Se eu achasse que o sr. Alphonse pretendera m e insultar, teria na hora lhe enfiado m inha faca na barriga.
Com pararam seus sapatos com as m arcas de passos no j ardim ; seus
sapatos eram bem m aiores.
Por fim , o dono do hotel onde esse hom em estava hospedado assegurou
que ele passara toda a noite a m assagear e a m edicar um a de suas m ulas que
estava doente.
Aliás, esse aragonês era um hom em notório, m uito conhecido na região,
aonde vinha todos os anos para com erciar. Foi então solto com pedidos de
desculpas.
Esqueci o testem unho de um criado que vira por últim o o sr. Alphonse
vivo. Fora no m om ento que ele ia subir para a casa de sua m ulher e,
cham ando esse hom em , ele lhe perguntou com ar inquieto se sabia onde eu
estava. O criado respondeu que não m e vira. Então o sr. Alphonse soltou um
suspiro e ficou m ais de um m inuto sem falar, depois disse: "Vam os! O diabo pode tê-lo levado tam bém !"
Perguntei a esse hom em se o sr. Alphonse estava com o anel de diam antes quando falou com ele. O criado hesitou para responder; enfim , disse que não
acreditava, que não havia prestado nenhum a atenção.
— Se estivesse com esse anel no dedo — acrescentou ele se dom inando —
eu o teria sem dúvida notado, pois achava que o dera à sra. Alphonse.
Questionando esse hom em , voltei a sentir um pouco do terror supersticioso
que o testem unho da sra. Alphonse espalhara por toda a casa. O procurador do
rei m e olhou a sorrir, e eu evitei insistir.
Algum as horas após os funerais do sr. Alphonse, m e dispus a deixar Ille. O
coche do sr. de Pey rehorade devia m e conduzir a Perpignan. Apesar de seu
estado de fraqueza, o pobre ancião quis m e acom panhar até a porta de seu
j ardim . Nós o atravessam os em silêncio, ele se arrastando com dificuldade,
apoiado em m eu braço. No m om ento de nos separarm os, lancei um últim o
olhar à Vênus. Previa que m eu anfitrião, em bora não com partilhasse de m odo
algum os terrores e os ódios que ela inspirava a um a parte da fam ília, queria
se desfazer de um obj eto que lhe recordava sem cessar um a desgraça
pavorosa. Minha intenção era fazer com que ele a colocasse num m useu. Eu
hesitava para entrar no assunto, quando o sr. de Pey rehorade virou
m aquinalm ente a cabeça para o lado que m e via olhar fixam ente. Percebeu a
estátua e de im ediato se desfez em lágrim as. Abracei-o e, sem ousar dizer-lhe
um a só palavra, subi para o coche.
Desde m inha partida não soube de nenhum a luz nova que tenha vindo
ilum inar essa m isteriosa catástrofe.
O sr. de Pey rehorade m orreu alguns m eses depois de seu filho. Pelo seu
testam ento, legou-m e seus m anuscritos, que publicarei talvez um dia. Não
encontrei a dissertação relativa às inscrições da Vênus.
PS: Meu am igo, o sr. de P. acaba de m e escrever de Perpignan que a estátua
não existe m ais. Depois da m orte de seu m arido, o prim eiro cuidado da sra. de
Pey rehorade foi de m andá-la fundir num sino, e sob essa nova form a ela serve
à igrej a de Ille. Mas — acrescenta o sr. de P. —parece que um a m á sorte
persegue os que possuem o bronze. Desde que o sino soa em Ille, as vinhas gelaram duas vezes.
Tradução de Augusto Alencastro
Robert Louis Stevenson
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Autor de cerca de sessenta títulos, sendo os mais lidos e reeditados até hoje O médico e o monstro e A ilha do tesouro, além de vários contos, o poeta,
contista e romancista escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894) é um dos
principais nomes da literatura inglesa. Muitos de seus contos são presença obrigatória em antologias internacionais. Fantástico e horror se entrelaçam em alguns deles, como é o caso deste sempre editado "O ladrão de
cadáveres" que aqui publicamos em nova tradução. Os personagens são
estudantes, mas não têm uma vida nada alegre e doidivanas, como era
comum entre os românticos: as tintas e os personagens resumem-se ao
preto-e-branco, sobrando para o leitor algumas surpresas e arrepios.
O ladrão de cadáveres
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TODAS AS NOITES DO ANO. NÓS QUATRO nos reuníam os na saleta do George em
Debenham — o agente funerário, o estalaj adeiro. Fettes e eu. Às vezes havia
m ais gente; m as infalivelm ente, quer chovesse, nevasse ou geasse, lá
estávam os os quatro, cada um instalado em sua poltrona privativa. Fettes era
um velho bêbado escocês, obviam ente um hom em instruído, e de alguns
recursos, pois vivia na ociosidade. Chegara a Debenham anos antes, ainda
j ovem , e graças ao m ero passar do tem po acabara sendo adotado com o
cidadão. Sua capa de cham alote azul era um a antiguidade local, com o a flecha do cam panário da igrej a. Seu lugar na saleta do George, sua ausência da
igrej a, seus vícios velhos, libertinos e indecorosos eram todos considerados
perfeitam ente naturais em Debenham . Tinha algum as vagas opiniões radicais
e algum as heresias fugazes, que de vez em quando expunha e enfatizava com
batidas vacilantes sobre a m esa. Bebia rum — norm alm ente cinco copos toda
noite — e passava a m aior parte de suas visitas ao George sentado, o copo na
m ão direita, num estado de som bria saturação alcoólica. Nós o cham ávam os
de doutor, porque supostam ente tinha algum conhecim ento especial de m edi-
cina, e constava que, num aperto, havia reparado um deslocam ento ou
corrigido um a luxação; além desses detalhes superficiais, porém , nada
sabíam os sobre seu caráter e antecedentes.
Num a noite escura de inverno — soaram nove horas pouco tem po antes que
o hospedeiro se j untasse a nós — havia um hom em doente no George, um
im portante proprietário das vizinhanças, subitam ente
derrubado por um a apoplexia quando a cam inho do Parlam ento; e um tele-gram a fora enviado ao m édico londrino ainda m ais im portante do que o
hom em im portante, cham ando-o à cabeceira deste. Era a prim eira vez que
sem elhante coisa acontecia em Debenham , porque a estrada de ferro fora
inaugurada havia pouco, e estávam os todos devidam ente im pressionados com
a ocorrência.
— Ele veio — disse o hospedeiro, depois de encher e acender seu
cachim bo.
— Ele? — perguntei. — Quem ?... não o m édico.
— O próprio.
— Com o se cham a?
— Dr. Macfarlane.
Fettes estava adiantado no terceiro copo; estupidam ente atordoado, ora
cabeceava, ora olhava estupefato a sua volta, m as a esta últim a palavra
pareceu acordar e repetiu o nom e — Macfarlane — duas vezes, de m aneira
bastante calm a na prim eira, m as com súbita em oção na segunda.
— Isso m esm o — disse o estalaj adeiro —, esse é o nom e dele, doutor
Wolfe Macfarlane.
Fettes ficou sóbrio im ediatam ente; seus olhos despertaram , sua voz tornou-
se clara, alta e firm e, sua linguagem enérgica e séria. Ficam os todos
espantados com a transform ação, com o se um hom em tivesse se levantado
dos m ortos.
— Desculpem -m e — disse. — Não estava prestando m uita atenção à
conversa dos senhores. Quem é esse Wolfe Macfarlane? — E em seguida,
depois de ouvir o estalaj adeiro: — Não pode ser, não pode ser — acrescentou.
— Mesm o assim , gostaria m uito de vê-lo face a face.
— Conhece esse hom em , doutor? — perguntou o agente funerário,
arfante.
— Queira Deus, não! — foi a resposta. — No entanto, esse é um nom e
raro; seria dem ais haver dois. Diga-m e — perguntou ao hospedeiro —, ele é
velho?
— Bem , com certeza não é j ovem , e tem cabelo branco; m as parece m ais
novo que o senhor.
— É m ais velho, contudo, anos m ais velho. Mas — com um a batida na
m esa — é o rum que o senhor vê no m eu rosto... rum e pecado. Esse hom em ,
quem sabe, talvez tenha um a consciência tranqüila e um a boa digestão.
Consciência! Ouvindo-m e falar, os senhores pensariam que fui um bom e
decente cristão, não é? Mas não; nunca fui de cantilenas hipócritas. Voltaire
poderia ter pregado m oral se tivesse estado no m eu lugar;
m as o cérebro — com um piparote na cabeça calva —, o cérebro estava claro e ativo, eu vi e não fiz nenhum a dedução.
— Se o senhor conhece esse m édico — ousei observar, após um a pausa
um tanto desagradável —, tenho a im pressão de que não partilha da boa
opinião que o estalaj adeiro tem dele.
Fettes não m e deu atenção.
— Sim — disse, com súbita decisão. — Tenho de vê-lo face a face. Fez-se
outra pausa; em seguida um a porta foi fechada de m aneira bastante brusca no
prim eiro andar e ouviram -se passos na escada.
— É o m édico — exclam ou o hospedeiro. — Olhe bem , e poderá avistá-
lo.
Só dois passos separavam a saleta da porta da velha estalagem George; a
larga escada de carvalho term inava quase na rua; havia espaço para um tapete
turco e m ais nada entre a soleira e os últim os degraus; m as esse pequeno
espaço era intensam ente ilum inado toda noite, não só pela lâm pada sobre a
escada e a grande lâm pada que ilum inava a tabuleta por baixo, m as pela
cálida radiação da j anela do bar. Com isso o George anunciava-se
feericam ente aos que passavam pela rua fria. Fettes cam inhou com passos
firm es até lá, e nós, parados m ais atrás, contem plam os os dois hom ens, com o
um deles o expressara, face a face. O dr. Macfarlane era atento e vigoroso. O
cabelo branco realçava-lhe o sem blante pálido e plácido, em bora enérgico.
Estava ricam ente vestido com a m ais fina casim ira e o m ais branco linho, e
exibia um a m agnífica corrente de relógio de ouro, abotoaduras e óculos do
m esm o m etal precioso. Usava um a gravata branca pontilhada de lilás, de
dobras largas, e carregava no braço um confortável sobretudo de pele. Não
havia dúvida de que fazia j us a sua idade, exalando riqueza e consideração; e
o beberrão da nossa saleta — calvo, suj o e espinhento, m etido na sua velha
capa de cham alote — fazia um chocante contraste com ele ao confrontá-lo ao
pé da escada.
— Macfarlane! — cham ou, um pouco alto dem ais, m ais parecendo um
arauto que um am igo.
O im portante m édico estancou abruptam ente no quarto degrau, com o se a
fam iliaridade do cham ado surpreendesse e de certo m odo escandalizasse sua
dignidade.
— Toddy Macfarlane! — repetiu Fettes.
O hom em de Londres quase cam baleou. Relanceou o hom em diante de si
por um a fração de segundo, olhou para trás com certo alarm e e então, num
sussurro sobressaltado:
— Fettes! Você!
— Eu m esm o — disse o outro. — Pensou que eu estava m orto tam bém ?
Não nos livram os assim tão facilm ente de um conhecido.
— Psiu, psiu! — exclam ou o m édico. — Silêncio! Este encontro é tão
inesperado... vej o que está nervoso. Tive dificuldade em reconhecê-lo a
princípio, confesso; m as estou radiante... radiante com esta oportunidade. Por ora, terá de ser com o vai e até logo, porque m eu fiacre m e espera e não posso
perder o trem ; m as você... deixe-m e ver... sim , você m e dará seu endereço, e
logo, logo terá notícias m inhas. Precisam os fazer algum a coisa por você.
Fettes. Algo m e diz que está na penúria; m as cuidarem os disso, em m em ória
dos velhos e bons tem pos, com o costum ávam os cantar nas ceias.
— Dinheiro! — exclam ou Fettes. — Dinheiro vindo de você! O dinheiro
que recebi de você continua lá onde o j oguei, na chuva.
O dr. Macfarlane falara com certo grau de superioridade e segurança, m as
a energia incom um dessa recusa lançou-o de volta a sua confusão inicial.
Um olhar vil, horrível, perpassou por sua fisionom ia quase venerável.
— Sej a com o quiser, m eu caro; a últim a coisa que desej o é ofendê-lo. Não
quero im por nada a ninguém . Mas vou lhe deixar m eu endereço...
— Não quero seu endereço... Não quero saber que teto o abriga —
interrom peu o outro. — Ouvi seu nom e; tem i que fosse você; desej ei saber se,
afinal de contas, existia um Deus; agora sei que não. Sum a daqui!
Com o continuava plantado no m eio do tapete, entre a escada e o vão da
porta, o im portante m édico de Londres, para fugir, seria obrigado a rodeá-lo.
Era patente que hesitava à idéia dessa hum ilhação. Por m ais lívido que
estivesse, havia um brilho perigoso em seus óculos; m as, enquanto continuava
indeciso, percebeu que o cocheiro de seu fiacre espiava da rua aquela cena
inusitada, ao m esm o tem po que vislum brou nosso grupinho da saleta,
am ontoado j unto ao canto do bar. A presença de tantas testem unhas fez com
que decidisse fugir im ediatam ente. Agachou-se, roçando no lam bri, e investiu
com o um a serpente rum o à porta. Sua m ortificação, porém , não estava de todo
term inada, pois, quando passava. Fettes agarrou-o pelo braço e, num sussurro,
m as ainda assim discerníveis, estas palavras foram pronunciadas:
— Você o viu de novo?
O rico e im portante m édico de Londres soltou um grito agudo, es-
trangulado; j ogou o autor da pergunta do outro lado do espaço vazio e,
com as m ãos na cabeça, escapou porta afora com o um ladrão pego em flagrante. Antes que tivesse ocorrido a algum de nós fazer um m ovim ento, o
fiacre j á partira com estrépito para a estação. A cena chegara ao fim , com o um sonho, m as o sonho deixara provas e rastros de sua passagem . No dia seguinte
a criada encontrou os belos óculos de ouro quebrados na soleira, e naquela
m esm a noite ficam os todos ali parados sem fôlego, j unto à j anela do bar, e
Fettes ao nosso lado, sóbrio e pálido, com um a expressão resoluta.
— Valha-nos Deus, sr. Fettes! — disse o dono da estalagem , o prim eiro a
recobrar seus sentidos costum eiros. — Que pode significar tudo isso? Essas
coisas estranhas que estiveram falando?
Fettes virou-se para nós; encarou-nos, um após o outro.
— Tratem de m anter o bico calado — disse. — Esse hom em . Macfarlane,
é perigoso contrariá-lo; os que j á fizeram isso se arrependeram tarde dem ais.
E em seguida, sem sequer term inar seu terceiro copo, m uito m enos esperar
os outros dois, deu-nos adeus e, passando pela lâm pada do hotel, m ergulhou
na noite negra.
Voltam os os três para os nossos lugares na saleta, com o grande fogo
verm elho e quatro velas claras; e, à m edida que recapitulávam os o que se
passara, o prim eiro calafrio de nossa surpresa não dem orou a se transform ar
num ardor de curiosidade. Ficam os ali até m uito tarde; foi a sessão m ais longa que j am ais tive no velho George. Antes de nos separarm os, cada hom em
form ulara sua teoria, que estava decidido a provar; e nenhum de nós tinha
qualquer negócio m ais prem ente neste m undo que rastrear o passado de nosso
infeliz com panheiro e surpreender o segredo que ele partilhava com o
im portante m édico de Londres. Não é para m e gabar, m as acredito que m e saí
m elhor em farej ar um a história que m eus dois com panheiros do George; e
talvez não haj a m ais nenhum hom em vivo que possa lhes narrar os eventos
escabrosos e antinaturais que se seguem .
Na j uventude. Fettes estudou m edicina nas escolas de Edim burgo. Tinha
certo talento, o talento que apreende rapidam ente o que ouve e logo o troca
em m iúdos para si m esm o. Estudava pouco em casa; m as era cortês, atento e
inteligente na presença dos m estres. Eles logo o distinguiram com o um rapaz
que ouvia com atenção e tinha boa m em ória; adem ais, por estranho que isso
m e tenha parecido quando o ouvi pela prim eira vez, naqueles dias ele era
bem -apessoado, de aparência
agradável. Havia, nessa época, certo professor de um curso extram uros de anatom ia, que designarei aqui pela letra K... Seu nom e se tornaria m ais tarde
dem asiadam ente conhecido. O hom em que o usava cam inhava sorrateiro
pelas ruas de Edim burgo, disfarçado, enquanto a m ultidão que aplaudia a execução de Burke1 pedia em altos brados o sangue de seu em pregador. Mas nessa época o sr. K... estava no auge da m oda; gozava de um a popularidade
devida em parte a seu talento e perícia e em parte à incapacidade de seu rival, o professor da universidade. Os estudantes, pelo m enos, j uravam por seu
nom e e Fettes acreditou, e fez outros acreditarem , que havia lançado as bases
do seu sucesso quando ganhou a boa vontade desse hom em m eteoricam ente
fam oso. Além de um m estre consum ado, o sr. K... era um bon vivant, gostava tanto de um a alusão m aliciosa quanto de um a boa preparação. Em um a e outra
coisa Fettes fazia por onde ser notado e, na altura do seu segundo ano no
curso, ocupava a posição sem i-regular de segundo dem onstrador ou
subassistente de classe.
Nessa condição, os cuidados com o anfiteatro e as preleções recaíam em
particular sobre seus om bros. Devia responder pela lim peza do local e o
procedim ento dos outros estudantes, e era parte de suas obrigações prover,
receber e seccionar os vários cadáveres. Era para que pudesse se desincum bir
deste últim o assunto — na época m uito delicado — que o sr. K... o m antinha
aloj ado no m esm o beco, de fato no m esm o prédio, em que ficava a sala de
dissecação. Ali, após um a noite de prazeres turbulentos, as m ãos ainda
vacilando, a vista ainda em baçada e confusa, ele era tirado da cam a, nas horas escuras que precedem a aurora no inverno, pelo cham ado dos suj os e
tem erários traficantes que abasteciam a m esa. Abria a porta para esses
hom ens, m ais tarde fam igerados em todo o país; aj udava-os com sua trágica
carga, pagava-lhes seu sórdido preço e ficava a sós, depois que partiam , com
as inam istosas relíquias da raça hum ana. Desse cenário, voltava para m ais
um a ou duas horas de cochilo, a fim de reparar os abusos da noite e revigorar-se para os trabalhos do dia.
Poucos rapazes teriam sido m ais insensíveis às im pressões de um a vida
passada assim , em m eio às insígnias da m ortalidade. Trazia a m ente fechada
para todas as considerações gerais. Era incapaz de se interessar pelo destino e a sorte de outrem , escravo de seus próprios desej os e de
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1 William Burke (1792-1829), ladrão de túm ulos e assassino irlandês. (N.T.)
suas reles am bições. Fundam entalm ente frio, leviano e egoísta, possuía aquela pequena dose de prudência, erroneam ente cham ada m oralidade, que afasta um
hom em da em briaguez inconveniente ou do furto passível de punição. Além
disso, am bicionava certo grau de consideração de seus professores e colegas,
e não tinha desej o algum de fracassar m anifestam ente nas esferas externas da
vida. Esm erava-se, portanto, em obter algum a distinção em seus estudos e, dia
após dia, prestava serviços aparentem ente im pecáveis ao seu patrão, o sr. K...
Por seu dia de trabalho, indenizava-se ele m esm o com noites de diversão
ruidosa e grosseira; e quando esse equilíbrio era alcançado, o órgão que
cham ava de sua consciência se dava por satisfeito.
A provisão de cadáveres era um a inquietação constante para ele, bem
com o para seu patrão. Naquela turm a num erosa e ativa, a m atéria-prim a dos
anatom istas estava sem pre acabando; e o negócio que assim se tornava
necessário era não só desagradável em si m esm o com o expunha a perigosas
conseqüências todos os envolvidos. A política do sr. K... era a de não fazer
nenhum a pergunta em suas transações com os fornecedores. "Eles trazem o
corpo e nós pagam os o preço", costum ava dizer, alongando-se na aliteração — quid pro quo. E frisava, de m aneira um tanto profana, para seus
assistentes: "Não façam perguntas, em prol da sua própria consciência." Não se cogitava que os cadáveres fossem fornecidos pelo crim e de assassinato. Se
essa idéia lhe tivesse sido m encionada em palavras, o professor teria recuado
com horror, m as a leviandade com que falava sobre assunto tão grave era, em
si m esm a, um a ofensa às boas m aneiras e um a tentação para os hom ens com
quem lidava. Fettes, por exem plo, observara freqüentem ente para si m esm o o
singular frescor dos corpos. Muitas vezes im pressionara-se com a aparência
envergonhada, abom inável, dos bandidos que o acordavam antes do alvorecer;
e j untando claram ente um a coisa a outra, com seus botões, talvez atribuísse
um sentido dem asiado im oral e categórico aos conselhos negligentes do
patrão. Com preendia, em sum a, que seu dever consistia em três coisas:
receber o que lhe era levado, pagar o preço e desviar os olhos de qualquer
indício de crim e.
Num a m anhã de novem bro essa política de silêncio foi subm etida a um a
dura prova. Ele passara a noite acordado com um a dor de dente lancinante,
andando de um lado para outro em seu quarto com o um a fera enj aulada ou
lançando-se em fúria na cam a; caíra por fim naquela m odorra profunda,
desconfortável, que tantas vezes segue um a noite de
dor, quando foi despertado pela terceira ou quarta repetição irritada do sinal com binado. Havia um luar tênue e claro; fazia um frio cortante, ventava e
geava; a cidade ainda não acordara, m as um a agitação indefinível j á
prenunciava a algazarra e a atividade do dia. Os ladrões de túm ulo haviam
chegado m ais tarde que de costum e e pareciam m ais ansiosos para ir em bora que de costum e. Fettes, zonzo de sono, ilum inou a escada para que subissem .
Ouviu os resm ungos de suas vozes irlandesas através de um sonho; e,
enquanto eles retiravam o saco de sua triste m ercadoria, recostou o om bro na
parede, dorm itando; teve de se sacudir para ir procurar o dinheiro dos
hom ens. Ao fazê-lo, bateu os olhos na face m orta. Teve um sobressalto; deu
dois passos em direção a ela com a vela erguida.
— Santo Deus! — exclam ou. — É Jane Galbraith! — Os hom ens não
responderam nada, m as se arrastaram para m ais perto da porta.
— Eu a conheço, eu lhes garanto — continuou. — Estava cheia de vida
ontem . É im possível que tenha m orrido; é im possível que vocês tenham
conseguido este corpo com o convém .
— Com certeza, senhor, está com pletam ente enganado — disse um dos
hom ens.
Mas o outro olhou Fettes nos olhos, som briam ente, e pediu o dinheiro
logo.
Era im possível não com preender a am eaça ou exagerar o perigo. O rapaz
sentiu o coração na boca. Gaguej ou um as desculpas, contou a som a e abriu a
porta para seus odiosos visitantes. Mal eles haviam saído, apressou-se em
confirm ar suas dúvidas. Por um a dúzia de sinais inquestionáveis, identificou a m oça com quem fizera um gracej o na véspera. Viu em seu corpo, com horror,
m arcas que podiam por certo indicar violência. Tom ado de pânico, refugiou-
se em seu quarto. Ali refletiu longam ente sobre a descoberta que fizera;
considerou com sobriedade o significado das instruções do sr. K... e o perigo
que correria se interferisse num negócio tão sério; por fim , em opressiva
perplexidade, decidiu esperar o conselho de seu superior im ediato, o
assistente de classe.
Este era Wolfe Macfarlane, um j ovem m édico m uito apreciado entre todos
os estudantes inconseqüentes, um suj eito inteligente, dissipado e
inescrupuloso ao extrem o. Viaj ara e estudara no exterior. Tinha m aneiras
agradáveis e algo petulantes. Era um a autoridade em teatro, hábil sobre o gelo ou no cam po de golfe, com os patins ou o taco; vestia-se com requintada
ousadia e, para dar o toque final a sua glória, tinha um
cabriolé e um vigoroso cavalo trotador. Suas relações com Fettes eram de intim idade; de fato, as posições relativas de am bos requeriam algum a
convivência; e, quando havia escassez de cadáveres, a dupla viaj ava até bem
longe no cabriolé de Macfarlane, visitava e profanava um cem itério isolado e
voltava com seu butim , antes da aurora, para a porta da sala de dissecação.
Naquela m anhã particular. Macfarlane chegou um pouco m ais cedo que de
costum e. Fettes ouviu-o e foi ao encontro dele na escada, contou-lhe sua
história e m ostrou-lhe a causa de seu alarm e. Macfarlane exam inou as m arcas
no corpo.
— De fato — disse, acenando a cabeça — parece suspeito.
— Bem , e que devo fazer? — perguntou Fettes.
— Fazer? — repetiu o outro. — Você quer fazer algum a coisa? Eu diria
que quanto m enos fizer, m elhor.
— Mais alguém poderia reconhecê-la — obj etou Fettes. — Era tão
conhecida quanto o Castle Rock.
— Esperem os que não — disse Macfarlane. — E se alguém a reconhecer...
bem , você não fez nada, e fim de conversa. O fato é que isso está durando
tem po dem ais. Agite a lam a, e vai m eter K... na m ais terrível enrascada; você
m esm o vai se com plicar. E eu tam bém , se isso acontecer. Gostaria de saber
com que cara apareceríam os, ou que diabo teríam os a dizer em nosso favor
em algum banco de testem unhas. A m eu ver, você sabe, só há um a coisa
certa... que, praticam ente falando, todos os nossos cadáveres foram
assassinados.
— Macfarlane! — exclam ou Fettes.
— Ora, ora! — escarneceu o outro. — Com o se você m esm o não tivesse
desconfiado!
— Desconfiar é um a coisa...
— E provar, outra. É verdade, eu sei, e lam ento tanto quanto você que isso
tenha chegado a este ponto — cutucou o corpo com a bengala. — A m elhor
coisa para m im agora é não o reconhecer, e — acrescentou serenam ente —
não reconheço. Se você quiser, que o faça. Não é um a ordem , m as acho que
um hom em do m undo faria com o eu; e posso acrescentar que, a m eu ver, é
isso que K... esperaria de nós. A questão é: por que ele nos escolheu, nós dois, com o seus assistentes? E eu respondo: porque não queria tagarelas.
Esse era, entre todos, o tom ideal para im pressionar a m ente de um rapaz
com o Fettes. Ele concordou em im itar Macfarlane. O corpo da
pobre m oça foi devidam ente dissecado, sem que ninguém notasse algum a coisa ou parecesse reconhecê-la.
Urna tarde, term inado o dia de trabalho. Fettes entrou num a taberna em
voga e encontrou Macfarlane com um estranho. Este era um hom em pequeno,
m uito pálido e m oreno, olhos cor de carvão. O talhe de seus traços fazia um a
prom essa de intelecto e refinam ento que suas m aneiras não cum priam , pois a
um conhecim ento m ais próxim o m ostrava-se grosseiro, vulgar e tolo. Exercia,
contudo, notável controle sobre Macfarlane; dava ordens com o um paxá;
inflam ava-se à m enor discussão ou atraso e com entava rudem ente o
servilism o com que era obedecido. Essa desagradabilíssim a pessoa teve um a
sim patia im ediata por Fettes, cum ulou-o de drinques e hom enageou-o com
confidências inusitadas sobre sua carreira passada. Se a décim a parte do que
confessou fosse verdade, seria um patife da pior espécie; e a vaidade do rapaz ficou lisonj eada pela atenção de um hom em tão experiente.
— Sou um suj eito bem m au — observou o estranho —, m as Macfarlane é
pior... Eu o cham o de Toddy Macfarlane. Toddy, peça mais um copo para seu
amigo. Ou podia ser. T oddy, corra e feche a porta. Toddy m e odeia — ele repetia. — Ah, sim . Toddy, você m e odeia!
— Não m e cham e desse m aldito nom e — rosnava Macfarlane.
— Vej am só! Você j á viu os atiradores de facas? Ele gostaria de fazer
aquilo no m eu corpo inteiro — com entou o estranho.
— Nós m édicos tem os um sistem a m elhor — disse Fettes. — Quando não
gostam os de um am igo m orto, nós o dissecam os.
Macfarlane levantou os olhos subitam ente, com o se a piada o
surpreendesse.
A tarde transcorreu. Gray, pois este era o nom e do estranho, convidou
Fettes para j antar com eles e pediu um banquete tão suntuoso que lançou a
taberna em com oção; quando tudo estava term inado, ordenou a Macfarlane
que pagasse a conta. Era m uito tarde quando se separaram ; o tal Gray estava
absolutam ente bêbado. Macfarlane, a quem a fúria deixara sóbrio, rum inava o
dinheiro que tinha sido forçado a esbanj ar e os desaforos que tinha sido
obrigado a engolir. Fettes, com várias bebidas dançando na cabeça, voltou
para casa com passos sinuosos e a m ente inteiram ente em botada. No dia
seguinte Macfarlane faltou à aula e Fettes riu consigo m esm o, im aginando-o
ainda a acom panhar o intolerável Gray de taberna em taberna. Assim que a
hora da liberdade soou, passou de lugar em lugar em busca dos com panheiros
da noite
anterior. Não os encontrando em parte algum a, voltou cedo para seus aposentos, m eteu-se logo na cam a e dorm iu o sono dos j ustos.
Às quatro horas da m anhã foi acordado pelo bem conhecido sinal. Ao
descer para abrir a porta, ficou pasm o ao dar com Macfarlane e seu cabriolé e, no cabriolé, um daqueles em brulhos horripilantes que lhe eram tão fam iliares.
— Quê? — exclam ou. — Foi sozinho? Com o se arranj ou?
Mas Macfarlane calou-o asperam ente, pedindo que tratasse do seu serviço.
Depois que levaram o corpo para cim a e o depositaram sobre a m esa.
Macfarlane a princípio fez m enção de ir em bora. Depois parou e pareceu
hesitar; em seguida:
— É m elhor você dar um a olhada no rosto — disse, com certo
constrangim ento. — É m elhor — repetiu, enquanto Fettes apenas o fitava,
espantado.
— Mas onde e com o você o conseguiu? — insistiu o outro.
— Olhe o rosto — foi a única resposta.
Fettes estava atordoado; estranhas dúvidas o assaltavam . Seus olhos iam e
voltavam entre o j ovem m édico e o corpo. Por fim , num im pulso, fez o que
ele lhe pedia. Havia quase esperado a visão com que topou, m as apesar disso
o choque foi cruel. Ver, fixado na rigidez da m orte e nu sobre aquele leito
grosseiro de aniagem , o hom em que deixara vestido e em panturrado de
com ida e pecado na porta de um a taberna, despertou, m esm o no estouvado
Fettes, alguns dos tenores da consciência. Foi um cras tibi que ecoou em sua alm a, que duas pessoas que conhecera tivessem vindo se deitar naquelas
m esas de gelo. Mas esses foram apenas pensam entos secundários. Sua
prim eira preocupação dizia respeito a Wolfe. Despreparado para tão enorm e
desafio, não sabia com o encarar o com panheiro. Não ousava olhá-lo nos
olhos, e as palavras, até a voz, lhe faltavam .
Foi o próprio Macfarlane que tom ou a iniciativa. Tranqüilo, aproxim ou-se
por trás e pôs a m ão suavem ente, m as com firm eza, no om bro do outro.
— Richardson — disse —, pode ficar com a cabeça.
Richardson era um estudante que estava ansioso havia m uito tem po por
dissecar essa parte do corpo hum ano. Não houve resposta, e o assassino
prosseguiu:
— Falando em negócios, você deve m e pagar; suas contas precisam
conferir, não é?
Fettes encontrou um a voz, o espectro da sua:
— Pagar-lhe! — exclam ou. — Pagar-lhe por isso?
— Ora, isso m esm o, é claro que sim . Sem dúvida algum a e por todas as razões, você deve m e pagar — replicou o outro. — Não m e atrevo a entregá-
lo de graça, você não se atreve a recebê-lo de graça; isso com prom eteria a nós dois. É m ais um caso com o o de Jane Galbraith. Quanto m ais erradas
estiverem as coisas, m ais devem os agir com o se estivessem certas. Onde o
velho K... guarda seu dinheiro?
— Ali — respondeu Fettes, com voz rouca, apontando para um arm ário no
canto.
— Então dê-m e a chave — disse o outro, estendendo calm am ente a m ão.
Depois de um instante de hesitação, a sorte foi lançada. Macfarlane não
pôde reprim ir um espasm o nervoso, a m arca infinitesim al de um im enso
alívio, ao sentir a chave entre os dedos. Abriu o arm ário, tirou a pena, a tinta e o livro que estavam num com partim ento e separou do dinheiro guardado
num a gaveta a som a adequada para a ocasião.
— Agora, vej a bem — disse —, o pagam ento foi feito... a prim eira prova
de sua boa-fé; o prim eiro passo para sua segurança. Agora você tem de
confirm á-lo com um segundo passo. Registre o pagam ento no seu livro, e
depois, no que lhe diz respeito, você pode arrostar o diabo.
Fettes refletiu alguns segundos, em agonia; m as, ponderando seus terrores,
foi o m ais im ediato que triunfou. Qualquer dificuldade futura parecia quase
bem -vinda se pudesse evitar um desentendim ento com Macfarlane naquele
instante. Pousou a vela que estivera carregando todo esse tem po e, com o
pulso firm e, escreveu a data, a natureza e o valor da transação.
— E agora — disse Macfarlane — é m ais do que j usto que você em bolse o
lucro. Já ganhei a m inha parte. Aliás, quando um hom em do m undo tem um pouco de sorte, alguns xelins extras no bolso... Estou envergonhado de falar
disso, m as há um a regra de conduta nesse caso. Nada de festej os, nada de
com prar livros texto caros, de saldar velhas dívidas; não em preste, peça
em prestado.
— Macfarlane — com eçou Fettes, ainda um pouco rouco —, pus m eu
pescoço na corda para lhe fazer um favor.
— Para m e fazer um favor? — exclam ou Wolfe. — Ora, convenham os!
Até onde posso ver, fez exatam ente o que tinha de fazer em defesa própria.
Suponha que eu m e m eta em dificuldades, com o ficaria você? Este segundo
problem inha decorre claram ente do prim eiro. O sr. Gray
e a continuação da srta. Galbraith. Você não pode com eçar e depois parar. Se com eça, tem de continuar com eçando; esta é a verdade. Não há descanso para
os m aus.
Um a horrível sensação de estar perdido nas trevas e traído pelo destino
apossou-se da alm a do infeliz estudante.
— Meu Deus! — exclam ou. — Mas que foi que eu fiz? E quando foi que
com ecei? Tornar-m e assistente de classe... m as que m al havia nisso? Service
queria essa função; Service poderia tê-la obtido. Teria ele chegado onde eu estou agora?
— Mas que m enino você ë, m eu caro! — disse Macfarlane. — Que m al
lhe aconteceu? Que m al pode lhe acontecer se ficar de bico calado? Ora, rapaz, sabe o que é a vida? Estam os divididos em dois bandos... os leões e os
cordeiros. Se você for um cordeiro, acabará deitado sobre estas m esas com o
Gray ou Jane Galbraith; se for um leão, viverá e conduzirá um cavalo com o eu, com o K.... com o todo m undo que tem algum a sagacidade ou coragem .
Você vacilou no início. Mas olhe para K...! Meu caro, você ë inteligente, tem
garra. Eu gosto de você e K... gosta de você. Você nasceu para liderar; e ouça, com m inha experiência na vida, dou-lhe m inha palavra de honra: daqui a três
dias você vai rir de todos esses espantalhos com o um escolar num a farsa.
Com isso Macfarlane despediu-se e partiu do beco em seu cabriolé para se
abrigar antes que chegasse a luz do dia. Fettes foi assim deixado a sós com
seus rem orsos. Viu o deplorável perigo em que estava envolvido. Viu, com
inexprim ível aflição, que não havia lim ite para sua fraqueza, e que, de
concessão em concessão, caíra, de árbitro do destino de Macfarlane, em seu
cúm plice pago e im potente. Daria um m undo para ter um pouco m ais de
coragem naquele m om ento, m as não lhe ocorreu que ainda pudesse ser
coraj oso. O segredo de Jane Galbraith e o m aldito registro no diário lhe
selavam a boca.
As horas escoaram ; a turm a com eçou a chegar; os m em bros do infeliz
Gray foram distribuídos para um e para outro e recebidos sem com entário.
Richardson ficou feliz com a cabeça; e antes que a hora da liberdade soasse.
Fettes estava trêm ulo de alegria ao perceber quanto j á haviam avançado na
direção da segurança.
Durante dois dias ele continuou a observar, com alegria crescente, o
pavoroso processo de disfarce.
No terceiro dia. Macfarlane apareceu. Estivera doente, disse; m as
com pensou o tem po perdido orientando os estudantes com grande
energia. A Richardson, em particular, concedeu auxílios e conselhos dos m ais valiosos, e esse aluno, estim ulado pelo elogio do dem onstrador, ardeu com
am biciosas esperanças e viu a m edalha j á a seu alcance.
Antes que a sem ana term inasse, a profecia de Macfarlane se cum prira.
Fettes sobrevivera a seus terrores e esquecera a própria indignidade. Com eçou
a se envaidecer de sua coragem , e arrum ara a história em sua m ente de tal
m aneira que podia voltar os olhos para aqueles acontecim entos com doentio
orgulho. Pouco via seu cúm plice. Encontravam -se, é claro, nas atividades da
classe; recebiam j untos ordens do sr. K... De vez em quando trocavam um a ou
duas palavras privadam ente, e Macfarlane m ostrava-se do com eço ao fim
particularm ente afável e j ovial. Estava claro, porém , que evitava qualquer
referência a seu segredo com um ; e m esm o quando Fettes lhe cochichava que
havia tom ado o lado dos leões e abj urado os cordeiros, apenas o m andava
calar com um sinal e um sorriso.
Por fim surgiu um a ocasião que voltou a pôr a dupla num a união m ais
estreita. O sr. K... estava de novo com falta de cadáveres; os alunos,
im pacientes, e era parte das pretensões desse professor m anter-se sem pre bem
abastecido. Ao m esm o tem po, chegaram notícias de um enterro no cem itério
rústico de Glencorse. O tem po pouco m udara o lugar em questão. Ficava
então, com o agora, num a encruzilhada, longe de qualquer m orada hum ana, e
m uito enterrado na folhagem de seis cedros. Os balidos das ovelhas nos
m orros vizinhos, os regatos dos dois lados, um a cantar alto entre seixos, o
outro a gotej ar furtivam ente de poço em poço, o rebuliço do vento em
im ensos castanheiros em flor, e um a vez em sete dias a voz do sino e as antigas cantigas do chefe do coro eram os únicos sons que perturbavam o
silêncio em torno da igrej a rural. O "hom em da ressurreição" — com o o ladrão de cadáveres era cham ado na época — não seria desencoraj ado por
nenhum a das relíquias da piedade costum eira. Era parte de seu ofício profanar
as volutas e as trom betas de velhos túm ulos, as trilhas gastas pelos pés dos
devotos e enlutados, e as oferendas e inscrições de consternada afeição. Para
paragens rústicas, onde o am or ë m ais do que com um ente tenaz, e onde alguns
laços de sangue e am izade unem toda a sociedade de um a paróquia, o ladrão
de cadáveres, longe de ser repelido por respeito natural, era atraído pela
facilidade e segurança do serviço. A corpos que haviam sido depositados na
terra em alegre expectativa de um despertar m uito diferente, sobrevinha
aquela ressurreição apressada, aterrorizada, a golpes de pá
e picareta, à luz de um a lanterna. O caixão era arrom bado, a m ortalha rasgada, e os m iseráveis restos m etidos num saco de aniagem ; por fim , depois de
sacolej ar horas por desvios erm os, eram expostos a indignidades extrem as
perante um a classe de m eninos boquiabertos.
Mais ou m enos com o dois abutres investem sobre um cordeiro agonizante.
Fettes e Macfarlane se lançariam sobre um a sepultura naquele verde e
tranqüilo lugar de repouso. A esposa de um granj eiro, um a m ulher que vivera
sessenta anos e não fora conhecida por coisa algum a senão boa m anteiga e
um a conversa devota, seria arrancada de sua sepultura à m eia-noite e
carregada, m orta e nua, para aquela cidade distante que só visitara com a
roupa de dom ingo; o lugar j unto a sua fam ília ficaria vazio até o dia do j uízo; seus m em bros inocentes, quase veneráveis, seriam expostos à últim a curiosidade do anatom ista.
Os dois partiram no fim de um a tarde, bem abrigados em capas e m unidos
de um a form idável garrafa. Chovia sem rem issão — um a chuva fria, densa,
fustigante. Vez por outra soprava um vento, m as aquelas lâm inas de água a
cair o aquietavam . Apesar da garrafa, foi um a viagem triste e silenciosa até
Penicuik, onde passariam parte da noite. Pararam um a vez, para esconder suas
ferram entas num arbusto denso, perto do cem itério, e m ais um a vez no
Fisher's Try st, para tom ar um drinque diante do fogo da cozinha e variar os
tragos de uísque com um copo de cervej a. Ao chegarem a seu destino, o
cabriolé foi abrigado, o cavalo alim entado e confortado, e os dois j ovens
m édicos sentaram -se num a sala privada para o m elhor j antar e o m elhor vinho
que a casa podia oferecer. As luzes, o fogo, a chuva açoitando a j anela, o
trabalho frio e absurdo que os esperava contribuíram para que m elhor
saboreassem a refeição. A cada copo sua efusividade aum entava. Logo
Macfarlane entregou um m ontinho de m oedas de ouro ao com panheiro.
— Um a cortesia — disse. — Entre am igos esses pequenos acertos não
devem requerer explicação.
Fettes pôs o dinheiro no bolso e aprovou a idéia calorosam ente.
conhecesse.
— Você é um filósofo — exclam ou. — Eu era um tolo até conhecê-lo.
Você e K.... vocês dois vão fazer de m im um hom em .
— Claro que vam os — aplaudiu Macfarlane. — Um hom em ? Ouça, era
preciso ser um hom em para m e apoiar naquela m anhã. Há por aí uns covardes grandalhões, briguentos, de quarenta anos, que teriam ficado nauseados à
vista da m aldita coisa; m as você, não... você m anteve o sangue-frio. Eu bem
notei.
— Ora, e por que não? — gabou-se Fettes. — Não era assunto m eu. De um lado nada havia a ganhar, a não ser transtorno, e do outro eu podia contar
com a sua gratidão, não vê? — E bateu no bolso até as m oedas de ouro
chiarem .
De certo m odo. Macfarlane sentiu um a ponta de alarm e a essas palavras
desagradáveis. Talvez tenha lam entado ter instruído com tanto sucesso seu
j ovem com panheiro, m as não teve tem po de atalhá-lo, porque o outro
continuou a se j actar ruidosam ente:
— O im portante é não ter m edo. Agora, cá entre nós, não quero ir para a
forca... um a questão prática; m as por toda essa lengalenga hipócrita.
Macfarlane, eu nasci com desdém . Inferno. Deus. Dem ônio, certo, errado,
pecado, crim e, e toda essa velha galeria de curiosidades... elas podem assustar m eninos, m as hom ens do m undo, com o você e eu, desprezam -nas. À m em ória
de Gray !
Estava ficando tarde. O cabriolé, segundo a ordem dada, foi levado até a
porta com as duas lanternas rebrilhando, e os rapazes tiveram de pagar sua
conta e pegar a estrada. Anunciaram que iriam para Peebles, e seguiram
naquela direção até deixar as últim as casas da vila para trás; então, apagando as lanternas, voltaram pelo m esm o cam inho e tom aram um a estrada
secundária para Glencorse. Não se ouvia um som senão o de sua passagem e o
troar incessante e estridente da chuva torrencial. Estava escuro com o breu; aqui e ali um a porteira branca ou um a pedra branca num m uro os guiavam por
um curto espaço através da noite; quase todo o tem po, porém , era num ritm o
de cam inhada, e quase às apalpadelas, que avançavam através da escuridão
ressonante rum o a seu solene e isolado destino. Nas m atas que cobriam os
terrenos baixos, na vizinhança do cem itério, o últim o lam pej o lhes faltou;
tiveram de riscar um fósforo e acender um a das lanternas do cabriolé. Assim ,
sob as árvores gotej antes e envoltos por som bras im ensas e m óveis, chegaram
à cena de seus profanos trabalhos.
Eram am bos experientes naquele serviço e hábeis com a pá; m al fazia
vinte m inutos que se aplicavam à tarefa quando foram recom pensados por
um a batida surda na tam pa do caixão. No m esm o instante. Macfarlane
arrem essou im prudentem ente sobre a cabeça um a pedra com que ferira a m ão.
O túm ulo, dentro do qual estavam enfiados agora quase até os om bros, ficava
próxim o da borda do platô do cem itério; para ilum inar seus trabalhos, a
lâm pada do cabriolé havia sido apoiada contra um a árvore, bem na beira da
ribanceira escarpada que descia para o riacho.
A sorte conduziu a pedra com precisão. Ouviu-se um retinir de vidro quebrado; a noite caiu sobre eles; sons alternadam ente surdos e ressonantes
anunciaram o ricochetear da lanterna ribanceira abaixo, colidindo com um a
árvore aqui e ali. Na descida, deslocou um a ou duas pedras, que despencaram
ruidosam ente atrás dela nas profundezas do barranco; em seguida o silêncio,
com o a noite, recobrou seu dom ínio, e, por m ais que apurassem os ouvidos,
nada podiam escutar, exceto a chuva, ora m archando ao ritm o do vento, ora
caindo com insistência sobre m ilhas de cam po aberto.
Estavam tão próxim os do térm ino de seu repugnante serviço que j ulgaram
m ais sensato com pletá-lo no escuro. O caixão foi exum ado e arrom bado; o
corpo, enfiado no saco encharcado e carregado entre um e outro até o
cabriolé; um subiu para m antê-lo no lugar enquanto o outro, segurando o
cavalo pela boca, seguiu às apalpadelas ao longo de m uros e arbustos até
chegar à estrada m ais larga, perto do Fisher's Try st. Ali havia um a radiação
pálida, difusa, que eles saudaram com o a luz do dia; im prim iram um bom
ritm o ao cavalo e lá se foram chocalhando alegrem ente na direção da cidade.
Os dois ficaram m olhados até os ossos durante suas operações, e agora,
enquanto o cabriolé saltava entre os sulcos profundos, a coisa apoiada entre
eles caía ora em cim a de um , ora em cim a de outro. A cada repetição do